quarta-feira, 10 de março de 2010

quando escrevi sobre a casa
minha amiga também encarnava uma
deitava o corpo junto ao papel

estou só
cheia de esquadros
nas gavetas
procuro uma guia

#

tinha dois espaços em si
os olhos e a aeronave

o recurso de dizer algo impactante
e a matilha toda, imensa, como um lago, a espera

coração já usei muito
agora o real é procedimento
por exemplo:
a massa do teto tem uns furos craquelados
de um ângulo um farol, talvez um leme
do que estou mais certa
é num pescoço de mulher, um colar arrebentado.

#

lembro dos cachorros que corriam
meus cachorros que escapavam
iam viver naquela rua
voltavam caramelos como o chão
e se eu ia lá mordiam-se as orelhas
e às vezes tinha que atirar cascalhos de mentira/ fingir/
que lançava pedras pra que eles corressem de mim
foi o modo de ficarmos juntos.

terça-feira, 9 de março de 2010

catástrofe em paris

alavancaram mais uma situação crítica como o eixo da situação. escolheram as derradeiras ilhas para implodir a salvação. as ilhas do destino imaginário. entre os náufragos opto por ser o oráculo, escrever nada com nada e ficam me querendo a pele: a permeabilidade visionária. mas me sinto só num sono tão antigo quanto a escrita chinesa.

(às vezes preciso anunciar
uma gaivota ao mar
gaivota ao mar!)

naufragar os parênteses até cambaleando se tornarem canoas
ou teremos fé no que vem assim, inexperimentado?
"Tudo o que é visível deve se expandir para além de si mesmo, até penetrar no âmbito do invisível."
Hexagrama 50 "Instituir o novo" ou "O caldeirão".
sei que tive, encontrei e até desfiz. estou confusa de dizer as datas. porque eu (era? hoje encontrei um fio de cabelo branco) quem me dizia antes que sabia o que tinha acontecido antes (ou, digo: eu só te contei certas coisas pra você entender com quem está vivendo).

(às vezes é preciso anunciar
uma gaivota ao mar
gaivota ao mar!

naufragar os parenteses até cambaleando se tornarem canoas

ou ter fé no que vem assim inexperimentado?

#

navio no. 2

levantei-me com o cavalo
os perigos da solidão a dois
um sonho que não sei contar

não rolo mais entre as pedras
dos sentidos, sou pelo vento,
pelo sopro tua voz me ilumina.

#

um coração que não tivesse centro

segunda-feira, 1 de março de 2010

olá, eu gostaria de voltar pra casa/ mas eu não sei mais where home is

ENTÃO

eu quero morrer de dia eu quero morrer de noite de manhã eu também quero morrer ao pôr do sol não sou indiferente: morrer, sim, morrer determinadamente escolher por morrer também ao meio tarde eu quero morrer na fila do banco de diarréia eu quero morrer de fungos pelo corpo alucinógenos eu quero morrer

se continuar assim, precisando ficar cansada como preciso pra conseguir escrever vou morrer com 34 anos de velha

ou, aos 65, poderei dizer quando me entrevistarem: "passei 70% do tempo da minha vida absolutamente drogada". e poderão dizer como a poesia se aproximou novamente do rock and roll, my soul is empty, let me cry over your shadow


sábado, 27 de fevereiro de 2010

desde manhã venta mais forte e há uma vela acesa que me impede de escrever porque venta na folha
a folha é de papel o papel incendeia o meu pirata de sal, carbono e deus,

ganhei 4 grãos de café ontem à noite e gostava de escrever o cheiro que eles têm
(encavados na palma da minha mão, vivem, danço com eles dentro dos meus bolsos
talvez tê-los seja uma bússola para os próximos tempos)
mas enquanto não consigo empilho no meu umbigo e digo: um, dois, três
viro pra ele e pergunto "qual a profundidade do teu umbigo, em grãos de café?"
O que o vento está sentindo por mim? pensou, sem olhar ao redor, como aquelas pessoas que acompanham os guias de jornal.

