terça-feira, 28 de agosto de 2012

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Oscar me escreve muito

"As trevas se dispersam e o Sol tende a iluminar novamente o caminho. Compreenda a alternância infalível dos ciclos para que a ansiedade seja posta de castigo num canto gelado, de onde nunca mais deveria sair."

terça-feira, 21 de agosto de 2012

a rota

comi um sushi podre que me revirou o estragado pro avesso, nessas últimas horas. mas, dizer bem, mais difícil foi atravessar a memória. como se o fazer das tripas pra fora fosse um ciclo de desistências e resignações, ou de momentos em que a tensão do pensamento é tão grande, ou o tsunami dos acontecimentos tão onda do tempo, que seria como se vomitar fosse uma pontuação. dos empecilhos e do excesso de estímulo que é o mundo. torci tanto pra que amanhecesse, e então pude dormir, desanuviada, com a certeza de que tempos já foram piores, e que as intoxicações alimentares continuam sendo uma maneira de dizer chega! pra algo que se violenta em mim.
meu pai, por sua vez, diz que em são paulo não chove. e que se espera então pela chuva, os pensamentos secos acompanham. é difícil ser orquídea num mundo de aço, mas no fundo é um cowboy com nervos de espaço. minha vida me ultrapassa em qualquer rota
no domingo eu vi uma ovelha comendo silvas, as amoras das silvas e os galhos cheios de espinhos das silvas. não sei, não percebi, mas estava ali, toda a alegoria da minha (difícil) digestão. 
no mais, vejo astros em toda parte e sei que saturno na soleira: segura a porta, sem bater, entra.
e é bom, a melhor coisa do mundo, voltar a escrever.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

ontem, no socalco

"Light breaks on secret lots,
On tips of thought where thoughts smell in the rain;
When logics die,
The secret of the soil grows through the eye,
And blood jumps in the sun;
Above the waste allotments the dawn halts."

dylan thomas

terça-feira, 14 de agosto de 2012

houve uma vez, eu estava viva, e os campos estalavam. estalavam conforme os passos, e o vento. depois me tornei os próprios passos, os campos se alagaram, e você foi a janela pela qual eu saltei, e fui viver na melancolia.

os cabelos negros, os pássaros negros, os dentes dos negros,
tudo agora é o teu nome
e a tua voz abre a porta, cria

domingo, 12 de agosto de 2012

este foi o terceiro

desejei três modos de escrever azul hoje.
"enumera a raiva de todas as produções poéticas, a contidão do que não cabe, em razões maiores do que as diversas. Existe uma contigüidade lateral na viagem do esquisito, que a poesia não deixa a vida perder, e ele ignora isso. Se eu tivesse um bastão e um gnu, soltava ambos em cima dele. Mas a promiscuidade do amálgama também me interessa, e alguma gentileza (mais para o veludo do que para a pelica). Com isto, oncinhas só na estampa dos outros. Eu, meu bem, vou de azul-marinho.".

pares prováveis

EXPLICAÇÃO DA NOITE

Sobre a água estarei solto de caminhos
Dos que vierem nenhum barco é para ti

Não deixes a candeia acesa
Dorme: basta-me essa luz


(Daniel Faria)


DO NOT GO GENTLE INTO THAT GOOD NIGHT

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night,
Rage, rage against the dying of the light.


(Dylan Thomas)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

eu sou a casa no rolar da fúria

eu te amo quando você diz que precisa se perder para se encontrar. 
e imagino como isto é terrível, libertador. 
eu posso te perder.
eu posso te encontrar.
eu me perco muito, tentando me encontrar.
"sou uma devastação inteligente".
no fundo, temos a mesma cor. 
e quando você é uma tempestade, eu sou a água entrando por dentro da terra, inchando as raízes, arrebentam. a água que evapora é você de novo. sutil nuvem. então quando eu chovo, descubro que é você a terra.

domingo, 5 de agosto de 2012

a partir de


Apartirde,
minha ancestral vontade de partir
não pode ver um aeroporto
que tem ganas de ir te ver.

na janelinha sabiás, melros
urubus abrem os ligamentos das nuvens.
saberás pela primeira andorinha
que ao meu lado tudo
tudo estréia, primavera
depois verão.

o corpo está dando pane
o tempo entre um verso e outro
alargou-se
de 20 segundos a 2 minutos ou 20 anos.

esta deusa é tudo, menos fácil
canelinha roxa com penduricalho
e lá por dentro as viúvas nos portais
oscilando, dizendo não.

