e não é que já ouço o português de Portugal sem perceber o sotaque? só noto quando acontecem grandes atos coletivos, tipo ontem quando vi duas pessoas discutindo no trânsito, - - é cômico, são obrigados a vestirem uns coletes verde-fosforescente quando batem os carros ou trocam os pneus, - - - ou ainda mais, pronto! quando ouvi cantarem "parabéns a você", não só pelo "cantam as as nossas almas" no lugar de "é pique, é pique, é pique", mas na força da reunião, mesmo, percebo nos juntares das vozes os trejeitos, o sotaque como um dilúvio, - - -
domingo, 29 de agosto de 2010
sábado, 28 de agosto de 2010
peixe espada, da cidade soube luz
já não entendo mais nada, absolutamente. quando alguém que escreve encontra que o texto é sensação e não prodígio de soluções, onde está o grito, o dito, que poderá me re-suspender? tenho vontade de dormir e vontade de trabalhar e as palavras perdem os eixos, como um caminhão tombado sem rodas, quando as leio elas já não são mais nada, estão nelas mesmas me olhando e se eu sondo encadear colocam: fluxo fluxo, onde está? não consigo colocar muito.
enquanto isso o corpo transfigura, relata uma cidade encantada onde os dutos todos, meio entupidos, fazem eco, se criamos uma batida meio crua, com as mãos pelos canos, podemos enfim constatar que somos uma cintilação do espaço, e os sentidos são nada mais do que uma metereologia. pensei que sou nova demais pra ser escritora já pensando assim. pelo menos consegui formular, finalmente, o que pra mim é uma novidade velha.
enquanto isso o corpo transfigura, relata uma cidade encantada onde os dutos todos, meio entupidos, fazem eco, se criamos uma batida meio crua, com as mãos pelos canos, podemos enfim constatar que somos uma cintilação do espaço, e os sentidos são nada mais do que uma metereologia. pensei que sou nova demais pra ser escritora já pensando assim. pelo menos consegui formular, finalmente, o que pra mim é uma novidade velha.
IX
Dentro dele mora um bosque de musgo
um nadador a dar ordem as ondas
de cujo olhar ao espelho, o teto do mundo, nasce
arrefece as costas no pássaro que mergulha, céu,
voa.
um nadador a dar ordem as ondas
de cujo olhar ao espelho, o teto do mundo, nasce
arrefece as costas no pássaro que mergulha, céu,
voa.
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poemas do destino do mar,
work in progress
domingo, 22 de agosto de 2010
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
I
antes de dormir, ontem, eu lia, crescente de honestidade o meu al berto - - - ou as desfibrilações que sinto ao deitar, coração que vira terremoto, a idade do tempo, a coluna vertebral do tempo se agitando é um fóssil, no mais marinho dos oceanos, o sono que se aproxima, e sinto nas minhas pálpebras que piscam no travesseiro, os cílios arados do medo. ouvia esse bater dos olhos quando criança e achava que eram os mortos que se comunicam nos segundos anteriores do dormir. falavam só de espanto e o estouro de silêncio da ausência colava nas paredes do quarto.
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diários do sono
sábado, 14 de agosto de 2010
vem de mim, se aproxima com aquele sorriso caiado, aquele jeito que eu falo, que você fala e a gente nunca encontra uma língua que fale a do outro e cada um no seu vaso, vento e ventre, a gente então aí, se entende
OU
a vida que se encontra no desconhecido
OU
agora em solo europeu (kkkquase) entendo/penso invento/percebo a necessidade de conceber o informe como resistência/liberdade; para isso "architeture", "les grois orteil", "informe", do Bataille, na Documents
(ou entendo porque meus amigos daqui todos gostam tanto do que parece não fazer sentido, como tem espaço pra invenção, porque o sentido é CONSERVADOR. - - - anchovas de sentido, picles de sentido. - - - but I will be, forever, a drummondian girl,)
de todo modo sempre inventar uma poética que não rasure a paisagem, antes a invente: se sobressai isso em: fazendo dos rascunhos, definitivos. talvez isso seja um modo de dizer do mar.
e meu modo único de respirar.
OU
a vida que se encontra no desconhecido
OU
agora em solo europeu (kkkquase) entendo/penso invento/percebo a necessidade de conceber o informe como resistência/liberdade; para isso "architeture", "les grois orteil", "informe", do Bataille, na Documents
(ou entendo porque meus amigos daqui todos gostam tanto do que parece não fazer sentido, como tem espaço pra invenção, porque o sentido é CONSERVADOR. - - - anchovas de sentido, picles de sentido. - - - but I will be, forever, a drummondian girl,)
de todo modo sempre inventar uma poética que não rasure a paisagem, antes a invente: se sobressai isso em: fazendo dos rascunhos, definitivos. talvez isso seja um modo de dizer do mar.
e meu modo único de respirar.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
as coisas no meu quarto/casa tão bagunçadas de um jeito que eu não consigo nem começar a colocar ordem. lápis, canetas, guaches, roupas, livros, louças, pincéis, máquinas de escrever, de fotografar, de mensagear, de conectar e também, propriamente, santos, budas, orixás, pedras da cidade, fotos de amigos de outro lugar, cartões postais, cartas já preparadas e ainda não enviadas, pastas vazias, idéias incompletas, sussuros, 35 graus e nublado hoje entendi o que é pressão atmosférica,
selvagem é o clima temperado, viram, porra vida bizarra de cada 3 meses completamente diferentes um dos outros
o único poema sincero da história é o "cântico dos cânticos de salomão" mas quem mexe nele mente
o alvo é só um vulto
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= mundo
sábado, 7 de agosto de 2010
certas coisas que não se podem esquecer
MUNDO GRANDE
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias:preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros,
carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem...sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos-voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam).
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante
exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
que o mundo, o grande mundo está
crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
-ó, vida futura! Nós te criaremos.
[do Drummond, no Sentimento do Mundo].
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias:preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros,
carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem...sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos-voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam).
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante
exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
que o mundo, o grande mundo está
crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
-ó, vida futura! Nós te criaremos.
[do Drummond, no Sentimento do Mundo].
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amigos amigos negócios reparte
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
songs, days, suor
cavei minha ansiedade porque criei uma aterrisagem de futuro no presente. vertigem.
eu não penso o que escrevo, cada vez mais. não penso o que escrevo. é o pensamento que se escreve e pensa enquanto instrumento (a mão-guindaste). e o exagero, exagero. exagero que nunca de mim escapa. a maré tá subindo. vou ter que sair da gruta-delícia.
fico um pouco em dúvida às vezes da eficiência do novo protetor solar. minha capa invernal às vezes caí do armário quando tiro um vestido. com o peso/pêlo dela me assando os dedos penso, preocupamo-nos com cada coisa em cada certa estação.
tudo o que pensamos é colocado para as emoções. talvez escrever signifique nas palavras, efetue?, um sentimento?
pelo menos eu, me ponho em auto-contato.
estou em SAGRES
que coisa estranha é essa?
é a eterna falta do que falar que bate tão indefinida?
é sempre o canto. e eu com ele, só.
cantei "vida louca vida" pro vento e os canhões. e ninguém, ninguém, nem essas ervas, nunca cresceu como eu.
"capacidade de ouvir e surpreender." fpd
o que há de algo a se escolher já se escolheu e não há mais o que mudar. talvez viver. e haverá que preferir outras saídas. criar saídas laterais.
*
e poderíamos atravessar um universo de estrelas. isso na vida toda. e o que calhasse era viver e sorrir, das coisas que me lembro.
se aqui em casa não tivesse um monstro eu te convidava para vir. dançar as hecatombes. mentias como dançavas os rituais. são as únicas mortes que nos são permitidas ou alguém acredita na solidão? estou hoje maduro como se estivesse disposto.
*
estou é justamente interessada em não partir. vamos levantar o ritmo de transformação para o centro da escrita. efetuá-lo para além da vida. é uma nova descoberta para mim que jovens - - - .
saindo do metro na constatação absoluta de que vivo nesta cidade segura, quente em julho.
eu não penso o que escrevo, cada vez mais. não penso o que escrevo. é o pensamento que se escreve e pensa enquanto instrumento (a mão-guindaste). e o exagero, exagero. exagero que nunca de mim escapa. a maré tá subindo. vou ter que sair da gruta-delícia.
fico um pouco em dúvida às vezes da eficiência do novo protetor solar. minha capa invernal às vezes caí do armário quando tiro um vestido. com o peso/pêlo dela me assando os dedos penso, preocupamo-nos com cada coisa em cada certa estação.
tudo o que pensamos é colocado para as emoções. talvez escrever signifique nas palavras, efetue?, um sentimento?
pelo menos eu, me ponho em auto-contato.
estou em SAGRES
que coisa estranha é essa?
