quarta-feira, 30 de maio de 2012
terça-feira, 29 de maio de 2012
preparações para o fim de ano
[ ] estamos em movimento, não sei para onde. minha família, eu, papai, mamãe, irmão. estamos no condomínio da casa onde meu irmão viveu depois de casar (lugar do qual me lembrei semana passada, e por onde andei, e por onde lembrei que andava. e tinha desaparecido desde então da minha memória essa liberdade pouco-livre, andar por onde quiser em direção ao sol e a terra seca na margem do asfalto, subindo pelos tênis, mas num condomínio fechado) e tínhamos que mudar de casa. aliás, precisávamos trocar de casas muitas vezes, e sempre com todos os cães. com todos os cães que já tivemos juntos, numa sala. era a farra dos cães, eles não podiam fugir, e viva a selvageria! as mudanças se tornavam tarefas quase impossíveis. me lembro que tentei uma incursão mais sozinha (porque ninguém se movia do fundo da sala), abri a porta para sair, com o grude no colo
(sim, tivemos um cãozinho basset de nome grude, que nasceu no mesmo dia que meu pai, em outro ano, certamente. o grude era epilético, tinha perebas na barriga de alergia dos produtos de limpeza por sua barriga roçar no chão, o grude mordia as canelas dos meus amigos meninos quando entravam pela garagem e meu irmão o chamava de grudezila).
não sei porque, mas tive que voltar, com o grude no colo. voltando encontrei todos ainda na sala,
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caderno público de sonhos
segunda-feira, 28 de maio de 2012
tradição
você escreve umas coisas e vai vivendo. depois chego eu, tantos outros, qualquer um, como você foi um dia, e pego nas tuas coisas e começo a dizer coisas sobre elas. umas mais injustas do que outras, as coisas que se dizem são mais ou menos assim como as pessoas. o risco delas é que estão ligadas as pessoas, as coisas que se dizem: não uivam, nem apitam, ou se apitam e uivam é porque querem se aproximar daquilo que não são. esta brecha de encostar no outro com sentidos, sintagmas e convenções acaba por ter paredes curtas e teus ombros nelas raspam, riscando faíscas. com uma caixinha de fósforos se faz um livro, holograma de gente.
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tradição
domingo, 27 de maio de 2012
tradição
eu quero as coisas que tenham voz
suficiente para grudar na minha pele
despojos, feito tatuagem,
meus gritos de caça.
filiação.
ritos de anunciação (paisagem)
de qualquer coisa:
que ao se especificar
se torne
outra
independente. de mim, dela
mesma.
concentra-se.
como um sumo em pó
misturar na água
mexa com uma colher
lamba os beiços e fale: sim.
sou eu e vim pra ficar.
sou eu que me perco
cam ba le a ndo
entre as muletas dos velhos na calçada esburacada.
sou eu esses dentes.
sou a terra, a espécie, o esquecimento.
os pés das meias trocados.
sou eu, que não sou a lua, que sou
suficiente para grudar na minha pele
despojos, feito tatuagem,
meus gritos de caça.
filiação.
ritos de anunciação (paisagem)
de qualquer coisa:
que ao se especificar
se torne
outra
independente. de mim, dela
mesma.
concentra-se.
como um sumo em pó
misturar na água
mexa com uma colher
lamba os beiços e fale: sim.
sou eu e vim pra ficar.
sou eu que me perco
cam ba le a ndo
entre as muletas dos velhos na calçada esburacada.
sou eu esses dentes.
sou a terra, a espécie, o esquecimento.
os pés das meias trocados.
sou eu, que não sou a lua, que sou
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sexta-feira, 25 de maio de 2012
quinta-feira, 24 de maio de 2012
espessura e curvatura
"Idealmente, a linguagem do intercâmbio social deveria ser como a vidraça da janela; não deveríamos notar que ela se posta entre nós e o sentido "por trás" dela; mas quando os químicos recentemente desenvolveram um revestimento plástico que tornava inteiramente invisível o vidro sobre o que fora estendido, as conseqüências estiveram longe de ser satisfatórias: as pessoas davam de cara com o vidro. Se houvesse uma linguagem pura o bastante para transmitir toda a experiência humana sem distorção, não haveria nenhuma necessidade de poesia; mas uma linguagem assim não só não existe ela também não pode existir. A linguagem não pode fazer justiça a toda verdade humana mais do que a lei a todos os desejos humanos. Em sua própria natureza como um instrumento social, ela deve ser uma convenção, deve ordenar arbitrariamente o caos das experiências, facultando a expressão a algumas, negando-a a outras. Deve fornecer denominadores comuns e, assim, por força, ela falsifica, da mesma forma que a lei necessariamente inflige a injustiça. E essas falsificações serão tanto mais perigosas quanto mais "transparente" a linguagem parece se tornar, quanto mais inquestionavelmente ela for aceita como um meio que não leva à distorção. Não se trata da vidraça da janela mas, de preferência, de um sistema de lentes que concentra e refrata os raios de uma hipotética visão não mediada. O primeiro objetivo da linguagem poética, e das metáforas em particular, é o oposto de tornar a linguagem mais transparente. As metáforas intensificam uma consciência da distorção da linguagem, aumentando a espessura e a curvatura das lentes, e, assim, exagerando os ângulos de refração. Elas nos abalam em nossa cômoda convicção de que um túmulo é um túmulo. Elas são jogos semânticos de palavras, assim como os jogos de palavras são metáforas fonéticas; embora deixem intactos os sons das palavras, elas rompem com sua identidade semântica."
Sigurd Burckhardt, citado pelo Michael Hamburger em "A verdade da poesia".
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segunda-feira, 21 de maio de 2012
quinta-feira, 17 de maio de 2012
ontem duvidei
tristeza foi pensar que cansaço
de tristeza faz tanto tempo - eu nem sei bem desde quando que as estruturas de repente se abruptam, corredeira,
pedra que amoleço, tanto. rio de riso tudo
dúvida assim de ter dúvidas
dúvida de a tristeza ser de sempre, a minha
dúvida.
delicadeza que se assustou, a minha
doçura cura
e repentina assombra
passei o dia pura
cansada.
tristeza foi pensar que cansaço
de tristeza faz tanto tempo - eu nem sei bem desde quando que as estruturas de repente se abruptam, corredeira,
pedra que amoleço, tanto. rio de riso tudo
dúvida assim de ter dúvidas
dúvida de a tristeza ser de sempre, a minha
dúvida.
delicadeza que se assustou, a minha
doçura cura
e repentina assombra
passei o dia pura
cansada.
