quinta-feira, 4 de agosto de 2011

hoje

hoje 
fiz das coisas mais importantes da minha vida. o "ofício cantante", do herberto. tem algo que tem sido difícil de dizer, porque não é um derramamento e talvez os meus pés não estejam leves o suficiente - então me sentei. antes de me sentar no largo onde nasceu o fernando pessoa - largo de são carlos - no 4o andar - eu não sabia antes de sentar - eu voltei na livraria porque tinham me dado 5 euros a mais de troco. assírio e alvim. se fosse a fnac eu não voltava.

hoje
percebi que faz tempo já que sei que a intensidade não está no dizer tudo, mas no corte. coisa que como ninguém ana cristina césar soube fazer. e herberto helder. al berto não. 

hoje
me sentei com a obra completa do herberto helder no sol do largo de são carlos e vibrei como as folhas enquanto lia. todos os portugueses só queriam os bancos com sombra, eu justamente o do sol. li, não posso dizer que chorei, porque desde manhã chorei do mesmo jeito o dia todo. uma comoção pelo foco que as coisas tomaram nos últimos dias. uma comoção pelo fato da reincidência e de que hoje eu leio herberto helder porque numa aula vinte anos, não, seis anos atrás caiu na minha carteira um xerox e era como um corpo de deus misturado com muita aveia e gaze, todo enrolado. para ver sua face eu precisei tirar a aveia e a gaze com os dentes, comê-lo. então o deus ficou nú e me disse: sou tua vida. eu acho que meu primeiro princípio de amor coincidente com este caminho, vir morar aqui, foi. foi naquele lugar onde quero viver, onde o espaço se desloca no espaço. mas tudo isso sobreposto, meu peito como uma casca de noz de onde se tirou o fruto cedo, 

hoje

terça-feira, 2 de agosto de 2011

o importante é que emoções

desconfio que escrevi um poema violento

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

segunda-feira

três sonhos seguidos com intervalos, só me lembro de dois

o primeiro a casa em que cresci (como sonho com lá) estava sendo assaltada, "mais uma vez" - era o que eu pensava, e toda a fachada dela era de vidro, enquanto eu passava na frente de carro com alguém que não era da minha família -a família estava toda lá dentro - minha irmã me fazia um gesto claro que eu entendia como um "saiam daqui, estamos sendo assaltados" e eu ia com a pessoa do carro tomar um café no centrinho, enquanto esperava o assalto terminar, pensando que chamar a polícia seria pior e me angustiava mas sabia que só iam levar tudo e tudo mas que iam deixar todos vivos, com sorte

(país ridículo).

depois na mesma rua da minha casa eu estava com meu pai de carro e com um filhote de gato no colo. por algum motivo nós tínhamos que deixar a casa e parávamos em frente da escola que fica ali na rua e eu tentava colocar o gato branquinho dentro da caixa de correio azul da escola, ele cabia, eu fechava o lacre, meu coração doía muito, eu pegava o gato de volta e pensava "não, minha vó vai ter que aceitá-lo", e ficava fazendo nele muito carinho, toda preocupada. quando cheguei na casa da minha vó comprei areiazinha pro gato que logo fez xixi em cima. e apareceu minha tia e ficou me dando uma bronca de horas. -

minha vó detesta gatos.

sábado, 30 de julho de 2011

gratuita

e este país que tem me criado uma tímida? - lembro da criança que eu era, sempre atrás das pernas dos meus pais ou do meu irmão, queria pedir desculpas por existir. 

hoje tanta coisa é só um ENTER, e adeus timidez, barquinhos dos des-acontecidos. eu quero a guarda costeira a me dizer adeus de boas-sortes, que trago em mim o farol dessa euforia sem motivo, dessa euforia ainda tão tímida, por este verão incendiada de sem porquê esta felicidade, onde o medo é pra ser instinto só, puro de ser uma sombra que acompanha o cuidado, e só, que

esta felicidade vai tomar banho para o casamento

quinta-feira, 28 de julho de 2011

hoje quinta-feira é meu domingo

há tanta gente para ver e aproximar o umbigo
mas hoje nem que seja por incêndio me chamam de casa.

