Antes de ontem sonhei com a m. Ela me explicava uma meia dúzia de coisas dentro da própria casa dos meus pais. Lembro que os sofás eram de veludo e as luzes baixas. Os móveis escuros, castanhos, vinhos. Eu sentia e sentia e consentia. Havia algo entre ela e o julgamento do meu pai que se distanciava. Mas meus pais não estavam mais, ou não tinham chegado. Então ela me dizia que faltava o coração, que eu tinha que ir pro coração das coisas.
sábado, 21 de julho de 2012
sexta-feira, 20 de julho de 2012
a câmara clara
-alô
-ei
-e aí?
-tá sussa.
-fazendo?
-texto.
-hm. tb.
-...
-...
-loucura, né?
-é. puxa.
-ei
-e aí?
-tá sussa.
-fazendo?
-texto.
-hm. tb.
-...
-...
-loucura, né?
-é. puxa.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
se um vaso na testa quebrasse
o bom das cidades é que elas não são de ninguém. mas há os comerciantes do bairro, as velhotas falando dos vasos das outras, existem os prefeitos e os presidentes das câmaras e os políciais que batem nas pessoas e as pessoas que ajudam outras a atravessar a rua. o bom das cidades é que elas não são de ninguém e se abre um fosso, um esguicho nos dias de calor, ou a impossibilidade de dois guarda-chuvas atravessarem um mesmo espaço. o bom das cidades é que elas não são de ninguém e você pode escarrar na boca-do-lobo e latir au au au pro cão dos outros. o bom das cidades é que elas têm na loja ao lado couscous do marrocos, bacalhau da noruega, mandiocas da paraíba e frangos no isopor. ultracorega. o bom das cidades é que elas não sendo de ninguém, atravessam o espaço, tomam a lua e arquitetam a órbita do universo. enquanto a sirene passa lá embaixo.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
verão
essa noite, não foi sonho não, eu levantei e era quase de manhã. no caminho de volta do banheiro, vi a cama, azul. e me lembrei que virá o frio e será muito difícil. dormi. dormi triste.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
descansa,
E fica o nada e o vazio que a clareira do bosque dá como resposta àquilo que se procura. Mas se nada se procura, a oferenda será imprevisível, ilimitada. Já que parece que o nada e o vazio - ou o nada ou o vazio- têm de estar presentes ou latentes continuamente na vida humana. E para não se ser devorado pelo nada ou pelo vazio há que fazê-los cada homem em si, há pelo menos que deter-se, ficar em suspenso, no negativo do êxtase. Suspender a pergunta que cremos constitutiva do humano. A maléfica pergunta ao guia, à presença que se desvanece se for acossada, à própria alma asfixiada pelo perguntar da consciência revolta, à própria mente a que não se consente tréguas para conceber em silêncio, obscuramente também, sem que a pergunta interruptora a faça desaparecer na mudez da escrava. E o temor do êxtase que perante a claridade vivente acomete obriga a fugir da clareira do bosque o seu visitante, que assim se torna intruso. E se entra como intruso, escuta a voz do pássaro como reprovação e como troça: "buscavas-me e agora, quando te sou enfim propício, voltas para esse lugar onde respirar não podes", ou algo semelhante soa no seu canto desigual. E um certo sossego pode procurar essa reprovação e essa troça. Na cena das bodas, único momento em que Dante encontra Beatriz frente a frente, ele vê-a troçar, como uma dama vulgar com as suas amigas, da perturbação que o enamorado sem par sente ao vê-la tão perto e ao poder servi-la inesperadamente. E foge para o aposento vizinho, e o amigo apresentador - guia - pergunta-lhe qual a causa de tanta perturbação. Io tenni li piedi en quella parte de la vita di là quale nom si puote ire più per intendimento di ritornare*.
* Eu tinha meus pés naquela parte da vida à qual não se pode ir com intenção de regressar. María Zambrano refere-se a um trecho da Vita Nuova, de Dante. (N. do T.)
[do "Clareiras do Bosque", María Zambrano. Tradução de José Bento]
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amigos amigos negócios reparte
armadura
eu estava chegando em casa. na farmácia que fica aqui embaixo e onde só comprei uma pomada contra assaduras e uns remédios pra dor de cabeça uma vez, tinha um cartaz colado na vitrine em que a cara do homem da propaganda tinha sido substituída por um buraco onde uma xícara de café despejava. assustei como criança, filme de terror, não sei. tenho visto setas, flechas atravessando o céu do quarto, quando acordo. se eu tivesse um trapézio talvez os ombros mais leves. mas sou de prata. eu sou a própria luminância por cima.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
vamos chamar o vento
curioso, os sonhos com azul. e também a auto-salvação, de percebida que foi a falta de auto-contato. não sei bem onde isto vai dar. sei que tenho que escrever uma dissertação, mas preferia olhar o guindaste ali em frente trabalhando. talvez ele falasse mais de tradição do que eu, ou concebesse do tempo a estrutura vital. rasgando o céu,
vamos pensar
em público. o pensamento público. o caminho do pensamento,
em público. o pensamento público. o caminho do pensamento,
o leitor do tempo
constelação do
homem constelação
constelação do
homem constelação
ensinou-me uma espécie de rito, do respeito.
averigua-se uma vontade pronominal de encaixe
anca com anca
língua com língua
meus países
bela vista.
averigua-se uma vontade pronominal de encaixe
anca com anca
língua com língua
meus países
bela vista.
visitas em monumentos históricos. castelos, ruínas. gosto de ambos. e os turistas de meias brancas. e os turistas vestindo muito cáqui. e os turistas. o nietzsche tinha tanta razão, em nós sermos (notados desde quando não sei, mas do seu termômetro-escrita) a cultura do excesso de cultura histórica.
que mundo é este onde as pessoas não têm mais tanto só "a roupa de domingo", separada dos outros dias da semana. mas seriamente desconfiada - ando- de que existam roupas de turistas. lojas de roupas de turistas, onde eles passam antes de visitar as (nossas) disneylândias históricas e escolhem as melhores meias mais brancas, e todas as roupas cáquis do mundo,
in the sky, by my dream.
segunda-feira, 2 de julho de 2012
trilogia da incomunicabilidade
tríade de quadrúpedes saltavam num campo de crateras
cada patada abria um buraco maior na esfera
e de cada salto se fazia uma estrela, um dom, uma luva.
