terça-feira, 7 de junho de 2011

último adeus III

sim, eu sei. eu vou dando rinocerontes sorridentes por aí. 
aquele que me quiser vai ter que abrir um zoológico pra me deixar livre dentro do gramadinho.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Nenhuma estação é lenta quando te acrescentas na desordem,

no mais, a sorte continua me atingindo, e as repetições têm me dado chances de fazer sempre de outro modo, ou do mesmo, só que mais ao lado.
ou um cavalo que me dessem pra guiar e estivesse cego com o coração disparado.

#

não consigo achar nem no meu antigo blogue qual foi o dia, a última vez que fui na análise. mas nunca deixei de escutar. alguém me disse que começava depois de largar. a gente se inventa, já queria baudelaire. - - - acordei e li um texo inteiro numa só pegada de viés inteiro inteiro e agora já é hora de dormir - lembrei que fui lendo por partes até conseguir ler inteiro. decorei umas partes quando lavava louça. amanhã vai ser dia de acordar e ler outro texto. esse ano estou fazendo uma coisa que nunca fiz, uma dissertação. é tipo um ritual de passagem, pelo que dizem. levarei flores para cima da mesa. comerei as flores com todos os presentes, antes que elas murchem.

#
coisinha insignificante essa experiência. é tudo o que penso, quando olho a relva (que grama fez um gajo rir muito). daí tenho aquele desejo de aniquilação que é sempre uma farsa que a gente se encena quando não tem mais ternura pra fazer. ou O DESEJO DE ANIQUILAÇÃO TCHAAAAAAARANS abre a cortina, você pensa que te acontece o quê?

vão esquecer de mim em outra vida, por favor. na minha quero que se lembrem de uma meia dúzia de coisas que dizem respeito só a vocês mesmo. nem me adianta vir tentar falar como se tivesse me esquecido que eu ponho DETALHES pra tocar.

#

e aquela puta do herberto helder escrevendo poemas de amor, de sexo, de paixão, ele descreve o pulso côncavo de uma mulher e como se falasse do rio - como esse verso que é o título dessa postagem - que só queria marcar mesmo que hoje foi um dia de correspondência importante.

domingo, 5 de junho de 2011

cansei de e-mails, sensações, literatura
astrologias, ninharias, rupturas
estou querendo querer (lembrei-me agora da época em que eu perguntava

Por que eu não sei o que eu quero querer? e o I Ching me disse algo muito importante que já não me lembro mais)

que eu faço de tudo
limpeza de fossas nasais
varreria até se pudesse quintais
sou uma baleia, copo de leite, um rabino
e um litro de sangue dentro de um cão
que abana o rabo se coça e sofre
de ninguém lhe esfregar as orelhas
duas ou três palavras amigas
domingo é o que não pode ser
pra sempre, meu coração.

dentição incompleta

a língua é um território em movimento dentro da boca ainda antes da boca em movimento a língua é um território em movimento dentro da boca ainda depois da boca a língua é um território em movimento fora da boca ainda

sábado, 4 de junho de 2011

se você pensa que cachaça é água

estou que não acredito. um pedaço de mim apaixonadíssima. outro pedaço completamente esquecida, retinta no esfriada. as duas coisas estão que não se anulam, nem me confundem, estão sobrepostas, trançadas, multiplicadas em possibilidades como se fatiassem o universo de bolos e eu tivesse-os todos como possíveis. vou comer até me dar dor de barriga. e vou parar, vou respirar, vou ficar sem pra ficar leve. vou viver até não ter fim o bololô que vou metendo cada vez mais densidade possível. densidade de encontros. me perguntaram assim (se perguntassem) "o que você faz da vida?" "eu? faço amigos." "e o que você faz com eles?", "trabalho, eu trabalho". possível, me perguntaram se eu achava possível viver certas coisas antes dos 30 e como sempre eu respondi que os meus possíveis são distintos dos possíveis de toda gente, mas isso não faz de mim (nem dos meus possíveis) uma pessoa ligeiramente especial, mas tão somente uma pessoa atenta às possibilidades, minhas e dos outros, de variarmos e sermos, inclusivamente, impossíveis.

confidência e imaginação

parece que só agora eu com os 27 anos faço uma cisão (na qual sempre me abismo) entre o que penso e a madeira que cobre o meu chão. dizem os especialistas que isso deveria ter me acontecido por volta dos 11 anos de idade. mas e a escolha? não será ela uma alucinação?

