quarta-feira, 27 de junho de 2012

ternura

minha mãe tão
justa, pela justiça enfeitiçada.
eu: feiticeira do critério.
oscilaria quanto mais
fosse preciso, mas agora
vou dizer: tu és a minha
carne, ó dor (ó mãe), e
eu sou a tua voz e
te farei quantas vezes sofrer
por nós.

terça-feira, 26 de junho de 2012

instruções para melhorar as coisas

o comandante trouxe uma bandeja com os dejetos. havia três olhos nela. por conta da falta de um para dois pares, logo se pensou que o olho que sobrava ainda estaria nas órbitas de alguém, que havia perdido, portanto, um. 

ah! se no mundo tantas coisas fossem lógicas como aquela bandeja.

- - -

tive um avião, tive um comandante.
fui feliz.
hoje, o avião quando sobe apita. o comandante foi beber água
beber água
e saltou.


- - -

se fosse possível trazer uma estrela da próxima vez?


- - -

respire uma vez
respire outra
respire uma vez
respire outra
respire uma vez
respire outra
respire respire
respire respire
reprise

- - -

seja, você também, o verão dos seus contemporâneos.

No hay poema en sí, sino en mí o en tí.

Don Octavio, el amor.

domingo, 24 de junho de 2012

ou a pangéia craquelasse um cadinho mais lá

estou com sinceras impressões
de que hoje é janeiro
se houvesse manga, era bahia
e que caetano quando compôs
baby "vivemos na melhor
cidade da América do Sul"
se referia à Lisboa.

se a crise é "européia" achei
a solução;

sexta-feira, 22 de junho de 2012

o melhor lugar do mundo

o melhor lugar do mundo
é o mundo. se eu me chamasse raimundo
talvez não tivesse cortado o cabelo ontem.
hoje a grécia vai eliminar a alemanha.
ontem depois do jogo
quis vos dizer: é bom vê-los felizes.
depois eram 4h da manhã e acordei com uns gajos gritando
ainda lá embaixo
a vitória. achei melancólico.
não perdi o sono.
o primeiro dia do verão é hoje.
e eu sou uma aventura
enrolada entre os galhos
uma andorinha se esconde
ainda não é hora de guardar
nem de tirar as mantas
esse verão mais frio do que o frio.
mas hoje esquentou
e eu tenho onde ir
quem amar e
o hábito de dizer três coisas
diferentes e completamentares.

realce

eu ontem comecei a escrever também aqui
quem faz pesquisa é o google, eu estudo.

El remedio contra la sensación y su dispersión instantánea es la reflexión. Entre una sensación y otra, entre un instante y otro, la reflexión interpone una distancia que también es un puente: una medida. Esa distancia se llama ritmo, también se llama símbolo e idea. 

Don Octavio, el perseguidor.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

propício

tudo tão só
no próprio lugar
que nem me interessa escrever um poema
a não ser que ele fale
do próprio lugar
em que tudo está.

os acontecimentos
como são? e o amor?
entretanto dizem tanto
não sei se vertigem
rumor da água
o princípio do caos.

os seixos shhhhhhh
rolam fazem ssssss
ilêncio tinha três filhos
ilêncio filho, ilhota e ilharga.
deles agora resta o aroma.
ponho os pés sobre a mesa.
o isqueiro que acabou
tanta coisa
pra se pensar.

não definhar
na insistente, hi-
     per dura
     vida.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

13/03/12 (à máquina)

no autocarro pensei em fazer uma série no livro de poemas de retratos familiares. depois lembrei que [...] sem dúvida outro seria para o meu vô [...]

       meu avô era tipo marlom brando
       que depois empenou como uma pipa de massa
       os portugueses gostam de gordura
       que é uma forma de aliciamento do desejo
       da matéria.
o que mais interessa falar no caso desse vô é dos olhos.
        meu avô me regulava os corredores escursos
        e xxxxxxxxxx o sexo infantil dos objetos macios
        seu olhar morto viajava pela criança que fui
        e foi bem mais tarde que as duas fotografias
        em cima do móvel da casa da minha vó
        que notei no meu olhar de sete anos
        o moleton roxinho e a franja cortadinha
a foto para o passaporte para vir conhecer
aos sete anos esse país onde vim viver
e da onde meio que meu avô era
e pra onde veio concluir, em coimbra, os
estudos, com a minha vó, muito apaixonados
vê-se nas fotos - - - mas em cima do móvel
denso da minha vó, a fotografia dele era muito
maior e de outra oficialidade, uma foto de cargo
a cabeça inclinada, catedrático ou reitor, mas o olhar
o modo de olhar, o ângulo meio vesgo e aquático
perfurático e diretivo, do meu avô aos 40 e tantos
era idêntico, era o meu aos 7 anos.
esse olhar de ter idéias, ainda me acompanha
hoje.      nem sempre, talvez
               as melhores.

