(13)
O que eu acho que estou querendo agora é tão delicado.
Não sei com quem falar disso.
O que estou querendo é tão delicado.
O delicado problemático. Sem volta.
Entendi que pra chegar tenho que dar outra, outra volta.
Mas não posso, meu corpo bom, trocar de terra mais uma vez.
Vou cair em todas.
Insuficientemente permeável à pele das cidades.
Não reconheço nenhum canto desta sala.
Com quem conversar o descanso?
Metade da vida é faxina. A outra metade?
Regresso do pó. E eu querendo algo
agora tão, tão delicado. De passar o vento.
Ou para sentir
só teria que pousar as mãos no pó
até vê-las brancas, espalmadas como um mar
que se instalasse sobre os móveis
mas um rabo de gato
meu dedo na boca
nervoso.
Estou no raio informe.
Se eu traçar uma circunferência estarei no raio do informe.
Do centro dela apita uma luz que ninguém vê.
Por onde, se mexe: é o que a luz diz.
Aqui também, tudo manda mensagens, significa.
Passou um barco que eu achei bonito.
Ele trazia também duas luzes.
Piscavam querendo dizer numa linguagem que não me comunico.
Mas alguém se comunicaria
com as luzes do barco.
Estou procurando um lugar de mim mesma que seja o campo de mim mesma.
Não preventiva.
Cansei de ser o princípio do cuidado descontrolado.
Estou levando uma maçã pra eu comer mais tarde.
Tão tranqüila cidade.
Passo a mão na água.
Quem dera fazer, dos poemas, sinfonia.
Fina de chiados e sintonizações, quem passasse pudesse ouvir
como gruda o ouvido no rádio, a emancipação
do universo feito de palavra, não encontro. Nem saliva,
só aço. Nem tato, olfato. Os olhos mesmo, perfurados.
Estou dizendo que só viverei naquele
que se enfraquece de ternura, pena carne.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
ou a interpretação
até um céu muito azul pode ser um pesadelo.
então eu acordei e o dia estava com um céu muito azul.
a coincidência me assimilou.
comecei a me exercitar e, acho mesmo que foi um lado do corpo do exercício, chorei.
chorei por umas duas horas, sem parar.
vim pela rua, chorando.
agora já não estou mais chorando.
talvez eu vá ter uma broca e furar os ares.
então eu acordei e o dia estava com um céu muito azul.
a coincidência me assimilou.
comecei a me exercitar e, acho mesmo que foi um lado do corpo do exercício, chorei.
chorei por umas duas horas, sem parar.
vim pela rua, chorando.
agora já não estou mais chorando.
talvez eu vá ter uma broca e furar os ares.
essa calma que inventei, bem sei
me botavam de volta em um navio pro brasil.
dentro de uma saleta eu jantava comida coreana com meu irmão e minha cunhada.
as madeiras claras estalavam em mim.
eu mandava uma mensagem por celular pro meu namorado/ que não respondia.
na superfície eu pensava que conseguiria voltar pra lisboa.
no fundo eu sabia que demoraria, seria muito difícil. então tudo seria outro/perdido.
então eu estava no banco de trás de um carro e olhava o céu muito azul e pensava
OUTONO
e era o céu do interior do meu país.
dentro de uma saleta eu jantava comida coreana com meu irmão e minha cunhada.
as madeiras claras estalavam em mim.
eu mandava uma mensagem por celular pro meu namorado/ que não respondia.
na superfície eu pensava que conseguiria voltar pra lisboa.
no fundo eu sabia que demoraria, seria muito difícil. então tudo seria outro/perdido.
então eu estava no banco de trás de um carro e olhava o céu muito azul e pensava
OUTONO
e era o céu do interior do meu país.
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terça-feira, 22 de novembro de 2011
solidão é algo que nunca me faltou.
mas é bem louco, às vezes o jeito de eu me sustentar ao lado dele é começar a escrever poemas pro vento. é. começo a cantar tudo o que está ao meu redor e é claro que isto organiza a minha relação com as coisas ao redor. tipo sábado de manhã eu vou até a varanda e digo pra mim mesma versos que falam da gaivota no teto do vizinho, o carro lá embaixo passa como um rasgo de papel, dois guardadores de carro que brigam pelas coisas mais deles, agarrados em heroína que são. de tão absurdas. o lixo nos contentores.
é como se o vento atravessasse meus lábios em dizer, eu acho muito bonito. também como é puro desperdício, poemas que eu nunca mais vou me lembrar. ao ponto de ter certeza que eles são a dicção exata, é neles que está, justamente, a grande obra que estou escrevendo. vida, vida. é só isso.
no mais, anoiteceu e a gente ainda estava no topo da montanha. foi muita muita emoção real, adrenalina, escuro! e camaradagem mútua, seguramos completamente os riscos, toureamos a noite sem lua e encontramos a saída, com muita sorte e intuição, também. sorte forte de, por exemplo, muitas pedras dos caminhos serem de calcário, isto é, brancas, reluziam mais do que o barro e nos diziam "por aqui".
foi lindo. na hora que chegamos lá embaixo no vale caímos num bosque de pinheiros, muito mais escuro. mas seguimos em frente, em frente, corujas saltavam dos galhos, e nós andávamos, andávamos. quando saímos do bosque chegamos no vale propriamente dito. dito e vasto, um pasto sobre os nossos pés e a noite de muitas estrelas no céu. foi das coisas mais bonitas que já vi na minha vida.
também porque combinada com a sensação de êxito. o problema real era descer a montanha (e não subi-la!), ali no pasto já era certo que chegaríamos ao carro. ao encontrarmos o asfalto demos nele um beijo, não em nós, não, no asfalto mesmo. "feito o papa".
quando eu disse que pra além de sermos peixes cuja água era o mato, nosso caminho era iniciático, ele se derreteu em ternura.
