domingo, 11 de setembro de 2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

estou vivo e escrevo sol




uma espinha dorsal balança na linha do horizonte
segurada por um miúdo
ele a agita feito folha
em cima dela
eu sou o escarvelho
que a água do céu trepida.
hoje é aniversário da carolina
mas amanhã e depois
eu vou também
ria moura ria moura
gargalhe, sua louca.
seja feliz.
pegue uns panos pra lavar/ leia um romance.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

amor

fiquei um mês sem tocar nos meus trabalhos acadêmicos, universitários - depois de seis meses dentro deles sem parar. agora retorno pra ler as anotações, introduções que já fiz. e é curioso, como em todas elas há traços similares, que são espécies de conversações basilares de mim comigo mesma, tentando propor a mim mesma o que eu acredito e no que eu não acredito - matando fantasmas, colhendo flores, planeando o plano, assinando embaixo do nome dos meus professores e mestres, matando os velhos de susto, acalmando os novos sem pressa - mas algum travo na boca da minha incapacidade, ou de estar ainda atrasada dentro de mim mesma, sempre, sempre tirando os outdoors do mal da frente dos meus olhos, e colocando de molho o meu próprio cansaço. sim, creio que é a hora, de voltar a trabalhar.

século

SÉCULO

Meu século, besta minha, quem
te olhará nas pupilas duras,
quem soldará com o próprio sangue
as vértebras de duas centúrias?
O sangue construtor irradia
da garganta das coisas da terra,
no dealbar de um novo dia
só o parasita é que treme.

Todo o ser, no agarrar da vida,
carrega com a espinha do dorso,
e brinca com a coluna, brinca
abrupta e invisível a onda.
Terra nova, século recém-nado,
cartilagem tenra de menino -
como cordeiro, é de novo imolado
o osso do crânio, a testa da vida.

Para ao novo mundo dar princípio,
para arrancar o século dos ferros,
há que atar, com a flauta, os dias
p'leos enodoados cotovelos.
O século é que balança a onda
ao ritmo da humana desdita,
entre as ervas, ao compasso de ouro
do século a víbora respira.

Incham ainda os pâmpanos na vinha
e a vide rebentará de verde,
mas será quebrada tua espinha,
meu século misérrimo e belo!
E com um sorriso sem sentido,
olhas, crue e débil, para trás,
como animal outrora flexível
para as pegadas dos próprios pés.

O sangue construtor ainda jorra
das coisas da terra; em ressacas
de peixe quente vem dar à costa
a tépida cartilagem dos mares.
E da rede alta das aves, da rocha
do céu, húmida e azul,
se verte, se verte a indiferença
sobre a tua ferida mortal.

1922

[Óssip Mandelstam, em tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra]
eu vou dizer uma coisa muito simples
ao abrir a janela dei de cara com EUROPA
o navio com ganas de caribe, ir, ir.


tive também algum sobressalto de calor - e quando percebi que tinha medo, vontade de me preservar pra não perder, então eu me lembrei que sempre que se cai, se cai de um alto. céu que é céu não nos basta.

nunca é possível extrair garantias do futuro. o tempo é a minha matéria o tempo presente os homens presentes. voemos olho-no-olho.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

a gente não se finge nada e do calor da mesma honestidade nasce um musgo
que a gente fica brincando com ele feito fosse ver a reação da cor
mas a gente sempre foi cientista sozinho - eu no meu cavalinho - ele
eu ia dizer ele no tanto que ele quis o amor mas seria injusta porque eu também
foi sempre esse o meu cavalinho dizendo pocotó pocotó
cavalinho caindo da ponte, maior índice de suicídios entre cavalinhos na década
se deu entre esses últimos anos - mas agora

7 de setembro

PORTUGAL

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira que o Infante
D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns eletrochoques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiros dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
como me pude eu apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca


[Jorge Sousa Braga, do "De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu".]

te dou uma tonelada de amor

atravesso aos poucos a correspondência em dia de amor meu quinhão é três vezes 
nossa luz - estou cega - percebo assim- primeiro os objetos todos voam por cima
como se fossem me entregar um presente que já chegou, fico observando
os ovnis que vieram viver dentro dos fios do meu cabelo - são estrelas dos conformes
conforme a prescrição: vinha sem bula: e de repente as palavras tinham sido
as palavras tinham sido raptadas! era isso. junto com os ouvidos. ouvidos levados à sério
esquecidos, tapados, os ouvidos já não entendem uma canção
os ouvidos já não podem com isto porque os ouvidos querem abrir-se sós
para uma língua - para uma língua. - que é o que importa. ter uma língua, abrir-se.
notar no dia seguinte que nenhuma música de amor faz sequer sentido, porque só corpo
é sentido. é sentido é o sentimento.

