segunda-feira, 24 de outubro de 2011

vou até eles para que me digam o século
volto de olhos ardentes - são uma roda, sou uma frente.

sábado, 22 de outubro de 2011


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

gosto cada vez mais
tanta
fragmentação. se o destino é dispêndio, deflagração
como as coisas todas não se soltam umas das outras? e viajam, nulas, por aí?

se toda vez que eu me perco o sangue
envia de mim para outros restos
e o meu rosto por mais nítido alguém veja
se move na dimensão do teu esquecimento?

ou o motivo é sempre diverso do que concebo
e todo sentido é no futuro catacumba
como não perder a voz no teu silêncio.
ou não ligar. e te deixar dormir
do meu lado sempre e depois?



e se me odeiam, que que eu vou fazer?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

hoje acordei bem cedo e não me deixei acordar
resolvi deitar mais um pouco, e menos frouxo, o sono ficar
depois li camões, e tenho a impressão de que nenhuma poesia me toca
(hoje, também ontem, antes de ontem)
engraçado. porque o clima das árvores já começo a sentir, o vento
em mim, sem ser comigo
deixo ele ser estar, teu coração também, quando quiser se aproximar
é o meu

amor

vou citar Luís:

Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mla, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e doi não sei porquê.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

em algum lugar do céu estou composta

- e me comovem as canções de falam de suicídio. afinal, elas são capazes, no recesso do ato, no seu fazer, no seu ouvir, capazes de na sua negação do ato, cometerem o ouvir do caminho

e essa brisa que nos faz
promessas frescas de viagem

meu corpo se expande tanto que há uma gotícula de dor em cada extremo
se sou um fluxo de músculos e órgãos sensóreos
quando o computador fica tanto tempo comigo
creio que posso dizer
mamãe, sou um nervo aberto
e imagino um dente todo gritante
disparatado

não houve mordida que não pudesse ser amarrada com prejuízo da mandíbula
às vezes me pergunto se viver é uma questão de poupar ou de gastar
e se há armadilha, saída,
ou se é tudo vertigem, olho no olho, imensidão

vejo assim




e alguém, não se sabe bem de onde, talvez alguém sem pátria
dizia: e a ti? te interessa? te interessa viver?

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

don Octavio

Para los antiguos, el prestigio del pasado era el de la edad de oro, el edén nativo que un día abandonamos; para los modernos, el futuro fue el lugar de elección, la tierra prometida. (...) Creo que la nueva estrella -esa que aún no despunta em el horizonte histórico pero que se anuncia ya de muchas maneras indirectas - será del ahora. Los hombres tendrán muy pronto que edificar una Moral, una Política, una Erótica y una Poética del tiempo presente. El camino hacia el presente pasa por el cuerpo pero no debe ni puede confundirse con ele hedonismo mecánico y promiscuo de las sociedades modernas de Occidente. El presente es el fruto en el que la vida y la muerta se funden. 
(...)
Alguna vez llamé a la poesía de este tiempo que comienza: arte de la convergencia. Así la opuse a la tradicion de la ruptura: "Los poetas de la edad moderna buscaron el principio del cambio; los poetas de la edad que comienza buscamos ese principio invariante que es el fundamento de los cambios. Nos preguntamos si no hay algo de común entre la Odisea y À la recherche du temps perdu. La estética del cambio acentuó el carácter histórico del poema; ahora nos perguntamos, ¿no hay un punto en el que el principio del cambio se confunde con el de la permanencia?... La poesía que comienza en este fin de siglo - no comienza realmente ni tampoco vuelve al punto de partida: es un perpetuo recomienzo y un continuo regreso. La poesía que comienza ahora, sin comenzar, busca la interseción de los tiempos, el punto de convergencia. Dice que entre el pasado abigarrado y el futuro deshabitado, la poesía es el presente". Escribí estas frases hace quince años. Hoy añadiría: el presente se manifiesta en la presencia y la presencia es la reconciliación de los tres tiempos. Poesía de la reconciliación: la imaginación encarnada en un ahora sin fechas.
México, a 12 de agosto de 1986.
Octavio Paz, "Poesía y modernidad", In: La otra voz: Poesía y fin de siglo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

qualquer

sonhei que um grande catavento desses eólicos de criar energia com o girar do seu deslocamento cortava os galhos dos pinheiros em redor. eu via de dentro de uma casa, por uma grande janela de vidro.

havia algo de mais errado no gesto, e por dentro da casa alguém fazia sexo.

domingo, 9 de outubro de 2011

perdi o medo da chuva

hoje aqui chove sutilmente. e eu penso em ir à livraria. comprar uma revista com meu nome dentro. é curiosa a força que as coisas têm quando acontecem: parecem aparição visualizada pelos poros, isto é: realidade. portos atracando. potros ancorando nas hastes do lado do grande rio. 
me parece que li tanto ana neste último mês que estou precisando de um banho completo de ervas com sal, limão, virgem verso, vertigem. viva! o que em nós vigia saída. 
quero escrever um grande beijo para o meu namorado (viver), mas tenho aprendido com o tempo que amar é tempo. uma história bonita como outra qualquer. silêncio.
é um típico domingo paulistano, chove. são tantas as pessoas na cidade que eu não sei bem por onde começar. ou quando não sei se o que me atualiza melhor (é sempre uma necessidade da pureza, a atualização - ou que nos próximos 6 meses investir numa fábula com margens composta entre 80 e 120 páginas? -) é a solidão ou a companhia, estudo ou escrita.