é meu.
mas é bem louco, às vezes o jeito de eu me sustentar ao lado dele é começar a escrever poemas pro vento. é. começo a cantar tudo o que está ao meu redor e é claro que isto organiza a minha relação com as coisas ao redor. tipo sábado de manhã eu vou até a varanda e digo pra mim mesma versos que falam da gaivota no teto do vizinho, o carro lá embaixo passa como um rasgo de papel, dois guardadores de carro que brigam pelas coisas mais deles, agarrados em heroína que são. de tão absurdas. o lixo nos contentores.
é como se o vento atravessasse meus lábios em dizer, eu acho muito bonito. também como é puro desperdício, poemas que eu nunca mais vou me lembrar. ao ponto de ter certeza que eles são a dicção exata, é neles que está, justamente, a grande obra que estou escrevendo. vida, vida. é só isso.
no mais, anoiteceu e a gente ainda estava no topo da montanha. foi muita muita emoção real, adrenalina, escuro! e camaradagem mútua, seguramos completamente os riscos, toureamos a noite sem lua e encontramos a saída, com muita sorte e intuição, também. sorte forte de, por exemplo, muitas pedras dos caminhos serem de calcário, isto é, brancas, reluziam mais do que o barro e nos diziam "por aqui".
foi lindo. na hora que chegamos lá embaixo no vale caímos num bosque de pinheiros, muito mais escuro. mas seguimos em frente, em frente, corujas saltavam dos galhos, e nós andávamos, andávamos. quando saímos do bosque chegamos no vale propriamente dito. dito e vasto, um pasto sobre os nossos pés e a noite de muitas estrelas no céu. foi das coisas mais bonitas que já vi na minha vida.
também porque combinada com a sensação de êxito. o problema real era descer a montanha (e não subi-la!), ali no pasto já era certo que chegaríamos ao carro. ao encontrarmos o asfalto demos nele um beijo, não em nós, não, no asfalto mesmo. "feito o papa".
quando eu disse que pra além de sermos peixes cuja água era o mato, nosso caminho era iniciático, ele se derreteu em ternura.
é meu.
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segunda-feira, 21 de novembro de 2011
não nos dão o animal que espeta os cornos no destino
e quando falo, a outra palavra para o medo é respiração. sou capaz de adormecer com ele, embalador. desconheço algo mais real. e chorar sempre faz as crianças dormirem bem. e fico por cima do meu peito e instruo a vontade de inspirar conforme o batimento cardíaco. subir montanha, ou seja, tenha que ficar irrigado, ou tranquilo. então eu olhei para o mar e disse: tua umidade não me impressiona, as cavidades do meu corpo contigo dividem a salina memória do futuro. a começar pelo coração.
sou incapaz de assustar o caminho de alguém, mas facilmente vou ferir a fera que vive em ti. posso fazê-lo em sonoridade. dentro do meu toráx vivem canivetes que te assaltam, amor que não me dás. ou sou eu que não sei esconder o pensamento que sobra tanto em mim, é um crânio onde bebem as feras o vinho. que, na verdade, já estive a adormecer sem pensar numa carta em que te explico as coisas que me magoam.
e quando voltamos para a cidade, ela é a que nos resta. e de manhã nos despedimos como se eu fosse atravessar. por mim entre tuas mãos entre as minhas para sempre.
o céu, o mato, tu e eu, tudo pra nos dar coragem. veja, estrelas. e sobre nossos pés, o pasto.
vivo feliz em mangueira porque
das coisas que tive, como todos, e ainda tenho, solidão nunca me faltou.
sou capaz de pular três fogueiras e andar pelo mato inteira, sair contigo.
ver as estrelas mais bonitas - que são as nossas, há de se ter sorte, caminho.
meus poemas ao vento andam
mais convictos do que os de serem em papel
esta travessia. a poesia sempre foi meu jeito de estar
tipo meu sobrinho, tão pequeno, já aprendeu que há um lugar só dele
pra se divertir, escrita de lábios é o que não me faltará.
tenho as mãos cortadas pelo mato e posso dizê-lo.
sou capaz de pular três fogueiras e andar pelo mato inteira, sair contigo.
ver as estrelas mais bonitas - que são as nossas, há de se ter sorte, caminho.
meus poemas ao vento andam
mais convictos do que os de serem em papel
esta travessia. a poesia sempre foi meu jeito de estar
tipo meu sobrinho, tão pequeno, já aprendeu que há um lugar só dele
pra se divertir, escrita de lábios é o que não me faltará.
tenho as mãos cortadas pelo mato e posso dizê-lo.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
meu avô era um ser da floresta-que-sabia-dizer-sim
ando com uma autoconfiança tão generosa que sonhei que me davam 25.000 euros por um livro que ainda não escrevi.
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sexta-feira, 11 de novembro de 2011
eu te anuncio nos sinos das catedrais
e conversar contigo é o conhecimento do que é a clareza
serpentes e dragões amansadas sem aflições. confesso
muitas vezes falamos do tédio, mas sempre mal do medo
e daqueles que se poupam sem errar, nem amar.
não é questão de vertigem. é, mais uma vez, de oceano.
agora no meu peito, o mar que é um peito
aberto sobre o espaço fico
tão presente que precisamos
escapar um pouco que seja
respiração que faz - beijar.
serpentes e dragões amansadas sem aflições. confesso
muitas vezes falamos do tédio, mas sempre mal do medo
e daqueles que se poupam sem errar, nem amar.
não é questão de vertigem. é, mais uma vez, de oceano.
agora no meu peito, o mar que é um peito
aberto sobre o espaço fico
tão presente que precisamos
escapar um pouco que seja
respiração que faz - beijar.