é a eterna falta do que falar que bate tão indefinida?
é sempre o canto. e eu com ele, só.
cantei "vida louca vida" pro vento e os canhões. e ninguém, ninguém, nem essas ervas, nunca cresceu como eu.
"capacidade de ouvir e surpreender." fpd
o que há de algo a se escolher já se escolheu e não há mais o que mudar. talvez viver. e haverá que preferir outras saídas. criar saídas laterais.
*
e poderíamos atravessar um universo de estrelas. isso na vida toda. e o que calhasse era viver e sorrir, das coisas que me lembro.
se aqui em casa não tivesse um monstro eu te convidava para vir. dançar as hecatombes. mentias como dançavas os rituais. são as únicas mortes que nos são permitidas ou alguém acredita na solidão? estou hoje maduro como se estivesse disposto.
*
estou é justamente interessada em não partir. vamos levantar o ritmo de transformação para o centro da escrita. efetuá-lo para além da vida. é uma nova descoberta para mim que jovens - - - .
saindo do metro na constatação absoluta de que vivo nesta cidade segura, quente em julho.
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trechos do meu diário de julho
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
É tanta a minha mania de observar. Os objetos foram se apropriando do tempo até se tornarem histórias esquecidas. Apertam o olhar como se amarrassem os órgãos do pousar por mais que um instante de mosca. Quando voltar ao topo: Pousar feito um pássaro nas histórias. Anteceder os sismos do alto conceber o azul.
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túnel
segunda-feira, 26 de julho de 2010
como a vida sem caderneta
como a folha lisa da janela
como a cadela violeta
- ou a violenta cadela?
como estar egípcio e mudado
no salão do navio de espelhos
como nunca ter embarcado
ou só ter embarcado com velhos
como ter-te procurado tanto
que haja qualquer coisa quebrada
como percorrer uma estrada
com memórias a cada canto
como os lábios prendem o copo
como o copo prende a tua mão
como se o nosso louco amor louco
estivesse cheio de razão
e como se a vida fosse o foco
de um baço lento projector
e nós dois ainda fôssemos pouco
para uma tempestade de cor
um ao outro nos fôssemos pouco
meu amor meu amor meu amor
[do mário cesariny]
como a folha lisa da janela
como a cadela violeta
- ou a violenta cadela?
como estar egípcio e mudado
no salão do navio de espelhos
como nunca ter embarcado
ou só ter embarcado com velhos
como ter-te procurado tanto
que haja qualquer coisa quebrada
como percorrer uma estrada
com memórias a cada canto
como os lábios prendem o copo
como o copo prende a tua mão
como se o nosso louco amor louco
estivesse cheio de razão
e como se a vida fosse o foco
de um baço lento projector
e nós dois ainda fôssemos pouco
para uma tempestade de cor
um ao outro nos fôssemos pouco
meu amor meu amor meu amor
[do mário cesariny]
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amigos amigos negócios reparte
domingo, 25 de julho de 2010
quinta-feira, 22 de julho de 2010
"O medo, leva e traz ao deserto os distraídos, prometendo-lhes sempre algo, fazendo-os desesperar da sua simplicidade. Mas o deserto é mais simples que o medo, e a sua luz apropriada."
do Álvaro Lapa, em "seqüências narrativas completas".
do Álvaro Lapa, em "seqüências narrativas completas".
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amigos amigos negócios reparte
tomei o lugar dos meus irmãos
sonhei, depois de semanas sem me lembrar: lembrei. com a casa em que cresci, vivi até os 20 anos, estava na escada azul e amarela - que era meu símbolo de medo e acesso - e tinham (minha mãe) emprestado minha saia branca -preferida- pra outra pessoa, eu não gostava, pois tinha que ir à Paris. eu era mais nova e meu peito sufocava - ainda - e ia até Paris.
quem era a mulher e porque Paris, eu já entendi, nem é muito importante esconder, mas não vou dizer.
quem era a mulher e porque Paris, eu já entendi, nem é muito importante esconder, mas não vou dizer.
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caderno público de sonhos
terça-feira, 20 de julho de 2010
tenho de invadir a minha vida verdadeira
fazendo uga uga tomaram-na como peixes pelo anzol
tinham minhocas que eram como cenoura na frente do burro
o burro que morreu entre meus dentes
como uma cabeça de bode enterrada
e eu parente, co-parente, bi-polar de onça
sou ROCHA ROCHA
há sempre um rochedo a implodir um caminho que transtorna o hoje de pedregulhos em poeira

nossa senhora da transformação rogai por nós
revogai as estradas perdidas, encaminhai o tempo para si mesmo
multiplicai os abismos dos nossos inimigos
dai boas noites a todos, nossa senhora, e dorme.
tudo que me atravessa encolhe um pouco os ombros
vês aquela?
multiforme em si tem dois braços duas pernas uma cabeça cheia de estrelas no meio
ah! pensava que era um buraco negro
não, não é uma brasileira
até que é branca branquíssima
eu sou filha da via láctea.
faz tempo que não encontro uma vaca pra dizer que VACA!
o calcário europeu faz mal para os meus cabelos ficam parecendo lambidos de vaca
ou território de patinação de patinetes dos meus pensamentos.
mas que bonitinho

descobri que esses são aqueles do mario bros e também os da alice e tb os de iluminação dos vedas e há vacas muito loucas por aí?
tinham minhocas que eram como cenoura na frente do burro
o burro que morreu entre meus dentes
como uma cabeça de bode enterrada
e eu parente, co-parente, bi-polar de onça
sou ROCHA ROCHA
há sempre um rochedo a implodir um caminho que transtorna o hoje de pedregulhos em poeira

nossa senhora da transformação rogai por nós
revogai as estradas perdidas, encaminhai o tempo para si mesmo
multiplicai os abismos dos nossos inimigos
dai boas noites a todos, nossa senhora, e dorme.
tudo que me atravessa encolhe um pouco os ombros
vês aquela?
multiforme em si tem dois braços duas pernas uma cabeça cheia de estrelas no meio
ah! pensava que era um buraco negro
não, não é uma brasileira
até que é branca branquíssima
eu sou filha da via láctea.
faz tempo que não encontro uma vaca pra dizer que VACA!
o calcário europeu faz mal para os meus cabelos ficam parecendo lambidos de vaca
ou território de patinação de patinetes dos meus pensamentos.
mas que bonitinho

descobri que esses são aqueles do mario bros e também os da alice e tb os de iluminação dos vedas e há vacas muito loucas por aí?
segunda-feira, 19 de julho de 2010
inventar a minha vida verdadeira
diário de julho de 2010 agora
"tenho de inventar minha vida verdadeira"
cada coisa por dentro é feita de pedra
de atiradeira passo à contração
consolatriz sem convicção
tenho duas gajas cheias de gaivotas esperando pra cagar em você / elas vivem em gaiolas sobrenaturais
(nas gaiolas sobrenaturais tudo tem cor de raio-x / inclusive os mêandros dos brócolis)
"em Portugal o letreiro dos taxis ocupados parece chamar mais atenção do que os dos desocupados". meu amigo riu.
íamos em busca da chave.

aqui em mim tudo ruiu.
no último mês me colocaram (milkshake) num liquidificador lançaram-me por dentro em tudo em tudo e zzzzzzás me devolveram sorvete de novo no pote
percebi que não tenho nenhum medo absolutamente medo nenhum de não saber pra onde vou, meu único medo é de continuar assim como e onde estou.
e já senti tanto isso que parece ser uma vertente da minha vida
será que é possível derrubar vertentes da própria vida como numa casa se retirar as paredes?