sei que agora gosto de não dizer, de perceber e de guardar, ou de simplesmente (e daí a aparição) notar que não estão vendo o que eu estou pensando, embora possam sentir ou saber, minha palavra não precisa (eu sempre tento) validar. e também perceber o contrário: estou tentando me comunicar, alguém me entende do jeito que eu gostaria? é sempre uma falta o que falta dizer, uma aproximação do que o outro pode entender. 
nessas horas o invisível está cheio de comunicação. acho que outra coisa que me acontecia é que eu só acreditava na palavra. hoje ela tem um lugar de potência e força que faz, justamente, desse um lugar qualquer, muito responsável lugar qualquer. 

e a gente não evolui, nem melhora. mas a gente amadurece. mas imagino que em dois segundos todo amadurecimento pode vir abaixo, com tempestades do nunca-visto ou do muito-conhecido. talvez as tempestades sejam sempre uma mistura de nunca-visto com muito-conhecido. o horror. o horror. 
lá vou eu. que quem acordou em mim hoje foi mrs. dalloway. 

besotes pra quem (não) me entendeu.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

tenho um novo amigo

A MENSAGEM DO TEU

A mensagem do teu lábio superior
salta bip o parapeito que nos separa
e habita urgentemente nos meus olhos
e repetidamente e urgentemente convoca os meus olhos
para a saudade publicada na tua cara
com slogans de néon interior

Sei que sabes uma palavra indecente
e que tens vergonha dela como se essa palavra fosse
a tua roupa de dentro

Sei o que pensas sei o que fazes
sei coisas que tu mesma não sabes
Sabes, por exemplo, que estás noiva? E que o malandrim
afinal de contas é sargento de infantaria?
Mas deixa lá homens é o que há mais
E (sabes?) os oficiais

O morse lábio bib bip noticia:
ATENÇÃO ATENÇÃO ESTOU QUASE SOZINHA
E sei pormenores da tua respiração
concretos, fotografias


#


O QUE ME VALE

O que me vale aos fins de semana
é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflmas
oh o teu amor não tem com
plicações viva aragon
morram as repartições

[Manuel António Pina]

terça-feira, 31 de maio de 2011


 
continuo, voltei a pensar: é que se as coisas que aconteceram antes em vez de estarem se repetindo no agora, se elas na verdade se repetiram foi no passado pra agora acontecerem originariamente? ou ser possível uma origem que vem do futuro? isto é, se o que acontece agora justifica o que vivemos antes?

tô com afta

impressionante ainda a música - ou para sempre - como uma espécie de droga (as drogas que dão re-start) emocional correnteza do limpo, que às vezes é pelo turvo que se acede.

(a poesia como acesso)

(a música como percurso)

.

ontem, antes de ontem, andamos a cidade toda. a cidade toda era indefensável. eu me precipitei em aceitá-la. agora já não sei mais mito de mim, Lisboa, por onde iremos adiante? quanto tempo mais dura o sol? estou sempre no depois, preocupada com o depois. vocês sabiam que eu ando estudando o futuro?
(acabei de notar que talvez seja isso, o futuro, isto aqui)
(mamãe me mandou não comer pepinos espanhóis) (nunca mais)
eu tenho um jeito de quem não se espanta braço de ouro vale dez milhoes eu tenho corações fora do peito mamãe não chore não tem jeito.

pra onde vou na minha língua, estrangeira?

domingo, 29 de maio de 2011

tenho uma nova amiga

A BOCA

em espessura do tempo feito infindo
em amor me feria dilatava

a boca era um leito um órgão de lava


#

O POEMA ENSINA A CAIR

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.


[Luiza Neto Jorge]

sexta-feira, 27 de maio de 2011

vida amorosa

esta.

nós vamos longe
e de longe regressaremos

#

a poesia é uma inervação magnética do coração - artaud.

corte

"você não sabia que dá azar comparar as mãos?"
do persona
eu tenho um corpo
grande e desimpedido
é nele impossível
habitar um só

roubo de quem passa
um mistério, todas as composições do amor
e o encontro

(estou impressionada com
as capacidades do meu
pescoço tentando falar
a um outro: juventude
                  precariedade
                  amor.
não te esqueças nunca.)

o cheiro de cebola nas mãos
não explica porque há meses
não choro

            (sou incapaz de fazer o necessário).

e como um resto de unha
não respeito o apêndice
(quero colocar tudo no corpo)

estou colocada
na lembrança
do nada.

o espetáculo do múltiplo

eu ontem (e antes de ontem também, tem me acontecido
assistir o espetáculo)
salvei uma planta da secura dos homens
então sonhei que havia
um vaso de musgo morto
eu enchia de água o redondo
até multiplicar
as plantas em evolução despoletavam
cresciam cresciam cresciam
era noite (e agora é dia e o navio que vem pelo Tejo apita)
e o vazio do vaso inchava e o musgo
fluorescente inflava até virar ninféias.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

sábado, 21 de maio de 2011

um lugar renasce de mim toda vez que a gente se fala.

