"ninguém foge da minha raia", diz a menina batendo os pézinhos de pato.
e quando falei em "mas não vamos ter medo",
o que eu quero pra 2012? calma
no descontrole.
ou como m.a. me disse:
"em vê:
olhos que vêem, que somente vêem
olhos que semeiam
(o visto em vida)
é isso índia, no farejo do fruto
vamos
mas que os próprios olhos sejam
frutos
negros
nada adivinhando
vendo porque vivendo"
sábado, 31 de dezembro de 2011
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
quase vinte e oito
Horizonte de uma seriedade.
Eu querendo sonhar com a história – quanta pretensão, pelo menos quanta pretensão fazê-lo sem sofrimento.
Dois dias depois ele me disse ESTOU DE LUTO e preciso mudar de país.
Dois dias depois dos dois dias depois é Natal.
Aquele choro na vovó. Digo Amém ao telefone.
Dois dias depois dos quatro dias depois dobro a esquina da minha casa que fica de frente para a baía – que eu quis ter – viro a esquina pensando “o corpo este inimigo”.
O horizonte de uma seriedade é que a última vez que eu pensei isto eu mudei de país.
Eu quis ter a minha janela para a baía e tenho.
Sonho que cago nas calças do uniforme e todo mundo vê. Sonho que apanho um comboio e encontro uma pessoa muito chata dos tempos antigos em que usávamos uniformes. Que troco de comboio e ele me leva para o lugar errado.
Tudo fica azul escuro e eu só consigo prestar atenção em como os feixes de músculos no meu corpo me controlam. Escrevo um poema para a minha mãe.
A mulher na casa de fotocópias entra reclamando do filho, que teve horas em parto, vestido de azul o recém-nascido colado ao peito, ela diz em tempos de crise só um filho é muito em tempos de crise um filho é muito em tempos de crise.
Nasceu no inverno.
Um mês antes do que eu, que nasci no verão.
Eu querendo sonhar com a história – quanta pretensão, pelo menos quanta pretensão fazê-lo sem sofrimento.
Dois dias depois ele me disse ESTOU DE LUTO e preciso mudar de país.
Dois dias depois dos dois dias depois é Natal.
Aquele choro na vovó. Digo Amém ao telefone.
Dois dias depois dos quatro dias depois dobro a esquina da minha casa que fica de frente para a baía – que eu quis ter – viro a esquina pensando “o corpo este inimigo”.
O horizonte de uma seriedade é que a última vez que eu pensei isto eu mudei de país.
Eu quis ter a minha janela para a baía e tenho.
Sonho que cago nas calças do uniforme e todo mundo vê. Sonho que apanho um comboio e encontro uma pessoa muito chata dos tempos antigos em que usávamos uniformes. Que troco de comboio e ele me leva para o lugar errado.
Tudo fica azul escuro e eu só consigo prestar atenção em como os feixes de músculos no meu corpo me controlam. Escrevo um poema para a minha mãe.
A mulher na casa de fotocópias entra reclamando do filho, que teve horas em parto, vestido de azul o recém-nascido colado ao peito, ela diz em tempos de crise só um filho é muito em tempos de crise um filho é muito em tempos de crise.
Nasceu no inverno.
Um mês antes do que eu, que nasci no verão.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
gente fina, elegante e sincera
a palavra com a qual eu termino o ano é: abdicar.
desde que cheguei aqui Portugal me ensina, em muitos sentidos, a abdicar.
digo isso porque aprendi que há certos ritmos de silêncio entre as pessoas que criam vínculos entre elas. guardar a intimidade muitas vezes é criá-la. digo isso porque abdiquei de muita gente, muitas vezes. do amor. de ter. de gastar. viver com menos. digo isso pra mim mesma, não vou me explicar de novo que Portugal me ensina a abdicar. talvez até dele mesmo, o cabrão.
abdicar
n verbo
regência múltipla
1 renunciar por vontade própria (a poder soberano ou autoridade suprema)
Ex.:
transitivo direto, transitivo indireto e pronominal
2 renunciar ou desistir de; privar(-se)
Ex.:
nesta última semana o primeiro ministro daqui disse pros professores migrarem pr'outros países da nossa língua, nomeadamente, angola e brasil.
a manchete do principal jornal na manhã do dia 24 de dezembro deste ano que ainda corre era - quando eu abri a internet pra ver - 75% do subsídio desemprego será cortado no ano que vem.
a galera vai passar fome, já está. não tô de exagero. não.
abdicar.
não precisava ser assim, mundo. não precisava não.
desde que cheguei aqui Portugal me ensina, em muitos sentidos, a abdicar.
digo isso porque aprendi que há certos ritmos de silêncio entre as pessoas que criam vínculos entre elas. guardar a intimidade muitas vezes é criá-la. digo isso porque abdiquei de muita gente, muitas vezes. do amor. de ter. de gastar. viver com menos. digo isso pra mim mesma, não vou me explicar de novo que Portugal me ensina a abdicar. talvez até dele mesmo, o cabrão.
abdicar
n verbo
regência múltipla
1 renunciar por vontade própria (a poder soberano ou autoridade suprema)
Ex.:
transitivo direto, transitivo indireto e pronominal
2 renunciar ou desistir de; privar(-se)
Ex.:
nesta última semana o primeiro ministro daqui disse pros professores migrarem pr'outros países da nossa língua, nomeadamente, angola e brasil.
a manchete do principal jornal na manhã do dia 24 de dezembro deste ano que ainda corre era - quando eu abri a internet pra ver - 75% do subsídio desemprego será cortado no ano que vem.
a galera vai passar fome, já está. não tô de exagero. não.
abdicar.
não precisava ser assim, mundo. não precisava não.
há a memória, amém
vou bebendo chá de tília
enquanto a europa não acaba.
na casa do meu namorado fica rosa.
eu olho bem pra quela cor quase acintosa de prazer e penso: hm proust hmmmm sei sei
sei.
não percebo
porque agora sozinha
aqui é só amarelado.
acho que é o nosso amor.
enquanto a europa não acaba.
na casa do meu namorado fica rosa.
eu olho bem pra quela cor quase acintosa de prazer e penso: hm proust hmmmm sei sei
sei.
não percebo
porque agora sozinha
aqui é só amarelado.
acho que é o nosso amor.
domingo, 25 de dezembro de 2011
2012
vamos fazer um caminho mais curto em direção ao fim do mundo
desta vez
ou não
vai ser impossível observar os flamingos
que ali, de tão parados
provavelmente são de plástico.
por aqui os chineses andaram comprando as coisas da terra daqui.
que não é chinesa.
nem nunca será.
neste momento considerei a possibilidade de ter acima cometido uma profecia, porém errada.
será caso notável no dia dos olhos de alguém, muito futuros, e tão murchos quanto os nossos, conforme os anos passam, olhando as coisas que mudam e as coisas que não mudam, repararem no delicado equívoco da inocência que todos temos, por estarmos todos em nós procriados o nosso tempo.
e seguiremos ouvindo mercedes sosa.
herberto helder escreveu:
"E sempre assim, sempre: cidades inexplicáveis onde se tem medo. Prados para vacas, não para um poeta di-la-ce-ra-do por uma tormentosa inocência".
a minha tormentosa inocência, no fim de todos os anos sabe que é melhor avantajar o bem dos possíveis, do que os nãos, incabíveis.