sábado, 8 de outubro de 2011

meu amor

I knew I was in danger. let me love your books, again. my old dark blue book over my jeans. someone stole my jeans. I was in L.A. and it was time to give. you were there to wish a star. don't worry. há tantos modos de se tirar um 3/4. e mostro um  mesmo par de fotos como quem viu e encontrou. sempre o gigantismo do atlântico consolida-se nos meus gestos. fico sentindo a salsugem da poeira da estrada

a poeira da estrada que faz da salsugem seu souvenir
ashes for ashes, clothes for boys, devia ser hora de dormir, mas eu precisava escrever.
comprei um caderno com pauta. não usarei. infringi uma regra de ouro do meu conhecimento
pautas
achei engraçado, vir para o brasil com pautas.
2a feira já levo meu sobrinho no cinema. é a pauta mais importante, a da infância. vivê-la por todos os lados. imagino que você concorda com isto. e como não pude escrever no meu caderno porque ele agora tem pautas, vim falar alguma coisa por aqui

o que é sempre um perigo, porque me faz dizer menos, ou com menos palavras, ou com menos nomes, ou com os acontecimentos transformados em escrita mais distanciada ainda da vivência do que de uma tentativa de relato,

este blogue está se fazendo entre a experiência e a experiência da experiência. numa gaiola perto (sempre de portas abertas, a escrita). eu que descobri que escrever e ler não são a mesma coisa, não adianta. não adianta. 

agora digredi pensando
pensando que talvez a experiência da idade média, de uma cópia de manuscrito, como fala o zumthor
(então pensei umas quatro coisas que não tenho vontade de explicar, até mesmo porque teria que defini-las)
e comecei a escrever:

me joga para o presente.
me joga para o presente.
me joga para o presente.
me joga para o presente.

rapadura é doce mas não é mole

"Inscrever um texto, qualquer que seja, comporta duas operações: recolhê-lo sobre tabuinhas de cera (às vezes resumido, quando não em notas tironianas, taquigrafia de origem antiga); em seguida, passá-lo a limpo sobre o pergaminho. De vários letrados do século XII, como os teólogos Cîteaux ou Pedro, o Venerável, sabemos que compunham de memória suas obras e as ditavam a um secretário, o autor retomava e corrigia esse rascunho. Também ocorria fazer sozinho o primeiro trabalho e inscrever diretamente, pronunciando-o em voz alta, o texto sobre as tabuinhas. À mesma época, é provável que os escritores de língua vulgar, como por exemplo nossos primeiros romancistas, tenham usado esses procedimentos. Uma pintura do chansonnier N (da Pierpont Library, em Nova York), executada em meados do século XIV, representa um trovador anotando (com evidente dificuldade) sua canção sobre uma longa folha solta. Tais procedimentos, aliás, explicam a extrema raridade dos manuscritos autógrafos: nenhum em latim antes do século XI, nem em francês antes de meados do século XIV. O vocabulário que designa a operação de escrever provém, em vernáculo, diretamente do latim, o que parece mesmo implicar a identidade dos métodos: dictare, dictitare (até mesmo legere) de um lado, scribere de outro lado. Dictare refere-se ao que se percebe como a origem do texto; daí o substantivo dictamen,  designando a arte da composição; daí a metáfora do Deus Dictator, enunciador de sua Criação; daí o francês dictier, remetendo à obra poética acabada, e o alemão Dichtung, "poesia". Scribere exige um esforço muscular considerável: dos dedos, do punho, da vista, das costas; o corpo inteiro participa, até a língua, pois tudo parece pronunciar-se. No inverno, o frio imobiliza os dedos, e pode-se temer o congelamento da tinta. Orderic Vital prefere esperar a primavera para recopiar as tabuinhas apressadamente rabiscadas em dezembro. Escrever exige infinita paciência: o trabalho de cópia se estende por meses, por um, dois anos. Depois de ter traçado a última linha, muitas vezes o escriba dá largas a seu alívio e sua alegria: compara-se ao marinho que enfim volta ao porto; ou então exige vinho, uma jovem virgem, até uma "gorda puta"! Wattenbach, antigamente, coligiu tais confidências, às vezes rabiscadas nas margens. Ainda por volta de 1400, em todo o Ocidente, a prática da escritura continuava, apesar de algumas inovações (como o uso do papel), escrava de sua tecnicidade e de seu elitismo; era só debilmente capaz de influenciar de maneira direta o comportamento ou o pensamento dos poetas, e influenciava menos ainda a expectativa de seu público."

[Paul Zumthor, A letra e a voz: A "literatura" medieval, p.100-101].