UMA CASA EM QUE SE TIRASSEM AS PAREDES E O AR CAÍSSE SOBRE NÓS
esse ar veio parar no meu pulmão esquerdo
cada noite a cama numa posição diferente e tantas emergências na nossa conquista de encontro e vigilância e as vidas de redor sempre a arder nossa vida mesmo sempre a se querer como nossa e a certeza de que o que vale é crescer, ser sempre jovem, humildizar sem desdém por si mesmo no tamanho de envolver a vida com o que é e comer bem um coração que não tivesse centro eu aprendi tanto que depois até me despreendi agora precisamos ir tomar um gelado pra falarmos a respeito as pálpebras que acompanham as órbitas vivem mesmo é dos nossos lábios fechando com o calor minha boca também está seca não estou em brasília não sou ana cristina e
os dois vão se encontrar numa rua qualquer e vão se abraçar e vão saber quem está mais nervoso que o outro vão ter certeza que estão mais nervoso que o outro e até que em algum momento eu vou aparecer e convidar pra dançar e a gente vai dançar e depois de manhã vamos sentir fome e vai ser preciso comer e vamos ter certeza que não há, nem nunca houve, amizade mais brilhante do que a nossa, e ainda bem que acontece
sem amor todo meu corpo me chama atenção ATENÇÃO estás VIVA E SEM eu quero um coração batendo novíssimo que me retire desse estado de pedra acho que amanhã vou à praia tomar banho de novo ou ficar imóvel imóvel embaixo de mim mesma que é o mesmo que estar por fora de ti (ainda bem que estou por fora de ti) e encavocar um escaravalho no lugar do coração ninguém acredita quando eu digo cuidado que em mim mora o Maior Escorpião e ele atravessa os ferrolhos das portas pelas órbitas
"nos anos 60, sabe? aquela época em que tudo era permitido, o amor livre, só não valia arrancar os olhos das órbitas"
me espanta a naturalidade como as pessoas falam sem parar e convictamente que dizer coisas com lógica vai fazer uma lógica eu que incendeio tudo ao redor em mim em busca de uma escrita mais debruçada em desconcatenar e ao mesmo tempo incidir como a única pequena luz viável naquela brecha de prédio e que faz toda a diferença no caminhar de alguém que vem confortavelmente reparando em viver e nos caminhos sempre úteis na sua inutilidade contínua
e eu que já saí de tantas já entrei em tantas acho que é mesmo a única solução viver desenfreadamente até que algo nos refreie
(eu tô freiada até os dentes, tô um burro morto, mataram um burro nos meus dentes ele já tava empacado agora ele tá até apodrecendo pobre burro pobres dentes pobre dentifrício insuficiente e que ainda por cima o miúdo de alguém rouba pra colocar na escova de dentes de dinossauro e depois quando ele fala disso parece que enlouqueceu num mundo de artifícios de plástico mas ainda podemos contar com os jardins e nesses jardins descobrir que não há porque não estar a todos os momentos perto dos jardins das árvores das marés e que as marés e seus marulhos e conchas são tão incendiários como o arder conflituoso dos joelhos, a sálvia que eu vou me dar de presente amanhã vai ser ela, certamente, que vai arder em mim essa insuportabilidade tensa de resistir eu
eu resisto tanto que resistindo não desfaço
viajei completamente no próprio sentimento, eu já contei, namoro o amor, ele me namora, somos abelha na florzinha o mel é que é um outro que se interpõe de substrato entre nossas espécies naturais e eu poderia me arrepender de tudo tantas vezes e não sei se é melhor ou pior (lembrei que comprei uma bicicleta que usei 4 vezes e esqueci no fundo de um coberto úmido, mais uma vez e agora lá deve estar anoitecido já e frio, mais frio do que aqui, eu vivi lá nessa época do ano passado e eu resistia a todas essas oscilações escrevendo e organizando e trabalhando e comendo conforme meu apetite e a geladeira cheia)
tudo que eu deixei pra trás, inclusive o analista, a análise não me larga mais, jamais. o analista também não. é um amor.
no fundo, eu sou capaz
ele não, ele é um estúpido de aberrante e um estúpido duplicado porque sabe que é um estúpido é quantas vezes mais estúpido por isso? um estúpido que é uma flor não deixa de ser um estúpido.
fazia tempo que ninguém me olhava como ele assim debaixo e com óculos depois sem óculos e uma sacolinha de algodão pra aclimatar as texturas das conclusões indefinidas mas dessa vez eu não quis brincar de em aberto eu quero é o resolvido resolvendo-se mútuo com você que eu posso ser franca eu até levantei o pézinho na frente do comboio que ninguém me beijava assim com dois lábios grossos que tens que delícia és, quer?
não sei quem sabe o que será de ti agora? bebes em algum lugar pensando que ainda és o mesmo colecionador de histórias de amor enquanto ele bebe os fracassos de tudo que nunca encostou um fio de cabelo por não passar da peneira de si mesmo doido doido pra ter os tornozelos até os tornozelos embebidos de desejo e mordidas mas depois de um tempo ou a gente vive ou esquece não dá pra enternecer tudo o que não se vive com a delicadeza que eu tive eu agora não vou regugitar essa mordaça em ninguém tô comigo mesma
tô comigo mesma

e foi tão bom que você apareceu me inventou dançou lambeu pena que já desapareceu tudo em mim não pude nem criar dessa vez o melhor de tudo é quando as coisas dão tempo de acontecer e se eu continuar um velho marinheiro vesgo visitando país arruinado de país arruinado um dia vou ter que conseguir um emprego
e não ficar com 40 anos virar homem até os 40 anos e ter uma barriga enorme e ficar pensando na mesada da minha mãe enquanto olho o armário de vidro separado no supermercado com as bebidas caras os whiskys e também as giletes - por que será que as giletes ficam ali? são fáceis de roubar? ou uma pessoa que as compra tem que ter cara de intenção de se depilar e não se suicidar? estariam os supermercados fazendo um bem-serviço para o público social humano não se matar? mas e a gordura hidrogenada? e os hormônios nos frangos? e a vida sem pêssego em calda?
então ele parou de me escrever eu parei de escrever pra ele e ele não é uma mesma pessoa
eu gosto dos pronomes indefinidos porque eles são funcionais quem inventou isso aqui assim como quem inventou as mesas e também quem inventou qualquer coisa que seja suficientemete bué da fixe é alguém genial
as línguas foram inventadas por mim, todas elas. é por isso que eu escrevo tão bem.
ele riu, quando perguntou que estilo você escreve? e eu quis entender o que ele queria dizer com isso? "mais racional ou mais emotivo?" eu VIRGE TÔ NO MEIO DO CAMINHO. ele riu e não entendeu. daí eu peguei o ombro dele, era bonito ele e tinha cheiro de sabão novo, e aparência do melhor abraço do mundo e ele fez mais duas ou quatro formas de dizer como poderia ser que eu escrevo até que falei: definitivamente, você quer saber? eu escrevo bem.
e esquecer sobretudo esquecer eu tô precisando de esquecil, não de anonimato
mas também não sei porque profissionalizar (escrever) a coisa que eu mais gosto de fazer (assim, profissionalmente)
quando eu me sinto com 16 anos eu me sinto com 22 também e depois agora com 26 eu tô me sentindo de um jeito que nunca me senti antes? que é um jeito que eu não tô sentindo NADA ai meu fernarndo pessoa no oratório ai fernandinho me ajuda que eu leio o bernardo soares e acho ele tão realista ai fernando pessoa meu que pastel de natas poderá me salvar? será que tá faltando graviola? ou é rabiola? rabanada rebuscada schoppenhauer chopin é c'os cacete
ah! aquela do arnaldo.
faz nem um ano que ouço arnaldo antunes.
"qualquer coisa que se sinta"
agora eu vou escutar, não vou escrever.
ah só quero dizer uma coisa a mais
e agora, quem poderá me liquefazer?

cada coisa por dentro é feita de pedra
de atiradeira passo à contração
consolatriz sem convicção
tenho duas gajas cheias de gaivotas esperando pra cagar em você / elas vivem em gaiolas sobrenaturais
(nas gaiolas sobrenaturais tudo tem cor de raio-x / inclusive os mêandros dos brócolis)
"em Portugal o letreiro dos taxis ocupados parece chamar mais atenção do que os dos desocupados". meu amigo riu.
íamos em busca da chave.
aqui em mim tudo ruiu.
no último mês me colocaram (milkshake) num liquidificador lançaram-me por dentro em tudo em tudo e zzzzzzás me devolveram sorvete de novo no pote
percebi que não tenho nenhum medo absolutamente medo nenhum de não saber pra onde vou, meu único medo é de continuar assim como e onde estou.
e já senti tanto isso que parece ser uma vertente da minha vida
será que é possível derrubar vertentes da própria vida como numa casa se retirar as paredes?