luva esta que permitia a entrada nas tripas
nas tripas da luz de uma estrela
anti-queimaduras, vertigem em chamas
meu livro está tão quase pronto
tão quase pronto
que nem mexo nele, que é pra não acabar.
dia desses vou tê-lo. entre os dedos
das pernas, o novelo. o que cair no chão
risca a cisma, invade o ringue, fura a bóia
de língua no salão: salteia, rodopia
feito alho na frigideira quente
quando esparrama, mata bactérias
meu coração fungicida
ontem soube que o lorca
que a tradição do lorca
falava em duendes, depois
ny o deixou doente
não foi suficiente
para a poesia moderna
nascer & nem morrer
tantas coisas suficientes
mas ali dela, nem isto.
eu continuo, prefiro
perder o risco
sou tão domada
arisco é o ceú
nesse quente-esfria
entre todas as probabilidades
não sou de mais ninguém
escolho o queixo
tudo teu. meu. e teu
de novo.
cada patada abria um buraco maior na esfera
e de cada salto se fazia uma estrela, um dom, uma luva.
luva esta que permitia a entrada nas tripas
nas tripas da luz de uma estrela
anti-queimaduras, vertigem em chamas
meu livro está tão quase pronto
tão quase pronto
que nem mexo nele, que é pra não acabar.
dia desses vou tê-lo. entre os dedos
das pernas, o novelo. o que cair no chão
risca a cisma, invade o ringue, fura a bóia
de língua no salão: salteia, rodopia
feito alho na frigideira quente
quando esparrama, mata bactérias
meu coração fungicida
ontem soube que o lorca
que a tradição do lorca
falava em duendes, depois
ny o deixou doente
não foi suficiente
para a poesia moderna
nascer & nem morrer
tantas coisas suficientes
mas ali dela, nem isto.
eu continuo, prefiro
perder o risco
sou tão domada
arisco é o ceú
nesse quente-esfria
entre todas as probabilidades
não sou de mais ninguém
escolho o queixo
tudo teu. meu. e teu
de novo.
acordei disposta a pensar num gato ou a pensar numa flecha. fazia muito tempo que antes de dormir eu não cerzia tudo. é como se um corte tivesse fechado, e eu dormi num playground de travesseiros, macios.
mas tive um sonho de ciúmes, transgrediram tuas mãos. em um comboio, o vagão, a carruagem da alimentação. meu coração é uma vagem, teus olhos as ervilhas, etc.
sábado, 30 de junho de 2012
é que ontem fiquei olhando muito tempo um livro na estante da carol
este sonho foi assim: só lembro da cara de um menino de coisa de 8, 10 anos. ele era um menino de filme do truffaut, ou de foto do doisneau, um menino em preto e branco. se mexia, vivo. e ele tinha em volta da cara uma moldura ambulante que o acompanhava. embaixo dela, o título, que também era o nome do menino: O ROMANCE.
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sexta-feira, 29 de junho de 2012
do diabo tenho alergia do diabo
lembrei-me repentinamente da cura e do dom para. há um pedaço que viaja pelas lágrimas, mas há maior pedaço que se concentra em não se desesperar, em contornar, em fazer pensar o melhor. com tantos defeitos, o maior deles não será a fraqueza.
havia uma cena da memória que retornava. fantasiada de fantasma, ou fantasma mesmo sendo, era uma viagem. eu, que já fui samurai, eu que uso azul todos os dias, costurando. costurar a língua com a linha azul, a língua do pensamento labareda, queima. tornar azul, a água arrefece e amacia, a língua.
dentre os elementos falta-me o ar
sem nunca fazer falta
eu mesma cometo muitas
derrubo o atacante na área
etc etc etc etc etc etc
fica cansada não
mia fia faz pão.
havia uma cena da memória que retornava. fantasiada de fantasma, ou fantasma mesmo sendo, era uma viagem. eu, que já fui samurai, eu que uso azul todos os dias, costurando. costurar a língua com a linha azul, a língua do pensamento labareda, queima. tornar azul, a água arrefece e amacia, a língua.
dentre os elementos falta-me o ar
sem nunca fazer falta
eu mesma cometo muitas
derrubo o atacante na área
etc etc etc etc etc etc
fica cansada não
mia fia faz pão.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
ternura
minha mãe tão
justa, pela justiça enfeitiçada.
eu: feiticeira do critério.
oscilaria quanto mais
fosse preciso, mas agora
vou dizer: tu és a minha
carne, ó dor (ó mãe), e
eu sou a tua voz e
te farei quantas vezes sofrer
por nós.
justa, pela justiça enfeitiçada.
eu: feiticeira do critério.
oscilaria quanto mais
fosse preciso, mas agora
vou dizer: tu és a minha
carne, ó dor (ó mãe), e
eu sou a tua voz e
te farei quantas vezes sofrer
por nós.
terça-feira, 26 de junho de 2012
instruções para melhorar as coisas
o comandante trouxe uma bandeja com os dejetos. havia três olhos nela. por conta da falta de um para dois pares, logo se pensou que o olho que sobrava ainda estaria nas órbitas de alguém, que havia perdido, portanto, um.
ah! se no mundo tantas coisas fossem lógicas como aquela bandeja.
- - -
tive um avião, tive um comandante.
fui feliz.
hoje, o avião quando sobe apita. o comandante foi beber água
beber água
e saltou.
- - -
se fosse possível trazer uma estrela da próxima vez?
- - -
respire uma vez
respire outra
respire uma vez
respire outra
respire uma vez
respire outra
respire respire
respire respire
reprise
- - -
seja, você também, o verão dos seus contemporâneos.
No hay poema en sí, sino en mí o en tí.
Don Octavio, el amor.
Don Octavio, el amor.
