sábado, 31 de dezembro de 2011

"ninguém foge da minha raia", diz a menina batendo os pézinhos de pato.
e quando falei em "mas não vamos ter medo",

o que eu quero pra 2012? calma
no descontrole.

ou como m.a. me disse:

"em vê:
olhos que vêem, que somente vêem
olhos que semeiam
(o visto em vida)

é isso índia, no farejo do fruto
vamos
mas que os próprios olhos sejam
frutos
negros
nada adivinhando
vendo porque vivendo"

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

quase vinte e oito

Horizonte de uma seriedade.

Eu querendo sonhar com a história – quanta pretensão, pelo menos quanta pretensão fazê-lo sem sofrimento.

Dois dias depois ele me disse ESTOU DE LUTO e preciso mudar de país.

Dois dias depois dos dois dias depois é Natal.
Aquele choro na vovó. Digo Amém ao telefone.

Dois dias depois dos quatro dias depois dobro a esquina da minha casa que fica de frente para a baía – que eu quis ter – viro a esquina pensando “o corpo este inimigo”.

O horizonte de uma seriedade é que a última vez que eu pensei isto eu mudei de país.
Eu quis ter a minha janela para a baía e tenho.

Sonho que cago nas calças do uniforme e todo mundo vê. Sonho que apanho um comboio e encontro uma pessoa muito chata dos tempos antigos em que usávamos uniformes. Que troco de comboio e ele me leva para o lugar errado.

Tudo fica azul escuro e eu só consigo prestar atenção em como os feixes de músculos no meu corpo me controlam. Escrevo um poema para a minha mãe.

A mulher na casa de fotocópias entra reclamando do filho, que teve horas em parto, vestido de azul o recém-nascido colado ao peito, ela diz em tempos de crise só um filho é muito em tempos de crise um filho é muito em tempos de crise.

Nasceu no inverno.
Um mês antes do que eu, que nasci no verão.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

gente fina, elegante e sincera

a palavra com a qual eu termino o ano é: abdicar.

desde que cheguei aqui Portugal me ensina, em muitos sentidos, a abdicar.
digo isso porque aprendi que há certos ritmos de silêncio entre as pessoas que criam vínculos entre elas. guardar a intimidade muitas vezes é criá-la. digo isso porque abdiquei de muita gente, muitas vezes. do amor. de ter. de gastar. viver com menos. digo isso pra mim mesma, não vou me explicar de novo que Portugal me ensina a abdicar. talvez até dele mesmo, o cabrão.


abdicar
n verbo
 regência múltipla
1    renunciar por vontade própria (a poder soberano ou autoridade suprema)
Ex.:
 transitivo direto, transitivo indireto e pronominal
2    renunciar ou desistir de; privar(-se)
Ex.:


nesta última semana o primeiro ministro daqui disse pros professores migrarem pr'outros países da nossa língua, nomeadamente, angola e brasil.

a manchete do principal jornal na manhã do dia 24 de dezembro deste ano que ainda corre era - quando eu abri a internet pra ver - 75% do subsídio desemprego será cortado no ano que vem.

a galera vai passar fome, já está. não tô de exagero. não.

abdicar.

não precisava ser assim, mundo. não precisava não.

há a memória, amém

vou bebendo chá de tília
enquanto a europa não acaba.

na casa do meu namorado fica rosa.
eu olho bem pra quela cor quase acintosa de prazer e penso: hm proust hmmmm sei sei
sei.
não percebo
porque agora sozinha
aqui é só amarelado.

acho que é o nosso amor.

domingo, 25 de dezembro de 2011

2012

vamos fazer um caminho mais curto em direção ao fim do mundo
desta vez
ou não
vai ser impossível observar os flamingos
que ali, de tão parados
provavelmente são de plástico.

por aqui os chineses andaram comprando as coisas da terra daqui.
que não é chinesa.
nem nunca será.

neste momento considerei a possibilidade de ter acima cometido uma profecia, porém errada.

será caso notável no dia dos olhos de alguém, muito futuros, e tão murchos quanto os nossos, conforme os anos passam, olhando as coisas que mudam e as coisas que não mudam, repararem no delicado equívoco da inocência que todos temos, por estarmos todos em nós procriados o nosso tempo.
e seguiremos ouvindo mercedes sosa.

herberto helder escreveu:

"E sempre assim, sempre: cidades inexplicáveis onde se tem medo. Prados para vacas, não para um poeta di-la-ce-ra-do por uma tormentosa inocência".

a minha tormentosa inocência, no fim de todos os anos sabe que é melhor avantajar o bem dos possíveis, do que os nãos, incabíveis.
 - já tenho idade pra saber que os anos se passarem aos cavalares, alternam em nós as posições de: cavaleiro, corda do poste para amarrar o cavalo, cavalo em si, estrebaria, pista de corrida, feno feno e pasto.

este ano assisti fritzcarraldo, do herzog, com meu pai em são paulo e, vocês sabem, que no fundo meu intento é ser ele.

se você recebeu este meu sinal de mensagem, é porque te amo. assim, fim do ano é aquele momento em que nos deixamos ser vulneráveis e me deixa dizer que te amo, beibe. isto tudo vem bem a propósito. ser mais inteirão. e se eu te amo, é porque eu espero que o ano que vem te seja impossível.

enquanto por aqui seguirei do meu traço, o rastejado.

e conto com vocês para tirarmos todas as botas que nos pisam de cima, pelos lados.

o peito ao acordar: aberto.
quem sabe dar uns gritos, ir ao campo e encontrar resistência na fuligem.
fogueiras. e amores-ímãs,
onde, nos resta saber em que lado é que as peças se encaixam.

para o ano que vem sonho:
corpo de gato, nave de platina.
um mundo menos supérfulo e mais gratuito.
ar aberto
mar floresta
montanha sobre montanha
uma violência cômica.
tudo do seu tamanho.
e alternativas.

sinceramente,

beijos muitos,

júlia.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

dos sonhos eu sou o amor

tcharans

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

rinite sinusite e outras otites

estou densa pela testa
que me avance e meça

quanto frio é para um cavalo enfrentar o frio de dentes
é preciso ter muitas faces
uma primeira arreganhada
ser só tendões: ele me disse: que gostava de ter limites

e quando o vento batia muito forte
sacolejava pelo pescoço
até soltar do nariz

saburra, sem nojo,
meu frio no chão da rua, verniz

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

perigo prático

ele me liga e pede pra que eu veja no google uma coisa que descubro que aconteceu em Himmelpfortgrund.

já terminei a carta pro fedelho. pratico pilates depois de um dia todo na frente do computador e dos livros. amanhã vou copiar um trecho de cada texto e comentá-los. assim começará o meu dia. vou ficando uma pessoa tão prática, um dia as coisas práticas ainda vão tanto me comer que vou escrever a lista de supermercado de amanhã aqui:

*limpa tudo
*carne
*courgete ou gourgete (abobrinha)
*arroz para risoto
*

antes mudei a casa toda de lugar. o varal ainda tá no corredor. minha toalha lambeu o pó quando ele sem querer se dobrou. deixei lá. tudo jogado. no fim de semana ele me mostrou como é que gosta da toalha pendurada. reli tudinho que tinha quê. amanhã tem também o capítulo sobre o futuro. e quando resolvo me deitar levo a era dos extremos - o breve século xx 1914-1991 pro redor da minha cabeceira, pra ler antes de dormir. acho que quando alguém considera leitura prévia do sono a história do século xx - - - algo inominável que eu ia dizer aqui - embora nem sempre ande considerando o sono aquela onda fácil - - não sei onde vai é que vai dar o relaxamento, ô vem cá, meu perigo. atroz,
pensei numa exposição que revelasse todos os negativos
lado a lado cabeça a cabeça os últimos rolos da minha vida
mas daqui uns quatro anos
ou mais ou menos.

pedem de mim definições: é a poesia moderna.

quem me chama de casa sou eu mesma. neste frio alucinatório. 
o amor vai bem, obrigada. ontem assistimos fanny och alexander.
passei o dia todo de hoje vendo o filme nas minhas retinas leitoras. 
ele estava com a pressa de quem está com frio. eu com o trabalho de quem tem prazos.

sou incapaz de tantas coisas. mas desta não sou.

meu sangue latinu-u u uuu.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

cabrum

chucrute inter-estelar
they were trying to contact the brain spirit
deu nisso

agosto de 2008

sou só eu que acordo todo dia como se estivesse crua?
paulinho é incapaz
de fazer susto numa mosca
de roupa azul vai descendo
paulinho quando tem fome
paulinho antes quer dormir

da série: relatos de um dia útil

tirar o som do computador
passar pelas caixas do corpo
entre os fios que se amarram nas pernas da mesa
encontrar a boneca do tamanho de um dedo
que meus pais me deram de um museu californiano
ou chileno - convidaram meu pai para ir a kyoto
mas ele disse que não, que eram muitos papéis
ontem ouvi 4 discos do zeca afonso em seguido
e quando encontrei a boneca por dentro dos fios
a boneca branca que parece que é grega
de tanto que me olha a boneca branca
me acalma, como a música do zeca que tocava
naquela hora que já era hoje
e eu já tinha ido ao supermercado
continuava sentando na cadeira torta
arredia a qualquer espécie de obrigação
mas agora com a boneca de volta
em cima da mesa
eu com a coluna torta
o zeca no último acorde

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

cavalos cavalos entre os nossos reparte

"O sentimento de profundo bem-estar que a árvore sente subir das raízes, o prazer de saber que não se é um ser puramente arbitrário e fortuito, mas que se vem de um passado de que é herdeiro, flor e fruto, e que por este motivo se está justificado do que se é, a isto podemos nós chamar hoje o verdadeiro sentido histórico.

Sem dúvida, não é o estado mais favorável para transformar o passado num puro saber." 

disse o Nietzsche em "Considerações Intempestivas"

você tem/ você tem/ que me dar/ seu coração

aquele que vem antes nunca chegará depois

Ânimo de Poeta.
[Segunda versão]

Pois não são todos os vivos teus irmãos?
Não te alimenta, posta a teu serviço, a própria Parca?
Avança então, sem armas,
Vida fora, e nada receies!