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

gate 11

nem tanto ao mar nem tanto à terra
agora tanto na vinda como na volta
monstro atlântico, alegre
ai que minha simplicidade é uma multidão
lagriminhas no raio-x.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

o incompossível se fazendo ordem

terça-feira, 27 de setembro de 2011

aviso

já notei que não é um terremoto, mas estarão testando bombas do outro lado da margem do rio? ou vão demolindo um edifício? serão turistas ensaiando, finalmente, o ataque? - porém pior do que as lufadas de fumaça que invadem esta janela é mesmo a sanfona tocando os mesmos três acordes para moedas raras de turistas muitos e na qual éramos capazes de testar bombas ou edifícios por cima,

- ou é sempre melhor não testar meu senso de destruição - .

estiolamento

n substantivo masculino
1 Rubrica: botânica.
desenvolvimento anormal dos vegetais causado pela ausência de luz, ger. caracterizado pelo descoramento e definhamento dos tecidos; ensoamento
2 Rubrica: fitopatologia.
designação comum a diversas doenças das plantas, causadas pela falta de luz e/ou excesso de umidade, que favorece a proliferação de fungos
3 Rubrica: fisiologia.
debilitação e descoramento sofridos por um indivíduo desprovido de luz e ar puro suficientes
4 Derivação: por extensão de sentido, sentido figurado.
fraqueza, definhamento

hoje eu estou tralala

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

não sei o que quer dizer estiolar mas vou descobrir de tanto ler

"O coração já não pode mais. Entre os bichos e as plantas, acontece-lhe dizer: Que fertilidade!- e a vida corrompe-se nos próprios fundamentos. Sente-se como um apóstolo sem fé. Desejaria morrer, arder no fogo apocalíptico das cidades. Ou ser devorado pela inteligência, estiolar de excessiva lucidez no meio da loucura campestre. Tradição, compreende uma: ama-a. Perdeu o nome, essa sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo sútil que participa de uma e outra, que se tornou inútil, insensato."

[Herberto Helder, em algum lugar d'Os passos em volta.]

já citei este trecho em todos os blogues que tenho/tive/terei.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

eu que estou aqui há tanto tempo
desperto do sofá quando vejo passar no tejo
depois de muito -segundos- olhar o teto
navio cargueiro amarelo
onde está escrito
republica del brasile
como esto, si, tipo bananeré embananado
meu brasil violeiro no caminho da descida
do princípe real, que vai dar na minha vida
(lá decidi ficar de vez numa tarde de setembro
três anos atrás)
descubro uma saída
porque percebo que o brasil mora onde reside
minha vida, o brasil, meu bem, é meu coração
que então atravessa o tejo dizendo em italiano
republica, brasile, como se comessem
meu riso como massa, pesto, fusile
sim, vazio do intermezzo
não fuzile meu coração
que nele está pronto
está a postos está vidrado
o brasil, por antecipação.


este medo não é saliva, instinto, é simbolização.
e se a simbolização for uma instituição?
picote a linha abaixo os créditos.
aqui a luz já se inclinou. 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

hoje há uma amizade que sobe do fundo da galeria, deusa
desfaz a geleira de coração
embrigado - o contrário do afogamento.

eu quero controlar os teus laços. a tranquilidade dos meus sonhos noturnos
tranquiliza meus passos de caminho, largo. às vezes me sinto um elefante
mas é em mim mesma. tudo que é possível. é em mim mesma.

ainda bem que ela retorna, lenta. ainda bem.

hoje estou nítida como se errasse em tudo. precisando de silêncio, produção.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

como dizem os amigos, estou engajada

sonhei com ele

acho que foi a primeira vez que sonhei com ele.
ele vinha aqui em casa e me dizia assim
"acho que esta mesa cabe mais pra lá,"
empurrava, criava tanto espaço
e uma luz muito branca abria sobre o quarto
que virava uma sala de estar.

sábado, 17 de setembro de 2011

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

meu verso é minha declaração

vertigem viva a raiz vigia eu que já não tenho como dizer sem nós nos dedos
ana cristina
me ensina a nascer,

de novo, dançar de amor, até sem ti, menina errada
errante do riso
teu risco maior
foi discernir, diferir
embriagar a alteridade
tanto que definir
azul tantas vezes te aparece
azul
mulher
transporte
coisas que nos combinam - embora - cada vez mais - eu goste
de branco e vermelho
de homem

ana menina minha
toma a minha boca pelos dedos
fazia tempo que não fazias dessas
e eu, toda latifúndio do meu campo,
se temo, travo no bolso o trevo que tenho
mastigo entre os dentes
me digo: caminha, anda
anda com ana entre os dedos
toda tua ausência, me fertiliza
que o importante é não abaixar a cabeça
nem erguer demais
os gritos por dentro

nem são indiferentes erros e acertos
talvez a agudeza de tudo. talvez a agulhada de tudo.
ou dans mon île girando num frasco tão comum
a nossa resposta passa variada
e agarro quanto posso a varanda.
eu também, bem, tenho escrito.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

a plataforma desta estação

eu chegava a uma cidade final, de fronteira, numa linha de comboio portuguesa, era fim de tarde, e tinha passado os dias mais lindos em viagem, acho que só. um menino estava sentado na cadeira da estação, eu ia conversar com ele, conversavamos, eu ia até a bilheteira comprar minha passagem de volta para Lisboa, e indicava pra ele novos caminhos de férias, mas ele só se interessava por dormir ali, em cima de uns caixotes de papelão, talvez, e eu pensava nas praias que ele não via, e o abraçava e ele não dava muita bola, tinham vários trens saindo em sequencia de horário quando eu notava era aquele, na plataforma meu comboio estava saindo, eu apertava o botão das portas pra que abrissem (tipo metrô de paris) e elas abriam com o trem já em movimento e eu saltava pra dentro e pedia pra que ele me jogasse a minha mochila que estava com ele, ele jogava, o trem lotado de gente, na disposição de cadeiras parecia a barca que atravessa o tejo, um cacilheiro, eu arranjava um lugar pra sentar e abraçava minha mochila e pensava que não faltava, mas ainda tinha tempo, naquela linha até Lisboa.

