sexta-feira, 6 de abril de 2012

É GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL

não é simples estar feliz em um mundo
triste, de pessoas tristes, de animais enfezados
por isso a tranquilidade, HÁ TRANQUILIDADE AQUI?
onde eu me sento, li uma biografia de jornal do gandhi, que era um homem não só de qualidades,
foi o que a biografia me disse O DESFAZER DO MITO que época chata, meu deus, sem deus, a vida, a época chata, seus caçadores de mitos
eu quero a minha verdade bem embalada e feroz,
que ela venha com a força de um carrinho de supermercado quando desce a ladeira do jack ass
hhhhhhhhá três coisas que eu gosto de começar
colher, comer e garfo

quando tenho dentes suficientes eu os limpo
a partir daqui vou começar a escrever algo com algo
algoquesignifiquepravocêumacoisalinda

tão vagabundamente linda, perniciosa de linda, pernas longas longas longas como cílios

quinta-feira, 29 de março de 2012

Cabe a ti se separar da mente e descobrir os relevos das diferenças / delegar para um lugar desconhecido aquele que em ti escolhe/ mas o que me organiza é justamente pensar/ justamente, / retirar do caldo aquilo antes que caia,/ que vira um magma vivo, eu só revelo o magma vivo de um bochechar de boca / um cavalo tem dentes uma mulher também/ e o que se pensa enquanto se cospe a água / capacidade / média do pensamento é de mil coisas por pestanejar / eu transformei um tubo de acesso/ um tubo de acesso que sou eu/ me transformei/ acesso ao quê? / Ao resgate.

terça-feira, 27 de março de 2012

quinta-feira, 22 de março de 2012

ps,

a vida é tão real que parece um poema.

lx news

lavei as cortinas de veludo azul, dei um armário pra um desconhecido que estava dentro de casa quando cheguei da rua. é que eu não moro mais aqui. agora tenho que ir. 

corisco e concreto são irmãos

Quando passo dias assustada, só consigo me abrir para o ritmo das coisas. Para se fazer tudo finge durar para sempre. Mas aprendi com você que o ferro faz atrito por dentro do betão, se expande e espraia, a matéria tem ritmos diferentes e isto faz desarmar o concreto armado em questão de menos de um século. Somos tão modernos que incluímos o deixar de ser. Com a sua pá e as suas chaves, de nada o tempo abdica e a tudo esfarela. A sala desta conversa está a se desfazer na velocidade do que a gente não enxerga. As casas, as frutas, os livros, os olhos que você deixa pousar um instante, tudo, estudo, és tudo em transformação. Sinto o bafo do caminho e por ele tento guiar meus passos.

Faz da insegurança a sua força. O mundo não é sólido, meu bem, o edifício também. Entre eles, considero o enorme chão. Ossos na leva: areia de lava com água que lava, foi o primeiro modo de fazer concreto do mundo. Certos conhecimentos se acumulam. O fogo afinal amacia o ferro e forma a ligadura da costela. Dia a dia, serás meu e misturarás o pó dos teus ossos com o pó dos meus. Enverga comigo, para durar. A arma, amante. Dois arcos e uma flecha que assalta. Abraçamos o coração sem centro. Você diz que é de noite que o céu se mostra como é, o azul diário é uma fábula do sol quando atravessa a atmosfera. E eu que andava evitando o noturno, descubro o andaime, monto nele e pego os raios com as mãos.

sábado, 17 de março de 2012

há dias que não durmo

dizem ser as tempestades solares

my back pages


terça-feira, 13 de março de 2012

útil 2

o papel fino que comprei
é para máquina de escrever
o papel do word e afins
acabou.
o papel fino estava em promoção.
a impressora imprime minha dissertação
no papel fino que comprei
mas não meus poemas
do destino do mar
como ondas a impressora
engasga e engole
se tivesse na praia
atirava na água a impressora
qualquer promoção
virava musgo
meu livro também

útil

o papel fino que comprei
pra usar na máquina de escrever
na papelaria fernandes
que está sempre a falir
a falir e se reconstruir
em promoções das mais variadas
o papel fino que comprei
é para usar na valentine
porém acabou o papel
o outro para word e afins
então o papel fino que comprei
ele imprime minha dissertação
mas o poemas do destino do mar
não
o papel fino que comprei
engole a impressora
quando imprime poemas
não sei se é uma retaliação
ou somente uma ação
conjunta da valentine
da papelaria fernandes
do chiado dos papéis
dos prazos
dos afins
de engolir papel

segunda-feira, 12 de março de 2012

"todos os meus textos são poéticos. (...) o joão cabral de mello neto diz que não acreditava na inspiração. ele é uma besta, né"
hilda hilst

should be more drastic

As fases nas quais
eu me identifico
com o Bob Dylan
são muito boas.