[...]
essa noite eu sonhei
(tão óbvio)
que eu tinha cavalos
no lugar dos pulmões

quarta-feira, 13 de junho de 2012

homens que

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

#

Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltados para a velhice
Muito danificados pelas intempéries

Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior

# #

Amanhecemos sem materiais suficientes para a luz total
Embora nos estiquemos como cabras nos penhascos para os arbustos
Mais tenros, esticamo-nos para não nos doer a lembrança
Das manhãs tão sossegadas dos cavalos nos pastos

Explico que amanhecemos mastigando as ervas venenosas
Buscando um som mais poderoso do que o bater dos cascos
Um balido interior reunindo rebanhos
Uma palavra fonte múltipla como o úbere das cabras

Amanhecemos cheios de sede como se viéssemos de um outro hemisfério
Num galope rápido
Esticando-nos como arbustos tenros chamando
Amanhecemos nocturnamente fincando os joelhos nos penhascos
Levantamo-nos para sacudir as crinas para escovar os cavalos

Amanhecemos sem braçados bastantes para a luz
Queimados pelas palavras.
Organizamos rebanhos junto das águas
Andamos nas margens no meio da tarde.
Esticamo-nos para seremos setas de fogo
Ou o som dos chocalhos trespassando
Os mais tenros rebentos das chamas.



(poemas do Daniel Faria, de "Homens que são como lugares mal situados".)

domingo, 10 de junho de 2012

os alquimistas estão chegando

eu chegava numa casa suspensa por colunas, e o chão dela por baixo era todo gramado. eram duas casas vizinhas, uma muito bem cuidada, a outra não tanto. eram como imagens do passado e do presente. a do passado estava mais arruínada, impressionava o desgaste, mas também se notava o mais simples: de que não havia nada lá, além de muita atmosfera de tudo. a entrada nelas era por alçapões embaixo, mas como o terreno ficava em declive, as faces da frente delas também tinham janelas. não era minha casa, mas eu tinha sido convidada, e havia muita gente lá. 

eu procurava por um cão que era da casa, e encontrava num velho tanque, improvisado, uma casinha para filhotes de cães que tinham nascido faz pouco. quando pegava um deles, era o cão mais lindo do mundo, e já tinha uns seis anos. uma espécie de basset hound, só que com a pelagem escura e brilhante, e com uma crista feito a de um cavalo. andávamos pelo terreno, éramos amigos.

repentinamente eu estava no centro do terreno, aquele lugar era uma vila medieval e queriam me enforcar. perguntavam o que eu queria, que eu tinha ido ali roubar o capitão. eu dizia "não, o que quero é o cachorro do capitão". então eu virava um navegante japonês, samurai, umas roupas do século XIX, me davam um barco à vela e o cão.

eu via no sonho eu navegante com o cão, navegando no mar sem tamanho, que era azul azul azul, e brilhante, todo ondulado como se eu visse montanhas no mar. um mar de lona, mas não, mar de água. minha vela cortava o oceano, o cão era meu, tão maior o azul.

sábado, 9 de junho de 2012

um volkswagen blues

está no forno a tradução que acabei de fazer de uma caixa de massa "bambino". acho que significa "lasanha" em alemão.

eu tinha escrito isso no facebook e daí vi que portugal acabou de perder da alemanha, não tinha nada a ver acharem que eu tava falando disso.

então era outra coisa que eu ia escrever aqui, mas acabou saindo isso. a vida é assim, cheia de encontros. puta merda.

terça-feira, 5 de junho de 2012

a única coisa que você não pode me pedir é pra que eu seja indiferente.

da minha geração, o que não me interessa

em se fazendo brilhantina tudo dá

pop-poética
é a estetização da estetização;
a estetização da crítica
é o pensamento com medo de baralhar os cabelos;
a estetização da indiferença
é a agulha do dandy no olho do teu cu.

o poeta é a antena da praça

o mundo cada vez mais difícil
e eu cada vez mais frágil. penso em poetas mortos, que foram mortos. alguém disse que os poetas já não significam tanto que não seriam mortos por um regime totalitário. mas o totalitarismo mudou. é tanta coisa pra pensar.


saber das coisas eu não sei. não. tanto que tua voz entrecortada pelo vento da praia
parte em mim um raio
cúbicos de pele.
ter mãos, ossos, rastros
pra indicar o caminho.


posso dizer aos outros pra que pensem com o coração das coisas, e dizer até pra que pensem com o corpo do corpo,
mas em mim a revolta do corpo é pensar. e pensar é o cinzel
dura bruta
matéria
fino passo, trote
galope.

e a metade árvore
o raio abre
um tronco em dois.

do quebrado nasce um deus:
entrega & medo, cavalo.

doce cavalo, peço
com a tua língua impura
por onde passar
tece e cicatriza

amor.