penso em pegar uma folha em branco e fazer uma lista da abrangência possível de a teus pés
já começo da partida de que é uma primeira vez - que é pra durar pra sempre - ou pra durar pra muitas vezes
tenho essa ansiedade da duração - o melhor mesmo é subir
a serra, a tua perna, meu canto -
murcho só o aprisionamento, ou no meio do medo meus olhos solúveis.

domingo, 4 de setembro de 2011

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

amigos bíblicos

II

Eu a rosa negra da planície de Saron lírio de seis petálas no vale.
Como a rosa
entre os espinhos cardos assim a minha amiga está
entre as filhas.
Como a macieira entre as árvores no bosque o meu amado
é entre os filhos.
Sob a sua sombra desejei e estive e o seu fruto luz doce
na minha garganta.
Trouxe-me para a sua cave assinalou sobre mim o amor
o seu pendão.
Rodeai-me de taças de vidro fundamentos pomos que adoeço
de amor eu.
A sua esquerda sob a minha cabeça a sua direita que
me há de abraçar.

Vos rogo filhas de Jerusalém por gamo e por cervos do campo
que não desperteis
nem fareis desvelar amor na caça antes de que queira.

Voz do meu amado eis é o que vem atravessar os montes saltar
sobre as colinas.
Semelhante o amado a gamo ou a cria de cervo é este aqui está
além do muro
brota entre janelas o que assoma pelas gelosias.             Respondeu
o meu amado
disse-me levanta o teu corpo minha amiga
bela e caminha
porque o inverno foi o exílio a chuva passou caminhou
para além.
Saem da terra os rebentos eis o tempo da poda chegou
hora do cântico.
E a voz da rola nos campos terra nossa peregrina
que se ouve.
Na figueira brotam os figos e a vide o odor ergue-te
a ti mesma
amiga minha formosíssima e vem contio. Minha
pomba brava
nos recantos da escarpa oculta nas espirais descobre
a tua face Rosto
faz ouvir a tua voz e essa tua face
Rosto desejável.
Prendei-me as raposas novas que destroem vinhas nossas
que estão em flor.
O meu amado meu unido e eu para ele o que apascenta
entre as rosas lírios.
Antes de que sopre o dia e fujam as sombras na manhã na tarde
sê semelhante
meu amado a cabra ou a cria de cervo sobre as montanhas
de separação.



[a tradução é de Fiama Hasse Pais Brandão, do Cântico Maior (Atribuído A Salomão).]


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

sai do lugar onde não sei ficar. dei um salto, caí com os dois pés. estive toda a tarde pensando nisso. em pular, saltar, se toda a vida não é sempre perto, rápido demais. às vezes parece que vim viver em portugal pra atrasar 3/4 meu relógio de contar, puxar a marcha lenta vezes cem vezes também. eu coloquei um elástico na cintura, era de noite. então eu vou vou vou vou vou vou. o elástico comigo na barriga puxa puxa puxa puxa puxa. então gente alcança um lugar. quando chega lá minhas coxas não têm mais forma de resistir ou o elástico (mesmo) está ressacado e inconveniente - pra trás, pra trás, pra trás -. haja tanto salto. mais que legume alho picado em frigideira quente.
talvez o espaço
seja uma necessidade de cultivo - aprender a absolvição do sentido, entre hortaliças.
ou ficar tão mole, tão mole, de entregue de presa
você com tua garra de lagosta
a me incidir os pronomes - sem perceber, amor, que só o que se recolhe
no claro, é que alcança a sombra.

ou dizer assim: gosta de mim?
aposto que ele nunca me esqueceu. também você se adianta demais.
você encontrou uma escola, lembra?
estudou em três. isto além do jardim da infância e das duas - já - faculdades.

sempre sei o que vai durar mas o meteoro me enriquece
de fatos, feito um tecido conjuntivo, o acaso. é.
o acaso é feito um tecido conjuntivo.
eu sou os ossos. ele os músculos.
os órgãos? do mundo.

passa lá embaixo uma menina de camiseta de bolinha.
eu penso que enquanto não aparecer eu não paro de escrever aqui.
talvez pudesse até cantar adriana calcanhoto, marina lima.
mas nossa, bom mesmo é cazuza, ou imitar cachorro.

quanto mais vejo os cães, mais admiro os gatos.
as pessoas que se dividem nas que gostam de cães, nas que gostam de rabos.
eu gosto de tudo isto, gosto também de melancia.

às vezes tudo me enche o saco. meus inimigos estão no poder.
estou tão cansada às vezes não sei. vou conseguir? atravessar o areal, a desventura.
chega de desventura, meu deus, eu já paguei a conta do analista.
na verdade era vovó quem pagava. e eu quem vou mudar o mundo?
claro.

peguei umas pedrinhas no caminho, lampejos. depois que eu tiver escrito tudo, não apaga?
por favor, eu venho aqui e escrevo na lousa, no quadro, de giz ou caneta bastão. daí ninguém lê.
depois que ninguém lê ninguém vem aqui e apaga. assim continua a escrita dos dias.

acho importante.

