sexta-feira, 22 de julho de 2011

guarda-te

posso estar por 4 horas ou mais
mas por enquanto só sei acordar tarde

percebi que a realidade existe / se existe é enquanto movimento, não durabilidade. / o nietzsche diz lá no começo que a verdade é um exército de metáforas móveis. / hoje se junta com cré. / e o problema de tudo ser ficção se embaça, que eu já nisso faz tempo que não acredito, o que me interessa é o ponto de retorno, onde (carolina me ensinou) o problema bate-e-volta. há verdade enquanto mobilidade, e eu não acredito nem nesse tempo imbecil

tempo imbecil que é verão e venta frio e pra mais do que o dinheiro a galera acredita que a natureza, poverela, é bondosa.

que destino ou maldição, minha gente, que destino ou maldição.

quem quiser participar do meu faroeste que venha e armado.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

dissertação

ou no que eu acreditava em 2011.

só assim, risco risco risco, é que vou sair deste precipício.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

tenho um grande amigo

CANÇÃO DO LAVRADOR

Meus versos lavro-os ao rubro
nesta página de terra
que abro em lábios. Descubro-
-lhe a voz que no fundo encerra

Os versos que faço sou-os
A relha rasga-me a vida
e amarra os sonhos dos voos
que eu tinha à terra ferida

Poemas que mais que escrevo
devo-te em vida. No húmus
a regos simples eu levo
os meus desvairados rumos

Mas mais que poema meu
(que eu nunca soube palavra)
isto que dispo sou eu
Poeta não escrevas lavra


ACONTECIMENTO

Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
amor inventado numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá
E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de outono
Caiam agora pálpebras que cerrem
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora
Caiam agora que o amor chegou


REGRESSO

Não não mereço esta hora
eu que todo o dia fui habitado por tantas vozes
que exerci o comérico num mercado de palavras
Não mereço este frio este cheiro tudo isto
tão antigo como os meus olhos
talvez mesmo mais antigo que os meus olhos


[todos do Ruy Belo, do "Aquele Grande Rio Eufrates"]
quando eu olhei pra ele ele olhou pra mim e eu me declarei.
depois de dito tim tim por tim tim ele olhou pra mim e respirou e cavou um buraco.
"espera."
foi assim: buraco, buraco, buraco. entrou lá. me olhou duas ou três vezes e jogou a terra por cima.

às vezes ele sobe com uma mãozinha me acena com as ervas arrancadas desde a raiz e acaricia por entre os dedos os meus pés. dou um riso muito sério, de mulher da terra que sou, ele vê por dentro de mim a vermelhidão. 

a gente atravessa a rua e é para sempre.

domingo, 17 de julho de 2011

origem

faz 5 dias que leio e re-leio os 5 primeiros poemas do primeiro livro de poemas do Ruy Belo. volto e volto. não consigo avançar mais pelo livro, nem tento.
penso coisas pequenas.
primeiro, que dedicação é a poesia, que o entedimento é um caminho que se faz e desfaz. 
segundo, quero escrever sobre um poema dele. o poema vai ser este
 
A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO

O senhor deus é espectador desse homem
Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe
nos olhos o tempo suave das árvores
Deu-lhe e tirou uma por uma
cada uma das quatro estações
A primavera veio e ele árvore singular
à beira do tempo plantada
vestiu-se de palavras
E foi a folha verde que deus passou
pela terra desolada e ressequida
Quando as palavras o deixaram de cobrir
ficaram-lhe dois dos olhos por onde
o senhor olha infinitamente a sua obra
Até que as chuvas lhe molharam os olhos
e deles saíram rios que foram desaguar
ao grande mar do princípio

-

mas não sei, se escrevo já.
acho que a gente precisava se conhecer há milênios
espero que essa sorte dure até o apocalipse.

sábado, 16 de julho de 2011

talvez se você não desse tanta atenção aos fatos

me trouxeram marzipãs alemães e eles são feitos na cidade da onde veio minha bisavó, Lübeck.
a última vez que jantei fora (hamburguer) com meu pai e minha mãe em SP havia uma régua daquelas de loja promocional dentro de um copo do lado do caixa onde estava escrito ESTIMA.
isto é tudo do que posso dizer. 
talvez o que me importe agora seja farejar o caminho que me indicam, mas tentar não escrever em cima das coincidências. até pra deixar que as coisas, os fatos, surpreendam como sempre vão fazer. confiar, sobretudo, no outro que não sou eu.