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agora que sou sincera
sonho assim: muitas vezes e repetidademente com caminhos de viagens que estou partindo, fazendo. interpreto isto sempre com a vontade de fugir. "se fujo, só dou em mim". depois atravesso, acordada, as âncoras de todo lugar.
(aprender a só ser, etc)
mas esta noite sonhei com um caminho entre árvores, muito verde. eu andava por ali sabendo que já tinha estado lá.
era a "Itália". eu sentia prazer de estar lá outra vez. não lembro muito, porém é tudo.
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caderno público de sonhos
há um retorno
tenho mãos para o indivisível
(será o indivisível aquele visto
que não perde um braço?)
fui e sou
capaz de tanta coisa
entre as abstrações e os canteiros
não temas
as conjunções, os travesseiros
desmontados pelo uso
as pernas dos dançarinos de twist
o analfabetismo matemático que reveste teus trocos
as gravações dos beatles têm uns quarenta e cinco anos
às vezes é tão redondo
que eu acho que é falso
as jóias irregulares de júlia.
(será o indivisível aquele visto
que não perde um braço?)
fui e sou
capaz de tanta coisa
entre as abstrações e os canteiros
não temas
as conjunções, os travesseiros
desmontados pelo uso
as pernas dos dançarinos de twist
o analfabetismo matemático que reveste teus trocos
as gravações dos beatles têm uns quarenta e cinco anos
às vezes é tão redondo
que eu acho que é falso
as jóias irregulares de júlia.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
coração
ele vai em casa
vê o teto e o correio
e você naquele momento em que atravessa o fim da página e começa um abismo
eu-ele que encontro a multiplicação
do espelho
turvo
em água que se beba
eu que encontro
eu que encontro ele
eu que
encontro
tinta da lógica
te desfaças daqui
vou abrir a cordilheira
ter mãos para o indivisível.
vê o teto e o correio
e você naquele momento em que atravessa o fim da página e começa um abismo
eu-ele que encontro a multiplicação
do espelho
turvo
em água que se beba
eu que encontro
eu que encontro ele
eu que
encontro
tinta da lógica
te desfaças daqui
vou abrir a cordilheira
ter mãos para o indivisível.
terça-feira, 15 de maio de 2012
circo arisco
o poeta é um orifício
por onde se respira
mil deles, ofício
antigo e massudo como ombros radicais
livres teus minhas ancas na coroação
olhos de dentro da montanha
ou quem tivesse a velocidade de ver uma cordilheira subir, estar presente.
por onde se respira
mil deles, ofício
antigo e massudo como ombros radicais
livres teus minhas ancas na coroação
olhos de dentro da montanha
ou quem tivesse a velocidade de ver uma cordilheira subir, estar presente.
sábado, 12 de maio de 2012
mambembe
hoje, desde o 25 de abril, é a quinta aglomeração de gente que eu vejo. meio que sem querer, ou não, passando na minha frente. ainda bem. eu vi:
- o 25 de abril chuvoso e triste na avenida da liberdade. onde um cravo custava um euro e estávamos todos sem entender.
- o 1 de maio na almirante reis com bastante gente usando vermelho (como eu na varanda assistindo passar) e uma menina um pouco mais nova que eu berrava no altifalante: "sou puta/ sou precária/ também sou proletária".
- uma procissão de são jorge, também embaixo da minha varanda. ela reunia todas as forças armadas e polícias nacionais com bué de católicos dos mais variados. entre os cavalos vinha um são jorge de mentira, um manequim em cima de um cavalo que balançava até parecia que caía. disse pro gustavo: É O DOM SEBASTIÃO tremelicando.
- na frente do parlamento, exibição de um filme-protesto com cem anos do cinema português ("realizados com a participação de pessoas de milhares de nacionalidades", disse a apresentadora). ato de ACORDAR a merda desse governo de merda.
- agora, na rua debaixo desse escritório, manifestação em frente ao prédio dos PALOP. sim,as línguas portuguesas são minhas vizinhas, e é uma manifestação de gente de guiné bissau. não consigo entender exatamente pelo que eles estão se manifestando, mas são todos negros e gritam com um ânimo nada europeu, o que alegrou o meu sábado.
pra além de que eles gritam abaixo sei lá o que abaixo sei lá o que mais e de repente
VIVA PORTUGAL
VIVA
VIVA MOÇAMBIQUE
VIVA
VIVA GUINÉ
VIVA
VIVA BRASIL
VIVA
etc. e carregam umas placas que falam tanto da nação como de deus, e eu fico mesmo
confusa.
na boca do povo.
- - -
adendo importante do 14 de maio, via marcos, entendi porque protestavam: http://pt.wikipedia.org/wiki/Golpe_de_Estado_na_Guin%C3%A9-Bissau_em_2012
- o 25 de abril chuvoso e triste na avenida da liberdade. onde um cravo custava um euro e estávamos todos sem entender.
- o 1 de maio na almirante reis com bastante gente usando vermelho (como eu na varanda assistindo passar) e uma menina um pouco mais nova que eu berrava no altifalante: "sou puta/ sou precária/ também sou proletária".
- uma procissão de são jorge, também embaixo da minha varanda. ela reunia todas as forças armadas e polícias nacionais com bué de católicos dos mais variados. entre os cavalos vinha um são jorge de mentira, um manequim em cima de um cavalo que balançava até parecia que caía. disse pro gustavo: É O DOM SEBASTIÃO tremelicando.
- na frente do parlamento, exibição de um filme-protesto com cem anos do cinema português ("realizados com a participação de pessoas de milhares de nacionalidades", disse a apresentadora). ato de ACORDAR a merda desse governo de merda.
- agora, na rua debaixo desse escritório, manifestação em frente ao prédio dos PALOP. sim,as línguas portuguesas são minhas vizinhas, e é uma manifestação de gente de guiné bissau. não consigo entender exatamente pelo que eles estão se manifestando, mas são todos negros e gritam com um ânimo nada europeu, o que alegrou o meu sábado.
pra além de que eles gritam abaixo sei lá o que abaixo sei lá o que mais e de repente
VIVA PORTUGAL
VIVA
VIVA MOÇAMBIQUE
VIVA
VIVA GUINÉ
VIVA
VIVA BRASIL
VIVA
etc. e carregam umas placas que falam tanto da nação como de deus, e eu fico mesmo
confusa.
na boca do povo.