domingo, 3 de junho de 2012

domingo. ontem fiz um bolo de maçã. hoje passo a tarde, ainda não passei a tarde, digo. acordo e passo inseticida no chão do quarto e no chão da sala, um preventivo, que o verão traz em lisboa pulgas & baratas, outros afins. mas o inseticida acaba antes da casa toda e um domingo tão lindo, as mortes terão de esperar. calculo um passeio a pé daqui até belém são quase dez quilómetros. acho que é o suficiente. mas terei de esperar o sol baixar e me perguntar se quero ir mesmo  - e não ir comprar mais inseticida. já limpei os vidros, a roupa a lavar. ou eu que não sei mais descansar sem cansar. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

poemas do destino do mar

do livro que estou pra terminar, "poemas do destino do mar", inédito como a vida:

XXV

Quem fundou esta cidade
foi fundo o suficiente?
Quem veio por aqui primeiro
será que eram dois ou vinte ou duzentos
estavam armados
com mais fome do que fé?
Calcularam pelos astros,
Ou vinham tranqüilos
gestantes do acaso
nem se noticiaram a notícia da nova povoação
foram percebendo aos séculos que ficavam, dias
após
que a cada noite dormiam
todo solo tem um imã que nos puxa ou repele
Ou a cada noite dormiam mais tarde
de tão próximos uns dos outros que estavam
começavam a se identificar uns com os outros
até que de outros viraram os mesmos
um povo, uma língua, uma situação,
porque tinham tanta noite por fazer e por falar
Que brigavam
por honra e tédio,
nasceu a cidade.
E bebiam vinho?
E comiam batata?
Só muito mais tarde amuraram
Notaram que o cume os defenderia?
Ou subiram pelo esmero da montanha
e as lavadeiras reclamariam
de ter que viver ao topo e descer dia a dia,
Ou naquele tempo as pessoas de nada reclamavam
ou ainda não havia lavadeiras
porque eram nômades e todos faziam de tudo
ou porque nada limpavam
Ou porque passavam o dia a se lavar
gostavam da água, chapinhar, boiavam imensos
abraços no rio, bolinhas pelo nariz
e sempre muito limpos cheiravam uns as partes dos outros
Com o mesmo amor de quando te olho de cima, cidade,
notaram que você nem sempre esteve aqui
embora esteja e estará por mais tempo do que eu,
Não se deve comparar casas com homens, ruas com homens
mas eu comparo tudo com homens
e por vezes escolho as casas, os homens, as cidades
mas quase sempre estou vendo a cidade por dentro dela demais
e todo mundo sabe que um coração é um labirinto de monóxido de carbono
que o digam os centros das nossas cidades
Os centros das nossas cidades já não fedem a estrume
embora neles floresçam outras pestes
e enquanto olho atenta cidade por cima
dá um vento aqui - é tão alto – e meus ossos doem por dentro.
É inverno e o inverno nos enche de frio, de dúvidas e de ossos
De se quando chegaram nesta cidade
os primeiros habitantes
muito antes de ser uma cidade
muito antes de haver habitantes
quando lá descansaram – porque ainda não era
aqui, - a cidade não lá começou perto do rio? –
um homem e uma mulher se comeram
– como nós também – é inevitável –
encontraremos cidades por fecundar.



spread your wings

com tanto sono. escrevendo
como o vinícius de moraes falando em espanhol
só que em português.

não há café que me ensine a escrever o jacarandá ali no fim do pátio.
(sim, há jacarandás em lisboa e eles florescem na primavera como tudo).

não sei o que achariam os avaliadores (projeções do inevitável) se soubessem os níveis de *** com que produzi estas provas. creio que reprovariam um aviador profissional, ou um ciclista em competição internacional. pra mim, no máximo, algumas vírgulas terão de ser sanadas e se do acidente restar um olho, ele É MEU.

a boa casa ao filho torna

O homem público no. 1 (Antologia)

Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.


[Ana Cristina Cesar, do "A teus pés".]

terça-feira, 29 de maio de 2012

preparações para o fim de ano

[ ] estamos em movimento, não sei para onde. minha família, eu, papai, mamãe, irmão. estamos no condomínio da casa onde meu irmão viveu depois de casar (lugar do qual me lembrei semana passada, e por onde andei, e por onde lembrei que andava. e tinha desaparecido desde então da minha memória essa liberdade pouco-livre, andar por onde quiser em direção ao sol e a terra seca na margem do asfalto, subindo pelos tênis, mas num condomínio fechado) e tínhamos que mudar de casa. aliás, precisávamos trocar de casas muitas vezes, e sempre com todos os cães. com todos os cães que já tivemos juntos, numa sala. era a farra dos cães, eles não podiam fugir, e viva a selvageria! as mudanças se tornavam tarefas quase impossíveis. me lembro que tentei uma incursão mais sozinha (porque ninguém se movia do fundo da sala), abri a porta para sair, com o grude no colo