Bendito seja sempre para ti o que acontece!
Abre-te à alegria! Que pode, afinal,
Fazer-te ofensa, coração? Que coisa
Atravessar-se no caminho que é o teu?

Pois desde que o canto se soltou de lábios
Mortais, respirando paz, e a nossa melodia,
Bálsamo na dor e na fortuna, alegrou
O coração dos homens, também nós,

Bardos do povo, nos sentimentos bem entre os vivos,
Onde muitas coisas convivem, alegres e a todos dadas,
Abertas a todos; assim é
Nosso antiquíssimo pai, o deus Sol,

Que a pobres e ricos concede o dia alegre,
Que no tempo fugaz a nós, efémeros,
Erectos nos mantém em andadeiras
De ouro, como crianças.

A ele espera-o, acolhe-o também, quando a hora
Vem, a sua maré purpúrea. Olha como declina
A nobre luminária, ciente de que tudo passa,
Descendo, imperturbável, pelo caminho!

Assim passe também, quando o tempo chegar
E ao espírito no mundo inteira justiça for feita,
A nossa alegria! Assim ela possa um dia morrer
Na plenitude da vida, e de uma morte bela!


[Friedrich Hölderlin em tradução de João Barrento]

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

a poeta então sobe
dez metros
cintila e EXPLODE.

um blogue serve

início de fim de ciclo. às vezes fecho os olhos e acho que é para sempre. é que estou escrevendo e escrever não inibe as pausas, antes, usa-as. fico fazendo um cinturão de dança ao redor de tudo. e estou triste por ser fim do mês e ainda não ter dinheiro pra comprar um caderno novo. aqui não posso contar aquelas coisinhas que se abrissem meus diários saltavam. sei que é ali que estão nascendo todos os caranguejos do mundo, aqueles que vão arrancar os olhos das coincidências e interpretá-las. que não seja como barro de mangue, 

fico pensando em um jeito do fim não ser sempre uma hecatombe, mas também as coisas precisam de pontos finais. e depois deles só se começa depois (estou falando de março, digo só pra que eu saiba ao reler).

é que eu processo quedas como saídas,
e saídas como entradas - estou longe e perto - viajo, te verso
e tem vezes que sou incapaz de reler antes de postar.

domingo, 4 de dezembro de 2011

um dia a gente chega

o que tem me impressionado neste amor é a capacidade dele de ser do mundo/ não meu, nem dele, nem de ninguém. meu amor, o amor é do mundo.

isto vejo nos teus olhos.
o amor não deixa desvios vingarem.
e, muitas vezes, o amor é a pura prática de desvios.

o amor quando a gente olha nos olhos e não é miragem
crocodilagem.

jagunçagem

saturno
conjunto a marte-plutão
sextil júpiter-netuno-mercúrio
oposto à lua
amigão

they're waiting



sábado, 3 de dezembro de 2011

vapor quando a jaguatirica abre a boca é de manhã

do limbo despertaram seis ameijôas amestradas faliram com a mariscada da praia de copacabana quando o tataravô português que certamente devo ter tido matou o primeiro índio. a morte é uma sorte dos meus ancestrais, eu ainda não a tive. não sei avisar a órbita dos planetas para que parem. noite dessas pari um acaso danado, depois percebi que era só a rua me deixando passar.

maria minha recente maria recebe um beijo.

acidente de estrelas inibe colisão entre duas árvores que se beijavam

um acidente de estrelas nessa manhã foi um acontecimento invejável em pleno espaço público. a galáxia já disse que vai tomar providências. ativistas de júpiter decidiram pela proliferação de novos cometas. na terra, as plantas ainda crescem.
tava passando
fui atropelada
daí renasci
suntuoso luxo
investido - sabe
investido sabe onde?
numa carne, o coração
aperta
parece que enfarta
a garganta
avião da voz
viaja como uma pele
pede resgate
não se encolhe
assim quando
tu te vens
caldo do céu
solidão que nada

ai força da viagem viu

não sei o que é que está nos acontecendo - mas é muito bonito.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

de um, muitos, "não sei", vamos juntos

O discurso de Wislawa Szymborska na Academia Sueca foi traduzido do inglês por Rubens Figueiredo.

"Dizem que a primeira frase de um discurso é sempre a mais difícil. Bem, ela já ficou para trás. Mas tenho a sensação de que as frases ainda por vir - a terceira, a sexta, a décima e assim por diante, até a última linha - serão igualmente difíceis, pois tenho de falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto - quase nada, de fato. E sempre que falei me veio a furtiva suspeita de que não sou muito boa nisso. Portanto, minha palestra será bem curta. A imperfeição é mais fácil de tolerar em doses pequenas.

Os poetas contemporâneos são céticos e desconfiados até, ou talvez sobretudo, de si mesmos. Só com relutância confessam publicamente ser poetas, como se tivessem um pouco de vergonha. Mas em nossos tempos estrepitosos é mais fácil reconhecer nossos erros, ao menos se estiverem atraentemente embalados, do que reconhecer os próprios méritos, pois estes se mantêm ocultos mais no fundo, e nós mesmos nunca acreditamos muito neles... Quando preenchem fichas ou batem papo com estranhos - ou seja, quando não podem deixar de revelar sua profissão -, os poetas preferem usar o termo genérico "escritor" ou substituir "poeta" pelo nome de qualquer outro trabalho que façam, além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um toque de incredulidade e alarme quando descobrem que estão tratando com um poeta. Creio que os filósofos enfrentam reação semelhante. Contudo, estão numa posição melhor, pois na maioria das vezes podem ornamentar seu ofício com algum tipo de título universitário. Professor Doutor de Filosofia: isso sim soa muito mais respeitável.

Mas não existem professores de poesia. Afinal de contas, isso significaria que a poesia é uma ocupação que requer um estudo especializado, exames regulares, ensaios teóricos com bibliografia e notas de rodapé anexadas e, por fim, diplomas conferidos com pompa. E significaria, em troca, que não basta encher páginas de poemas, mesmo os mais primorosos do mundo, para tornar-se um poeta. O fator decisivo seria um pedaço de papel que traz um selo oficial. Lembremos que o orgulho da poesia russa, o futuro ganhador do Prêmio Nobel Joseph Brodsky, foi certa vez condenado ao exílio em seu próprio país justamente com base nessa idéia. Chamaram-no de "parasita" porque não possuía o certificado oficial que lhe assegurava o direito de ser poeta.

Há muitos anos, tive a honra e o prazer de encontrar com Brodsky. Notei que, de todos os poetas que eu conhecia, ele era o único que gostava de se chamar de poeta. Pronunciava a palavra sem inibição. Ao contrário: ele a falava com uma liberdade desafiadora. Isso devia ocorrer, é o que me parece, por causa da lembrança das humilhações que sofreu na juventude.

Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco, ou quase nada, para se situarem acima do rebanho geral e da roda-viva do dia-a-dia. No entanto, ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar - em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos - a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta.

Não é por acaso que filmes biográficos sobre cientistas e artistas célebres são produzidos aos montes. Os diretores mais ambiciosos tentam reconstituir de forma convincente o processo criativo que gerou importantes descobertas científicas, ou o surgimento de uma obra-prima. E se pode retratar certos tipos de atividade científica com algum sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, máquinas complicadas em ação: tais cenas podem prender o interesse da platéia durante algum tempo. E aqueles momentos de incerteza - será que a experiência, realizada pela milésima vez com uma ínfima alteração, produzirá por fim o resultado desejado? - podem ser dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, enquanto recriam todos os estágios da evolução de um pintor famoso, desde o primeiro traço a lápis até a pincelada definitiva. A música se expande nos filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que soa nos ouvidos do músico emergem, no fim, como uma obra madura em forma sinfônica. Claro, tudo isso é ingênuo, e não explica o estranho estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos existe algo para se olhar e se ouvir.

Mas os poetas são os piores. Seu trabalho, inapelavelmente, nada tem de fotogênico. Alguém senta a uma mesa ou deita num sofá enquanto olha imóvel para a parede ou para o teto. De quando em quando, essa pessoa escreve sete linhas, só para riscar uma delas quinze minutos depois, em seguida mais uma hora se passa, durante a qual nada acontece... Quem agüentaria assistir a esse tipo de coisa?

Mencionei a inspiração. Poetas contemporâneos respondem de forma evasiva quando lhes perguntam o que é isso, e se existe de verdade. Não é que nunca tenham conhecido a bênção desse impulso interior. Só que não é fácil explicar a uma outra pessoa aquilo que você mesmo não compreende.
 
Quando ocorre de me perguntarem sobre o assunto, também me esquivo. Mas minha resposta é esta: a inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas e artistas. Existe, existiu, existirá sempre certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. É formado por todos aqueles que conscientemente escolheram sua vocação, e fazem seu trabalho com amor e imaginação. Pode incluir médicos, professores, jardineiros - eu poderia fazer uma lista de mais de cem profissões. Seu trabalho se torna uma aventura constante, enquanto forem capazes de continuar a descobrir nele novos desafios. Difi¬culdades e reveses nunca sufocam a sua curiosidade. Um enxame de questões novas emerge de cada problema que eles solucionam. Seja lá o que for a inspiração, ela nasce de um contínuo "não sei".

Não existem muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para ganhar a vida. Trabalham porque têm de trabalhar. Não escolhem este ou aquele tipo de trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas fizeram a escolha por eles. Trabalho sem amor, trabalho maçante, trabalho cujo mérito consiste no fato de que outros nem isso têm - aí está uma das mais penosas desventuras humanas. E não há sinal de que os séculos vindouros produzirão qualquer melhora em relação a este estado de coisas.

Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna.