quando acordei o primeiro passo que dei pra fora da cama teve dentro do meu corpo o gesto do meu bem.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

ana c

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

amor

a coisa mais inteligente que eu já vi é o amor.

encontro, dispersão

algumas vezes já acordei gritando de madrugada e em todas elas era um grito de liberdade
foram três as vezes na minha vida - mas só me lembro de duas.

sim, sou uma pessoa que encontra liberdade dentro do pânico.
pra sair dele, é certo, é preciso desarmá-lo
todo dia eu vivo uma bomba.
não posso acreditar nem na realidade nem na ficção.
temos que ser radicais no equilíbrio do entre.
por favor, senhor, por aquele lado você vem do jeito que quiser.
e poupará tempo e imaginação, concorde, se perceber que
guidão, manopla, direção
só tem você um pedaço, você.

agora façam um esforço realístico e imaginem alguém que vive atrás da estabilidade por dentro de tudo
alguém que tem ternura pelas coisas que se estabilizam
mas que só se sente viva acordada
e é acordada pelas revelações que tem e produz,
vive deste furacão de encontrar na expansão do abismo asas
as estimas pelos acontecimentos do movimento.
já fez samba, análise, blogues, muitos.
tem por costumes os amigos.
e de pôr o fundo à frente, é um gesto
resquício de superfície, sou do meu tempo.
é isto, júlia, dizer que são todos e cada um do seu tempo.
e elogio aquela elegância que só o tempo tem
de ceifar o que não é.


não admiro furacões.
muito menos furacões mentais.
mas estou revirada de encontros.
e não cogito mais em servir ao medo.
reconheço-o em mim como um animal ferido, o medo.
o medo é aquele que não sabe por onde ir em mim.
está entorpecido de sono e tenta me excitar dizendo
precaução mulher. me diz até que não tenho mais um eixo
onde as coisas cintilam por si.
mas sei que a bomba na mão que eu tenho sou
eu que refaço a programação rítmica do meu coração
e determino a enseada, a encruzilhada, a poesia.
que não são minhas, nem de ninguém.
feito o trovão. ele vem como um cavalo.
ele é o céu.


e quem então teme o excesso tem por destino o excesso
há uma revolução em mim e tudo que acontece me comove
penso o destino como um queijo suíço
pra mim é suficiente escrever
estou muito distante dos navios que queriam me levar
mas tenho os homens no coração,
sem que ninguém caiba aqui comigo
estou contente de estar em portugal,
lembro que uns anos atrás escrevi que as novas pessoas da minha vida tão importantes tinham o mesmo nome
o que faz das coisas que me acontecem agora
não tão novas as coisas que me acontecem agora
e nem o de antes nem pra depois
talvez a juventude de um broto que estoura
o caule forte da tua alegria.
somos tão férteis, meus amigos,
estão estarão todos notando que sou uma massa de dispersão do azul?
é o sangue do meu alazão.





























quem já viu o encontro do rio negro com o solimões
sabe que estou falando de amor. o amor é um pássaro que vem me ver.
escrevo sem parar que é pra amanhã não ter idéias.

vela de barco

intensidade, rumor - recife que arqueja - as minhas estrelas forjam - um sistema solar próprio - onde é possível ligar - pão ao queijo - amor com irmão - reconhecer o dilúvio lento do pó - viver.

um recife que arqueja em mim está tensionado por dentro, de susto. tive uma cãibra tão alta esta noite, que gritei. acordei tão assustada, pedindo pelo bernardo, que não me ouviu. não sei de que medo foi, tem coisas que só a música me limpa, a escrita é também a hidrelétrica da purificação

mais até, muito mais até do que o tempo e a distância.

ou talvez seja um ritmo,

às vezes fico
fico muito parada longe de você. então acho que é um desaparecimento. porque lado a lado somos extensão.

dos animais que conheço intimamente, entre eles superiormente estão os touros, embora saiba de leões, cavalo sou. agora eu vi, agora eu vi a lua. a lua, a minha, a tua.

domingo, 11 de setembro de 2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

estou vivo e escrevo sol




uma espinha dorsal balança na linha do horizonte
segurada por um miúdo
ele a agita feito folha
em cima dela
eu sou o escarvelho
que a água do céu trepida.
hoje é aniversário da carolina
mas amanhã e depois
eu vou também
ria moura ria moura
gargalhe, sua louca.
seja feliz.
pegue uns panos pra lavar/ leia um romance.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

amor

fiquei um mês sem tocar nos meus trabalhos acadêmicos, universitários - depois de seis meses dentro deles sem parar. agora retorno pra ler as anotações, introduções que já fiz. e é curioso, como em todas elas há traços similares, que são espécies de conversações basilares de mim comigo mesma, tentando propor a mim mesma o que eu acredito e no que eu não acredito - matando fantasmas, colhendo flores, planeando o plano, assinando embaixo do nome dos meus professores e mestres, matando os velhos de susto, acalmando os novos sem pressa - mas algum travo na boca da minha incapacidade, ou de estar ainda atrasada dentro de mim mesma, sempre, sempre tirando os outdoors do mal da frente dos meus olhos, e colocando de molho o meu próprio cansaço. sim, creio que é a hora, de voltar a trabalhar.