D

Naquele tempo em que acordava mais cedo do que eu mesma, porque era
a aventura social do mundo, a campainha
e que nos lugares mais inexplorados alguém, de repente,
falava e recomeçava a contar a morte
fosse ela uma paciência do que vem
ou descreviam cadáveres na sala
onde o assunto era dança, falavam da putrefação
para o constrangimento geral dos vivos.
Ou meu pai dizendo o que toda semana
pensava que a função dos vivos é ir
sempre embora contra a morte

embora do eu vou me embora disso tudo
desligo o som das portas, vou abrir para o ninguém
e cogito, não o meu fim por mim levantada
já que o homem da luz me acordou
pra marcar o correr do relógio
mas a possibilidade de qualquer abrupto
mesmo meu pai, se ele lutasse tanto
que fosse contra a morte de vez
eu em luto, também, iria de encontro
como a muro cheio de musgo
pra onde o silêncio dos vivos acelera

(mas enquanto não, vou lendo ruy belo,
) e, se avalio, de tudo me adianta ir
dizendo absurdos pra sorte de quem amo
imolo a morte, avario o norte, me digo
talvez se você não desse tanta importância aos fatos
mas não me escuto o suficiente que é para não.
Pois só é forte quem sabe o que já teve de si
do oco do mundo, a revelação do negativo
se bem que a morte não é gentileza
para quem parte do sentido, do possível 
mas se - um dia - no dia - há dia -  limo a perda
como uma pedra que se atira - no quê?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

classificados

procura-se banho de mar e auxílio-viagem.

não se percebe que profissionalização quer dizer comercialização de si?

teu sonho determina:

sonhei que eu jogava rolos de papel higiênico vazios na cabeça da mãe de um melhor amigo. ela me traiu, no sonho não, e eu jogava as coisas na cara dela enquanto dizia sei sei SEEEEEI e ria, ria. tudo acontecia à beira de uma piscina, o que me faz entender, interpretando o sonho à la Freud: gente rasa que se lixe.

cansei de ser legal/ agora vou ser radical

mâno, aconteceu algo muito absurdo em pleno século XVIII
e todo mundo aí dormindo em paz
farta deste iluminismo de abajour de todos nós.

domingo, 10 de julho de 2011

amor não é tolice

ontem pela primeira vez na vida comi caracóis e participei de uma performance
acho que nunca em um ano, em ano nenhum, dormi tão pouco
ontem quando deitei pensei "que organismo inteligente, o do descanso"
vamos dizer que a cada três noites durmo uma o quanto quero, as outras o quanto devo
pelos limites que os acontecimentos ao redor vão montando
hoje é domingo - dormi cinco horas porque vamos plantar um jardim no 2o andar de um prédio.
jardim de chão direto, terra sobre lajota.
não há sono melhor do que o meu.

digo passando por alguém - não te armes em parvo, pá.

sábado, 9 de julho de 2011

a tua fotinho

sonhei que te via online no chat do facebook.
ficava tanto querendo te chamar.
mas não conseguia. 
mas era um êxtase saber-te 
vivo.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

fogo sobre montanha

como sair do nada, chegar ao nada - talvez seja isso a experiência do limite estrangeiro - e viver.

canção do exílio

I'd like to have a yellow brasília, don't you?