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amor
XII
Temendo deste agosto o fogo e o vento
Caminho junto às cercas, cuidadosa
Na tarde de queimadas, tarde cega.
Há um velho mourão enegrecido de queimadas antigas.
E ali reencontro o louco:
-Temendo os teus limites, Samsara esvaecida?
Por que não deixas o fogo onividente
Lamber o corpo e a escrita? E por que não arder
Casando o Onisciente à tua vida?
[Hilda Hilst]
e eu sempre lia o primeiro verso, faz anos como "Temendo desDe agosto". e agora copiar disse-me outro.
Temendo deste agosto o fogo e o vento
Caminho junto às cercas, cuidadosa
Na tarde de queimadas, tarde cega.
Há um velho mourão enegrecido de queimadas antigas.
E ali reencontro o louco:
-Temendo os teus limites, Samsara esvaecida?
Por que não deixas o fogo onividente
Lamber o corpo e a escrita? E por que não arder
Casando o Onisciente à tua vida?
[Hilda Hilst]
e eu sempre lia o primeiro verso, faz anos como "Temendo desDe agosto". e agora copiar disse-me outro.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
somewhere over the rainbow
sinto sono. hoje troquei de conta. alucinei no caderno embaixo do ar condicionado. escapei de três frechas de sol. quatro moicanos no meu peito. fiz um moicano no cabelo da minha sobrinha de dois meses ela babava e me dizia com os olhos: o segredo do universo, titia, é que somos todos umas larvas que babam. é tão impressionante, não nascemos arbustos. no entanto temos caracóis, HÁ CARACÓIS. quando a próxima primavera voltar, mas agora eu estou rumo ao outono. e com a minha capa de super-herói nas costas, que na verdade é a minha manta de beber chá, ando vendo meu reflexo pelas paredes das rochas de encostas das estradas. quando é lua, olho para ela e penso "tão antiga, a lua. és tão antiga". e quando olho duas vezes logo exclamo
meu pai é um anjo
o corvo que atravessa pelo átrio a igreja
e dou risada do verme que vive em todos nós. e racha as portas com seus dedos.
no mais, viro bicho. que são uns bicho mais mato que o mato.
meu pai é um anjo
o corvo que atravessa pelo átrio a igreja
e dou risada do verme que vive em todos nós. e racha as portas com seus dedos.
no mais, viro bicho. que são uns bicho mais mato que o mato.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
verdade
sonhei que meu peito era o mar azul
onde meu sobrinho, o Leon, colocava barcos de papel brancos
a navegar.
onde meu sobrinho, o Leon, colocava barcos de papel brancos
a navegar.
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caderno público de sonhos
domingo, 30 de outubro de 2011
a linha rosa
dia de finados termina meu compromisso
aquela mesa quadrada em que bolamos
saturno e eu - como num jogo de xadrez-
como me fazer parar. um pouco antes de começar sou capaz de inventar pausas
que adiam um beijo,
a massa de carne presa no prato pelo molho de tomate,
mas nunca é só uma pia de pratos
e ontem percebi que era possível trocar a palavra
"espécie" por "vida". quando noto uma coisa assim
tão fundamental, é um ponto pra baixo que escorre
e arma um travessão: imagino um bastão de ferro
correndo uma corrosão, mancha firme que avança
sem nunca tocar na menina que está debaixo da mesa
assistindo tudo, em dúvida se está triste ou acuada
a menina não sou eu. é só alguém que eu vejo,
de roxo. lembro de quando eu era pequena e me sentava embaixo da mesa que era a máquina astral de viagem. era sempre pra saturno que eu ia. e mesmo agora, ele ainda me visita pela lateral. eu que abria portas de metal dos anos 80 para saturno, eu que colava chicletes roxos nos parafusos e hoje digo para os amigos "que vida mais profunda a da sua descoberta". ele chegará para mim, mais tarde.
de quanta delicadeza essa mulher é capaz?
caetano bobinho
She has given her soul to the devil but the devil gave his soul to God
deveria ser
She has given her soul to the devil but the devil gave *her* soul to God
deveria ser
She has given her soul to the devil but the devil gave *her* soul to God
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papai me levava para escola cantando
versinhos ligeiros
pela janela do banheiro
o chuveiro ligado
não sei se chovia
fora ou dentro
mas o mundo todo
era meu apartamento
AGORA UM POEMA PARA O MEU PAI
o chuveiro ligado
não sei se chovia
fora ou dentro
mas o mundo todo
era meu apartamento
AGORA UM POEMA PARA O MEU PAI
para o meu pai
a poeta subiu o monte
olhou para os lados
e se viu rodeada
por capins.
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clap clap clap
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
tanta
fragmentação. se o destino é dispêndio, deflagração
como as coisas todas não se soltam umas das outras? e viajam, nulas, por aí?
se toda vez que eu me perco o sangue
envia de mim para outros restos
e o meu rosto por mais nítido alguém veja
se move na dimensão do teu esquecimento?
ou o motivo é sempre diverso do que concebo
e todo sentido é no futuro catacumba
como não perder a voz no teu silêncio.
ou não ligar. e te deixar dormir
do meu lado sempre e depois?
e se me odeiam, que que eu vou fazer?
fragmentação. se o destino é dispêndio, deflagração
como as coisas todas não se soltam umas das outras? e viajam, nulas, por aí?
se toda vez que eu me perco o sangue
envia de mim para outros restos
e o meu rosto por mais nítido alguém veja
se move na dimensão do teu esquecimento?
ou o motivo é sempre diverso do que concebo
e todo sentido é no futuro catacumba
como não perder a voz no teu silêncio.
ou não ligar. e te deixar dormir
do meu lado sempre e depois?
e se me odeiam, que que eu vou fazer?
