"O sentimento de profundo bem-estar que a árvore sente subir das raízes, o prazer de saber que não se é um ser puramente arbitrário e fortuito, mas que se vem de um passado de que é herdeiro, flor e fruto, e que por este motivo se está justificado do que se é, a isto podemos nós chamar hoje o verdadeiro sentido histórico.
Sem dúvida, não é o estado mais favorável para transformar o passado num puro saber."
disse o Nietzsche em "Considerações Intempestivas"
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
aquele que vem antes nunca chegará depois
Ânimo de Poeta.
[Segunda versão]
Pois não são todos os vivos teus irmãos?
Não te alimenta, posta a teu serviço, a própria Parca?
Avança então, sem armas,
Vida fora, e nada receies!
Bendito seja sempre para ti o que acontece!
Abre-te à alegria! Que pode, afinal,
Fazer-te ofensa, coração? Que coisa
Atravessar-se no caminho que é o teu?
Pois desde que o canto se soltou de lábios
Mortais, respirando paz, e a nossa melodia,
Bálsamo na dor e na fortuna, alegrou
O coração dos homens, também nós,
Bardos do povo, nos sentimentos bem entre os vivos,
Onde muitas coisas convivem, alegres e a todos dadas,
Abertas a todos; assim é
Nosso antiquíssimo pai, o deus Sol,
Que a pobres e ricos concede o dia alegre,
Que no tempo fugaz a nós, efémeros,
Erectos nos mantém em andadeiras
De ouro, como crianças.
A ele espera-o, acolhe-o também, quando a hora
Vem, a sua maré purpúrea. Olha como declina
A nobre luminária, ciente de que tudo passa,
Descendo, imperturbável, pelo caminho!
Assim passe também, quando o tempo chegar
E ao espírito no mundo inteira justiça for feita,
A nossa alegria! Assim ela possa um dia morrer
Na plenitude da vida, e de uma morte bela!
[Friedrich Hölderlin em tradução de João Barrento]
[Segunda versão]
Pois não são todos os vivos teus irmãos?
Não te alimenta, posta a teu serviço, a própria Parca?
Avança então, sem armas,
Vida fora, e nada receies!
Bendito seja sempre para ti o que acontece!
Abre-te à alegria! Que pode, afinal,
Fazer-te ofensa, coração? Que coisa
Atravessar-se no caminho que é o teu?
Pois desde que o canto se soltou de lábios
Mortais, respirando paz, e a nossa melodia,
Bálsamo na dor e na fortuna, alegrou
O coração dos homens, também nós,
Bardos do povo, nos sentimentos bem entre os vivos,
Onde muitas coisas convivem, alegres e a todos dadas,
Abertas a todos; assim é
Nosso antiquíssimo pai, o deus Sol,
Que a pobres e ricos concede o dia alegre,
Que no tempo fugaz a nós, efémeros,
Erectos nos mantém em andadeiras
De ouro, como crianças.
A ele espera-o, acolhe-o também, quando a hora
Vem, a sua maré purpúrea. Olha como declina
A nobre luminária, ciente de que tudo passa,
Descendo, imperturbável, pelo caminho!
Assim passe também, quando o tempo chegar
E ao espírito no mundo inteira justiça for feita,
A nossa alegria! Assim ela possa um dia morrer
Na plenitude da vida, e de uma morte bela!
[Friedrich Hölderlin em tradução de João Barrento]
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
um blogue serve
início de fim de ciclo. às vezes fecho os olhos e acho que é para sempre. é que estou escrevendo e escrever não inibe as pausas, antes, usa-as. fico fazendo um cinturão de dança ao redor de tudo. e estou triste por ser fim do mês e ainda não ter dinheiro pra comprar um caderno novo. aqui não posso contar aquelas coisinhas que se abrissem meus diários saltavam. sei que é ali que estão nascendo todos os caranguejos do mundo, aqueles que vão arrancar os olhos das coincidências e interpretá-las. que não seja como barro de mangue,
fico pensando em um jeito do fim não ser sempre uma hecatombe, mas também as coisas precisam de pontos finais. e depois deles só se começa depois (estou falando de março, digo só pra que eu saiba ao reler).
é que eu processo quedas como saídas,
e saídas como entradas - estou longe e perto - viajo, te verso
e tem vezes que sou incapaz de reler antes de postar.
domingo, 4 de dezembro de 2011
um dia a gente chega
o que tem me impressionado neste amor é a capacidade dele de ser do mundo/ não meu, nem dele, nem de ninguém. meu amor, o amor é do mundo.
isto vejo nos teus olhos.
o amor não deixa desvios vingarem.
e, muitas vezes, o amor é a pura prática de desvios.
o amor quando a gente olha nos olhos e não é miragem
crocodilagem.
isto vejo nos teus olhos.
o amor não deixa desvios vingarem.
e, muitas vezes, o amor é a pura prática de desvios.
o amor quando a gente olha nos olhos e não é miragem
crocodilagem.
sábado, 3 de dezembro de 2011
vapor quando a jaguatirica abre a boca é de manhã
do limbo despertaram seis ameijôas amestradas faliram com a mariscada da praia de copacabana quando o tataravô português que certamente devo ter tido matou o primeiro índio. a morte é uma sorte dos meus ancestrais, eu ainda não a tive. não sei avisar a órbita dos planetas para que parem. noite dessas pari um acaso danado, depois percebi que era só a rua me deixando passar.
&
acidente de estrelas inibe colisão entre duas árvores que se beijavam
um acidente de estrelas nessa manhã foi um acontecimento invejável em pleno espaço público. a galáxia já disse que vai tomar providências. ativistas de júpiter decidiram pela proliferação de novos cometas. na terra, as plantas ainda crescem.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
de um, muitos, "não sei", vamos juntos
O discurso de Wislawa Szymborska na Academia Sueca foi traduzido do inglês por Rubens Figueiredo.
"Dizem que a primeira frase de um discurso é sempre a mais difícil. Bem, ela já ficou para trás. Mas tenho a sensação de que as frases ainda por vir - a terceira, a sexta, a décima e assim por diante, até a última linha - serão igualmente difíceis, pois tenho de falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto - quase nada, de fato. E sempre que falei me veio a furtiva suspeita de que não sou muito boa nisso. Portanto, minha palestra será bem curta. A imperfeição é mais fácil de tolerar em doses pequenas.
Os poetas contemporâneos são céticos e desconfiados até, ou talvez sobretudo, de si mesmos. Só com relutância confessam publicamente ser poetas, como se tivessem um pouco de vergonha. Mas em nossos tempos estrepitosos é mais fácil reconhecer nossos erros, ao menos se estiverem atraentemente embalados, do que reconhecer os próprios méritos, pois estes se mantêm ocultos mais no fundo, e nós mesmos nunca acreditamos muito neles... Quando preenchem fichas ou batem papo com estranhos - ou seja, quando não podem deixar de revelar sua profissão -, os poetas preferem usar o termo genérico "escritor" ou substituir "poeta" pelo nome de qualquer outro trabalho que façam, além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um toque de incredulidade e alarme quando descobrem que estão tratando com um poeta. Creio que os filósofos enfrentam reação semelhante. Contudo, estão numa posição melhor, pois na maioria das vezes podem ornamentar seu ofício com algum tipo de título universitário. Professor Doutor de Filosofia: isso sim soa muito mais respeitável.