Neste ponto, certas dúvidas podem surgir na minha platéia. Toda sorte de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que lutam pelo poder com um punhado de retumbantes palavras-de-ordem também gostam de seu trabalho, e também cumprem suas obrigações com um fervor inventivo. Bem, está certo: mas eles "sabem", e o que quer que saibam é o suficiente para eles, de uma vez por todas. Não querem descobrir mais nada, uma vez que isso pode reduzir a força de seus argumentos. Mas todo conhecimento que não leva a perguntas novas se extingue depressa: não consegue manter a temperatura necessária para a conservação da vida. Em casos extremos, bem conhecidos desde a antiguidade até a história moderna, chega a representar uma ameaça letal à sociedade.

É por isso que dou tanto valor à pequena frase "não sei". É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como as vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo "não sei", as maçãs do seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como uma chuva de granizo - no máximo, teria parado para pegá-las e devorá-las com deleite. Se a minha compatriota Marie-Curie Sklodowska nunca tivesse dito a si mesma "não sei", na certa acabaria lecionando química em alguma faculdade particular para mocinhas de boas famílias, e terminaria seus dias cumprindo esse trabalho, de resto perfeitamente respeitável. Mas ela não parou de dizer "não sei", e essas palavras levaram-na, não só uma vez, mas duas, a Estocolmo, onde espíritos inquietos, indagadores, são de tempos em tempos contemplados com o Prêmio Nobel.

Poetas, se autênticos, também devem repetir "não sei". Todo poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas assim que a frase final cai no papel, o poeta começa a hesitar, a se dar conta de que essa resposta particular era puro artifício, absolutamente inadequada. Portanto, os poetas continuam a tentar e, mais cedo ou mais tarde, os resultados da sua insatisfação consigo mesmos são reunidos, e presos num clipe gigante pelos historiadores da literatura, e passam a ser chamados de suas "obras".

Às vezes, sonho com situações que não podem virar realidade. Imagino, por exemplo, que tenho uma chance de trocar umas palavrinhas com o autor do Eclesiastes, aquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Curvo-me profundamente diante dele, pois é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois seguro a sua mão. "Não há nada de novo sob o sol - foi o que você escreveu. Mas você mesmo nasceu novo sob o sol. E o poema que criou é também novo sob o sol, uma vez que ninguém o havia escrito antes de você. E todos os seus leitores são também novos sob o sol - aqueles que viveram antes de você não puderam ler o seu poema. E esse cipreste sob o qual está sentado não cresceu desde o início dos tempos. Nasceu de um outro cipreste semelhante ao seu, mas não exatamente igual.

E, Eclesiastes, eu também gostaria de lhe perguntar que coisa nova sob o sol está agora em seus planos de trabalho. Um suplemento adicional às idéias que já expressou? Ou talvez esteja agora tentado a contradizer algumas delas? Em sua obra inicial, você fez menção à alegria - de que adianta se é fugaz? Então, será que o seu poema novo sob o sol vai falar da alegria? Já tomou notas, fez rascunhos? Duvido que você responda: 'Já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar'. Não existe no mundo nenhum poeta que possa dizer isso, muito menos um grande poeta como você."

O mundo - o que podemos pensar quando estamos apavorados com a sua amplidão e com a nossa própria impotência, ou quando estamos amargurados com a sua indiferença em relação ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e talvez até das plantas (pois por que estamos tão seguros de que as plantas não sentem dor?); o que podemos pensar sobre as suas vastidões penetradas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos? Simplesmente não sabemos; o que podemos pensar sobre este teatro imensurável para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cujo prazo de validade é risivelmente curto, delimitado como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos sobre este mundo - ele é assombroso.
 
Mas "assombroso" é um epíteto que oculta uma armadilha lógica. Ficamos assombrados, afinal de contas, por coisas que divergem de alguma norma conhecida e universalmente aceita, de um truísmo ao qual nos habituamos. Mas a questão é que não existe esse mundo óbvio. Nosso assombro existe per se e não se baseia numa comparação com outra coisa.

Claro, na fala cotidiana, em que não paramos a todo instante para ponderar cada palavra, todos usamos expressões como "o mundo comum", "vida comum", "o desenrolar comum dos acontecimentos". Mas na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E sobretudo nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo.

Tudo indica que os poetas terão sempre uma tarefa muito árdua à espera." 

via facebook de juliana brina

terça-feira, 29 de novembro de 2011

retorno

(13)

O que eu acho que estou querendo agora é tão delicado.
Não sei com quem falar disso.
O que estou querendo é tão delicado.
O delicado problemático. Sem volta.
Entendi que pra chegar tenho que dar outra, outra volta.
Mas não posso, meu corpo bom, trocar de terra mais uma vez.
Vou cair em todas. 
Insuficientemente permeável à pele das cidades.
Não reconheço nenhum canto desta sala.
Com quem conversar o descanso?
Metade da vida é faxina. A outra metade?
Regresso do pó. E eu querendo algo
agora tão, tão delicado. De passar o vento.
Ou para sentir
só teria que pousar as mãos no pó
até vê-las brancas, espalmadas como um mar
que se instalasse sobre os móveis
mas um rabo de gato
meu dedo na boca
nervoso.
Estou no raio informe.
Se eu traçar uma circunferência estarei no raio do informe.
Do centro dela apita uma luz que ninguém vê.
Por onde, se mexe: é o que a luz diz.
Aqui também, tudo manda mensagens, significa.
Passou um barco que eu achei bonito.
Ele trazia também duas luzes.
Piscavam querendo dizer numa linguagem que não me comunico.
Mas alguém se comunicaria
com as luzes do barco.
Estou procurando um lugar de mim mesma que seja o campo de mim mesma.
Não preventiva.
Cansei de ser o princípio do cuidado descontrolado.
Estou levando uma maçã pra eu comer mais tarde.
Tão tranqüila cidade.
Passo a mão na água.
Quem dera fazer, dos poemas, sinfonia.
Fina de chiados e sintonizações, quem passasse pudesse ouvir
como gruda o ouvido no rádio, a emancipação
do universo feito de palavra, não encontro. Nem saliva,
só aço. Nem tato, olfato. Os olhos mesmo, perfurados.
Estou dizendo que só viverei naquele
que se enfraquece de ternura, pena carne.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Onde bate o compasso da gravidade
não haverá ilha do suficiente.
Onde o mar ganha uma película negra
quando a sutileza chegar ao ponto de ardor do petróleo
é aqui
onde vamos
vir por cima com o helicóptero
que bota fogo no mar.
Quando o vapor atingir o continente
toda manhã será a primeira.

ou a interpretação

até um céu muito azul pode ser um pesadelo.
então eu acordei e o dia estava com um céu muito azul.
a coincidência me assimilou.
comecei a me exercitar e, acho mesmo que foi um lado do corpo do exercício, chorei.
chorei por umas duas horas, sem parar.
vim pela rua, chorando.
agora já não estou mais chorando.  
talvez eu vá ter uma broca e furar os ares.

essa calma que inventei, bem sei

me botavam de volta em um navio pro brasil.
dentro de uma saleta eu jantava comida coreana com meu irmão e minha cunhada.
as madeiras claras estalavam em mim.
eu mandava uma mensagem por celular pro meu namorado/ que não respondia.
na superfície eu pensava que conseguiria voltar pra lisboa.
no fundo eu sabia que demoraria, seria muito difícil. então tudo seria outro/perdido.
então eu estava no banco de trás de um carro e olhava o céu muito azul e pensava
OUTONO
e era o céu do interior do meu país. 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

e a poesia te obriga a lavar o camarim de deus
solidão é algo que nunca me faltou.

mas é bem louco, às vezes o jeito de eu me sustentar ao lado dele é começar a escrever poemas pro vento. é. começo a cantar tudo o que está ao meu redor e é claro que isto organiza a minha relação com as coisas ao redor. tipo sábado de manhã eu vou até a varanda e digo pra mim mesma versos que falam da gaivota no teto do vizinho, o carro lá embaixo passa como um rasgo de papel, dois guardadores de carro que brigam pelas coisas mais deles, agarrados em heroína que são. de tão absurdas. o lixo nos contentores.

é como se o vento atravessasse meus lábios em dizer, eu acho muito bonito. também como é puro desperdício, poemas que eu nunca mais vou me lembrar. ao ponto de ter certeza que eles são a dicção exata, é neles que está, justamente, a grande obra que estou escrevendo. vida, vida. é só isso.

no mais, anoiteceu e a gente ainda estava no topo da montanha. foi muita muita emoção real, adrenalina, escuro! e camaradagem mútua, seguramos completamente os riscos, toureamos a noite sem lua e encontramos a saída, com muita sorte e intuição, também. sorte forte de, por exemplo, muitas pedras dos caminhos serem de calcário, isto é, brancas, reluziam mais do que o barro e nos diziam "por aqui".

foi lindo. na hora que chegamos lá embaixo no vale caímos num bosque de pinheiros, muito mais escuro. mas seguimos em frente, em frente, corujas saltavam dos galhos, e nós andávamos, andávamos. quando saímos do bosque chegamos no vale propriamente dito. dito e vasto, um pasto sobre os nossos pés e a noite de muitas estrelas no céu. foi das coisas mais bonitas que já vi na minha vida.

também porque combinada com a sensação de êxito. o problema real era descer a montanha (e não subi-la!), ali no pasto já era certo que chegaríamos ao carro. ao encontrarmos o asfalto demos nele um beijo, não em nós, não, no asfalto mesmo. "feito o papa".

quando eu disse que pra além de sermos peixes cuja água era o mato, nosso caminho era iniciático, ele se derreteu em ternura.