Tivemos uma.
Mas acho que foi a do Leon que sofreu de uns furos no tapete que um dia lhe deixaram com os pés no chão.
hoje querendo que "tracejado" queira dizer comido pelas traças.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

caí tive que começar de novo

(um pequeno passo para um homem, mas um grande passo para o caminho)

tenho toda uma estratégia de vírgulas que passa por ouvir o dentro do meu ouvido.
concha, conchinha, atravessa até coração de galinha.  
parênteses são canoas, vírgulas são conchas.
o mar é você, meu amor.




quarta-feira, 6 de julho de 2011

tenho 27 anos e sei escrever

estou certa, esses dias, dos limites mortos da minha poesia.
pensei em começar a traduzir do português para o português.
mas ainda assim seria poesia de limites
mortos da minha poesia.

quem me dera ter encontrado uma fórmula dos mortos justamente nesse momento,
estou perdendo tanta coisa, meus sobrinhos crescendo, estou perdendo tanta coisa, esta dor de músculos
taí, eu fiz tudo pra você gostar - tantas, tantas fiz

e quando eu tiver 28 anos minha maior conquista vai ser não saber escrever?

hoje escrevi um poema para a performance de um amigo, que me pediu. performance da qual vou participar no largo do camões, em frente a embaixada brasileira, no sábado. o amigo ainda não me confirmou se aceitou o poema enquanto tal ou não. não devia, mas eu vou mostrar pra vocês (como se dança o baião)


Estou certa, nestes dias, dos limites mortos.
Se sou brasileira foi porque vim pra cá.
Consegui atravessar, mas os papéis não.
Nada nunca pode vir só.

O Atlântico é uma espécie de monstro anônimo
que a tudo engole e devolve. Marinha
fronteira carcomida por salsugem,
dissolve o poder dos homens, liberta-os.

A mim também. Não é todo dia que é o que posso.
Me mostra, espero mais. Troca tudo tanto de lugar.
Não param de pedir pra que eu me identifique.
Só tenho isso. Abarco nomes, rostos. Fico viva.
o meu preferido dos poemas abaixo é o "anotação",
sobretudo porque ele me dá duas leituras sobrepostas quando imagino

uma de que o amor foi em ato consumado, e as imagens são de uma carnalidade de arrancar ouro,
ou
que esteve cada um em seu canto, sem dormir, ligados nisso,

chove, poeta, chove

NÃO MAIS

Não mais te seguirei a um palco suburbano
como num mês incerto de setenta e três
ou mais exactamente

a ninguém seguirei
seja a que lugar for com o duvidoso
e porventura inútil desígnio do amor


MARGEM DO MAR

Volto-me para ti ou antes para
o teu lugar se é que tal abstracção
é possível, noite sem
som onde tu és o eco múltiplo
procuro

ver novamente os teus vários retratos
animados pelo sol o amor ou a respiração
o sangue torna
a passar-te nos braços fotográficos
devo continuar

a narrar o percurso irregular
da tua multiplicidade
eras o ar a árvore voltar-me
para ti é como procurar
no mar os afogados


ANOTAÇÃO

Juntos dormimos ou estivemos
deitados acordados
sobre a mancha do mar
em que como dois rios confluímos


[Gastão Cruz, do "Escarpas".]

segunda-feira, 4 de julho de 2011

na casa onde cresci, sonhei

que havia um almoço muito grande de domingo, onde estavam muitas pessoas, entre elas meu pai e outro joão muito sábio discutindo a respeito das divergências que têm a respeito do século XIX - eu pensava em intervir, mas ficava por ali, andando ocupada que estava em tirar o lixo reciclável, e alguns marginais tentavam invadir o nosso jardim - um deles usava moicano vermelho, como o pica-pau - mas não eram explícitos o bastante, também, pra que eu os expulsasse e eu ficava, ali e acolá, administrando (sem interferir em) tudo que acontecia, e com o lixo reciclável pra tirar.