Mas não existem professores de poesia. Afinal de contas, isso significaria que a poesia é uma ocupação que requer um estudo especializado, exames regulares, ensaios teóricos com bibliografia e notas de rodapé anexadas e, por fim, diplomas conferidos com pompa. E significaria, em troca, que não basta encher páginas de poemas, mesmo os mais primorosos do mundo, para tornar-se um poeta. O fator decisivo seria um pedaço de papel que traz um selo oficial. Lembremos que o orgulho da poesia russa, o futuro ganhador do Prêmio Nobel Joseph Brodsky, foi certa vez condenado ao exílio em seu próprio país justamente com base nessa idéia. Chamaram-no de "parasita" porque não possuía o certificado oficial que lhe assegurava o direito de ser poeta.
Há muitos anos, tive a honra e o prazer de encontrar com Brodsky. Notei que, de todos os poetas que eu conhecia, ele era o único que gostava de se chamar de poeta. Pronunciava a palavra sem inibição. Ao contrário: ele a falava com uma liberdade desafiadora. Isso devia ocorrer, é o que me parece, por causa da lembrança das humilhações que sofreu na juventude.
Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco, ou quase nada, para se situarem acima do rebanho geral e da roda-viva do dia-a-dia. No entanto, ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar - em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos - a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta.
Não é por acaso que filmes biográficos sobre cientistas e artistas célebres são produzidos aos montes. Os diretores mais ambiciosos tentam reconstituir de forma convincente o processo criativo que gerou importantes descobertas científicas, ou o surgimento de uma obra-prima. E se pode retratar certos tipos de atividade científica com algum sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, máquinas complicadas em ação: tais cenas podem prender o interesse da platéia durante algum tempo. E aqueles momentos de incerteza - será que a experiência, realizada pela milésima vez com uma ínfima alteração, produzirá por fim o resultado desejado? - podem ser dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, enquanto recriam todos os estágios da evolução de um pintor famoso, desde o primeiro traço a lápis até a pincelada definitiva. A música se expande nos filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que soa nos ouvidos do músico emergem, no fim, como uma obra madura em forma sinfônica. Claro, tudo isso é ingênuo, e não explica o estranho estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos existe algo para se olhar e se ouvir.
Mas os poetas são os piores. Seu trabalho, inapelavelmente, nada tem de fotogênico. Alguém senta a uma mesa ou deita num sofá enquanto olha imóvel para a parede ou para o teto. De quando em quando, essa pessoa escreve sete linhas, só para riscar uma delas quinze minutos depois, em seguida mais uma hora se passa, durante a qual nada acontece... Quem agüentaria assistir a esse tipo de coisa?
Mencionei a inspiração. Poetas contemporâneos respondem de forma evasiva quando lhes perguntam o que é isso, e se existe de verdade. Não é que nunca tenham conhecido a bênção desse impulso interior. Só que não é fácil explicar a uma outra pessoa aquilo que você mesmo não compreende.
"Dizem que a primeira frase de um discurso é sempre a mais difícil. Bem, ela já ficou para trás. Mas tenho a sensação de que as frases ainda por vir - a terceira, a sexta, a décima e assim por diante, até a última linha - serão igualmente difíceis, pois tenho de falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto - quase nada, de fato. E sempre que falei me veio a furtiva suspeita de que não sou muito boa nisso. Portanto, minha palestra será bem curta. A imperfeição é mais fácil de tolerar em doses pequenas.
Os poetas contemporâneos são céticos e desconfiados até, ou talvez sobretudo, de si mesmos. Só com relutância confessam publicamente ser poetas, como se tivessem um pouco de vergonha. Mas em nossos tempos estrepitosos é mais fácil reconhecer nossos erros, ao menos se estiverem atraentemente embalados, do que reconhecer os próprios méritos, pois estes se mantêm ocultos mais no fundo, e nós mesmos nunca acreditamos muito neles... Quando preenchem fichas ou batem papo com estranhos - ou seja, quando não podem deixar de revelar sua profissão -, os poetas preferem usar o termo genérico "escritor" ou substituir "poeta" pelo nome de qualquer outro trabalho que façam, além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um toque de incredulidade e alarme quando descobrem que estão tratando com um poeta. Creio que os filósofos enfrentam reação semelhante. Contudo, estão numa posição melhor, pois na maioria das vezes podem ornamentar seu ofício com algum tipo de título universitário. Professor Doutor de Filosofia: isso sim soa muito mais respeitável.
Mas não existem professores de poesia. Afinal de contas, isso significaria que a poesia é uma ocupação que requer um estudo especializado, exames regulares, ensaios teóricos com bibliografia e notas de rodapé anexadas e, por fim, diplomas conferidos com pompa. E significaria, em troca, que não basta encher páginas de poemas, mesmo os mais primorosos do mundo, para tornar-se um poeta. O fator decisivo seria um pedaço de papel que traz um selo oficial. Lembremos que o orgulho da poesia russa, o futuro ganhador do Prêmio Nobel Joseph Brodsky, foi certa vez condenado ao exílio em seu próprio país justamente com base nessa idéia. Chamaram-no de "parasita" porque não possuía o certificado oficial que lhe assegurava o direito de ser poeta.
Há muitos anos, tive a honra e o prazer de encontrar com Brodsky. Notei que, de todos os poetas que eu conhecia, ele era o único que gostava de se chamar de poeta. Pronunciava a palavra sem inibição. Ao contrário: ele a falava com uma liberdade desafiadora. Isso devia ocorrer, é o que me parece, por causa da lembrança das humilhações que sofreu na juventude.
Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco, ou quase nada, para se situarem acima do rebanho geral e da roda-viva do dia-a-dia. No entanto, ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar - em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos - a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta.
Não é por acaso que filmes biográficos sobre cientistas e artistas célebres são produzidos aos montes. Os diretores mais ambiciosos tentam reconstituir de forma convincente o processo criativo que gerou importantes descobertas científicas, ou o surgimento de uma obra-prima. E se pode retratar certos tipos de atividade científica com algum sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, máquinas complicadas em ação: tais cenas podem prender o interesse da platéia durante algum tempo. E aqueles momentos de incerteza - será que a experiência, realizada pela milésima vez com uma ínfima alteração, produzirá por fim o resultado desejado? - podem ser dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, enquanto recriam todos os estágios da evolução de um pintor famoso, desde o primeiro traço a lápis até a pincelada definitiva. A música se expande nos filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que soa nos ouvidos do músico emergem, no fim, como uma obra madura em forma sinfônica. Claro, tudo isso é ingênuo, e não explica o estranho estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos existe algo para se olhar e se ouvir.
Mas os poetas são os piores. Seu trabalho, inapelavelmente, nada tem de fotogênico. Alguém senta a uma mesa ou deita num sofá enquanto olha imóvel para a parede ou para o teto. De quando em quando, essa pessoa escreve sete linhas, só para riscar uma delas quinze minutos depois, em seguida mais uma hora se passa, durante a qual nada acontece... Quem agüentaria assistir a esse tipo de coisa?
Mencionei a inspiração. Poetas contemporâneos respondem de forma evasiva quando lhes perguntam o que é isso, e se existe de verdade. Não é que nunca tenham conhecido a bênção desse impulso interior. Só que não é fácil explicar a uma outra pessoa aquilo que você mesmo não compreende.