UMA CASA EM QUE SE TIRASSEM AS PAREDES E O AR CAÍSSE SOBRE NÓS
esse ar veio parar no meu pulmão esquerdo
cada noite a cama numa posição diferente e tantas emergências na nossa conquista de encontro e vigilância e as vidas de redor sempre a arder nossa vida mesmo sempre a se querer como nossa e a certeza de que o que vale é crescer, ser sempre jovem, humildizar sem desdém por si mesmo no tamanho de envolver a vida com o que é e comer bem um coração que não tivesse centro eu aprendi tanto que depois até me despreendi agora precisamos ir tomar um gelado pra falarmos a respeito as pálpebras que acompanham as órbitas vivem mesmo é dos nossos lábios fechando com o calor minha boca também está seca não estou em brasília não sou ana cristina e
os dois vão se encontrar numa rua qualquer e vão se abraçar e vão saber quem está mais nervoso que o outro vão ter certeza que estão mais nervoso que o outro e até que em algum momento eu vou aparecer e convidar pra dançar e a gente vai dançar e depois de manhã vamos sentir fome e vai ser preciso comer e vamos ter certeza que não há, nem nunca houve, amizade mais brilhante do que a nossa, e ainda bem que acontece
sem amor todo meu corpo me chama atenção ATENÇÃO estás VIVA E SEM eu quero um coração batendo novíssimo que me retire desse estado de pedra acho que amanhã vou à praia tomar banho de novo ou ficar imóvel imóvel embaixo de mim mesma que é o mesmo que estar por fora de ti (ainda bem que estou por fora de ti) e encavocar um escaravalho no lugar do coração ninguém acredita quando eu digo cuidado que em mim mora o Maior Escorpião e ele atravessa os ferrolhos das portas pelas órbitas
"nos anos 60, sabe? aquela época em que tudo era permitido, o amor livre, só não valia arrancar os olhos das órbitas"
me espanta a naturalidade como as pessoas falam sem parar e convictamente que dizer coisas com lógica vai fazer uma lógica eu que incendeio tudo ao redor em mim em busca de uma escrita mais debruçada em desconcatenar e ao mesmo tempo incidir como a única pequena luz viável naquela brecha de prédio e que faz toda a diferença no caminhar de alguém que vem confortavelmente reparando em viver e nos caminhos sempre úteis na sua inutilidade contínua
e eu que já saí de tantas já entrei em tantas acho que é mesmo a única solução viver desenfreadamente até que algo nos refreie
(eu tô freiada até os dentes, tô um burro morto, mataram um burro nos meus dentes ele já tava empacado agora ele tá até apodrecendo pobre burro pobres dentes pobre dentifrício insuficiente e que ainda por cima o miúdo de alguém rouba pra colocar na escova de dentes de dinossauro e depois quando ele fala disso parece que enlouqueceu num mundo de artifícios de plástico mas ainda podemos contar com os jardins e nesses jardins descobrir que não há porque não estar a todos os momentos perto dos jardins das árvores das marés e que as marés e seus marulhos e conchas são tão incendiários como o arder conflituoso dos joelhos, a sálvia que eu vou me dar de presente amanhã vai ser ela, certamente, que vai arder em mim essa insuportabilidade tensa de resistir eu
eu resisto tanto que resistindo não desfaço
viajei completamente no próprio sentimento, eu já contei, namoro o amor, ele me namora, somos abelha na florzinha o mel é que é um outro que se interpõe de substrato entre nossas espécies naturais e eu poderia me arrepender de tudo tantas vezes e não sei se é melhor ou pior (lembrei que comprei uma bicicleta que usei 4 vezes e esqueci no fundo de um coberto úmido, mais uma vez e agora lá deve estar anoitecido já e frio, mais frio do que aqui, eu vivi lá nessa época do ano passado e eu resistia a todas essas oscilações escrevendo e organizando e trabalhando e comendo conforme meu apetite e a geladeira cheia)
tudo que eu deixei pra trás, inclusive o analista, a análise não me larga mais, jamais. o analista também não. é um amor.
no fundo, eu sou capaz
ele não, ele é um estúpido de aberrante e um estúpido duplicado porque sabe que é um estúpido é quantas vezes mais estúpido por isso? um estúpido que é uma flor não deixa de ser um estúpido.
fazia tempo que ninguém me olhava como ele assim debaixo e com óculos depois sem óculos e uma sacolinha de algodão pra aclimatar as texturas das conclusões indefinidas mas dessa vez eu não quis brincar de em aberto eu quero é o resolvido resolvendo-se mútuo com você que eu posso ser franca eu até levantei o pézinho na frente do comboio que ninguém me beijava assim com dois lábios grossos que tens que delícia és, quer?
não sei quem sabe o que será de ti agora? bebes em algum lugar pensando que ainda és o mesmo colecionador de histórias de amor enquanto ele bebe os fracassos de tudo que nunca encostou um fio de cabelo por não passar da peneira de si mesmo doido doido pra ter os tornozelos até os tornozelos embebidos de desejo e mordidas mas depois de um tempo ou a gente vive ou esquece não dá pra enternecer tudo o que não se vive com a delicadeza que eu tive eu agora não vou regugitar essa mordaça em ninguém tô comigo mesma
tô comigo mesma
e foi tão bom que você apareceu me inventou dançou lambeu pena que já desapareceu tudo em mim não pude nem criar dessa vez o melhor de tudo é quando as coisas dão tempo de acontecer e se eu continuar um velho marinheiro vesgo visitando país arruinado de país arruinado um dia vou ter que conseguir um emprego
e não ficar com 40 anos virar homem até os 40 anos e ter uma barriga enorme e ficar pensando na mesada da minha mãe enquanto olho o armário de vidro separado no supermercado com as bebidas caras os whiskys e também as giletes - por que será que as giletes ficam ali? são fáceis de roubar? ou uma pessoa que as compra tem que ter cara de intenção de se depilar e não se suicidar? estariam os supermercados fazendo um bem-serviço para o público social humano não se matar? mas e a gordura hidrogenada? e os hormônios nos frangos? e a vida sem pêssego em calda?
então ele parou de me escrever eu parei de escrever pra ele e ele não é uma mesma pessoa
eu gosto dos pronomes indefinidos porque eles são funcionais quem inventou isso aqui assim como quem inventou as mesas e também quem inventou qualquer coisa que seja suficientemete bué da fixe é alguém genial
as línguas foram inventadas por mim, todas elas. é por isso que eu escrevo tão bem.
ele riu, quando perguntou que estilo você escreve? e eu quis entender o que ele queria dizer com isso? "mais racional ou mais emotivo?" eu VIRGE TÔ NO MEIO DO CAMINHO. ele riu e não entendeu. daí eu peguei o ombro dele, era bonito ele e tinha cheiro de sabão novo, e aparência do melhor abraço do mundo e ele fez mais duas ou quatro formas de dizer como poderia ser que eu escrevo até que falei: definitivamente, você quer saber? eu escrevo bem.
e esquecer sobretudo esquecer eu tô precisando de esquecil, não de anonimato
mas também não sei porque profissionalizar (escrever) a coisa que eu mais gosto de fazer (assim, profissionalmente)
quando eu me sinto com 16 anos eu me sinto com 22 também e depois agora com 26 eu tô me sentindo de um jeito que nunca me senti antes? que é um jeito que eu não tô sentindo NADA ai meu fernarndo pessoa no oratório ai fernandinho me ajuda que eu leio o bernardo soares e acho ele tão realista ai fernando pessoa meu que pastel de natas poderá me salvar? será que tá faltando graviola? ou é rabiola? rabanada rebuscada schoppenhauer chopin é c'os cacete
ah! aquela do arnaldo.
faz nem um ano que ouço arnaldo antunes.
"qualquer coisa que se sinta"
agora eu vou escutar, não vou escrever.
ah só quero dizer uma coisa a mais
e agora, quem poderá me liquefazer?
sábado, 17 de julho de 2010
quinta-feira, 15 de julho de 2010
um país planctônico
o vento em Lisboa às vezes é tão forte que é como ter passagens a arder
sei que minha máquina de escrever está cheia de pêlos de gatos, mas eu não tenho mais gatos. e nem um aspirador de pó para retirá-los. não sei o que é então que estou fazendo da minha vida se não tenho gatos nem um aspirador de pó nem um homem pra me fazer esquecer que não tenho gatos nem aspirador de pó nem pai nem mãe por perto só uma garrafa de vinho do alentejo uma meia dúzia de livros de poetas mortos (que são tudo menos mortos) e também não foram eles que sujaram a minha máquina de escrever. ah se pelo menos eu tivesse aprendido contigo a leve arte de precaver os objetos da deterioração, mas nem isso, minhas calças sempre rasgam, as palavras ferem, e desconfio que ninguém, nunca mais, ninguém, entrará pela minha porta a não ser que seja pra dizer adeus, que nunca estive aqui.
sei que minha máquina de escrever está cheia de pêlos de gatos, mas eu não tenho mais gatos. e nem um aspirador de pó para retirá-los. não sei o que é então que estou fazendo da minha vida se não tenho gatos nem um aspirador de pó nem um homem pra me fazer esquecer que não tenho gatos nem aspirador de pó nem pai nem mãe por perto só uma garrafa de vinho do alentejo uma meia dúzia de livros de poetas mortos (que são tudo menos mortos) e também não foram eles que sujaram a minha máquina de escrever. ah se pelo menos eu tivesse aprendido contigo a leve arte de precaver os objetos da deterioração, mas nem isso, minhas calças sempre rasgam, as palavras ferem, e desconfio que ninguém, nunca mais, ninguém, entrará pela minha porta a não ser que seja pra dizer adeus, que nunca estive aqui.