talvez daqui 25 anos apareça alguém que entenda completamente
que o vento que roseta a dispersão da roupa

porque parece que gira por acaso, num varal meu lençol
mas eu sei que é mentira que ele gira perfeito só que prolixo
como todo acaso: perfeito só que prolixo.

preferiram os envergonhados o silêncio das roupas num varal
ou também os avaros dizer duas vezes, não mais.
eu talvez me meta em polêmicas maiores na próxima década
ou já estamos nela?

sei que é preciso correr em direção daquilo, daqueles 
que me contam que viver é um risco, afirmativo 
e as saudades que eu tenho do marcos.

o importante é saber não escrever e notar o vento nas roupas de ninguém.
falar com as roupas e com os cavalos e de vez em quando comprar um kit kat na máquina do metrô pra lembrar que isto aqui é europa
também de manhã cedo ou às vezes tarde bebo meu café numa xávena em que se lê
LISBOA e um coração - como é que se lê um coração?

minha mãe está no méxico meu pai está no chile, meu irmão em conakry, o outro em taiwan.
eu leio um livro do miguel do século XVI o Itinerário do António Tenreiro, quando quero aproveitar. então lembro do Diderot, quero juntar dois séculos depois, falando de modos e costumes. esses homens que se preocupam com a etiqueta do alheio, temo todos nós nos tornarmos isto. o Ranciére diz em alguma parte que é o escritor arqueólogo o dos romances do século XIX.

a vida fica toda suando 40 graus neste fim de julho. os livros estão sempre mornos, não importa a estação. e só andam se eles nos lêem. meu pai sempre diz isso, que os grandes livros nos lêem, não o contrário. meu pai está sempre preocupado com o que é grande. meu pai, grande homem de solidão infinita, me educou para ser grega com ele. eu vejo os aviõezinhos passarem,  o manoel contou  a gente riu da constatação que são invocados, os aviões. eu os vejo voarem rasgarem e procuro o século XXI entre as roupas que ainda não lavei.

talvez esta pomba valesse o mesmo que tudo. deve ser isso que se queria dizer o meu século, e eu não entendi, e a espantei. 

segunda-feira, 25 de julho de 2011

às vezes me entristeço que nem todo bom e-mail dá bom poema

obrigada por serem o senso histórico da minha geração

palpite

vou te contar que hoje
eu acordei
com o escorpião
ele me formigava de cima abaixo
sobretudo a nuca
louco pra que envenenasse
de rigor a cheia de si da lua.
e dissesse: é sem a minha permissão
que podes dançar indefinidamente
sobre a escuridão dos nossos olhos.
portanto não vacila, se atira
atravessa toda ternura e detesta
o sol, a tua órbita sem farol
e eu que aqui cega, fico que confio.
é. estou com tanto sono que entre mim e o uso
de qualquer droga (café ou fertilizante) qualquer
nada se altera.

ou isto, ou verdadeiramente comecei a sonhar.
estou hoje lúcida como quem pensou e achou e esqueceu.
ou de viver a vida inteira para conhecer um poeta.

a porta das minhas coisas não te incendeia?
a mim ela encosta de labareda na língua
e me beija, de saída.

êxito é ir partindo
do princípio que desconheço tudo.
mas que o vulcão conhece
a mesma capacidade da perfuração dos poros
da nossa pele
que se troca pelo ar das coisas

--- o que eu gostaria que todos soubessem é que o melhor é pôr fermento. 

e quem sabe que estou estudando o uso de "este" ou "esse" e também de "isto" ou "isso". algo no movimento da língua do brasil, que vai para o meio da minha língua, e que repara que lá se diz mais "isso". o que perde em ênfase, mas deixa tudo num mesmo lugar. outro dia apresentaremos também nossos avanços a respito de "cá" e "aqui"

- - - - acordo para o mundo e não sei onde ele é.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

guarda-te

posso estar por 4 horas ou mais
mas por enquanto só sei acordar tarde

percebi que a realidade existe / se existe é enquanto movimento, não durabilidade. / o nietzsche diz lá no começo que a verdade é um exército de metáforas móveis. / hoje se junta com cré. / e o problema de tudo ser ficção se embaça, que eu já nisso faz tempo que não acredito, o que me interessa é o ponto de retorno, onde (carolina me ensinou) o problema bate-e-volta. há verdade enquanto mobilidade, e eu não acredito nem nesse tempo imbecil

tempo imbecil que é verão e venta frio e pra mais do que o dinheiro a galera acredita que a natureza, poverela, é bondosa.