Minha vida começou no infinito
e vai terminar no apocalipse.
Minha vida começou no apocalipse
e vai terminar no infinito.

Faço uma estrofe
de cada lado
que é para não tropeçar.

Os poetas re-encarnam?
, você acha que os poetas re-encarnam
ou que eles são a mula sem quatro-cabeças?

Gosto dos sons que as crianças emitem.
A melhor coisa que elas inventaram foi a primavera.

bob dylan não é van gogh

sonhei assim, um homem tinha tido a orelha decepada
estava pendurada
vinha um médico com agulha, linha, tudo
costurava, a partir de cima
o remendo. o eduardo também estava.
dava tudo certo,
olha que bom.

este caderno ainda está no começo

o império está
no não-saber
eu estava querendo
escolher entre
      passado
      futuro
      presente
?

mas o império
está no não-saber

    o infinito
    o absoluto
    o que virá
não sei se bom
se um guia
      ou uma carta de condução
      sinuosa, porém

eu quero vir logo pra cá
mas não posso
segredo
o nome disto é
      dia-a-dia.

quinta-feira, 8 de março de 2012

8 deitado é infinito

no plano do dia
eu tenho cada vez mais amigas
mulheres
não sei o que isto significa

quarta-feira, 7 de março de 2012

terça-feira, 6 de março de 2012

puro

estou como as primeiras costelas de um corpo
empilhadas na cartilagem com a bacia
minha bacia vermelha, dispersiva
é a época da grande gestação do começo

SEI QUE OS CAMPOS IMAGINAM AS SUAS
PRÓPRIAS ROSAS.
AS PESSOAS IMAGINAM SEUS PRÓPRIOS CAMPOS
DE ROSAS. E ÀS VEZES ESTOU NA FRENTE DOS CAMPOS
COMO SE MORRESSE;
OUTRAS, COMO SE AGORA SOMENTE
EU PUDESSE ACORDAR

ele, eu sinto, depois de me dar um armário para viver por dentro
disse eu

Onde encontro os potes de massa
ao redor das pilhas enferrujando
na caixa de sapatos
junto das fotografias
enrolado numa manta
o amor, raro. O amor
tira o cavalo da naftalina
gira e grita
grita e guia.

eu ia dizer que ele precisava de um silêncio muito grande que o envolvesse
até que fossemos capazes
de entender as coisas. mas ele é um aventureiro
o meu amor é uma ventura
então o telefone toca
o meu amor é tão arrumadinho
e eu digo que estava escrevendo este poema
ou melhor, digo que já faz tanto tempo que não escrevo um poema
que estou preocupada até com isso
não digo isso assim em público
também porque a preocupação é só um cansaço
também porque do que eu sinto falta sem os poemas
do que eu sinto falta é deste senso de aventura
em que cada

movimento de partida é uma inteligência
que se desfaz, de tanto que se fixa, escrever
bem se sabe, é o meu maior prazer
se bem que o meu amor também me dê muito trabalho

ele fica um pouco atordoado de saber que sou tão estranha
e é por isso que ele me ama
digo justamente aquilo que não interessando a ninguém, é o que me interessa
não tomo nada dos outros e nisto meu amor sabe
tudo que eu turvo tende para o azul

inclusive o ouro. procuro

quinta-feira, 1 de março de 2012

há uma transformação em curso. eu soube disso
desde quando
desde quando comecei a perder líquidos.

às vezes o vento
bate na gente
tão lúcido

de anos em anos é preciso
a tarde que te encontrei tinha lua
desde então tenho um gosto de gelado na boca
de chocolate chica
bom alguém vinha dizendo pela rua do príncipe real

todas as vezes que passei lá
não estavas
mesmo não estando
o meu céu da boca estalava

dentro de mim mora

um sonho tão bonito dois dias atrás. de que eu entrava numa casa que era minha nova casa, ela tinha as estruturas dos tetos como grandes patas de aranha, muito altos e finos, que intervalados por vidros muito grandes, davam para um jardim (que é o jardim da prima do alfredo em visconde de mauá, o jardim mais bonito que já vi, onde árvores de caqui se debruçavam no córguim que ali passava), onde era noite, mas era possível ver o jardim. um pé direito de 5 metros de altura, e todos os pavimentos do chão em carpete, mas bem no centro uma área só de madeira. o carpete era bem anos 70, figuras geométricas enormes cor de azul, vermelho vinho e amarelo mostarda. e havia uma biblioteca e sofás imensos, onde dava tanto pra deitar, como se sentar e espreguiçar. eu, maravilhada, como só sou com o que é meu.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