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domingo, 24 de junho de 2012
ou a pangéia craquelasse um cadinho mais lá
estou com sinceras impressões
de que hoje é janeiro
se houvesse manga, era bahia
e que caetano quando compôs
baby "vivemos na melhor
cidade da América do Sul"
se referia à Lisboa.
se a crise é "européia" achei
a solução;
de que hoje é janeiro
se houvesse manga, era bahia
e que caetano quando compôs
baby "vivemos na melhor
cidade da América do Sul"
se referia à Lisboa.
se a crise é "européia" achei
a solução;
sexta-feira, 22 de junho de 2012
o melhor lugar do mundo
o melhor lugar do mundo
é o mundo. se eu me chamasse raimundo
talvez não tivesse cortado o cabelo ontem.
hoje a grécia vai eliminar a alemanha.
ontem depois do jogo
quis vos dizer: é bom vê-los felizes.
depois eram 4h da manhã e acordei com uns gajos gritando
ainda lá embaixo
a vitória. achei melancólico.
não perdi o sono.
o primeiro dia do verão é hoje.
e eu sou uma aventura
enrolada entre os galhos
uma andorinha se esconde
ainda não é hora de guardar
nem de tirar as mantas
esse verão mais frio do que o frio.
mas hoje esquentou
e eu tenho onde ir
quem amar e
o hábito de dizer três coisas
diferentes e completamentares.
é o mundo. se eu me chamasse raimundo
talvez não tivesse cortado o cabelo ontem.
hoje a grécia vai eliminar a alemanha.
ontem depois do jogo
quis vos dizer: é bom vê-los felizes.
depois eram 4h da manhã e acordei com uns gajos gritando
ainda lá embaixo
a vitória. achei melancólico.
não perdi o sono.
o primeiro dia do verão é hoje.
e eu sou uma aventura
enrolada entre os galhos
uma andorinha se esconde
ainda não é hora de guardar
nem de tirar as mantas
esse verão mais frio do que o frio.
mas hoje esquentou
e eu tenho onde ir
quem amar e
o hábito de dizer três coisas
diferentes e completamentares.
quem faz pesquisa é o google, eu estudo.
El remedio contra la sensación y su dispersión instantánea es la reflexión. Entre una sensación y otra, entre un instante y otro, la reflexión interpone una distancia que también es un puente: una medida. Esa distancia se llama ritmo, también se llama símbolo e idea.
Don Octavio, el perseguidor.
El remedio contra la sensación y su dispersión instantánea es la reflexión. Entre una sensación y otra, entre un instante y otro, la reflexión interpone una distancia que también es un puente: una medida. Esa distancia se llama ritmo, también se llama símbolo e idea.
Don Octavio, el perseguidor.
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quarta-feira, 20 de junho de 2012
propício
tudo tão só
no próprio lugar
que nem me interessa escrever um poema
a não ser que ele fale
do próprio lugar
em que tudo está.
os acontecimentos
como são? e o amor?
entretanto dizem tanto
não sei se vertigem
rumor da água
o princípio do caos.
os seixos shhhhhhh
rolam fazem ssssss
ilêncio tinha três filhos
ilêncio filho, ilhota e ilharga.
deles agora resta o aroma.
ponho os pés sobre a mesa.
o isqueiro que acabou
tanta coisa
pra se pensar.
não definhar
na insistente, hi-
per dura
vida.
no próprio lugar
que nem me interessa escrever um poema
a não ser que ele fale
do próprio lugar
em que tudo está.
os acontecimentos
como são? e o amor?
entretanto dizem tanto
não sei se vertigem
rumor da água
o princípio do caos.
os seixos shhhhhhh
rolam fazem ssssss
ilêncio tinha três filhos
ilêncio filho, ilhota e ilharga.
deles agora resta o aroma.
ponho os pés sobre a mesa.
o isqueiro que acabou
tanta coisa
pra se pensar.
não definhar
na insistente, hi-
per dura
vida.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
13/03/12 (à máquina)
no autocarro pensei em fazer uma série no livro de poemas de retratos familiares. depois lembrei que [...] sem dúvida outro seria para o meu vô [...]
meu avô era tipo marlom brando
que depois empenou como uma pipa de massa
os portugueses gostam de gordura
que é uma forma de aliciamento do desejo
da matéria.
o que mais interessa falar no caso desse vô é dos olhos.
meu avô me regulava os corredores escursos
e xxxxxxxxxx o sexo infantil dos objetos macios
seu olhar morto viajava pela criança que fui
e foi bem mais tarde que as duas fotografias
em cima do móvel da casa da minha vó
que notei no meu olhar de sete anos
o moleton roxinho e a franja cortadinha
a foto para o passaporte para vir conhecer
aos sete anos esse país onde vim viver
e da onde meio que meu avô era
e pra onde veio concluir, em coimbra, os
estudos, com a minha vó, muito apaixonados
vê-se nas fotos - - - mas em cima do móvel
denso da minha vó, a fotografia dele era muito
maior e de outra oficialidade, uma foto de cargo
a cabeça inclinada, catedrático ou reitor, mas o olhar
o modo de olhar, o ângulo meio vesgo e aquático
perfurático e diretivo, do meu avô aos 40 e tantos
era idêntico, era o meu aos 7 anos.
esse olhar de ter idéias, ainda me acompanha
hoje. nem sempre, talvez
as melhores.
[...]
meu avô era tipo marlom brando
que depois empenou como uma pipa de massa
os portugueses gostam de gordura
que é uma forma de aliciamento do desejo
da matéria.
o que mais interessa falar no caso desse vô é dos olhos.
meu avô me regulava os corredores escursos
e xxxxxxxxxx o sexo infantil dos objetos macios
seu olhar morto viajava pela criança que fui
e foi bem mais tarde que as duas fotografias
em cima do móvel da casa da minha vó
que notei no meu olhar de sete anos
o moleton roxinho e a franja cortadinha
a foto para o passaporte para vir conhecer
aos sete anos esse país onde vim viver
e da onde meio que meu avô era
e pra onde veio concluir, em coimbra, os
estudos, com a minha vó, muito apaixonados
vê-se nas fotos - - - mas em cima do móvel
denso da minha vó, a fotografia dele era muito
maior e de outra oficialidade, uma foto de cargo
a cabeça inclinada, catedrático ou reitor, mas o olhar
o modo de olhar, o ângulo meio vesgo e aquático
perfurático e diretivo, do meu avô aos 40 e tantos
era idêntico, era o meu aos 7 anos.
esse olhar de ter idéias, ainda me acompanha
hoje. nem sempre, talvez
as melhores.
[...]