século

SÉCULO

Meu século, besta minha, quem
te olhará nas pupilas duras,
quem soldará com o próprio sangue
as vértebras de duas centúrias?
O sangue construtor irradia
da garganta das coisas da terra,
no dealbar de um novo dia
só o parasita é que treme.

Todo o ser, no agarrar da vida,
carrega com a espinha do dorso,
e brinca com a coluna, brinca
abrupta e invisível a onda.
Terra nova, século recém-nado,
cartilagem tenra de menino -
como cordeiro, é de novo imolado
o osso do crânio, a testa da vida.

Para ao novo mundo dar princípio,
para arrancar o século dos ferros,
há que atar, com a flauta, os dias
p'leos enodoados cotovelos.
O século é que balança a onda
ao ritmo da humana desdita,
entre as ervas, ao compasso de ouro
do século a víbora respira.

Incham ainda os pâmpanos na vinha
e a vide rebentará de verde,
mas será quebrada tua espinha,
meu século misérrimo e belo!
E com um sorriso sem sentido,
olhas, crue e débil, para trás,
como animal outrora flexível
para as pegadas dos próprios pés.

O sangue construtor ainda jorra
das coisas da terra; em ressacas
de peixe quente vem dar à costa
a tépida cartilagem dos mares.
E da rede alta das aves, da rocha
do céu, húmida e azul,
se verte, se verte a indiferença
sobre a tua ferida mortal.

1922

[Óssip Mandelstam, em tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra]
eu vou dizer uma coisa muito simples
ao abrir a janela dei de cara com EUROPA
o navio com ganas de caribe, ir, ir.


tive também algum sobressalto de calor - e quando percebi que tinha medo, vontade de me preservar pra não perder, então eu me lembrei que sempre que se cai, se cai de um alto. céu que é céu não nos basta.

nunca é possível extrair garantias do futuro. o tempo é a minha matéria o tempo presente os homens presentes. voemos olho-no-olho.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

a gente não se finge nada e do calor da mesma honestidade nasce um musgo
que a gente fica brincando com ele feito fosse ver a reação da cor
mas a gente sempre foi cientista sozinho - eu no meu cavalinho - ele
eu ia dizer ele no tanto que ele quis o amor mas seria injusta porque eu também
foi sempre esse o meu cavalinho dizendo pocotó pocotó
cavalinho caindo da ponte, maior índice de suicídios entre cavalinhos na década
se deu entre esses últimos anos - mas agora

7 de setembro

PORTUGAL

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira que o Infante
D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns eletrochoques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiros dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
como me pude eu apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca


[Jorge Sousa Braga, do "De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu".]

te dou uma tonelada de amor

atravesso aos poucos a correspondência em dia de amor meu quinhão é três vezes 
nossa luz - estou cega - percebo assim- primeiro os objetos todos voam por cima
como se fossem me entregar um presente que já chegou, fico observando
os ovnis que vieram viver dentro dos fios do meu cabelo - são estrelas dos conformes
conforme a prescrição: vinha sem bula: e de repente as palavras tinham sido
as palavras tinham sido raptadas! era isso. junto com os ouvidos. ouvidos levados à sério
esquecidos, tapados, os ouvidos já não entendem uma canção
os ouvidos já não podem com isto porque os ouvidos querem abrir-se sós
para uma língua - para uma língua. - que é o que importa. ter uma língua, abrir-se.
notar no dia seguinte que nenhuma música de amor faz sequer sentido, porque só corpo
é sentido. é sentido é o sentimento.

penso em pegar uma folha em branco e fazer uma lista da abrangência possível de a teus pés
já começo da partida de que é uma primeira vez - que é pra durar pra sempre - ou pra durar pra muitas vezes
tenho essa ansiedade da duração - o melhor mesmo é subir
a serra, a tua perna, meu canto -
murcho só o aprisionamento, ou no meio do medo meus olhos solúveis.

domingo, 4 de setembro de 2011

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

amigos bíblicos

II

Eu a rosa negra da planície de Saron lírio de seis petálas no vale.
Como a rosa
entre os espinhos cardos assim a minha amiga está
entre as filhas.
Como a macieira entre as árvores no bosque o meu amado
é entre os filhos.
Sob a sua sombra desejei e estive e o seu fruto luz doce
na minha garganta.
Trouxe-me para a sua cave assinalou sobre mim o amor
o seu pendão.
Rodeai-me de taças de vidro fundamentos pomos que adoeço
de amor eu.
A sua esquerda sob a minha cabeça a sua direita que
me há de abraçar.

Vos rogo filhas de Jerusalém por gamo e por cervos do campo
que não desperteis
nem fareis desvelar amor na caça antes de que queira.