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
hoje acordei bem cedo e não me deixei acordar
resolvi deitar mais um pouco, e menos frouxo, o sono ficar
depois li camões, e tenho a impressão de que nenhuma poesia me toca
(hoje, também ontem, antes de ontem)
engraçado. porque o clima das árvores já começo a sentir, o vento
em mim, sem ser comigo
deixo ele ser estar, teu coração também, quando quiser se aproximar
é o meu
amor
vou citar Luís:
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mla, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e doi não sei porquê.
resolvi deitar mais um pouco, e menos frouxo, o sono ficar
depois li camões, e tenho a impressão de que nenhuma poesia me toca
(hoje, também ontem, antes de ontem)
engraçado. porque o clima das árvores já começo a sentir, o vento
em mim, sem ser comigo
deixo ele ser estar, teu coração também, quando quiser se aproximar
é o meu
amor
vou citar Luís:
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mla, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e doi não sei porquê.
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quinta-feira, 13 de outubro de 2011
em algum lugar do céu estou composta
- e me comovem as canções de falam de suicídio. afinal, elas são capazes, no recesso do ato, no seu fazer, no seu ouvir, capazes de na sua negação do ato, cometerem o ouvir do caminho
e essa brisa que nos faz
promessas frescas de viagem
meu corpo se expande tanto que há uma gotícula de dor em cada extremo
se sou um fluxo de músculos e órgãos sensóreos
quando o computador fica tanto tempo comigo
creio que posso dizer
mamãe, sou um nervo aberto
e imagino um dente todo gritante
disparatado
não houve mordida que não pudesse ser amarrada com prejuízo da mandíbula
às vezes me pergunto se viver é uma questão de poupar ou de gastar
e se há armadilha, saída,
ou se é tudo vertigem, olho no olho, imensidão
vejo assim
e alguém, não se sabe bem de onde, talvez alguém sem pátria
dizia: e a ti? te interessa? te interessa viver?
promessas frescas de viagem
meu corpo se expande tanto que há uma gotícula de dor em cada extremo
se sou um fluxo de músculos e órgãos sensóreos
quando o computador fica tanto tempo comigo
creio que posso dizer
mamãe, sou um nervo aberto
e imagino um dente todo gritante
disparatado
não houve mordida que não pudesse ser amarrada com prejuízo da mandíbula
às vezes me pergunto se viver é uma questão de poupar ou de gastar
e se há armadilha, saída,
ou se é tudo vertigem, olho no olho, imensidão
vejo assim
e alguém, não se sabe bem de onde, talvez alguém sem pátria
dizia: e a ti? te interessa? te interessa viver?
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
don Octavio
Para los antiguos, el prestigio del pasado era el de la edad de oro, el edén nativo que un día abandonamos; para los modernos, el futuro fue el lugar de elección, la tierra prometida. (...) Creo que la nueva estrella -esa que aún no despunta em el horizonte histórico pero que se anuncia ya de muchas maneras indirectas - será del ahora. Los hombres tendrán muy pronto que edificar una Moral, una Política, una Erótica y una Poética del tiempo presente. El camino hacia el presente pasa por el cuerpo pero no debe ni puede confundirse con ele hedonismo mecánico y promiscuo de las sociedades modernas de Occidente. El presente es el fruto en el que la vida y la muerta se funden.
(...)
Alguna vez llamé a la poesía de este tiempo que comienza: arte de la convergencia. Así la opuse a la tradicion de la ruptura: "Los poetas de la edad moderna buscaron el principio del cambio; los poetas de la edad que comienza buscamos ese principio invariante que es el fundamento de los cambios. Nos preguntamos si no hay algo de común entre la Odisea y À la recherche du temps perdu. La estética del cambio acentuó el carácter histórico del poema; ahora nos perguntamos, ¿no hay un punto en el que el principio del cambio se confunde con el de la permanencia?... La poesía que comienza en este fin de siglo - no comienza realmente ni tampoco vuelve al punto de partida: es un perpetuo recomienzo y un continuo regreso. La poesía que comienza ahora, sin comenzar, busca la interseción de los tiempos, el punto de convergencia. Dice que entre el pasado abigarrado y el futuro deshabitado, la poesía es el presente". Escribí estas frases hace quince años. Hoy añadiría: el presente se manifiesta en la presencia y la presencia es la reconciliación de los tres tiempos. Poesía de la reconciliación: la imaginación encarnada en un ahora sin fechas.
México, a 12 de agosto de 1986.
Octavio Paz, "Poesía y modernidad", In: La otra voz: Poesía y fin de siglo.
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segunda-feira, 10 de outubro de 2011
qualquer
sonhei que um grande catavento desses eólicos de criar energia com o girar do seu deslocamento cortava os galhos dos pinheiros em redor. eu via de dentro de uma casa, por uma grande janela de vidro.
havia algo de mais errado no gesto, e por dentro da casa alguém fazia sexo.
havia algo de mais errado no gesto, e por dentro da casa alguém fazia sexo.
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domingo, 9 de outubro de 2011
perdi o medo da chuva
hoje aqui chove sutilmente. e eu penso em ir à livraria. comprar uma revista com meu nome dentro. é curiosa a força que as coisas têm quando acontecem: parecem aparição visualizada pelos poros, isto é: realidade. portos atracando. potros ancorando nas hastes do lado do grande rio.
me parece que li tanto ana neste último mês que estou precisando de um banho completo de ervas com sal, limão, virgem verso, vertigem. viva! o que em nós vigia saída.
quero escrever um grande beijo para o meu namorado (viver), mas tenho aprendido com o tempo que amar é tempo. uma história bonita como outra qualquer. silêncio.