que destino ou maldição, minha gente, que destino ou maldição.

quem quiser participar do meu faroeste que venha e armado.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

dissertação

ou no que eu acreditava em 2011.

só assim, risco risco risco, é que vou sair deste precipício.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

tenho um grande amigo

CANÇÃO DO LAVRADOR

Meus versos lavro-os ao rubro
nesta página de terra
que abro em lábios. Descubro-
-lhe a voz que no fundo encerra

Os versos que faço sou-os
A relha rasga-me a vida
e amarra os sonhos dos voos
que eu tinha à terra ferida

Poemas que mais que escrevo
devo-te em vida. No húmus
a regos simples eu levo
os meus desvairados rumos

Mas mais que poema meu
(que eu nunca soube palavra)
isto que dispo sou eu
Poeta não escrevas lavra


ACONTECIMENTO

Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
amor inventado numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá
E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de outono
Caiam agora pálpebras que cerrem
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora
Caiam agora que o amor chegou


REGRESSO

Não não mereço esta hora
eu que todo o dia fui habitado por tantas vozes
que exerci o comérico num mercado de palavras
Não mereço este frio este cheiro tudo isto
tão antigo como os meus olhos
talvez mesmo mais antigo que os meus olhos


[todos do Ruy Belo, do "Aquele Grande Rio Eufrates"]
quando eu olhei pra ele ele olhou pra mim e eu me declarei.
depois de dito tim tim por tim tim ele olhou pra mim e respirou e cavou um buraco.
"espera."
foi assim: buraco, buraco, buraco. entrou lá. me olhou duas ou três vezes e jogou a terra por cima.

às vezes ele sobe com uma mãozinha me acena com as ervas arrancadas desde a raiz e acaricia por entre os dedos os meus pés. dou um riso muito sério, de mulher da terra que sou, ele vê por dentro de mim a vermelhidão. 

a gente atravessa a rua e é para sempre.

domingo, 17 de julho de 2011

origem

faz 5 dias que leio e re-leio os 5 primeiros poemas do primeiro livro de poemas do Ruy Belo. volto e volto. não consigo avançar mais pelo livro, nem tento.
penso coisas pequenas.
primeiro, que dedicação é a poesia, que o entedimento é um caminho que se faz e desfaz. 
segundo, quero escrever sobre um poema dele. o poema vai ser este
 
A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO

O senhor deus é espectador desse homem
Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe
nos olhos o tempo suave das árvores
Deu-lhe e tirou uma por uma
cada uma das quatro estações
A primavera veio e ele árvore singular
à beira do tempo plantada
vestiu-se de palavras
E foi a folha verde que deus passou
pela terra desolada e ressequida
Quando as palavras o deixaram de cobrir
ficaram-lhe dois dos olhos por onde
o senhor olha infinitamente a sua obra
Até que as chuvas lhe molharam os olhos
e deles saíram rios que foram desaguar
ao grande mar do princípio

-

mas não sei, se escrevo já.
acho que a gente precisava se conhecer há milênios
espero que essa sorte dure até o apocalipse.

sábado, 16 de julho de 2011

talvez se você não desse tanta atenção aos fatos

me trouxeram marzipãs alemães e eles são feitos na cidade da onde veio minha bisavó, Lübeck.
a última vez que jantei fora (hamburguer) com meu pai e minha mãe em SP havia uma régua daquelas de loja promocional dentro de um copo do lado do caixa onde estava escrito ESTIMA.
isto é tudo do que posso dizer. 
talvez o que me importe agora seja farejar o caminho que me indicam, mas tentar não escrever em cima das coincidências. até pra deixar que as coisas, os fatos, surpreendam como sempre vão fazer. confiar, sobretudo, no outro que não sou eu.