(sim, tivemos um cãozinho basset de nome grude, que nasceu no mesmo dia que meu pai, em outro ano, certamente. o grude era epilético, tinha perebas na barriga de alergia dos produtos de limpeza por sua barriga roçar no chão, o grude mordia as canelas dos meus amigos meninos quando entravam pela garagem e meu irmão o chamava de grudezila).

não sei porque, mas tive que voltar, com o grude no colo. voltando encontrei todos ainda na sala,

segunda-feira, 28 de maio de 2012

tradição

você escreve umas coisas e vai vivendo. depois chego eu, tantos outros, qualquer um, como você foi um dia, e pego nas tuas coisas e começo a dizer coisas sobre elas. umas mais injustas do que outras, as coisas que se dizem são mais ou menos assim como as pessoas. o risco delas é que estão ligadas as pessoas, as coisas que se dizem: não uivam, nem apitam, ou se apitam e uivam é porque querem se aproximar daquilo que não são. esta brecha de encostar no outro com sentidos, sintagmas e convenções acaba por ter paredes curtas e teus ombros nelas raspam, riscando faíscas. com uma caixinha de fósforos se faz um livro, holograma de gente.

domingo, 27 de maio de 2012

tradição

eu quero as coisas que tenham voz
suficiente para grudar na minha pele
despojos, feito tatuagem,
meus gritos de caça.
filiação.

ritos de anunciação (paisagem)
de qualquer coisa:
que ao se especificar
            se torne
            outra
independente. de mim, dela
            mesma.

concentra-se.
como um sumo em pó
misturar na água
mexa com uma colher
lamba os beiços e fale: sim.

sou eu e vim pra ficar.
sou eu que me perco
            cam ba le  a   ndo
entre as muletas dos velhos na calçada esburacada.
sou eu esses dentes.
       sou a terra, a espécie, o esquecimento.
os pés das meias trocados.
sou eu, que não sou a lua, que sou

sexta-feira, 25 de maio de 2012

quinta-feira, 24 de maio de 2012

espessura e curvatura

"Idealmente, a linguagem do intercâmbio social deveria ser como a vidraça da janela; não deveríamos notar que ela se posta entre nós e o sentido "por trás" dela; mas quando os químicos recentemente desenvolveram um revestimento plástico que tornava inteiramente invisível o vidro sobre o que fora estendido, as conseqüências estiveram longe de ser satisfatórias: as pessoas davam de cara com o vidro. Se houvesse uma linguagem pura o bastante para transmitir toda a experiência humana sem distorção, não haveria nenhuma necessidade de poesia; mas uma linguagem assim não só não existe ela também não pode existir. A linguagem não pode fazer justiça a toda verdade humana mais do que a lei a todos os desejos humanos. Em sua própria natureza como um instrumento social, ela deve ser uma convenção, deve ordenar arbitrariamente o caos das experiências, facultando a expressão a algumas, negando-a a outras. Deve fornecer denominadores comuns e, assim, por força, ela falsifica, da mesma forma que a lei necessariamente inflige a injustiça. E essas falsificações serão tanto mais perigosas quanto mais "transparente" a linguagem parece se tornar, quanto mais inquestionavelmente ela for aceita como um meio que não leva à distorção. Não se trata da vidraça da janela mas, de preferência, de um sistema de lentes que concentra e refrata os raios de uma hipotética visão não mediada. O primeiro objetivo da linguagem poética, e das metáforas em particular, é o oposto de tornar a linguagem mais transparente. As metáforas intensificam uma consciência da distorção da linguagem, aumentando a espessura e a curvatura das lentes, e, assim, exagerando os ângulos de refração. Elas nos abalam em nossa cômoda convicção de que um túmulo é um túmulo. Elas são jogos semânticos de palavras, assim como os jogos de palavras são metáforas fonéticas; embora deixem intactos os sons das palavras, elas rompem com sua identidade semântica."

Sigurd  Burckhardt, citado pelo Michael Hamburger em "A verdade da poesia".

(clica na imagem, ela abre um link com igual imagem, clica na imagem de novo e tcharans! pdf.)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

tipo


quinta-feira, 17 de maio de 2012

ontem duvidei
tristeza foi pensar que cansaço
de tristeza faz tanto tempo - eu nem sei bem desde quando que as estruturas de repente se abruptam, corredeira,
pedra que amoleço, tanto. rio de riso tudo
dúvida assim de ter dúvidas
dúvida de a tristeza ser de sempre, a minha
dúvida.

delicadeza que se assustou, a minha
doçura cura
e repentina assombra

passei o dia pura
cansada.
sonho assim: muitas vezes e repetidademente com caminhos de viagens que estou partindo, fazendo. interpreto isto sempre com a vontade de fugir. "se fujo, só dou em mim".  depois atravesso, acordada, as âncoras de todo lugar.