- - -
adendo importante do 14 de maio, via marcos, entendi porque protestavam: http://pt.wikipedia.org/wiki/Golpe_de_Estado_na_Guin%C3%A9-Bissau_em_2012
fighting in the captain’s tower
They’re selling postcards of the hanging
They’re painting the passports brown
The beauty parlor is filled with sailors
The circus is in town
Here comes the blind commissioner
They’ve got him in a trance
One hand is tied to the tight-rope walker
The other is in his pants
And the riot squad they’re restless
They need somewhere to go
As Lady and I look out tonight
From Desolation Row
Cinderella, she seems so easy
“It takes one to know one,” she smiles
And puts her hands in her back pockets
Bette Davis style
And in comes Romeo, he’s moaning
“You Belong to Me I Believe”
And someone says, “You’re in the wrong place my friend
You better leave”
And the only sound that’s left
After the ambulances go
Is Cinderella sweeping up
On Desolation Row
Now the moon is almost hidden
The stars are beginning to hide
The fortune-telling lady
Has even taken all her things inside
All except for Cain and Abel
And the hunchback of Notre Dame
Everybody is making love
Or else expecting rain
And the Good Samaritan, he’s dressing
He’s getting ready for the show
He’s going to the carnival tonight
On Desolation Row
Now Ophelia, she’s ’neath the window
For her I feel so afraid
On her twenty-second birthday
She already is an old maid
To her, death is quite romantic
She wears an iron vest
Her profession’s her religion
Her sin is her lifelessness
And though her eyes are fixed upon
Noah’s great rainbow
She spends her time peeking
Into Desolation Row
Einstein, disguised as Robin Hood
With his memories in a trunk
Passed this way an hour ago
With his friend, a jealous monk
He looked so immaculately frightful
As he bummed a cigarette
Then he went off sniffing drainpipes
And reciting the alphabet
Now you would not think to look at him
But he was famous long ago
For playing the electric violin
On Desolation Row
Dr. Filth, he keeps his world
Inside of a leather cup
But all his sexless patients
They’re trying to blow it up
Now his nurse, some local loser
She’s in charge of the cyanide hole
And she also keeps the cards that read
“Have Mercy on His Soul”
They all play on pennywhistles
You can hear them blow
If you lean your head out far enough
From Desolation Row
Across the street they’ve nailed the curtains
They’re getting ready for the feast
The Phantom of the Opera
A perfect image of a priest
They’re spoonfeeding Casanova
To get him to feel more assured
Then they’ll kill him with self-confidence
After poisoning him with words
And the Phantom’s shouting to skinny girls
“Get Outa Here If You Don’t Know
Casanova is just being punished for going
To Desolation Row”
Now at midnight all the agents
And the superhuman crew
Come out and round up everyone
That knows more than they do
Then they bring them to the factory
Where the heart-attack machine
Is strapped across their shoulders
And then the kerosene
Is brought down from the castles
By insurance men who go
Check to see that nobody is escaping
To Desolation Row
Praise be to Nero’s Neptune
The Titanic sails at dawn
And everybody’s shouting
“Which Side Are You On?”
And Ezra Pound and T. S. Eliot
Fighting in the captain’s tower
While calypso singers laugh at them
And fishermen hold flowers
Between the windows of the sea
Where lovely mermaids flow
And nobody has to think too much
About Desolation Row
Yes, I received your letter yesterday
(About the time the doorknob broke)
When you asked how I was doing
Was that some kind of joke?
All these people that you mention
Yes, I know them, they’re quite lame
I had to rearrange their faces
And give them all another name
Right now I can’t read too good
Don’t send me no more letters, no
Not unless you mail them
From Desolation Row
[dylan, bob]
They’re painting the passports brown
The beauty parlor is filled with sailors
The circus is in town
Here comes the blind commissioner
They’ve got him in a trance
One hand is tied to the tight-rope walker
The other is in his pants
And the riot squad they’re restless
They need somewhere to go
As Lady and I look out tonight
From Desolation Row
Cinderella, she seems so easy
“It takes one to know one,” she smiles
And puts her hands in her back pockets
Bette Davis style
And in comes Romeo, he’s moaning
“You Belong to Me I Believe”
And someone says, “You’re in the wrong place my friend
You better leave”
And the only sound that’s left
After the ambulances go
Is Cinderella sweeping up
On Desolation Row
Now the moon is almost hidden
The stars are beginning to hide
The fortune-telling lady
Has even taken all her things inside
All except for Cain and Abel
And the hunchback of Notre Dame
Everybody is making love
Or else expecting rain
And the Good Samaritan, he’s dressing
He’s getting ready for the show
He’s going to the carnival tonight
On Desolation Row
Now Ophelia, she’s ’neath the window
For her I feel so afraid
On her twenty-second birthday
She already is an old maid
To her, death is quite romantic
She wears an iron vest
Her profession’s her religion
Her sin is her lifelessness
And though her eyes are fixed upon
Noah’s great rainbow
She spends her time peeking
Into Desolation Row
Einstein, disguised as Robin Hood
With his memories in a trunk
Passed this way an hour ago
With his friend, a jealous monk
He looked so immaculately frightful
As he bummed a cigarette
Then he went off sniffing drainpipes
And reciting the alphabet
Now you would not think to look at him
But he was famous long ago
For playing the electric violin
On Desolation Row
Dr. Filth, he keeps his world
Inside of a leather cup
But all his sexless patients
They’re trying to blow it up
Now his nurse, some local loser
She’s in charge of the cyanide hole
And she also keeps the cards that read
“Have Mercy on His Soul”
They all play on pennywhistles
You can hear them blow
If you lean your head out far enough
From Desolation Row
Across the street they’ve nailed the curtains
They’re getting ready for the feast
The Phantom of the Opera
A perfect image of a priest
They’re spoonfeeding Casanova
To get him to feel more assured
Then they’ll kill him with self-confidence
After poisoning him with words
And the Phantom’s shouting to skinny girls
“Get Outa Here If You Don’t Know
Casanova is just being punished for going
To Desolation Row”
Now at midnight all the agents
And the superhuman crew
Come out and round up everyone
That knows more than they do
Then they bring them to the factory
Where the heart-attack machine
Is strapped across their shoulders
And then the kerosene
Is brought down from the castles
By insurance men who go
Check to see that nobody is escaping
To Desolation Row
Praise be to Nero’s Neptune
The Titanic sails at dawn
And everybody’s shouting
“Which Side Are You On?”
And Ezra Pound and T. S. Eliot
Fighting in the captain’s tower
While calypso singers laugh at them
And fishermen hold flowers
Between the windows of the sea
Where lovely mermaids flow
And nobody has to think too much
About Desolation Row
Yes, I received your letter yesterday
(About the time the doorknob broke)
When you asked how I was doing
Was that some kind of joke?