#

acordei e o B tava tirando o lixo reciclável.

sábado, 2 de julho de 2011

e viva julho!

faz viver este medo como a terra distancia raio e trovão. 
pra me relacionar com xxxxxxx é como se eu precisasse me fechar pra que ele me possua absolutamente. porque ele vai fazê-lo. eu soube imediatamente ao ler as primeiras páginas do nosso encontro, que aquele era dos momentos mais importantes da minha vida (sei sempre). e como se dão as coisas que são assim? foi encadeado e pouco importante, do jeito que só as coisas que importam acontecem: acontecendo.
e me salve da eficiência, rapaz.

terça-feira, 28 de junho de 2011

as máximas desta 3a feira

escusado dizer que gosto de pessoas sem pudores imbecis.
são raras nas nossas línguas.

cazuza queria ser reconhecido pelo futuro enquanto poeta.
por mim o é.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

e la nave va

se exemplifique à vontade, meu bem. diga 
as coisas mais vãs que puder, fale-me até do mal
que faz por você mesmo

o mal que sobrevive. - - - -  eu às vezes acho que as pessoas me procuram pra atravessar certas coisas. como se eu pudesse pegar alguém pela partitura da camisa e dizer 'olha, tua vida, veja lá o que você faz.' - - - - as pessoas reconhecem nisso certa generosidade da minha parte, me agradecem. acho que cada um tem o rinoceronte que é. eu às vezes acho que

                                     no fundo elas vão descobrir um dia alguma coisa mesmo que nem mesma sei o que é, 
                                     mas é ao meu respeito e tem haver com me darem tanto as coisas
                                     no sentido de que eu poderia estar matando, mas vou, no máximo
                                     escrever uma dúzia e meia de romances, quando chegar aos quarenta.

enquanto isso não acontece vou somente me apaixonando toda vez que viro a esquina.

                                    e espero, eu também, arrancar de mãos dadas o mal do mundo, pelos olhos da raiz.

part time

tão difícil, a melhor coisa, escrever.
tanto tanto pra um, dois ou três, ou nenhum.

acho que tenho sonhado
com hotéis. acordo e minha mãe me escreveu
dizendo que percebeu que não sente mais falta
mas saudade.

e eu acho que inverti tudo, comecei pela melhor parte
(segundo mamãe, as saudades). eu nem
análise faço mais pra saber de nada.

mas levanto no meio da tarde e vou ler o poema
de carlos drummond de andrade
"com o pensamento em ana cristina"
por muito tempo desconfiei que ausência é falta.

penso que o Atlântico talvez seja mesmo
uma forma de suicídio. renomado
imortal. ou será que os oceanos terão
um dia, fim? será que enfim a morte é
onde as coisas terminam?

digo pra um amigo que os funerais são uma parede
com travo de desespero, ou cansaço. pra outro
peço que me escreva, encarnecidamente, porque
ouço a voz dele o dia inteiro. mas ouço em silêncio
por isso não me aterrorizo com pouco.

inclusive só me aterrorizo com o tempo 
em que eu pensava, recorrentemente, em suicídio.
mas o oceano, não. o oceano me dá as duas faces.

já contei que foi só vindo viver aqui que virei brasileira?
gosto muito de errar em certos privilégios. é como uma espécie de
dizer, portuguesamente, gosto muito de gozar em certos
privilégios. fica dito assim: é verdade, os brasileiros somos mesmo
qualquer coisa. o que reconhece a identidade posterior é o problema?

digo: a identidade está já traçada, é a identificação completa entre os pólos dela
o equívoco? mas aqui já acabou o poema, e começou a dissertação.

(acho importante separá-las.
inclusive, se eu pudesse, separava tudo no mundo.
aprendia a ser virginiana. tenho sempre alguns ao meu lado. os vejo
muito, desde a infância. eu mesma aprendi certos detalhes que não me confundem mais).

por exemplo, só.

mâno

meu deus, acho que do céu deste país quando chove cai poeta


SEGUNDO BALCÃO DOS BOMBEIROS


Neste tempo eu já lera as Brontë mas
como era um adolescente retardado
passava a noite em atrozes dilemas
que mais vale: amar, ser doutrem amado?