(Que ninguém leia, não, não sei se me preocupo com isso. com os rascunhos. o resto é beleza, beleza tem que ser vista. tem? se uma árvore cai no meio do mato faz um barulho lindo, eu não sou a árvore, ninguém - o do bastão - está lá pra ver. esta árvore existe? - claro que sim. ninguém precisa de ninguém pra ler. mas poesia se escreve de pessoas pras pessoas. - - - embora existissem hipopótamos tão raros.)

será que o fim da tarde em Portugal é outro? não sei explicar.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

vou pular

um encontro marcado num barco. por atravessar
o Tejo.

e ele me entende.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

ai

enquanto eu vou fazendo 
enquanto eu vou fazer
as coisas da casa e um horóscopo antigo - meu mapa natal - diz que coloco força em tudo que desejo, e que talvez (talvez?) seja bom aprender a fazer mais menos logo. antes que seja tarde. me imagino muito velha e irritada porque minhas pernas não andam? mas a ternura do meu corpo por si mesmo, que é um encontro, eu cuidarei bem dele, como dessa casa. detesto sujeira, lembro do meu pai, que diz que detesta sujeira, e sinto tanto prazer, adrenalina (disse ez) pela faxina, fico falando disso muito tempo aqui, acho que falo muito aqui de faxina, de sonho, de amor, de liberdade. tenho pensado em tatuar uma nuvemzinha muito pequena. muito pequena nuvem sobre o pulmão. mas não nos seios, que seria o lugar mais bonito pra uma nuvem, mas é tão bonito que eu não consigo. tem que ser o pulmão pelas costas. tem que alcançar a nuvem do teu pulmão pelas costas. sempre chorei estrelas. o choro vem do pulmão, é o que eu acho. o peito cheio de nuvens. a vida que é uma flâmula que flama. 

quero mostrar-vos a foto de alguém que eu amo


admirável.
depois.
depois me lembro de entrar na barraca e terem 5 aranhas em cima da minha mala. eu matei elas todas, num ímpeto. pensei então que horror, matar a vida assim à toa. procurei o b e disse que eu queria ir embora. não aguentava mais aquela música trance tocando sem parar. pensava a toda hora "ana cristina césar não viu uma rave". pensava toda hora "herberto helder entendeu as montanhas e as raves e o fogo e os tecidos e a cordialidade de um coração e o silêncio e". agora penso será que tudo no herberto helder é esse múltiplo justaposto lado a lado coisa a coisa figura a figura. por que em ambos os dois aconteceram modos de perder a hierarquia? não. nela, sim. nele a oscilação de tom e grandeza, as coisas vão num crescente e nada, de repente. mas as aranhas todas mortas pela minha hierarquia, daí não da limpeza, mas da peçonha, não. então procuro pelo b fora da barraca, na tenda dele e digo se ele iria embora comigo naquele momento? eu já sabia que não iríamos, eu mesma era só angústia, não movência. ele me explicou as dificuldades com muito carinho. eu olhei pra ele e disse que sim, ele tinha razão, e falando das aranhas disse do horror, depois disse da morte, depois disse "mas os bichos não fazem nada" e comecei a chorar e disse "mas os bichos não fazem nada, meu pai sempre me disse isso quando eu digo que tenho medo de algum bicho ele me diz 'mas os bichos não fazem nada' ". ai que choro, ai que angústia pelos bichos que não fazem nada, ai que saudades do meu pai, ai meu ordenado, ai Portugal. e fiquei comendo biscoito de alfarroba e rindo "comes alfarroba, pequena", o b riu também, as aranhas riram na uma alma só que têm, como os peixes. mas não como aranha, não.

volto e minha mãe me pergunta se eu estou apaixonada. ai mamãe ai mamãe não sei dizer mas mamãe que me conhece mais que os estômagos de peixe e as aranhas que entram desavisadas na minha tenda e partem as patas sem vida.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

há mar

"o amor é das poucas coisas que tá aí pra todo mundo" - encosta em mim, logo gruda. tanta capacidade simples, ser cativo de si mesmo como uma salivação. haveria tão mais a dizer. até a mala é uma aposta no verão. e quinze dias são um milhão. meu coração não sabe mais, meu cabelo começou a prender. a incrível arte de escolher livros para o mar. 

minha nova câmera é igual a antiga. sobretudo uma velha praktica.

o b vai comigo. o b é pra sempre. comigo.

e meu mouse tá fazendo som de passarinho quando clica.