terça-feira, 17 de maio de 2011

enciclopédia

galope

acordo em estado de dicionário
sei que enquanto não escrever meus ombros continuarão como as lombadas duras das capas
definitivamente é hora de acordar e meus olhos se despreendem de alegria quando sacudo os pés pra um lado e outro, ainda no colchão - os olhos despreendem das órbitas e começam a me olhar
depois do café chego na pia da casa de banho e tenho que lavar os dentes
a escova escova a pasta quase acabando da próxima vez colgate não, couto
couto é portuguesa. tiro todo o açúcar do café depois do pequeno almoço
para as cáries não corroerem todos os meus dentes
não que eu não tenha amor pelas coisas que vivem
não que a putrefação não seja uma forma, tão pouco sutil forma, de vida
não que eu ache que seja capaz de conter o destino das coisas, dos meus dentes
mas definitivamente meus poemas mentais são melhores do que os escritos
o que provocará certamente em quem lê uma vontade de estar por dentro
do meu corpo das minhas órbitas dos meus pés
coisa que eu até que gostaria, por não ter onde ser colocada na minha retirada de dentro para a sua entrada,
eu teria definitivamente como aquele cavalo que saiu da aldeia, definitivamente eu teria fugido.

domingo, 15 de maio de 2011

meu braço incendeia
não posso fazer nada
pra que ele seja capaz
de vir.

te vira

me dizem umas coisas cada coisa que me dizem e eu ficaria acobertada? VOU DIZER TAMBÉM VOU DIZER TAMBÉM daí desisto. sei que falta muito pouco pra hora de dizer, calando também dilacero teus olhos, meu bem. o silêncio dos escritores, imagina você se todos os escritores fizessem silêncio ao mesmo tempo? se todos os escritores fizessem silêncio primeiro em uma sala, depois fizessem silêncio em todas as salas do mundo, e também! ah também definitivamente à céu aberto o silêncio dos escritores atinge a lua, meu bem, teu coração tão sozinho para enfrentar o sempre.

eu não sei se o que trago no peito é ciúme despeito amizade ou horror

sonhei com você, amiga rara, antiga e desaparecida. não sei o que fazer. do sonho não me lembro. sei que a Flora também aparecia nele. a Flora.


essa era a Flora quando ela era titica.   nós também estamos separadas. 
e percebi que acho que essa angústia toda não é amor, nem trabalho. é saudade.

sábado, 14 de maio de 2011

Portugal

eu e carol estamos escrevendo um guião de cinema (que não é guião, são uma série de placas-cartazes que são cenas com acontecimentos e lista de materiais para as produções) que tem que estar pronto até 2a feira. que é o que nos diz a realizadora. na penúltima vez que vi a realizadora ela estava vestida inteira de azul e parecia que eu queria guardar num potinho, a geléia de carinho. eu e a carol temos uma reunião pra definir o guião de cinema hoje. hoje é sábado (dia 14 de maio. como vocês podem ver na data abaixo. é escrito isso aqui nesse momento mesmo. essas ferramentas de publicação nas mãos de alguém como eu nesses dias de hoje.



"nesses dias de hoje" é uma expressão preguiçosa, não é?). trabalhar no sábado é uma Lisboa de imensa primavera. amanhã temos a reunião de finalização do story line com realizadores e convidados, será num churrasco de sardinha com banho de mangueira.
tem algo de descontrole nisso tudo (escrever) e eu não posso me poupar do descontrole, acreditar que ele não existe, me corromper em direção ao entendimento de tudo, bobagem.



uma pessoa que te entende e por isso quer estar com você

sexta-feira, 13 de maio de 2011

o amor é pelo mundo em suas formas mais literais

se a vida continuar se vivendo pelo acaso dentro de poucos anos serei especialista em questões do futuro,
saberei como resolvê-las assim: equação de amor x solicitação de si = futuro; ou o resultado desse viaduto foi aquela viagem.

vou virar especialista em viagem, é. é isso.

bojador

olha o sol, amuado vai chover
internet e a publicação ansiotória. PUBLICAMOS DEMAIS vocês não acham?
currículo, currículo e biografia. sem isso a gente não circula?
ok.

vocês não acham que publicamos demais?
ok

Imitamos na frente da loja os gatos japoneses da sorte
mexendo meus bracinhos muito. Sorte haverá?