o risco do que se guarda

Primo Levi conseguiu um edredon nos últimos dia no Lager. Tomou do quarto abandonado por um SS. Décadas mais tarde, a peça de calor ainda o acompanhava, de casa em casa, pra onde ele se mudava. Quantas vezes Primo sentiu a cor e o cheiro do seu cobertor, e lembrou? Nada que eu possa explicar com minha insuficiência confortável. Só consigo pelo redor do que fascina: são três coisas: suponho que ele esquecesse até o ponto de lembrar, como em uma revelação, eu queria poder ver por dentro a imagem da sua sensação, seu sopro, som e sabor, no momento de retorno pelo objeto àquela lembrança; se ele nunca deitou fora, eu gostava de sempre ter comigo o direcionamento de interpretação que Primo fazia ao lembrar o que o edredon recordava, afinal, ele não se exilou da vivência ou a pintou com o horror do inabordável, antes fez dela uma passagem e atravessou, como quem olha, como quem toca, tecido seu e de ninguém; por fim, me impressiona como o mesmo objeto possa cobrir seres tão diversos, aquecer suas idéias, sendo elas de bem e mal, sendo sempre o mesmo, só pelo tempo corroído.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

é ser o ter no lugar do haver

Clarice Lispector que era de uma brutalidade, de uma violência como só um pano de linho seria capaz,  de um tecido que alguém puxa com uma mão de cada lado até promover um BANG, sonoridade de um rompimento que não rompe, e você pode acarinhar o tecido intacto. Eu quero a revelação pouco a pouco. Isto aprendi com C.L.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

segunda história rápida sobre a integridade

A SOLIDIFICAÇÃO: A SOLIDÃO

os corpos gasosos movem-se
em correntes de ar
que solidificadas são
grossas paredes a separar
os outros corpos
a separar todos
os débeis estados da matéria

[Luiza Neto Jorge]

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

neste momento eu tenho um livro quase pronto e os músculos de quem dormiu quase doze horas seguidas.
o livro quase pronto quer dizer que andei trabalhando nos últimos dois anos nele. dia a dia, passo a passo,
entendo que quando tiver o último poema vou preencher o livro com mais dois ou três e lá estará
a secagem, o ritmo da máquina de lavar
todo verso, no giro, de fundo, é uma lavagem ultra
tenho também ciúmes, não do livro, mais um sentimento inédito.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

política internacional

essa noite eu tive o sonho mais bizarro da minha vida. primeiro eu andava por um shopping com um sujeito com quem já tive um lance, muitos anos atrás, ele apertava a minha bunda, e de repente ele zarpava pra outro canto e eu estava andando pelo museu de história nacional britânico, que depois virava: era um museu dos assassinatos dos tiranos do século XX. mas não tinha nem painel, nem tela, nem nada disso! eles estavam todos renascidos e eu os via morrer na minha frente. vi partirem: o castelo branco (de quem ontem falei) com um olho arrancado por um cabide, o hitler com uma peixeira atravessada na garganta até o coração, o mussolini estava já dependurado pelo pé pra cuspirem nele, o pinochet foi assassinado por uns esquilos e por último matavam a angela merkel (!!), mas não lembro como. levantei pra fazer xixi estava amanhecendo e eu pensando "mas e o stalin? cadê o stalin?"...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

pra mais tarde

corre o mar vermelho
da retina da visita que - de tarde - vem te ver
ela procura a cura, sentada no alpendre da tua casa
pelo menos no campo se tem repouso
mas és uma raposa que visita a toca
suga teus olhos como uns ovos
de cobra reinada
enrolada, sobre si 
ssssssssssilva pela boquinha verde
dançando pela fogueira
a língua toca o lume
é o fogo quem se queima
acovardado
cresce e nasce
some e desce
vigiado
neste inverno retrógrado
sou toda ouvidos, meu bem
a visita, agora sim, vai de pé
olhando às vezes pra trás acena
o farol sempre
atenta

pede mais chá

VIII

Guardo-vos manhãs de terracota e azul
Quando o meu peito tingido de vermelho
Vivia a dissolvência da paixão.
O capim calcinado das queimadas
Tinha o cheiro da vida, e os atalhos
Estreitos tinham tudo a ver com o desmedido
E as águas do universo se faziam parcas
Para afogar meu verso. Guardo-vos, Iluminadas
Recendentes manhãs tão irreais no hoje
Como fazer nascer girassóis do topázio
E dos rubis, romãs.