portugal é lindo, vou contar. lugar, passagem, estar. comer: hoje comemos milho cozido passado no azeite com flor de sal. portugal is burning nos seus acessórios. vou contar outra coisa: as estrelas estão sempre por aí. nós conseguimos dizer mais um pouco: os planetas a rodar nos signos sem parar. precaução não. nem me venha com nada que seja menos, ou segurar. bem comportada não vai dar em nada. te mando um beijo gostoso. e até já.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

tenho um velho amigo

*

aos vinte ou quarenta os poemas de amor têm uma força directa,
e alguém entre as obscuras hierarquias apodera-se dessa força,
mas aos setenta e sete é tudo obsceno,
não só amor, poema, desamor, mas setenta e sete em si mesmos
anos horrendos,
nudez horrenda,
vê-se o halo da aparecida, catorzinha, onda defronte, no soalho, para cima,
rebenta a mais que a nossa altura,
brilha com tudo o que é de fora:
quadris onde a luz é elástica ou se rasga,
luz que salta do cabelo,
joelhos, púbis, umbigo,
auréolas dos mamilos,
boca,
amo-te com dom e susto,
eles dizem que a beleza perdeu a aura, e eu não percebo, creio
que é um tema geral da crítica académica: dessacralização, etc., mas
tenho tão pouco tempo, eis o que penso:
décimo quarto piso da luz e, no tôpo, a, tècnicamente definida, lucarna, que é por onde se faz com que a luz se faça,
e a beleza é sim incompreensível,
é terrível, já se sabia pelo menos desde o Velho Testamento,
a beleza quando avança terrível como um exército,
e eu trabalho quanto possa pela sua violência,
e tu, catorze, floral, toda aberta e externa, arrebata-me nos meus setenta e sete vezes êrro
de sobre os teus soalhos até à eternidade,
com o apenas turvo e sôfrego
tempo onde muito aprendo que só me restam indecência, idade, desgovêrno,
e sim, pedofilia, crime gravíssimo
¿ mas como crime, pedofilia, se a beleza, essa, desencontrada
nas contas, é que é abusiva?
e se me é defesa, e terrível como um exército que avança, eu,
setenta e sete de morte e teoria:
o acesso à música, o rude júbilo, o poema destrutivo, amo-te
com assombro,
eu que nunca te falei da falta de sentido,
porque o único sentido, digo-te agora, é a beleza mesmo,
a tua, a proibida, entrar por mim adentro
e fazer uma grande luz agreste, de corpo e encontro, de ver a Deus se houvesse, luz terrestre, em mim, bicho vil e vicioso




[do "A faca não corta o fogo", Herberto Helder.]

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

agosto

sábado, 6 de agosto de 2011

estou com uma amiga andando atrás de um caixa eletrônico, estamos no brasil e talvez até na bahia. andamos por uma rua desconhecida, até que eu reconheço um ponto de ônibus com um cercado, bem brasileiro, pipoqueiro vendendo pipoca, baleiro vendendo bala, 30 pessoas esperando, tudo colorido e 4 placas enferrujadas da onde já se apagaram os destinos. no espacinho que dá pra passar eu passo, vem um desconhecido do outro lado e me agarra, eu gosto agarro ele também, mas dou uma bronca, e saio andando. 
depois estamos num grande saguão de posto de gasolina tipo graal, brasileiro, e há uma caixa eletrônico, finalmente, e é um multibanco português. eu preciso ir ao banheiro e vou, mas o banheiro é um estúdio, escritório enorme, que é da mãe da minha amiga e a mãe da minha amiga no sonho é a marília gabriela e tem um milhão de coisas de escritório em cima de uma mesa enorme, e a cadeira onde é finalmente a privada. então eu me sento e começo a fazer cocô e não tem papel, mas uns pedaços de pão que eu interpreto que são os higiênicos daquela mesa. terminado, só que ainda não levantada. daí as duas entram com fome e eu nem falo nada e começam a conversar comigo como se aquilo fosse uma sala de estar e eu não estivesse no banheiro. lembro dos clips coloridos em cima da mesa. e também das folhas de papel. e que havia sobrado um pedaço de pão. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

hoje

hoje 
fiz das coisas mais importantes da minha vida. o "ofício cantante", do herberto. tem algo que tem sido difícil de dizer, porque não é um derramamento e talvez os meus pés não estejam leves o suficiente - então me sentei. antes de me sentar no largo onde nasceu o fernando pessoa - largo de são carlos - no 4o andar - eu não sabia antes de sentar - eu voltei na livraria porque tinham me dado 5 euros a mais de troco. assírio e alvim. se fosse a fnac eu não voltava.

hoje
percebi que faz tempo já que sei que a intensidade não está no dizer tudo, mas no corte. coisa que como ninguém ana cristina césar soube fazer. e herberto helder. al berto não. 