ainda não descobrira o simples disto
nem o essencial disto que é tão claro
se tudo no amor vem do imprevisto
deitar regras ao jogo pode sair caro

por isso eu amo e sou ou não benquisto
depende do instante bem ou mal azado
amor tem alegria, tem enfado
o happy end é coisa dos cinemas

#

APANHADOR DE PIRILAMPOS

A poluição dos escapes
os herbicidas
foram-vos empurrando
para fora
do Pinheiro Manso

antiga minha luz
particular
em noites doces
procuro-vos
e nada encontro
senão lixo
entre as folhas

fazeis-me
tanta falta
neste mundo escuro

#

A NAMORADINHA DE ORGANDI

Como na dança ritual dos patos colhereiros se te amei
foi a cem por cento da minha capacidade metafórica
mas copiado de livros onde o herói sempre enviuvava

cruzei imensas vezes sob a tua varanda com glicínias
pensando numa cena infeliz à moda do Harold

eu sonhava contigo?
                             eu assoava-me ao pijama!



[Fernando Assis Pacheco, do "Variações em Sousa".]

domingo, 26 de junho de 2011

um todo todo retorcido

e os pedaços de poema que se encontram, uns aos outros, um ano depois?

minhas frases cardíacas

ai ai - vida tão inevitável, viu.

sábado, 25 de junho de 2011

arbitrário

pensei ontem que quem não entende herberto helder não percebeu (ainda) como um poema pode ser um van gogh. - - -

- - - calor de silêncio rumoroso, leva-me de volta ao prazer do em si. leva-me ao, ao não interdito. - - -

quero tantas vezes me perder, fragmentar, cegar, pra ver o que está mais ausente no precário que sinto, arrancado então, feito novo, feito explícito, a pessoa aqui vive sempre do que acabou de perceber, e é sempre um lugar que leva a outro, não há um pavimento que não encaixe em outro nos meus sonhos, um lugar que sempre leva a outro, e eu mentindo ao escrever sobre abismos, nunca me faltam os pés, até quando tento, tanto que tento e depois fico, sofro, de tudo despedaçado pedaço por pedaço nada me dá fôlego. e meus pés sempre onde estão. 

suficiente pra perceber que há um contínuo entre todas as coisas e que silêncio não quer dizer, silêncio não quer dizer. diz, como as palavras, diz, enquanto comes a comunicação com silêncio, diz com as tuas palavras aquilo que diz - não o esquecimento, nem a continuidade, mas uma mistura puramente poluída entre uma coisa e outra - o direito ao erro, não, o valor do erro, o peso que as coisas têm, qual é? quem o mede,  aquele inventa? sabes como limpar uns dedos sujos, sabes como se fala com deus? e com os loucos, você sabe falar?, 

eu sei comer cerejas e saber que não são dele.
quando estão na minha boca.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

viva qualquer coisa!

quinze amigos casando nos próximos meses e o Tejo que amanheceu como um espelho.
daqui eu nunca tinha visto assim.

meu horóscopo falando há dias pra eu fazer aventuras, considerar depois.
e eu tentando calcular pra onde é que eu poderia enlouquecer nessa tarde

para onde seria possível reconhecer

céu de estrelas sem destino
de beleza sem razão


fogo fogo de artifício
quero ser sempre menino



das músicas da minha vida. mesmo.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

pra juntar com o debaixo

Este trapo (que estou)
talvez queira dizer
fale num tom mais baixo
                 (with the dead leaves).

quarta-feira, 22 de junho de 2011

de repente meu corpo fica domado como quem chorou por um largo
tempo um traço no peito feito um temporal, mesmo, só que feito à caneta hidrocolor
preto, sem raios, trovões nem dispersos, mas cinzas nos pés, um amontoado.

naquele tempo - que eu gosto de - eu gosto dele - de falar do presente como se já fosse passado - gostava de ir andando até a rua augusta e quando virava pela vitória nela, o sol.

há duas augustas. um dia vou escrever sobre elas, não sei se sobrepostas ou paralelas.