All these people that you mention
Yes, I know them, they’re quite lame
I had to rearrange their faces
And give them all another name
Right now I can’t read too good
Don’t send me no more letters, no
Not unless you mail them
From Desolation Row
[dylan, bob]
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sexta-feira, 11 de maio de 2012
quarta-feira, 9 de maio de 2012
quero que se foda
não, isto não é fome.
é um desespero solícito.
um ódio fecundo, de tão leve.
havia uma relva aqui, então comi.
pra me deitar não posso esquecer
da pílula, os cinco dentes da frente
os outros (quantos são?) por lavar
quarenta e dois
quero que se foda
são 27 tirando os cinco
isto se você tiver juízo
e não quebrá-los
no primeiro pão da maturidade
que puxar. ou nas maçãs, meu pai!
sempre me avisou, meu pai
cuidado! com os dentes nas maçãs
e me dava serpentes, chinchilas, tive um caracol
hoje sou um raio, um gato, persa
hoje eu sou qualquer coisa
hoje é verão.
ontem me lembrei porque a bahia me faz tão
sagrada bahia. assim o seja,
tanto na terra como ao léu
fecunda os meus passos, torce
a coluna do filho da puta que feriu meu amigo.
tenho a bateria do radical:
sr. houaiss que me disse que
-arquia means poder, means
etc.,
i mean i was a cat
yesterday ao sol
hoje signore me dá
uma surra de cacto
me dá um signore, um cigarro
uma assinatura que me convença
o que é a lei a não ser uma borda de pizza, uma fronteira?
um convite a se retirar. a lei é um convite a se retirar.
beijo pros meus, adeus.
é um desespero solícito.
um ódio fecundo, de tão leve.
havia uma relva aqui, então comi.
pra me deitar não posso esquecer
da pílula, os cinco dentes da frente
os outros (quantos são?) por lavar
quarenta e dois
quero que se foda
são 27 tirando os cinco
isto se você tiver juízo
e não quebrá-los
no primeiro pão da maturidade
que puxar. ou nas maçãs, meu pai!
sempre me avisou, meu pai
cuidado! com os dentes nas maçãs
e me dava serpentes, chinchilas, tive um caracol
hoje sou um raio, um gato, persa
hoje eu sou qualquer coisa
hoje é verão.
ontem me lembrei porque a bahia me faz tão
sagrada bahia. assim o seja,
tanto na terra como ao léu
fecunda os meus passos, torce
a coluna do filho da puta que feriu meu amigo.
tenho a bateria do radical:
sr. houaiss que me disse que
-arquia means poder, means
etc.,
i mean i was a cat
yesterday ao sol
hoje signore me dá
uma surra de cacto
me dá um signore, um cigarro
uma assinatura que me convença
o que é a lei a não ser uma borda de pizza, uma fronteira?
um convite a se retirar. a lei é um convite a se retirar.
beijo pros meus, adeus.
terça-feira, 8 de maio de 2012
terça-feira, 1 de maio de 2012
(primeiro de maio)
é que um navio boiava na água acumulada de uma barragem, abriram as comportas, pés enormes, muito maiores do que os homens, empurraram-no aos pontapés na enxurrada. a embarcação arrebenta! cascos, madeiras, despedaçados!, já há água pelas gargantas, mas virão salvadores, os afogados que retiram dos vivos o ar. dizem que a coisa mais difícil de discernir num naufrágio é quem é poço, quem é lodo, quem é estrume. a aparente calmaria do dia de amanhã também será um sinal, do dilúvio.
domingo, 29 de abril de 2012
caminho a caminhar
Como nasce um poema?
Em andamento. Com os pés assentes na terra, com as palavras na cabeça. Do movimento nasce um ritmo, as palavras aproximam-se, imagens acompanham-me a passada, até mer forçarem a parar e escrevê-las. É então que nasce o poema: das coisas por que passámos. Que atravessámos. Que fizemos. Só está vivo aquilo que se mexe. Os poetas são coleccionadores. "Procuram com paciência para encontrar por acaso" (Valéry).
Encontrar o quê? Uma estrofe (sorte grande), um verso (sorte), uma imagem exacta (as imagens complicadas são quase sempre arbitrárias), um ritmo, uma palavra. O métier exige que se tomem igualmente, e desde logo, a sério todos os achados. Qualquer palavra se pode soltar da "pedreira do silêncio" (Stifter), pode incendiar-se como fogo de artifício ao roçar numa outra. Não são apenas as coisas que o poema faz surgir em contextos desusados; também as palavras são postas em movimento, libertas das amarras das suas significações habituais. O poeta tem de possuir aquele "olho fantástico" (Eichendorff) capaz de, num instante, aproximar as coisas mais distantes: nesses instantes as palavras abrem-se umas às outras.
O milagre: quando as palavras começam a transformar-se em poema, e de signos que nomeia a realidade passam a coisas que criam realidade. Uma realidade que obedece às leis, não da gravidade ou da gramática, mas da poesia, e que o poeta, juntamente com as palavras, reinventa em cada poema. Uma realidade das coisas verbais.
No processo de escrita assiste-se sempre à reacção das palavras umas para com as outras. Temos que deixar às palavras a sua vontade, que deixá-las à vontade. Por vezes, elas comportam-se como os objectos nas fitas de Chaplin, furtam-se de forma grotesca a todos os assédios, atravessam-se-nos no caminho e fecham-se-nos, até que por fim encontram os seus lugares certos, como por encanto. Cuidado com os adjectivos, esses lubrificantes emocionais!
No processo de escrita assiste-se sempre à reacção das palavras umas para com as outras. Temos que deixar às palavras a sua vontade, que deixá-las à vontade. Por vezes, elas comportam-se como os objectos nas fitas de Chaplin, furtam-se de forma grotesca a todos os assédios, atravessam-se-nos no caminho e fecham-se-nos, até que por fim encontram os seus lugares certos, como por encanto. Cuidado com os adjectivos, esses lubrificantes emocionais!
Há uma parte do caminho que nos é indicada pelas primeiras palavras, pelas imagens, pelo ritmo. Depois, é seguir o místico Ekkehart: ganc âne wec den smâlen stec: o caminho vai-se configurando com o andar. De cada passo nasce a força para o seguinte. Tanto dá se o caminho é pedregoso ou plano, se o poeta o percorreu de pé leve ou a coxear. Na arte não se trata de esforço e recompensa. O que conta é o resultado. O poema acabado não deve cheirar a suor. Não se deve ouvir o arrastar das correntes com que o artista dança (Nietzsche). Só intencionalmente. Mas qualquer poema escrito é melhor que o melhor dos poemas sonhados. E tem de vir de um andamento. Só assim nasce o poema. E o poeta.
de "ARS POETICA - Para os que gostam de fazer perguntas". In: A sede entre os limites. De Ulla Hahn, traduzido pelo João Barrento.