hoje
me sentei com a obra completa do herberto helder no sol do largo de são carlos e vibrei como as folhas enquanto lia. todos os portugueses só queriam os bancos com sombra, eu justamente o do sol. li, não posso dizer que chorei, porque desde manhã chorei do mesmo jeito o dia todo. uma comoção pelo foco que as coisas tomaram nos últimos dias. uma comoção pelo fato da reincidência e de que hoje eu leio herberto helder porque numa aula vinte anos, não, seis anos atrás caiu na minha carteira um xerox e era como um corpo de deus misturado com muita aveia e gaze, todo enrolado. para ver sua face eu precisei tirar a aveia e a gaze com os dentes, comê-lo. então o deus ficou nú e me disse: sou tua vida. eu acho que meu primeiro princípio de amor coincidente com este caminho, vir morar aqui, foi. foi naquele lugar onde quero viver, onde o espaço se desloca no espaço. mas tudo isso sobreposto, meu peito como uma casca de noz de onde se tirou o fruto cedo, 

hoje

terça-feira, 2 de agosto de 2011

o importante é que emoções

desconfio que escrevi um poema violento

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

segunda-feira

três sonhos seguidos com intervalos, só me lembro de dois

o primeiro a casa em que cresci (como sonho com lá) estava sendo assaltada, "mais uma vez" - era o que eu pensava, e toda a fachada dela era de vidro, enquanto eu passava na frente de carro com alguém que não era da minha família -a família estava toda lá dentro - minha irmã me fazia um gesto claro que eu entendia como um "saiam daqui, estamos sendo assaltados" e eu ia com a pessoa do carro tomar um café no centrinho, enquanto esperava o assalto terminar, pensando que chamar a polícia seria pior e me angustiava mas sabia que só iam levar tudo e tudo mas que iam deixar todos vivos, com sorte

(país ridículo).

depois na mesma rua da minha casa eu estava com meu pai de carro e com um filhote de gato no colo. por algum motivo nós tínhamos que deixar a casa e parávamos em frente da escola que fica ali na rua e eu tentava colocar o gato branquinho dentro da caixa de correio azul da escola, ele cabia, eu fechava o lacre, meu coração doía muito, eu pegava o gato de volta e pensava "não, minha vó vai ter que aceitá-lo", e ficava fazendo nele muito carinho, toda preocupada. quando cheguei na casa da minha vó comprei areiazinha pro gato que logo fez xixi em cima. e apareceu minha tia e ficou me dando uma bronca de horas. -

minha vó detesta gatos.

sábado, 30 de julho de 2011

gratuita

e este país que tem me criado uma tímida? - lembro da criança que eu era, sempre atrás das pernas dos meus pais ou do meu irmão, queria pedir desculpas por existir. 

hoje tanta coisa é só um ENTER, e adeus timidez, barquinhos dos des-acontecidos. eu quero a guarda costeira a me dizer adeus de boas-sortes, que trago em mim o farol dessa euforia sem motivo, dessa euforia ainda tão tímida, por este verão incendiada de sem porquê esta felicidade, onde o medo é pra ser instinto só, puro de ser uma sombra que acompanha o cuidado, e só, que

esta felicidade vai tomar banho para o casamento

quinta-feira, 28 de julho de 2011

hoje quinta-feira é meu domingo

há tanta gente para ver e aproximar o umbigo
mas hoje nem que seja por incêndio me chamam de casa.

talvez daqui 25 anos apareça alguém que entenda completamente
que o vento que roseta a dispersão da roupa

porque parece que gira por acaso, num varal meu lençol
mas eu sei que é mentira que ele gira perfeito só que prolixo
como todo acaso: perfeito só que prolixo.

preferiram os envergonhados o silêncio das roupas num varal
ou também os avaros dizer duas vezes, não mais.
eu talvez me meta em polêmicas maiores na próxima década
ou já estamos nela?

sei que é preciso correr em direção daquilo, daqueles 
que me contam que viver é um risco, afirmativo 
e as saudades que eu tenho do marcos.

o importante é saber não escrever e notar o vento nas roupas de ninguém.
falar com as roupas e com os cavalos e de vez em quando comprar um kit kat na máquina do metrô pra lembrar que isto aqui é europa
também de manhã cedo ou às vezes tarde bebo meu café numa xávena em que se lê
LISBOA e um coração - como é que se lê um coração?

minha mãe está no méxico meu pai está no chile, meu irmão em conakry, o outro em taiwan.
eu leio um livro do miguel do século XVI o Itinerário do António Tenreiro, quando quero aproveitar. então lembro do Diderot, quero juntar dois séculos depois, falando de modos e costumes. esses homens que se preocupam com a etiqueta do alheio, temo todos nós nos tornarmos isto. o Ranciére diz em alguma parte que é o escritor arqueólogo o dos romances do século XIX.