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agora que sou sincera
essa noite eu sonhei
(tão óbvio)
que eu tinha cavalos
no lugar dos pulmões
(tão óbvio)
que eu tinha cavalos
no lugar dos pulmões
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quarta-feira, 13 de junho de 2012
homens que
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar
#
Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltados para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para diálogo interior
Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber
Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior
# #
Amanhecemos sem materiais suficientes para a luz total
Embora nos estiquemos como cabras nos penhascos para os arbustos
Mais tenros, esticamo-nos para não nos doer a lembrança
Das manhãs tão sossegadas dos cavalos nos pastos
Explico que amanhecemos mastigando as ervas venenosas
Buscando um som mais poderoso do que o bater dos cascos
Um balido interior reunindo rebanhos
Uma palavra fonte múltipla como o úbere das cabras
Amanhecemos cheios de sede como se viéssemos de um outro hemisfério
Num galope rápido
Esticando-nos como arbustos tenros chamando
Amanhecemos nocturnamente fincando os joelhos nos penhascos
Levantamo-nos para sacudir as crinas para escovar os cavalos
Amanhecemos sem braçados bastantes para a luz
Queimados pelas palavras.
Organizamos rebanhos junto das águas
Andamos nas margens no meio da tarde.
Esticamo-nos para seremos setas de fogo
Ou o som dos chocalhos trespassando
Os mais tenros rebentos das chamas.
(poemas do Daniel Faria, de "Homens que são como lugares mal situados".)
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar
#
Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltados para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para diálogo interior
Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber
Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior
# #
Amanhecemos sem materiais suficientes para a luz total
Embora nos estiquemos como cabras nos penhascos para os arbustos
Mais tenros, esticamo-nos para não nos doer a lembrança
Das manhãs tão sossegadas dos cavalos nos pastos
Explico que amanhecemos mastigando as ervas venenosas
Buscando um som mais poderoso do que o bater dos cascos
Um balido interior reunindo rebanhos
Uma palavra fonte múltipla como o úbere das cabras
Amanhecemos cheios de sede como se viéssemos de um outro hemisfério
Num galope rápido
Esticando-nos como arbustos tenros chamando
Amanhecemos nocturnamente fincando os joelhos nos penhascos
Levantamo-nos para sacudir as crinas para escovar os cavalos
Amanhecemos sem braçados bastantes para a luz
Queimados pelas palavras.
Organizamos rebanhos junto das águas
Andamos nas margens no meio da tarde.
Esticamo-nos para seremos setas de fogo
Ou o som dos chocalhos trespassando
Os mais tenros rebentos das chamas.
(poemas do Daniel Faria, de "Homens que são como lugares mal situados".)
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domingo, 10 de junho de 2012
os alquimistas estão chegando
eu chegava numa casa suspensa por colunas, e o chão dela por baixo era todo gramado. eram duas casas vizinhas, uma muito bem cuidada, a outra não tanto. eram como imagens do passado e do presente. a do passado estava mais arruínada, impressionava o desgaste, mas também se notava o mais simples: de que não havia nada lá, além de muita atmosfera de tudo. a entrada nelas era por alçapões embaixo, mas como o terreno ficava em declive, as faces da frente delas também tinham janelas. não era minha casa, mas eu tinha sido convidada, e havia muita gente lá.
eu procurava por um cão que era da casa, e encontrava num velho tanque, improvisado, uma casinha para filhotes de cães que tinham nascido faz pouco. quando pegava um deles, era o cão mais lindo do mundo, e já tinha uns seis anos. uma espécie de basset hound, só que com a pelagem escura e brilhante, e com uma crista feito a de um cavalo. andávamos pelo terreno, éramos amigos.
repentinamente eu estava no centro do terreno, aquele lugar era uma vila medieval e queriam me enforcar. perguntavam o que eu queria, que eu tinha ido ali roubar o capitão. eu dizia "não, o que quero é o cachorro do capitão". então eu virava um navegante japonês, samurai, umas roupas do século XIX, me davam um barco à vela e o cão.
eu via no sonho eu navegante com o cão, navegando no mar sem tamanho, que era azul azul azul, e brilhante, todo ondulado como se eu visse montanhas no mar. um mar de lona, mas não, mar de água. minha vela cortava o oceano, o cão era meu, tão maior o azul.
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sábado, 9 de junho de 2012
um volkswagen blues
está no forno a tradução que acabei de fazer de uma caixa de massa "bambino". acho que significa "lasanha" em alemão.
eu tinha escrito isso no facebook e daí vi que portugal acabou de perder da alemanha, não tinha nada a ver acharem que eu tava falando disso.
então era outra coisa que eu ia escrever aqui, mas acabou saindo isso. a vida é assim, cheia de encontros. puta merda.
eu tinha escrito isso no facebook e daí vi que portugal acabou de perder da alemanha, não tinha nada a ver acharem que eu tava falando disso.
então era outra coisa que eu ia escrever aqui, mas acabou saindo isso. a vida é assim, cheia de encontros. puta merda.
terça-feira, 5 de junho de 2012
da minha geração, o que não me interessa
em se fazendo brilhantina tudo dá
pop-poética
é a estetização da estetização;
a estetização da crítica
é o pensamento com medo de baralhar os cabelos;
a estetização da indiferença
é a agulha do dandy no olho do teu cu.
pop-poética
é a estetização da estetização;
a estetização da crítica
é o pensamento com medo de baralhar os cabelos;
a estetização da indiferença
é a agulha do dandy no olho do teu cu.
o poeta é a antena da praça
o mundo cada vez mais difícil
e eu cada vez mais frágil. penso em poetas mortos, que foram mortos. alguém disse que os poetas já não significam tanto que não seriam mortos por um regime totalitário. mas o totalitarismo mudou. é tanta coisa pra pensar.
saber das coisas eu não sei. não. tanto que tua voz entrecortada pelo vento da praia
parte em mim um raio
cúbicos de pele.
ter mãos, ossos, rastros
pra indicar o caminho.
posso dizer aos outros pra que pensem com o coração das coisas, e dizer até pra que pensem com o corpo do corpo,
mas em mim a revolta do corpo é pensar. e pensar é o cinzel
dura bruta
matéria
fino passo, trote
galope.
e a metade árvore
o raio abre
um tronco em dois.
do quebrado nasce um deus:
entrega & medo, cavalo.
doce cavalo, peço
com a tua língua impura
por onde passar
tece e cicatriza
amor.