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sexta-feira, 27 de abril de 2012
barco ébrio
meu tronco está mudando
está mudando
está mudando de lugar
vinham os marinheiros e cantavam
meu tronco está mudando
está mudando
está mudando de lugar
há uma árvore, uma genealogia
tudo de ensaio no peito
beibe sucesso
beibe sossego
são as vogais deste enredo
tudo tão nítido se rebela.
está mudando
está mudando de lugar
vinham os marinheiros e cantavam
meu tronco está mudando
está mudando
está mudando de lugar
há uma árvore, uma genealogia
tudo de ensaio no peito
beibe sucesso
beibe sossego
são as vogais deste enredo
tudo tão nítido se rebela.
coragem
hoje acordei com todos os dentes
como se tivesse ido ao dentista
e um gosto de metal percorresse a garganta
depois da anestesia
bochechei toda a água no banho
cuspi
e o gosto de metal ainda aqui
é bom estar viva,
não?
nasci pra ter essa boca cheia de dentes
waly diria que sim
com as mãos com a cabeça com a boca
toda boa cheia de dentes
nas ancas viajo africana
o mapa que temos na casa de banho
é da europa eu disse
vamos trocar pelo da áfrica
preciso estudar todas as coisas
nunca nada deu tanto trabalho
larguei da yoga
era forte demais
preciso de cuidado
com meu melhor lugar: o da destruição regenerativa
este lugar, meu lugar melhor e ligeiro e rápido
gatilho, galho
se parto para brotar
vá com calma, é preciso ritmo
r i t m o
r i t o s
r i a
waly diria sim
como se tivesse ido ao dentista
e um gosto de metal percorresse a garganta
depois da anestesia
bochechei toda a água no banho
cuspi
e o gosto de metal ainda aqui
é bom estar viva,
não?
nasci pra ter essa boca cheia de dentes
waly diria que sim
com as mãos com a cabeça com a boca
toda boa cheia de dentes
nas ancas viajo africana
o mapa que temos na casa de banho
é da europa eu disse
vamos trocar pelo da áfrica
preciso estudar todas as coisas
nunca nada deu tanto trabalho
larguei da yoga
era forte demais
preciso de cuidado
com meu melhor lugar: o da destruição regenerativa
este lugar, meu lugar melhor e ligeiro e rápido
gatilho, galho
se parto para brotar
vá com calma, é preciso ritmo
r i t m o
r i t o s
r i a
waly diria sim
quinta-feira, 26 de abril de 2012
queremos saber
(...)You meet unkept Amyclas in a Soho restaurant and chant together of dead and forgotten things - it is a manner of speech among poets to chant of dead, half-forgotten things, there seems no special harm in it; it always be done. (...) Ezra Pound
sábado, 21 de abril de 2012
equipamentos, imaginações, massagens e outras motrizes
quando era pequena a coisa que eu mais gostava de fazer era imaginar.
logo percebi que o tempo passava mais rápido e utilizei toda a escola o recurso de desviar do rumor das salas de aula e estar e fazer em outro lugar.
mas nem só de imobilidade se viaja,
e menor entretinha as coisas ao redor em instrumentos, por exemplo: a bicicleta ergonométrica que vivia no meu quarto desde que havia ficado comprovado que ninguém nunca a usava, e sobrada do resto da casa, a bicicleta estática era o meu cavalo,
a primeira história que escrevi tinha um cavalo de uma menina chamada joana, que era como eu queria me chamar, não porque a jojô vizinha se chamasse assim, mas porque a cor do nome era vinho, terrosa,
tudo isso eu não percebia na altura. minha cor preferida era azul e era verde. é como falar "ele é meu melhor amigo", quer dizer, eu tenho uns 12 e eles são a fortaleza.
*
hoje é a palavra que mais aparece no livro que estou quase pra começar a terminar: cavalo.
*
talvez eu esteja conseguindo só a oscilação das coisas, de tanto que me esforço pra ater o ritmo das vibrações, como uma asa de borboleta ou pata de cão que pisa um trevo de quatro
flores no chão.
ou esteja desesperadamente ocupando as palavras antes de viver um treco que se chama poesia,
que segundo jean luc nancy existe. um amigo me contou de uma amiga que dorme com um ET.
durmo de mãos atadas
acordo de mãos furadas
me deito e é domingo
(domingo é o dia universal das saudades do brasil)
*
acho que muito antes de escrever minha mãe fazia de psicanalista dela. ou ouvido, em certo sentido, funil. com seis anos eu sabia tudo que deveria saber da memória da minha família e deve ser por isto que até hoje o pântano é grosso, escaldado
foi tipo tomar biotônico fontoura.
*
uns dois anos atrás, na casa da minha avó, em cima de um móvel onde só há fotografias, lado a lado: meu avô, foto de posse, reitor, catedrático, - - do lado eu, com sete anos, foto de passaporte (o passaporte que fizeram pra me trazer pra portugal) moleton roxinho e franjinha na altura das sombrancelhas, cabelo liso e comprido. passei reto, quando voltei, os olhos. os o-lh-os, não o desenho. o jeito das órbitas oculares, o mesmo, no meu avô e em mim.
senti um medo desgraçado. um orgulho misturado, do ímpeto.
e hoje em dia quando me apaixono pelo que acredito (antes não acontecia), entendo ele tanto, e sei que corro o risco de um dia me equivocar por fascínio.
*
na beira da piscina minha mãe pedia pra eu apertar os ombros dela, soltar os laços do pescoço com as costas. não sei dizer, mas só hoje, ainda massageando quem amo, entendi que não era possível, nem era uma régua, nem uma montanha, aquilo de duro que havia no meio da pele tão leve e macia. era minha mãe.
e, imaginando como tudo era, só agora começo a ler o corpo dela.
logo percebi que o tempo passava mais rápido e utilizei toda a escola o recurso de desviar do rumor das salas de aula e estar e fazer em outro lugar.
mas nem só de imobilidade se viaja,
e menor entretinha as coisas ao redor em instrumentos, por exemplo: a bicicleta ergonométrica que vivia no meu quarto desde que havia ficado comprovado que ninguém nunca a usava, e sobrada do resto da casa, a bicicleta estática era o meu cavalo,
a primeira história que escrevi tinha um cavalo de uma menina chamada joana, que era como eu queria me chamar, não porque a jojô vizinha se chamasse assim, mas porque a cor do nome era vinho, terrosa,
tudo isso eu não percebia na altura. minha cor preferida era azul e era verde. é como falar "ele é meu melhor amigo", quer dizer, eu tenho uns 12 e eles são a fortaleza.