é meu.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

não nos dão o animal que espeta os cornos no destino

e quando falo, a outra palavra para o medo é respiração. sou capaz de adormecer com ele, embalador. desconheço algo mais real. e chorar sempre faz as crianças dormirem bem. e fico por cima do meu peito e instruo a vontade de inspirar conforme o batimento cardíaco. subir montanha, ou seja, tenha que ficar irrigado, ou tranquilo. então eu olhei para o mar e disse: tua umidade não me impressiona, as cavidades do meu corpo contigo dividem a salina memória do futuro. a começar pelo coração. 
sou incapaz de assustar o caminho de alguém, mas facilmente vou ferir a fera que vive em ti. posso fazê-lo em sonoridade. dentro do meu toráx vivem canivetes que te assaltam, amor que não me dás. ou sou eu que não sei esconder o pensamento que sobra tanto em mim, é um crânio onde bebem as feras o vinho. que, na verdade, já estive a adormecer sem pensar numa carta em que te explico as coisas que me magoam.
e quando voltamos para a cidade, ela é a que nos resta. e de manhã nos despedimos como se eu fosse atravessar. por mim entre tuas mãos entre as minhas para sempre.
o céu, o mato, tu e eu, tudo pra nos dar coragem. veja, estrelas. e sobre nossos pés, o pasto.

vivo feliz em mangueira porque

das coisas que tive, como todos, e ainda tenho, solidão nunca me faltou.
sou capaz de pular três fogueiras e andar pelo mato inteira, sair contigo.
ver as estrelas mais bonitas - que são as nossas, há de se ter sorte, caminho.

meus poemas ao vento andam
mais convictos do que os de serem em papel
esta travessia. a poesia sempre foi meu jeito de estar
tipo meu sobrinho, tão pequeno, já aprendeu que há um lugar só dele
pra se divertir, escrita de lábios é o que não me faltará.

tenho as mãos cortadas pelo mato e posso dizê-lo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

como eu faço pra ter aquilo que já tenho?
se é gratuito, amor.

ter uma língua, abrir-se.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011



 












quando eu canto
que se cuide
quem não for meu irmão

meu avô era um ser da floresta-que-sabia-dizer-sim

ando com uma autoconfiança tão generosa que sonhei que me davam 25.000 euros por um livro que ainda não escrevi.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

eu te anuncio nos sinos das catedrais

e conversar contigo é o conhecimento do que é a clareza
serpentes e dragões amansadas sem aflições. confesso
muitas vezes falamos do tédio, mas sempre mal do medo
e daqueles que se poupam sem errar, nem amar.

não é questão de vertigem. é, mais uma vez, de oceano.
agora no meu peito, o mar que é um peito
aberto sobre o espaço fico
tão presente que precisamos
escapar um pouco que seja
respiração que faz - beijar.
XII

Temendo deste agosto o fogo e o vento
Caminho junto às cercas, cuidadosa
Na tarde de queimadas, tarde cega.
Há um velho mourão enegrecido de queimadas antigas.
E ali reencontro o louco:
-Temendo os teus limites, Samsara esvaecida?
Por que não deixas o fogo onividente
Lamber o corpo e a escrita? E por que não arder
Casando o Onisciente à tua vida?

[Hilda Hilst]

e eu sempre lia o primeiro verso, faz anos como "Temendo desDe agosto". e agora copiar disse-me outro.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

somewhere over the rainbow

sinto sono. hoje troquei de conta. alucinei no caderno embaixo do ar condicionado. escapei de três frechas de sol. quatro moicanos no meu peito. fiz um moicano no cabelo da minha sobrinha de dois meses ela babava e me dizia com os olhos: o segredo do universo, titia, é que somos todos umas larvas que babam. é tão impressionante, não nascemos arbustos. no entanto temos caracóis, HÁ CARACÓIS. quando a próxima primavera voltar, mas agora eu estou rumo ao outono. e com a minha capa de super-herói nas costas, que na verdade é a minha manta de beber chá, ando vendo meu reflexo pelas paredes das rochas de encostas das estradas. quando é lua, olho para ela e penso "tão antiga, a lua. és tão antiga". e quando olho duas vezes logo exclamo
meu pai é um anjo
o corvo que atravessa pelo átrio a igreja
e dou risada do verme que vive em todos nós. e racha as portas com seus dedos.
no mais, viro bicho. que são uns bicho mais mato que o mato.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

verdade

sonhei que meu peito era o mar azul
onde meu sobrinho, o Leon, colocava barcos de papel brancos
a navegar.

domingo, 30 de outubro de 2011

a linha rosa

dia de finados termina meu compromisso 
aquela mesa quadrada em que bolamos
saturno e eu - como num jogo de xadrez- 
como me fazer parar. um pouco antes de começar sou capaz de inventar pausas
que adiam um beijo, 
a massa de carne presa no prato pelo molho de tomate,

mas nunca é só uma pia de pratos
e ontem percebi que era possível trocar a palavra
"espécie" por "vida". quando noto uma coisa assim
tão fundamental, é um ponto pra baixo que escorre 
e arma um travessão: imagino um bastão de ferro
correndo uma corrosão, mancha firme que avança
sem nunca tocar na menina que está debaixo da mesa
assistindo tudo, em dúvida se está triste ou acuada
a menina não sou eu. é só alguém que eu vejo,
de roxo. lembro de quando eu era pequena e me sentava embaixo da mesa que era a máquina astral de viagem. era sempre pra saturno que eu ia. e mesmo agora, ele ainda me visita pela lateral. eu que abria portas de metal dos anos 80 para saturno, eu que colava chicletes roxos nos parafusos e hoje digo para os amigos "que vida mais profunda a da sua descoberta". ele chegará para mim, mais tarde.

de quanta delicadeza essa mulher é capaz?

caetano bobinho

She has given her soul to the devil but the devil gave his soul to God

deveria ser

She has given her soul to the devil but the devil gave *her* soul to God

versinhos ligeiros

pela janela do banheiro
o chuveiro ligado
não sei se chovia
fora ou dentro
mas o mundo todo
era meu apartamento


AGORA UM POEMA PARA O MEU PAI
para o meu pai

a poeta subiu o monte
olhou para os lados
e se viu rodeada
por capins.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

vou até eles para que me digam o século
volto de olhos ardentes - são uma roda, sou uma frente.

sábado, 22 de outubro de 2011


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

gosto cada vez mais
tanta
fragmentação. se o destino é dispêndio, deflagração
como as coisas todas não se soltam umas das outras? e viajam, nulas, por aí?

se toda vez que eu me perco o sangue
envia de mim para outros restos
e o meu rosto por mais nítido alguém veja
se move na dimensão do teu esquecimento?

ou o motivo é sempre diverso do que concebo
e todo sentido é no futuro catacumba
como não perder a voz no teu silêncio.
ou não ligar. e te deixar dormir
do meu lado sempre e depois?



e se me odeiam, que que eu vou fazer?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

hoje acordei bem cedo e não me deixei acordar
resolvi deitar mais um pouco, e menos frouxo, o sono ficar
depois li camões, e tenho a impressão de que nenhuma poesia me toca
(hoje, também ontem, antes de ontem)
engraçado. porque o clima das árvores já começo a sentir, o vento
em mim, sem ser comigo
deixo ele ser estar, teu coração também, quando quiser se aproximar
é o meu

amor

vou citar Luís:

Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mla, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e doi não sei porquê.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

em algum lugar do céu estou composta

- e me comovem as canções de falam de suicídio. afinal, elas são capazes, no recesso do ato, no seu fazer, no seu ouvir, capazes de na sua negação do ato, cometerem o ouvir do caminho

e essa brisa que nos faz
promessas frescas de viagem

meu corpo se expande tanto que há uma gotícula de dor em cada extremo
se sou um fluxo de músculos e órgãos sensóreos
quando o computador fica tanto tempo comigo
creio que posso dizer
mamãe, sou um nervo aberto
e imagino um dente todo gritante
disparatado

não houve mordida que não pudesse ser amarrada com prejuízo da mandíbula
às vezes me pergunto se viver é uma questão de poupar ou de gastar
e se há armadilha, saída,
ou se é tudo vertigem, olho no olho, imensidão

vejo assim




e alguém, não se sabe bem de onde, talvez alguém sem pátria
dizia: e a ti? te interessa? te interessa viver?

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

don Octavio

Para los antiguos, el prestigio del pasado era el de la edad de oro, el edén nativo que un día abandonamos; para los modernos, el futuro fue el lugar de elección, la tierra prometida. (...) Creo que la nueva estrella -esa que aún no despunta em el horizonte histórico pero que se anuncia ya de muchas maneras indirectas - será del ahora. Los hombres tendrán muy pronto que edificar una Moral, una Política, una Erótica y una Poética del tiempo presente. El camino hacia el presente pasa por el cuerpo pero no debe ni puede confundirse con ele hedonismo mecánico y promiscuo de las sociedades modernas de Occidente. El presente es el fruto en el que la vida y la muerta se funden. 
(...)
Alguna vez llamé a la poesía de este tiempo que comienza: arte de la convergencia. Así la opuse a la tradicion de la ruptura: "Los poetas de la edad moderna buscaron el principio del cambio; los poetas de la edad que comienza buscamos ese principio invariante que es el fundamento de los cambios. Nos preguntamos si no hay algo de común entre la Odisea y À la recherche du temps perdu. La estética del cambio acentuó el carácter histórico del poema; ahora nos perguntamos, ¿no hay un punto en el que el principio del cambio se confunde con el de la permanencia?... La poesía que comienza en este fin de siglo - no comienza realmente ni tampoco vuelve al punto de partida: es un perpetuo recomienzo y un continuo regreso. La poesía que comienza ahora, sin comenzar, busca la interseción de los tiempos, el punto de convergencia. Dice que entre el pasado abigarrado y el futuro deshabitado, la poesía es el presente". Escribí estas frases hace quince años. Hoy añadiría: el presente se manifiesta en la presencia y la presencia es la reconciliación de los tres tiempos. Poesía de la reconciliación: la imaginación encarnada en un ahora sin fechas.
México, a 12 de agosto de 1986.
Octavio Paz, "Poesía y modernidad", In: La otra voz: Poesía y fin de siglo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

qualquer

sonhei que um grande catavento desses eólicos de criar energia com o girar do seu deslocamento cortava os galhos dos pinheiros em redor. eu via de dentro de uma casa, por uma grande janela de vidro.