D

Naquele tempo em que acordava mais cedo do que eu mesma, porque era
a aventura social do mundo, a campainha
e que nos lugares mais inexplorados alguém, de repente,
falava e recomeçava a contar a morte
fosse ela uma paciência do que vem
ou descreviam cadáveres na sala
onde o assunto era dança, falavam da putrefação
para o constrangimento geral dos vivos.
Ou meu pai dizendo o que toda semana
pensava que a função dos vivos é ir
sempre embora contra a morte

embora do eu vou me embora disso tudo
desligo o som das portas, vou abrir para o ninguém
e cogito, não o meu fim por mim levantada
já que o homem da luz me acordou
pra marcar o correr do relógio
mas a possibilidade de qualquer abrupto
mesmo meu pai, se ele lutasse tanto
que fosse contra a morte de vez
eu em luto, também, iria de encontro
como a muro cheio de musgo
pra onde o silêncio dos vivos acelera

(mas enquanto não, vou lendo ruy belo,
) e, se avalio, de tudo me adianta ir
dizendo absurdos pra sorte de quem amo
imolo a morte, avario o norte, me digo
talvez se você não desse tanta importância aos fatos
mas não me escuto o suficiente que é para não.
Pois só é forte quem sabe o que já teve de si
do oco do mundo, a revelação do negativo
se bem que a morte não é gentileza
para quem parte do sentido, do possível 
mas se - um dia - no dia - há dia -  limo a perda
como uma pedra que se atira - no quê?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

classificados

procura-se banho de mar e auxílio-viagem.

não se percebe que profissionalização quer dizer comercialização de si?

teu sonho determina:

sonhei que eu jogava rolos de papel higiênico vazios na cabeça da mãe de um melhor amigo. ela me traiu, no sonho não, e eu jogava as coisas na cara dela enquanto dizia sei sei SEEEEEI e ria, ria. tudo acontecia à beira de uma piscina, o que me faz entender, interpretando o sonho à la Freud: gente rasa que se lixe.

cansei de ser legal/ agora vou ser radical

mâno, aconteceu algo muito absurdo em pleno século XVIII
e todo mundo aí dormindo em paz
farta deste iluminismo de abajour de todos nós.

domingo, 10 de julho de 2011

amor não é tolice

ontem pela primeira vez na vida comi caracóis e participei de uma performance
acho que nunca em um ano, em ano nenhum, dormi tão pouco
ontem quando deitei pensei "que organismo inteligente, o do descanso"
vamos dizer que a cada três noites durmo uma o quanto quero, as outras o quanto devo
pelos limites que os acontecimentos ao redor vão montando
hoje é domingo - dormi cinco horas porque vamos plantar um jardim no 2o andar de um prédio.
jardim de chão direto, terra sobre lajota.
não há sono melhor do que o meu.

digo passando por alguém - não te armes em parvo, pá.

sábado, 9 de julho de 2011

a tua fotinho

sonhei que te via online no chat do facebook.
ficava tanto querendo te chamar.
mas não conseguia. 
mas era um êxtase saber-te 
vivo.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

fogo sobre montanha

como sair do nada, chegar ao nada - talvez seja isso a experiência do limite estrangeiro - e viver.

canção do exílio

I'd like to have a yellow brasília, don't you?

Tivemos uma.
Mas acho que foi a do Leon que sofreu de uns furos no tapete que um dia lhe deixaram com os pés no chão.
hoje querendo que "tracejado" queira dizer comido pelas traças.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

caí tive que começar de novo

(um pequeno passo para um homem, mas um grande passo para o caminho)

tenho toda uma estratégia de vírgulas que passa por ouvir o dentro do meu ouvido.
concha, conchinha, atravessa até coração de galinha.  
parênteses são canoas, vírgulas são conchas.
o mar é você, meu amor.




quarta-feira, 6 de julho de 2011

tenho 27 anos e sei escrever

estou certa, esses dias, dos limites mortos da minha poesia.
pensei em começar a traduzir do português para o português.
mas ainda assim seria poesia de limites
mortos da minha poesia.

quem me dera ter encontrado uma fórmula dos mortos justamente nesse momento,
estou perdendo tanta coisa, meus sobrinhos crescendo, estou perdendo tanta coisa, esta dor de músculos
taí, eu fiz tudo pra você gostar - tantas, tantas fiz

e quando eu tiver 28 anos minha maior conquista vai ser não saber escrever?