X

Há um incêndio de angústias e de sons
Sobre os intentos. E no corpo da tarde
Se fez uma ferida. A mulher emergiu
Descompassada no de dentro da outra:
Uma mulher de mim nos incêndios do Nada.
Tinha o rosto de uns rios: quebradiço
E terroso. O peito carregado de ametistas.
Uma mulher me viu no roxo das ciladas:
Esculpindo de novo teu rosto no vazio.

[de Hilda Hilst, no "Amavisse" no volume Do desejo.]

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

é um rei, vamos combinar

as fotos com o pound me impressionam muito

transformar a transformação

eu pedi à terra
eu pedi à terra
para não ter dúvidas
mas se eu fosse a terra
não seria poeta
os lugares podem mudar
as paisagens podem mudar
o corpo este depósito
de emoções
a yoga mexe com o corpo do grito
e eu querendo ser trigo
e eu querendo ser terra
acho que meus problemas todos nascem de tomar o mar
tomar o mar
a água salina
apodrece o sangue
mas não é isto que eu queria dizer
não
eu ia dizer que o mar com a sua horizontalidade sempre cambiante
talvez venha dele a minha metamorfose
quando todo mundo sabe que é do fogo
que só o fogo é capaz de trazer
aquilo

continua
que por aqui
tem feito dias lindos
e eu pensando
em um jeito
de afirmar tudo
estancar tudo
desencalhar meus músculos direitos
virei a mesa
serei um pano de linho
sobre a table
merci monsieur cesariny
quero ser pedra alucinada
não calçada claudicante
porosidade que se atravessa
minério que se encharca
eu

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

cortei caminho e a parte de cima do lábio cortou-se.
penso sem tardança em me atrasar. resisto a todos os choques e acho que meu sistema imunitário não dá bola pra ser tão antigo e equivocado.
o tempo abriu. meu tempo abriu. eu sou o tempo do aberto,
cortou-se de frio e vento a parte do ventre do lábio direito
mamãe está aqui comigo.
disse que eu e ele fazemos o parzinho mais bonito que ela já viu.
e eu coroada com a hera que maria me deu.
o nietzsche disse que em um milênio tem 34 vidas, eu me pergunto quantos antepassados diretos tenho a um milênio atrás? tudo isto pra desviar da rinietzsche e acho que a resposta é o rizoma.

neste carnaval vou me fantasiar de marinheiro
e digo mais, argentino. agora vou arrumar minhas coisas
que tenho a yoga mais mística que o coração do brasil já não viu.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

se abro o caminho do caminho, viajo.
se tento me recolher ao erro, vicio.
ontem tentei destruir a destruição. 
fui absolutamente incapaz de fingir que me interesso por ela o quanto me interesso. é porque não sei atravessar os esquecimentos e deixar de te dar a mão, quando me pedes, ou se não pedes. é só uma coisa de estar ao lado. de deixar de tomar um lado, incapaz? há momentos em que um vento ocidental varre os negócios dos ócios e tira os olhos da flexibilização, quem escolhe? posso, inclusive, elaborar essa estratégia de tentar encontrar uma falta de sentido libertadora, um dizer que não seja nada mais que uma mão estendida por dentro de uma garganta. mas é impossível. impossível também com este desânimo de fim de inverno, o corpo todo tomado por isto, mas sei bem mas sei bem mas não vou. digo: sei que amanhã vou subir uma serra e todo o medo será um carpete para pisar o céu. o céu das coisas têm cor de romã e une, o céu das coisas une intenção e gesto. a prática da sinceridade é uma prática de desestabilização dos métodos. há um ponto em que eu resolvo parar de dizer qualquer coisa. há um texto do deleuze que quero muito ler e que se chama "para por um fim no juízo", alguma coisa assim, sempre. e quero tanto ler as coisas que quando abro o primeiro parágrafo quero sugar cada um daqueles líquens de musgo até mastigar as conchas e os vinhos da tua carne dura, ó carne dura, inverno de merda. ontem tentei destruir a destruição e hoje fui recompensada com duas páginas. faltam mais oito nesse pedaço e tenho que desfazer essa espécie de expectativa do suficiente, porque a única coisa que é suficiente nesse campo de mim mesma é a seriedade. e alguma rinite que sobra, que obra, a rinite obra em mim uma precariedade constante. o bate-papo nacional em portugal hoje tem a ver que o governo está dizendo uma coisa e o ministro das finanças falou no ouvido do alemão outras coisas. e portugal está querendo dizer que é outra coisa que não a grécia, por que "se a grécia sair". putz. momento histórico de merda.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