Voz do meu amado eis é o que vem atravessar os montes saltar
sobre as colinas.
Semelhante o amado a gamo ou a cria de cervo é este aqui está
além do muro
brota entre janelas o que assoma pelas gelosias.             Respondeu
o meu amado
disse-me levanta o teu corpo minha amiga
bela e caminha
porque o inverno foi o exílio a chuva passou caminhou
para além.
Saem da terra os rebentos eis o tempo da poda chegou
hora do cântico.
E a voz da rola nos campos terra nossa peregrina
que se ouve.
Na figueira brotam os figos e a vide o odor ergue-te
a ti mesma
amiga minha formosíssima e vem contio. Minha
pomba brava
nos recantos da escarpa oculta nas espirais descobre
a tua face Rosto
faz ouvir a tua voz e essa tua face
Rosto desejável.
Prendei-me as raposas novas que destroem vinhas nossas
que estão em flor.
O meu amado meu unido e eu para ele o que apascenta
entre as rosas lírios.
Antes de que sopre o dia e fujam as sombras na manhã na tarde
sê semelhante
meu amado a cabra ou a cria de cervo sobre as montanhas
de separação.



[a tradução é de Fiama Hasse Pais Brandão, do Cântico Maior (Atribuído A Salomão).]


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

sai do lugar onde não sei ficar. dei um salto, caí com os dois pés. estive toda a tarde pensando nisso. em pular, saltar, se toda a vida não é sempre perto, rápido demais. às vezes parece que vim viver em portugal pra atrasar 3/4 meu relógio de contar, puxar a marcha lenta vezes cem vezes também. eu coloquei um elástico na cintura, era de noite. então eu vou vou vou vou vou vou. o elástico comigo na barriga puxa puxa puxa puxa puxa. então gente alcança um lugar. quando chega lá minhas coxas não têm mais forma de resistir ou o elástico (mesmo) está ressacado e inconveniente - pra trás, pra trás, pra trás -. haja tanto salto. mais que legume alho picado em frigideira quente.
talvez o espaço
seja uma necessidade de cultivo - aprender a absolvição do sentido, entre hortaliças.
ou ficar tão mole, tão mole, de entregue de presa
você com tua garra de lagosta
a me incidir os pronomes - sem perceber, amor, que só o que se recolhe
no claro, é que alcança a sombra.

ou dizer assim: gosta de mim?
aposto que ele nunca me esqueceu. também você se adianta demais.
você encontrou uma escola, lembra?
estudou em três. isto além do jardim da infância e das duas - já - faculdades.

sempre sei o que vai durar mas o meteoro me enriquece
de fatos, feito um tecido conjuntivo, o acaso. é.
o acaso é feito um tecido conjuntivo.
eu sou os ossos. ele os músculos.
os órgãos? do mundo.

passa lá embaixo uma menina de camiseta de bolinha.
eu penso que enquanto não aparecer eu não paro de escrever aqui.
talvez pudesse até cantar adriana calcanhoto, marina lima.
mas nossa, bom mesmo é cazuza, ou imitar cachorro.

quanto mais vejo os cães, mais admiro os gatos.
as pessoas que se dividem nas que gostam de cães, nas que gostam de rabos.
eu gosto de tudo isto, gosto também de melancia.

às vezes tudo me enche o saco. meus inimigos estão no poder.
estou tão cansada às vezes não sei. vou conseguir? atravessar o areal, a desventura.
chega de desventura, meu deus, eu já paguei a conta do analista.
na verdade era vovó quem pagava. e eu quem vou mudar o mundo?
claro.

peguei umas pedrinhas no caminho, lampejos. depois que eu tiver escrito tudo, não apaga?
por favor, eu venho aqui e escrevo na lousa, no quadro, de giz ou caneta bastão. daí ninguém lê.
depois que ninguém lê ninguém vem aqui e apaga. assim continua a escrita dos dias.

acho importante.

(Que ninguém leia, não, não sei se me preocupo com isso. com os rascunhos. o resto é beleza, beleza tem que ser vista. tem? se uma árvore cai no meio do mato faz um barulho lindo, eu não sou a árvore, ninguém - o do bastão - está lá pra ver. esta árvore existe? - claro que sim. ninguém precisa de ninguém pra ler. mas poesia se escreve de pessoas pras pessoas. - - - embora existissem hipopótamos tão raros.)

será que o fim da tarde em Portugal é outro? não sei explicar.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

vou pular

um encontro marcado num barco. por atravessar
o Tejo.

e ele me entende.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

ai

enquanto eu vou fazendo 
enquanto eu vou fazer
as coisas da casa e um horóscopo antigo - meu mapa natal - diz que coloco força em tudo que desejo, e que talvez (talvez?) seja bom aprender a fazer mais menos logo. antes que seja tarde. me imagino muito velha e irritada porque minhas pernas não andam? mas a ternura do meu corpo por si mesmo, que é um encontro, eu cuidarei bem dele, como dessa casa. detesto sujeira, lembro do meu pai, que diz que detesta sujeira, e sinto tanto prazer, adrenalina (disse ez) pela faxina, fico falando disso muito tempo aqui, acho que falo muito aqui de faxina, de sonho, de amor, de liberdade. tenho pensado em tatuar uma nuvemzinha muito pequena. muito pequena nuvem sobre o pulmão. mas não nos seios, que seria o lugar mais bonito pra uma nuvem, mas é tão bonito que eu não consigo. tem que ser o pulmão pelas costas. tem que alcançar a nuvem do teu pulmão pelas costas. sempre chorei estrelas. o choro vem do pulmão, é o que eu acho. o peito cheio de nuvens. a vida que é uma flâmula que flama. 