hoje escrevi um poema para a performance de um amigo, que me pediu. performance da qual vou participar no largo do camões, em frente a embaixada brasileira, no sábado. o amigo ainda não me confirmou se aceitou o poema enquanto tal ou não. não devia, mas eu vou mostrar pra vocês (como se dança o baião)


Estou certa, nestes dias, dos limites mortos.
Se sou brasileira foi porque vim pra cá.
Consegui atravessar, mas os papéis não.
Nada nunca pode vir só.

O Atlântico é uma espécie de monstro anônimo
que a tudo engole e devolve. Marinha
fronteira carcomida por salsugem,
dissolve o poder dos homens, liberta-os.

A mim também. Não é todo dia que é o que posso.
Me mostra, espero mais. Troca tudo tanto de lugar.
Não param de pedir pra que eu me identifique.
Só tenho isso. Abarco nomes, rostos. Fico viva.
o meu preferido dos poemas abaixo é o "anotação",
sobretudo porque ele me dá duas leituras sobrepostas quando imagino

uma de que o amor foi em ato consumado, e as imagens são de uma carnalidade de arrancar ouro,
ou
que esteve cada um em seu canto, sem dormir, ligados nisso,

chove, poeta, chove

NÃO MAIS

Não mais te seguirei a um palco suburbano
como num mês incerto de setenta e três
ou mais exactamente

a ninguém seguirei
seja a que lugar for com o duvidoso
e porventura inútil desígnio do amor


MARGEM DO MAR

Volto-me para ti ou antes para
o teu lugar se é que tal abstracção
é possível, noite sem
som onde tu és o eco múltiplo
procuro

ver novamente os teus vários retratos
animados pelo sol o amor ou a respiração
o sangue torna
a passar-te nos braços fotográficos
devo continuar

a narrar o percurso irregular
da tua multiplicidade
eras o ar a árvore voltar-me
para ti é como procurar
no mar os afogados


ANOTAÇÃO

Juntos dormimos ou estivemos
deitados acordados
sobre a mancha do mar
em que como dois rios confluímos


[Gastão Cruz, do "Escarpas".]

segunda-feira, 4 de julho de 2011

na casa onde cresci, sonhei

que havia um almoço muito grande de domingo, onde estavam muitas pessoas, entre elas meu pai e outro joão muito sábio discutindo a respeito das divergências que têm a respeito do século XIX - eu pensava em intervir, mas ficava por ali, andando ocupada que estava em tirar o lixo reciclável, e alguns marginais tentavam invadir o nosso jardim - um deles usava moicano vermelho, como o pica-pau - mas não eram explícitos o bastante, também, pra que eu os expulsasse e eu ficava, ali e acolá, administrando (sem interferir em) tudo que acontecia, e com o lixo reciclável pra tirar.


#

acordei e o B tava tirando o lixo reciclável.

sábado, 2 de julho de 2011

e viva julho!

faz viver este medo como a terra distancia raio e trovão. 
pra me relacionar com xxxxxxx é como se eu precisasse me fechar pra que ele me possua absolutamente. porque ele vai fazê-lo. eu soube imediatamente ao ler as primeiras páginas do nosso encontro, que aquele era dos momentos mais importantes da minha vida (sei sempre). e como se dão as coisas que são assim? foi encadeado e pouco importante, do jeito que só as coisas que importam acontecem: acontecendo.
e me salve da eficiência, rapaz.

terça-feira, 28 de junho de 2011

as máximas desta 3a feira

escusado dizer que gosto de pessoas sem pudores imbecis.
são raras nas nossas línguas.

cazuza queria ser reconhecido pelo futuro enquanto poeta.
por mim o é.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

e la nave va

se exemplifique à vontade, meu bem. diga 
as coisas mais vãs que puder, fale-me até do mal
que faz por você mesmo

o mal que sobrevive. - - - -  eu às vezes acho que as pessoas me procuram pra atravessar certas coisas. como se eu pudesse pegar alguém pela partitura da camisa e dizer 'olha, tua vida, veja lá o que você faz.' - - - - as pessoas reconhecem nisso certa generosidade da minha parte, me agradecem. acho que cada um tem o rinoceronte que é. eu às vezes acho que

                                     no fundo elas vão descobrir um dia alguma coisa mesmo que nem mesma sei o que é, 
                                     mas é ao meu respeito e tem haver com me darem tanto as coisas
                                     no sentido de que eu poderia estar matando, mas vou, no máximo
                                     escrever uma dúzia e meia de romances, quando chegar aos quarenta.

enquanto isso não acontece vou somente me apaixonando toda vez que viro a esquina.

