sexta-feira, 21 de agosto de 2015


entre os rituais do luto vive o cinema
— e no cinema vive woody allen:
tenho assistido muitos filmes dele —
nesses dias da senhora das nuvens de chumbo
quando muitos dias bate sol
eu sonho com uma nova casa
em que o quarto principal tem vistas para um deserto
e o deserto vive num cubo
& quando vier a chuva também nosso amigo
woody se perguntará
como sempre:
se há algum sentido em viver
além de um correr indistinto em direção
à indesejada das gentes?
& se a iniludível nunca tem ouvidos pra ninguém
de que adianta se perguntar em voz amiudada ou maior,
perguntar em voz alta
como acontece em todos os filmes do woody?
que em algum momento alguém se pergunta
muitas vezes diretamente para a câmera:
qual o sentido da vida?
por que a vida tem que acabar?
se vai acabar por que é que a gente tem que viver?
como viver vivendo o tempo todo esquecendo e lembrando disso?
e a gente ri que em alguém essa questão possa eclodir o tempo todo
virando cinema.
e então a repetição dessa angústia é engraçadíssima.
que dom! transformar a angústia em graça.
só a cura e a arte são capazes disso
e o menino que foi woody crescendo
numa casa embaixo de uma montanha-russa
nervoso & atento a tudo que fosse pensável
descobre que o universo está se expandindo
e no meio do brooklyn o menino não consegue fazer mais nada.
não quer ir à escola não quer fazer a lição de casa nem comer
porque o universo está se expandindo
qual o sentido de tudo?
se o universo está se expandindo.
meses atrás eu soube que hoje se sabe que o universo é finito.
e eu fiquei bem confusa com essa possibilidade de ali na frente acabar
embora seja impossível chegar até lá pra ver.
e tento passar agora os dias rindo com uns filmes do woody allen.
porque não quero ser o menino que cresceu embaixo da montanha russa.
também nunca quis ser menino embora eu queira ter graça.
quero ser é a montanha russa expandindo no universo finito.

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