a vida fica toda suando 40 graus neste fim de julho. os livros estão sempre mornos, não importa a estação. e só andam se eles nos lêem. meu pai sempre diz isso, que os grandes livros nos lêem, não o contrário. meu pai está sempre preocupado com o que é grande. meu pai, grande homem de solidão infinita, me educou para ser grega com ele. eu vejo os aviõezinhos passarem,  o manoel contou  a gente riu da constatação que são invocados, os aviões. eu os vejo voarem rasgarem e procuro o século XXI entre as roupas que ainda não lavei.

talvez esta pomba valesse o mesmo que tudo. deve ser isso que se queria dizer o meu século, e eu não entendi, e a espantei. 

segunda-feira, 25 de julho de 2011

às vezes me entristeço que nem todo bom e-mail dá bom poema

obrigada por serem o senso histórico da minha geração

palpite

vou te contar que hoje
eu acordei
com o escorpião
ele me formigava de cima abaixo
sobretudo a nuca
louco pra que envenenasse
de rigor a cheia de si da lua.
e dissesse: é sem a minha permissão
que podes dançar indefinidamente
sobre a escuridão dos nossos olhos.
portanto não vacila, se atira
atravessa toda ternura e detesta
o sol, a tua órbita sem farol
e eu que aqui cega, fico que confio.
é. estou com tanto sono que entre mim e o uso
de qualquer droga (café ou fertilizante) qualquer
nada se altera.

ou isto, ou verdadeiramente comecei a sonhar.
estou hoje lúcida como quem pensou e achou e esqueceu.
ou de viver a vida inteira para conhecer um poeta.

a porta das minhas coisas não te incendeia?
a mim ela encosta de labareda na língua
e me beija, de saída.

êxito é ir partindo
do princípio que desconheço tudo.
mas que o vulcão conhece
a mesma capacidade da perfuração dos poros
da nossa pele
que se troca pelo ar das coisas

--- o que eu gostaria que todos soubessem é que o melhor é pôr fermento. 

e quem sabe que estou estudando o uso de "este" ou "esse" e também de "isto" ou "isso". algo no movimento da língua do brasil, que vai para o meio da minha língua, e que repara que lá se diz mais "isso". o que perde em ênfase, mas deixa tudo num mesmo lugar. outro dia apresentaremos também nossos avanços a respito de "cá" e "aqui"

- - - - acordo para o mundo e não sei onde ele é.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

guarda-te

posso estar por 4 horas ou mais
mas por enquanto só sei acordar tarde

percebi que a realidade existe / se existe é enquanto movimento, não durabilidade. / o nietzsche diz lá no começo que a verdade é um exército de metáforas móveis. / hoje se junta com cré. / e o problema de tudo ser ficção se embaça, que eu já nisso faz tempo que não acredito, o que me interessa é o ponto de retorno, onde (carolina me ensinou) o problema bate-e-volta. há verdade enquanto mobilidade, e eu não acredito nem nesse tempo imbecil

tempo imbecil que é verão e venta frio e pra mais do que o dinheiro a galera acredita que a natureza, poverela, é bondosa.

que destino ou maldição, minha gente, que destino ou maldição.

quem quiser participar do meu faroeste que venha e armado.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

dissertação

ou no que eu acreditava em 2011.

só assim, risco risco risco, é que vou sair deste precipício.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

tenho um grande amigo

CANÇÃO DO LAVRADOR

Meus versos lavro-os ao rubro
nesta página de terra
que abro em lábios. Descubro-
-lhe a voz que no fundo encerra

Os versos que faço sou-os
A relha rasga-me a vida
e amarra os sonhos dos voos
que eu tinha à terra ferida

Poemas que mais que escrevo
devo-te em vida. No húmus
a regos simples eu levo
os meus desvairados rumos

Mas mais que poema meu
(que eu nunca soube palavra)
isto que dispo sou eu
Poeta não escrevas lavra


ACONTECIMENTO

Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
amor inventado numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá
E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de outono
Caiam agora pálpebras que cerrem
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora
Caiam agora que o amor chegou


REGRESSO

Não não mereço esta hora
eu que todo o dia fui habitado por tantas vozes
que exerci o comérico num mercado de palavras
Não mereço este frio este cheiro tudo isto
tão antigo como os meus olhos
talvez mesmo mais antigo que os meus olhos


[todos do Ruy Belo, do "Aquele Grande Rio Eufrates"]
quando eu olhei pra ele ele olhou pra mim e eu me declarei.
depois de dito tim tim por tim tim ele olhou pra mim e respirou e cavou um buraco.
"espera."
foi assim: buraco, buraco, buraco. entrou lá. me olhou duas ou três vezes e jogou a terra por cima.