havia algo de mais errado no gesto, e por dentro da casa alguém fazia sexo.

domingo, 9 de outubro de 2011

perdi o medo da chuva

hoje aqui chove sutilmente. e eu penso em ir à livraria. comprar uma revista com meu nome dentro. é curiosa a força que as coisas têm quando acontecem: parecem aparição visualizada pelos poros, isto é: realidade. portos atracando. potros ancorando nas hastes do lado do grande rio. 
me parece que li tanto ana neste último mês que estou precisando de um banho completo de ervas com sal, limão, virgem verso, vertigem. viva! o que em nós vigia saída. 
quero escrever um grande beijo para o meu namorado (viver), mas tenho aprendido com o tempo que amar é tempo. uma história bonita como outra qualquer. silêncio.
é um típico domingo paulistano, chove. são tantas as pessoas na cidade que eu não sei bem por onde começar. ou quando não sei se o que me atualiza melhor (é sempre uma necessidade da pureza, a atualização - ou que nos próximos 6 meses investir numa fábula com margens composta entre 80 e 120 páginas? -) é a solidão ou a companhia, estudo ou escrita.

sábado, 8 de outubro de 2011

meu amor

I knew I was in danger. let me love your books, again. my old dark blue book over my jeans. someone stole my jeans. I was in L.A. and it was time to give. you were there to wish a star. don't worry. há tantos modos de se tirar um 3/4. e mostro um  mesmo par de fotos como quem viu e encontrou. sempre o gigantismo do atlântico consolida-se nos meus gestos. fico sentindo a salsugem da poeira da estrada

a poeira da estrada que faz da salsugem seu souvenir
ashes for ashes, clothes for boys, devia ser hora de dormir, mas eu precisava escrever.
comprei um caderno com pauta. não usarei. infringi uma regra de ouro do meu conhecimento
pautas
achei engraçado, vir para o brasil com pautas.
2a feira já levo meu sobrinho no cinema. é a pauta mais importante, a da infância. vivê-la por todos os lados. imagino que você concorda com isto. e como não pude escrever no meu caderno porque ele agora tem pautas, vim falar alguma coisa por aqui

o que é sempre um perigo, porque me faz dizer menos, ou com menos palavras, ou com menos nomes, ou com os acontecimentos transformados em escrita mais distanciada ainda da vivência do que de uma tentativa de relato,

este blogue está se fazendo entre a experiência e a experiência da experiência. numa gaiola perto (sempre de portas abertas, a escrita). eu que descobri que escrever e ler não são a mesma coisa, não adianta. não adianta. 

agora digredi pensando
pensando que talvez a experiência da idade média, de uma cópia de manuscrito, como fala o zumthor
(então pensei umas quatro coisas que não tenho vontade de explicar, até mesmo porque teria que defini-las)
e comecei a escrever:

me joga para o presente.
me joga para o presente.
me joga para o presente.
me joga para o presente.

rapadura é doce mas não é mole

"Inscrever um texto, qualquer que seja, comporta duas operações: recolhê-lo sobre tabuinhas de cera (às vezes resumido, quando não em notas tironianas, taquigrafia de origem antiga); em seguida, passá-lo a limpo sobre o pergaminho. De vários letrados do século XII, como os teólogos Cîteaux ou Pedro, o Venerável, sabemos que compunham de memória suas obras e as ditavam a um secretário, o autor retomava e corrigia esse rascunho. Também ocorria fazer sozinho o primeiro trabalho e inscrever diretamente, pronunciando-o em voz alta, o texto sobre as tabuinhas. À mesma época, é provável que os escritores de língua vulgar, como por exemplo nossos primeiros romancistas, tenham usado esses procedimentos. Uma pintura do chansonnier N (da Pierpont Library, em Nova York), executada em meados do século XIV, representa um trovador anotando (com evidente dificuldade) sua canção sobre uma longa folha solta. Tais procedimentos, aliás, explicam a extrema raridade dos manuscritos autógrafos: nenhum em latim antes do século XI, nem em francês antes de meados do século XIV. O vocabulário que designa a operação de escrever provém, em vernáculo, diretamente do latim, o que parece mesmo implicar a identidade dos métodos: dictare, dictitare (até mesmo legere) de um lado, scribere de outro lado. Dictare refere-se ao que se percebe como a origem do texto; daí o substantivo dictamen,  designando a arte da composição; daí a metáfora do Deus Dictator, enunciador de sua Criação; daí o francês dictier, remetendo à obra poética acabada, e o alemão Dichtung, "poesia". Scribere exige um esforço muscular considerável: dos dedos, do punho, da vista, das costas; o corpo inteiro participa, até a língua, pois tudo parece pronunciar-se. No inverno, o frio imobiliza os dedos, e pode-se temer o congelamento da tinta. Orderic Vital prefere esperar a primavera para recopiar as tabuinhas apressadamente rabiscadas em dezembro. Escrever exige infinita paciência: o trabalho de cópia se estende por meses, por um, dois anos. Depois de ter traçado a última linha, muitas vezes o escriba dá largas a seu alívio e sua alegria: compara-se ao marinho que enfim volta ao porto; ou então exige vinho, uma jovem virgem, até uma "gorda puta"! Wattenbach, antigamente, coligiu tais confidências, às vezes rabiscadas nas margens. Ainda por volta de 1400, em todo o Ocidente, a prática da escritura continuava, apesar de algumas inovações (como o uso do papel), escrava de sua tecnicidade e de seu elitismo; era só debilmente capaz de influenciar de maneira direta o comportamento ou o pensamento dos poetas, e influenciava menos ainda a expectativa de seu público."

[Paul Zumthor, A letra e a voz: A "literatura" medieval, p.100-101].

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

gate 11

nem tanto ao mar nem tanto à terra
agora tanto na vinda como na volta
monstro atlântico, alegre
ai que minha simplicidade é uma multidão
lagriminhas no raio-x.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

o incompossível se fazendo ordem

terça-feira, 27 de setembro de 2011

aviso

já notei que não é um terremoto, mas estarão testando bombas do outro lado da margem do rio? ou vão demolindo um edifício? serão turistas ensaiando, finalmente, o ataque? - porém pior do que as lufadas de fumaça que invadem esta janela é mesmo a sanfona tocando os mesmos três acordes para moedas raras de turistas muitos e na qual éramos capazes de testar bombas ou edifícios por cima,

- ou é sempre melhor não testar meu senso de destruição - .

estiolamento

n substantivo masculino
1 Rubrica: botânica.
desenvolvimento anormal dos vegetais causado pela ausência de luz, ger. caracterizado pelo descoramento e definhamento dos tecidos; ensoamento
2 Rubrica: fitopatologia.
designação comum a diversas doenças das plantas, causadas pela falta de luz e/ou excesso de umidade, que favorece a proliferação de fungos
3 Rubrica: fisiologia.
debilitação e descoramento sofridos por um indivíduo desprovido de luz e ar puro suficientes
4 Derivação: por extensão de sentido, sentido figurado.
fraqueza, definhamento

hoje eu estou tralala

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

não sei o que quer dizer estiolar mas vou descobrir de tanto ler

"O coração já não pode mais. Entre os bichos e as plantas, acontece-lhe dizer: Que fertilidade!- e a vida corrompe-se nos próprios fundamentos. Sente-se como um apóstolo sem fé. Desejaria morrer, arder no fogo apocalíptico das cidades. Ou ser devorado pela inteligência, estiolar de excessiva lucidez no meio da loucura campestre. Tradição, compreende uma: ama-a. Perdeu o nome, essa sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo sútil que participa de uma e outra, que se tornou inútil, insensato."

[Herberto Helder, em algum lugar d'Os passos em volta.]

já citei este trecho em todos os blogues que tenho/tive/terei.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

eu que estou aqui há tanto tempo
desperto do sofá quando vejo passar no tejo
depois de muito -segundos- olhar o teto
navio cargueiro amarelo
onde está escrito
republica del brasile
como esto, si, tipo bananeré embananado
meu brasil violeiro no caminho da descida
do princípe real, que vai dar na minha vida
(lá decidi ficar de vez numa tarde de setembro
três anos atrás)
descubro uma saída
porque percebo que o brasil mora onde reside
minha vida, o brasil, meu bem, é meu coração
que então atravessa o tejo dizendo em italiano
republica, brasile, como se comessem
meu riso como massa, pesto, fusile
sim, vazio do intermezzo
não fuzile meu coração
que nele está pronto
está a postos está vidrado
o brasil, por antecipação.


este medo não é saliva, instinto, é simbolização.
e se a simbolização for uma instituição?
picote a linha abaixo os créditos.
aqui a luz já se inclinou. 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

hoje há uma amizade que sobe do fundo da galeria, deusa
desfaz a geleira de coração
embrigado - o contrário do afogamento.

eu quero controlar os teus laços. a tranquilidade dos meus sonhos noturnos
tranquiliza meus passos de caminho, largo. às vezes me sinto um elefante
mas é em mim mesma. tudo que é possível. é em mim mesma.

ainda bem que ela retorna, lenta. ainda bem.

hoje estou nítida como se errasse em tudo. precisando de silêncio, produção.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

como dizem os amigos, estou engajada

sonhei com ele

acho que foi a primeira vez que sonhei com ele.
ele vinha aqui em casa e me dizia assim
"acho que esta mesa cabe mais pra lá,"
empurrava, criava tanto espaço
e uma luz muito branca abria sobre o quarto
que virava uma sala de estar.