mas eu vou pela rua augusta como quem carregasse um escondido por dentro que fizesse do sol na sombra desconfiança, no fundo, de ser um amor, um amor de sombra meu, de ser um amor infértil.

prazer

ai semântica dos e-mails
ai o ruído dos miradouros
o verão europeu. ele passa na rua achando que vem um carro que não vem.

carro assombração. às vezes eu acho que essa cidade diz tantas coisas que se eu tivesse crescido aqui, enlouquecia. é muita camada. uma sensação de parada. tudo mentira.

lembro que em são paulo a luz de freio dos carros me tonteava. o barulho de todas elas na mesma hora, todos os freios juntos apertam pequenos fiu-fiu, sem sedução. a vida tinha uma claustrofobia assustadora, quando me mudei pra são paulo.

muito tempo hoje ainda eu temo a claustrofobia das cidades.

acendo este incenso pra que a vida recomece desde a sala de jantar
pra que a vida recomece desde a sala de jantar até o universo.

ai que vontade de dizer o já dito, só que torná-lo explícito.
ai que vontade de queimar a mão.

any day, now. any day, now.

let's swim

sim. tem algo de vertical, necessariamente, no escrever. mergulho, mesmo. quem vê o drama quando se precipita sem máscara. muito difícil tem sido, cada vez mais, escrever como uma coragem  da inocência que talvez a idade vá transformando em outra coisa (talvez o Quiroga tenha mesmo razão, e a opção da calma amorosa já tenha tomado conta das minhas escolhas, em encruzilhada ultrapassada das escolhas de paixão. será?).

quanto a escrever, uma dificuldade de perceber pra onde é vertical no redemoinho.  entrar de lado pela malícia. é mesmo perigoso, uns lados de onde ir. delírio, abismo, vertigem, ou ao ver o redomoinho  por dentro, o que se pega com a mão e coloca como objeto, aqui, bem de frente, pra olhar? tem muita coisa por aqui, girando.

girei a mesa no quarto: agora estão apoio e cadeira inclinados pelo piso, meu lado esquerdo mais alto do que o direito - não deve ser bom para a coluna; perdi mais da metade da área livre do quarto; correrei todas as noites o risco de bater a cabeça se me levantar errado da cama; mas assim daqui eu vejo o Tejo e é tão bonito que chego a ficar constrangida

(como é só pra mim).

resolvo fazer um jantarzinho hoje à noite e convido 15 pessoas.

tenho sonhado todas as noites mas de manhã só me lembro de um pedaço. a cena que lembro de hoje é que me convidavam pra jantar num lugar que em São Paulo eu iria fácil, mas era aqui em Lisboa e eu me sentia constrangida pela riqueza. sabia que não tinha dinheiro pra pagar. e também duvidava um pouco do prazer daquela companhia.

desejo transformado em auto-satisfação / auto-satisfação transformada em desejo

(ai os perigos de uma concordância).

consegui todos os meios pra falar com ele, mas estou séria (velha?) e não me articulei. acordo que não acredito na desculpa muito trabalho que me usei ontem. simbora com o medo, mas, no mais, eu te adoro, madureza.

se calhar saudades daquele tempo ain't no mountain high enough


viva o verão!

terça-feira, 21 de junho de 2011

palabras para mi queridos

lenha, se eu sou - é porque vocês me tiram da lama.

domingo, 19 de junho de 2011

ainda não entendi porquê

de patins, enormes, andando por uma cidade que tinha todos os tipos de pavimentos possíveis, muito raramente propícios aos patins, mas eu resisti, sem cair, e quando deslizava tomava toda o impulso possível, então quando chegava ao lugar errado enchia as rodas de lama, mas elas não pareciam se importar, e minhas pernas eram capazes de tudo - tudo alcançar. de repente estou num aeroporto, é perfeito pra deslizar. de repente estou num banheiro de ginásio, tipo como se chegasse a hora do banho, e três mulheres me dizem que o roberto (que era o chefe de bedéis da escola em que estudei) tinha mandado dizer que patins eram proibidos ali e em toda parte e que deviam ser - os meus - confiscados. então me senti sem pés.