é um típico domingo paulistano, chove. são tantas as pessoas na cidade que eu não sei bem por onde começar. ou quando não sei se o que me atualiza melhor (é sempre uma necessidade da pureza, a atualização - ou que nos próximos 6 meses investir numa fábula com margens composta entre 80 e 120 páginas? -) é a solidão ou a companhia, estudo ou escrita.
sábado, 8 de outubro de 2011
meu amor
I knew I was in danger. let me love your books, again. my old dark blue book over my jeans. someone stole my jeans. I was in L.A. and it was time to give. you were there to wish a star. don't worry. há tantos modos de se tirar um 3/4. e mostro um mesmo par de fotos como quem viu e encontrou. sempre o gigantismo do atlântico consolida-se nos meus gestos. fico sentindo a salsugem da poeira da estrada
a poeira da estrada que faz da salsugem seu souvenir
ashes for ashes, clothes for boys, devia ser hora de dormir, mas eu precisava escrever.
comprei um caderno com pauta. não usarei. infringi uma regra de ouro do meu conhecimento
pautas
achei engraçado, vir para o brasil com pautas.
2a feira já levo meu sobrinho no cinema. é a pauta mais importante, a da infância. vivê-la por todos os lados. imagino que você concorda com isto. e como não pude escrever no meu caderno porque ele agora tem pautas, vim falar alguma coisa por aqui
o que é sempre um perigo, porque me faz dizer menos, ou com menos palavras, ou com menos nomes, ou com os acontecimentos transformados em escrita mais distanciada ainda da vivência do que de uma tentativa de relato,
este blogue está se fazendo entre a experiência e a experiência da experiência. numa gaiola perto (sempre de portas abertas, a escrita). eu que descobri que escrever e ler não são a mesma coisa, não adianta. não adianta.
agora digredi pensando
pensando que talvez a experiência da idade média, de uma cópia de manuscrito, como fala o zumthor
(então pensei umas quatro coisas que não tenho vontade de explicar, até mesmo porque teria que defini-las)
e comecei a escrever:
me joga para o presente.
me joga para o presente.
me joga para o presente.
me joga para o presente.
me joga para o presente.
rapadura é doce mas não é mole
"Inscrever um texto, qualquer que seja, comporta duas operações: recolhê-lo sobre tabuinhas de cera (às vezes resumido, quando não em notas tironianas, taquigrafia de origem antiga); em seguida, passá-lo a limpo sobre o pergaminho. De vários letrados do século XII, como os teólogos Cîteaux ou Pedro, o Venerável, sabemos que compunham de memória suas obras e as ditavam a um secretário, o autor retomava e corrigia esse rascunho. Também ocorria fazer sozinho o primeiro trabalho e inscrever diretamente, pronunciando-o em voz alta, o texto sobre as tabuinhas. À mesma época, é provável que os escritores de língua vulgar, como por exemplo nossos primeiros romancistas, tenham usado esses procedimentos. Uma pintura do chansonnier N (da Pierpont Library, em Nova York), executada em meados do século XIV, representa um trovador anotando (com evidente dificuldade) sua canção sobre uma longa folha solta. Tais procedimentos, aliás, explicam a extrema raridade dos manuscritos autógrafos: nenhum em latim antes do século XI, nem em francês antes de meados do século XIV. O vocabulário que designa a operação de escrever provém, em vernáculo, diretamente do latim, o que parece mesmo implicar a identidade dos métodos: dictare, dictitare (até mesmo legere) de um lado, scribere de outro lado. Dictare refere-se ao que se percebe como a origem do texto; daí o substantivo dictamen, designando a arte da composição; daí a metáfora do Deus Dictator, enunciador de sua Criação; daí o francês dictier, remetendo à obra poética acabada, e o alemão Dichtung, "poesia". Scribere exige um esforço muscular considerável: dos dedos, do punho, da vista, das costas; o corpo inteiro participa, até a língua, pois tudo parece pronunciar-se. No inverno, o frio imobiliza os dedos, e pode-se temer o congelamento da tinta. Orderic Vital prefere esperar a primavera para recopiar as tabuinhas apressadamente rabiscadas em dezembro. Escrever exige infinita paciência: o trabalho de cópia se estende por meses, por um, dois anos. Depois de ter traçado a última linha, muitas vezes o escriba dá largas a seu alívio e sua alegria: compara-se ao marinho que enfim volta ao porto; ou então exige vinho, uma jovem virgem, até uma "gorda puta"! Wattenbach, antigamente, coligiu tais confidências, às vezes rabiscadas nas margens. Ainda por volta de 1400, em todo o Ocidente, a prática da escritura continuava, apesar de algumas inovações (como o uso do papel), escrava de sua tecnicidade e de seu elitismo; era só debilmente capaz de influenciar de maneira direta o comportamento ou o pensamento dos poetas, e influenciava menos ainda a expectativa de seu público."
[Paul Zumthor, A letra e a voz: A "literatura" medieval, p.100-101].
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sexta-feira, 7 de outubro de 2011
gate 11
nem tanto ao mar nem tanto à terra
agora tanto na vinda como na volta
monstro atlântico, alegre
ai que minha simplicidade é uma multidão
lagriminhas no raio-x.
agora tanto na vinda como na volta
monstro atlântico, alegre
ai que minha simplicidade é uma multidão
lagriminhas no raio-x.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
terça-feira, 27 de setembro de 2011
aviso
já notei que não é um terremoto, mas estarão testando bombas do outro lado da margem do rio? ou vão demolindo um edifício? serão turistas ensaiando, finalmente, o ataque? - porém pior do que as lufadas de fumaça que invadem esta janela é mesmo a sanfona tocando os mesmos três acordes para moedas raras de turistas muitos e na qual éramos capazes de testar bombas ou edifícios por cima,
- ou é sempre melhor não testar meu senso de destruição - .