Não encontro
no meio de todas essas histórias
nenhuma que seja minha.
Nenhum desses temas me consola.
Espero ardentemente que me telefonem.
Espero que a chuva pare e os trens voltem a circular.
Espero como se estivesse em Lisboa
e sentisse saudades de Lisboa.
Bateriam à porta, chegariam os parentes queridos, mortos recentes,
e não me dou por satisfeita. Mas os figurinos na noite de
estréia! imediatamente antes!
A goma, o brilho no camarim.
Ana Cristina Cesar, dos Inéditos e dispersos
no meio de todas essas histórias
nenhuma que seja minha.
Nenhum desses temas me consola.
Espero ardentemente que me telefonem.
Espero que a chuva pare e os trens voltem a circular.
Espero como se estivesse em Lisboa
e sentisse saudades de Lisboa.
Bateriam à porta, chegariam os parentes queridos, mortos recentes,
e não me dou por satisfeita. Mas os figurinos na noite de
estréia! imediatamente antes!
A goma, o brilho no camarim.
Ana Cristina Cesar, dos Inéditos e dispersos
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terça-feira, 13 de julho de 2010
quinta-feira, 8 de julho de 2010
o que acabou não cessa de começar: amor
meus ombros viraram uma asa delta desde que você me apareceu. sobrevôo a cidade, ninguém vai partir. cobriram os aeroportos de festas. os vigilantes das bagagens começaram a dançar, os cães farejadores se roçam e o próprio raio-x se acelerou ao ponto de criar uma batida, destroçou os vidros e o sol come por dentro da sala de embarque. sim, fui eu, ele meu, imperador. o nome do rei é Tempo e ele dá morangos às carabinas.
os frutos imitam o sangue nas propriedades de uma boca. alguém em mim aprenderia a amar tudo o que é incerteza e a descobrir todas as ultrapassagens da lógica. cheguei na selva : o que eu sinto é verde e denso e úmido e não é você. escuta: uma lógica que não é silêncio. é hiato. o esquecimento é uma produtividade. tenho vivido.
somos todos pessoas, impressionantes as coisas que precisamos dizer para nos lembrarmos.
os frutos imitam o sangue nas propriedades de uma boca. alguém em mim aprenderia a amar tudo o que é incerteza e a descobrir todas as ultrapassagens da lógica. cheguei na selva : o que eu sinto é verde e denso e úmido e não é você. escuta: uma lógica que não é silêncio. é hiato. o esquecimento é uma produtividade. tenho vivido.
somos todos pessoas, impressionantes as coisas que precisamos dizer para nos lembrarmos.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
o que é o tempo

clarisse: HAHAHAHAHAHAHAH
esse comentario a 5 anos atras nao teria acontecido!!!
eu: hahahahahha não mesmo
em nenhum sentido
se ele me abraçasse por trás hahahah never
o q é o tempo, não é minha filha
pra ver a voz
o B me explicou dia desses que nós ouvimos a própria voz diferente do que os outros ouvem porque escutamos a vibração no osso, nos ossos.
coloquei o rosto, o ouvido no peito dele e o ouvi falar. então escutei duas vezes a voz.
será que há algum lugar do corpo de outro que se encostamos ouvimos a voz que o outro ouve ao falar? em que haja coincidência.
talvez procurar o lugar seja o amor.
coloquei o rosto, o ouvido no peito dele e o ouvi falar. então escutei duas vezes a voz.
será que há algum lugar do corpo de outro que se encostamos ouvimos a voz que o outro ouve ao falar? em que haja coincidência.
talvez procurar o lugar seja o amor.
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amor
criar compostagem
deito-me às 2h30. durmo às 4h30. levanto às 5h30. como. volto a dormir. acordo 12h30. não consigo entender quando chega às 16h30 e não vivi nem metade do dia.
encontro antes de dormir mil coisas. parece que é essa a viagem, viver como se fosse um hotel de mim mesma. fechei os olhos e noitei que dou muito foco aos órgãos da barriga. porque pensei que a pele também é um órgão. os ossos são um órgão? então fiquei desconcentrando a informação pra todo o corpo, conversei com meus pés durante horas. mas com eles até que é fácil conversar. pensei então nos músculos, tendões. eu estava por dentro de tudo. pra conversar não é preciso se mexer. então pensei que os gatos também são assim, se concentram na barriga. as patas são pra movimentar. os órgãos, não os chamam "vitais"? estarei então concentrada em viver?
encontro antes de dormir mil coisas. parece que é essa a viagem, viver como se fosse um hotel de mim mesma. fechei os olhos e noitei que dou muito foco aos órgãos da barriga. porque pensei que a pele também é um órgão. os ossos são um órgão? então fiquei desconcentrando a informação pra todo o corpo, conversei com meus pés durante horas. mas com eles até que é fácil conversar. pensei então nos músculos, tendões. eu estava por dentro de tudo. pra conversar não é preciso se mexer. então pensei que os gatos também são assim, se concentram na barriga. as patas são pra movimentar. os órgãos, não os chamam "vitais"? estarei então concentrada em viver?
sexta-feira, 11 de junho de 2010
quarta-feira, 9 de junho de 2010
mas não sorrimos à toa
os dias se encontram como pontos finais, ou desenham um arco, é, melhor assim: um arco. antes de dormir e ao acordar, parece que as energias coincidem, as forças que sinto, vontades e clarezas - - - enquanto o meio é um tremendo meio. as madrugadas e manhãs: paredes de um canyon, todas as tardes: abismo desértico, isso de nariz entupido, o vento tão chato. lá no meio da rua, no meio do banco, o caixa do banco era outro, não era o de sempre, e fez anedota com o meu nariz, com meu responder "oi" ao não entender (se eu fizesse cara feia toda vez que um português me diz "força" ah se eu fizesse), me ofereceu um comprimido e a tarde ventava imensa, não era brasil, não era brasil. minha capa de chuva parecia de cobre porque não chovia, era ontem o dia da chuva, hoje era só vento e sair contra revelia. - - - - -
-------- acordei que nem contei: não tinha pão, abri uma lata de pêssego em calda joguei sucrilhos e linhaça, meu dia começou assim. agora terminou com iogurte de pêssego, aí estão os ciclos de sucrilhos, todos terminados, passando pela tarde com espinafre, frango, arroz integral e cenoura, não li o nietzsche que eu tenho que ler (antes quando não tinha, eu lia), respondi uns 3 ou seis emails, todos eles contando da minha técnica de exaustão (eu gosto disso, de ter muitos emails todos os dias, respondo a cada um deles e antes de dormir faço a minha oração compaixão com os escritores destinatários compaixão que eles nos levem à sério e não e percebam que sou só remetente de palavras que me remeteram em vigores lombos adestrados e vazios escrever, nunca te metas com um escritor se quiseres um par leal com as palavras um escritor vai dizê-las vai dizer-te tudo que pensa vai trançá-lo até o extase e depois BANG acabado BANG BANG BANG vai meter na tua caixa palavras de um ódio frio e ameno sempre estará do outro lado se revigorando com elas sempre maravilhado com as caixinhas de montar com a propriedade das palavras de provocarem misturarem incitarem CLARÕES - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - pois que palavra essencial é amor é amizade é eu e és tu - - - - - - voltamos) como um método de sucumbir para depois levantar, pensei como somos jovens, como somos jovens, como somos jovens, COMO SOMOS JOVENS, e de repente passa e não seremos jovens e não poderei mais usar a minha técnica infalível do recomeçar derrubando a arrogância no salão dos espirros recobrindo a humildade com catarro eu não poderei contar-te cem mil coisas - - - - - só duas ou três que te parecerão cem mil coisas de tanto que te acompanharão pelos incêndios e insônias, e ao plantar os pés de alface - sonífereas e insípidas- do teu cotidiano. -- - - - - - - - então descubro que com tanto contágio do meu amor querente passaste para mim seu vivo ostra de ser modos, agora sou eu que enclausurada estou numa rocha, e é ele, o sempre outro, o sempre vivo outro, que se aproxima da rocha e olha a mim mexilhão, com todos os olhos d miúdo que nunca tinha visto tais seres colados às rochas marinhas, e sem enciclopédia ou discovery channel, tenta ver-me e, maravilhado, quiçá, oxalá e colchão, o miúdo ama as pérolas e sabe mastigá-las com os dentes até parti-las, como eu, um dia, também contigo tentei.