e eu cada vez mais frágil. penso em poetas mortos, que foram mortos. alguém disse que os poetas já não significam tanto que não seriam mortos por um regime totalitário. mas o totalitarismo mudou. é tanta coisa pra pensar.
saber das coisas eu não sei. não. tanto que tua voz entrecortada pelo vento da praia
parte em mim um raio
cúbicos de pele.
ter mãos, ossos, rastros
pra indicar o caminho.
posso dizer aos outros pra que pensem com o coração das coisas, e dizer até pra que pensem com o corpo do corpo,
mas em mim a revolta do corpo é pensar. e pensar é o cinzel
dura bruta
matéria
fino passo, trote
galope.
e a metade árvore
o raio abre
um tronco em dois.
do quebrado nasce um deus:
entrega & medo, cavalo.
doce cavalo, peço
com a tua língua impura
por onde passar
tece e cicatriza
amor.
domingo, 3 de junho de 2012
domingo. ontem fiz um bolo de maçã. hoje passo a tarde, ainda não passei a tarde, digo. acordo e passo inseticida no chão do quarto e no chão da sala, um preventivo, que o verão traz em lisboa pulgas & baratas, outros afins. mas o inseticida acaba antes da casa toda e um domingo tão lindo, as mortes terão de esperar. calculo um passeio a pé daqui até belém são quase dez quilómetros. acho que é o suficiente. mas terei de esperar o sol baixar e me perguntar se quero ir mesmo - e não ir comprar mais inseticida. já limpei os vidros, a roupa a lavar. ou eu que não sei mais descansar sem cansar.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
poemas do destino do mar
do livro que estou pra terminar, "poemas do destino do mar", inédito como a vida:
Quem fundou esta cidade
foi fundo o suficiente?
Quem veio por aqui primeiro
será que eram dois ou vinte ou duzentos
estavam armados
com mais fome do que fé?
Calcularam pelos astros,
Ou vinham tranqüilos
gestantes do acaso
nem se noticiaram a notícia da nova povoação
foram percebendo aos séculos que ficavam, dias
após
que a cada noite dormiam
todo solo tem um imã que nos puxa ou repele
Ou a cada noite dormiam mais tarde
de tão próximos uns dos outros que estavam
começavam a se identificar uns com os outros
até que de outros viraram os mesmos
um povo, uma língua, uma situação,
porque tinham tanta noite por fazer e por falar
Que brigavam
por honra e tédio,
nasceu a cidade.
E bebiam vinho?
E comiam batata?
Só muito mais tarde amuraram
Notaram que o cume os defenderia?
Ou subiram pelo esmero da montanha
e as lavadeiras reclamariam
de ter que viver ao topo e descer dia a dia,
Ou naquele tempo as pessoas de nada reclamavam
ou ainda não havia lavadeiras
porque eram nômades e todos faziam de tudo
ou porque nada limpavam
Ou porque passavam o dia a se lavar
gostavam da água, chapinhar, boiavam imensos
abraços no rio, bolinhas pelo nariz
e sempre muito limpos cheiravam uns as partes dos outros
Com o mesmo amor de quando te olho de cima, cidade,
notaram que você nem sempre esteve aqui
embora esteja e estará por mais tempo do que eu,
Não se deve comparar casas com homens, ruas com homens
mas eu comparo tudo com homens
e por vezes escolho as casas, os homens, as cidades
mas quase sempre estou vendo a cidade por dentro dela demais
e todo mundo sabe que um coração é um labirinto de monóxido de carbono
que o digam os centros das nossas cidades
Os centros das nossas cidades já não fedem a estrume
embora neles floresçam outras pestes
e enquanto olho atenta cidade por cima
dá um vento aqui - é tão alto – e meus ossos doem por dentro.
É inverno e o inverno nos enche de frio, de dúvidas e de ossos
De se quando chegaram nesta cidade
os primeiros habitantes
muito antes de ser uma cidade
muito antes de haver habitantes
quando lá descansaram – porque ainda não era
aqui, - a cidade não lá começou perto do rio? –
um homem e uma mulher se comeram
– como nós também – é inevitável –
encontraremos cidades por fecundar.
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poemas do destino do mar
spread your wings
com tanto sono. escrevendo
como o vinícius de moraes falando em espanhol
só que em português.
como o vinícius de moraes falando em espanhol
só que em português.
não há café que me ensine a escrever o jacarandá ali no fim do pátio.
(sim, há jacarandás em lisboa e eles florescem na primavera como tudo).
(sim, há jacarandás em lisboa e eles florescem na primavera como tudo).
não sei o que achariam os avaliadores (projeções do inevitável) se soubessem os níveis de *** com que produzi estas provas. creio que reprovariam um aviador profissional, ou um ciclista em competição internacional. pra mim, no máximo, algumas vírgulas terão de ser sanadas e se do acidente restar um olho, ele É MEU.
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agora que sou sincera
a boa casa ao filho torna
O homem público no. 1 (Antologia)
Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.
[Ana Cristina Cesar, do "A teus pés".]
Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.
[Ana Cristina Cesar, do "A teus pés".]
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quarta-feira, 30 de maio de 2012
terça-feira, 29 de maio de 2012
preparações para o fim de ano
[ ] estamos em movimento, não sei para onde. minha família, eu, papai, mamãe, irmão. estamos no condomínio da casa onde meu irmão viveu depois de casar (lugar do qual me lembrei semana passada, e por onde andei, e por onde lembrei que andava. e tinha desaparecido desde então da minha memória essa liberdade pouco-livre, andar por onde quiser em direção ao sol e a terra seca na margem do asfalto, subindo pelos tênis, mas num condomínio fechado) e tínhamos que mudar de casa. aliás, precisávamos trocar de casas muitas vezes, e sempre com todos os cães. com todos os cães que já tivemos juntos, numa sala. era a farra dos cães, eles não podiam fugir, e viva a selvageria! as mudanças se tornavam tarefas quase impossíveis. me lembro que tentei uma incursão mais sozinha (porque ninguém se movia do fundo da sala), abri a porta para sair, com o grude no colo
(sim, tivemos um cãozinho basset de nome grude, que nasceu no mesmo dia que meu pai, em outro ano, certamente. o grude era epilético, tinha perebas na barriga de alergia dos produtos de limpeza por sua barriga roçar no chão, o grude mordia as canelas dos meus amigos meninos quando entravam pela garagem e meu irmão o chamava de grudezila).