sábado, 17 de setembro de 2011

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

meu verso é minha declaração

vertigem viva a raiz vigia eu que já não tenho como dizer sem nós nos dedos
ana cristina
me ensina a nascer,

de novo, dançar de amor, até sem ti, menina errada
errante do riso
teu risco maior
foi discernir, diferir
embriagar a alteridade
tanto que definir
azul tantas vezes te aparece
azul
mulher
transporte
coisas que nos combinam - embora - cada vez mais - eu goste
de branco e vermelho
de homem

ana menina minha
toma a minha boca pelos dedos
fazia tempo que não fazias dessas
e eu, toda latifúndio do meu campo,
se temo, travo no bolso o trevo que tenho
mastigo entre os dentes
me digo: caminha, anda
anda com ana entre os dedos
toda tua ausência, me fertiliza
que o importante é não abaixar a cabeça
nem erguer demais
os gritos por dentro

nem são indiferentes erros e acertos
talvez a agudeza de tudo. talvez a agulhada de tudo.
ou dans mon île girando num frasco tão comum
a nossa resposta passa variada
e agarro quanto posso a varanda.
eu também, bem, tenho escrito.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

a plataforma desta estação

eu chegava a uma cidade final, de fronteira, numa linha de comboio portuguesa, era fim de tarde, e tinha passado os dias mais lindos em viagem, acho que só. um menino estava sentado na cadeira da estação, eu ia conversar com ele, conversavamos, eu ia até a bilheteira comprar minha passagem de volta para Lisboa, e indicava pra ele novos caminhos de férias, mas ele só se interessava por dormir ali, em cima de uns caixotes de papelão, talvez, e eu pensava nas praias que ele não via, e o abraçava e ele não dava muita bola, tinham vários trens saindo em sequencia de horário quando eu notava era aquele, na plataforma meu comboio estava saindo, eu apertava o botão das portas pra que abrissem (tipo metrô de paris) e elas abriam com o trem já em movimento e eu saltava pra dentro e pedia pra que ele me jogasse a minha mochila que estava com ele, ele jogava, o trem lotado de gente, na disposição de cadeiras parecia a barca que atravessa o tejo, um cacilheiro, eu arranjava um lugar pra sentar e abraçava minha mochila e pensava que não faltava, mas ainda tinha tempo, naquela linha até Lisboa.

quando acordei o primeiro passo que dei pra fora da cama teve dentro do meu corpo o gesto do meu bem.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

ana c

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

amor

a coisa mais inteligente que eu já vi é o amor.

encontro, dispersão

algumas vezes já acordei gritando de madrugada e em todas elas era um grito de liberdade
foram três as vezes na minha vida - mas só me lembro de duas.

sim, sou uma pessoa que encontra liberdade dentro do pânico.
pra sair dele, é certo, é preciso desarmá-lo
todo dia eu vivo uma bomba.
não posso acreditar nem na realidade nem na ficção.
temos que ser radicais no equilíbrio do entre.
por favor, senhor, por aquele lado você vem do jeito que quiser.
e poupará tempo e imaginação, concorde, se perceber que
guidão, manopla, direção
só tem você um pedaço, você.

agora façam um esforço realístico e imaginem alguém que vive atrás da estabilidade por dentro de tudo
alguém que tem ternura pelas coisas que se estabilizam
mas que só se sente viva acordada
e é acordada pelas revelações que tem e produz,
vive deste furacão de encontrar na expansão do abismo asas
as estimas pelos acontecimentos do movimento.
já fez samba, análise, blogues, muitos.
tem por costumes os amigos.
e de pôr o fundo à frente, é um gesto
resquício de superfície, sou do meu tempo.
é isto, júlia, dizer que são todos e cada um do seu tempo.
e elogio aquela elegância que só o tempo tem
de ceifar o que não é.


não admiro furacões.
muito menos furacões mentais.
mas estou revirada de encontros.
e não cogito mais em servir ao medo.
reconheço-o em mim como um animal ferido, o medo.
o medo é aquele que não sabe por onde ir em mim.
está entorpecido de sono e tenta me excitar dizendo
precaução mulher. me diz até que não tenho mais um eixo
onde as coisas cintilam por si.
mas sei que a bomba na mão que eu tenho sou
eu que refaço a programação rítmica do meu coração
e determino a enseada, a encruzilhada, a poesia.
que não são minhas, nem de ninguém.
feito o trovão. ele vem como um cavalo.
ele é o céu.


e quem então teme o excesso tem por destino o excesso
há uma revolução em mim e tudo que acontece me comove
penso o destino como um queijo suíço
pra mim é suficiente escrever
estou muito distante dos navios que queriam me levar
mas tenho os homens no coração,
sem que ninguém caiba aqui comigo
estou contente de estar em portugal,
lembro que uns anos atrás escrevi que as novas pessoas da minha vida tão importantes tinham o mesmo nome
o que faz das coisas que me acontecem agora
não tão novas as coisas que me acontecem agora
e nem o de antes nem pra depois
talvez a juventude de um broto que estoura
o caule forte da tua alegria.
somos tão férteis, meus amigos,
estão estarão todos notando que sou uma massa de dispersão do azul?
é o sangue do meu alazão.





























quem já viu o encontro do rio negro com o solimões
sabe que estou falando de amor. o amor é um pássaro que vem me ver.
escrevo sem parar que é pra amanhã não ter idéias.

vela de barco

intensidade, rumor - recife que arqueja - as minhas estrelas forjam - um sistema solar próprio - onde é possível ligar - pão ao queijo - amor com irmão - reconhecer o dilúvio lento do pó - viver.

um recife que arqueja em mim está tensionado por dentro, de susto. tive uma cãibra tão alta esta noite, que gritei. acordei tão assustada, pedindo pelo bernardo, que não me ouviu. não sei de que medo foi, tem coisas que só a música me limpa, a escrita é também a hidrelétrica da purificação

mais até, muito mais até do que o tempo e a distância.

ou talvez seja um ritmo,

às vezes fico
fico muito parada longe de você. então acho que é um desaparecimento. porque lado a lado somos extensão.

dos animais que conheço intimamente, entre eles superiormente estão os touros, embora saiba de leões, cavalo sou. agora eu vi, agora eu vi a lua. a lua, a minha, a tua.

domingo, 11 de setembro de 2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

estou vivo e escrevo sol




uma espinha dorsal balança na linha do horizonte
segurada por um miúdo
ele a agita feito folha
em cima dela
eu sou o escarvelho
que a água do céu trepida.
hoje é aniversário da carolina
mas amanhã e depois
eu vou também
ria moura ria moura
gargalhe, sua louca.
seja feliz.
pegue uns panos pra lavar/ leia um romance.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

amor

fiquei um mês sem tocar nos meus trabalhos acadêmicos, universitários - depois de seis meses dentro deles sem parar. agora retorno pra ler as anotações, introduções que já fiz. e é curioso, como em todas elas há traços similares, que são espécies de conversações basilares de mim comigo mesma, tentando propor a mim mesma o que eu acredito e no que eu não acredito - matando fantasmas, colhendo flores, planeando o plano, assinando embaixo do nome dos meus professores e mestres, matando os velhos de susto, acalmando os novos sem pressa - mas algum travo na boca da minha incapacidade, ou de estar ainda atrasada dentro de mim mesma, sempre, sempre tirando os outdoors do mal da frente dos meus olhos, e colocando de molho o meu próprio cansaço. sim, creio que é a hora, de voltar a trabalhar.

século

SÉCULO

Meu século, besta minha, quem
te olhará nas pupilas duras,
quem soldará com o próprio sangue
as vértebras de duas centúrias?
O sangue construtor irradia
da garganta das coisas da terra,
no dealbar de um novo dia
só o parasita é que treme.

Todo o ser, no agarrar da vida,
carrega com a espinha do dorso,
e brinca com a coluna, brinca
abrupta e invisível a onda.
Terra nova, século recém-nado,
cartilagem tenra de menino -
como cordeiro, é de novo imolado
o osso do crânio, a testa da vida.

Para ao novo mundo dar princípio,
para arrancar o século dos ferros,
há que atar, com a flauta, os dias
p'leos enodoados cotovelos.
O século é que balança a onda
ao ritmo da humana desdita,
entre as ervas, ao compasso de ouro
do século a víbora respira.

Incham ainda os pâmpanos na vinha
e a vide rebentará de verde,
mas será quebrada tua espinha,
meu século misérrimo e belo!
E com um sorriso sem sentido,
olhas, crue e débil, para trás,
como animal outrora flexível
para as pegadas dos próprios pés.

O sangue construtor ainda jorra
das coisas da terra; em ressacas
de peixe quente vem dar à costa
a tépida cartilagem dos mares.
E da rede alta das aves, da rocha
do céu, húmida e azul,
se verte, se verte a indiferença
sobre a tua ferida mortal.

1922

[Óssip Mandelstam, em tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra]
eu vou dizer uma coisa muito simples
ao abrir a janela dei de cara com EUROPA
o navio com ganas de caribe, ir, ir.


tive também algum sobressalto de calor - e quando percebi que tinha medo, vontade de me preservar pra não perder, então eu me lembrei que sempre que se cai, se cai de um alto. céu que é céu não nos basta.

nunca é possível extrair garantias do futuro. o tempo é a minha matéria o tempo presente os homens presentes. voemos olho-no-olho.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

a gente não se finge nada e do calor da mesma honestidade nasce um musgo
que a gente fica brincando com ele feito fosse ver a reação da cor
mas a gente sempre foi cientista sozinho - eu no meu cavalinho - ele
eu ia dizer ele no tanto que ele quis o amor mas seria injusta porque eu também
foi sempre esse o meu cavalinho dizendo pocotó pocotó
cavalinho caindo da ponte, maior índice de suicídios entre cavalinhos na década
se deu entre esses últimos anos - mas agora

7 de setembro

PORTUGAL

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira que o Infante
D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns eletrochoques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiros dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
como me pude eu apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca


[Jorge Sousa Braga, do "De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu".]

te dou uma tonelada de amor

atravesso aos poucos a correspondência em dia de amor meu quinhão é três vezes 
nossa luz - estou cega - percebo assim- primeiro os objetos todos voam por cima
como se fossem me entregar um presente que já chegou, fico observando
os ovnis que vieram viver dentro dos fios do meu cabelo - são estrelas dos conformes
conforme a prescrição: vinha sem bula: e de repente as palavras tinham sido
as palavras tinham sido raptadas! era isso. junto com os ouvidos. ouvidos levados à sério
esquecidos, tapados, os ouvidos já não entendem uma canção
os ouvidos já não podem com isto porque os ouvidos querem abrir-se sós
para uma língua - para uma língua. - que é o que importa. ter uma língua, abrir-se.
notar no dia seguinte que nenhuma música de amor faz sequer sentido, porque só corpo
é sentido. é sentido é o sentimento.

penso em pegar uma folha em branco e fazer uma lista da abrangência possível de a teus pés
já começo da partida de que é uma primeira vez - que é pra durar pra sempre - ou pra durar pra muitas vezes
tenho essa ansiedade da duração - o melhor mesmo é subir
a serra, a tua perna, meu canto -
murcho só o aprisionamento, ou no meio do medo meus olhos solúveis.

domingo, 4 de setembro de 2011

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

amigos bíblicos

II

Eu a rosa negra da planície de Saron lírio de seis petálas no vale.
Como a rosa
entre os espinhos cardos assim a minha amiga está
entre as filhas.
Como a macieira entre as árvores no bosque o meu amado
é entre os filhos.
Sob a sua sombra desejei e estive e o seu fruto luz doce
na minha garganta.
Trouxe-me para a sua cave assinalou sobre mim o amor
o seu pendão.
Rodeai-me de taças de vidro fundamentos pomos que adoeço
de amor eu.
A sua esquerda sob a minha cabeça a sua direita que
me há de abraçar.