-------- acordei que nem contei: não tinha pão, abri uma lata de pêssego em calda joguei sucrilhos e linhaça, meu dia começou assim. agora terminou com iogurte de pêssego, aí estão os ciclos de sucrilhos, todos terminados, passando pela tarde com espinafre, frango, arroz integral e cenoura, não li o nietzsche que eu tenho que ler (antes quando não tinha, eu lia), respondi uns 3 ou seis emails, todos eles contando da minha técnica de exaustão (eu gosto disso, de ter muitos emails todos os dias, respondo a cada um deles e antes de dormir faço a minha oração compaixão com os escritores destinatários compaixão que eles nos levem à sério e não e percebam que sou só remetente de palavras que me remeteram em vigores lombos adestrados e vazios escrever, nunca te metas com um escritor se quiseres um par leal com as palavras um escritor vai dizê-las vai dizer-te tudo que pensa vai trançá-lo até o extase e depois BANG acabado BANG BANG BANG vai meter na tua caixa palavras de um ódio frio e ameno sempre estará do outro lado se revigorando com elas sempre maravilhado com as caixinhas de montar com a propriedade das palavras de provocarem misturarem incitarem CLARÕES - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - pois que palavra essencial é amor é amizade é eu e és tu - - - - - - voltamos) como um método de sucumbir para depois levantar, pensei como somos jovens, como somos jovens, como somos jovens, COMO SOMOS JOVENS, e de repente passa e não seremos jovens e não poderei mais usar a minha técnica infalível do recomeçar derrubando a arrogância no salão dos espirros recobrindo a humildade com catarro eu não poderei contar-te cem mil coisas - - - - - só duas ou três que te parecerão cem mil coisas de tanto que te acompanharão pelos incêndios e insônias, e ao plantar os pés de alface - sonífereas e insípidas- do teu cotidiano. -- - - - - - - - então descubro que com tanto contágio do meu amor querente passaste para mim seu vivo ostra de ser modos, agora sou eu que enclausurada estou numa rocha, e é ele, o sempre outro, o sempre vivo outro, que se aproxima da rocha e olha a mim mexilhão, com todos os olhos d miúdo que nunca tinha visto tais seres colados às rochas marinhas, e sem enciclopédia ou discovery channel, tenta ver-me e, maravilhado, quiçá, oxalá e colchão, o miúdo ama as pérolas e sabe mastigá-las com os dentes até parti-las, como eu, um dia, também contigo tentei.
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terça-feira, 8 de junho de 2010
play with fire
sim e isso é tanto, mas as coisas se vão embora também nossas células se trocam quantas novas é tudo já renovado, resetado em quantos anos? onde será que estaremos daqui 20 anos? que pessoas nos tocarão? se esse ano é Hilda Hilst a maior escritora que já li quem será em 2030?
"Ai Senhor, tu tens igual a nós o fétido buraco? Escondido atrás mas quantas vezes pensado, escondido atrás, todo espremido, humilde mas demolidor de vaidades, impossível ao homem se pensar espirro do divino tendo esse luxo atrás, discurseiras, senado, o colete lustroso dos políticos, o cravo na lapela, o cetim nas mulheres, o olhar envesgado, trejeitos, cabeleiras, mas o buraco ali, pensaste nisso? Ó buraco, estás aí também, no teu Senhor?"
não sei dos lugares adiante, tão pouco tu sabes, e sigo, segues, somos seguidos.
dia desses duas moscas zumbiram em seqüencia no meu ouvido, mas não as pude ver. estive certa por dois segundos e tremi: É A LOUCURA.
que coisa forte que é.
alazão, alazão, acalma-te.
"Ai Senhor, tu tens igual a nós o fétido buraco? Escondido atrás mas quantas vezes pensado, escondido atrás, todo espremido, humilde mas demolidor de vaidades, impossível ao homem se pensar espirro do divino tendo esse luxo atrás, discurseiras, senado, o colete lustroso dos políticos, o cravo na lapela, o cetim nas mulheres, o olhar envesgado, trejeitos, cabeleiras, mas o buraco ali, pensaste nisso? Ó buraco, estás aí também, no teu Senhor?"
não sei dos lugares adiante, tão pouco tu sabes, e sigo, segues, somos seguidos.
dia desses duas moscas zumbiram em seqüencia no meu ouvido, mas não as pude ver. estive certa por dois segundos e tremi: É A LOUCURA.
que coisa forte que é.
alazão, alazão, acalma-te.
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domingo, 6 de junho de 2010
não vês que teu mal é perdição? e que descanso além d'em exaustão só há no amor?
que idéia convulsa a que tens do amor, des-vivida, se nas encruzilhadas dos teus imaginários os amores são cães que se encontram, e latem, e saltam atrás das rodas enquanto atravessam a rua e se coçam de poeira na sarjeta
no que coube a mim enterrei todas as cordilheiras, achava. mas viramos as fronteiras de nós mesmos, não é preciso nem voltar-se pras costas e essas coisas sobem em (todos) nós como trepadeiras, fortalezas. que espécie de orgulho é esse que não permite uma pessoa deitar ao lado de outra pessoa. e só isso. um compartimento sem rigidez, um caber-nos.
se eu tivesse olhos nas costas também acharia que o terremoto (quando vier) virá por trás de mim?
que sabe me explicar perfeitamente/ e não me entende / e não entende nada (...)/ e nunca o ato mero/ de compor uma canção foi tão desesperadamente necessário
nem duas palavras consigo escrever sem me sentir improvável, precária, falante. quero o amor pelo ritmo, seja lá isso o que for. amor, excedente.
que idéia convulsa a que tens do amor, des-vivida, se nas encruzilhadas dos teus imaginários os amores são cães que se encontram, e latem, e saltam atrás das rodas enquanto atravessam a rua e se coçam de poeira na sarjeta
no que coube a mim enterrei todas as cordilheiras, achava. mas viramos as fronteiras de nós mesmos, não é preciso nem voltar-se pras costas e essas coisas sobem em (todos) nós como trepadeiras, fortalezas. que espécie de orgulho é esse que não permite uma pessoa deitar ao lado de outra pessoa. e só isso. um compartimento sem rigidez, um caber-nos.
se eu tivesse olhos nas costas também acharia que o terremoto (quando vier) virá por trás de mim?
que sabe me explicar perfeitamente/ e não me entende / e não entende nada (...)/ e nunca o ato mero/ de compor uma canção foi tão desesperadamente necessário
nem duas palavras consigo escrever sem me sentir improvável, precária, falante. quero o amor pelo ritmo, seja lá isso o que for. amor, excedente.
terça-feira, 1 de junho de 2010
alforria blues
em um dia otimista
se eu escrevesse tanto quanto lavo a louça, já tinha ganhado o nobel
1/3 da vida é faxina outro terço a gente passa dormindo ou comendo o outro terço
se eu escrevesse tanto quanto lavo a louça, já tinha ganhado o nobel
1/3 da vida é faxina outro terço a gente passa dormindo ou comendo o outro terço
quinta-feira, 27 de maio de 2010
meus lábios estão partidos e acho que me apaixonei. preciso fazer uma lista das coisas que me importam e dar pra ele. abacate com limão ardeu minha boca. a água do banho estava quente e me queimou os pés. nunca ganhei um anel de alguém, ao que parece, ainda estou livre. e se um dia nosso amor me encher de dúvidas, não saberei como resolvê-las.
vitalidade
o espelho: dividir o corpo em heterônimos.
o mundo: espalhar os heterônimos em cores.
as cores: repartir os espelhos com todos.
o mundo: espalhar os heterônimos em cores.
as cores: repartir os espelhos com todos.
diria nessa manhã que já é tarde
XIV
Uma viagem sem fim, Túlio, eu te proponho
Um percorrer o mundo, vagaroso, uns caminhares
Largos, entre a montanha e o vale, e acertos
Entre nós dois, nós viajores, nós repensando
Os rios,
E um campo de papoulas nos tomando, um frêmito
Luminoso,
Agudos, inquietantes no entender dos outros,
Lúdicos como convém a cálidos amantes.
Viagem de madrugada milenares, Sírius intensa,
Tudo ao redor papoulas e cerejas, como convém
A mim, louca de lucidez, e como a ti, Túlio,
Comigo, te convém.
[Hilda Hilst, do "O poeta inventa viagem, retorno, e sofre de saudade" no Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão.]
XIV
Uma viagem sem fim, Túlio, eu te proponho
Um percorrer o mundo, vagaroso, uns caminhares
Largos, entre a montanha e o vale, e acertos
Entre nós dois, nós viajores, nós repensando
Os rios,
E um campo de papoulas nos tomando, um frêmito
Luminoso,
Agudos, inquietantes no entender dos outros,
Lúdicos como convém a cálidos amantes.