O amor é pelo mundo em suas formas mais literais.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

ainda não acabou

uma idéia de bamba bamba bamba
passou correndo sem tênis a idéia que eu fiz
era uma idéia-relâmpago, idéia-rasgante 
(embora "rasgante" esteja em baixa nos tempos de hoje)
pego as folhas todas de uma vez e nhac! como um animal a comesse
todos os papéis voados por cima do lixo em pedaços
palavras pra um lado, palavras pro outro, todas as palavras estão acirradas
querendo fazer parte uma das outras
é o bacanal do papel: a idéia que eu fiz de você.

(ainda não acabou)

vem a chuva e molha nosso amor de idéias
(amor? desejo.)
e eu lá sei desejar sem amor amar sem desejo?
(certas coisas, júlia hansen, precisavam recomeçar)

quando estava em sp da última vez deitada em uns colchonetes com 5 amigos
mas era tudo legalizado naquele salão
eu disse assim: CABE. cobertura! quero dizer: eu disse pro meu melhor amigo naquele colchão
(e das pessoas que eu mais gosto no mundo)
"acho que estou numa fase completamente nova na minha vida"

(ou o que conversamos tanto, eu e a minha amiga artista, Serei eu o último dos modernos?)

essa ânsia é uma ânsia? de que o mundo não cesse de recomeçar a cada instante, pra que possa, finalmente acabar e em um lugar pacífico estaremos ultra-, mega-, radicais em paz.

eu comecei aqui pra dizer qualquer coisa, consegui. é manhã, Lisboa, dormi 6 horas de ontem pra hoje e meu nariz escorre, como sempre acontece de manhã, como acontece ainda mais se durmo pouco e algo na minha garganta é pura secura. no mais: meu braço direito está exausto. e eu não paro com ele de datilografar. um dia meu braço direito SALTA PRA FRENTE E INVENTA UM CÉREBRO SÓ PRA SI.

enquanto isso não acontece, vou ali, me alongar e ler Ezra Pound.

(ui ui. irreconheço.)

terça-feira, 10 de maio de 2011

ficar no meu corpo feito tatuagem

sonhei que eu sentava pra fazer uma nova tatuagem, tinha umas 40 idéias, estava com o duda, no estúdio do tinico. pedi pra ele a opinião, podia ser:

um passarinho sozinho de asas fechadas
uma rolha de vinho sem uso
um casal abraçado sem as silhuetas

[tinha mais umas cinco possibilidades - - - ai o futuro. ai o futuro.]

sábado, 7 de maio de 2011

coisas que não deve se esquecer

beibe, simplesmente, escreve.
do Poemacto, de Herberto Helder:

IV

As vacas dormem, as estrelas são truculentas,
a inteligência é cruel.
Eu abro para todo o lado dos campos.
vejo como estou minado por esse
puro movimento de inteligência.
Porque olho,
rodo nos gonzos como para a felicidade.
Mais levantadas são as arbitrárias ervas
do que as estrelas.
Tudo dorme nas vacas.
Oh violenta inteligência onde as coisas
levitam preciosamente!
O campo bate contra mim, no ar onde elas
dormem -
vacas truculentas, estrelas
apaziguadas estrelas - e a inteligência, afinal
selvajaria celeste sobre a minha respiração.

Eu penso mudar estes campos deitados, criar
um nome para as coisas.
Onde era estábulo, na doce morfologia,
fazer com que as estrelas mugissem e as poeiras
ressuscitassem.
Dizer: rebentem os taludes, enlouqueçam as vacas,
que a minha inteligência se torne pacífica.
Unir a ferocidade da noite ao inebriado
movimento da terra.
Posso mudar a arquitectura de uma palavra.
fazer explodir o descido coração das coisas.
Posso meter um nome na intimidade de uma coisa
e recomeçar o talento de existir.
Meto na palavra o coração carregado de uma coisa.
Eu posso modificar-me.
Ser mais alto do que a corrupção.

Campos abanados pelo silêncio.
Pessoa como eu
mergulhando no que é o obscuro
das vacas dormindo.
Estrelas giradas, de repente mortas
sobre mim.
Ah, penso alterar tudo,recuperar agora as colinas do mundo.
Falando de amor, eu falo
do génio destruidor.
Falo que é preciso
criar a velocidade das coisas.
Que é preciso caçar flores,
golpear estrelas,
meter o sono nas vacas, desentranhar-lhes
o sono,
dar o sono às estrelas.
Enlouquecer.

Que é preciso recriar o criar, meu Deus, ser truculento.
Ser simples e não o ser.
Abandonar os campos, rodopiar
a inteligência, a crueldade.
Abro a porta para não esquecer esta
absurda tarefa.
Esta tão particular
necessidade.
Porque agora deixei totalmente de ser puro.
Levanto-me para dar de comer quentes
estrelas às vacas.
Sou tão puro, meu Deus, tão truculento.
É preciso principiar.