*
hoje é a palavra que mais aparece no livro que estou quase pra começar a terminar: cavalo.
*
talvez eu esteja conseguindo só a oscilação das coisas, de tanto que me esforço pra ater o ritmo das vibrações, como uma asa de borboleta ou pata de cão que pisa um trevo de quatro
flores no chão.
ou esteja desesperadamente ocupando as palavras antes de viver um treco que se chama poesia,
que segundo jean luc nancy existe. um amigo me contou de uma amiga que dorme com um ET.
durmo de mãos atadas
acordo de mãos furadas
me deito e é domingo
(domingo é o dia universal das saudades do brasil)
*
acho que muito antes de escrever minha mãe fazia de psicanalista dela. ou ouvido, em certo sentido, funil. com seis anos eu sabia tudo que deveria saber da memória da minha família e deve ser por isto que até hoje o pântano é grosso, escaldado
foi tipo tomar biotônico fontoura.
*
uns dois anos atrás, na casa da minha avó, em cima de um móvel onde só há fotografias, lado a lado: meu avô, foto de posse, reitor, catedrático, - - do lado eu, com sete anos, foto de passaporte (o passaporte que fizeram pra me trazer pra portugal) moleton roxinho e franjinha na altura das sombrancelhas, cabelo liso e comprido. passei reto, quando voltei, os olhos. os o-lh-os, não o desenho. o jeito das órbitas oculares, o mesmo, no meu avô e em mim.
senti um medo desgraçado. um orgulho misturado, do ímpeto.
e hoje em dia quando me apaixono pelo que acredito (antes não acontecia), entendo ele tanto, e sei que corro o risco de um dia me equivocar por fascínio.
*
na beira da piscina minha mãe pedia pra eu apertar os ombros dela, soltar os laços do pescoço com as costas. não sei dizer, mas só hoje, ainda massageando quem amo, entendi que não era possível, nem era uma régua, nem uma montanha, aquilo de duro que havia no meio da pele tão leve e macia. era minha mãe.
e, imaginando como tudo era, só agora começo a ler o corpo dela.
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agora que sou sincera
começa assim, eu vou subindo uma montanha
sempre tem alguém do meu lado. então quando menos espero
a montanha vira este alguém, o alguém vira um pássaro que só ouço cantar depois
entre as árvores as folhas se mexem
noto o animal, a montanha se desfaz
areia nas mãos era
uma era nova se anuncia
sem profetas, nem profecias
me correspondo no egoísmo de perceber
que é mais do que o outro o que quero
sou
os dias têm estado tapados
uma âncora crescendo, é
vontade de chegar na hora em que se chega
mas o corpo antes, o corpo depois
o corpo tralalala, o corpo triluli
sinceramente, consigo
sempre tem alguém do meu lado. então quando menos espero
a montanha vira este alguém, o alguém vira um pássaro que só ouço cantar depois
entre as árvores as folhas se mexem
noto o animal, a montanha se desfaz
areia nas mãos era
uma era nova se anuncia
sem profetas, nem profecias
me correspondo no egoísmo de perceber
que é mais do que o outro o que quero
sou
os dias têm estado tapados
uma âncora crescendo, é
vontade de chegar na hora em que se chega
mas o corpo antes, o corpo depois
o corpo tralalala, o corpo triluli
sinceramente, consigo
sexta-feira, 20 de abril de 2012
tão paciente quanto voraz
Assustada sigo com os rumores
das saídas escuto as paredes
faço escudos quando só consigo
me abrir pro ritmo das coisas.
Atenção
o homem inventou o avião
a dança e a caça
e pensa em, dia desses, alicerçar o sol.
No entanto as plantas continuam mudas
e o ferro se roça todo por dentro do betão
se expande e espraia, a matéria
tem ritmos diferentes
e o atrito faz desarmar o concreto
armado em questão
de menos de um século .
Com a sua pá e as chaves
de nada o tempo abdica
a tudo o tempo esfarela.
Nós é que não temos velocidade pra ver
desaparecer a casa, as frutas, os limos
onde o passado e o futuro se dão
as mãos entregando à ruína, um instante
tudo, estudo, és tudo em transformação.
O mundo não é sólido,
meu bem, o edifício também.
Entre eles, considero o enorme chão.
Ossos na leva: areia de lava com água que lava,
foi o primeiro modo de fazer concreto do mundo.
Dia a dia, serás meu e misturarás o pó dos teus ossos com o pó dos meus.
O fogo afinal amacia o ferro e forma a ligadura da costela.
Tão paciente quanto voraz
enverga comigo, pra durar
a arma, amante
abraça comigo
o coração sem centro.
das saídas escuto as paredes
faço escudos quando só consigo
me abrir pro ritmo das coisas.
Atenção
o homem inventou o avião
a dança e a caça
e pensa em, dia desses, alicerçar o sol.
No entanto as plantas continuam mudas
e o ferro se roça todo por dentro do betão
se expande e espraia, a matéria
tem ritmos diferentes
e o atrito faz desarmar o concreto
armado em questão
de menos de um século .
Com a sua pá e as chaves
de nada o tempo abdica
a tudo o tempo esfarela.
Nós é que não temos velocidade pra ver
desaparecer a casa, as frutas, os limos
onde o passado e o futuro se dão
as mãos entregando à ruína, um instante
tudo, estudo, és tudo em transformação.
O mundo não é sólido,
meu bem, o edifício também.
Entre eles, considero o enorme chão.
Ossos na leva: areia de lava com água que lava,
foi o primeiro modo de fazer concreto do mundo.
Dia a dia, serás meu e misturarás o pó dos teus ossos com o pó dos meus.
O fogo afinal amacia o ferro e forma a ligadura da costela.
Tão paciente quanto voraz
enverga comigo, pra durar
a arma, amante
abraça comigo
o coração sem centro.