às vezes ele sobe com uma mãozinha me acena com as ervas arrancadas desde a raiz e acaricia por entre os dedos os meus pés. dou um riso muito sério, de mulher da terra que sou, ele vê por dentro de mim a vermelhidão. 

a gente atravessa a rua e é para sempre.

domingo, 17 de julho de 2011

origem

faz 5 dias que leio e re-leio os 5 primeiros poemas do primeiro livro de poemas do Ruy Belo. volto e volto. não consigo avançar mais pelo livro, nem tento.
penso coisas pequenas.
primeiro, que dedicação é a poesia, que o entedimento é um caminho que se faz e desfaz. 
segundo, quero escrever sobre um poema dele. o poema vai ser este
 
A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO

O senhor deus é espectador desse homem
Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe
nos olhos o tempo suave das árvores
Deu-lhe e tirou uma por uma
cada uma das quatro estações
A primavera veio e ele árvore singular
à beira do tempo plantada
vestiu-se de palavras
E foi a folha verde que deus passou
pela terra desolada e ressequida
Quando as palavras o deixaram de cobrir
ficaram-lhe dois dos olhos por onde
o senhor olha infinitamente a sua obra
Até que as chuvas lhe molharam os olhos
e deles saíram rios que foram desaguar
ao grande mar do princípio

-

mas não sei, se escrevo já.
acho que a gente precisava se conhecer há milênios
espero que essa sorte dure até o apocalipse.

sábado, 16 de julho de 2011

talvez se você não desse tanta atenção aos fatos

me trouxeram marzipãs alemães e eles são feitos na cidade da onde veio minha bisavó, Lübeck.
a última vez que jantei fora (hamburguer) com meu pai e minha mãe em SP havia uma régua daquelas de loja promocional dentro de um copo do lado do caixa onde estava escrito ESTIMA.
isto é tudo do que posso dizer. 
talvez o que me importe agora seja farejar o caminho que me indicam, mas tentar não escrever em cima das coincidências. até pra deixar que as coisas, os fatos, surpreendam como sempre vão fazer. confiar, sobretudo, no outro que não sou eu.

D

Naquele tempo em que acordava mais cedo do que eu mesma, porque era
a aventura social do mundo, a campainha
e que nos lugares mais inexplorados alguém, de repente,
falava e recomeçava a contar a morte
fosse ela uma paciência do que vem
ou descreviam cadáveres na sala
onde o assunto era dança, falavam da putrefação
para o constrangimento geral dos vivos.
Ou meu pai dizendo o que toda semana
pensava que a função dos vivos é ir
sempre embora contra a morte

embora do eu vou me embora disso tudo
desligo o som das portas, vou abrir para o ninguém
e cogito, não o meu fim por mim levantada
já que o homem da luz me acordou
pra marcar o correr do relógio
mas a possibilidade de qualquer abrupto
mesmo meu pai, se ele lutasse tanto
que fosse contra a morte de vez
eu em luto, também, iria de encontro
como a muro cheio de musgo
pra onde o silêncio dos vivos acelera

(mas enquanto não, vou lendo ruy belo,
) e, se avalio, de tudo me adianta ir
dizendo absurdos pra sorte de quem amo
imolo a morte, avario o norte, me digo
talvez se você não desse tanta importância aos fatos
mas não me escuto o suficiente que é para não.
Pois só é forte quem sabe o que já teve de si
do oco do mundo, a revelação do negativo
se bem que a morte não é gentileza
para quem parte do sentido, do possível 
mas se - um dia - no dia - há dia -  limo a perda
como uma pedra que se atira - no quê?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

classificados

procura-se banho de mar e auxílio-viagem.

não se percebe que profissionalização quer dizer comercialização de si?

teu sonho determina:

sonhei que eu jogava rolos de papel higiênico vazios na cabeça da mãe de um melhor amigo. ela me traiu, no sonho não, e eu jogava as coisas na cara dela enquanto dizia sei sei SEEEEEI e ria, ria. tudo acontecia à beira de uma piscina, o que me faz entender, interpretando o sonho à la Freud: gente rasa que se lixe.

cansei de ser legal/ agora vou ser radical

mâno, aconteceu algo muito absurdo em pleno século XVIII
e todo mundo aí dormindo em paz
farta deste iluminismo de abajour de todos nós.

domingo, 10 de julho de 2011

amor não é tolice

ontem pela primeira vez na vida comi caracóis e participei de uma performance
acho que nunca em um ano, em ano nenhum, dormi tão pouco
ontem quando deitei pensei "que organismo inteligente, o do descanso"
vamos dizer que a cada três noites durmo uma o quanto quero, as outras o quanto devo
pelos limites que os acontecimentos ao redor vão montando
hoje é domingo - dormi cinco horas porque vamos plantar um jardim no 2o andar de um prédio.
jardim de chão direto, terra sobre lajota.
não há sono melhor do que o meu.

digo passando por alguém - não te armes em parvo, pá.

sábado, 9 de julho de 2011

a tua fotinho

sonhei que te via online no chat do facebook.
ficava tanto querendo te chamar.
mas não conseguia. 
mas era um êxtase saber-te 
vivo.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

fogo sobre montanha

como sair do nada, chegar ao nada - talvez seja isso a experiência do limite estrangeiro - e viver.

canção do exílio

I'd like to have a yellow brasília, don't you?