(aprender a só ser, etc)

mas esta noite sonhei com um caminho entre árvores, muito verde. eu andava por ali sabendo que já tinha estado lá. 























era a "Itália". eu sentia prazer de estar lá outra vez. não lembro muito, porém é tudo.

há um retorno

tenho mãos para o indivisível
(será o indivisível aquele visto
que não perde um braço?)

fui e sou
capaz de tanta coisa
entre as abstrações e os canteiros

não temas
as conjunções, os travesseiros
desmontados pelo uso

as pernas dos dançarinos de twist
o analfabetismo matemático que reveste teus trocos
as gravações dos beatles têm uns quarenta e cinco anos

às vezes é tão redondo
que eu acho que é falso
as jóias irregulares de júlia.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

coração

ele vai em casa
vê o teto e o correio
e você naquele momento em que atravessa o fim da página e começa um abismo

eu-ele que encontro a multiplicação
                              do espelho
                               turvo
em água que se beba
eu que encontro
eu que encontro ele
eu que
            encontro

tinta da lógica
te desfaças daqui
vou abrir a cordilheira
ter mãos para o indivisível.

terça-feira, 15 de maio de 2012

circo arisco

o poeta é um orifício
por onde se respira
mil deles, ofício

antigo e massudo como ombros radicais
livres teus minhas ancas na coroação 

olhos de dentro da montanha 

ou quem tivesse a velocidade de ver uma cordilheira subir, estar presente.

sábado, 12 de maio de 2012

mambembe

hoje, desde o 25 de abril, é a quinta aglomeração de gente que eu vejo. meio que sem querer, ou não, passando na minha frente. ainda bem. eu vi:

- o 25 de abril chuvoso e triste na avenida da liberdade. onde um cravo custava um euro e estávamos todos sem entender.
- o 1 de maio na almirante reis com bastante gente usando vermelho (como eu na varanda assistindo passar) e uma menina um pouco mais nova que eu berrava no altifalante: "sou puta/ sou precária/ também sou proletária".
- uma procissão de são jorge, também embaixo da minha varanda. ela reunia todas as forças armadas e polícias nacionais com bué de católicos dos mais variados. entre os cavalos vinha um são jorge de mentira, um manequim em cima de um cavalo que balançava até parecia que caía. disse pro gustavo: É O DOM SEBASTIÃO tremelicando.
- na frente do parlamento, exibição de um filme-protesto com cem anos do cinema português ("realizados com a participação de pessoas de milhares de nacionalidades", disse a apresentadora). ato de ACORDAR a merda desse governo de merda.
- agora, na rua debaixo desse escritório, manifestação em frente ao prédio dos PALOP. sim,as línguas portuguesas são minhas vizinhas, e é uma manifestação de gente de guiné bissau. não consigo entender exatamente pelo que eles estão se manifestando, mas são todos negros e gritam com um ânimo nada europeu, o que alegrou o meu sábado.

pra além de que eles gritam abaixo sei lá o que abaixo sei lá o que mais e de repente

VIVA PORTUGAL
VIVA
VIVA MOÇAMBIQUE
VIVA
VIVA GUINÉ
VIVA
VIVA BRASIL
VIVA

etc. e carregam umas placas que falam tanto da nação como de deus, e eu fico mesmo

confusa.
na boca do povo.

- - -

adendo importante do 14 de maio, via marcos, entendi porque protestavam: http://pt.wikipedia.org/wiki/Golpe_de_Estado_na_Guin%C3%A9-Bissau_em_2012

fighting in the captain’s tower

They’re selling postcards of the hanging
They’re painting the passports brown
The beauty parlor is filled with sailors
The circus is in town
Here comes the blind commissioner
They’ve got him in a trance
One hand is tied to the tight-rope walker
The other is in his pants
And the riot squad they’re restless
They need somewhere to go
As Lady and I look out tonight
From Desolation Row

Cinderella, she seems so easy
“It takes one to know one,” she smiles
And puts her hands in her back pockets
Bette Davis style
And in comes Romeo, he’s moaning
“You Belong to Me I Believe”
And someone says, “You’re in the wrong place my friend
You better leave”
And the only sound that’s left
After the ambulances go
Is Cinderella sweeping up
On Desolation Row

Now the moon is almost hidden
The stars are beginning to hide
The fortune-telling lady
Has even taken all her things inside
All except for Cain and Abel
And the hunchback of Notre Dame
Everybody is making love
Or else expecting rain
And the Good Samaritan, he’s dressing
He’s getting ready for the show
He’s going to the carnival tonight
On Desolation Row

Now Ophelia, she’s ’neath the window
For her I feel so afraid
On her twenty-second birthday
She already is an old maid
To her, death is quite romantic
She wears an iron vest
Her profession’s her religion
Her sin is her lifelessness
And though her eyes are fixed upon
Noah’s great rainbow
She spends her time peeking
Into Desolation Row