não sei porque, mas tive que voltar, com o grude no colo. voltando encontrei todos ainda na sala,
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caderno público de sonhos
segunda-feira, 28 de maio de 2012
tradição
você escreve umas coisas e vai vivendo. depois chego eu, tantos outros, qualquer um, como você foi um dia, e pego nas tuas coisas e começo a dizer coisas sobre elas. umas mais injustas do que outras, as coisas que se dizem são mais ou menos assim como as pessoas. o risco delas é que estão ligadas as pessoas, as coisas que se dizem: não uivam, nem apitam, ou se apitam e uivam é porque querem se aproximar daquilo que não são. esta brecha de encostar no outro com sentidos, sintagmas e convenções acaba por ter paredes curtas e teus ombros nelas raspam, riscando faíscas. com uma caixinha de fósforos se faz um livro, holograma de gente.
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tradição
domingo, 27 de maio de 2012
tradição
eu quero as coisas que tenham voz
suficiente para grudar na minha pele
despojos, feito tatuagem,
meus gritos de caça.
filiação.
ritos de anunciação (paisagem)
de qualquer coisa:
que ao se especificar
se torne
outra
independente. de mim, dela
mesma.
concentra-se.
como um sumo em pó
misturar na água
mexa com uma colher
lamba os beiços e fale: sim.
sou eu e vim pra ficar.
sou eu que me perco
cam ba le a ndo
entre as muletas dos velhos na calçada esburacada.
sou eu esses dentes.
sou a terra, a espécie, o esquecimento.
os pés das meias trocados.
sou eu, que não sou a lua, que sou
suficiente para grudar na minha pele
despojos, feito tatuagem,
meus gritos de caça.
filiação.
ritos de anunciação (paisagem)
de qualquer coisa:
que ao se especificar
se torne
outra
independente. de mim, dela
mesma.
concentra-se.
como um sumo em pó
misturar na água
mexa com uma colher
lamba os beiços e fale: sim.
sou eu e vim pra ficar.
sou eu que me perco
cam ba le a ndo
entre as muletas dos velhos na calçada esburacada.
sou eu esses dentes.
sou a terra, a espécie, o esquecimento.
os pés das meias trocados.
sou eu, que não sou a lua, que sou
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sexta-feira, 25 de maio de 2012
quinta-feira, 24 de maio de 2012
espessura e curvatura
"Idealmente, a linguagem do intercâmbio social deveria ser como a vidraça da janela; não deveríamos notar que ela se posta entre nós e o sentido "por trás" dela; mas quando os químicos recentemente desenvolveram um revestimento plástico que tornava inteiramente invisível o vidro sobre o que fora estendido, as conseqüências estiveram longe de ser satisfatórias: as pessoas davam de cara com o vidro. Se houvesse uma linguagem pura o bastante para transmitir toda a experiência humana sem distorção, não haveria nenhuma necessidade de poesia; mas uma linguagem assim não só não existe ela também não pode existir. A linguagem não pode fazer justiça a toda verdade humana mais do que a lei a todos os desejos humanos. Em sua própria natureza como um instrumento social, ela deve ser uma convenção, deve ordenar arbitrariamente o caos das experiências, facultando a expressão a algumas, negando-a a outras. Deve fornecer denominadores comuns e, assim, por força, ela falsifica, da mesma forma que a lei necessariamente inflige a injustiça. E essas falsificações serão tanto mais perigosas quanto mais "transparente" a linguagem parece se tornar, quanto mais inquestionavelmente ela for aceita como um meio que não leva à distorção. Não se trata da vidraça da janela mas, de preferência, de um sistema de lentes que concentra e refrata os raios de uma hipotética visão não mediada. O primeiro objetivo da linguagem poética, e das metáforas em particular, é o oposto de tornar a linguagem mais transparente. As metáforas intensificam uma consciência da distorção da linguagem, aumentando a espessura e a curvatura das lentes, e, assim, exagerando os ângulos de refração. Elas nos abalam em nossa cômoda convicção de que um túmulo é um túmulo. Elas são jogos semânticos de palavras, assim como os jogos de palavras são metáforas fonéticas; embora deixem intactos os sons das palavras, elas rompem com sua identidade semântica."
Sigurd Burckhardt, citado pelo Michael Hamburger em "A verdade da poesia".
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segunda-feira, 21 de maio de 2012
quinta-feira, 17 de maio de 2012
ontem duvidei
tristeza foi pensar que cansaço
de tristeza faz tanto tempo - eu nem sei bem desde quando que as estruturas de repente se abruptam, corredeira,
pedra que amoleço, tanto. rio de riso tudo
dúvida assim de ter dúvidas
dúvida de a tristeza ser de sempre, a minha
dúvida.
delicadeza que se assustou, a minha
doçura cura
e repentina assombra
passei o dia pura
cansada.
tristeza foi pensar que cansaço
de tristeza faz tanto tempo - eu nem sei bem desde quando que as estruturas de repente se abruptam, corredeira,
pedra que amoleço, tanto. rio de riso tudo
dúvida assim de ter dúvidas
dúvida de a tristeza ser de sempre, a minha
dúvida.
delicadeza que se assustou, a minha
doçura cura
e repentina assombra
passei o dia pura
cansada.
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agora que sou sincera
sonho assim: muitas vezes e repetidademente com caminhos de viagens que estou partindo, fazendo. interpreto isto sempre com a vontade de fugir. "se fujo, só dou em mim". depois atravesso, acordada, as âncoras de todo lugar.
(aprender a só ser, etc)
mas esta noite sonhei com um caminho entre árvores, muito verde. eu andava por ali sabendo que já tinha estado lá.
era a "Itália". eu sentia prazer de estar lá outra vez. não lembro muito, porém é tudo.
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caderno público de sonhos
há um retorno
tenho mãos para o indivisível
(será o indivisível aquele visto
que não perde um braço?)
fui e sou
capaz de tanta coisa
entre as abstrações e os canteiros
não temas
as conjunções, os travesseiros
desmontados pelo uso
as pernas dos dançarinos de twist
o analfabetismo matemático que reveste teus trocos
as gravações dos beatles têm uns quarenta e cinco anos
às vezes é tão redondo
que eu acho que é falso
as jóias irregulares de júlia.