Quando ocorre de me perguntarem sobre o assunto, também me esquivo. Mas minha resposta é esta: a inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas e artistas. Existe, existiu, existirá sempre certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. É formado por todos aqueles que conscientemente escolheram sua vocação, e fazem seu trabalho com amor e imaginação. Pode incluir médicos, professores, jardineiros - eu poderia fazer uma lista de mais de cem profissões. Seu trabalho se torna uma aventura constante, enquanto forem capazes de continuar a descobrir nele novos desafios. Difi¬culdades e reveses nunca sufocam a sua curiosidade. Um enxame de questões novas emerge de cada problema que eles solucionam. Seja lá o que for a inspiração, ela nasce de um contínuo "não sei".
Não existem muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para ganhar a vida. Trabalham porque têm de trabalhar. Não escolhem este ou aquele tipo de trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas fizeram a escolha por eles. Trabalho sem amor, trabalho maçante, trabalho cujo mérito consiste no fato de que outros nem isso têm - aí está uma das mais penosas desventuras humanas. E não há sinal de que os séculos vindouros produzirão qualquer melhora em relação a este estado de coisas.
Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna.
Neste ponto, certas dúvidas podem surgir na minha platéia. Toda sorte de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que lutam pelo poder com um punhado de retumbantes palavras-de-ordem também gostam de seu trabalho, e também cumprem suas obrigações com um fervor inventivo. Bem, está certo: mas eles "sabem", e o que quer que saibam é o suficiente para eles, de uma vez por todas. Não querem descobrir mais nada, uma vez que isso pode reduzir a força de seus argumentos. Mas todo conhecimento que não leva a perguntas novas se extingue depressa: não consegue manter a temperatura necessária para a conservação da vida. Em casos extremos, bem conhecidos desde a antiguidade até a história moderna, chega a representar uma ameaça letal à sociedade.
É por isso que dou tanto valor à pequena frase "não sei". É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como as vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo "não sei", as maçãs do seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como uma chuva de granizo - no máximo, teria parado para pegá-las e devorá-las com deleite. Se a minha compatriota Marie-Curie Sklodowska nunca tivesse dito a si mesma "não sei", na certa acabaria lecionando química em alguma faculdade particular para mocinhas de boas famílias, e terminaria seus dias cumprindo esse trabalho, de resto perfeitamente respeitável. Mas ela não parou de dizer "não sei", e essas palavras levaram-na, não só uma vez, mas duas, a Estocolmo, onde espíritos inquietos, indagadores, são de tempos em tempos contemplados com o Prêmio Nobel.
Poetas, se autênticos, também devem repetir "não sei". Todo poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas assim que a frase final cai no papel, o poeta começa a hesitar, a se dar conta de que essa resposta particular era puro artifício, absolutamente inadequada. Portanto, os poetas continuam a tentar e, mais cedo ou mais tarde, os resultados da sua insatisfação consigo mesmos são reunidos, e presos num clipe gigante pelos historiadores da literatura, e passam a ser chamados de suas "obras".
Às vezes, sonho com situações que não podem virar realidade. Imagino, por exemplo, que tenho uma chance de trocar umas palavrinhas com o autor do Eclesiastes, aquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Curvo-me profundamente diante dele, pois é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois seguro a sua mão. "Não há nada de novo sob o sol - foi o que você escreveu. Mas você mesmo nasceu novo sob o sol. E o poema que criou é também novo sob o sol, uma vez que ninguém o havia escrito antes de você. E todos os seus leitores são também novos sob o sol - aqueles que viveram antes de você não puderam ler o seu poema. E esse cipreste sob o qual está sentado não cresceu desde o início dos tempos. Nasceu de um outro cipreste semelhante ao seu, mas não exatamente igual.
E, Eclesiastes, eu também gostaria de lhe perguntar que coisa nova sob o sol está agora em seus planos de trabalho. Um suplemento adicional às idéias que já expressou? Ou talvez esteja agora tentado a contradizer algumas delas? Em sua obra inicial, você fez menção à alegria - de que adianta se é fugaz? Então, será que o seu poema novo sob o sol vai falar da alegria? Já tomou notas, fez rascunhos? Duvido que você responda: 'Já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar'. Não existe no mundo nenhum poeta que possa dizer isso, muito menos um grande poeta como você."
O mundo - o que podemos pensar quando estamos apavorados com a sua amplidão e com a nossa própria impotência, ou quando estamos amargurados com a sua indiferença em relação ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e talvez até das plantas (pois por que estamos tão seguros de que as plantas não sentem dor?); o que podemos pensar sobre as suas vastidões penetradas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos? Simplesmente não sabemos; o que podemos pensar sobre este teatro imensurável para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cujo prazo de validade é risivelmente curto, delimitado como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos sobre este mundo - ele é assombroso.
Não existem muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para ganhar a vida. Trabalham porque têm de trabalhar. Não escolhem este ou aquele tipo de trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas fizeram a escolha por eles. Trabalho sem amor, trabalho maçante, trabalho cujo mérito consiste no fato de que outros nem isso têm - aí está uma das mais penosas desventuras humanas. E não há sinal de que os séculos vindouros produzirão qualquer melhora em relação a este estado de coisas.
Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna.
Neste ponto, certas dúvidas podem surgir na minha platéia. Toda sorte de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que lutam pelo poder com um punhado de retumbantes palavras-de-ordem também gostam de seu trabalho, e também cumprem suas obrigações com um fervor inventivo. Bem, está certo: mas eles "sabem", e o que quer que saibam é o suficiente para eles, de uma vez por todas. Não querem descobrir mais nada, uma vez que isso pode reduzir a força de seus argumentos. Mas todo conhecimento que não leva a perguntas novas se extingue depressa: não consegue manter a temperatura necessária para a conservação da vida. Em casos extremos, bem conhecidos desde a antiguidade até a história moderna, chega a representar uma ameaça letal à sociedade.
É por isso que dou tanto valor à pequena frase "não sei". É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como as vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo "não sei", as maçãs do seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como uma chuva de granizo - no máximo, teria parado para pegá-las e devorá-las com deleite. Se a minha compatriota Marie-Curie Sklodowska nunca tivesse dito a si mesma "não sei", na certa acabaria lecionando química em alguma faculdade particular para mocinhas de boas famílias, e terminaria seus dias cumprindo esse trabalho, de resto perfeitamente respeitável. Mas ela não parou de dizer "não sei", e essas palavras levaram-na, não só uma vez, mas duas, a Estocolmo, onde espíritos inquietos, indagadores, são de tempos em tempos contemplados com o Prêmio Nobel.
Poetas, se autênticos, também devem repetir "não sei". Todo poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas assim que a frase final cai no papel, o poeta começa a hesitar, a se dar conta de que essa resposta particular era puro artifício, absolutamente inadequada. Portanto, os poetas continuam a tentar e, mais cedo ou mais tarde, os resultados da sua insatisfação consigo mesmos são reunidos, e presos num clipe gigante pelos historiadores da literatura, e passam a ser chamados de suas "obras".
Às vezes, sonho com situações que não podem virar realidade. Imagino, por exemplo, que tenho uma chance de trocar umas palavrinhas com o autor do Eclesiastes, aquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Curvo-me profundamente diante dele, pois é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois seguro a sua mão. "Não há nada de novo sob o sol - foi o que você escreveu. Mas você mesmo nasceu novo sob o sol. E o poema que criou é também novo sob o sol, uma vez que ninguém o havia escrito antes de você. E todos os seus leitores são também novos sob o sol - aqueles que viveram antes de você não puderam ler o seu poema. E esse cipreste sob o qual está sentado não cresceu desde o início dos tempos. Nasceu de um outro cipreste semelhante ao seu, mas não exatamente igual.