Tivemos uma.
Mas acho que foi a do Leon que sofreu de uns furos no tapete que um dia lhe deixaram com os pés no chão.
hoje querendo que "tracejado" queira dizer comido pelas traças.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

caí tive que começar de novo

(um pequeno passo para um homem, mas um grande passo para o caminho)

tenho toda uma estratégia de vírgulas que passa por ouvir o dentro do meu ouvido.
concha, conchinha, atravessa até coração de galinha.  
parênteses são canoas, vírgulas são conchas.
o mar é você, meu amor.




quarta-feira, 6 de julho de 2011

tenho 27 anos e sei escrever

estou certa, esses dias, dos limites mortos da minha poesia.
pensei em começar a traduzir do português para o português.
mas ainda assim seria poesia de limites
mortos da minha poesia.

quem me dera ter encontrado uma fórmula dos mortos justamente nesse momento,
estou perdendo tanta coisa, meus sobrinhos crescendo, estou perdendo tanta coisa, esta dor de músculos
taí, eu fiz tudo pra você gostar - tantas, tantas fiz

e quando eu tiver 28 anos minha maior conquista vai ser não saber escrever?

hoje escrevi um poema para a performance de um amigo, que me pediu. performance da qual vou participar no largo do camões, em frente a embaixada brasileira, no sábado. o amigo ainda não me confirmou se aceitou o poema enquanto tal ou não. não devia, mas eu vou mostrar pra vocês (como se dança o baião)


Estou certa, nestes dias, dos limites mortos.
Se sou brasileira foi porque vim pra cá.
Consegui atravessar, mas os papéis não.
Nada nunca pode vir só.

O Atlântico é uma espécie de monstro anônimo
que a tudo engole e devolve. Marinha
fronteira carcomida por salsugem,
dissolve o poder dos homens, liberta-os.

A mim também. Não é todo dia que é o que posso.
Me mostra, espero mais. Troca tudo tanto de lugar.
Não param de pedir pra que eu me identifique.
Só tenho isso. Abarco nomes, rostos. Fico viva.
o meu preferido dos poemas abaixo é o "anotação",
sobretudo porque ele me dá duas leituras sobrepostas quando imagino

uma de que o amor foi em ato consumado, e as imagens são de uma carnalidade de arrancar ouro,
ou
que esteve cada um em seu canto, sem dormir, ligados nisso,

chove, poeta, chove

NÃO MAIS

Não mais te seguirei a um palco suburbano
como num mês incerto de setenta e três
ou mais exactamente

a ninguém seguirei
seja a que lugar for com o duvidoso
e porventura inútil desígnio do amor


MARGEM DO MAR

Volto-me para ti ou antes para
o teu lugar se é que tal abstracção
é possível, noite sem
som onde tu és o eco múltiplo
procuro

ver novamente os teus vários retratos
animados pelo sol o amor ou a respiração
o sangue torna
a passar-te nos braços fotográficos
devo continuar

a narrar o percurso irregular
da tua multiplicidade
eras o ar a árvore voltar-me
para ti é como procurar
no mar os afogados


ANOTAÇÃO

Juntos dormimos ou estivemos
deitados acordados
sobre a mancha do mar
em que como dois rios confluímos


[Gastão Cruz, do "Escarpas".]

segunda-feira, 4 de julho de 2011

na casa onde cresci, sonhei

que havia um almoço muito grande de domingo, onde estavam muitas pessoas, entre elas meu pai e outro joão muito sábio discutindo a respeito das divergências que têm a respeito do século XIX - eu pensava em intervir, mas ficava por ali, andando ocupada que estava em tirar o lixo reciclável, e alguns marginais tentavam invadir o nosso jardim - um deles usava moicano vermelho, como o pica-pau - mas não eram explícitos o bastante, também, pra que eu os expulsasse e eu ficava, ali e acolá, administrando (sem interferir em) tudo que acontecia, e com o lixo reciclável pra tirar.


#

acordei e o B tava tirando o lixo reciclável.

sábado, 2 de julho de 2011

e viva julho!

faz viver este medo como a terra distancia raio e trovão. 
pra me relacionar com xxxxxxx é como se eu precisasse me fechar pra que ele me possua absolutamente. porque ele vai fazê-lo. eu soube imediatamente ao ler as primeiras páginas do nosso encontro, que aquele era dos momentos mais importantes da minha vida (sei sempre). e como se dão as coisas que são assim? foi encadeado e pouco importante, do jeito que só as coisas que importam acontecem: acontecendo.
e me salve da eficiência, rapaz.
 

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