- ou é sempre melhor não testar meu senso de destruição - .
estiolamento
n substantivo masculino
1 Rubrica: botânica.
desenvolvimento anormal dos vegetais causado pela ausência de luz, ger. caracterizado pelo descoramento e definhamento dos tecidos; ensoamento
2 Rubrica: fitopatologia.
designação comum a diversas doenças das plantas, causadas pela falta de luz e/ou excesso de umidade, que favorece a proliferação de fungos
3 Rubrica: fisiologia.
debilitação e descoramento sofridos por um indivíduo desprovido de luz e ar puro suficientes
4 Derivação: por extensão de sentido, sentido figurado.
fraqueza, definhamento
1 Rubrica: botânica.
desenvolvimento anormal dos vegetais causado pela ausência de luz, ger. caracterizado pelo descoramento e definhamento dos tecidos; ensoamento
2 Rubrica: fitopatologia.
designação comum a diversas doenças das plantas, causadas pela falta de luz e/ou excesso de umidade, que favorece a proliferação de fungos
3 Rubrica: fisiologia.
debilitação e descoramento sofridos por um indivíduo desprovido de luz e ar puro suficientes
4 Derivação: por extensão de sentido, sentido figurado.
fraqueza, definhamento
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houaiss um dos instrumentos sem os quais
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
não sei o que quer dizer estiolar mas vou descobrir de tanto ler
"O coração já não pode mais. Entre os bichos e as plantas, acontece-lhe dizer: Que fertilidade!- e a vida corrompe-se nos próprios fundamentos. Sente-se como um apóstolo sem fé. Desejaria morrer, arder no fogo apocalíptico das cidades. Ou ser devorado pela inteligência, estiolar de excessiva lucidez no meio da loucura campestre. Tradição, compreende uma: ama-a. Perdeu o nome, essa sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo sútil que participa de uma e outra, que se tornou inútil, insensato."
[Herberto Helder, em algum lugar d'Os passos em volta.]
já citei este trecho em todos os blogues que tenho/tive/terei.
[Herberto Helder, em algum lugar d'Os passos em volta.]
já citei este trecho em todos os blogues que tenho/tive/terei.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
eu que estou aqui há tanto tempo
desperto do sofá quando vejo passar no tejo
depois de muito -segundos- olhar o teto
navio cargueiro amarelo
onde está escrito
republica del brasile
como esto, si, tipo bananeré embananado
meu brasil violeiro no caminho da descida
do princípe real, que vai dar na minha vida
(lá decidi ficar de vez numa tarde de setembro
três anos atrás)
descubro uma saída
porque percebo que o brasil mora onde reside
minha vida, o brasil, meu bem, é meu coração
que então atravessa o tejo dizendo em italiano
republica, brasile, como se comessem
meu riso como massa, pesto, fusile
sim, vazio do intermezzo
não fuzile meu coração
que nele está pronto
está a postos está vidrado
o brasil, por antecipação.
este medo não é saliva, instinto, é simbolização.
e se a simbolização for uma instituição?
picote a linha abaixo os créditos.
aqui a luz já se inclinou.
desperto do sofá quando vejo passar no tejo
depois de muito -segundos- olhar o teto
navio cargueiro amarelo
onde está escrito
republica del brasile
como esto, si, tipo bananeré embananado
meu brasil violeiro no caminho da descida
do princípe real, que vai dar na minha vida
(lá decidi ficar de vez numa tarde de setembro
três anos atrás)
descubro uma saída
porque percebo que o brasil mora onde reside
minha vida, o brasil, meu bem, é meu coração
que então atravessa o tejo dizendo em italiano
republica, brasile, como se comessem
meu riso como massa, pesto, fusile
sim, vazio do intermezzo
não fuzile meu coração
que nele está pronto
está a postos está vidrado
o brasil, por antecipação.
este medo não é saliva, instinto, é simbolização.
e se a simbolização for uma instituição?
picote a linha abaixo os créditos.
aqui a luz já se inclinou.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
hoje há uma amizade que sobe do fundo da galeria, deusa
desfaz a geleira de coração
embrigado - o contrário do afogamento.
eu quero controlar os teus laços. a tranquilidade dos meus sonhos noturnos
tranquiliza meus passos de caminho, largo. às vezes me sinto um elefante
mas é em mim mesma. tudo que é possível. é em mim mesma.
ainda bem que ela retorna, lenta. ainda bem.
hoje estou nítida como se errasse em tudo. precisando de silêncio, produção.
desfaz a geleira de coração
embrigado - o contrário do afogamento.
eu quero controlar os teus laços. a tranquilidade dos meus sonhos noturnos
tranquiliza meus passos de caminho, largo. às vezes me sinto um elefante
mas é em mim mesma. tudo que é possível. é em mim mesma.
ainda bem que ela retorna, lenta. ainda bem.
hoje estou nítida como se errasse em tudo. precisando de silêncio, produção.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
sonhei com ele
acho que foi a primeira vez que sonhei com ele.
ele vinha aqui em casa e me dizia assim
"acho que esta mesa cabe mais pra lá,"
empurrava, criava tanto espaço
e uma luz muito branca abria sobre o quarto
que virava uma sala de estar.
ele vinha aqui em casa e me dizia assim
"acho que esta mesa cabe mais pra lá,"
empurrava, criava tanto espaço
e uma luz muito branca abria sobre o quarto
que virava uma sala de estar.