a dona só se veste de azul-marinho.
aqui de calcinha.
28 anos e a barriga estufada.
domingo no lençol rosa.



seta maybe reset

bom dia. atribulada.
tenho sonhos que parecem peregrinações. se chegarmos a um santuário, imagino que vá implodi-lo.
penso até muito tarde que devo me afastar dos símbolos,
das alegorias, viva o carnaval
ou a carne que se dá
de troco a troco
arpões, sereias e serpentes.
embora não tenha mais vertigens, vontades de saltar
ah isso sim. e ontem quando chegamos em casa
na porta eu pensava que haveria fogo
subindo, subido pelas prateleiras
ou no armário da cozinha
as pimentas carbonizadas.
vou ficar atrás da porta?
quando me acostumo com uma casa
começa acontecer, de voltar cansada
que na minha ausência tudo se perdeu.
os fogos nos pés de Hermes, palavras
apetrechadas de asas. só deus sabe
o que eu teria sido sem ti.

terça-feira, 31 de julho de 2012

miolo de pão

os três livros ao meu redor
são quatro, na verdade
têm a mesma cor de capa entre si
cor de vinho quando entorpece.
é das minhas cores favoritas.
mas, problema! problema!
há tanta severidade, atenção!
entre as minhas costelas
que o linho da camisa pinica
e os três (quatro) livros?
intoleráveis!

mas hoje de manhã quando acordei
fiquei deitada no sofá e escolhi
acender aquele de ontem, aquele.
nem café ainda, eu tinha
mas já no copo de manhã
quando peguei no lume,
e tchibum, tchalá
lá e dois goles de café
para cada título empilhado
um formigamento diferente.

nesta manhã me prometi
que não ia
escrever sobre livros.
mas já estou aqui
tentando descrever
o que foi olhá-los
hoje de manhã
e que eles me convidaram
um a um, para lembrar
das festas, as roçadas,
obscuros fins de tarde
tivemos juntos.

porque muita gente escreve sobre livros.
muita gente demais escreve sobre livros.
eu sou uma delas. eu stalactite.
estela, by a starlight.
mais do que o teu sonho, a galáxia
eles transmitem.


- - - - - - - vou aprender a esparramar geléia no corpo intenso - - - - - - - - - - -

domingo, 29 de julho de 2012

pra quem me gosta sem conhecer

ando com tanta boa vontade com as pessoas que quando ouvi uma moto acelerando lá embaixo pensei que fosse uma britadeira sendo usada em horário inadequado por algum vizinho, domingo. ou seja, falei a frase em cima disso: "estão serrando uma pessoa ali embaixo, com uma lixa.".

então veio a noite de todos os destinos, e descortinou-se.

num determinado dia

Quando alguém vem de dentro de uma coisa cultural e certamente não se é européia, nem índia, mas o que se é por toda parte, e se depara com Artaud oscilando pelas experiências com o Peyotl e os Tarahumaras, no reconhecimento desta proximidade: tanto de Artaud, o alucinado sofredor da coragem que nunca vou ser, só se por admiração ou vício, sente-se, senti-me de certa forma estúpida por ainda nunca ter simplesmente escrito do chá, embora muitas vezes já tenha escrito com ele ou usando da força que a combinação fervida de um cipó com uma folha (amazônicos, ambos) por horas de preparo, pode suscitar em um corpo humano, neste caso de mulher, eu. Para além da narrativa se produzir enquanto relato, eu um filtro do contar (fingir que dizer não significa, é um ato), certas coisas me inquietam e certamente são, como todas as coisas que me inquietam verdadeiramente, da ordem das semelhanças. Das semelhanças entre os homens. Por que onde começa e onde termina a natureza? Química, biologia, de nada disso posso dizer. Não tenho ciência. E sei que a poesia nem sempre me visita. Suave implacável mariposa. Divina espécie, este corpo do qual faço parte.

mas o espírito de tudo quando ainda não havia

Um corpo de medo ultrapassado. O mato gordo e mais virgem que uma puta, mato daquele verde retinto e gordo, que tão bem se acopla em si mesmo, quanto mais perto do barro vermelho. Aquele verde carnudo feito um olho. Que explode feito olho mordido. Mas, de seiva branca que deitará, ninguém morde. A não ser quando no corpo invade a cobra. Mas eu estava voltada para a pessoa que vive em mim. Estava feliz por ser eu mesma, com as plantas ao redor e uma estrada embaixo dos pés. Eu era incapaz de ser incapaz, naquele instante. Com os passos que eu estava dando, toda a fúria do frio tornava-se liquida pelos tendões, se aquecendo em sangue. Eu era o próprio arame da cobra que tinha comido a seiva branca, eu tinha coragem. E nenhum veneno.