trabalho a prazo

eu e meu irmão num ônibus de londres até paris
demorava 15 dias a viagem, e estávamos só no começo
paramos no graal da castelo branco (aquele onde o flavio compra lenha pro sítio e eu tomo suco de milho)
as poltronas do autocarro eram azuis
15 dias!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

hilda pede mais chá

escrever é um lance embora o cansaço
tanto que desconfio as vezes se escrever não é um lance do cansaço
e parece que quanto mais desconfiança a gente tiver, menos o texto vai
e que o cansaço só nos permite a desconfiança instintiva
A DESCONFIANÇA INSTINTIVA
conta-se que ana cristina cesar, meu bem, ana cristina cesar comia cacos de telha todas as tardes como quem mastigasse cigarras, não, cascas de noz, conta-se que este treino a deixou tão apta que toda a sua desconfiança era instintiva
no futuro falaram que eu tive de matá-la. terão razão. os homens de letras, tão arrazoados. é por isto que aos homens de letras vamos embebedá-los até todos serem bons homens de letras.
toda escrita é uma troca de letra desenfreada
meus dedos digitam como quem não tropeça, trupica
e quem trupica e cai cai cai cai cai cai
num "cai cai cai cai"
que até lembra quando
a gente diz ai quando a gente diz ah
ah ah ah
minha macaca só pensa EM
ela se debruça na porta da geladeira como quem aguilhotina a jaula
abre e fecha
fecha e abre
a minha macaca instruída
e digital
deixa marca em todo traço
que laça.

ps, conta-se que ana cristina cesar queria ser roteirista da globo. e inafiançável é a lembrança de que A DESCONFIANÇA INSTINTIVA seria um belo título no ecrã.

"ECRÃ!"

para dois rapazes

sabe quando um acontecimento é tão acontecimento que ele é disruptivo
isto é, ele cria uma cisão de distância que não é real
parece que faz cem anos, mas faz dois dias
?
então. menstruar é assim.
ou seja, as mulheres todo mês podem recomeçar. tudo.
esta parte já é para a minha amiga
as mulheres menstruam juntas
você tá entendendo?
as mulheres menstruam juntas
fiquei pensando no seu último email falando da revolta que a gente deve ter e infelizmente tem de carregar.
primeiro de tudo a hannah arendt eu quero mandar um beijo pra ela.
tô tão cansada, queria te contar mais coisas, falar de uma história bonita da hannah,
imagem, in fact
que ela diz
o tempo
numa imagem do kafka
é ser empurrado (um homem)
pela frente e por trás
por forças equivalentes
passado e futuro
onde o presente fica preso no intervalo entre um e outro
empurrado, amassado
a imagem é essa,
do kafka. a hannah diz
que maravilhoso era o kafka
mas-e-que se esta imagem-experimento
acontecesse num paralelograma
duas forças contrárias incidindo uma sobre a outra
tem como fluxo resultante um vetor
este vetor, no homem
é o pensamento.

e sabe abrir o seio como a terra

hóstia não quer dizer hostil

saguão de hotel, estofados laranja. eu, que não sou muito do laranja, parada no corredor esperando pelo elevador. ele chega, eu entro. entram muitos mais. alguém pisa no meu pé. o elevador me irrita. no saguão do hotel encontro uma mulher toda vestida de laranja, como o saguão. ela me abraça. já estou inventando, que eu não lembro mais. queria era sonhar mais, mas acho que ando tão pragmática, que ando sonhando pouco. mas não será esta uma separação muito pragmática também entre sonho e não-sonho. sei que hoje não quero ter de ir longe. já bebi meio litro de chá de erva príncipe. e tenho cólicas.
o b dia desses leu pra mim um trecho que o castañeda conta de umas índias que menstruavam vendo paradas uma fenda se abrir entre as montanhas. quer dizer, tinham que olhar a montanha até verem a fenda. quer dizer, eu já estou inventando, o b disse outra coisa, mas eu gostei dessa imobilidade atenta, também chamada cansaço com sangue.
talvez se eu imaginar um pote com sangue bem escuro fervendo até cheirar sangue pelas paredes como no inverno respiram as paredes o frio e se há fogo transpiram facilmente as paredes se fosse sangue na panela de um bicho ou seu; ficavam cor?
tenho visto muitos romanos de noite, na casa do meu bem, de dia fico assim, vendo romanos, augúrios, augustos, ave! estou pra o que é que tem.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

"eu devo dizer eu guardo um mundo em mim" - aviso de viagem,

olho as graves as traves as aves
o metro passou dia de ontem em greve
a garganta arde pelos graus
se eu fosse um termômetro (a imagem é de ezra pound para o papel do escritor)
vejam ezra pound
se eu fosse um termômetro
meu braço direito anulava a temperatura do coração
tomava tudo
para si

em potes de mercúrio.