Vos rogo filhas de Jerusalém por gamo e por cervos do campo
que não desperteis
nem fareis desvelar amor na caça antes de que queira.

Voz do meu amado eis é o que vem atravessar os montes saltar
sobre as colinas.
Semelhante o amado a gamo ou a cria de cervo é este aqui está
além do muro
brota entre janelas o que assoma pelas gelosias.             Respondeu
o meu amado
disse-me levanta o teu corpo minha amiga
bela e caminha
porque o inverno foi o exílio a chuva passou caminhou
para além.
Saem da terra os rebentos eis o tempo da poda chegou
hora do cântico.
E a voz da rola nos campos terra nossa peregrina
que se ouve.
Na figueira brotam os figos e a vide o odor ergue-te
a ti mesma
amiga minha formosíssima e vem contio. Minha
pomba brava
nos recantos da escarpa oculta nas espirais descobre
a tua face Rosto
faz ouvir a tua voz e essa tua face
Rosto desejável.
Prendei-me as raposas novas que destroem vinhas nossas
que estão em flor.
O meu amado meu unido e eu para ele o que apascenta
entre as rosas lírios.
Antes de que sopre o dia e fujam as sombras na manhã na tarde
sê semelhante
meu amado a cabra ou a cria de cervo sobre as montanhas
de separação.



[a tradução é de Fiama Hasse Pais Brandão, do Cântico Maior (Atribuído A Salomão).]


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

sai do lugar onde não sei ficar. dei um salto, caí com os dois pés. estive toda a tarde pensando nisso. em pular, saltar, se toda a vida não é sempre perto, rápido demais. às vezes parece que vim viver em portugal pra atrasar 3/4 meu relógio de contar, puxar a marcha lenta vezes cem vezes também. eu coloquei um elástico na cintura, era de noite. então eu vou vou vou vou vou vou. o elástico comigo na barriga puxa puxa puxa puxa puxa. então gente alcança um lugar. quando chega lá minhas coxas não têm mais forma de resistir ou o elástico (mesmo) está ressacado e inconveniente - pra trás, pra trás, pra trás -. haja tanto salto. mais que legume alho picado em frigideira quente.
talvez o espaço
seja uma necessidade de cultivo - aprender a absolvição do sentido, entre hortaliças.
ou ficar tão mole, tão mole, de entregue de presa
você com tua garra de lagosta
a me incidir os pronomes - sem perceber, amor, que só o que se recolhe
no claro, é que alcança a sombra.

ou dizer assim: gosta de mim?
aposto que ele nunca me esqueceu. também você se adianta demais.
você encontrou uma escola, lembra?
estudou em três. isto além do jardim da infância e das duas - já - faculdades.

sempre sei o que vai durar mas o meteoro me enriquece
de fatos, feito um tecido conjuntivo, o acaso. é.
o acaso é feito um tecido conjuntivo.
eu sou os ossos. ele os músculos.
os órgãos? do mundo.

passa lá embaixo uma menina de camiseta de bolinha.
eu penso que enquanto não aparecer eu não paro de escrever aqui.
talvez pudesse até cantar adriana calcanhoto, marina lima.
mas nossa, bom mesmo é cazuza, ou imitar cachorro.

quanto mais vejo os cães, mais admiro os gatos.
as pessoas que se dividem nas que gostam de cães, nas que gostam de rabos.
eu gosto de tudo isto, gosto também de melancia.

às vezes tudo me enche o saco. meus inimigos estão no poder.
estou tão cansada às vezes não sei. vou conseguir? atravessar o areal, a desventura.
chega de desventura, meu deus, eu já paguei a conta do analista.
na verdade era vovó quem pagava. e eu quem vou mudar o mundo?
claro.

peguei umas pedrinhas no caminho, lampejos. depois que eu tiver escrito tudo, não apaga?
por favor, eu venho aqui e escrevo na lousa, no quadro, de giz ou caneta bastão. daí ninguém lê.
depois que ninguém lê ninguém vem aqui e apaga. assim continua a escrita dos dias.

acho importante.

(Que ninguém leia, não, não sei se me preocupo com isso. com os rascunhos. o resto é beleza, beleza tem que ser vista. tem? se uma árvore cai no meio do mato faz um barulho lindo, eu não sou a árvore, ninguém - o do bastão - está lá pra ver. esta árvore existe? - claro que sim. ninguém precisa de ninguém pra ler. mas poesia se escreve de pessoas pras pessoas. - - - embora existissem hipopótamos tão raros.)

será que o fim da tarde em Portugal é outro? não sei explicar.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

vou pular

um encontro marcado num barco. por atravessar
o Tejo.

e ele me entende.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

ai

enquanto eu vou fazendo 
enquanto eu vou fazer
as coisas da casa e um horóscopo antigo - meu mapa natal - diz que coloco força em tudo que desejo, e que talvez (talvez?) seja bom aprender a fazer mais menos logo. antes que seja tarde. me imagino muito velha e irritada porque minhas pernas não andam? mas a ternura do meu corpo por si mesmo, que é um encontro, eu cuidarei bem dele, como dessa casa. detesto sujeira, lembro do meu pai, que diz que detesta sujeira, e sinto tanto prazer, adrenalina (disse ez) pela faxina, fico falando disso muito tempo aqui, acho que falo muito aqui de faxina, de sonho, de amor, de liberdade. tenho pensado em tatuar uma nuvemzinha muito pequena. muito pequena nuvem sobre o pulmão. mas não nos seios, que seria o lugar mais bonito pra uma nuvem, mas é tão bonito que eu não consigo. tem que ser o pulmão pelas costas. tem que alcançar a nuvem do teu pulmão pelas costas. sempre chorei estrelas. o choro vem do pulmão, é o que eu acho. o peito cheio de nuvens. a vida que é uma flâmula que flama. 

quero mostrar-vos a foto de alguém que eu amo


admirável.
depois.
depois me lembro de entrar na barraca e terem 5 aranhas em cima da minha mala. eu matei elas todas, num ímpeto. pensei então que horror, matar a vida assim à toa. procurei o b e disse que eu queria ir embora. não aguentava mais aquela música trance tocando sem parar. pensava a toda hora "ana cristina césar não viu uma rave". pensava toda hora "herberto helder entendeu as montanhas e as raves e o fogo e os tecidos e a cordialidade de um coração e o silêncio e". agora penso será que tudo no herberto helder é esse múltiplo justaposto lado a lado coisa a coisa figura a figura. por que em ambos os dois aconteceram modos de perder a hierarquia? não. nela, sim. nele a oscilação de tom e grandeza, as coisas vão num crescente e nada, de repente. mas as aranhas todas mortas pela minha hierarquia, daí não da limpeza, mas da peçonha, não. então procuro pelo b fora da barraca, na tenda dele e digo se ele iria embora comigo naquele momento? eu já sabia que não iríamos, eu mesma era só angústia, não movência. ele me explicou as dificuldades com muito carinho. eu olhei pra ele e disse que sim, ele tinha razão, e falando das aranhas disse do horror, depois disse da morte, depois disse "mas os bichos não fazem nada" e comecei a chorar e disse "mas os bichos não fazem nada, meu pai sempre me disse isso quando eu digo que tenho medo de algum bicho ele me diz 'mas os bichos não fazem nada' ". ai que choro, ai que angústia pelos bichos que não fazem nada, ai que saudades do meu pai, ai meu ordenado, ai Portugal. e fiquei comendo biscoito de alfarroba e rindo "comes alfarroba, pequena", o b riu também, as aranhas riram na uma alma só que têm, como os peixes. mas não como aranha, não.

volto e minha mãe me pergunta se eu estou apaixonada. ai mamãe ai mamãe não sei dizer mas mamãe que me conhece mais que os estômagos de peixe e as aranhas que entram desavisadas na minha tenda e partem as patas sem vida.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

há mar

"o amor é das poucas coisas que tá aí pra todo mundo" - encosta em mim, logo gruda. tanta capacidade simples, ser cativo de si mesmo como uma salivação. haveria tão mais a dizer. até a mala é uma aposta no verão. e quinze dias são um milhão. meu coração não sabe mais, meu cabelo começou a prender. a incrível arte de escolher livros para o mar. 

minha nova câmera é igual a antiga. sobretudo uma velha praktica.

o b vai comigo. o b é pra sempre. comigo.

e meu mouse tá fazendo som de passarinho quando clica.