Os últimos avanços da programática, quero dizer, da ciência, em busca do último romance publicado, a cura do câncer.

O melhor coração que eu tenho quando se enche até a borda transborda murmura litígio nem precisa ainda ser uma questão litigiosa mas com o perdão dos vossossauros sentimentos quem ainda está nessa de se sentir ferido tem que ver um condor nos teus olhos ou como bem disse meu amigo marcos visnadi os cachorros trepando num canil na rua no ventre os cães que trepam no meu ventre

os cães que trepam no meu ventre
não lêem a última programação semanal
todos os guias do mundo levam a um mesmo lugar
por favor me levem a algum lugar nenhum junto com ele
ele o rio, ele quem ri em mim, ele o ele que sou
focinho rosa, creolina nas juntas
mata-pulga e avião

é sempre possível um pouco mais - - - ele tem insônia numa noite eu atravesso a sala com um pote de salada de madrugada - - - fresquinha rúcula e alcatrão - - os dedos amarelos, aborígene - - feito, me olha: então? voltastes a escrever?

"sim", mas agora com crueldade.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

me leva que eu vou

afobado, borderline, escasso. o que vai subir de imagem numa folha? penso ensaiar um ballet na entrada da primavera: como personagens: o samba, a sacudida, o carinho.

não é demais escrever 'carinho' e ficar olhando acontecer?

então quando eu amo é na garganta. você não percebe a luz que me cega dentro dos tímpanos? sempre rompendo pra ficarmos juntos

acesso
leve
acesso

(subiu um pouco a temperatura e choveu granizo -- será que é assim que fala em português? -- três vezes hoje. se o vidro da janela quebrasse ah se a janela)

no mais tenho pensado em: deus, destino, acaso. coisas que eu queria ser. desisti. escrevo porque é ainda o tanto que me flerta. e esse olhar sempre migrando pra lá e pra cá: dançando vaga sombra latitude: olá, vem dormir comigo.

orgulho do papai

mamãe me deu dinheiro de aniversário
faça o que quiser com ele, disse, depois
guarda pra daqui meses comprar sua geladeira e seu colchão
(devia eu guardar, não devia?)
mas só consigo comprar livros, portugueses.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

::

de todas as pessoas que me compõe és somente mais uma.

apreendo a divagação do eterno. vim viver numa língua em que se diz "alma" sem muito delito. apresento-me para mim mesma em exílio. é do sufoco que renasço.

preciso sempre de algo incrível
(amor)
para sobreviver. estou sempre no movimento
de alga presa pelos dentes do coral, dançante.

::

digo "sempre" porque confrontei a morte desses dias.

::

queria ter um livro já escrito, para abrir-nos e entender.
mas também os livros nos decalcam pelo silêncio.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

a brutalidade das coisas práticas não pode tecer os meus dias e é por isso que crio sempre uma casa necessária e minha, onde cuido.

o tempo não me quer, é essa a totalidade dele e a minha tolice acreditar que vou inventá-lo quando ele, na verdade, é um inevitável. dele mesmo.

e toda a criação que eu fizer pra dentro, do texto, da resistência imaginária entre eu e o corpo do mundo, vai ser dragado pelo próprio tempo e ele mesmo vai dizer: inevitável. por isso não persigo mais a caça. por isso não me escondo mais.

não sei porque alguém assusta em resolver no campo, em jogar dardos, escrever ou chorar, ou seja, nas tantas formas de encontro, a mais, do que o amor fátuo, factual. a literatura tantas vezes trata somente disso. e não aguarde (de mim nunca) a palavra "sublimação", porque ela é rarefeita e o meu pensamento é material.