no entanto não ando mudo.
viajo no cavalo do tudo, estudo.
sou o lombo do mundo.

quando virei ali na Sé, pra baixo, eram lascas
os galhos das árvores eram estalactites
não sei se a cidade é desta vez uma caverna
ou se o que me governa é a queimada
que virá no rosto da primavera

mas hoje mesmo estive muito vermelha quando me olhei no espelho da casa de chá
digo, pastelaria luso-japonesa, na rua da alfandega, recomendo
não as alfândegas, delas desconfio, inclusive que são tão antigas
tão mais antigas
antigas tanto quanto a desconfiança do homem
atrás dos bigodes
é firme, forte
quase não conversa
mas tem amigos, o homem
rumores de que terá amores
louvores dos primórdios
ele inventa o que virá

com três pés se faz um monstro
ou um poema de amor
"nenhum verso é livre para quem quiser fazer um bom trabalho"
e quando a assombração do ritmo do passado
vem esse corpo de outros, o MEU CORPO
este corte, esta corte
meu rei
abram caminho

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

via carolina, via gustavo: o futuro:

Para compreender o que significa a palavra futuro, é preciso antes saber o que significa uma outra palavra, a qual não estamos mais habituados a utilizar, ou ainda, que estamos habituados a usar apenas na esfera religiosa: a palavra fé. Sem fé ou crença, não é possível futuro. Isto é, há futuro somente se podemos esperar ou crer em algo. Mas, o que é a fé? David Flusser, um grande estudioso de ciências da religião, e ainda há uma disciplina com esse estranho nome, um dia estava trabalhando sobre a palavra pistis, que é o termo grego que Jesus e os apóstolos usavam para fé. Naquele dia, estava passeando e, por acaso, encontrava-se numa praça em Atenas. Num determinado momento, olhando para cima, viu escrito em grandes letras à sua frente Trapeza tés Pistéos. Surpreendido pela coincidência – a palavra pistis – observou com mais atenção. Depois de alguns segundos se deu conta de que se encontrava simplesmente diante de um banco. Trapeza tés Pistéos significa em grego “banco de crédito”. Foi uma espécie de iluminação. Eis, finalmente, o que significava a palavra pistis, que há meses estava tentando compreender. Pistis, fé, é simplesmente o crédito de que gozamos junto a deus e de que a palavra de deus goza em nós a partir do momento em que nela cremos. Por isso Paulo pode dizer, numa famosíssima definição, que a fé é “substância de coisas esperadas”. A fé é o que dá realidade ao que ainda não existe, mas na em que cremos e temos fé, porque nela colocamos em jogo o nosso crédito, a nossa palavra. Algo como um futuro existe apenas na medida em que a nossa fé consegue dar substância, isto é, realidade, às nossas esperanças. Mas a nossa, sabe-se, é uma época de escassa fé. Ou, como dizia Nicolà Chiaromonte, uma época de má-fé; isto é, de fé mantida à força e sem convicção. Portanto, uma época sem futuro e sem esperanças (ou, de futuros vazios e de falsas esperanças). Mas nesta época, muito velha para crer verdadeiramente em algo e muito esperta para ser verdadeiramente desesperada como deveria, o que se faz do nosso crédito? O que se faz do nosso futuro? Porque, parece-me, se se observa bem, há ainda uma esfera que gira inteiramente ao redor do tema do crédito. Uma esfera que englobou toda a nossa pistis, toda a nossa fé. Esta esfera é o dinheiro e o banco, a Trapeza tés Pistéos, é o seu templo. Vocês sabem que o dinheiro é apenas um crédito. Em todas as notas, na esterlina, no dólar, curiosamente não no euro (isto deveríamos deixar sob suspeita), vem escrito que o banco central promete garantir aquele crédito. Está escrito: “o banco pagará ao portador” – libra esterlina, ou dólar, mesmo se agora não há mais o padrão ouro e se a conversão ao dólar não existe mais. Vocês sabem também que a assim chamada “crise” que estamos atravessando – e espero que sejam bastante inteligentes para suspeitar de que o que se chama crise não é algo provisório, mas o modo normal no qual funciona o capitalismo do nosso tempo – começou com uma série desconsiderada de operações sobre o crédito, sobre créditos que vinham descontados e revendidos dezenas de vezes antes de poderem ser realizados. Isso significa, em outras palavras, que o capitalismo financeiro e os bancos, que são seu órgão principal, funcionam jogando sobre o crédito, isto é, sobre a fé dos homens. Isso também significa que a hipótese de Walter Benjamin, para mim uma belíssima hipótese, segundo a qual o capitalismo é, na verdade, uma religião, a mais feroz e implacável religião que já existiu porque não conhece redenção nem dia de festa, deve ser tomada literalmente. O banco tomou o lugar da igreja e dos seus padres, e, governando o crédito, manipula e gerencia a fé – a escassa e incerta crença que o nosso tempo tem ainda em si mesmo. E o faz do modo mais irresponsável e sem escrúpulos, procurando lucrar dinheiro da crença e da esperança dos seres humanos, estabelecendo o crédito que cada pessoa pode gozar e o preço que deve pagar por isso. Hoje estabelecendo e avaliando até mesmo o crédito dos estados que cederam, não se sabe o porquê, a sua soberania. Desse modo, governando o crédito, governa não somente o mundo, mas também o futuro dos homens, este que a crise torna sempre mais curto e a termo. E se hoje a política não parece mais possível, isso acontece, de fato, porque o poder financeiro sequestrou toda fé e todo o futuro, todo o tempo e todas as esperas. Enquanto durar essa situação, enquanto a nossa sociedade, que se crê laica, permanecer servindo a mais obscura e irracional das religiões, eu os aconselho a retomar o seu crédito e o seu futuro das mãos destes sombrios, desacreditados, pseudo-sacerdotes, banqueiros, de uma parte, e dos funcionários das várias agências de rating, de moldings, de Standard & Poor’s, ou qualquer outra denominação que tenham. E, talvez, a primeira coisa a se fazer é parar de olhar tanto ou apenas para o futuro, como eles exortam a fazer, para, ao contrário, voltar o olhar para o passado. Somente compreendendo o que aconteceu, sobretudo procurando compreender como e por que pôde acontecer, talvez, poderão conseguir liberar-se dessa situação. Não a futurologia, mas a arqueologia é a única via de acesso ao presente.