portugal é lindo, vou contar. lugar, passagem, estar. comer: hoje comemos milho cozido passado no azeite com flor de sal. portugal is burning nos seus acessórios. vou contar outra coisa: as estrelas estão sempre por aí. nós conseguimos dizer mais um pouco: os planetas a rodar nos signos sem parar. precaução não. nem me venha com nada que seja menos, ou segurar. bem comportada não vai dar em nada. te mando um beijo gostoso. e até já.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

tenho um velho amigo

*

aos vinte ou quarenta os poemas de amor têm uma força directa,
e alguém entre as obscuras hierarquias apodera-se dessa força,
mas aos setenta e sete é tudo obsceno,
não só amor, poema, desamor, mas setenta e sete em si mesmos
anos horrendos,
nudez horrenda,
vê-se o halo da aparecida, catorzinha, onda defronte, no soalho, para cima,
rebenta a mais que a nossa altura,
brilha com tudo o que é de fora:
quadris onde a luz é elástica ou se rasga,
luz que salta do cabelo,
joelhos, púbis, umbigo,
auréolas dos mamilos,
boca,
amo-te com dom e susto,
eles dizem que a beleza perdeu a aura, e eu não percebo, creio
que é um tema geral da crítica académica: dessacralização, etc., mas
tenho tão pouco tempo, eis o que penso:
décimo quarto piso da luz e, no tôpo, a, tècnicamente definida, lucarna, que é por onde se faz com que a luz se faça,
e a beleza é sim incompreensível,
é terrível, já se sabia pelo menos desde o Velho Testamento,
a beleza quando avança terrível como um exército,
e eu trabalho quanto possa pela sua violência,
e tu, catorze, floral, toda aberta e externa, arrebata-me nos meus setenta e sete vezes êrro
de sobre os teus soalhos até à eternidade,
com o apenas turvo e sôfrego
tempo onde muito aprendo que só me restam indecência, idade, desgovêrno,
e sim, pedofilia, crime gravíssimo
¿ mas como crime, pedofilia, se a beleza, essa, desencontrada
nas contas, é que é abusiva?
e se me é defesa, e terrível como um exército que avança, eu,
setenta e sete de morte e teoria:
o acesso à música, o rude júbilo, o poema destrutivo, amo-te
com assombro,
eu que nunca te falei da falta de sentido,
porque o único sentido, digo-te agora, é a beleza mesmo,
a tua, a proibida, entrar por mim adentro
e fazer uma grande luz agreste, de corpo e encontro, de ver a Deus se houvesse, luz terrestre, em mim, bicho vil e vicioso




[do "A faca não corta o fogo", Herberto Helder.]

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

agosto

sábado, 6 de agosto de 2011

estou com uma amiga andando atrás de um caixa eletrônico, estamos no brasil e talvez até na bahia. andamos por uma rua desconhecida, até que eu reconheço um ponto de ônibus com um cercado, bem brasileiro, pipoqueiro vendendo pipoca, baleiro vendendo bala, 30 pessoas esperando, tudo colorido e 4 placas enferrujadas da onde já se apagaram os destinos. no espacinho que dá pra passar eu passo, vem um desconhecido do outro lado e me agarra, eu gosto agarro ele também, mas dou uma bronca, e saio andando. 
depois estamos num grande saguão de posto de gasolina tipo graal, brasileiro, e há uma caixa eletrônico, finalmente, e é um multibanco português. eu preciso ir ao banheiro e vou, mas o banheiro é um estúdio, escritório enorme, que é da mãe da minha amiga e a mãe da minha amiga no sonho é a marília gabriela e tem um milhão de coisas de escritório em cima de uma mesa enorme, e a cadeira onde é finalmente a privada. então eu me sento e começo a fazer cocô e não tem papel, mas uns pedaços de pão que eu interpreto que são os higiênicos daquela mesa. terminado, só que ainda não levantada. daí as duas entram com fome e eu nem falo nada e começam a conversar comigo como se aquilo fosse uma sala de estar e eu não estivesse no banheiro. lembro dos clips coloridos em cima da mesa. e também das folhas de papel. e que havia sobrado um pedaço de pão. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

hoje

hoje 
fiz das coisas mais importantes da minha vida. o "ofício cantante", do herberto. tem algo que tem sido difícil de dizer, porque não é um derramamento e talvez os meus pés não estejam leves o suficiente - então me sentei. antes de me sentar no largo onde nasceu o fernando pessoa - largo de são carlos - no 4o andar - eu não sabia antes de sentar - eu voltei na livraria porque tinham me dado 5 euros a mais de troco. assírio e alvim. se fosse a fnac eu não voltava.

hoje
percebi que faz tempo já que sei que a intensidade não está no dizer tudo, mas no corte. coisa que como ninguém ana cristina césar soube fazer. e herberto helder. al berto não. 

hoje
me sentei com a obra completa do herberto helder no sol do largo de são carlos e vibrei como as folhas enquanto lia. todos os portugueses só queriam os bancos com sombra, eu justamente o do sol. li, não posso dizer que chorei, porque desde manhã chorei do mesmo jeito o dia todo. uma comoção pelo foco que as coisas tomaram nos últimos dias. uma comoção pelo fato da reincidência e de que hoje eu leio herberto helder porque numa aula vinte anos, não, seis anos atrás caiu na minha carteira um xerox e era como um corpo de deus misturado com muita aveia e gaze, todo enrolado. para ver sua face eu precisei tirar a aveia e a gaze com os dentes, comê-lo. então o deus ficou nú e me disse: sou tua vida. eu acho que meu primeiro princípio de amor coincidente com este caminho, vir morar aqui, foi. foi naquele lugar onde quero viver, onde o espaço se desloca no espaço. mas tudo isso sobreposto, meu peito como uma casca de noz de onde se tirou o fruto cedo, 

hoje

terça-feira, 2 de agosto de 2011

o importante é que emoções

desconfio que escrevi um poema violento

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

segunda-feira

três sonhos seguidos com intervalos, só me lembro de dois

o primeiro a casa em que cresci (como sonho com lá) estava sendo assaltada, "mais uma vez" - era o que eu pensava, e toda a fachada dela era de vidro, enquanto eu passava na frente de carro com alguém que não era da minha família -a família estava toda lá dentro - minha irmã me fazia um gesto claro que eu entendia como um "saiam daqui, estamos sendo assaltados" e eu ia com a pessoa do carro tomar um café no centrinho, enquanto esperava o assalto terminar, pensando que chamar a polícia seria pior e me angustiava mas sabia que só iam levar tudo e tudo mas que iam deixar todos vivos, com sorte

(país ridículo).

depois na mesma rua da minha casa eu estava com meu pai de carro e com um filhote de gato no colo. por algum motivo nós tínhamos que deixar a casa e parávamos em frente da escola que fica ali na rua e eu tentava colocar o gato branquinho dentro da caixa de correio azul da escola, ele cabia, eu fechava o lacre, meu coração doía muito, eu pegava o gato de volta e pensava "não, minha vó vai ter que aceitá-lo", e ficava fazendo nele muito carinho, toda preocupada. quando cheguei na casa da minha vó comprei areiazinha pro gato que logo fez xixi em cima. e apareceu minha tia e ficou me dando uma bronca de horas. -

minha vó detesta gatos.

sábado, 30 de julho de 2011

gratuita

e este país que tem me criado uma tímida? - lembro da criança que eu era, sempre atrás das pernas dos meus pais ou do meu irmão, queria pedir desculpas por existir. 

hoje tanta coisa é só um ENTER, e adeus timidez, barquinhos dos des-acontecidos. eu quero a guarda costeira a me dizer adeus de boas-sortes, que trago em mim o farol dessa euforia sem motivo, dessa euforia ainda tão tímida, por este verão incendiada de sem porquê esta felicidade, onde o medo é pra ser instinto só, puro de ser uma sombra que acompanha o cuidado, e só, que

esta felicidade vai tomar banho para o casamento

quinta-feira, 28 de julho de 2011

hoje quinta-feira é meu domingo

há tanta gente para ver e aproximar o umbigo
mas hoje nem que seja por incêndio me chamam de casa.

talvez daqui 25 anos apareça alguém que entenda completamente
que o vento que roseta a dispersão da roupa

porque parece que gira por acaso, num varal meu lençol
mas eu sei que é mentira que ele gira perfeito só que prolixo
como todo acaso: perfeito só que prolixo.

preferiram os envergonhados o silêncio das roupas num varal
ou também os avaros dizer duas vezes, não mais.
eu talvez me meta em polêmicas maiores na próxima década
ou já estamos nela?

sei que é preciso correr em direção daquilo, daqueles 
que me contam que viver é um risco, afirmativo 
e as saudades que eu tenho do marcos.

o importante é saber não escrever e notar o vento nas roupas de ninguém.
falar com as roupas e com os cavalos e de vez em quando comprar um kit kat na máquina do metrô pra lembrar que isto aqui é europa
também de manhã cedo ou às vezes tarde bebo meu café numa xávena em que se lê
LISBOA e um coração - como é que se lê um coração?

minha mãe está no méxico meu pai está no chile, meu irmão em conakry, o outro em taiwan.
eu leio um livro do miguel do século XVI o Itinerário do António Tenreiro, quando quero aproveitar. então lembro do Diderot, quero juntar dois séculos depois, falando de modos e costumes. esses homens que se preocupam com a etiqueta do alheio, temo todos nós nos tornarmos isto. o Ranciére diz em alguma parte que é o escritor arqueólogo o dos romances do século XIX.

a vida fica toda suando 40 graus neste fim de julho. os livros estão sempre mornos, não importa a estação. e só andam se eles nos lêem. meu pai sempre diz isso, que os grandes livros nos lêem, não o contrário. meu pai está sempre preocupado com o que é grande. meu pai, grande homem de solidão infinita, me educou para ser grega com ele. eu vejo os aviõezinhos passarem,  o manoel contou  a gente riu da constatação que são invocados, os aviões. eu os vejo voarem rasgarem e procuro o século XXI entre as roupas que ainda não lavei.

talvez esta pomba valesse o mesmo que tudo. deve ser isso que se queria dizer o meu século, e eu não entendi, e a espantei. 
 

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