#

rosalinda, se tu fores à praia/ se tu fores ver o mar/ cuidado não te descaia/ o teu pé de catraia/ em óleo sujo à beira-mar

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

FRIO IDIOTA

ontem escrevi quatro vezes na palma e no verso da minha mão

você você
você você

agora espero apagar pra aparecer quem é

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010



demos as costas para o oceano

sábado, 13 de fevereiro de 2010

comboio nunca voltará a ser trem

vejamos bem, então, da janela vejo uma porrada de cuecas penduradas, um céu azul com uma antena de televisão em cima de um prédio alto (6 andares é alto). também tenho que tomar banho, que tem hora pra pegar comboio.

faz 3 dias já
ou 4
que de manhã vou ver meu horóscopo
e ele está EM BRANCO

mas o de todo mundo está EM BRANCO
eba! destino aberto em branco!!

- -
concluí também que este blogue se tornará um blogue de viagem / por mais que eu não esteja viajando /

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

quando eu estava vindo pra cá (escrever) havia algo de sonoro: concreto então de ser poema. escrevi uns 3 de luz apagada tentando dormir, passaram como flashs de farol passavam no coqueiro em frente a minha casa.

então eu cheguei aqui e só tinha a tela e eu essa luz desencabida. e uma vontade corriqueira, corriqueira, do mundo ser um perigo só, e eu inteira humildade.

fui parar tantas vezes no fundo, eu queria dizer. que tem alguém em mim suportando os ombros e outro lado tá dançando mambo. se eu pudesse chegar em mim pelas costas me abraçava.

então: alarguei o peito como um pássaro. minha barriga é de gato: quer o mundo em si. já o pássaro estalou o peito. foi uma coisa impressionante, duas horas atrás. porque se não a gente entra pra dentro (inverno europeu aqui onde o creme de leite é desconjuntado, etc)

o bernardo me disse pra deixar correr, eu ia tentar dormir de novo, amanhã cedo a gente vai pra aveiro: minhas olheiras: O O como que desenha olheira com caracteres?

não sei dizer ainda muito mais do que isso, tá tudo refogado no meu precipício.

onde tem acento em precipicio? que é pra voar melhor.


meu futuro, aconteça

my boat is full

let's play some music and say how to not say how anything, let's make love and some yellow children (never be without yellow, mom used to say), i was the perfect loud to you, if i had more soul to gave i'll give it, this for me is to live. to die with teeths, no way.
entregue derramada entrega assim si
nuca - - - - - - - . se transformam depressa demais.

pega o fogo de auxílio diz que não basta, não basta.
é pouco tudo. - - - em pouco tudo. - - - havia pouco tudo.

trago os traços pra cima - - - acordo
depois me deito, durmo pouco, volto a não pensar.

amo.

então esfrego, arranjo, canto
deus me livre de outro enjôo não quero mesmo nenhum cansaço

oxalá
meu futuro aconteça.

saca o lance? blues mobília, meu corpo.

li na rua

I don't mind losing a boy to himself

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

a verdade é que sou astronauta



segredo, hein?

freedom

outro tipo de ataque seria necessário para preservá-los.
eles precisam ser renovados por um cometa errante que colida com eles.
mas essa questão ainda está em discussão.

la niña

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

de olhos abertos

tenho bebido tanta água que se mergulhasse em mim mesma era o pacífico

beibe, beibe não adianta chamar

O O O O O O

me esforço na solidão das coisas
não vou a lugar algum
me esforço pra não ir no supermercado,
na pia lavar a louça, no banco
sim, principalmente no banco
(na verdade sou uma boa menina equivocada que perdeu a hora que aqui fecham antes das 16h)
até que os objetos comecem a falar comigo
não me mexo e eles levantam até mim
a mesa o aquecedor os lápis de cor
desenhei uma constelação só pra mim
com a romã que tinha espirrado no sulfite das minhas anotações
minhas anotações estavam em branco
e descobri que de um dia pro outro
a cor de romã vira ROXO roxo
roxo é cor de constelação, não é?
olha um hematoma bem de perto
sempre tenho uma coleção deles nas coxas
i'm still saving some drugs for you
em cima do roxo pintei amarelinho
amarelinho luz da constelação
e colei no caderno onde coloco todas as cartas que me mandam
yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar
(responderei um dia/ responderei a todos os dilemas)
e fazer tudo que eu queria fazer/ agora só falta você iê iê

vou fazer outro café pra ver a cadeira estourar de estardalhaço

do lado de cá

o vento sobe nas bandeiras como se eu pudesse dizê-lo

the world is still blue.