                                    e espero, eu também, arrancar de mãos dadas o mal do mundo, pelos olhos da raiz.

part time

tão difícil, a melhor coisa, escrever.
tanto tanto pra um, dois ou três, ou nenhum.

acho que tenho sonhado
com hotéis. acordo e minha mãe me escreveu
dizendo que percebeu que não sente mais falta
mas saudade.

e eu acho que inverti tudo, comecei pela melhor parte
(segundo mamãe, as saudades). eu nem
análise faço mais pra saber de nada.

mas levanto no meio da tarde e vou ler o poema
de carlos drummond de andrade
"com o pensamento em ana cristina"
por muito tempo desconfiei que ausência é falta.

penso que o Atlântico talvez seja mesmo
uma forma de suicídio. renomado
imortal. ou será que os oceanos terão
um dia, fim? será que enfim a morte é
onde as coisas terminam?

digo pra um amigo que os funerais são uma parede
com travo de desespero, ou cansaço. pra outro
peço que me escreva, encarnecidamente, porque
ouço a voz dele o dia inteiro. mas ouço em silêncio
por isso não me aterrorizo com pouco.

inclusive só me aterrorizo com o tempo 
em que eu pensava, recorrentemente, em suicídio.
mas o oceano, não. o oceano me dá as duas faces.

já contei que foi só vindo viver aqui que virei brasileira?
gosto muito de errar em certos privilégios. é como uma espécie de
dizer, portuguesamente, gosto muito de gozar em certos
privilégios. fica dito assim: é verdade, os brasileiros somos mesmo
qualquer coisa. o que reconhece a identidade posterior é o problema?

digo: a identidade está já traçada, é a identificação completa entre os pólos dela
o equívoco? mas aqui já acabou o poema, e começou a dissertação.

(acho importante separá-las.
inclusive, se eu pudesse, separava tudo no mundo.
aprendia a ser virginiana. tenho sempre alguns ao meu lado. os vejo
muito, desde a infância. eu mesma aprendi certos detalhes que não me confundem mais).

por exemplo, só.

mâno

meu deus, acho que do céu deste país quando chove cai poeta


SEGUNDO BALCÃO DOS BOMBEIROS


Neste tempo eu já lera as Brontë mas
como era um adolescente retardado
passava a noite em atrozes dilemas
que mais vale: amar, ser doutrem amado?


ainda não descobrira o simples disto
nem o essencial disto que é tão claro
se tudo no amor vem do imprevisto
deitar regras ao jogo pode sair caro

por isso eu amo e sou ou não benquisto
depende do instante bem ou mal azado
amor tem alegria, tem enfado
o happy end é coisa dos cinemas

#

APANHADOR DE PIRILAMPOS

A poluição dos escapes
os herbicidas
foram-vos empurrando
para fora
do Pinheiro Manso

antiga minha luz
particular
em noites doces
procuro-vos
e nada encontro
senão lixo
entre as folhas

fazeis-me
tanta falta
neste mundo escuro

#

A NAMORADINHA DE ORGANDI

Como na dança ritual dos patos colhereiros se te amei
foi a cem por cento da minha capacidade metafórica
mas copiado de livros onde o herói sempre enviuvava

cruzei imensas vezes sob a tua varanda com glicínias
pensando numa cena infeliz à moda do Harold

eu sonhava contigo?
                             eu assoava-me ao pijama!