E, Eclesiastes, eu também gostaria de lhe perguntar que coisa nova sob o sol está agora em seus planos de trabalho. Um suplemento adicional às idéias que já expressou? Ou talvez esteja agora tentado a contradizer algumas delas? Em sua obra inicial, você fez menção à alegria - de que adianta se é fugaz? Então, será que o seu poema novo sob o sol vai falar da alegria? Já tomou notas, fez rascunhos? Duvido que você responda: 'Já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar'. Não existe no mundo nenhum poeta que possa dizer isso, muito menos um grande poeta como você."
O mundo - o que podemos pensar quando estamos apavorados com a sua amplidão e com a nossa própria impotência, ou quando estamos amargurados com a sua indiferença em relação ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e talvez até das plantas (pois por que estamos tão seguros de que as plantas não sentem dor?); o que podemos pensar sobre as suas vastidões penetradas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos? Simplesmente não sabemos; o que podemos pensar sobre este teatro imensurável para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cujo prazo de validade é risivelmente curto, delimitado como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos sobre este mundo - ele é assombroso.
Mas "assombroso" é um epíteto que oculta uma armadilha lógica. Ficamos assombrados, afinal de contas, por coisas que divergem de alguma norma conhecida e universalmente aceita, de um truísmo ao qual nos habituamos. Mas a questão é que não existe esse mundo óbvio. Nosso assombro existe per se e não se baseia numa comparação com outra coisa.
Claro, na fala cotidiana, em que não paramos a todo instante para ponderar cada palavra, todos usamos expressões como "o mundo comum", "vida comum", "o desenrolar comum dos acontecimentos". Mas na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E sobretudo nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo.
Tudo indica que os poetas terão sempre uma tarefa muito árdua à espera."
Claro, na fala cotidiana, em que não paramos a todo instante para ponderar cada palavra, todos usamos expressões como "o mundo comum", "vida comum", "o desenrolar comum dos acontecimentos". Mas na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E sobretudo nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo.
Tudo indica que os poetas terão sempre uma tarefa muito árdua à espera."
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terça-feira, 29 de novembro de 2011
retorno
(13)
O que eu acho que estou querendo agora é tão delicado.
Não sei com quem falar disso.
O que estou querendo é tão delicado.
O delicado problemático. Sem volta.
Entendi que pra chegar tenho que dar outra, outra volta.
Mas não posso, meu corpo bom, trocar de terra mais uma vez.
Vou cair em todas.
Insuficientemente permeável à pele das cidades.
Não reconheço nenhum canto desta sala.
Com quem conversar o descanso?
Metade da vida é faxina. A outra metade?
Regresso do pó. E eu querendo algo
agora tão, tão delicado. De passar o vento.
Ou para sentir
só teria que pousar as mãos no pó
até vê-las brancas, espalmadas como um mar
que se instalasse sobre os móveis
mas um rabo de gato
meu dedo na boca
nervoso.
Estou no raio informe.
Se eu traçar uma circunferência estarei no raio do informe.
Do centro dela apita uma luz que ninguém vê.
Por onde, se mexe: é o que a luz diz.
Aqui também, tudo manda mensagens, significa.
Passou um barco que eu achei bonito.
Ele trazia também duas luzes.
Piscavam querendo dizer numa linguagem que não me comunico.
Mas alguém se comunicaria
com as luzes do barco.
Estou procurando um lugar de mim mesma que seja o campo de mim mesma.
Não preventiva.
Cansei de ser o princípio do cuidado descontrolado.
Estou levando uma maçã pra eu comer mais tarde.
Tão tranqüila cidade.
Passo a mão na água.
Quem dera fazer, dos poemas, sinfonia.
Fina de chiados e sintonizações, quem passasse pudesse ouvir
como gruda o ouvido no rádio, a emancipação
do universo feito de palavra, não encontro. Nem saliva,
só aço. Nem tato, olfato. Os olhos mesmo, perfurados.
Estou dizendo que só viverei naquele
que se enfraquece de ternura, pena carne.
O que eu acho que estou querendo agora é tão delicado.
Não sei com quem falar disso.
O que estou querendo é tão delicado.
O delicado problemático. Sem volta.
Entendi que pra chegar tenho que dar outra, outra volta.
Mas não posso, meu corpo bom, trocar de terra mais uma vez.
Vou cair em todas.
Insuficientemente permeável à pele das cidades.
Não reconheço nenhum canto desta sala.
Com quem conversar o descanso?
Metade da vida é faxina. A outra metade?
Regresso do pó. E eu querendo algo
agora tão, tão delicado. De passar o vento.
Ou para sentir
só teria que pousar as mãos no pó
até vê-las brancas, espalmadas como um mar
que se instalasse sobre os móveis
mas um rabo de gato
meu dedo na boca
nervoso.
Estou no raio informe.
Se eu traçar uma circunferência estarei no raio do informe.
Do centro dela apita uma luz que ninguém vê.
Por onde, se mexe: é o que a luz diz.
Aqui também, tudo manda mensagens, significa.
Passou um barco que eu achei bonito.
Ele trazia também duas luzes.
Piscavam querendo dizer numa linguagem que não me comunico.
Mas alguém se comunicaria
com as luzes do barco.
Estou procurando um lugar de mim mesma que seja o campo de mim mesma.
Não preventiva.
Cansei de ser o princípio do cuidado descontrolado.
Estou levando uma maçã pra eu comer mais tarde.
Tão tranqüila cidade.
Passo a mão na água.
Quem dera fazer, dos poemas, sinfonia.
Fina de chiados e sintonizações, quem passasse pudesse ouvir
como gruda o ouvido no rádio, a emancipação
do universo feito de palavra, não encontro. Nem saliva,
só aço. Nem tato, olfato. Os olhos mesmo, perfurados.
Estou dizendo que só viverei naquele
que se enfraquece de ternura, pena carne.
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poemas do destino do mar
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
ou a interpretação
até um céu muito azul pode ser um pesadelo.
então eu acordei e o dia estava com um céu muito azul.
a coincidência me assimilou.
comecei a me exercitar e, acho mesmo que foi um lado do corpo do exercício, chorei.
chorei por umas duas horas, sem parar.
vim pela rua, chorando.
agora já não estou mais chorando.
talvez eu vá ter uma broca e furar os ares.
então eu acordei e o dia estava com um céu muito azul.
a coincidência me assimilou.
comecei a me exercitar e, acho mesmo que foi um lado do corpo do exercício, chorei.
chorei por umas duas horas, sem parar.
vim pela rua, chorando.
agora já não estou mais chorando.
talvez eu vá ter uma broca e furar os ares.
essa calma que inventei, bem sei
me botavam de volta em um navio pro brasil.
dentro de uma saleta eu jantava comida coreana com meu irmão e minha cunhada.
as madeiras claras estalavam em mim.
eu mandava uma mensagem por celular pro meu namorado/ que não respondia.
na superfície eu pensava que conseguiria voltar pra lisboa.
no fundo eu sabia que demoraria, seria muito difícil. então tudo seria outro/perdido.
então eu estava no banco de trás de um carro e olhava o céu muito azul e pensava
OUTONO
e era o céu do interior do meu país.
dentro de uma saleta eu jantava comida coreana com meu irmão e minha cunhada.
as madeiras claras estalavam em mim.
eu mandava uma mensagem por celular pro meu namorado/ que não respondia.
na superfície eu pensava que conseguiria voltar pra lisboa.
no fundo eu sabia que demoraria, seria muito difícil. então tudo seria outro/perdido.
então eu estava no banco de trás de um carro e olhava o céu muito azul e pensava
OUTONO
e era o céu do interior do meu país.