- já tenho idade pra saber que os anos se passarem aos cavalares, alternam em nós as posições de: cavaleiro, corda do poste para amarrar o cavalo, cavalo em si, estrebaria, pista de corrida, feno feno e pasto.
este ano assisti fritzcarraldo, do herzog, com meu pai em são paulo e, vocês sabem, que no fundo meu intento é ser ele.
se você recebeu este meu sinal de mensagem, é porque te amo. assim, fim do ano é aquele momento em que nos deixamos ser vulneráveis e me deixa dizer que te amo, beibe. isto tudo vem bem a propósito. ser mais inteirão. e se eu te amo, é porque eu espero que o ano que vem te seja impossível.
enquanto por aqui seguirei do meu traço, o rastejado.
e conto com vocês para tirarmos todas as botas que nos pisam de cima, pelos lados.
o peito ao acordar: aberto.
quem sabe dar uns gritos, ir ao campo e encontrar resistência na fuligem.
fogueiras. e amores-ímãs,
onde, nos resta saber em que lado é que as peças se encaixam.
para o ano que vem sonho:
corpo de gato, nave de platina.
um mundo menos supérfulo e mais gratuito.
ar aberto
mar floresta
montanha sobre montanha
uma violência cômica.
tudo do seu tamanho.
e alternativas.
sinceramente,
beijos muitos,
júlia.
desta vez
ou não
vai ser impossível observar os flamingos
que ali, de tão parados
provavelmente são de plástico.
por aqui os chineses andaram comprando as coisas da terra daqui.
que não é chinesa.
nem nunca será.
neste momento considerei a possibilidade de ter acima cometido uma profecia, porém errada.
será caso notável no dia dos olhos de alguém, muito futuros, e tão murchos quanto os nossos, conforme os anos passam, olhando as coisas que mudam e as coisas que não mudam, repararem no delicado equívoco da inocência que todos temos, por estarmos todos em nós procriados o nosso tempo.
e seguiremos ouvindo mercedes sosa.
herberto helder escreveu:
"E sempre assim, sempre: cidades inexplicáveis onde se tem medo. Prados para vacas, não para um poeta di-la-ce-ra-do por uma tormentosa inocência".
a minha tormentosa inocência, no fim de todos os anos sabe que é melhor avantajar o bem dos possíveis, do que os nãos, incabíveis.
- já tenho idade pra saber que os anos se passarem aos cavalares, alternam em nós as posições de: cavaleiro, corda do poste para amarrar o cavalo, cavalo em si, estrebaria, pista de corrida, feno feno e pasto.
este ano assisti fritzcarraldo, do herzog, com meu pai em são paulo e, vocês sabem, que no fundo meu intento é ser ele.
se você recebeu este meu sinal de mensagem, é porque te amo. assim, fim do ano é aquele momento em que nos deixamos ser vulneráveis e me deixa dizer que te amo, beibe. isto tudo vem bem a propósito. ser mais inteirão. e se eu te amo, é porque eu espero que o ano que vem te seja impossível.
enquanto por aqui seguirei do meu traço, o rastejado.
e conto com vocês para tirarmos todas as botas que nos pisam de cima, pelos lados.
o peito ao acordar: aberto.
quem sabe dar uns gritos, ir ao campo e encontrar resistência na fuligem.
fogueiras. e amores-ímãs,
onde, nos resta saber em que lado é que as peças se encaixam.
para o ano que vem sonho:
corpo de gato, nave de platina.
um mundo menos supérfulo e mais gratuito.
ar aberto
mar floresta
montanha sobre montanha
uma violência cômica.
tudo do seu tamanho.
e alternativas.
sinceramente,
beijos muitos,
júlia.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
rinite sinusite e outras otites
estou densa pela testa
que me avance e meça
quanto frio é para um cavalo enfrentar o frio de dentes
é preciso ter muitas faces
uma primeira arreganhada
ser só tendões: ele me disse: que gostava de ter limites
e quando o vento batia muito forte
sacolejava pelo pescoço
até soltar do nariz
saburra, sem nojo,
meu frio no chão da rua, verniz
que me avance e meça
quanto frio é para um cavalo enfrentar o frio de dentes
é preciso ter muitas faces
uma primeira arreganhada
ser só tendões: ele me disse: que gostava de ter limites
e quando o vento batia muito forte
sacolejava pelo pescoço
até soltar do nariz
saburra, sem nojo,
meu frio no chão da rua, verniz
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
perigo prático
ele me liga e pede pra que eu veja no google uma coisa que descubro que aconteceu em Himmelpfortgrund.
já terminei a carta pro fedelho. pratico pilates depois de um dia todo na frente do computador e dos livros. amanhã vou copiar um trecho de cada texto e comentá-los. assim começará o meu dia. vou ficando uma pessoa tão prática, um dia as coisas práticas ainda vão tanto me comer que vou escrever a lista de supermercado de amanhã aqui:
*limpa tudo
*carne
*courgete ou gourgete (abobrinha)
*arroz para risoto
*
antes mudei a casa toda de lugar. o varal ainda tá no corredor. minha toalha lambeu o pó quando ele sem querer se dobrou. deixei lá. tudo jogado. no fim de semana ele me mostrou como é que gosta da toalha pendurada. reli tudinho que tinha quê. amanhã tem também o capítulo sobre o futuro. e quando resolvo me deitar levo a era dos extremos - o breve século xx 1914-1991 pro redor da minha cabeceira, pra ler antes de dormir. acho que quando alguém considera leitura prévia do sono a história do século xx - - - algo inominável que eu ia dizer aqui - embora nem sempre ande considerando o sono aquela onda fácil - - não sei onde vai é que vai dar o relaxamento, ô vem cá, meu perigo. atroz,
pensei numa exposição que revelasse todos os negativos
lado a lado cabeça a cabeça os últimos rolos da minha vida
mas daqui uns quatro anos
ou mais ou menos.
lado a lado cabeça a cabeça os últimos rolos da minha vida
mas daqui uns quatro anos
ou mais ou menos.
pedem de mim definições: é a poesia moderna.
quem me chama de casa sou eu mesma. neste frio alucinatório.
o amor vai bem, obrigada. ontem assistimos fanny och alexander.
passei o dia todo de hoje vendo o filme nas minhas retinas leitoras.
ele estava com a pressa de quem está com frio. eu com o trabalho de quem tem prazos.
sou incapaz de tantas coisas. mas desta não sou.
meu sangue latinu-u u uuu.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
da série: relatos de um dia útil
tirar o som do computador
passar pelas caixas do corpo
entre os fios que se amarram nas pernas da mesa
encontrar a boneca do tamanho de um dedo
que meus pais me deram de um museu californiano
ou chileno - convidaram meu pai para ir a kyoto
mas ele disse que não, que eram muitos papéis
ontem ouvi 4 discos do zeca afonso em seguido
e quando encontrei a boneca por dentro dos fios
a boneca branca que parece que é grega
de tanto que me olha a boneca branca
me acalma, como a música do zeca que tocava
naquela hora que já era hoje
e eu já tinha ido ao supermercado
continuava sentando na cadeira torta
arredia a qualquer espécie de obrigação
mas agora com a boneca de volta
em cima da mesa
eu com a coluna torta
o zeca no último acorde
passar pelas caixas do corpo
entre os fios que se amarram nas pernas da mesa
encontrar a boneca do tamanho de um dedo
que meus pais me deram de um museu californiano
ou chileno - convidaram meu pai para ir a kyoto
mas ele disse que não, que eram muitos papéis
ontem ouvi 4 discos do zeca afonso em seguido
e quando encontrei a boneca por dentro dos fios
a boneca branca que parece que é grega
de tanto que me olha a boneca branca
me acalma, como a música do zeca que tocava
naquela hora que já era hoje
e eu já tinha ido ao supermercado
continuava sentando na cadeira torta
arredia a qualquer espécie de obrigação
mas agora com a boneca de volta
em cima da mesa
eu com a coluna torta
o zeca no último acorde
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
cavalos cavalos entre os nossos reparte
"O sentimento de profundo bem-estar que a árvore sente subir das raízes, o prazer de saber que não se é um ser puramente arbitrário e fortuito, mas que se vem de um passado de que é herdeiro, flor e fruto, e que por este motivo se está justificado do que se é, a isto podemos nós chamar hoje o verdadeiro sentido histórico.