[Fernando Assis Pacheco, do "Variações em Sousa".]

domingo, 26 de junho de 2011

um todo todo retorcido

e os pedaços de poema que se encontram, uns aos outros, um ano depois?

minhas frases cardíacas

ai ai - vida tão inevitável, viu.

sábado, 25 de junho de 2011

arbitrário

pensei ontem que quem não entende herberto helder não percebeu (ainda) como um poema pode ser um van gogh. - - -

- - - calor de silêncio rumoroso, leva-me de volta ao prazer do em si. leva-me ao, ao não interdito. - - -

quero tantas vezes me perder, fragmentar, cegar, pra ver o que está mais ausente no precário que sinto, arrancado então, feito novo, feito explícito, a pessoa aqui vive sempre do que acabou de perceber, e é sempre um lugar que leva a outro, não há um pavimento que não encaixe em outro nos meus sonhos, um lugar que sempre leva a outro, e eu mentindo ao escrever sobre abismos, nunca me faltam os pés, até quando tento, tanto que tento e depois fico, sofro, de tudo despedaçado pedaço por pedaço nada me dá fôlego. e meus pés sempre onde estão. 

suficiente pra perceber que há um contínuo entre todas as coisas e que silêncio não quer dizer, silêncio não quer dizer. diz, como as palavras, diz, enquanto comes a comunicação com silêncio, diz com as tuas palavras aquilo que diz - não o esquecimento, nem a continuidade, mas uma mistura puramente poluída entre uma coisa e outra - o direito ao erro, não, o valor do erro, o peso que as coisas têm, qual é? quem o mede,  aquele inventa? sabes como limpar uns dedos sujos, sabes como se fala com deus? e com os loucos, você sabe falar?, 

eu sei comer cerejas e saber que não são dele.
quando estão na minha boca.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

viva qualquer coisa!

quinze amigos casando nos próximos meses e o Tejo que amanheceu como um espelho.
daqui eu nunca tinha visto assim.

meu horóscopo falando há dias pra eu fazer aventuras, considerar depois.
e eu tentando calcular pra onde é que eu poderia enlouquecer nessa tarde

para onde seria possível reconhecer

céu de estrelas sem destino
de beleza sem razão


fogo fogo de artifício
quero ser sempre menino



das músicas da minha vida. mesmo.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

pra juntar com o debaixo

Este trapo (que estou)
talvez queira dizer
fale num tom mais baixo
                 (with the dead leaves).

quarta-feira, 22 de junho de 2011

de repente meu corpo fica domado como quem chorou por um largo
tempo um traço no peito feito um temporal, mesmo, só que feito à caneta hidrocolor
preto, sem raios, trovões nem dispersos, mas cinzas nos pés, um amontoado.

naquele tempo - que eu gosto de - eu gosto dele - de falar do presente como se já fosse passado - gostava de ir andando até a rua augusta e quando virava pela vitória nela, o sol.

há duas augustas. um dia vou escrever sobre elas, não sei se sobrepostas ou paralelas.

mas eu vou pela rua augusta como quem carregasse um escondido por dentro que fizesse do sol na sombra desconfiança, no fundo, de ser um amor, um amor de sombra meu, de ser um amor infértil.

prazer

ai semântica dos e-mails
ai o ruído dos miradouros
o verão europeu. ele passa na rua achando que vem um carro que não vem.

carro assombração. às vezes eu acho que essa cidade diz tantas coisas que se eu tivesse crescido aqui, enlouquecia. é muita camada. uma sensação de parada. tudo mentira.

lembro que em são paulo a luz de freio dos carros me tonteava. o barulho de todas elas na mesma hora, todos os freios juntos apertam pequenos fiu-fiu, sem sedução. a vida tinha uma claustrofobia assustadora, quando me mudei pra são paulo.

muito tempo hoje ainda eu temo a claustrofobia das cidades.

acendo este incenso pra que a vida recomece desde a sala de jantar
pra que a vida recomece desde a sala de jantar até o universo.

ai que vontade de dizer o já dito, só que torná-lo explícito.
ai que vontade de queimar a mão.

any day, now. any day, now.

let's swim

sim. tem algo de vertical, necessariamente, no escrever. mergulho, mesmo. quem vê o drama quando se precipita sem máscara. muito difícil tem sido, cada vez mais, escrever como uma coragem  da inocência que talvez a idade vá transformando em outra coisa (talvez o Quiroga tenha mesmo razão, e a opção da calma amorosa já tenha tomado conta das minhas escolhas, em encruzilhada ultrapassada das escolhas de paixão. será?).