sábado, 18 de junho de 2011

já de saída minha estrada entortou

"Provavelmente você terá medo de muitas coisas. Por exemplo, do futuro. Mas quando ele chegar vai ser um presente e é melhor nem pensar agora. Aristóteles fala de um homem que se matou porque tinha medo de morrer. E, você sabe, estamos sempre por aqui, por enquanto, enquanto dá pra estar por aqui. Não se preocupe, as coisas se ajeitam e o essencial é o equilíbrio." p.

the times they are a-changin'

Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a "Canção do Exílio".
Como era mesmo a "Canção do Exílio"?
Eu tão esquecido da minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
onde canta o sabiá!

Drummond

sexta-feira, 17 de junho de 2011

primeiro alô

imprimo meus "poemas do destino do mar" pela primeira vez para organizá-los em ordem,
mas o que eu ia dizer é que imprimo meus poemas no verso de umas cópias mal feitas de um texto do Adorno -
e me sinto tão longe da Universidade de São Paulo. amém.

axé

hoje li no quadro de luz de uma rua (possível) uma possível hipótese de epígrafe pra um sub-capítulo da minha dissertação e eu escrevo aqui para registrar, já que não tenho  - ainda - nem capítulos, nem subcapítulos, nem nada que use hífens. é como isso:

"o tempo só estrangula quem não ama".

será para iniciar o dizer sobre o Octavio Paz.

S2 hoje mamãe me devolveu e não estou mais então pensei

tirem o futuro da frente de um capricorniano e vocês verão alguém triste.

de abril, à máquina

o que é mais importante em um texto? o do que ele fala? ou o como? ou a sensação que ele nos propõe? será uma proposta ou uma causa? irreversível? - acho que há uma radicalidade diferente no artaud que não consigo aproximá-lo com clareza (ou força) do le clézio. embora possam os dois ser - - - a minha fala aproveita a noção de errância nela mesma, mas gostaria de lhes contar que isto não é o meu comum. tento estar mercurialmente organizada em setores, mas se a escrita da poesia já me mostrou que soltando-me ao labiríntico acabo justamente por este meio encontrar o estruturado, ao final desta errância se calhar teremos a impressão de um claro caminho. sobretudo uma estrada antes de colocarem nela os sinais. este modo de falar é um jeito de conseguir me desarmar ao ponto de que vocês me reconheçam nua. mas não estou nua, então lembrem-se que posso estar fingindo. mas é sério, isto aqui me desestabilizou. e diferentemente do que percebo que acontece, não é uma des-estabilização que o texto em si tenha me causado, mas parte da reflexão sobre ele. 

em primeiro lugar,

- sim, um texto linear e bonito, pra todos nós sentirmos prazer juntos - .

quinta-feira, 16 de junho de 2011

se o destino existe

é fascista.
aterrorizado que ele é com o mal, - isso sempre me foi um indício da bondade do caráter irrevogável - mas eu não poderia aceitar temer para sempre o escuro - eu tive que ir. - tive que vir, na verdade - pra poder entender que o fundo de todas as traições que te fizeram foram reais. - sempre considerei a bondade como opção que você, vocês me deram, a maior generosidade dos seus atos sempre generosos, - não sei se vocês seriam capazes de não me entender, não sei. isso nunca existiu entre nós. 

e hoje que minha nova amiga me fez concluir que existem mesmo memórias sem imagens nem palavras nem nenhum indício que as apresente enquanto memórias - instintos? - pensei tanto pra onde mesmo não importa. pra onde não importa, mesmo. eu só queria que vocês entendessem que eu tô muito perto de vocês. dói tanto pra cá quanto praí, eu sei. não tenho muito mais o que dizer, acho que, se calhar, também existem expressões que não são possíveis de dizer, nem de ver, - e isto tem também haver com destino. 