Intervenção de Giorgio Agamben no programa "Chiodo Fisso" da emissora de rádio "Rai 3" no último dia 25/01/2012. (Link para arquivo de áudio original: http://www.radio.rai.it/podcast/A42410486.mp3)

Transcrição e tradução para o português: Vinícius Nicastro Honesko.

[retirei deste blogue aqui: flanagens]

poética

que
eu ad
miro
quem faz algo errado
(e isto fazemos todos)
e quer, compreensivamente, mudar.
eu desprezo
quem evita essas mudanças.
e agora vou sair para aprender o mar.

domingo, 29 de janeiro de 2012

meu diário está em toda parte, onde estão os meus olhos?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

arrumando a mochila pra passar o fds na casa do gajo
que fica há 15 minutos daqui
mas atrás da colina, lá embaixo


me pergunto assim "será que eu levo o focault?"
abro a mala e verifico com os dedos como se alternasse entre fichas
já estão indo "o eliot, a clarice, o pound, outro eliot, o nietzsche"
"turminha".

"isto não é vida. isto se chama maratona da pós-graduação".
"você prometeu que não faria piadas de mestrandos"

-alô, julinha, tás fixe?
-tou.
-saudades tuas.
-ohnn. eu também.
-e como está o trabalho?
-vai bem. eu QUERO QUE ESTE EDIFÍCIO CAIA.
-que edíficio? o edifício da poesia?
("ele saca tudo")
-é. QUERO QUE TODOS OS POETAS EXPLODAM JUNTOS.
-mas assim vais também explodir?
-claro. o que eu MAIS QUERO É EXPLODIR.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

munição

imagine um mundo onde tudo é começo
agora imagine o começo deste mundo

m.g.l. disse "o começo de um livro é precioso". 

dentro de toda lacuna  - - - não sei bem onde é que vivo, esse lance tão mútuo é capaz de me causar vertigens: como um cavalo que prende aos dentes a corda que leva outro cavalo e pula puxando-o pelas barreiras os joelhos levantam o suficiente - ele pensa que seu companheiro está morto - mas ele estava enganado. meus senhores, os cavalos também se enganam e este cavalo - o começo - embora estivesse lúcido, não havia percebido que era a corda que ele agarrava pelos dentes que o puxava, não o contrário. ambos, vivíssimos, saltaram as barreiras e alcançaram o começo do começar.