Sem dúvida, não é o estado mais favorável para transformar o passado num puro saber."
disse o Nietzsche em "Considerações Intempestivas"
Sem dúvida, não é o estado mais favorável para transformar o passado num puro saber."
disse o Nietzsche em "Considerações Intempestivas"
Marcadores:
amigos amigos negócios reparte
aquele que vem antes nunca chegará depois
Ânimo de Poeta.
[Segunda versão]
Pois não são todos os vivos teus irmãos?
Não te alimenta, posta a teu serviço, a própria Parca?
Avança então, sem armas,
Vida fora, e nada receies!
Bendito seja sempre para ti o que acontece!
Abre-te à alegria! Que pode, afinal,
Fazer-te ofensa, coração? Que coisa
Atravessar-se no caminho que é o teu?
Pois desde que o canto se soltou de lábios
Mortais, respirando paz, e a nossa melodia,
Bálsamo na dor e na fortuna, alegrou
O coração dos homens, também nós,
Bardos do povo, nos sentimentos bem entre os vivos,
Onde muitas coisas convivem, alegres e a todos dadas,
Abertas a todos; assim é
Nosso antiquíssimo pai, o deus Sol,
Que a pobres e ricos concede o dia alegre,
Que no tempo fugaz a nós, efémeros,
Erectos nos mantém em andadeiras
De ouro, como crianças.
A ele espera-o, acolhe-o também, quando a hora
Vem, a sua maré purpúrea. Olha como declina
A nobre luminária, ciente de que tudo passa,
Descendo, imperturbável, pelo caminho!
Assim passe também, quando o tempo chegar
E ao espírito no mundo inteira justiça for feita,
A nossa alegria! Assim ela possa um dia morrer
Na plenitude da vida, e de uma morte bela!
[Friedrich Hölderlin em tradução de João Barrento]
[Segunda versão]
Pois não são todos os vivos teus irmãos?
Não te alimenta, posta a teu serviço, a própria Parca?
Avança então, sem armas,
Vida fora, e nada receies!
Bendito seja sempre para ti o que acontece!
Abre-te à alegria! Que pode, afinal,
Fazer-te ofensa, coração? Que coisa
Atravessar-se no caminho que é o teu?
Pois desde que o canto se soltou de lábios
Mortais, respirando paz, e a nossa melodia,
Bálsamo na dor e na fortuna, alegrou
O coração dos homens, também nós,
Bardos do povo, nos sentimentos bem entre os vivos,
Onde muitas coisas convivem, alegres e a todos dadas,
Abertas a todos; assim é
Nosso antiquíssimo pai, o deus Sol,
Que a pobres e ricos concede o dia alegre,
Que no tempo fugaz a nós, efémeros,
Erectos nos mantém em andadeiras
De ouro, como crianças.
A ele espera-o, acolhe-o também, quando a hora
Vem, a sua maré purpúrea. Olha como declina
A nobre luminária, ciente de que tudo passa,
Descendo, imperturbável, pelo caminho!
Assim passe também, quando o tempo chegar
E ao espírito no mundo inteira justiça for feita,
A nossa alegria! Assim ela possa um dia morrer
Na plenitude da vida, e de uma morte bela!
[Friedrich Hölderlin em tradução de João Barrento]
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
um blogue serve
início de fim de ciclo. às vezes fecho os olhos e acho que é para sempre. é que estou escrevendo e escrever não inibe as pausas, antes, usa-as. fico fazendo um cinturão de dança ao redor de tudo. e estou triste por ser fim do mês e ainda não ter dinheiro pra comprar um caderno novo. aqui não posso contar aquelas coisinhas que se abrissem meus diários saltavam. sei que é ali que estão nascendo todos os caranguejos do mundo, aqueles que vão arrancar os olhos das coincidências e interpretá-las. que não seja como barro de mangue,
fico pensando em um jeito do fim não ser sempre uma hecatombe, mas também as coisas precisam de pontos finais. e depois deles só se começa depois (estou falando de março, digo só pra que eu saiba ao reler).
é que eu processo quedas como saídas,
e saídas como entradas - estou longe e perto - viajo, te verso
e tem vezes que sou incapaz de reler antes de postar.
domingo, 4 de dezembro de 2011
um dia a gente chega
o que tem me impressionado neste amor é a capacidade dele de ser do mundo/ não meu, nem dele, nem de ninguém. meu amor, o amor é do mundo.
isto vejo nos teus olhos.
o amor não deixa desvios vingarem.
e, muitas vezes, o amor é a pura prática de desvios.
o amor quando a gente olha nos olhos e não é miragem
crocodilagem.
isto vejo nos teus olhos.
o amor não deixa desvios vingarem.
e, muitas vezes, o amor é a pura prática de desvios.
o amor quando a gente olha nos olhos e não é miragem
crocodilagem.
sábado, 3 de dezembro de 2011
vapor quando a jaguatirica abre a boca é de manhã
do limbo despertaram seis ameijôas amestradas faliram com a mariscada da praia de copacabana quando o tataravô português que certamente devo ter tido matou o primeiro índio. a morte é uma sorte dos meus ancestrais, eu ainda não a tive. não sei avisar a órbita dos planetas para que parem. noite dessas pari um acaso danado, depois percebi que era só a rua me deixando passar.
&
acidente de estrelas inibe colisão entre duas árvores que se beijavam
um acidente de estrelas nessa manhã foi um acontecimento invejável em pleno espaço público. a galáxia já disse que vai tomar providências. ativistas de júpiter decidiram pela proliferação de novos cometas. na terra, as plantas ainda crescem.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
de um, muitos, "não sei", vamos juntos
O discurso de Wislawa Szymborska na Academia Sueca foi traduzido do inglês por Rubens Figueiredo.
"Dizem que a primeira frase de um discurso é sempre a mais difícil. Bem, ela já ficou para trás. Mas tenho a sensação de que as frases ainda por vir - a terceira, a sexta, a décima e assim por diante, até a última linha - serão igualmente difíceis, pois tenho de falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto - quase nada, de fato. E sempre que falei me veio a furtiva suspeita de que não sou muito boa nisso. Portanto, minha palestra será bem curta. A imperfeição é mais fácil de tolerar em doses pequenas.
Os poetas contemporâneos são céticos e desconfiados até, ou talvez sobretudo, de si mesmos. Só com relutância confessam publicamente ser poetas, como se tivessem um pouco de vergonha. Mas em nossos tempos estrepitosos é mais fácil reconhecer nossos erros, ao menos se estiverem atraentemente embalados, do que reconhecer os próprios méritos, pois estes se mantêm ocultos mais no fundo, e nós mesmos nunca acreditamos muito neles... Quando preenchem fichas ou batem papo com estranhos - ou seja, quando não podem deixar de revelar sua profissão -, os poetas preferem usar o termo genérico "escritor" ou substituir "poeta" pelo nome de qualquer outro trabalho que façam, além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um toque de incredulidade e alarme quando descobrem que estão tratando com um poeta. Creio que os filósofos enfrentam reação semelhante. Contudo, estão numa posição melhor, pois na maioria das vezes podem ornamentar seu ofício com algum tipo de título universitário. Professor Doutor de Filosofia: isso sim soa muito mais respeitável.