Digo baixo o nome. Corto os pés das estrelas.
Deixá-las na sua seiva estremecente.
Digo baixo que é talento envenená-las.
Minha alegria furibunda é a pureza do mundo.
E é tão belo agarrar com os ossos
que há dentro das mãos
na ponta de um nome, e desdobrá-lo.
Arrancar essa alma apertada.
Porque eu sei o estilo de uma alma
precisamente original.
Corto as estrelas das vacas.
Trago candeias para os campos extraordinários.

Porque eu bato na porta com meu júbilo furioso.
O amor acumula-se.
É para dar o ardor em doce dissipação.
Deus não sabe e sorri, esmigalhado
contra o muro humano.
Respiro, respiro. As coisas respiram.
Esta oferta masculina vocifera na treva.
Criar é delicado.
Criar é uma grande brutalidade.
Porque eu sou feliz. Durmo
na obra.
Só eu sei que a loucura minou este ser
inexplicável
que me estende nas coisas.
A loucura entrou em cada osso
e os campos são o meu espelho.
Esta imagem perfeita arromba os espelhos.
Os nomes são loucos,
são verdadeiros.
o meu novo túnel se chama "o mar que é menor". acho que estou ficando cada vez menos com medo de quem lê, isto é, estou cada vez mais incompreensível. é isto que admiro naqueles que leio, exceção do Drummond. mesmo ele, esse hermetismo sem dom para o hermético. que descubram! que não há segredo! e tudo é segredo!

e todos os meus textos são roubos, plágios.
neste caso michaux, calasso, deleuze, helder, tsvietaieva, os irmãos do deus que nele fala, assaltados pela solidão. a minha.

and left her to the indifferent stars above

A Dream of Death

I dreamed that one had died in a strange place
Near no accustomed hand;
And they had nailed the boards above her face,
The peasants of that land,
Wondering to lay her in that solitude,
And raised above her mound
A cross they had made out of two bits of wood,
And planted cypress round;
And left her to the indifferent stars above
Until I carved these words:
She was more beautiful than thy first love,
But now lies under boards.

(W.B. Yeats)

Um Sonho com a Morte

Sonhei que alguém morrera num lugar desconhecido
Longe de mãos amigas;
E que eles, os camponeses daquela terra,
Ansiosos por nessa solidão a abandonarem,
Tinham pregado tábuas sobre o seu rosto
E erguido acima do túmulo
Uma cruz que construíram com dois pedaços de madeira
E plantado cipestres em redor;
E que a deixaram sob as estrelas indiferentes
Até eu gravar estas palavras:
Ela era mais bela do que o teu primeiro amor,
Mas agora jaz debaixo destas tábuas.

(tradução de Maria de Lourdes Guimarães e Laureano Silveira)

hands clean

sonhei que eu estava numa praia de rio, deitada numa canga sozinha. na canga ao lado estavam dois amigos que não se conhecem, mas no sonho eles eram namorados. ele tentava fazer cafuné em mim, era uma sedução a qual eu não reagia. eu gostava, mas me enchia, levantava e ia embora. na outra ponta do rio ela aparecia pra me tomar satisfações. ficávamos deitadas dentro da água nos olhando feito duas jibóias. ela entendia de repente que eu não tinha nada haver com aquilo.

teve um sonho também com um menino que eu adoro, mas desse não me lembro nada.

depois era no Rio de Janeiro que eu estava e precisava de uns meios de transporte absurdos pra ir embora pra São Paulo. tinha descoberto uma linha de metrô que me levaria. nada me acontecia, eu ficava sentada numa mesa de plástico de bar, escrevendo com meu caderno verde (que na prática eu detesto, acordada, parece uma árvore de natal com o elásticozinho vermelho junto e o papel finge que é bom pra na prática ser uma bosta que não absorve as canetas que eu gosto de usar. aliás, em três dias, três canetas minhas acabaram)  a não ser um menino que sentava na minha frente e a gente flertava flertava até ele ir pegar um sorvete e nunca mais aparecer.

e ontem sonhei com um cara que nossa história foi a mais existente entre as inexistentes histórias, e que num concerto a gente se re-apaixonava. tudo porque eu sabia lidar com ele dessa vez.