(será o indivisível aquele visto
que não perde um braço?)
fui e sou
capaz de tanta coisa
entre as abstrações e os canteiros
não temas
as conjunções, os travesseiros
desmontados pelo uso
as pernas dos dançarinos de twist
o analfabetismo matemático que reveste teus trocos
as gravações dos beatles têm uns quarenta e cinco anos
às vezes é tão redondo
que eu acho que é falso
as jóias irregulares de júlia.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
coração
ele vai em casa
vê o teto e o correio
e você naquele momento em que atravessa o fim da página e começa um abismo
eu-ele que encontro a multiplicação
do espelho
turvo
em água que se beba
eu que encontro
eu que encontro ele
eu que
encontro
tinta da lógica
te desfaças daqui
vou abrir a cordilheira
ter mãos para o indivisível.
vê o teto e o correio
e você naquele momento em que atravessa o fim da página e começa um abismo
eu-ele que encontro a multiplicação
do espelho
turvo
em água que se beba
eu que encontro
eu que encontro ele
eu que
encontro
tinta da lógica
te desfaças daqui
vou abrir a cordilheira
ter mãos para o indivisível.
terça-feira, 15 de maio de 2012
circo arisco
o poeta é um orifício
por onde se respira
mil deles, ofício
antigo e massudo como ombros radicais
livres teus minhas ancas na coroação
olhos de dentro da montanha
ou quem tivesse a velocidade de ver uma cordilheira subir, estar presente.
por onde se respira
mil deles, ofício
antigo e massudo como ombros radicais
livres teus minhas ancas na coroação
olhos de dentro da montanha
ou quem tivesse a velocidade de ver uma cordilheira subir, estar presente.
sábado, 12 de maio de 2012
mambembe
hoje, desde o 25 de abril, é a quinta aglomeração de gente que eu vejo. meio que sem querer, ou não, passando na minha frente. ainda bem. eu vi:
- o 25 de abril chuvoso e triste na avenida da liberdade. onde um cravo custava um euro e estávamos todos sem entender.
- o 1 de maio na almirante reis com bastante gente usando vermelho (como eu na varanda assistindo passar) e uma menina um pouco mais nova que eu berrava no altifalante: "sou puta/ sou precária/ também sou proletária".
- uma procissão de são jorge, também embaixo da minha varanda. ela reunia todas as forças armadas e polícias nacionais com bué de católicos dos mais variados. entre os cavalos vinha um são jorge de mentira, um manequim em cima de um cavalo que balançava até parecia que caía. disse pro gustavo: É O DOM SEBASTIÃO tremelicando.
- na frente do parlamento, exibição de um filme-protesto com cem anos do cinema português ("realizados com a participação de pessoas de milhares de nacionalidades", disse a apresentadora). ato de ACORDAR a merda desse governo de merda.
- agora, na rua debaixo desse escritório, manifestação em frente ao prédio dos PALOP. sim,as línguas portuguesas são minhas vizinhas, e é uma manifestação de gente de guiné bissau. não consigo entender exatamente pelo que eles estão se manifestando, mas são todos negros e gritam com um ânimo nada europeu, o que alegrou o meu sábado.
pra além de que eles gritam abaixo sei lá o que abaixo sei lá o que mais e de repente
VIVA PORTUGAL
VIVA
VIVA MOÇAMBIQUE
VIVA
VIVA GUINÉ
VIVA
VIVA BRASIL
VIVA
etc. e carregam umas placas que falam tanto da nação como de deus, e eu fico mesmo
confusa.
na boca do povo.
- - -
adendo importante do 14 de maio, via marcos, entendi porque protestavam: http://pt.wikipedia.org/wiki/Golpe_de_Estado_na_Guin%C3%A9-Bissau_em_2012
- o 25 de abril chuvoso e triste na avenida da liberdade. onde um cravo custava um euro e estávamos todos sem entender.
- o 1 de maio na almirante reis com bastante gente usando vermelho (como eu na varanda assistindo passar) e uma menina um pouco mais nova que eu berrava no altifalante: "sou puta/ sou precária/ também sou proletária".
- uma procissão de são jorge, também embaixo da minha varanda. ela reunia todas as forças armadas e polícias nacionais com bué de católicos dos mais variados. entre os cavalos vinha um são jorge de mentira, um manequim em cima de um cavalo que balançava até parecia que caía. disse pro gustavo: É O DOM SEBASTIÃO tremelicando.
- na frente do parlamento, exibição de um filme-protesto com cem anos do cinema português ("realizados com a participação de pessoas de milhares de nacionalidades", disse a apresentadora). ato de ACORDAR a merda desse governo de merda.
- agora, na rua debaixo desse escritório, manifestação em frente ao prédio dos PALOP. sim,as línguas portuguesas são minhas vizinhas, e é uma manifestação de gente de guiné bissau. não consigo entender exatamente pelo que eles estão se manifestando, mas são todos negros e gritam com um ânimo nada europeu, o que alegrou o meu sábado.
pra além de que eles gritam abaixo sei lá o que abaixo sei lá o que mais e de repente
VIVA PORTUGAL
VIVA
VIVA MOÇAMBIQUE
VIVA
VIVA GUINÉ
VIVA
VIVA BRASIL
VIVA
etc. e carregam umas placas que falam tanto da nação como de deus, e eu fico mesmo
confusa.
na boca do povo.