Mas não existem professores de poesia. Afinal de contas, isso significaria que a poesia é uma ocupação que requer um estudo especializado, exames regulares, ensaios teóricos com bibliografia e notas de rodapé anexadas e, por fim, diplomas conferidos com pompa. E significaria, em troca, que não basta encher páginas de poemas, mesmo os mais primorosos do mundo, para tornar-se um poeta. O fator decisivo seria um pedaço de papel que traz um selo oficial. Lembremos que o orgulho da poesia russa, o futuro ganhador do Prêmio Nobel Joseph Brodsky, foi certa vez condenado ao exílio em seu próprio país justamente com base nessa idéia. Chamaram-no de "parasita" porque não possuía o certificado oficial que lhe assegurava o direito de ser poeta.
Há muitos anos, tive a honra e o prazer de encontrar com Brodsky. Notei que, de todos os poetas que eu conhecia, ele era o único que gostava de se chamar de poeta. Pronunciava a palavra sem inibição. Ao contrário: ele a falava com uma liberdade desafiadora. Isso devia ocorrer, é o que me parece, por causa da lembrança das humilhações que sofreu na juventude.
Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco, ou quase nada, para se situarem acima do rebanho geral e da roda-viva do dia-a-dia. No entanto, ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar - em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos - a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta.
Não é por acaso que filmes biográficos sobre cientistas e artistas célebres são produzidos aos montes. Os diretores mais ambiciosos tentam reconstituir de forma convincente o processo criativo que gerou importantes descobertas científicas, ou o surgimento de uma obra-prima. E se pode retratar certos tipos de atividade científica com algum sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, máquinas complicadas em ação: tais cenas podem prender o interesse da platéia durante algum tempo. E aqueles momentos de incerteza - será que a experiência, realizada pela milésima vez com uma ínfima alteração, produzirá por fim o resultado desejado? - podem ser dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, enquanto recriam todos os estágios da evolução de um pintor famoso, desde o primeiro traço a lápis até a pincelada definitiva. A música se expande nos filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que soa nos ouvidos do músico emergem, no fim, como uma obra madura em forma sinfônica. Claro, tudo isso é ingênuo, e não explica o estranho estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos existe algo para se olhar e se ouvir.
Mas os poetas são os piores. Seu trabalho, inapelavelmente, nada tem de fotogênico. Alguém senta a uma mesa ou deita num sofá enquanto olha imóvel para a parede ou para o teto. De quando em quando, essa pessoa escreve sete linhas, só para riscar uma delas quinze minutos depois, em seguida mais uma hora se passa, durante a qual nada acontece... Quem agüentaria assistir a esse tipo de coisa?
Mencionei a inspiração. Poetas contemporâneos respondem de forma evasiva quando lhes perguntam o que é isso, e se existe de verdade. Não é que nunca tenham conhecido a bênção desse impulso interior. Só que não é fácil explicar a uma outra pessoa aquilo que você mesmo não compreende.
"Dizem que a primeira frase de um discurso é sempre a mais difícil. Bem, ela já ficou para trás. Mas tenho a sensação de que as frases ainda por vir - a terceira, a sexta, a décima e assim por diante, até a última linha - serão igualmente difíceis, pois tenho de falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto - quase nada, de fato. E sempre que falei me veio a furtiva suspeita de que não sou muito boa nisso. Portanto, minha palestra será bem curta. A imperfeição é mais fácil de tolerar em doses pequenas.
Os poetas contemporâneos são céticos e desconfiados até, ou talvez sobretudo, de si mesmos. Só com relutância confessam publicamente ser poetas, como se tivessem um pouco de vergonha. Mas em nossos tempos estrepitosos é mais fácil reconhecer nossos erros, ao menos se estiverem atraentemente embalados, do que reconhecer os próprios méritos, pois estes se mantêm ocultos mais no fundo, e nós mesmos nunca acreditamos muito neles... Quando preenchem fichas ou batem papo com estranhos - ou seja, quando não podem deixar de revelar sua profissão -, os poetas preferem usar o termo genérico "escritor" ou substituir "poeta" pelo nome de qualquer outro trabalho que façam, além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um toque de incredulidade e alarme quando descobrem que estão tratando com um poeta. Creio que os filósofos enfrentam reação semelhante. Contudo, estão numa posição melhor, pois na maioria das vezes podem ornamentar seu ofício com algum tipo de título universitário. Professor Doutor de Filosofia: isso sim soa muito mais respeitável.
Mas não existem professores de poesia. Afinal de contas, isso significaria que a poesia é uma ocupação que requer um estudo especializado, exames regulares, ensaios teóricos com bibliografia e notas de rodapé anexadas e, por fim, diplomas conferidos com pompa. E significaria, em troca, que não basta encher páginas de poemas, mesmo os mais primorosos do mundo, para tornar-se um poeta. O fator decisivo seria um pedaço de papel que traz um selo oficial. Lembremos que o orgulho da poesia russa, o futuro ganhador do Prêmio Nobel Joseph Brodsky, foi certa vez condenado ao exílio em seu próprio país justamente com base nessa idéia. Chamaram-no de "parasita" porque não possuía o certificado oficial que lhe assegurava o direito de ser poeta.
Há muitos anos, tive a honra e o prazer de encontrar com Brodsky. Notei que, de todos os poetas que eu conhecia, ele era o único que gostava de se chamar de poeta. Pronunciava a palavra sem inibição. Ao contrário: ele a falava com uma liberdade desafiadora. Isso devia ocorrer, é o que me parece, por causa da lembrança das humilhações que sofreu na juventude.
Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco, ou quase nada, para se situarem acima do rebanho geral e da roda-viva do dia-a-dia. No entanto, ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar - em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos - a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta.
Não é por acaso que filmes biográficos sobre cientistas e artistas célebres são produzidos aos montes. Os diretores mais ambiciosos tentam reconstituir de forma convincente o processo criativo que gerou importantes descobertas científicas, ou o surgimento de uma obra-prima. E se pode retratar certos tipos de atividade científica com algum sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, máquinas complicadas em ação: tais cenas podem prender o interesse da platéia durante algum tempo. E aqueles momentos de incerteza - será que a experiência, realizada pela milésima vez com uma ínfima alteração, produzirá por fim o resultado desejado? - podem ser dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, enquanto recriam todos os estágios da evolução de um pintor famoso, desde o primeiro traço a lápis até a pincelada definitiva. A música se expande nos filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que soa nos ouvidos do músico emergem, no fim, como uma obra madura em forma sinfônica. Claro, tudo isso é ingênuo, e não explica o estranho estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos existe algo para se olhar e se ouvir.
Mas os poetas são os piores. Seu trabalho, inapelavelmente, nada tem de fotogênico. Alguém senta a uma mesa ou deita num sofá enquanto olha imóvel para a parede ou para o teto. De quando em quando, essa pessoa escreve sete linhas, só para riscar uma delas quinze minutos depois, em seguida mais uma hora se passa, durante a qual nada acontece... Quem agüentaria assistir a esse tipo de coisa?