quanto a escrever, uma dificuldade de perceber pra onde é vertical no redemoinho.  entrar de lado pela malícia. é mesmo perigoso, uns lados de onde ir. delírio, abismo, vertigem, ou ao ver o redomoinho  por dentro, o que se pega com a mão e coloca como objeto, aqui, bem de frente, pra olhar? tem muita coisa por aqui, girando.

girei a mesa no quarto: agora estão apoio e cadeira inclinados pelo piso, meu lado esquerdo mais alto do que o direito - não deve ser bom para a coluna; perdi mais da metade da área livre do quarto; correrei todas as noites o risco de bater a cabeça se me levantar errado da cama; mas assim daqui eu vejo o Tejo e é tão bonito que chego a ficar constrangida

(como é só pra mim).

resolvo fazer um jantarzinho hoje à noite e convido 15 pessoas.

tenho sonhado todas as noites mas de manhã só me lembro de um pedaço. a cena que lembro de hoje é que me convidavam pra jantar num lugar que em São Paulo eu iria fácil, mas era aqui em Lisboa e eu me sentia constrangida pela riqueza. sabia que não tinha dinheiro pra pagar. e também duvidava um pouco do prazer daquela companhia.

desejo transformado em auto-satisfação / auto-satisfação transformada em desejo

(ai os perigos de uma concordância).

consegui todos os meios pra falar com ele, mas estou séria (velha?) e não me articulei. acordo que não acredito na desculpa muito trabalho que me usei ontem. simbora com o medo, mas, no mais, eu te adoro, madureza.

se calhar saudades daquele tempo ain't no mountain high enough


viva o verão!

terça-feira, 21 de junho de 2011

palabras para mi queridos

lenha, se eu sou - é porque vocês me tiram da lama.

domingo, 19 de junho de 2011

ainda não entendi porquê

de patins, enormes, andando por uma cidade que tinha todos os tipos de pavimentos possíveis, muito raramente propícios aos patins, mas eu resisti, sem cair, e quando deslizava tomava toda o impulso possível, então quando chegava ao lugar errado enchia as rodas de lama, mas elas não pareciam se importar, e minhas pernas eram capazes de tudo - tudo alcançar. de repente estou num aeroporto, é perfeito pra deslizar. de repente estou num banheiro de ginásio, tipo como se chegasse a hora do banho, e três mulheres me dizem que o roberto (que era o chefe de bedéis da escola em que estudei) tinha mandado dizer que patins eram proibidos ali e em toda parte e que deviam ser - os meus - confiscados. então me senti sem pés.

sábado, 18 de junho de 2011

já de saída minha estrada entortou

"Provavelmente você terá medo de muitas coisas. Por exemplo, do futuro. Mas quando ele chegar vai ser um presente e é melhor nem pensar agora. Aristóteles fala de um homem que se matou porque tinha medo de morrer. E, você sabe, estamos sempre por aqui, por enquanto, enquanto dá pra estar por aqui. Não se preocupe, as coisas se ajeitam e o essencial é o equilíbrio." p.

the times they are a-changin'

Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a "Canção do Exílio".
Como era mesmo a "Canção do Exílio"?
Eu tão esquecido da minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
onde canta o sabiá!

Drummond

sexta-feira, 17 de junho de 2011

primeiro alô

imprimo meus "poemas do destino do mar" pela primeira vez para organizá-los em ordem,
mas o que eu ia dizer é que imprimo meus poemas no verso de umas cópias mal feitas de um texto do Adorno -
e me sinto tão longe da Universidade de São Paulo. amém.

axé

hoje li no quadro de luz de uma rua (possível) uma possível hipótese de epígrafe pra um sub-capítulo da minha dissertação e eu escrevo aqui para registrar, já que não tenho  - ainda - nem capítulos, nem subcapítulos, nem nada que use hífens. é como isso:

"o tempo só estrangula quem não ama".

será para iniciar o dizer sobre o Octavio Paz.
 

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