entretanto, estou no princípio do meio da minha dissertação e no princípio do fim do meu livro. dizer do começo é só uma ansiedade com o fim. e o começo é só uma abstração possível pela faculdade de fazer juízo, interpretação, - - - destas duas pernas que inventam sempre saídas e saltam, ah como saltam as pernas boas que tenho.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

vou virar do avesso - não tenho medo
não tenhas medo - quando virar do avesso
é para a cabeça cair para trás
e o coração explodir em vento,

em um mês

fiquei surda com os ouvido direito zumbindo tudo
cortei os dois polegares no mesmo lugar, de modos diferentes, no mesmo dia
tive três crises de rinite
duas noites de insônia, uma por paixão, outra por mudança de planos
dor de cabeça no último dia do ano, enjôo, vertigem
ontem desloquei a omoplata praticando pilates
tá doendo, a noite toda também

tô zuada
alguém me benze
bem-bem

justo eu
bem-bem

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

o amor é uma armadilha ao contrário

junta com o post debaixo
e é nóis










Só eu sei que sou terra
Terra agreste por lavrar
Silvestre monte maninho
Amora fruto sem tratar

Só eu sei que sou pedra
Sou pedra dura de talhar
Sou joga pedrada em aro
Calhau sem forma de engastar

A interpretação é o que quiserem dar
Não tenho jeito p'ra regatear
Também não sei se eu a quero aumentar
Porque eu não sei

Porque eu não sei se me quero polir
Também não sei se me quero limar
Também não sei se quero fugir
Deste animal, deste animal

Também não sei se me quero polir
Também não sei se me quero limar
Também não sei se quero fugir
Deste animal, que anda a procurar

Só eu sei que sou erva
Erva daninha alastrar
Joio trovisco ameaça
Nas ervas doces de enjoar

Só eu sei que sou barro
Difícil de se moldar
Argila com cimento e saibro
Nem qualquer sabe trabalhar

Em moldes feitos não me sei criar
Em formas feitas podem-se quebrar
Também não sei se me quero formar
Porque eu não sei

Porque eu não sei se me quero polir
Também não sei se me quero limar
Também não sei se quero fugir
Deste animal, deste animal

Também não sei se me quero polir
Também não sei se me quero limar
Também não sei se quero fugir
Deste animal, que anda a procurar

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

nocturno en lo oscuro

No dia em que te conheci, foram os olhos as forquilhas que te alcançaram.
Para entender a memória é preciso entender o que são os olhos.
Para entender o que são os olhos
o que me leva pelos lugares do que foi
não a é vontade de neles estar.
Mas saber que não estar neles é hoje estar contigo.
Te acalma com a mão sobre a rocha.
E embora nestes sítios ainda
estalo. Quando passo. O que caço,
me caça. É o amor que vem ou já passou?
Se for o vento, há em mim quem venha só.
Sou estrangeira, não sou ninguém.
Aprendiz que sou mais é do temor
passo a passo
limo até alastrar
a língua
por cima
falo falo
sobre os tremendos ossos dos pés
até perceber que não há como esquadrinhar a angústia – que falar dela é como pegar numa bic e rasurar por cima de uma tabelinha até esconder o grosso – e guardo nos bolsos
o silêncio agora
é como se tivesse um ladrilho tão gelado
a fenda de quando intento fugir
é fascinação pela cria que uma fenda deu entre os meus seios
e se eu me reconheço caverna, casa cativa
por que não seria eu a fenda que alimenta
uma fenda que se cria
o lugar por onde passa a luz
da tua violência.
Sou a fenda por onde passa a luz da tua violência.
É a minha armadilha: forquilha que olha
no fundo, tudo que gosto é de veneno e de desapodrecer
ao veneno puro deste ventre sirvo
este corpo é para isto
serve ao vento de veneno puro, purifico.
E se encontras todos os caminhos fechados
é porque lá não estás.
Então você quando vir a fenda de mim
levante, me olhe
o suficiente e lance:
p ---edra.

caminante nocturno

passo
a passo
a tarde teu rastro
limo a língua até

até perceber que não há como esquadrinhar a angústia - que falar dela é como pegar numa caneta bic e rasurar por cima de uma tabelinha - mesmo assim insisto na grelha


como se tivesse um ladrilho de tão gelado, a fenda de quando eu descobri que a vontade de fugir é porque cria uma fenda entre os meus seios e se eu me reconheço caverna por que não seria eu a fenda se sou uma é fenda também um lugar por onde passa a luz

da tua violência. a fenda por onde passa a luz da tua violência.

é minha a armadilha: no fundo, tudo que eu gosto é de beber veneno e sobreviver purificando o veneno/ este corpo é para isto: serve: purificando o veneno.

levanto os braços:
só o suficiente:
p - - - edra.


















tava eu no mato de novo/ num mato sem cachorro/ eu falei tá direito/ que eu nunca tive cachorro ao meu lado

amor

longe de você eu sinto que me falta um gosto
perto também.
 

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