terça-feira, 10 de dezembro de 2013

que mistérios tem

quem não sabe devia saber, mas acho que todo mundo já sabe que hoje a clarice lispector faria 93 anos. a clarice construiu tudo que conhecemos e tudo que desconhecemos, pra além de que destruiu tudo, tudo. era um jipe e um trator, embora fosse um diamante, a clarice falava do que é podre e do que cintila: a linguagem.

só não fico enraivescida com as correntes e blablablas que são ditos em seu nome porque é perda de tempo?, atualmente, moro numa cidade que até carro turístico está assinado com nome de poeta e, ... talvez o necessário seja rir disso tudo.

às vezes me pergunto, se é isso o que é eles fariam: rir rir rir rir rir e imaginem bem, se todos os escritores mortos do mundo rirem todos ao mesmo tempo, a órbita da terra desvia uns centímetros e assim, quiçá, oxalá, etc.

nos enfins, posto um trecho do trecho "amor", do "cantos de estima", meu primeiro livro, que fala da clarice, e aqui está:

*


ontem chorei por causa de um passarinho. às vezes acontece da vida entrar pela janela uma história da Clarice. domingo. um passarinho do tamanho do meu polegar entrou entre as abas da janela e caiu no fosso em que elas se guardam. ficou preso lá dentro. às vezes suas asinhas batiam fazendo schuif schuif schuif. se eu abrisse a janela completamente o mataria esmagado. demorei a entender que ele era tão pequeno e que chorar não adiantava-nos nada. perguntava assim: o que tenho eu a ver com a vida desse passarinho que veio cair na minha janela por inexperiência? me respondia, tenho tudo a ver com ele e nada dele me diz respeito. mas é a vida, né, então fiz de tudo. bambus, varetas, lanternas, cestinhas, farelos de bolacha pra mantê-lo vivo. precisava de mão de obra especializada. hoje de manhã vieram salvá-lo. ele abriu a janela e eu peguei o passarinho na mão. apavorado. voou. estou só agora, sem o passarinho.

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