agora, tudo que eu ando sem paixão acordada tenho sonhado dormindo? 
o amor o amor que não me abandona. ainda bem. 
ainda bem. amor amor amor. amor? desejo.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

roupa colorida

[acordei pensando na necessidade de escrever isto, que eu disse ontem pro B na longa sessão poética que tivemos na cozinha]

o meu avô, pai do meu pai, era muitas coisas. entre elas um homem muito generoso, que dava pros vizinhos longos metros de tecido (da indústria em que ele trabalhava), garrafas de whisky que ele ganhava de um amigo que vivia em SP, peixes e mais peixes que ele pescava quando se isolava por semanas, ou carnes e mais carnes que ele tinha caçado no Pantanal. meu pai conta que ele voltava com uma caçamba cheia, dava mais da metade, dois terços, ficava com o resto. conhecia as ervas do mato, sabia o que curava, o que sarava, o que protegia. todas as vezes que ouço falar dele me parece que ele era alegre, generoso, lúcido, vivo e contraditório (todos os mortos são contraditórios?). 


[agora havia aqui uma 2a parte do texto, falando sobre meu pai. que a dedicatória de um dos livros do meu pai, talvez do livro mais importante, é para o meu avô. "para o meu pai, vivo em mim". ontem notei que meu pai é mesmo o que vive do meu avô. eu escrevo sobre isso hoje, mas não aqui. ainda não é hora.].

sábado, 30 de abril de 2011

making bread, a new beginning

se eu já escrevi um túnel
agora
eu vou eu vou eu vou eu vou eu vou?

quarta-feira, 27 de abril de 2011

com as mãos frias mas o coração queimando

O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, ah, tão presa! Esses mosquitos que
não largam! Minhas saudades ensurdecidas por
cigarras! O que faço aqui no campo declamando aos
metros versos longos e sentidos? Ah que estou
sentida e portuguesa, e agora não sou mais veja, não
sou mais severa e ríspida: – agora sou profissional.

[my darling beauty, ana cristina cesar]

segunda-feira, 25 de abril de 2011

assim, não

ai gente "as questões do autor" ontem de manhã eram: comprar 4 kilos de farinha de rosca. ele ia segurando o colchão de cima abaixo com os sacos até que na hora de dormir ele furava-os todos e a farinha espalhafatosa pelo chão. o quarto ficava todo um véu. tua vida um breu sem "o autor", viu? é ele que tá te inventando quando você lê isto, não o contrário.  - - - - - - - - - - - - a operação de ler está nos seus olhos, sim, xuxu. eu tava brincando. não fica assim.

dá-me delicadeza na fúria

estou meio cega pelo espelho
se calhar precisava estudar física
ou eu levo as coisas muito à sério
(são piscinas, as coisas)

.

meu pai sempre diz "a gente se mete em cada África".

-

se eles soubessem os códigos de conduta que essas coisas me ensinaram.

domingo, 24 de abril de 2011

nossa o que eu mais queria era uma fúria de poemas - mas são os livros ao redor que estão me corrompendo pra dentro deles não sei como conseguirei resistir

a coisa que eu acho mais difícil de fazer é ler (verdade).

e estarei me viciando como todos os outros? e se o que todos esses livros ao redor querem é me fazer calar?

amanhã por exemplo: vou acordar tendo dormido menos pra conseguir a evasão que é escrever um texto a respeito de outro, com respeito. já sei toda a coisa que vai ser. assim faca de um lado, matão de outro, sem assassinato, só a trilha. 

"chão de sal grosso, e ouro que se racha".

e escrevi algo mais bonito sobre isso no facebook do que aqui. reles blogues, mas eu vos amo mais.
mais uma vez chegaste
mais uma experiência mística
mais uma vez no centro do coração de tudo
mais uma vez isto significa só o que significa
mais uma vez és incapaz de não deteriorar tudo o que é vivo
mais uma vez não consegues aceitar a sujeição do cotidiano em suas formas rituais
mais uma vez tens ódio de tudo o que se repete, sobretudo o coração compassado

mais uma vez desconfias de tudo o que seja dele, do que seja seu, mais uma vez desconfias do amor
mais uma vez não estás, minto, mais uma vez estás justamente aqui, quem falou.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

sexta-feira da paixão e eu pensando que se me perguntassem se acredito em deus eu responderia o quê?
que hoje estou cansada para pensar nisso com palavras.
strike a poet

Tiro fotos da minha casa até acreditar que é uma cidade
sigo abraçando cadeiras entre o olhar imperativo dos
gatos a mão que afaga este problema a materialidade
dos livros ajuda no colegial me chamavam de menina
de outra época meu pai dizia que minha avó era uma
mulher da terra isso resume pra mim toda a poesia
contemporânea de repente ganharam o medo de dizer
coração é preciso paciência e a sensibilidade de um peixe.