das coisas que mais me lembro são das indecifráveis palmeiras
a palma delas, voando, sobre um quarto de lua crescente.

faço a minha própria cama de gato
amacio, ronrono, depois parto.

o que é a poesia? alguém dizia: o que é a poesia?

primeiro fazia que nem olhava, então
eu repetia: cor. depois silêncio.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

luvem rabisco chuvarada

tão asssim as coiusas

disse a nuvem

nunca chutarás um vaso já partido a não ser se for para partir do próprio pé

a solid volcano



capricórnio, can you believe it? com esse coração gordo.

o elvis nasceu no mesmo dia que o bowie
e o fellini e o lynch também nasceram no mesmo dia que o outro

tudo capricórnio que nem eu que cresci ouvindo que damos bons advogados
cresci ouvindo? lendo nos suplementos diários, vitamínicos

eu até quis ser diplomata pra trabalhar na onu
era meu sonho de criança hoje eu tenho uns mais realistas
tipo ganhar o nobel aos 35

"se montanha não vai até maomé, maomé inventa a montanha"
"quem nasceu cabra nunca vai ser precipício"


mas ah, eu nem falo de astrologia em público
e acho tonto, tonto quando alguém credita valor por referência cultural

i'm a solid volcano

procurei no google por imagens da coisa "volcano by a child" mas acho que confundem criança com "noite" em inglês. é uma língua gozada. e em Portugal que se goza no trem. é. lê-se em todos: Goze a viagem.

-vô dá beijo.

eu troquei de blogue especificamente por conta de querer escrever com as linhas mais longas de todas feito carruagem de comboio tchuc tchuc um atrás de outro e também pra mostrar à derradeira nectarina

if i'm not a potato i'm a solid volcano
22h45

- - -

22h46

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22h47

- - -

22h48

- - -

22h49

- - -

todos os meninos sempre quiseram estar sozinhos

disse no telefone ontem pro marcos alforria blues vou fazer um poema com esse nome daí o saldo acabou de um jeito de que nem bombeiro (musculoso) dava pra chamar hoje quando terminei o texto abri uma romã enorme dentro da sala e pfff espirrou na minha cara na tela do computador isso porque eu pensei a pérsefone aqui, ó hoje teu inconsciente não me escapa vou comer o hades todinho nham nham nham. e a tela a mesa a parede tudo de romã toda daí eu lembrei do josé rindo da minha cara porque eu não sabia que podia mastigar o caroço e combinava com alface espremia uma tampinha na outra daí eu lembrei que o eduardo tinha comigo um projeto chamado punica granata a gente almoçava todo dia junto que toda a idéia nossa era ter tudo com cor de romã, quase sempre era no consulado mineiro da benedito, não da cônego, eu nunca tinha pensado como Pinheiros tá cheio de clero, então anos depois ele até colocou na capa [segredo] do livro romã até que ele saiu impresso vermelho pera aí vou lá que o bernardo tá chamando
eu tava querendo escrever um diário, até que percebi que era um cavalo
o conhecimento da minha pessoa vai passar os dias lendo foucault pra depois fazer a vitória de samotrácia

samambaia

ai como é bom crescer sem público, dizia ela no cantinho
nasci de olhos abertos então fechei fechei até não poder mais
a primeira planta que comprei em portugal chama
comigo ninguém pode
a segunda foi
brinco de princesa
te juro, as duas somadas dão o conhecimento da minha pessoa

chanson

d'amour morreu o flamingo

lição

minha mãe disse que nunca pode faltar amarelo
começar registrando um domínio
 

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