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caderno público de sonhos
terça-feira, 22 de novembro de 2011
solidão é algo que nunca me faltou.
mas é bem louco, às vezes o jeito de eu me sustentar ao lado dele é começar a escrever poemas pro vento. é. começo a cantar tudo o que está ao meu redor e é claro que isto organiza a minha relação com as coisas ao redor. tipo sábado de manhã eu vou até a varanda e digo pra mim mesma versos que falam da gaivota no teto do vizinho, o carro lá embaixo passa como um rasgo de papel, dois guardadores de carro que brigam pelas coisas mais deles, agarrados em heroína que são. de tão absurdas. o lixo nos contentores.
é como se o vento atravessasse meus lábios em dizer, eu acho muito bonito. também como é puro desperdício, poemas que eu nunca mais vou me lembrar. ao ponto de ter certeza que eles são a dicção exata, é neles que está, justamente, a grande obra que estou escrevendo. vida, vida. é só isso.
no mais, anoiteceu e a gente ainda estava no topo da montanha. foi muita muita emoção real, adrenalina, escuro! e camaradagem mútua, seguramos completamente os riscos, toureamos a noite sem lua e encontramos a saída, com muita sorte e intuição, também. sorte forte de, por exemplo, muitas pedras dos caminhos serem de calcário, isto é, brancas, reluziam mais do que o barro e nos diziam "por aqui".
foi lindo. na hora que chegamos lá embaixo no vale caímos num bosque de pinheiros, muito mais escuro. mas seguimos em frente, em frente, corujas saltavam dos galhos, e nós andávamos, andávamos. quando saímos do bosque chegamos no vale propriamente dito. dito e vasto, um pasto sobre os nossos pés e a noite de muitas estrelas no céu. foi das coisas mais bonitas que já vi na minha vida.
também porque combinada com a sensação de êxito. o problema real era descer a montanha (e não subi-la!), ali no pasto já era certo que chegaríamos ao carro. ao encontrarmos o asfalto demos nele um beijo, não em nós, não, no asfalto mesmo. "feito o papa".
quando eu disse que pra além de sermos peixes cuja água era o mato, nosso caminho era iniciático, ele se derreteu em ternura.
é meu.
mas é bem louco, às vezes o jeito de eu me sustentar ao lado dele é começar a escrever poemas pro vento. é. começo a cantar tudo o que está ao meu redor e é claro que isto organiza a minha relação com as coisas ao redor. tipo sábado de manhã eu vou até a varanda e digo pra mim mesma versos que falam da gaivota no teto do vizinho, o carro lá embaixo passa como um rasgo de papel, dois guardadores de carro que brigam pelas coisas mais deles, agarrados em heroína que são. de tão absurdas. o lixo nos contentores.
é como se o vento atravessasse meus lábios em dizer, eu acho muito bonito. também como é puro desperdício, poemas que eu nunca mais vou me lembrar. ao ponto de ter certeza que eles são a dicção exata, é neles que está, justamente, a grande obra que estou escrevendo. vida, vida. é só isso.
no mais, anoiteceu e a gente ainda estava no topo da montanha. foi muita muita emoção real, adrenalina, escuro! e camaradagem mútua, seguramos completamente os riscos, toureamos a noite sem lua e encontramos a saída, com muita sorte e intuição, também. sorte forte de, por exemplo, muitas pedras dos caminhos serem de calcário, isto é, brancas, reluziam mais do que o barro e nos diziam "por aqui".
foi lindo. na hora que chegamos lá embaixo no vale caímos num bosque de pinheiros, muito mais escuro. mas seguimos em frente, em frente, corujas saltavam dos galhos, e nós andávamos, andávamos. quando saímos do bosque chegamos no vale propriamente dito. dito e vasto, um pasto sobre os nossos pés e a noite de muitas estrelas no céu. foi das coisas mais bonitas que já vi na minha vida.
também porque combinada com a sensação de êxito. o problema real era descer a montanha (e não subi-la!), ali no pasto já era certo que chegaríamos ao carro. ao encontrarmos o asfalto demos nele um beijo, não em nós, não, no asfalto mesmo. "feito o papa".
quando eu disse que pra além de sermos peixes cuja água era o mato, nosso caminho era iniciático, ele se derreteu em ternura.
é meu.
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amor
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
não nos dão o animal que espeta os cornos no destino
e quando falo, a outra palavra para o medo é respiração. sou capaz de adormecer com ele, embalador. desconheço algo mais real. e chorar sempre faz as crianças dormirem bem. e fico por cima do meu peito e instruo a vontade de inspirar conforme o batimento cardíaco. subir montanha, ou seja, tenha que ficar irrigado, ou tranquilo. então eu olhei para o mar e disse: tua umidade não me impressiona, as cavidades do meu corpo contigo dividem a salina memória do futuro. a começar pelo coração.
sou incapaz de assustar o caminho de alguém, mas facilmente vou ferir a fera que vive em ti. posso fazê-lo em sonoridade. dentro do meu toráx vivem canivetes que te assaltam, amor que não me dás. ou sou eu que não sei esconder o pensamento que sobra tanto em mim, é um crânio onde bebem as feras o vinho. que, na verdade, já estive a adormecer sem pensar numa carta em que te explico as coisas que me magoam.
e quando voltamos para a cidade, ela é a que nos resta. e de manhã nos despedimos como se eu fosse atravessar. por mim entre tuas mãos entre as minhas para sempre.
o céu, o mato, tu e eu, tudo pra nos dar coragem. veja, estrelas. e sobre nossos pés, o pasto.
vivo feliz em mangueira porque
das coisas que tive, como todos, e ainda tenho, solidão nunca me faltou.
sou capaz de pular três fogueiras e andar pelo mato inteira, sair contigo.
ver as estrelas mais bonitas - que são as nossas, há de se ter sorte, caminho.
meus poemas ao vento andam
mais convictos do que os de serem em papel
esta travessia. a poesia sempre foi meu jeito de estar
tipo meu sobrinho, tão pequeno, já aprendeu que há um lugar só dele
pra se divertir, escrita de lábios é o que não me faltará.
tenho as mãos cortadas pelo mato e posso dizê-lo.
sou capaz de pular três fogueiras e andar pelo mato inteira, sair contigo.
ver as estrelas mais bonitas - que são as nossas, há de se ter sorte, caminho.
meus poemas ao vento andam
mais convictos do que os de serem em papel
esta travessia. a poesia sempre foi meu jeito de estar
tipo meu sobrinho, tão pequeno, já aprendeu que há um lugar só dele
pra se divertir, escrita de lábios é o que não me faltará.
tenho as mãos cortadas pelo mato e posso dizê-lo.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
meu avô era um ser da floresta-que-sabia-dizer-sim
ando com uma autoconfiança tão generosa que sonhei que me davam 25.000 euros por um livro que ainda não escrevi.
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sexta-feira, 11 de novembro de 2011
eu te anuncio nos sinos das catedrais
e conversar contigo é o conhecimento do que é a clareza
serpentes e dragões amansadas sem aflições. confesso
muitas vezes falamos do tédio, mas sempre mal do medo
e daqueles que se poupam sem errar, nem amar.
não é questão de vertigem. é, mais uma vez, de oceano.
agora no meu peito, o mar que é um peito
aberto sobre o espaço fico
tão presente que precisamos
escapar um pouco que seja
respiração que faz - beijar.
serpentes e dragões amansadas sem aflições. confesso
muitas vezes falamos do tédio, mas sempre mal do medo
e daqueles que se poupam sem errar, nem amar.
não é questão de vertigem. é, mais uma vez, de oceano.
agora no meu peito, o mar que é um peito
aberto sobre o espaço fico
tão presente que precisamos
escapar um pouco que seja
respiração que faz - beijar.