Mencionei a inspiração. Poetas contemporâneos respondem de forma evasiva quando lhes perguntam o que é isso, e se existe de verdade. Não é que nunca tenham conhecido a bênção desse impulso interior. Só que não é fácil explicar a uma outra pessoa aquilo que você mesmo não compreende.
Quando ocorre de me perguntarem sobre o assunto, também me esquivo. Mas minha resposta é esta: a inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas e artistas. Existe, existiu, existirá sempre certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. É formado por todos aqueles que conscientemente escolheram sua vocação, e fazem seu trabalho com amor e imaginação. Pode incluir médicos, professores, jardineiros - eu poderia fazer uma lista de mais de cem profissões. Seu trabalho se torna uma aventura constante, enquanto forem capazes de continuar a descobrir nele novos desafios. Difi¬culdades e reveses nunca sufocam a sua curiosidade. Um enxame de questões novas emerge de cada problema que eles solucionam. Seja lá o que for a inspiração, ela nasce de um contínuo "não sei".
Não existem muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para ganhar a vida. Trabalham porque têm de trabalhar. Não escolhem este ou aquele tipo de trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas fizeram a escolha por eles. Trabalho sem amor, trabalho maçante, trabalho cujo mérito consiste no fato de que outros nem isso têm - aí está uma das mais penosas desventuras humanas. E não há sinal de que os séculos vindouros produzirão qualquer melhora em relação a este estado de coisas.
Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna.
Neste ponto, certas dúvidas podem surgir na minha platéia. Toda sorte de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que lutam pelo poder com um punhado de retumbantes palavras-de-ordem também gostam de seu trabalho, e também cumprem suas obrigações com um fervor inventivo. Bem, está certo: mas eles "sabem", e o que quer que saibam é o suficiente para eles, de uma vez por todas. Não querem descobrir mais nada, uma vez que isso pode reduzir a força de seus argumentos. Mas todo conhecimento que não leva a perguntas novas se extingue depressa: não consegue manter a temperatura necessária para a conservação da vida. Em casos extremos, bem conhecidos desde a antiguidade até a história moderna, chega a representar uma ameaça letal à sociedade.
É por isso que dou tanto valor à pequena frase "não sei". É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como as vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo "não sei", as maçãs do seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como uma chuva de granizo - no máximo, teria parado para pegá-las e devorá-las com deleite. Se a minha compatriota Marie-Curie Sklodowska nunca tivesse dito a si mesma "não sei", na certa acabaria lecionando química em alguma faculdade particular para mocinhas de boas famílias, e terminaria seus dias cumprindo esse trabalho, de resto perfeitamente respeitável. Mas ela não parou de dizer "não sei", e essas palavras levaram-na, não só uma vez, mas duas, a Estocolmo, onde espíritos inquietos, indagadores, são de tempos em tempos contemplados com o Prêmio Nobel.
Poetas, se autênticos, também devem repetir "não sei". Todo poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas assim que a frase final cai no papel, o poeta começa a hesitar, a se dar conta de que essa resposta particular era puro artifício, absolutamente inadequada. Portanto, os poetas continuam a tentar e, mais cedo ou mais tarde, os resultados da sua insatisfação consigo mesmos são reunidos, e presos num clipe gigante pelos historiadores da literatura, e passam a ser chamados de suas "obras".
Às vezes, sonho com situações que não podem virar realidade. Imagino, por exemplo, que tenho uma chance de trocar umas palavrinhas com o autor do Eclesiastes, aquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Curvo-me profundamente diante dele, pois é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois seguro a sua mão. "Não há nada de novo sob o sol - foi o que você escreveu. Mas você mesmo nasceu novo sob o sol. E o poema que criou é também novo sob o sol, uma vez que ninguém o havia escrito antes de você. E todos os seus leitores são também novos sob o sol - aqueles que viveram antes de você não puderam ler o seu poema. E esse cipreste sob o qual está sentado não cresceu desde o início dos tempos. Nasceu de um outro cipreste semelhante ao seu, mas não exatamente igual.
E, Eclesiastes, eu também gostaria de lhe perguntar que coisa nova sob o sol está agora em seus planos de trabalho. Um suplemento adicional às idéias que já expressou? Ou talvez esteja agora tentado a contradizer algumas delas? Em sua obra inicial, você fez menção à alegria - de que adianta se é fugaz? Então, será que o seu poema novo sob o sol vai falar da alegria? Já tomou notas, fez rascunhos? Duvido que você responda: 'Já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar'. Não existe no mundo nenhum poeta que possa dizer isso, muito menos um grande poeta como você."
O mundo - o que podemos pensar quando estamos apavorados com a sua amplidão e com a nossa própria impotência, ou quando estamos amargurados com a sua indiferença em relação ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e talvez até das plantas (pois por que estamos tão seguros de que as plantas não sentem dor?); o que podemos pensar sobre as suas vastidões penetradas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos? Simplesmente não sabemos; o que podemos pensar sobre este teatro imensurável para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cujo prazo de validade é risivelmente curto, delimitado como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos sobre este mundo - ele é assombroso.
Não existem muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para ganhar a vida. Trabalham porque têm de trabalhar. Não escolhem este ou aquele tipo de trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas fizeram a escolha por eles. Trabalho sem amor, trabalho maçante, trabalho cujo mérito consiste no fato de que outros nem isso têm - aí está uma das mais penosas desventuras humanas. E não há sinal de que os séculos vindouros produzirão qualquer melhora em relação a este estado de coisas.
Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna.
Neste ponto, certas dúvidas podem surgir na minha platéia. Toda sorte de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que lutam pelo poder com um punhado de retumbantes palavras-de-ordem também gostam de seu trabalho, e também cumprem suas obrigações com um fervor inventivo. Bem, está certo: mas eles "sabem", e o que quer que saibam é o suficiente para eles, de uma vez por todas. Não querem descobrir mais nada, uma vez que isso pode reduzir a força de seus argumentos. Mas todo conhecimento que não leva a perguntas novas se extingue depressa: não consegue manter a temperatura necessária para a conservação da vida. Em casos extremos, bem conhecidos desde a antiguidade até a história moderna, chega a representar uma ameaça letal à sociedade.
É por isso que dou tanto valor à pequena frase "não sei". É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como as vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo "não sei", as maçãs do seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como uma chuva de granizo - no máximo, teria parado para pegá-las e devorá-las com deleite. Se a minha compatriota Marie-Curie Sklodowska nunca tivesse dito a si mesma "não sei", na certa acabaria lecionando química em alguma faculdade particular para mocinhas de boas famílias, e terminaria seus dias cumprindo esse trabalho, de resto perfeitamente respeitável. Mas ela não parou de dizer "não sei", e essas palavras levaram-na, não só uma vez, mas duas, a Estocolmo, onde espíritos inquietos, indagadores, são de tempos em tempos contemplados com o Prêmio Nobel.
Poetas, se autênticos, também devem repetir "não sei". Todo poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas assim que a frase final cai no papel, o poeta começa a hesitar, a se dar conta de que essa resposta particular era puro artifício, absolutamente inadequada. Portanto, os poetas continuam a tentar e, mais cedo ou mais tarde, os resultados da sua insatisfação consigo mesmos são reunidos, e presos num clipe gigante pelos historiadores da literatura, e passam a ser chamados de suas "obras".