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caderno público de sonhos
sábado, 17 de setembro de 2011
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
meu verso é minha declaração
vertigem viva a raiz vigia eu que já não tenho como dizer sem nós nos dedos
ana cristina
me ensina a nascer,
de novo, dançar de amor, até sem ti, menina errada
errante do riso
teu risco maior
foi discernir, diferir
embriagar a alteridade
tanto que definir
azul tantas vezes te aparece
azul
mulher
transporte
coisas que nos combinam - embora - cada vez mais - eu goste
de branco e vermelho
de homem
ana menina minha
toma a minha boca pelos dedos
fazia tempo que não fazias dessas
e eu, toda latifúndio do meu campo,
se temo, travo no bolso o trevo que tenho
mastigo entre os dentes
me digo: caminha, anda
anda com ana entre os dedos
toda tua ausência, me fertiliza
que o importante é não abaixar a cabeça
nem erguer demais
os gritos por dentro
nem são indiferentes erros e acertos
talvez a agudeza de tudo. talvez a agulhada de tudo.
ou dans mon île girando num frasco tão comum
a nossa resposta passa variada
e agarro quanto posso a varanda.
eu também, bem, tenho escrito.
ana cristina
me ensina a nascer,
de novo, dançar de amor, até sem ti, menina errada
errante do riso
teu risco maior
foi discernir, diferir
embriagar a alteridade
tanto que definir
azul tantas vezes te aparece
azul
mulher
transporte
coisas que nos combinam - embora - cada vez mais - eu goste
de branco e vermelho
de homem
ana menina minha
toma a minha boca pelos dedos
fazia tempo que não fazias dessas
e eu, toda latifúndio do meu campo,
se temo, travo no bolso o trevo que tenho
mastigo entre os dentes
me digo: caminha, anda
anda com ana entre os dedos
toda tua ausência, me fertiliza
que o importante é não abaixar a cabeça
nem erguer demais
os gritos por dentro
nem são indiferentes erros e acertos
talvez a agudeza de tudo. talvez a agulhada de tudo.
ou dans mon île girando num frasco tão comum
a nossa resposta passa variada
e agarro quanto posso a varanda.
eu também, bem, tenho escrito.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
a plataforma desta estação
eu chegava a uma cidade final, de fronteira, numa linha de comboio portuguesa, era fim de tarde, e tinha passado os dias mais lindos em viagem, acho que só. um menino estava sentado na cadeira da estação, eu ia conversar com ele, conversavamos, eu ia até a bilheteira comprar minha passagem de volta para Lisboa, e indicava pra ele novos caminhos de férias, mas ele só se interessava por dormir ali, em cima de uns caixotes de papelão, talvez, e eu pensava nas praias que ele não via, e o abraçava e ele não dava muita bola, tinham vários trens saindo em sequencia de horário quando eu notava era aquele, na plataforma meu comboio estava saindo, eu apertava o botão das portas pra que abrissem (tipo metrô de paris) e elas abriam com o trem já em movimento e eu saltava pra dentro e pedia pra que ele me jogasse a minha mochila que estava com ele, ele jogava, o trem lotado de gente, na disposição de cadeiras parecia a barca que atravessa o tejo, um cacilheiro, eu arranjava um lugar pra sentar e abraçava minha mochila e pensava que não faltava, mas ainda tinha tempo, naquela linha até Lisboa.
quando acordei o primeiro passo que dei pra fora da cama teve dentro do meu corpo o gesto do meu bem.
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caderno público de sonhos
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
encontro, dispersão
algumas vezes já acordei gritando de madrugada e em todas elas era um grito de liberdade
foram três as vezes na minha vida - mas só me lembro de duas.
sim, sou uma pessoa que encontra liberdade dentro do pânico.
pra sair dele, é certo, é preciso desarmá-lo
todo dia eu vivo uma bomba.
não posso acreditar nem na realidade nem na ficção.
temos que ser radicais no equilíbrio do entre.
por favor, senhor, por aquele lado você vem do jeito que quiser.
e poupará tempo e imaginação, concorde, se perceber que
guidão, manopla, direção
só tem você um pedaço, você.
agora façam um esforço realístico e imaginem alguém que vive atrás da estabilidade por dentro de tudo
alguém que tem ternura pelas coisas que se estabilizam
mas que só se sente viva acordada
e é acordada pelas revelações que tem e produz,
vive deste furacão de encontrar na expansão do abismo asas
as estimas pelos acontecimentos do movimento.
já fez samba, análise, blogues, muitos.
tem por costumes os amigos.
e de pôr o fundo à frente, é um gesto
resquício de superfície, sou do meu tempo.
é isto, júlia, dizer que são todos e cada um do seu tempo.
e elogio aquela elegância que só o tempo tem
de ceifar o que não é.
não admiro furacões.
muito menos furacões mentais.
mas estou revirada de encontros.
e não cogito mais em servir ao medo.
reconheço-o em mim como um animal ferido, o medo.
o medo é aquele que não sabe por onde ir em mim.
está entorpecido de sono e tenta me excitar dizendo
precaução mulher. me diz até que não tenho mais um eixo
onde as coisas cintilam por si.
mas sei que a bomba na mão que eu tenho sou
eu que refaço a programação rítmica do meu coração
e determino a enseada, a encruzilhada, a poesia.
que não são minhas, nem de ninguém.
feito o trovão. ele vem como um cavalo.
ele é o céu.
e quem então teme o excesso tem por destino o excesso
há uma revolução em mim e tudo que acontece me comove
penso o destino como um queijo suíço
pra mim é suficiente escrever
estou muito distante dos navios que queriam me levar
mas tenho os homens no coração,
sem que ninguém caiba aqui comigo
estou contente de estar em portugal,
lembro que uns anos atrás escrevi que as novas pessoas da minha vida tão importantes tinham o mesmo nome
o que faz das coisas que me acontecem agora
não tão novas as coisas que me acontecem agora
e nem o de antes nem pra depois
talvez a juventude de um broto que estoura
o caule forte da tua alegria.
somos tão férteis, meus amigos,
estão estarão todos notando que sou uma massa de dispersão do azul?