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amor
XII
Temendo deste agosto o fogo e o vento
Caminho junto às cercas, cuidadosa
Na tarde de queimadas, tarde cega.
Há um velho mourão enegrecido de queimadas antigas.
E ali reencontro o louco:
-Temendo os teus limites, Samsara esvaecida?
Por que não deixas o fogo onividente
Lamber o corpo e a escrita? E por que não arder
Casando o Onisciente à tua vida?
[Hilda Hilst]
e eu sempre lia o primeiro verso, faz anos como "Temendo desDe agosto". e agora copiar disse-me outro.
Temendo deste agosto o fogo e o vento
Caminho junto às cercas, cuidadosa
Na tarde de queimadas, tarde cega.
Há um velho mourão enegrecido de queimadas antigas.
E ali reencontro o louco:
-Temendo os teus limites, Samsara esvaecida?
Por que não deixas o fogo onividente
Lamber o corpo e a escrita? E por que não arder
Casando o Onisciente à tua vida?
[Hilda Hilst]
e eu sempre lia o primeiro verso, faz anos como "Temendo desDe agosto". e agora copiar disse-me outro.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
somewhere over the rainbow
sinto sono. hoje troquei de conta. alucinei no caderno embaixo do ar condicionado. escapei de três frechas de sol. quatro moicanos no meu peito. fiz um moicano no cabelo da minha sobrinha de dois meses ela babava e me dizia com os olhos: o segredo do universo, titia, é que somos todos umas larvas que babam. é tão impressionante, não nascemos arbustos. no entanto temos caracóis, HÁ CARACÓIS. quando a próxima primavera voltar, mas agora eu estou rumo ao outono. e com a minha capa de super-herói nas costas, que na verdade é a minha manta de beber chá, ando vendo meu reflexo pelas paredes das rochas de encostas das estradas. quando é lua, olho para ela e penso "tão antiga, a lua. és tão antiga". e quando olho duas vezes logo exclamo
meu pai é um anjo
o corvo que atravessa pelo átrio a igreja
e dou risada do verme que vive em todos nós. e racha as portas com seus dedos.
no mais, viro bicho. que são uns bicho mais mato que o mato.
meu pai é um anjo
o corvo que atravessa pelo átrio a igreja
e dou risada do verme que vive em todos nós. e racha as portas com seus dedos.
no mais, viro bicho. que são uns bicho mais mato que o mato.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
verdade
sonhei que meu peito era o mar azul
onde meu sobrinho, o Leon, colocava barcos de papel brancos
a navegar.
onde meu sobrinho, o Leon, colocava barcos de papel brancos
a navegar.
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caderno público de sonhos
domingo, 30 de outubro de 2011
a linha rosa
dia de finados termina meu compromisso
aquela mesa quadrada em que bolamos
saturno e eu - como num jogo de xadrez-
como me fazer parar. um pouco antes de começar sou capaz de inventar pausas
que adiam um beijo,
a massa de carne presa no prato pelo molho de tomate,
mas nunca é só uma pia de pratos
e ontem percebi que era possível trocar a palavra
"espécie" por "vida". quando noto uma coisa assim
tão fundamental, é um ponto pra baixo que escorre
e arma um travessão: imagino um bastão de ferro
correndo uma corrosão, mancha firme que avança
sem nunca tocar na menina que está debaixo da mesa
assistindo tudo, em dúvida se está triste ou acuada
a menina não sou eu. é só alguém que eu vejo,
de roxo. lembro de quando eu era pequena e me sentava embaixo da mesa que era a máquina astral de viagem. era sempre pra saturno que eu ia. e mesmo agora, ele ainda me visita pela lateral. eu que abria portas de metal dos anos 80 para saturno, eu que colava chicletes roxos nos parafusos e hoje digo para os amigos "que vida mais profunda a da sua descoberta". ele chegará para mim, mais tarde.
de quanta delicadeza essa mulher é capaz?
caetano bobinho
She has given her soul to the devil but the devil gave his soul to God
deveria ser
She has given her soul to the devil but the devil gave *her* soul to God
deveria ser
She has given her soul to the devil but the devil gave *her* soul to God
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papai me levava para escola cantando
versinhos ligeiros
pela janela do banheiro
o chuveiro ligado
não sei se chovia
fora ou dentro
mas o mundo todo
era meu apartamento
AGORA UM POEMA PARA O MEU PAI
o chuveiro ligado
não sei se chovia
fora ou dentro
mas o mundo todo
era meu apartamento
AGORA UM POEMA PARA O MEU PAI
para o meu pai
a poeta subiu o monte
olhou para os lados
e se viu rodeada
por capins.
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clap clap clap
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
tanta
fragmentação. se o destino é dispêndio, deflagração
como as coisas todas não se soltam umas das outras? e viajam, nulas, por aí?
se toda vez que eu me perco o sangue
envia de mim para outros restos
e o meu rosto por mais nítido alguém veja
se move na dimensão do teu esquecimento?
ou o motivo é sempre diverso do que concebo
e todo sentido é no futuro catacumba
como não perder a voz no teu silêncio.
ou não ligar. e te deixar dormir
do meu lado sempre e depois?
e se me odeiam, que que eu vou fazer?
fragmentação. se o destino é dispêndio, deflagração
como as coisas todas não se soltam umas das outras? e viajam, nulas, por aí?
se toda vez que eu me perco o sangue
envia de mim para outros restos
e o meu rosto por mais nítido alguém veja
se move na dimensão do teu esquecimento?
ou o motivo é sempre diverso do que concebo
e todo sentido é no futuro catacumba
como não perder a voz no teu silêncio.
ou não ligar. e te deixar dormir
do meu lado sempre e depois?
e se me odeiam, que que eu vou fazer?
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
hoje acordei bem cedo e não me deixei acordar
resolvi deitar mais um pouco, e menos frouxo, o sono ficar
depois li camões, e tenho a impressão de que nenhuma poesia me toca
(hoje, também ontem, antes de ontem)
engraçado. porque o clima das árvores já começo a sentir, o vento
em mim, sem ser comigo
deixo ele ser estar, teu coração também, quando quiser se aproximar
é o meu
amor
vou citar Luís:
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mla, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e doi não sei porquê.
resolvi deitar mais um pouco, e menos frouxo, o sono ficar
depois li camões, e tenho a impressão de que nenhuma poesia me toca
(hoje, também ontem, antes de ontem)
engraçado. porque o clima das árvores já começo a sentir, o vento
em mim, sem ser comigo
deixo ele ser estar, teu coração também, quando quiser se aproximar
é o meu
amor
vou citar Luís:
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mla, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e doi não sei porquê.