Às vezes, sonho com situações que não podem virar realidade. Imagino, por exemplo, que tenho uma chance de trocar umas palavrinhas com o autor do Eclesiastes, aquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Curvo-me profundamente diante dele, pois é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois seguro a sua mão. "Não há nada de novo sob o sol - foi o que você escreveu. Mas você mesmo nasceu novo sob o sol. E o poema que criou é também novo sob o sol, uma vez que ninguém o havia escrito antes de você. E todos os seus leitores são também novos sob o sol - aqueles que viveram antes de você não puderam ler o seu poema. E esse cipreste sob o qual está sentado não cresceu desde o início dos tempos. Nasceu de um outro cipreste semelhante ao seu, mas não exatamente igual.
E, Eclesiastes, eu também gostaria de lhe perguntar que coisa nova sob o sol está agora em seus planos de trabalho. Um suplemento adicional às idéias que já expressou? Ou talvez esteja agora tentado a contradizer algumas delas? Em sua obra inicial, você fez menção à alegria - de que adianta se é fugaz? Então, será que o seu poema novo sob o sol vai falar da alegria? Já tomou notas, fez rascunhos? Duvido que você responda: 'Já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar'. Não existe no mundo nenhum poeta que possa dizer isso, muito menos um grande poeta como você."
O mundo - o que podemos pensar quando estamos apavorados com a sua amplidão e com a nossa própria impotência, ou quando estamos amargurados com a sua indiferença em relação ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e talvez até das plantas (pois por que estamos tão seguros de que as plantas não sentem dor?); o que podemos pensar sobre as suas vastidões penetradas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos? Simplesmente não sabemos; o que podemos pensar sobre este teatro imensurável para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cujo prazo de validade é risivelmente curto, delimitado como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos sobre este mundo - ele é assombroso.
Mas "assombroso" é um epíteto que oculta uma armadilha lógica. Ficamos assombrados, afinal de contas, por coisas que divergem de alguma norma conhecida e universalmente aceita, de um truísmo ao qual nos habituamos. Mas a questão é que não existe esse mundo óbvio. Nosso assombro existe per se e não se baseia numa comparação com outra coisa.
Claro, na fala cotidiana, em que não paramos a todo instante para ponderar cada palavra, todos usamos expressões como "o mundo comum", "vida comum", "o desenrolar comum dos acontecimentos". Mas na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E sobretudo nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo.
Tudo indica que os poetas terão sempre uma tarefa muito árdua à espera."
Claro, na fala cotidiana, em que não paramos a todo instante para ponderar cada palavra, todos usamos expressões como "o mundo comum", "vida comum", "o desenrolar comum dos acontecimentos". Mas na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E sobretudo nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo.
Tudo indica que os poetas terão sempre uma tarefa muito árdua à espera."
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terça-feira, 29 de novembro de 2011
retorno
(13)
O que eu acho que estou querendo agora é tão delicado.
Não sei com quem falar disso.
O que estou querendo é tão delicado.
O delicado problemático. Sem volta.
Entendi que pra chegar tenho que dar outra, outra volta.
Mas não posso, meu corpo bom, trocar de terra mais uma vez.
Vou cair em todas.
Insuficientemente permeável à pele das cidades.
Não reconheço nenhum canto desta sala.
Com quem conversar o descanso?
Metade da vida é faxina. A outra metade?
Regresso do pó. E eu querendo algo
agora tão, tão delicado. De passar o vento.
Ou para sentir
só teria que pousar as mãos no pó
até vê-las brancas, espalmadas como um mar
que se instalasse sobre os móveis
mas um rabo de gato
meu dedo na boca
nervoso.
Estou no raio informe.
Se eu traçar uma circunferência estarei no raio do informe.
Do centro dela apita uma luz que ninguém vê.
Por onde, se mexe: é o que a luz diz.
Aqui também, tudo manda mensagens, significa.
Passou um barco que eu achei bonito.
Ele trazia também duas luzes.
Piscavam querendo dizer numa linguagem que não me comunico.
Mas alguém se comunicaria
com as luzes do barco.
Estou procurando um lugar de mim mesma que seja o campo de mim mesma.
Não preventiva.
Cansei de ser o princípio do cuidado descontrolado.
Estou levando uma maçã pra eu comer mais tarde.
Tão tranqüila cidade.
Passo a mão na água.
Quem dera fazer, dos poemas, sinfonia.
Fina de chiados e sintonizações, quem passasse pudesse ouvir
como gruda o ouvido no rádio, a emancipação
do universo feito de palavra, não encontro. Nem saliva,
só aço. Nem tato, olfato. Os olhos mesmo, perfurados.
Estou dizendo que só viverei naquele
que se enfraquece de ternura, pena carne.
O que eu acho que estou querendo agora é tão delicado.
Não sei com quem falar disso.
O que estou querendo é tão delicado.
O delicado problemático. Sem volta.
Entendi que pra chegar tenho que dar outra, outra volta.
Mas não posso, meu corpo bom, trocar de terra mais uma vez.
Vou cair em todas.
Insuficientemente permeável à pele das cidades.
Não reconheço nenhum canto desta sala.
Com quem conversar o descanso?
Metade da vida é faxina. A outra metade?
Regresso do pó. E eu querendo algo
agora tão, tão delicado. De passar o vento.
Ou para sentir
só teria que pousar as mãos no pó
até vê-las brancas, espalmadas como um mar
que se instalasse sobre os móveis
mas um rabo de gato
meu dedo na boca
nervoso.
Estou no raio informe.
Se eu traçar uma circunferência estarei no raio do informe.
Do centro dela apita uma luz que ninguém vê.
Por onde, se mexe: é o que a luz diz.
Aqui também, tudo manda mensagens, significa.
Passou um barco que eu achei bonito.
Ele trazia também duas luzes.
Piscavam querendo dizer numa linguagem que não me comunico.
Mas alguém se comunicaria
com as luzes do barco.
Estou procurando um lugar de mim mesma que seja o campo de mim mesma.
Não preventiva.
Cansei de ser o princípio do cuidado descontrolado.
Estou levando uma maçã pra eu comer mais tarde.
Tão tranqüila cidade.
Passo a mão na água.
Quem dera fazer, dos poemas, sinfonia.
Fina de chiados e sintonizações, quem passasse pudesse ouvir
como gruda o ouvido no rádio, a emancipação
do universo feito de palavra, não encontro. Nem saliva,
só aço. Nem tato, olfato. Os olhos mesmo, perfurados.
Estou dizendo que só viverei naquele
que se enfraquece de ternura, pena carne.
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poemas do destino do mar
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
ou a interpretação
até um céu muito azul pode ser um pesadelo.
então eu acordei e o dia estava com um céu muito azul.
a coincidência me assimilou.
comecei a me exercitar e, acho mesmo que foi um lado do corpo do exercício, chorei.
chorei por umas duas horas, sem parar.
vim pela rua, chorando.
agora já não estou mais chorando.
talvez eu vá ter uma broca e furar os ares.
então eu acordei e o dia estava com um céu muito azul.
a coincidência me assimilou.
comecei a me exercitar e, acho mesmo que foi um lado do corpo do exercício, chorei.
chorei por umas duas horas, sem parar.
vim pela rua, chorando.
agora já não estou mais chorando.
talvez eu vá ter uma broca e furar os ares.
essa calma que inventei, bem sei
me botavam de volta em um navio pro brasil.
dentro de uma saleta eu jantava comida coreana com meu irmão e minha cunhada.
as madeiras claras estalavam em mim.
eu mandava uma mensagem por celular pro meu namorado/ que não respondia.
na superfície eu pensava que conseguiria voltar pra lisboa.
no fundo eu sabia que demoraria, seria muito difícil. então tudo seria outro/perdido.
então eu estava no banco de trás de um carro e olhava o céu muito azul e pensava
OUTONO
e era o céu do interior do meu país.
dentro de uma saleta eu jantava comida coreana com meu irmão e minha cunhada.
as madeiras claras estalavam em mim.
eu mandava uma mensagem por celular pro meu namorado/ que não respondia.
na superfície eu pensava que conseguiria voltar pra lisboa.
no fundo eu sabia que demoraria, seria muito difícil. então tudo seria outro/perdido.
então eu estava no banco de trás de um carro e olhava o céu muito azul e pensava
OUTONO
e era o céu do interior do meu país.