Viagem de madrugada milenares, Sírius intensa,
Tudo ao redor papoulas e cerejas, como convém
A mim, louca de lucidez, e como a ti, Túlio,
Comigo, te convém.
[Hilda Hilst, do "O poeta inventa viagem, retorno, e sofre de saudade" no Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão.]
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domingo, 23 de maio de 2010
o fim da história
se essa história acabar como está, certamente. certamente minha fatal memória será das promessas cumpridas em frustrações, sucessivamente.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
quinta-feira, 20 de maio de 2010
o problema da internet a todo momento, do uso da internet a todo momento é que ela é uma permeabilidade extensa que inibe outras permeabilidades. por exemplo o som dessa mesa sem o ruído do computador. porque a madeira da mesa não grita, mas vive. desligado aqui, posso encontrar a fibra da minha própria mesa de estar. sem esperar pelo e-mail de ninguém. quantas vidas ainda se tem, nessa? quero uma outra vida, e que ela seja desconectada.
os livros que atravessaram
os livros que me atravessaram até agora reencontrei com eles
em realidade eu só sei fazer uma correspondência entre uma coisa e outra
e ver
brilhar eu gosto das coisas que brilham e são quentes
gosto de ver e de olhar sem ver
aqui fica tão seco
os livros que atravessaram o Atlântico enviados pelo meu pai, os livros
livros que eu escolhi livros que eu roubei da minha estante de livros no embu
eu a cada dia mais gosto dos livros porque eu no começo não gostava deles
é preciso abrir os livros
e eu gosto de pessoas e de música
que vem até mim, os livros não chegam a tanto sem meu impulso
e meus impulsos são corriqueiros
eu gostava de escrever porque era o que me acontecia porque alguma coisa pra contar ou simplesmente dançar porque escrever é perder toda a atenção e esquecer o rosto em cima de alguma coisa que é uma chama
e eu nunca nem pensava que isso um dia daria em um livro e que depois eu ia querer fazer outro livro
(fase em que agora me encontro_ _ as moedas também estão ali nessa fase pra correrem esse risco de serem minhas até que eu precise tanto delas que darei a outro, em troca)
mas tudo isso porque eu quero dizer, eu quero dizer, eu quero dizer
que os livros atravessaram do Brasil pra cá durante um mês e ainda assim chegaram úmidos por dentro, da carne do meio das páginas, os livros que estavam úmidos será que é essa a hora de com algodão secá-los da úmida solidão do que está escrito mas, veja bem, eu vejo.
eu que já disse que gosto de ver senti o cheiro da umidade brasileira e, digo mais, tenho alergia
faz uma semana que leio, leio, leio. pra depois escrever, escrever. entendi muita coisa essa semana. entendi, por exemplo, a importância da transmissão. também porque esquentou maravilhosamente esquentou. e eu fiquei feliz. eu fiquei tão feliz esses últimos dias com a vida mesmo e só.
depois pensei que me aconteceram umas coisas maravilhosas nos últimos dias.
e de repente me deu um medo e medo é vontade de poupar tudo.
(não estou poupando nada a não ser umas gorduras)
(enquanto isso a música alta, percebo, 0h00 em Portugal)
(27, 28 graus)
(em Portugal, Portugal não rima com grau)
(nossa língua desigual)
(esses últimos dias fiquei sem falar com ninguém vou no parque deito e tenho certeza que estão falando flamengo, esfrego os ouvidos e é português. depois é flamengo de novo. e às vezes é mesmo, flamengo, tcheco, russo, alemão. então todos estão falando português de Portugal.)
(acho que esse verão viro basco, baco, basquiat)
e o Leon K. escreve contra a "comunicação preservativa". eu acho que ele é mesmo o meu padrinho. amém em russo?
os livros que me atravessaram até agora reencontrei com eles
em realidade eu só sei fazer uma correspondência entre uma coisa e outra
e ver
brilhar eu gosto das coisas que brilham e são quentes
gosto de ver e de olhar sem ver
aqui fica tão seco
os livros que atravessaram o Atlântico enviados pelo meu pai, os livros
livros que eu escolhi livros que eu roubei da minha estante de livros no embu
eu a cada dia mais gosto dos livros porque eu no começo não gostava deles
é preciso abrir os livros
e eu gosto de pessoas e de música
que vem até mim, os livros não chegam a tanto sem meu impulso
e meus impulsos são corriqueiros
eu gostava de escrever porque era o que me acontecia porque alguma coisa pra contar ou simplesmente dançar porque escrever é perder toda a atenção e esquecer o rosto em cima de alguma coisa que é uma chama
e eu nunca nem pensava que isso um dia daria em um livro e que depois eu ia querer fazer outro livro
(fase em que agora me encontro_ _ as moedas também estão ali nessa fase pra correrem esse risco de serem minhas até que eu precise tanto delas que darei a outro, em troca)
mas tudo isso porque eu quero dizer, eu quero dizer, eu quero dizer
que os livros atravessaram do Brasil pra cá durante um mês e ainda assim chegaram úmidos por dentro, da carne do meio das páginas, os livros que estavam úmidos será que é essa a hora de com algodão secá-los da úmida solidão do que está escrito mas, veja bem, eu vejo.
eu que já disse que gosto de ver senti o cheiro da umidade brasileira e, digo mais, tenho alergia
faz uma semana que leio, leio, leio. pra depois escrever, escrever. entendi muita coisa essa semana. entendi, por exemplo, a importância da transmissão. também porque esquentou maravilhosamente esquentou. e eu fiquei feliz. eu fiquei tão feliz esses últimos dias com a vida mesmo e só.
depois pensei que me aconteceram umas coisas maravilhosas nos últimos dias.
e de repente me deu um medo e medo é vontade de poupar tudo.
(não estou poupando nada a não ser umas gorduras)
(enquanto isso a música alta, percebo, 0h00 em Portugal)
(27, 28 graus)
(em Portugal, Portugal não rima com grau)
(nossa língua desigual)
(esses últimos dias fiquei sem falar com ninguém vou no parque deito e tenho certeza que estão falando flamengo, esfrego os ouvidos e é português. depois é flamengo de novo. e às vezes é mesmo, flamengo, tcheco, russo, alemão. então todos estão falando português de Portugal.)
(acho que esse verão viro basco, baco, basquiat)
e o Leon K. escreve contra a "comunicação preservativa". eu acho que ele é mesmo o meu padrinho. amém em russo?
segunda-feira, 17 de maio de 2010
"a pior crise desde a 2a guerra mundial"
sonhei que o Algarve era bombardeado por Israel. eu e o Bernardo, a gente assistia na televisão. eram os algarvios que tinham começado. e os israelenses eram cruéis. as coisas voavam pelos ares em terracota e amarelo. comíamos milho em lata esperando o melhor.
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caderno público de sonhos
domingo, 16 de maio de 2010
armário e jardim
ontem estava no banco de trás do carro do meu pai e ele me pedia pra descer no mercadinho - - - o antigo kira onde duda e eu esperávamos que nos pegassem da escola (os espaços mudam de rota) - - - e comprar uma camiseta pra ele cuidar do jardim.
e hoje eu descia a escada e encontrava com a minha mãe, que abria as portas de todos os armários da cozinha da casa em que cresci e, furiosa, lançava os tuppewares e suas tampas para os ares.
e hoje eu descia a escada e encontrava com a minha mãe, que abria as portas de todos os armários da cozinha da casa em que cresci e, furiosa, lançava os tuppewares e suas tampas para os ares.
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caderno público de sonhos
sábado, 15 de maio de 2010
talvez os olhos marujos mais foscos
esquecer é sempre começar. entre os movimentos, o salto. você já reparou que ainda sou o novo (na sua vida)? força marítima.
ou querer escrever sobre algo. herberto helder. impressão de silêncio intransponível, casamento de si consigo, agitação de fundo, desnível e fábula.
ou querer escrever sobre algo. herberto helder. impressão de silêncio intransponível, casamento de si consigo, agitação de fundo, desnível e fábula.