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quinta-feira, 13 de outubro de 2011
em algum lugar do céu estou composta
- e me comovem as canções de falam de suicídio. afinal, elas são capazes, no recesso do ato, no seu fazer, no seu ouvir, capazes de na sua negação do ato, cometerem o ouvir do caminho
e essa brisa que nos faz
promessas frescas de viagem
meu corpo se expande tanto que há uma gotícula de dor em cada extremo
se sou um fluxo de músculos e órgãos sensóreos
quando o computador fica tanto tempo comigo
creio que posso dizer
mamãe, sou um nervo aberto
e imagino um dente todo gritante
disparatado
não houve mordida que não pudesse ser amarrada com prejuízo da mandíbula
às vezes me pergunto se viver é uma questão de poupar ou de gastar
e se há armadilha, saída,
ou se é tudo vertigem, olho no olho, imensidão
vejo assim
e alguém, não se sabe bem de onde, talvez alguém sem pátria
dizia: e a ti? te interessa? te interessa viver?
promessas frescas de viagem
meu corpo se expande tanto que há uma gotícula de dor em cada extremo
se sou um fluxo de músculos e órgãos sensóreos
quando o computador fica tanto tempo comigo
creio que posso dizer
mamãe, sou um nervo aberto
e imagino um dente todo gritante
disparatado
não houve mordida que não pudesse ser amarrada com prejuízo da mandíbula
às vezes me pergunto se viver é uma questão de poupar ou de gastar
e se há armadilha, saída,
ou se é tudo vertigem, olho no olho, imensidão
vejo assim
e alguém, não se sabe bem de onde, talvez alguém sem pátria
dizia: e a ti? te interessa? te interessa viver?
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
don Octavio
Para los antiguos, el prestigio del pasado era el de la edad de oro, el edén nativo que un día abandonamos; para los modernos, el futuro fue el lugar de elección, la tierra prometida. (...) Creo que la nueva estrella -esa que aún no despunta em el horizonte histórico pero que se anuncia ya de muchas maneras indirectas - será del ahora. Los hombres tendrán muy pronto que edificar una Moral, una Política, una Erótica y una Poética del tiempo presente. El camino hacia el presente pasa por el cuerpo pero no debe ni puede confundirse con ele hedonismo mecánico y promiscuo de las sociedades modernas de Occidente. El presente es el fruto en el que la vida y la muerta se funden.
(...)
Alguna vez llamé a la poesía de este tiempo que comienza: arte de la convergencia. Así la opuse a la tradicion de la ruptura: "Los poetas de la edad moderna buscaron el principio del cambio; los poetas de la edad que comienza buscamos ese principio invariante que es el fundamento de los cambios. Nos preguntamos si no hay algo de común entre la Odisea y À la recherche du temps perdu. La estética del cambio acentuó el carácter histórico del poema; ahora nos perguntamos, ¿no hay un punto en el que el principio del cambio se confunde con el de la permanencia?... La poesía que comienza en este fin de siglo - no comienza realmente ni tampoco vuelve al punto de partida: es un perpetuo recomienzo y un continuo regreso. La poesía que comienza ahora, sin comenzar, busca la interseción de los tiempos, el punto de convergencia. Dice que entre el pasado abigarrado y el futuro deshabitado, la poesía es el presente". Escribí estas frases hace quince años. Hoy añadiría: el presente se manifiesta en la presencia y la presencia es la reconciliación de los tres tiempos. Poesía de la reconciliación: la imaginación encarnada en un ahora sin fechas.
México, a 12 de agosto de 1986.
Octavio Paz, "Poesía y modernidad", In: La otra voz: Poesía y fin de siglo.
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segunda-feira, 10 de outubro de 2011
qualquer
sonhei que um grande catavento desses eólicos de criar energia com o girar do seu deslocamento cortava os galhos dos pinheiros em redor. eu via de dentro de uma casa, por uma grande janela de vidro.
havia algo de mais errado no gesto, e por dentro da casa alguém fazia sexo.
havia algo de mais errado no gesto, e por dentro da casa alguém fazia sexo.
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domingo, 9 de outubro de 2011
perdi o medo da chuva
hoje aqui chove sutilmente. e eu penso em ir à livraria. comprar uma revista com meu nome dentro. é curiosa a força que as coisas têm quando acontecem: parecem aparição visualizada pelos poros, isto é: realidade. portos atracando. potros ancorando nas hastes do lado do grande rio.
me parece que li tanto ana neste último mês que estou precisando de um banho completo de ervas com sal, limão, virgem verso, vertigem. viva! o que em nós vigia saída.
quero escrever um grande beijo para o meu namorado (viver), mas tenho aprendido com o tempo que amar é tempo. uma história bonita como outra qualquer. silêncio.
é um típico domingo paulistano, chove. são tantas as pessoas na cidade que eu não sei bem por onde começar. ou quando não sei se o que me atualiza melhor (é sempre uma necessidade da pureza, a atualização - ou que nos próximos 6 meses investir numa fábula com margens composta entre 80 e 120 páginas? -) é a solidão ou a companhia, estudo ou escrita.
sábado, 8 de outubro de 2011
meu amor
I knew I was in danger. let me love your books, again. my old dark blue book over my jeans. someone stole my jeans. I was in L.A. and it was time to give. you were there to wish a star. don't worry. há tantos modos de se tirar um 3/4. e mostro um mesmo par de fotos como quem viu e encontrou. sempre o gigantismo do atlântico consolida-se nos meus gestos. fico sentindo a salsugem da poeira da estrada
a poeira da estrada que faz da salsugem seu souvenir
ashes for ashes, clothes for boys, devia ser hora de dormir, mas eu precisava escrever.
comprei um caderno com pauta. não usarei. infringi uma regra de ouro do meu conhecimento
pautas
achei engraçado, vir para o brasil com pautas.
2a feira já levo meu sobrinho no cinema. é a pauta mais importante, a da infância. vivê-la por todos os lados. imagino que você concorda com isto. e como não pude escrever no meu caderno porque ele agora tem pautas, vim falar alguma coisa por aqui
o que é sempre um perigo, porque me faz dizer menos, ou com menos palavras, ou com menos nomes, ou com os acontecimentos transformados em escrita mais distanciada ainda da vivência do que de uma tentativa de relato,
este blogue está se fazendo entre a experiência e a experiência da experiência. numa gaiola perto (sempre de portas abertas, a escrita). eu que descobri que escrever e ler não são a mesma coisa, não adianta. não adianta.
agora digredi pensando
pensando que talvez a experiência da idade média, de uma cópia de manuscrito, como fala o zumthor
(então pensei umas quatro coisas que não tenho vontade de explicar, até mesmo porque teria que defini-las)
e comecei a escrever:
me joga para o presente.
me joga para o presente.
me joga para o presente.
me joga para o presente.
me joga para o presente.