dia desses de manhã não sei quem foi que disse antes "é claro que eu acredito em destino. onde já se viu um poeta que não acreditasse?". - e eu queria que vocês soubessem que o motivo pelo qual eu estou aqui não tem nada haver com vocês, antes o contrário, embora eu não saiba qual é e esteja quase me arrancando os olhos pra descobrir porque estou viva. mas amo, amo vocês mais do que qualquer outro amor que eu já tenha tido. e sei que vocês entendem que isso não é absurdo.

o homem do ano

"Quanto aos livros, são os que mais me dão cabo da cabeça. Não deixo uma palavra com o seu sentido, nem sequer com a sua forma. 
Agarro-a e, após alguns esforços, arranco-lhe a raiz e desvio-a definitivamente da manada do autor.
Num capítulo há logo milhares de frases, e lá tenho eu que sabotar todas. Isso é-me necessário.
Às vezes, algumas palavras resistem como torres. Tenho que atacá-las várias vezes e, já bem lançado nas minhas devastações, subitamente, na esquina de uma idéia, revejo a torre. Por conseguinte, não a tinha suficientemente demolido. Tenho que voltar ao princípio e encontrar veneno para ela, e nisto passo tempos infinitos. 
E uma vez lido o livro inteiro, lamento-me, pois não percebi nada... naturalmente. Não consegui engordar nada. Continuo magro e seco. 
Eu pensava (não era?) que quando tivesse destruído tudo, encontraria o equilíbrio. Possivelmente. Mas o que isso demora, quanto demora!" 

Henri Michaux, do As minhas propriedades, - em tradução de José Carlos González.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Agora sou cavaleiro Laço firme e braço forte Num reino que não tem rei

de uma noite de eclipse pra outra noite sem eclipse
pensei que das coisas mais bonitas que eu já vi certamente essa foi uma delas. o eclipse por cima do Tejo.

no meio do eclipse estou indo pra cozinha pegar o lume pra acender um incenso e minha corrente com o cavalo arrebenta.

#

depurei uma trança que importa. confiar, tolerar, querer todas as imagens, as visões se clareando, todas as formas de representação da experiência são válidas. ao mesmo tempo, saber que nada funciona, que não há nenhum discurso que explique nada, nunca.

(interpretação é tudo beibe. apaga. esquece.)

mas decidir por uma coisa ou outra me parece estúpido. necessário mesmo viver na terrível maravilha da oscilação.

#

qual será aquela formulação de dúvida que quero fazer?

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a revelação da Terra quando saiu de frente da lua foi que aos 35 anos, quando eu ganhar o Nobel, já sei o que fazer com o dinheiro. vou comprar uma passagem extra-terráquea, dessas que milionário pode ir ver o planeta de fora dele.

acho que é o único modo de dar conta da experiência humana, ganhar o Nobel, ver a Terra de fora dela, e morrer.

domingo, 12 de junho de 2011

vamos lá, catarse, minha prima,

pohãn
a arte de transformar diários em rituais que saem do luto
delicadeza do registrar, relato abençoado seja ao abrir-se
(nós entendemos ao depois as coisas, os homens)
é sempre um atravessar perigoso
não sei se alguém come o que escava ou delira.
mas quando eu
zinha da silva catarse
resolvo transformar meus diários em poemas
(diários de um ano e meio atrás, serão os poemas de um ano e meio atrás?)
reconheço que os poemas já estão prontos
e preciso, precisaria, de um outro corpo. pra salvaguardar.

eu, que tenho virado um princípio do cuidado descontrolado.

bem me quer mal me quer

senti três coisas essa noite em sonhos. não sei se estávamos todos juntos num mesmo ônibus.
mas meu amigo contava que estava apaixonado por um homem depois de muito amar as mulheres. tinha conhecido o cara numa suruba, estava siderado.
mas meu amante só ficava me olhando, sentado em outro banco.
sentado do meu lado estava o meu desejo, e íamos para o sul, um outro sítio.

sábado, 11 de junho de 2011

ó antónio

concedei-me a forma do erro.
 

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