Einstein, disguised as Robin Hood
With his memories in a trunk
Passed this way an hour ago
With his friend, a jealous monk
He looked so immaculately frightful
As he bummed a cigarette
Then he went off sniffing drainpipes
And reciting the alphabet
Now you would not think to look at him
But he was famous long ago
For playing the electric violin
On Desolation Row

Dr. Filth, he keeps his world
Inside of a leather cup
But all his sexless patients
They’re trying to blow it up
Now his nurse, some local loser
She’s in charge of the cyanide hole
And she also keeps the cards that read
“Have Mercy on His Soul”
They all play on pennywhistles
You can hear them blow
If you lean your head out far enough
From Desolation Row

Across the street they’ve nailed the curtains
They’re getting ready for the feast
The Phantom of the Opera
A perfect image of a priest
They’re spoonfeeding Casanova
To get him to feel more assured
Then they’ll kill him with self-confidence
After poisoning him with words
And the Phantom’s shouting to skinny girls
“Get Outa Here If You Don’t Know
Casanova is just being punished for going
To Desolation Row”

Now at midnight all the agents
And the superhuman crew
Come out and round up everyone
That knows more than they do
Then they bring them to the factory
Where the heart-attack machine
Is strapped across their shoulders
And then the kerosene
Is brought down from the castles
By insurance men who go
Check to see that nobody is escaping
To Desolation Row

Praise be to Nero’s Neptune
The Titanic sails at dawn
And everybody’s shouting
“Which Side Are You On?”
And Ezra Pound and T. S. Eliot
Fighting in the captain’s tower
While calypso singers laugh at them
And fishermen hold flowers
Between the windows of the sea
Where lovely mermaids flow
And nobody has to think too much
About Desolation Row

Yes, I received your letter yesterday
(About the time the doorknob broke)
When you asked how I was doing
Was that some kind of joke?
All these people that you mention
Yes, I know them, they’re quite lame
I had to rearrange their faces
And give them all another name
Right now I can’t read too good
Don’t send me no more letters, no
Not unless you mail them
From Desolation Row

[dylan, bob]

sexta-feira, 11 de maio de 2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

quero que se foda

não, isto não é fome.
é um desespero solícito.
um ódio fecundo, de tão leve.
havia uma relva aqui, então comi.

pra me deitar não posso esquecer
da pílula, os cinco dentes da frente
os outros (quantos são?) por lavar
quarenta e dois
quero que se foda
são 27 tirando os cinco

isto se você tiver juízo
e não quebrá-los
no primeiro pão da maturidade
que puxar. ou nas maçãs, meu pai!

sempre me avisou, meu pai
cuidado! com os dentes nas maçãs
e me dava serpentes, chinchilas, tive um caracol

hoje sou um raio, um gato, persa
hoje eu sou qualquer coisa
hoje é verão.

ontem me lembrei porque a bahia me faz tão
sagrada bahia. assim o seja,
tanto na terra como ao léu
fecunda os meus passos, torce
a coluna do filho da puta que feriu meu amigo.

tenho a bateria do radical:
sr. houaiss que me disse que
-arquia means poder, means
etc.,

i mean i was a cat
yesterday ao sol
hoje signore me dá
uma surra de cacto
me dá um signore, um cigarro
uma assinatura que me convença

o que é a lei a não ser uma borda de pizza, uma fronteira?
um convite a se retirar. a lei é um convite a se retirar.
beijo pros meus, adeus.


terça-feira, 8 de maio de 2012


as poucas coisas que interessam sobre-viver

começa assim: estou aqui.
continua assim: estou aqui.
termina assim: não estou mais aqui.

pensei repentinamente se sobreviver quer dizer encontrar sentido em viver, disto se trata de ser sobre viver. bem,

quinta-feira, 3 de maio de 2012


lewis carroll's ocean chart

que esta seja a cartografia de todos os significados.

terça-feira, 1 de maio de 2012

(primeiro de maio)


é que um navio boiava na água acumulada de uma barragem, abriram as comportas, pés enormes, muito maiores do que os homens, empurraram-no aos pontapés na enxurrada. a embarcação arrebenta! cascos, madeiras, despedaçados!, já há água pelas gargantas, mas virão salvadores, os afogados que retiram dos vivos o ar. dizem que a coisa mais difícil de discernir num naufrágio é quem é poço, quem é lodo, quem é estrume. a aparente calmaria do dia de amanhã também será um sinal, do dilúvio.

domingo, 29 de abril de 2012

caminho a caminhar

Como nasce um poema?