Devem me ver como um dragão rasante, os miados
num abraço a gatinha tem fome e cheiro de ser vivo
pela primeira vez em um mês deixo a sala é mais fácil o
mar abrir em dois do que interromper o trânsito é por
isso que não atravesso a rua meio-dia sou o Torquato de
colar de contas descendo as delícias de aves nas mãos ela
pensa em casamento no sol de quase dezembro uma mãe
me olha saindo pelo corredor

até o portãozinho de aço range a filha vai pra escola
a mala de rodinha, vergonha não é a palavra
finalmente, virei artista os dedos sujos de tinta
e o uniforme azul-marinho o cabelo imundo embora
a seda tenha rasgado só consigo desafinar o coro dos
contentes me alimentar com drogas pra me manter
escrevendo acordada e cansada e insuficiente esta melodia
chega o texto ao fim e não reviso, it’s friday I’m in love.
 

sexta-feira da paixão

agora que estou escrevendo 
decorei um salteado de frango
(é hoje que não se come carne?)
a pessoa está insuspeita na tradição ocidental
conseguiu sair pelos fundos.

ando escrevendo sem títulos perco essa possibilidade de usá-los.
se bem que os poemas andam sendo verso a verso títulos de si mesmos

onde a hierarquia não existe, ana cristina. tenho amado ana cristina, vou vos contar. contei já, é isto: tenho amado ana cristina cesar com uma ternura como nunca. sei onde ela está, onde eu estou, e quando nossos amores destinos se confudem, amor, eu sou terra, fronteira. já há muito reconheci que não sei voar. e quando de um poeta começo a perceber os procedimentos, tenho o caminho de toda a poesia. (só não descobri ainda os procedimentos do que escrevo, além de ser celeste, bang bang pistoleira do destino sempre revirarevolto)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

hoje que ninguém se aproxime, estou impossível.
cheirando a amor do passado, estou mofada pelo que perdi.

("e também, desde que li o artaud na 6a feira passada, tô escrevendo um texto novo que não sei bem ainda o que é, mas acho que responde a essa fúria que ele tem, que temos em nós. ou a cria, não sei, feito o mar.")

hoje nem a infalível técnica do me meter entre turistas pra estudar funcionar, funcionou. embora a praça da figueira vista da janela da confeitaria nacional me remeta a uma impossível teodoro sampaio de que o álvaro de campos fala

A Praça da Figueira de manhã,
Quando o dia é de sol (como acontece
Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece,
Embora seja uma memória vã.

Há tanta coisa mais interessante
Que aquele lugar lógico e plebeu,
Mas amo aquilo, mesmo aqui... Sei eu
Por que o amo? Não importa. Adiante...

Isto de sensações só vale a pena
Se a gente se não põe a olhar para elas.
Nenhuma delas em mim serena...

De resto, nada em mim é certo e está
De acordo comigo próprio. As horas belas
São as dos outros ou as que não há.


-
safado.

hoje em dia há flores de plástico na sacada da confeitaria nacional. será que ele as viu?

terça-feira, 19 de abril de 2011

psicostasia

Psicostasia é o nome atribuído a uma cena comum representada no Livro dos Mortos que retrata a cerimónia de pesagem do coração do defunto no tribunal da deusa Maat.

De acordo com as crenças dos habitantes do Antigo Egipto, a morte física não era o fim da existência, existindo a possibilidade de uma vida no Além. Historicamente esta vida no Além esteve de início reservada ao rei, tendo a partir do Império Médio se alargado a toda a população. Contudo, para se poder aceder a esta vida era necessário ter levado uma vida de acordo com a Maet (ou Maat), conceito egípcio que traduz a ideia da ordem universal marcada pela justiça e pela harmonia.

A pesagem do coração acontecia na sala das Duas Maet (também designada como sala Duas Verdades ou sala das Duas Justiças), onde existia uma grande balança colocada num pedestal em cujo topo se encontrava um babuíno. Na sala estavam presentes Osíris, sentado no trono, e quarenta e dois juízes.

O defunto deveria realizar uma confissão - a chamada "confissão negativa", registada no capítulo 125 do Livro dos Mortos - através da qual atestava que não tinha praticado o homicídio, cometido o adultério, maltratado animais, praticado o roubo, etc., num total de quarenta e duas declarações de inocência que anunciava a cada um dos juízes.

Enquanto isso, o coração era colocado num dos pratos uma pena de avestruz (a representação da leveza ou do coração da deusa Maat) colocada no outro prato. Se os dois pratos se equilibram o defunto está absolvido; em caso de ter mentido, o coração tornava-se pesado e seria condenado.