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sweet comic valentine
sexta-feira, 14 de maio de 2010
guardião
dormi imensamente, como desde ficar muito doente não fazia. eu costumava ficar muito doente uma vez por ano, nos últimos 5. quando era menor eram duas vezes por ano, talvez uma por semestre. mas então resolvi que não, virei uma pessoa forte como os dentes-de-leão que crescem no mato balançam com o vento, se assopram, ficam só o caule e desaparecem.
essa noite sonhei com estradas, caminhos, viagens. estava com um amigo que não vejo há muitos anos. quase não falávamos. havia um cachorro enorme, negro e babão que morava dentro do carro antigo de funeral que dirigiamos. a música era k7 e boa, cantávamos. era sempre sol que iluminava o asfalto ao ponto de brilhar também as mais amarelas das flores banais. era tudo um interior sem tamanho.
chegávamos numa cidade com casas todas brancas e nada acontecia. essa letargia do espaço era o maior prazer. ou como se a vida fosse pra sempre férias, verão, caminho e solução. prazer nas forças. acordei meio muda, como se as palavras se saltassem e eu ficasse olhando, feito botar sal na comida.
e depois fui no correio.
essa noite sonhei com estradas, caminhos, viagens. estava com um amigo que não vejo há muitos anos. quase não falávamos. havia um cachorro enorme, negro e babão que morava dentro do carro antigo de funeral que dirigiamos. a música era k7 e boa, cantávamos. era sempre sol que iluminava o asfalto ao ponto de brilhar também as mais amarelas das flores banais. era tudo um interior sem tamanho.
chegávamos numa cidade com casas todas brancas e nada acontecia. essa letargia do espaço era o maior prazer. ou como se a vida fosse pra sempre férias, verão, caminho e solução. prazer nas forças. acordei meio muda, como se as palavras se saltassem e eu ficasse olhando, feito botar sal na comida.
e depois fui no correio.
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domingo, 2 de maio de 2010
città piu bella
por que é tão comum pessoas inteligentes ficarem cínicas? é uma estratégia de defesa nefasta. procurei esses dias no dicionário essa última palavra e é como a vez que sonhei "gosta de trepar com lápides", mas piorado. mas é sério: inteligência é um muito de saber fazer baliza, contrabalancear, ver os lados das questões, bambolê, como o tal do pássaro voando por entre as árvores e que não bate com o bico em nenhuma delas. e descobre sempre um novo-mesmo caminho. mas um cínico assina: "dessa árvore conheço tanto que nem tocarei na casca." é um horror, porque fica uma gente inexperimentada. e fútil.
#
o breno pediu pra eu não antecipar mais os poemas do novo livro no blogue!... e ele tem razão. o breno é muito meu amigo.
mas verso pode antecipar?
"descalcificar a cidade"
ainda não sei onde vou usar. mas percebi que minha noção da relação cidade-claustrofobia mudou completamente desde que vivo em Lisboa. sinto isso aqui, sim, também sentia (mais) em São Paulo. mas: veja bem: em São Paulo era rangente e urgente berrar contra contra. é uma cidade em ebulição que te ferve junto a mão. aqui tá tudo mais arruinado, mas é bonito e mais pacífico. tem uma música do Deolinda que ela canta
que a saudade
mais que um crime
é um castigo
e prisão por prisão
temos Lisboa
.
é por aí, até quando, não sei.
mas eu acho que meu verso ainda não usado tem mais haver é com isso aqui:
#
o breno pediu pra eu não antecipar mais os poemas do novo livro no blogue!... e ele tem razão. o breno é muito meu amigo.
mas verso pode antecipar?
"descalcificar a cidade"
ainda não sei onde vou usar. mas percebi que minha noção da relação cidade-claustrofobia mudou completamente desde que vivo em Lisboa. sinto isso aqui, sim, também sentia (mais) em São Paulo. mas: veja bem: em São Paulo era rangente e urgente berrar contra contra. é uma cidade em ebulição que te ferve junto a mão. aqui tá tudo mais arruinado, mas é bonito e mais pacífico. tem uma música do Deolinda que ela canta
que a saudade
mais que um crime
é um castigo
e prisão por prisão
temos Lisboa
.
é por aí, até quando, não sei.
mas eu acho que meu verso ainda não usado tem mais haver é com isso aqui:
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no mais, voltando ao cinismo, lembrei da personagem da psiquiatra no Persona que diz para a atriz interpretada pela Liv Ullmann e sua crise de silêncio, que na vida não há separação entre parecer/encenação e ser/realização.
#
e uma frase do Deleuze, diz algo como que a potência da modernidade é a produção de simulacros.
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agora que sou sincera
quinta-feira, 29 de abril de 2010
hey, resposta
é uma mudança paradigmática, certamente. talvez uma saída do texto como da internet. tantos usamos minúsculas, usarei, serão meus emails assim. mas no poema abaixo e, até segundo acontecimento espontâneo, em todos os novos, quero marcar que foram herberto helder, hilda hilst e iosif brodskii que me convenceram a usar maiúsculas. pelo ritmo, e suas outras possibilidades de clareza e pontuação, não foi ninguém não. nem eu mesma, aconteceu.
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poemas do destino do mar
quarta-feira, 28 de abril de 2010
II
Desde os dezesseis anos estou neste estacionamento.
Viagens, lustres, dinheiro: nada: se fecho os olhos o que vejo são vagas.
Não me balizaram. Fui eu mesma
vim viver aqui, não acredito mais, neste ângulo entre paredes.
Esperava deste parque aquele por quem a vida corria.
Ir com ele. Como um cometa,
uma pedra que me arrastava do centro, toda lançada,
natural como as baratas que sobrevivem desde os dinossauros.
Um arco e duas flechas. Sismo veio
todo o mundo do juízo, todo o meu poder de confissão.
Encontros de concreto, folhas de eucalipto caindo, putrefação.
Do que restou interessa a voracidade da alegria
um falar mais honesto emergirá na superfície
a pérola homem que cresce por dentro das ostras, das minhas coxas
transtorna o cotidiano
que vivia feito um pombo preso no túnel e depois alcançou a plataforma do metrô.
Mas os pombos não migram e prendem nas patas as linhas das pipas.
Do emaranhado solto o medo no meio e desfaço a tua relíquia.
Não é a primeira vez que lanço um pássaro sobre ti.
Desde os dezesseis anos estou neste estacionamento.
Viagens, lustres, dinheiro: nada: se fecho os olhos o que vejo são vagas.
Não me balizaram. Fui eu mesma
vim viver aqui, não acredito mais, neste ângulo entre paredes.
Esperava deste parque aquele por quem a vida corria.
Ir com ele. Como um cometa,
uma pedra que me arrastava do centro, toda lançada,
natural como as baratas que sobrevivem desde os dinossauros.
Um arco e duas flechas. Sismo veio
todo o mundo do juízo, todo o meu poder de confissão.
Encontros de concreto, folhas de eucalipto caindo, putrefação.
Do que restou interessa a voracidade da alegria
um falar mais honesto emergirá na superfície
a pérola homem que cresce por dentro das ostras, das minhas coxas
transtorna o cotidiano
que vivia feito um pombo preso no túnel e depois alcançou a plataforma do metrô.
Mas os pombos não migram e prendem nas patas as linhas das pipas.
Do emaranhado solto o medo no meio e desfaço a tua relíquia.
Não é a primeira vez que lanço um pássaro sobre ti.
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poemas do destino do mar
terça-feira, 27 de abril de 2010
quem conseguiu me perder
o que eu esperava era no parque de estacionamentos por um minuto avistar aquele por quem a vida corria. como uma estrela, uma pedra que me arrasava de energia, toda retirada, baratinava. sismo, relíquia. mas então veio todo o mundo do juízo , todo o meu poder de confissão. essa crença de que um falar profundo atingirá por toda superfície a pérola homem que cresce por dentro das ostras, das minhas coxas. transtornando o cotidiano como um pombo que ficou preso na plataforma do metrô, entre a estação de mim mesma e da mulher.
#
eu poderia fazer um livro de poemas de novo, ventríloquo. mas não é um livro de poemas. (depois disso até cifrei com um número no título: I) é um livro de um coração pra imensidão partido/ revolto. e que se pergunta onde para onde? o que pode vir e afirmar, sem que fique para trás?
#
quanto às citações, referências, reverências: de novo, têm me fatigado. a sucessão recorrente de dados, citações, como se abreviassem a vida. / e eu não conseguisse ler a cifra. ou fossem enganações partimentadas em frente a toda realidade. realidade = caótica, constante, absoluta. é. tudo é precário. às vezes na rua penso como esse velho conseguiu por tanto tempo?
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eu poderia fazer um livro de poemas de novo, ventríloquo. mas não é um livro de poemas. (depois disso até cifrei com um número no título: I) é um livro de um coração pra imensidão partido/ revolto. e que se pergunta onde para onde? o que pode vir e afirmar, sem que fique para trás?
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quanto às citações, referências, reverências: de novo, têm me fatigado. a sucessão recorrente de dados, citações, como se abreviassem a vida. / e eu não conseguisse ler a cifra. ou fossem enganações partimentadas em frente a toda realidade. realidade = caótica, constante, absoluta. é. tudo é precário. às vezes na rua penso como esse velho conseguiu por tanto tempo?
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domingo, 25 de abril de 2010
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