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poemas inutilizados do mar
quarta-feira, 18 de abril de 2012
vacilo
meu tourinho, a poesia
fugiu de mim.
foi dar em outra
parte - e eu aqui, filha
dela e conselheira,
devastada por um sono
de fim de tarde de domingo
mas ainda não entregue
eu não sei onde ela está
mas desconfio
que seja em algum
lugar entre os meus
seios, e a tua garganta
fugiu de mim.
foi dar em outra
parte - e eu aqui, filha
dela e conselheira,
devastada por um sono
de fim de tarde de domingo
mas ainda não entregue
eu não sei onde ela está
mas desconfio
que seja em algum
lugar entre os meus
seios, e a tua garganta
terça-feira, 17 de abril de 2012
não estou só
minha convicção dormiu seis anos
atravessou a rua
deu as mãos pro cisne, albatroz, gaivota
mas a verdade é que só há pombo
entrega, asa aberta
e do alto a trégua avisa
lá que eu vou chegar mais tarde
cheia da gente, do mundo
vou atravessar duna
tempestade, cidade
fazer versos como quem ora
por dentro do túnel do metrô
contaminada pelo cinza
vi do teto dele
água de concreto
notei estar no século
as tubulações têm cores
pra servirem de aviso
gás, eletricidade, cursores
em pouco tempo não
haverá um homem
que nunca tenha voado
já não há ninguém
que nunca tenha ouvido
um alarme disparado
vou de fones pela rua cinzenta
nunca sei se vêm da música
EU AQUI TENTANDO ESCREVER UM ALARME DISPARADO CLARO DAÍ FUI AO BANHEIRO E AO VOLTAR BATI A PORTA o alarme parou
atravessou a rua
deu as mãos pro cisne, albatroz, gaivota
mas a verdade é que só há pombo
entrega, asa aberta
e do alto a trégua avisa
lá que eu vou chegar mais tarde
cheia da gente, do mundo
vou atravessar duna
tempestade, cidade
fazer versos como quem ora
por dentro do túnel do metrô
contaminada pelo cinza
vi do teto dele
água de concreto
notei estar no século
as tubulações têm cores
pra servirem de aviso
gás, eletricidade, cursores
em pouco tempo não
haverá um homem
que nunca tenha voado
já não há ninguém
que nunca tenha ouvido
um alarme disparado
vou de fones pela rua cinzenta
nunca sei se vêm da música
EU AQUI TENTANDO ESCREVER UM ALARME DISPARADO CLARO DAÍ FUI AO BANHEIRO E AO VOLTAR BATI A PORTA o alarme parou
segunda-feira, 16 de abril de 2012
nunca me dei bem com linha reta,
(mas amo meus amigos)
as páginas são duplas, clica em exibir que dá pra ler
o fio de cabelo é meu mesmo.
as páginas são duplas, clica em exibir que dá pra ler
o fio de cabelo é meu mesmo.
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amigos amigos negócios reparte
me deixa na savana
"Escrevi para fornecer uma forma legível e apaziguadora aos momentos na porta do quarto, no parque, na rua vazia, defronte do rosto aparecido. Escrevi para trás numa espécie de engolfamento memorial. Não consegui nada, foi como continuar no quarto, no jardim, à frente das caras súbitas. Mas conheço agora a existência de uma pergunta inesgotável que se formula, se assim posso dizer, pela objectivação dos arredores evasivos, das alusões, dos sinais remotos.
(...)
Mas este poder, que é um poder mágico, comporta riscos: muitas vezes vira-se o feitiço contra o feiticeiro - uns enlouquecem, outros suicidam-se, há também aqueles que ficam misteriosamente mudos ou estéreis, e aqueles ainda que se põem às voltas a falar, o pior, os mortos sonoros: atiram poeira para cima, estes, seriam mais bonitos crucificados. Ora é precsio intoxicar-se com a paixão do perigo, desenvolver-se a gente dentro dessa paixão: porque o ouro e a prata se escondem em recessos de floresta, fundos de mina, terras depois da água. A paixão é a moral da poesia: arrisquem a cabeça se querem entender; arrisquem sobretudo o nome pessoal, para ouvirem o nome de baptismo como o coroado nome da terra. De sorte que esse tal poder é o da própria paixão: ninguém consegue aventurar-se na poesia coleccionando objectos - estátuas, estatuetas; jóias devem ser jóias vivas, olhos de leoas maternas, insuportáveis coisas que nos contemplam, morre-se de ser assim contemplado. E então é necessária uma nobreza indizível, por exemplo: fixar de frente os olhos maternos, leoninos, e os nossos olhos ficam calcinados - o episódio, conheciam-no os antigos: dizia-se que os deuses cegavam quem os olhasse. Refiro-me a essa nobreza: como se deixássemos de ser nós mesmos, uma espécie de impassibilidade enquanto se vai ficando cego na floresta das leoas."
Herberto, em auto-entrevista, na Inimigo Rumor, n.11.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
alternativa e aliteração
eu sou eu mesma vezes três. acordei pensando, dormi pensando, que eu ando desconvicta nessa tremedeira que é me interessar pela poesia.
começou assim: quinta-série, a professora me disse que poema não tinha que rimar. curioso que eu tenha começado pela liberdade, depois continuei tentando.
vou estudar métrica, um romance, fazer
bangalô na prainha do coração
se eu parasse de escrever/ ah se eu parasse.
esse papo do escritor que não consegue escrever, esse papo do escritor que não consegue ficar sem escrever, esse papo
papada de diamante, papaya as velha come e depois dão as casca pros sabiá
obalalá
é assim
você tem um namorado português
e assiste com ele um seriado norte-americano
com legendas do brasil
ele ri de uma palavra, em especial
desde então você se chama "birita"
você tem um namorado português
e assiste com ele um seriado norte-americano
com legendas do brasil
ele ri de uma palavra, em especial
desde então você se chama "birita"
quinta-feira, 12 de abril de 2012
o cotidiano não vai nos separar, amor
eu queria me depilar com bandas de cera que só usei em portugal
em cima do carpete que aqui é alcatifa
cinza chumbo
ele abria meu armário debaixo da escrivaninha da minha adolescência
e tirava lá de dentro o videogame da minha infância
MEGA DRIVE
e eu não podia me depilar porque ele ficava perguntando
como ligava.
-
ele sonhou que eu acabava com o papel higiênico.
em cima do carpete que aqui é alcatifa
cinza chumbo
ele abria meu armário debaixo da escrivaninha da minha adolescência
e tirava lá de dentro o videogame da minha infância
MEGA DRIVE
e eu não podia me depilar porque ele ficava perguntando
como ligava.
-
ele sonhou que eu acabava com o papel higiênico.