- - -
adendo importante do 14 de maio, via marcos, entendi porque protestavam: http://pt.wikipedia.org/wiki/Golpe_de_Estado_na_Guin%C3%A9-Bissau_em_2012
fighting in the captain’s tower
They’re selling postcards of the hanging
They’re painting the passports brown
The beauty parlor is filled with sailors
The circus is in town
Here comes the blind commissioner
They’ve got him in a trance
One hand is tied to the tight-rope walker
The other is in his pants
And the riot squad they’re restless
They need somewhere to go
As Lady and I look out tonight
From Desolation Row
Cinderella, she seems so easy
“It takes one to know one,” she smiles
And puts her hands in her back pockets
Bette Davis style
And in comes Romeo, he’s moaning
“You Belong to Me I Believe”
And someone says, “You’re in the wrong place my friend
You better leave”
And the only sound that’s left
After the ambulances go
Is Cinderella sweeping up
On Desolation Row
Now the moon is almost hidden
The stars are beginning to hide
The fortune-telling lady
Has even taken all her things inside
All except for Cain and Abel
And the hunchback of Notre Dame
Everybody is making love
Or else expecting rain
And the Good Samaritan, he’s dressing
He’s getting ready for the show
He’s going to the carnival tonight
On Desolation Row
Now Ophelia, she’s ’neath the window
For her I feel so afraid
On her twenty-second birthday
She already is an old maid
To her, death is quite romantic
She wears an iron vest
Her profession’s her religion
Her sin is her lifelessness
And though her eyes are fixed upon
Noah’s great rainbow
She spends her time peeking
Into Desolation Row
Einstein, disguised as Robin Hood
With his memories in a trunk
Passed this way an hour ago
With his friend, a jealous monk
He looked so immaculately frightful
As he bummed a cigarette
Then he went off sniffing drainpipes
And reciting the alphabet
Now you would not think to look at him
But he was famous long ago
For playing the electric violin
On Desolation Row
Dr. Filth, he keeps his world
Inside of a leather cup
But all his sexless patients
They’re trying to blow it up
Now his nurse, some local loser
She’s in charge of the cyanide hole
And she also keeps the cards that read
“Have Mercy on His Soul”
They all play on pennywhistles
You can hear them blow
If you lean your head out far enough
From Desolation Row
Across the street they’ve nailed the curtains
They’re getting ready for the feast
The Phantom of the Opera
A perfect image of a priest
They’re spoonfeeding Casanova
To get him to feel more assured
Then they’ll kill him with self-confidence
After poisoning him with words
And the Phantom’s shouting to skinny girls
“Get Outa Here If You Don’t Know
Casanova is just being punished for going
To Desolation Row”
Now at midnight all the agents
And the superhuman crew
Come out and round up everyone
That knows more than they do
Then they bring them to the factory
Where the heart-attack machine
Is strapped across their shoulders
And then the kerosene
Is brought down from the castles
By insurance men who go
Check to see that nobody is escaping
To Desolation Row
Praise be to Nero’s Neptune
The Titanic sails at dawn
And everybody’s shouting
“Which Side Are You On?”
And Ezra Pound and T. S. Eliot
Fighting in the captain’s tower
While calypso singers laugh at them
And fishermen hold flowers
Between the windows of the sea
Where lovely mermaids flow
And nobody has to think too much
About Desolation Row
Yes, I received your letter yesterday
(About the time the doorknob broke)
When you asked how I was doing
Was that some kind of joke?
All these people that you mention
Yes, I know them, they’re quite lame
I had to rearrange their faces
And give them all another name
Right now I can’t read too good
Don’t send me no more letters, no
Not unless you mail them
From Desolation Row
[dylan, bob]
They’re painting the passports brown
The beauty parlor is filled with sailors
The circus is in town
Here comes the blind commissioner
They’ve got him in a trance
One hand is tied to the tight-rope walker
The other is in his pants
And the riot squad they’re restless
They need somewhere to go
As Lady and I look out tonight
From Desolation Row
Cinderella, she seems so easy
“It takes one to know one,” she smiles
And puts her hands in her back pockets
Bette Davis style
And in comes Romeo, he’s moaning
“You Belong to Me I Believe”
And someone says, “You’re in the wrong place my friend
You better leave”
And the only sound that’s left
After the ambulances go
Is Cinderella sweeping up
On Desolation Row
Now the moon is almost hidden
The stars are beginning to hide
The fortune-telling lady
Has even taken all her things inside
All except for Cain and Abel
And the hunchback of Notre Dame
Everybody is making love
Or else expecting rain
And the Good Samaritan, he’s dressing
He’s getting ready for the show
He’s going to the carnival tonight
On Desolation Row
Now Ophelia, she’s ’neath the window
For her I feel so afraid
On her twenty-second birthday
She already is an old maid
To her, death is quite romantic
She wears an iron vest
Her profession’s her religion
Her sin is her lifelessness
And though her eyes are fixed upon
Noah’s great rainbow
She spends her time peeking
Into Desolation Row
Einstein, disguised as Robin Hood
With his memories in a trunk
Passed this way an hour ago
With his friend, a jealous monk
He looked so immaculately frightful
As he bummed a cigarette
Then he went off sniffing drainpipes
And reciting the alphabet
Now you would not think to look at him
But he was famous long ago
For playing the electric violin
On Desolation Row
Dr. Filth, he keeps his world
Inside of a leather cup
But all his sexless patients
They’re trying to blow it up
Now his nurse, some local loser
She’s in charge of the cyanide hole
And she also keeps the cards that read
“Have Mercy on His Soul”
They all play on pennywhistles
You can hear them blow
If you lean your head out far enough
From Desolation Row
Across the street they’ve nailed the curtains
They’re getting ready for the feast
The Phantom of the Opera
A perfect image of a priest
They’re spoonfeeding Casanova
To get him to feel more assured
Then they’ll kill him with self-confidence
After poisoning him with words
And the Phantom’s shouting to skinny girls
“Get Outa Here If You Don’t Know
Casanova is just being punished for going
To Desolation Row”
Now at midnight all the agents
And the superhuman crew
Come out and round up everyone
That knows more than they do
Then they bring them to the factory
Where the heart-attack machine
Is strapped across their shoulders
And then the kerosene
Is brought down from the castles
By insurance men who go
Check to see that nobody is escaping
To Desolation Row
Praise be to Nero’s Neptune
The Titanic sails at dawn
And everybody’s shouting
“Which Side Are You On?”
And Ezra Pound and T. S. Eliot
Fighting in the captain’s tower
While calypso singers laugh at them
And fishermen hold flowers
Between the windows of the sea
Where lovely mermaids flow
And nobody has to think too much
About Desolation Row
Yes, I received your letter yesterday
(About the time the doorknob broke)
When you asked how I was doing
Was that some kind of joke?
All these people that you mention
Yes, I know them, they’re quite lame
I had to rearrange their faces
And give them all another name
Right now I can’t read too good
Don’t send me no more letters, no
Not unless you mail them
From Desolation Row
[dylan, bob]
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