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caderno público de sonhos
terça-feira, 22 de novembro de 2011
solidão é algo que nunca me faltou.
mas é bem louco, às vezes o jeito de eu me sustentar ao lado dele é começar a escrever poemas pro vento. é. começo a cantar tudo o que está ao meu redor e é claro que isto organiza a minha relação com as coisas ao redor. tipo sábado de manhã eu vou até a varanda e digo pra mim mesma versos que falam da gaivota no teto do vizinho, o carro lá embaixo passa como um rasgo de papel, dois guardadores de carro que brigam pelas coisas mais deles, agarrados em heroína que são. de tão absurdas. o lixo nos contentores.
é como se o vento atravessasse meus lábios em dizer, eu acho muito bonito. também como é puro desperdício, poemas que eu nunca mais vou me lembrar. ao ponto de ter certeza que eles são a dicção exata, é neles que está, justamente, a grande obra que estou escrevendo. vida, vida. é só isso.
no mais, anoiteceu e a gente ainda estava no topo da montanha. foi muita muita emoção real, adrenalina, escuro! e camaradagem mútua, seguramos completamente os riscos, toureamos a noite sem lua e encontramos a saída, com muita sorte e intuição, também. sorte forte de, por exemplo, muitas pedras dos caminhos serem de calcário, isto é, brancas, reluziam mais do que o barro e nos diziam "por aqui".
foi lindo. na hora que chegamos lá embaixo no vale caímos num bosque de pinheiros, muito mais escuro. mas seguimos em frente, em frente, corujas saltavam dos galhos, e nós andávamos, andávamos. quando saímos do bosque chegamos no vale propriamente dito. dito e vasto, um pasto sobre os nossos pés e a noite de muitas estrelas no céu. foi das coisas mais bonitas que já vi na minha vida.
também porque combinada com a sensação de êxito. o problema real era descer a montanha (e não subi-la!), ali no pasto já era certo que chegaríamos ao carro. ao encontrarmos o asfalto demos nele um beijo, não em nós, não, no asfalto mesmo. "feito o papa".
quando eu disse que pra além de sermos peixes cuja água era o mato, nosso caminho era iniciático, ele se derreteu em ternura.
é meu.
mas é bem louco, às vezes o jeito de eu me sustentar ao lado dele é começar a escrever poemas pro vento. é. começo a cantar tudo o que está ao meu redor e é claro que isto organiza a minha relação com as coisas ao redor. tipo sábado de manhã eu vou até a varanda e digo pra mim mesma versos que falam da gaivota no teto do vizinho, o carro lá embaixo passa como um rasgo de papel, dois guardadores de carro que brigam pelas coisas mais deles, agarrados em heroína que são. de tão absurdas. o lixo nos contentores.
é como se o vento atravessasse meus lábios em dizer, eu acho muito bonito. também como é puro desperdício, poemas que eu nunca mais vou me lembrar. ao ponto de ter certeza que eles são a dicção exata, é neles que está, justamente, a grande obra que estou escrevendo. vida, vida. é só isso.
no mais, anoiteceu e a gente ainda estava no topo da montanha. foi muita muita emoção real, adrenalina, escuro! e camaradagem mútua, seguramos completamente os riscos, toureamos a noite sem lua e encontramos a saída, com muita sorte e intuição, também. sorte forte de, por exemplo, muitas pedras dos caminhos serem de calcário, isto é, brancas, reluziam mais do que o barro e nos diziam "por aqui".
foi lindo. na hora que chegamos lá embaixo no vale caímos num bosque de pinheiros, muito mais escuro. mas seguimos em frente, em frente, corujas saltavam dos galhos, e nós andávamos, andávamos. quando saímos do bosque chegamos no vale propriamente dito. dito e vasto, um pasto sobre os nossos pés e a noite de muitas estrelas no céu. foi das coisas mais bonitas que já vi na minha vida.
também porque combinada com a sensação de êxito. o problema real era descer a montanha (e não subi-la!), ali no pasto já era certo que chegaríamos ao carro. ao encontrarmos o asfalto demos nele um beijo, não em nós, não, no asfalto mesmo. "feito o papa".
quando eu disse que pra além de sermos peixes cuja água era o mato, nosso caminho era iniciático, ele se derreteu em ternura.
é meu.
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amor
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
não nos dão o animal que espeta os cornos no destino
e quando falo, a outra palavra para o medo é respiração. sou capaz de adormecer com ele, embalador. desconheço algo mais real. e chorar sempre faz as crianças dormirem bem. e fico por cima do meu peito e instruo a vontade de inspirar conforme o batimento cardíaco. subir montanha, ou seja, tenha que ficar irrigado, ou tranquilo. então eu olhei para o mar e disse: tua umidade não me impressiona, as cavidades do meu corpo contigo dividem a salina memória do futuro. a começar pelo coração.
sou incapaz de assustar o caminho de alguém, mas facilmente vou ferir a fera que vive em ti. posso fazê-lo em sonoridade. dentro do meu toráx vivem canivetes que te assaltam, amor que não me dás. ou sou eu que não sei esconder o pensamento que sobra tanto em mim, é um crânio onde bebem as feras o vinho. que, na verdade, já estive a adormecer sem pensar numa carta em que te explico as coisas que me magoam.
e quando voltamos para a cidade, ela é a que nos resta. e de manhã nos despedimos como se eu fosse atravessar. por mim entre tuas mãos entre as minhas para sempre.
o céu, o mato, tu e eu, tudo pra nos dar coragem. veja, estrelas. e sobre nossos pés, o pasto.
vivo feliz em mangueira porque
das coisas que tive, como todos, e ainda tenho, solidão nunca me faltou.
sou capaz de pular três fogueiras e andar pelo mato inteira, sair contigo.
ver as estrelas mais bonitas - que são as nossas, há de se ter sorte, caminho.
meus poemas ao vento andam
mais convictos do que os de serem em papel
esta travessia. a poesia sempre foi meu jeito de estar
tipo meu sobrinho, tão pequeno, já aprendeu que há um lugar só dele
pra se divertir, escrita de lábios é o que não me faltará.
tenho as mãos cortadas pelo mato e posso dizê-lo.
sou capaz de pular três fogueiras e andar pelo mato inteira, sair contigo.
ver as estrelas mais bonitas - que são as nossas, há de se ter sorte, caminho.
meus poemas ao vento andam
mais convictos do que os de serem em papel
esta travessia. a poesia sempre foi meu jeito de estar
tipo meu sobrinho, tão pequeno, já aprendeu que há um lugar só dele
pra se divertir, escrita de lábios é o que não me faltará.
tenho as mãos cortadas pelo mato e posso dizê-lo.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
meu avô era um ser da floresta-que-sabia-dizer-sim
ando com uma autoconfiança tão generosa que sonhei que me davam 25.000 euros por um livro que ainda não escrevi.