quero mostrar-vos a foto de alguém que eu amo


admirável.
depois.
depois me lembro de entrar na barraca e terem 5 aranhas em cima da minha mala. eu matei elas todas, num ímpeto. pensei então que horror, matar a vida assim à toa. procurei o b e disse que eu queria ir embora. não aguentava mais aquela música trance tocando sem parar. pensava a toda hora "ana cristina césar não viu uma rave". pensava toda hora "herberto helder entendeu as montanhas e as raves e o fogo e os tecidos e a cordialidade de um coração e o silêncio e". agora penso será que tudo no herberto helder é esse múltiplo justaposto lado a lado coisa a coisa figura a figura. por que em ambos os dois aconteceram modos de perder a hierarquia? não. nela, sim. nele a oscilação de tom e grandeza, as coisas vão num crescente e nada, de repente. mas as aranhas todas mortas pela minha hierarquia, daí não da limpeza, mas da peçonha, não. então procuro pelo b fora da barraca, na tenda dele e digo se ele iria embora comigo naquele momento? eu já sabia que não iríamos, eu mesma era só angústia, não movência. ele me explicou as dificuldades com muito carinho. eu olhei pra ele e disse que sim, ele tinha razão, e falando das aranhas disse do horror, depois disse da morte, depois disse "mas os bichos não fazem nada" e comecei a chorar e disse "mas os bichos não fazem nada, meu pai sempre me disse isso quando eu digo que tenho medo de algum bicho ele me diz 'mas os bichos não fazem nada' ". ai que choro, ai que angústia pelos bichos que não fazem nada, ai que saudades do meu pai, ai meu ordenado, ai Portugal. e fiquei comendo biscoito de alfarroba e rindo "comes alfarroba, pequena", o b riu também, as aranhas riram na uma alma só que têm, como os peixes. mas não como aranha, não.

volto e minha mãe me pergunta se eu estou apaixonada. ai mamãe ai mamãe não sei dizer mas mamãe que me conhece mais que os estômagos de peixe e as aranhas que entram desavisadas na minha tenda e partem as patas sem vida.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

há mar

"o amor é das poucas coisas que tá aí pra todo mundo" - encosta em mim, logo gruda. tanta capacidade simples, ser cativo de si mesmo como uma salivação. haveria tão mais a dizer. até a mala é uma aposta no verão. e quinze dias são um milhão. meu coração não sabe mais, meu cabelo começou a prender. a incrível arte de escolher livros para o mar. 

minha nova câmera é igual a antiga. sobretudo uma velha praktica.

o b vai comigo. o b é pra sempre. comigo.

e meu mouse tá fazendo som de passarinho quando clica.

portugal é lindo, vou contar. lugar, passagem, estar. comer: hoje comemos milho cozido passado no azeite com flor de sal. portugal is burning nos seus acessórios. vou contar outra coisa: as estrelas estão sempre por aí. nós conseguimos dizer mais um pouco: os planetas a rodar nos signos sem parar. precaução não. nem me venha com nada que seja menos, ou segurar. bem comportada não vai dar em nada. te mando um beijo gostoso. e até já.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

tenho um velho amigo

*

aos vinte ou quarenta os poemas de amor têm uma força directa,
e alguém entre as obscuras hierarquias apodera-se dessa força,
mas aos setenta e sete é tudo obsceno,
não só amor, poema, desamor, mas setenta e sete em si mesmos
anos horrendos,
nudez horrenda,
vê-se o halo da aparecida, catorzinha, onda defronte, no soalho, para cima,
rebenta a mais que a nossa altura,
brilha com tudo o que é de fora:
quadris onde a luz é elástica ou se rasga,
luz que salta do cabelo,
joelhos, púbis, umbigo,
auréolas dos mamilos,
boca,
amo-te com dom e susto,
eles dizem que a beleza perdeu a aura, e eu não percebo, creio
que é um tema geral da crítica académica: dessacralização, etc., mas
tenho tão pouco tempo, eis o que penso:
décimo quarto piso da luz e, no tôpo, a, tècnicamente definida, lucarna, que é por onde se faz com que a luz se faça,
e a beleza é sim incompreensível,
é terrível, já se sabia pelo menos desde o Velho Testamento,
a beleza quando avança terrível como um exército,
e eu trabalho quanto possa pela sua violência,
e tu, catorze, floral, toda aberta e externa, arrebata-me nos meus setenta e sete vezes êrro
de sobre os teus soalhos até à eternidade,
com o apenas turvo e sôfrego
tempo onde muito aprendo que só me restam indecência, idade, desgovêrno,
e sim, pedofilia, crime gravíssimo
¿ mas como crime, pedofilia, se a beleza, essa, desencontrada
nas contas, é que é abusiva?
e se me é defesa, e terrível como um exército que avança, eu,
setenta e sete de morte e teoria:
o acesso à música, o rude júbilo, o poema destrutivo, amo-te
com assombro,
eu que nunca te falei da falta de sentido,
porque o único sentido, digo-te agora, é a beleza mesmo,
a tua, a proibida, entrar por mim adentro
e fazer uma grande luz agreste, de corpo e encontro, de ver a Deus se houvesse, luz terrestre, em mim, bicho vil e vicioso




[do "A faca não corta o fogo", Herberto Helder.]