Os deuses Anúbis e Tot também estavam presentes sala cumprindo cada um com uma função. Anúbis regulava a balança, enquanto que Tot escrevia o resultado. Perto da balança encontra-se um monstro híbrido (metade crocodilo, metade pantera e metade hipopótamo), conhecido como Ammit ou a Grande Devoradora, pronto para engolir o coração do defunto caso este tivesse um peso excessivo. Uma vez aniquilado o coração não existiria a possibilidade de ressurreição.

admiração e morte

teve uma vez que fui a um jantar e conversei com a alice ruiz cerca de uma hora e meia só nós duas, sem saber que era a alice ruiz com quem eu estava conversando. fiquei muito impressionada de como a (só) alice entendia de poesia e de astrologia. (ai como eu sou pirralha). então eu contei pra ela um aspecto x que tenho no meu mapa natal (e que vou preservar da astrologia blogueira, mas por e-mail eu conto tudo, pode até publicar depois) e ela disse "nossa, enquanto você dorme você deve morrer todas as noites. então você acorda de manhã absolutamente perdida ou revigorada." como é que eu não lembro disso todo dia ao levantar? - - - e depois chegou um amigo meu, astrólogo, e quando ele olhou pra ela praticamente ajoelhou e disse "ALICE ADMIRO TANTO VOCÊ, tanto como poeta como como astróloga." daí eu saquei tudo quem ela era e não consegui mais conversar.

não se trata de gratidão

eu acordava muito cedo, entre às 5h e às 6h, porque precisava tomar banho antes de sair, até hoje, é a água a hora que acordo. a aula começava às 7h20, na USP. eu tinha onze, doze anos. entrava no chuveiro muito quente e no fim abria a água muito gelada, ficava uns segundos por baixo, saltava, os gritos por dentro. meus pais nunca me levaram na escola enquanto foi cedo. ou eu tinha carona, ou tinha meu irmão, ou tivemos uns meses o motorista da minha avó. de todos os modos muitas vezes eu ficava pronta antes da hora (engraçado, não é de hoje meu controle) e então esperava dentro de um dos carros da garagem, ouvindo uma k7, num walkman no máximo volume, ou quando tinha rádio no carro (mas isto talvez fosse mais tarde, aos 17?) no talo. a música que mais me lembro de escutar nesse momento é "quase sem querer", legião urbana. 


tenho andado distraído impaciente e indeciso e ainda estou confuso só que agora é diferente estou tão confuso e tão contente -. -; -,-

segunda-feira, 18 de abril de 2011

perdida feito o urubu quando chega o caminhão e despeja a fartura sobre o aterro

domingo, 17 de abril de 2011

"Talvez eu tenha nascido de corpo atormentado, prestidigitado como a montanha imensa; mas corpo de úteis obsessões: e a obsessão de contar bem vi na montanha para que serve. Nem uma sombra deixei de contar, quando a sentia em rotação à volta de qualquer coisa; e a somar é que ascendi muitas vezes a estranhas moradas." 

Artaud, "A montanha dos sinais"

sábado, 16 de abril de 2011

certamente estou me escapando. há uma música tocando
ah o coração como uma carne crua
não sei mais, eu não sei mais, só sei mais escrever

o que significa: se eu tivesse: uma vareta entre os dedos e a terra inteira nos meus pés escrevia no chão que palavra?

escrevia: é isto.

(que você não está vendo)
(está marcado em nós)
(não é?)

então alguém chegava e me perguntava: júlia, mas isto é o quê?

eu ia responder: sim e não. depende.

não, eu não estou apaixonada. inclusive faz algum tempo isto. embora haja sempre a chance de um desenhador atravessar o meu caminho e tudo viver de novo.

foi assim: veio o dilúvio que também era chamado de deserto e tudo acabou.
depois veio de novo o tudo e assim o inverso começou. este sopro do fundamental.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

êxodo

todo dia tem uma hora que eu saio como quem se despede dos próprios pensamentos, é um alívio como quando se toma um banho, ou acordo de bem dormir. como se o pensamento às vezes só tivesse calma mesmo no exterior. é um sair pra nada em que encontro tanto.

e os turistas, as pessoas andando na rua, as vozes e as cores me lembram que estou em Lisboa. eu quis tanto estar aqui, que quando noto que estou mesmo, fico tão contente, como se eu tivesse sorte mesmo.

ainda não entendi porque eu quis tanto, porque continuo gostando tanto, mas hoje de manhã ouvi muito uma música do Fausto, "o barco vai de saída", que tem um verso "que vida boa era a de Lisboa" e quis gritar pra todos, cantar pra todos, viver pra todos com todos, mas nem o B estava em casa. daí a tarde veio vindo, veio vindo, e minha felicidade me dispersou.

e agora estou tensa como um limão velho.
 

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