Em andamento. Com os pés assentes na terra, com as palavras na cabeça. Do movimento nasce um ritmo, as palavras aproximam-se, imagens acompanham-me a passada, até mer forçarem a parar e escrevê-las. É então que nasce o poema: das coisas por que passámos. Que atravessámos. Que fizemos. Só está vivo aquilo que se mexe. Os poetas são coleccionadores. "Procuram com paciência para encontrar por acaso" (Valéry).
Encontrar o quê? Uma estrofe (sorte grande), um verso (sorte), uma imagem exacta (as imagens complicadas são quase sempre arbitrárias), um ritmo, uma palavra. O métier exige que se tomem igualmente, e desde logo, a sério todos os achados. Qualquer palavra se pode soltar da "pedreira do silêncio" (Stifter), pode incendiar-se como fogo de artifício ao roçar numa outra. Não são apenas as coisas que o poema faz surgir em contextos desusados; também as palavras são postas em movimento, libertas das amarras das suas significações habituais. O poeta tem de possuir aquele "olho fantástico" (Eichendorff) capaz de, num instante, aproximar as coisas mais distantes: nesses instantes as palavras abrem-se umas às outras.
O milagre: quando as palavras começam a transformar-se em poema, e de signos que nomeia a realidade passam a coisas que criam realidade. Uma realidade que obedece às leis, não da gravidade ou da gramática, mas da poesia, e que o poeta, juntamente com as palavras, reinventa em cada poema. Uma realidade das coisas verbais.

No processo de escrita assiste-se sempre à reacção das palavras umas para com as outras. Temos que deixar às palavras a sua vontade, que deixá-las à vontade. Por vezes, elas comportam-se como os objectos nas fitas de Chaplin, furtam-se de forma grotesca a todos os assédios, atravessam-se-nos no caminho e fecham-se-nos, até que por fim encontram os seus lugares certos, como por encanto. Cuidado com os adjectivos, esses lubrificantes emocionais!
Há uma parte do caminho que nos é indicada pelas primeiras palavras, pelas imagens, pelo ritmo. Depois, é seguir o místico Ekkehart: ganc âne wec den smâlen stec: o caminho vai-se configurando com o andar. De cada passo nasce a força para o seguinte. Tanto dá se o caminho é pedregoso ou plano, se o poeta o percorreu de pé leve ou a coxear. Na arte não se trata de esforço e recompensa. O que conta é o resultado. O poema acabado não deve cheirar a suor. Não se deve ouvir o arrastar das correntes com que o artista dança (Nietzsche). Só intencionalmente. Mas qualquer poema escrito é melhor que o melhor dos poemas sonhados. E tem de vir de um andamento. Só assim nasce o poema. E o poeta.


de "ARS POETICA - Para os que gostam de fazer perguntas". In: A sede entre os limites. De Ulla Hahn, traduzido pelo João Barrento.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

barco ébrio

meu tronco está mudando
está mudando
está mudando de lugar

vinham os marinheiros e cantavam
meu tronco está mudando
está mudando
está mudando de lugar

há uma árvore, uma genealogia
tudo de ensaio no peito

beibe sucesso
beibe sossego
são as vogais deste enredo

tudo tão nítido se rebela.

coragem

hoje acordei com todos os dentes
como se tivesse ido ao dentista
e um gosto de metal percorresse a garganta
depois da anestesia
bochechei toda a água no banho
cuspi
e o gosto de metal ainda aqui
é bom estar viva,
não?
nasci pra ter essa boca cheia de dentes
waly diria que sim
com as mãos com a cabeça com a boca
toda boa cheia de dentes
nas ancas viajo africana
o mapa que temos na casa de banho
é da europa eu disse
vamos trocar pelo da áfrica
preciso estudar todas as coisas
nunca nada deu tanto trabalho
larguei da yoga
era forte demais
preciso de cuidado
com meu melhor lugar: o da destruição regenerativa
este lugar, meu lugar melhor e ligeiro e rápido
gatilho, galho
se parto para brotar
vá com calma, é preciso ritmo
r i t m o
r i t o s
r i a
waly diria sim

quinta-feira, 26 de abril de 2012

queremos saber

(...)You meet unkept Amyclas in a Soho restaurant and chant together of dead and forgotten things - it is a manner of speech among poets to chant of dead, half-forgotten things, there seems no special harm in it; it always be done. (...) Ezra Pound

sábado, 21 de abril de 2012

equipamentos, imaginações, massagens e outras motrizes

quando era pequena a coisa que eu mais gostava de fazer era imaginar.
logo percebi que o tempo passava mais rápido e utilizei toda a escola o recurso de desviar do rumor das salas de aula e estar e fazer em outro lugar.

mas nem só de imobilidade se viaja,

e menor entretinha as coisas ao redor em instrumentos, por exemplo: a bicicleta ergonométrica que vivia no meu quarto desde que havia ficado comprovado que ninguém nunca a usava, e sobrada do resto da casa, a bicicleta estática era o meu cavalo,

a primeira história que escrevi tinha um cavalo de uma menina chamada joana, que era como eu queria me chamar, não porque a jojô vizinha se chamasse assim, mas porque a cor do nome era vinho, terrosa,

tudo isso eu não percebia na altura. minha cor preferida era azul e era verde. é como falar "ele é meu melhor amigo", quer dizer, eu tenho uns 12 e eles são a fortaleza.