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

agosto

sábado, 6 de agosto de 2011

estou com uma amiga andando atrás de um caixa eletrônico, estamos no brasil e talvez até na bahia. andamos por uma rua desconhecida, até que eu reconheço um ponto de ônibus com um cercado, bem brasileiro, pipoqueiro vendendo pipoca, baleiro vendendo bala, 30 pessoas esperando, tudo colorido e 4 placas enferrujadas da onde já se apagaram os destinos. no espacinho que dá pra passar eu passo, vem um desconhecido do outro lado e me agarra, eu gosto agarro ele também, mas dou uma bronca, e saio andando. 
depois estamos num grande saguão de posto de gasolina tipo graal, brasileiro, e há uma caixa eletrônico, finalmente, e é um multibanco português. eu preciso ir ao banheiro e vou, mas o banheiro é um estúdio, escritório enorme, que é da mãe da minha amiga e a mãe da minha amiga no sonho é a marília gabriela e tem um milhão de coisas de escritório em cima de uma mesa enorme, e a cadeira onde é finalmente a privada. então eu me sento e começo a fazer cocô e não tem papel, mas uns pedaços de pão que eu interpreto que são os higiênicos daquela mesa. terminado, só que ainda não levantada. daí as duas entram com fome e eu nem falo nada e começam a conversar comigo como se aquilo fosse uma sala de estar e eu não estivesse no banheiro. lembro dos clips coloridos em cima da mesa. e também das folhas de papel. e que havia sobrado um pedaço de pão. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

hoje

hoje 
fiz das coisas mais importantes da minha vida. o "ofício cantante", do herberto. tem algo que tem sido difícil de dizer, porque não é um derramamento e talvez os meus pés não estejam leves o suficiente - então me sentei. antes de me sentar no largo onde nasceu o fernando pessoa - largo de são carlos - no 4o andar - eu não sabia antes de sentar - eu voltei na livraria porque tinham me dado 5 euros a mais de troco. assírio e alvim. se fosse a fnac eu não voltava.

hoje
percebi que faz tempo já que sei que a intensidade não está no dizer tudo, mas no corte. coisa que como ninguém ana cristina césar soube fazer. e herberto helder. al berto não. 

hoje
me sentei com a obra completa do herberto helder no sol do largo de são carlos e vibrei como as folhas enquanto lia. todos os portugueses só queriam os bancos com sombra, eu justamente o do sol. li, não posso dizer que chorei, porque desde manhã chorei do mesmo jeito o dia todo. uma comoção pelo foco que as coisas tomaram nos últimos dias. uma comoção pelo fato da reincidência e de que hoje eu leio herberto helder porque numa aula vinte anos, não, seis anos atrás caiu na minha carteira um xerox e era como um corpo de deus misturado com muita aveia e gaze, todo enrolado. para ver sua face eu precisei tirar a aveia e a gaze com os dentes, comê-lo. então o deus ficou nú e me disse: sou tua vida. eu acho que meu primeiro princípio de amor coincidente com este caminho, vir morar aqui, foi. foi naquele lugar onde quero viver, onde o espaço se desloca no espaço. mas tudo isso sobreposto, meu peito como uma casca de noz de onde se tirou o fruto cedo, 

hoje

terça-feira, 2 de agosto de 2011

o importante é que emoções

desconfio que escrevi um poema violento

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

segunda-feira

três sonhos seguidos com intervalos, só me lembro de dois

o primeiro a casa em que cresci (como sonho com lá) estava sendo assaltada, "mais uma vez" - era o que eu pensava, e toda a fachada dela era de vidro, enquanto eu passava na frente de carro com alguém que não era da minha família -a família estava toda lá dentro - minha irmã me fazia um gesto claro que eu entendia como um "saiam daqui, estamos sendo assaltados" e eu ia com a pessoa do carro tomar um café no centrinho, enquanto esperava o assalto terminar, pensando que chamar a polícia seria pior e me angustiava mas sabia que só iam levar tudo e tudo mas que iam deixar todos vivos, com sorte

(país ridículo).

depois na mesma rua da minha casa eu estava com meu pai de carro e com um filhote de gato no colo. por algum motivo nós tínhamos que deixar a casa e parávamos em frente da escola que fica ali na rua e eu tentava colocar o gato branquinho dentro da caixa de correio azul da escola, ele cabia, eu fechava o lacre, meu coração doía muito, eu pegava o gato de volta e pensava "não, minha vó vai ter que aceitá-lo", e ficava fazendo nele muito carinho, toda preocupada. quando cheguei na casa da minha vó comprei areiazinha pro gato que logo fez xixi em cima. e apareceu minha tia e ficou me dando uma bronca de horas. -

minha vó detesta gatos.
 

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