é o sangue do meu alazão.
quem já viu o encontro do rio negro com o solimões
foram três as vezes na minha vida - mas só me lembro de duas.
sim, sou uma pessoa que encontra liberdade dentro do pânico.
pra sair dele, é certo, é preciso desarmá-lo
todo dia eu vivo uma bomba.
não posso acreditar nem na realidade nem na ficção.
temos que ser radicais no equilíbrio do entre.
por favor, senhor, por aquele lado você vem do jeito que quiser.
e poupará tempo e imaginação, concorde, se perceber que
guidão, manopla, direção
só tem você um pedaço, você.
agora façam um esforço realístico e imaginem alguém que vive atrás da estabilidade por dentro de tudo
alguém que tem ternura pelas coisas que se estabilizam
mas que só se sente viva acordada
e é acordada pelas revelações que tem e produz,
vive deste furacão de encontrar na expansão do abismo asas
as estimas pelos acontecimentos do movimento.
já fez samba, análise, blogues, muitos.
tem por costumes os amigos.
e de pôr o fundo à frente, é um gesto
resquício de superfície, sou do meu tempo.
é isto, júlia, dizer que são todos e cada um do seu tempo.
e elogio aquela elegância que só o tempo tem
de ceifar o que não é.
não admiro furacões.
muito menos furacões mentais.
mas estou revirada de encontros.
e não cogito mais em servir ao medo.
reconheço-o em mim como um animal ferido, o medo.
o medo é aquele que não sabe por onde ir em mim.
está entorpecido de sono e tenta me excitar dizendo
precaução mulher. me diz até que não tenho mais um eixo
onde as coisas cintilam por si.
mas sei que a bomba na mão que eu tenho sou
eu que refaço a programação rítmica do meu coração
e determino a enseada, a encruzilhada, a poesia.
que não são minhas, nem de ninguém.
feito o trovão. ele vem como um cavalo.
ele é o céu.
e quem então teme o excesso tem por destino o excesso
há uma revolução em mim e tudo que acontece me comove
penso o destino como um queijo suíço
pra mim é suficiente escrever
estou muito distante dos navios que queriam me levar
mas tenho os homens no coração,
sem que ninguém caiba aqui comigo
estou contente de estar em portugal,
lembro que uns anos atrás escrevi que as novas pessoas da minha vida tão importantes tinham o mesmo nome
o que faz das coisas que me acontecem agora
não tão novas as coisas que me acontecem agora
e nem o de antes nem pra depois
talvez a juventude de um broto que estoura
o caule forte da tua alegria.
somos tão férteis, meus amigos,
estão estarão todos notando que sou uma massa de dispersão do azul?
é o sangue do meu alazão.
quem já viu o encontro do rio negro com o solimões
sabe que estou falando de amor. o amor é um pássaro que vem me ver.
escrevo sem parar que é pra amanhã não ter idéias.
vela de barco
intensidade, rumor - recife que arqueja - as minhas estrelas forjam - um sistema solar próprio - onde é possível ligar - pão ao queijo - amor com irmão - reconhecer o dilúvio lento do pó - viver.
um recife que arqueja em mim está tensionado por dentro, de susto. tive uma cãibra tão alta esta noite, que gritei. acordei tão assustada, pedindo pelo bernardo, que não me ouviu. não sei de que medo foi, tem coisas que só a música me limpa, a escrita é também a hidrelétrica da purificação
mais até, muito mais até do que o tempo e a distância.
ou talvez seja um ritmo,
às vezes fico
fico muito parada longe de você. então acho que é um desaparecimento. porque lado a lado somos extensão.
dos animais que conheço intimamente, entre eles superiormente estão os touros, embora saiba de leões, cavalo sou. agora eu vi, agora eu vi a lua. a lua, a minha, a tua.
um recife que arqueja em mim está tensionado por dentro, de susto. tive uma cãibra tão alta esta noite, que gritei. acordei tão assustada, pedindo pelo bernardo, que não me ouviu. não sei de que medo foi, tem coisas que só a música me limpa, a escrita é também a hidrelétrica da purificação
mais até, muito mais até do que o tempo e a distância.
ou talvez seja um ritmo,
às vezes fico
fico muito parada longe de você. então acho que é um desaparecimento. porque lado a lado somos extensão.
dos animais que conheço intimamente, entre eles superiormente estão os touros, embora saiba de leões, cavalo sou. agora eu vi, agora eu vi a lua. a lua, a minha, a tua.
domingo, 11 de setembro de 2011
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
estou vivo e escrevo sol
uma espinha dorsal balança na linha do horizonte
segurada por um miúdo
ele a agita feito folha
em cima dela
eu sou o escarvelho
que a água do céu trepida.
hoje é aniversário da carolina
mas amanhã e depois
eu vou também
ria moura ria moura
gargalhe, sua louca.
seja feliz.
pegue uns panos pra lavar/ leia um romance.
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amigos amigos negócios reparte
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
amor
fiquei um mês sem tocar nos meus trabalhos acadêmicos, universitários - depois de seis meses dentro deles sem parar. agora retorno pra ler as anotações, introduções que já fiz. e é curioso, como em todas elas há traços similares, que são espécies de conversações basilares de mim comigo mesma, tentando propor a mim mesma o que eu acredito e no que eu não acredito - matando fantasmas, colhendo flores, planeando o plano, assinando embaixo do nome dos meus professores e mestres, matando os velhos de susto, acalmando os novos sem pressa - mas algum travo na boca da minha incapacidade, ou de estar ainda atrasada dentro de mim mesma, sempre, sempre tirando os outdoors do mal da frente dos meus olhos, e colocando de molho o meu próprio cansaço. sim, creio que é a hora, de voltar a trabalhar.
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