*

hoje é a palavra que mais aparece no livro que estou quase pra começar a terminar: cavalo.

*

talvez eu esteja conseguindo só a oscilação das coisas, de tanto que me esforço pra ater o ritmo das vibrações, como uma asa de borboleta ou pata de cão que pisa um trevo de quatro
flores no chão.

ou esteja desesperadamente ocupando as palavras antes de viver um treco que se chama poesia,

que segundo jean luc nancy existe. um amigo me contou de uma amiga que dorme com um ET. 

durmo de mãos atadas
acordo de mãos furadas
me deito e é domingo
(domingo é o dia universal das saudades do brasil)

*

acho que muito antes de escrever minha mãe fazia de psicanalista dela. ou ouvido, em certo sentido, funil. com seis anos eu sabia tudo que deveria saber da memória da minha família e deve ser por isto que até hoje o pântano é grosso, escaldado

foi tipo tomar biotônico fontoura.

*

uns dois anos atrás, na casa da minha avó, em cima de um móvel onde só há fotografias, lado a lado: meu avô, foto de posse, reitor, catedrático, - - do lado eu, com sete anos, foto de passaporte (o passaporte que fizeram pra me trazer pra portugal) moleton roxinho e franjinha na altura das sombrancelhas, cabelo liso e comprido. passei reto, quando voltei, os olhos. os o-lh-os, não o desenho. o jeito das órbitas oculares, o mesmo, no meu avô e em mim.

senti um medo desgraçado. um orgulho misturado, do ímpeto.
e hoje em dia quando me apaixono pelo que acredito (antes não acontecia), entendo ele tanto, e sei que corro o risco de um dia me equivocar por fascínio.

*

na beira da piscina minha mãe pedia pra eu apertar os ombros dela, soltar os laços do pescoço com as costas. não sei dizer, mas só hoje, ainda massageando quem amo, entendi que não era possível, nem era uma régua, nem uma montanha, aquilo de duro que havia no meio da pele tão leve e macia. era minha mãe.

e, imaginando como tudo era, só agora começo a ler o corpo dela.
começa assim, eu vou subindo uma montanha
sempre tem alguém do meu lado. então quando menos espero
a montanha vira este alguém, o alguém vira um pássaro que só ouço cantar depois
entre as árvores as folhas se mexem
noto o animal, a montanha se desfaz
areia nas mãos era
uma era nova se anuncia
sem profetas, nem profecias
me correspondo no egoísmo de perceber
que é mais do que o outro o que quero
sou

os dias têm estado tapados
uma âncora crescendo, é
vontade de chegar na hora em que se chega
mas o corpo antes, o corpo depois

o corpo tralalala, o corpo triluli

sinceramente, consigo

sexta-feira, 20 de abril de 2012

tão paciente quanto voraz

Assustada sigo com os rumores
das saídas escuto as paredes
faço escudos quando só consigo
me abrir pro ritmo das coisas.

Atenção
o homem inventou o avião
a dança e a caça
e pensa em, dia desses, alicerçar o sol.

No entanto as plantas continuam mudas
e o ferro se roça todo por dentro do betão
se expande e espraia, a matéria
tem ritmos diferentes
e o atrito faz desarmar o concreto
armado em questão
de menos de um século .

Com a sua pá e as chaves
de nada o tempo abdica
a tudo o tempo esfarela.
Nós é que não temos velocidade pra ver
desaparecer a casa, as frutas, os limos
onde o passado e o futuro se dão
as mãos entregando à ruína, um instante
tudo, estudo, és tudo em transformação.

O mundo não é sólido,
meu bem, o edifício também.
Entre eles, considero o enorme chão.
Ossos na leva: areia de lava com água que lava,
foi o primeiro modo de fazer concreto do mundo.

Dia a dia, serás meu e misturarás o pó dos teus ossos com o pó dos meus.
O fogo afinal amacia o ferro e forma a ligadura da costela.
Tão paciente quanto voraz
enverga comigo, pra durar
a arma, amante
abraça comigo
o coração sem centro.
os versos andam tão guardados que são meus
oceanar o tempo, dar caldo de saliva para uma língua se mover por dentro
me chama, flamejante

flamejante mar,

minha mãe tem cabelos teus no nome
agarrada a rocha.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

vacilo

meu tourinho, a poesia
fugiu de mim.
foi dar em outra
parte - e eu aqui, filha
dela e conselheira,
devastada por um sono
de fim de tarde de domingo
mas ainda não entregue
eu não sei onde ela está
mas desconfio
que seja em algum
lugar entre os meus
seios, e a tua garganta
 

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