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caderno público de sonhos
sexta-feira, 6 de abril de 2012
sou sou souuuu
a verdade
vocês já sabem
é que eu estou sem internet
a outra verdade
é que eu não sei mais escrever
EU ESTOU LIVRE
vocês já sabem
é que eu estou sem internet
a outra verdade
é que eu não sei mais escrever
EU ESTOU LIVRE
É GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL
não é simples estar feliz em um mundo
triste, de pessoas tristes, de animais enfezados
por isso a tranquilidade, HÁ TRANQUILIDADE AQUI?
onde eu me sento, li uma biografia de jornal do gandhi, que era um homem não só de qualidades,
foi o que a biografia me disse O DESFAZER DO MITO que época chata, meu deus, sem deus, a vida, a época chata, seus caçadores de mitos
eu quero a minha verdade bem embalada e feroz,
que ela venha com a força de um carrinho de supermercado quando desce a ladeira do jack ass
hhhhhhhhá três coisas que eu gosto de começar
colher, comer e garfo
quando tenho dentes suficientes eu os limpo
a partir daqui vou começar a escrever algo com algo
algoquesignifiquepravocêumacoisalinda
tão vagabundamente linda, perniciosa de linda, pernas longas longas longas como cílios
triste, de pessoas tristes, de animais enfezados
por isso a tranquilidade, HÁ TRANQUILIDADE AQUI?
onde eu me sento, li uma biografia de jornal do gandhi, que era um homem não só de qualidades,
foi o que a biografia me disse O DESFAZER DO MITO que época chata, meu deus, sem deus, a vida, a época chata, seus caçadores de mitos
eu quero a minha verdade bem embalada e feroz,
que ela venha com a força de um carrinho de supermercado quando desce a ladeira do jack ass
hhhhhhhhá três coisas que eu gosto de começar
colher, comer e garfo
quando tenho dentes suficientes eu os limpo
a partir daqui vou começar a escrever algo com algo
algoquesignifiquepravocêumacoisalinda
tão vagabundamente linda, perniciosa de linda, pernas longas longas longas como cílios
quinta-feira, 29 de março de 2012
Cabe a ti se separar da mente e descobrir os relevos das diferenças / delegar para um lugar desconhecido aquele que em ti escolhe/ mas o que me organiza é justamente pensar/ justamente, / retirar do caldo aquilo antes que caia,/ que vira um magma vivo, eu só revelo o magma vivo de um bochechar de boca / um cavalo tem dentes uma mulher também/ e o que se pensa enquanto se cospe a água / capacidade / média do pensamento é de mil coisas por pestanejar / eu transformei um tubo de acesso/ um tubo de acesso que sou eu/ me transformei/ acesso ao quê? / Ao resgate.
terça-feira, 27 de março de 2012
quinta-feira, 22 de março de 2012
lx news
lavei as cortinas de veludo azul, dei um armário pra um desconhecido que estava dentro de casa quando cheguei da rua. é que eu não moro mais aqui. agora tenho que ir.
corisco e concreto são irmãos
Quando passo dias assustada, só consigo me abrir para o ritmo das coisas. Para se fazer tudo finge durar para sempre. Mas aprendi com você que o ferro faz atrito por dentro do betão, se expande e espraia, a matéria tem ritmos diferentes e isto faz desarmar o concreto armado em questão de menos de um século. Somos tão modernos que incluímos o deixar de ser. Com a sua pá e as suas chaves, de nada o tempo abdica e a tudo esfarela. A sala desta conversa está a se desfazer na velocidade do que a gente não enxerga. As casas, as frutas, os livros, os olhos que você deixa pousar um instante, tudo, estudo, és tudo em transformação. Sinto o bafo do caminho e por ele tento guiar meus passos.
Faz da insegurança a sua força. O mundo não é sólido, meu bem, o edifício também. Entre eles, considero o enorme chão. Ossos na leva: areia de lava com água que lava, foi o primeiro modo de fazer concreto do mundo. Certos conhecimentos se acumulam. O fogo afinal amacia o ferro e forma a ligadura da costela. Dia a dia, serás meu e misturarás o pó dos teus ossos com o pó dos meus. Enverga comigo, para durar. A arma, amante. Dois arcos e uma flecha que assalta. Abraçamos o coração sem centro. Você diz que é de noite que o céu se mostra como é, o azul diário é uma fábula do sol quando atravessa a atmosfera. E eu que andava evitando o noturno, descubro o andaime, monto nele e pego os raios com as mãos.
sábado, 17 de março de 2012
terça-feira, 13 de março de 2012
útil 2
o papel fino que comprei
é para máquina de escrever
o papel do word e afins
acabou.
o papel fino estava em promoção.
a impressora imprime minha dissertação
no papel fino que comprei
mas não meus poemas
do destino do mar
como ondas a impressora
engasga e engole
se tivesse na praia
atirava na água a impressora
qualquer promoção
virava musgo
meu livro também
é para máquina de escrever
o papel do word e afins
acabou.
o papel fino estava em promoção.
a impressora imprime minha dissertação
no papel fino que comprei
mas não meus poemas
do destino do mar
como ondas a impressora
engasga e engole
se tivesse na praia
atirava na água a impressora
qualquer promoção
virava musgo
meu livro também
útil
o papel fino que comprei
pra usar na máquina de escrever
na papelaria fernandes
que está sempre a falir
a falir e se reconstruir
em promoções das mais variadas
o papel fino que comprei
é para usar na valentine
porém acabou o papel
o outro para word e afins
então o papel fino que comprei
ele imprime minha dissertação
mas o poemas do destino do mar
não
o papel fino que comprei
engole a impressora
quando imprime poemas
não sei se é uma retaliação
ou somente uma ação
conjunta da valentine
da papelaria fernandes
do chiado dos papéis
dos prazos
dos afins
de engolir papel
pra usar na máquina de escrever
na papelaria fernandes
que está sempre a falir
a falir e se reconstruir
em promoções das mais variadas
o papel fino que comprei
é para usar na valentine
porém acabou o papel
o outro para word e afins
então o papel fino que comprei
ele imprime minha dissertação
mas o poemas do destino do mar
não
o papel fino que comprei
engole a impressora
quando imprime poemas
não sei se é uma retaliação
ou somente uma ação
conjunta da valentine
da papelaria fernandes
do chiado dos papéis
dos prazos
dos afins
de engolir papel
segunda-feira, 12 de março de 2012
should be more drastic
As fases nas quais
eu me identifico
com o Bob Dylan
são muito boas.
eu me identifico
com o Bob Dylan
são muito boas.
Minha vida começou no infinito
e vai terminar no apocalipse.
Minha vida começou no apocalipse
e vai terminar no infinito.
e vai terminar no apocalipse.
Minha vida começou no apocalipse
e vai terminar no infinito.
Faço uma estrofe
de cada lado
que é para não tropeçar.
de cada lado
que é para não tropeçar.
Os poetas re-encarnam?
, você acha que os poetas re-encarnam
ou que eles são a mula sem quatro-cabeças?
, você acha que os poetas re-encarnam
ou que eles são a mula sem quatro-cabeças?
Gosto dos sons que as crianças emitem.
A melhor coisa que elas inventaram foi a primavera.
A melhor coisa que elas inventaram foi a primavera.
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