rapadura é doce mas não é mole
"Inscrever um texto, qualquer que seja, comporta duas operações: recolhê-lo sobre tabuinhas de cera (às vezes resumido, quando não em notas tironianas, taquigrafia de origem antiga); em seguida, passá-lo a limpo sobre o pergaminho. De vários letrados do século XII, como os teólogos Cîteaux ou Pedro, o Venerável, sabemos que compunham de memória suas obras e as ditavam a um secretário, o autor retomava e corrigia esse rascunho. Também ocorria fazer sozinho o primeiro trabalho e inscrever diretamente, pronunciando-o em voz alta, o texto sobre as tabuinhas. À mesma época, é provável que os escritores de língua vulgar, como por exemplo nossos primeiros romancistas, tenham usado esses procedimentos. Uma pintura do chansonnier N (da Pierpont Library, em Nova York), executada em meados do século XIV, representa um trovador anotando (com evidente dificuldade) sua canção sobre uma longa folha solta. Tais procedimentos, aliás, explicam a extrema raridade dos manuscritos autógrafos: nenhum em latim antes do século XI, nem em francês antes de meados do século XIV. O vocabulário que designa a operação de escrever provém, em vernáculo, diretamente do latim, o que parece mesmo implicar a identidade dos métodos: dictare, dictitare (até mesmo legere) de um lado, scribere de outro lado. Dictare refere-se ao que se percebe como a origem do texto; daí o substantivo dictamen, designando a arte da composição; daí a metáfora do Deus Dictator, enunciador de sua Criação; daí o francês dictier, remetendo à obra poética acabada, e o alemão Dichtung, "poesia". Scribere exige um esforço muscular considerável: dos dedos, do punho, da vista, das costas; o corpo inteiro participa, até a língua, pois tudo parece pronunciar-se. No inverno, o frio imobiliza os dedos, e pode-se temer o congelamento da tinta. Orderic Vital prefere esperar a primavera para recopiar as tabuinhas apressadamente rabiscadas em dezembro. Escrever exige infinita paciência: o trabalho de cópia se estende por meses, por um, dois anos. Depois de ter traçado a última linha, muitas vezes o escriba dá largas a seu alívio e sua alegria: compara-se ao marinho que enfim volta ao porto; ou então exige vinho, uma jovem virgem, até uma "gorda puta"! Wattenbach, antigamente, coligiu tais confidências, às vezes rabiscadas nas margens. Ainda por volta de 1400, em todo o Ocidente, a prática da escritura continuava, apesar de algumas inovações (como o uso do papel), escrava de sua tecnicidade e de seu elitismo; era só debilmente capaz de influenciar de maneira direta o comportamento ou o pensamento dos poetas, e influenciava menos ainda a expectativa de seu público."
[Paul Zumthor, A letra e a voz: A "literatura" medieval, p.100-101].
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sexta-feira, 7 de outubro de 2011
gate 11
nem tanto ao mar nem tanto à terra
agora tanto na vinda como na volta
monstro atlântico, alegre
ai que minha simplicidade é uma multidão
lagriminhas no raio-x.
agora tanto na vinda como na volta
monstro atlântico, alegre
ai que minha simplicidade é uma multidão
lagriminhas no raio-x.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
terça-feira, 27 de setembro de 2011
aviso
já notei que não é um terremoto, mas estarão testando bombas do outro lado da margem do rio? ou vão demolindo um edifício? serão turistas ensaiando, finalmente, o ataque? - porém pior do que as lufadas de fumaça que invadem esta janela é mesmo a sanfona tocando os mesmos três acordes para moedas raras de turistas muitos e na qual éramos capazes de testar bombas ou edifícios por cima,
- ou é sempre melhor não testar meu senso de destruição - .
- ou é sempre melhor não testar meu senso de destruição - .
estiolamento
n substantivo masculino
1 Rubrica: botânica.
desenvolvimento anormal dos vegetais causado pela ausência de luz, ger. caracterizado pelo descoramento e definhamento dos tecidos; ensoamento
2 Rubrica: fitopatologia.
designação comum a diversas doenças das plantas, causadas pela falta de luz e/ou excesso de umidade, que favorece a proliferação de fungos
3 Rubrica: fisiologia.
debilitação e descoramento sofridos por um indivíduo desprovido de luz e ar puro suficientes
4 Derivação: por extensão de sentido, sentido figurado.
fraqueza, definhamento
1 Rubrica: botânica.
desenvolvimento anormal dos vegetais causado pela ausência de luz, ger. caracterizado pelo descoramento e definhamento dos tecidos; ensoamento
2 Rubrica: fitopatologia.
designação comum a diversas doenças das plantas, causadas pela falta de luz e/ou excesso de umidade, que favorece a proliferação de fungos
3 Rubrica: fisiologia.
debilitação e descoramento sofridos por um indivíduo desprovido de luz e ar puro suficientes
4 Derivação: por extensão de sentido, sentido figurado.
fraqueza, definhamento
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houaiss um dos instrumentos sem os quais
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
não sei o que quer dizer estiolar mas vou descobrir de tanto ler
"O coração já não pode mais. Entre os bichos e as plantas, acontece-lhe dizer: Que fertilidade!- e a vida corrompe-se nos próprios fundamentos. Sente-se como um apóstolo sem fé. Desejaria morrer, arder no fogo apocalíptico das cidades. Ou ser devorado pela inteligência, estiolar de excessiva lucidez no meio da loucura campestre. Tradição, compreende uma: ama-a. Perdeu o nome, essa sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo sútil que participa de uma e outra, que se tornou inútil, insensato."
[Herberto Helder, em algum lugar d'Os passos em volta.]
já citei este trecho em todos os blogues que tenho/tive/terei.
[Herberto Helder, em algum lugar d'Os passos em volta.]
já citei este trecho em todos os blogues que tenho/tive/terei.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
eu que estou aqui há tanto tempo
desperto do sofá quando vejo passar no tejo
depois de muito -segundos- olhar o teto
navio cargueiro amarelo
onde está escrito
republica del brasile
como esto, si, tipo bananeré embananado
meu brasil violeiro no caminho da descida
do princípe real, que vai dar na minha vida
(lá decidi ficar de vez numa tarde de setembro
três anos atrás)
descubro uma saída
porque percebo que o brasil mora onde reside
minha vida, o brasil, meu bem, é meu coração
que então atravessa o tejo dizendo em italiano
republica, brasile, como se comessem
meu riso como massa, pesto, fusile
sim, vazio do intermezzo
não fuzile meu coração
que nele está pronto
está a postos está vidrado
o brasil, por antecipação.
este medo não é saliva, instinto, é simbolização.
e se a simbolização for uma instituição?
picote a linha abaixo os créditos.
aqui a luz já se inclinou.
desperto do sofá quando vejo passar no tejo
depois de muito -segundos- olhar o teto
navio cargueiro amarelo
onde está escrito
republica del brasile
como esto, si, tipo bananeré embananado
meu brasil violeiro no caminho da descida
do princípe real, que vai dar na minha vida
(lá decidi ficar de vez numa tarde de setembro
três anos atrás)
descubro uma saída
porque percebo que o brasil mora onde reside
minha vida, o brasil, meu bem, é meu coração
que então atravessa o tejo dizendo em italiano
republica, brasile, como se comessem
meu riso como massa, pesto, fusile
sim, vazio do intermezzo
não fuzile meu coração
que nele está pronto
está a postos está vidrado
o brasil, por antecipação.
este medo não é saliva, instinto, é simbolização.
e se a simbolização for uma instituição?
picote a linha abaixo os créditos.
aqui a luz já se inclinou.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
hoje há uma amizade que sobe do fundo da galeria, deusa
desfaz a geleira de coração
embrigado - o contrário do afogamento.
eu quero controlar os teus laços. a tranquilidade dos meus sonhos noturnos
tranquiliza meus passos de caminho, largo. às vezes me sinto um elefante
mas é em mim mesma. tudo que é possível. é em mim mesma.
ainda bem que ela retorna, lenta. ainda bem.
hoje estou nítida como se errasse em tudo. precisando de silêncio, produção.
desfaz a geleira de coração
embrigado - o contrário do afogamento.
eu quero controlar os teus laços. a tranquilidade dos meus sonhos noturnos
tranquiliza meus passos de caminho, largo. às vezes me sinto um elefante
mas é em mim mesma. tudo que é possível. é em mim mesma.
ainda bem que ela retorna, lenta. ainda bem.
hoje estou nítida como se errasse em tudo. precisando de silêncio, produção.
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