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caderno público de sonhos
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
eu te anuncio nos sinos das catedrais
e conversar contigo é o conhecimento do que é a clareza
serpentes e dragões amansadas sem aflições. confesso
muitas vezes falamos do tédio, mas sempre mal do medo
e daqueles que se poupam sem errar, nem amar.
não é questão de vertigem. é, mais uma vez, de oceano.
agora no meu peito, o mar que é um peito
aberto sobre o espaço fico
tão presente que precisamos
escapar um pouco que seja
respiração que faz - beijar.
serpentes e dragões amansadas sem aflições. confesso
muitas vezes falamos do tédio, mas sempre mal do medo
e daqueles que se poupam sem errar, nem amar.
não é questão de vertigem. é, mais uma vez, de oceano.
agora no meu peito, o mar que é um peito
aberto sobre o espaço fico
tão presente que precisamos
escapar um pouco que seja
respiração que faz - beijar.
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XII
Temendo deste agosto o fogo e o vento
Caminho junto às cercas, cuidadosa
Na tarde de queimadas, tarde cega.
Há um velho mourão enegrecido de queimadas antigas.
E ali reencontro o louco:
-Temendo os teus limites, Samsara esvaecida?
Por que não deixas o fogo onividente
Lamber o corpo e a escrita? E por que não arder
Casando o Onisciente à tua vida?
[Hilda Hilst]
e eu sempre lia o primeiro verso, faz anos como "Temendo desDe agosto". e agora copiar disse-me outro.
Temendo deste agosto o fogo e o vento
Caminho junto às cercas, cuidadosa
Na tarde de queimadas, tarde cega.
Há um velho mourão enegrecido de queimadas antigas.
E ali reencontro o louco:
-Temendo os teus limites, Samsara esvaecida?
Por que não deixas o fogo onividente
Lamber o corpo e a escrita? E por que não arder
Casando o Onisciente à tua vida?
[Hilda Hilst]
e eu sempre lia o primeiro verso, faz anos como "Temendo desDe agosto". e agora copiar disse-me outro.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
somewhere over the rainbow
sinto sono. hoje troquei de conta. alucinei no caderno embaixo do ar condicionado. escapei de três frechas de sol. quatro moicanos no meu peito. fiz um moicano no cabelo da minha sobrinha de dois meses ela babava e me dizia com os olhos: o segredo do universo, titia, é que somos todos umas larvas que babam. é tão impressionante, não nascemos arbustos. no entanto temos caracóis, HÁ CARACÓIS. quando a próxima primavera voltar, mas agora eu estou rumo ao outono. e com a minha capa de super-herói nas costas, que na verdade é a minha manta de beber chá, ando vendo meu reflexo pelas paredes das rochas de encostas das estradas. quando é lua, olho para ela e penso "tão antiga, a lua. és tão antiga". e quando olho duas vezes logo exclamo
meu pai é um anjo
o corvo que atravessa pelo átrio a igreja
e dou risada do verme que vive em todos nós. e racha as portas com seus dedos.
no mais, viro bicho. que são uns bicho mais mato que o mato.
meu pai é um anjo
o corvo que atravessa pelo átrio a igreja
e dou risada do verme que vive em todos nós. e racha as portas com seus dedos.
no mais, viro bicho. que são uns bicho mais mato que o mato.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
verdade
sonhei que meu peito era o mar azul
onde meu sobrinho, o Leon, colocava barcos de papel brancos
a navegar.
onde meu sobrinho, o Leon, colocava barcos de papel brancos
a navegar.
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caderno público de sonhos
domingo, 30 de outubro de 2011
a linha rosa
dia de finados termina meu compromisso
aquela mesa quadrada em que bolamos
saturno e eu - como num jogo de xadrez-
como me fazer parar. um pouco antes de começar sou capaz de inventar pausas
que adiam um beijo,
a massa de carne presa no prato pelo molho de tomate,
mas nunca é só uma pia de pratos
e ontem percebi que era possível trocar a palavra
"espécie" por "vida". quando noto uma coisa assim
tão fundamental, é um ponto pra baixo que escorre
e arma um travessão: imagino um bastão de ferro
correndo uma corrosão, mancha firme que avança
sem nunca tocar na menina que está debaixo da mesa
assistindo tudo, em dúvida se está triste ou acuada
a menina não sou eu. é só alguém que eu vejo,
de roxo. lembro de quando eu era pequena e me sentava embaixo da mesa que era a máquina astral de viagem. era sempre pra saturno que eu ia. e mesmo agora, ele ainda me visita pela lateral. eu que abria portas de metal dos anos 80 para saturno, eu que colava chicletes roxos nos parafusos e hoje digo para os amigos "que vida mais profunda a da sua descoberta". ele chegará para mim, mais tarde.
de quanta delicadeza essa mulher é capaz?
caetano bobinho
She has given her soul to the devil but the devil gave his soul to God
deveria ser
She has given her soul to the devil but the devil gave *her* soul to God
deveria ser
She has given her soul to the devil but the devil gave *her* soul to God
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papai me levava para escola cantando
versinhos ligeiros
pela janela do banheiro
o chuveiro ligado
não sei se chovia
fora ou dentro
mas o mundo todo
era meu apartamento
AGORA UM POEMA PARA O MEU PAI
o chuveiro ligado
não sei se chovia
fora ou dentro
mas o mundo todo
era meu apartamento
AGORA UM POEMA PARA O MEU PAI
para o meu pai
a poeta subiu o monte
olhou para os lados
e se viu rodeada
por capins.
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clap clap clap
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
tanta
fragmentação. se o destino é dispêndio, deflagração
como as coisas todas não se soltam umas das outras? e viajam, nulas, por aí?
se toda vez que eu me perco o sangue
envia de mim para outros restos
e o meu rosto por mais nítido alguém veja
se move na dimensão do teu esquecimento?
ou o motivo é sempre diverso do que concebo
e todo sentido é no futuro catacumba
como não perder a voz no teu silêncio.
ou não ligar. e te deixar dormir
do meu lado sempre e depois?
e se me odeiam, que que eu vou fazer?
fragmentação. se o destino é dispêndio, deflagração
como as coisas todas não se soltam umas das outras? e viajam, nulas, por aí?
se toda vez que eu me perco o sangue
envia de mim para outros restos
e o meu rosto por mais nítido alguém veja
se move na dimensão do teu esquecimento?
ou o motivo é sempre diverso do que concebo
e todo sentido é no futuro catacumba
como não perder a voz no teu silêncio.
ou não ligar. e te deixar dormir
do meu lado sempre e depois?
e se me odeiam, que que eu vou fazer?
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
hoje acordei bem cedo e não me deixei acordar
resolvi deitar mais um pouco, e menos frouxo, o sono ficar
depois li camões, e tenho a impressão de que nenhuma poesia me toca
(hoje, também ontem, antes de ontem)
engraçado. porque o clima das árvores já começo a sentir, o vento
em mim, sem ser comigo
deixo ele ser estar, teu coração também, quando quiser se aproximar
é o meu
amor
vou citar Luís:
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mla, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e doi não sei porquê.
resolvi deitar mais um pouco, e menos frouxo, o sono ficar
depois li camões, e tenho a impressão de que nenhuma poesia me toca
(hoje, também ontem, antes de ontem)
engraçado. porque o clima das árvores já começo a sentir, o vento
em mim, sem ser comigo
deixo ele ser estar, teu coração também, quando quiser se aproximar
é o meu
amor
vou citar Luís:
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mla, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e doi não sei porquê.
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