sábado, 28 de julho de 2012

nem gente, nem parafuso

A origem de tudo o que eu conheço é um carrossel. Quando nós começamos era o coração da minha mãe. Eu estava fora do salão e tocava Mozart lá dentro. Eu ouvia, debruçada em mim mesma, como se o queixo abraçasse meu esterno, o pescoço curvado, a testa em direção ao estômago. Enrolada no meu edredom cor de rosa como em um longo xale que, vindo pelos ombros e cobrindo todas as costas, alcançasse até minhas pernas também, toda embrulhada. Ao que nunca soube se a cor de carne que tantas vezes acabo por ver deriva do meu próprio sangue ou de uma espécie de cortina, seja ele do meu respeitável aquecedor em tecido que outras vezes me fez o audaz super-herói da capa vermelha, ou das minhas próprias pálpebras. Os acordes, talvez, a combinação dos violinos mais propriamente a agora a recordação do meu amigo, minha primeira paixão, o homem com quem perdi a virgindade dizer anos antes “o som dos violinos é tão natural” e a de anos depois do meu professor “a língua da poesia é a língua materna”, a música compunha dentro do meu peito um carrossel de vidro e carne, dentro de um cristal giravam cavalos pequeninos brancos, delicadamente, e num mesmo ritmo sem nunca oscilarem, a pequena pedra era um salão austríaco onde dançavam e era sobretudo o amor que a minha mãe sente por mim. Pude descansar como se respirasse cem vezes em uma só e o corpo absolutamente oxigenado recomeçasse leve, sutil, encarnado. E de tão íntegro só pudesse confiar nos seres de presente absoluto.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

momento sabedoria

as épocas de concretização são épocas de gênese, na verdade.

a constância também não é um equívoco.

tinha mais uma, mas eu tenho que ir beber sakê.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

coisas que faltam

eu tinha uma moto tipo scooter, preta. e andava com ela quilómetros numa estrada de muitos pinheiros, era de noite. chegava lá no fim da estrada tinha um posto de saúde, que era onde eu estava indo, fazer uns exames. mas chego lá e meus documentos não são exatamente os que eu preciso pra'quela situação. aparece a virgínia, eu prometo que dou carona pra ela de volta. então outra funcionária surge e resolve minha falta de documentos com um sorriso. vou ver não sei o quê na scooter e noto que o pneu traseiro estava furado. muito furado. chego no posto de gasolina da cidade (que eu imaginava até então que não existia) e o cara diz que consegue consertar meu pneu. e eu fico olhando. pergunto pra ele se tem problema dirigir sem capacete, ele me diz que não, que ali não é regra, nem lei. 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

aterrisei assim

aterrisei assim
deixei meus pais no aeroporto
almocei caril de camarão
(indeed caril de gambas)
fui na praia com o daniel
tomei rajada de vento
água fria
gelado
magnum
comboio
participei de uma filmagem
meus poemas pisaram em mim com os dois pés
sábado todo sem sair de casa
chorei por uma frase
domingo guacamole
espirro
o melhor sexo de todos os tempos
dor de garganta
fico menstruada
termino um capítulo
o tempo e o octavio
vão bem
copio palavras de outros até meu ombro doer
tenho cólicas
não salto no abismo antes de terminar.

me sabe a europa



‎"Much of it is expensively copied and decorated, but it has a rich and complex history: additions, resequencing, later annotations, and much else make its origins and changes hard to trace."

estão falando no trecho acima sobre a tal música européia de muitos séculos atrás. 
o que me impressiona é como com pequenas modificações poderia ser um texto sobre a cultura da miscigenação no brasil. 

terça-feira, 24 de julho de 2012

as abelhas que salvaram da encosta

começa assim. uma história. começa assim. alguém entre as árvores, salta. alguém que nunca tinha saído de uma ilha. este alguém vê uma abelha. não sei se o pensamento deste alguém sentiu primeiro que corria o risco de ser picado ou se lembrou que as abelhas dão doce mel. mas este alguém não era alérgico, e eu nem sei exatamente se as abelhas dão mel, feito as flores, ou se o fazem; e algum de nós se mete a tirar delas, tudo o que tiver para lambuzar
eu quero. esta história que estou lendo é dos tempos que eu gostava de lápis de cor. mas naquele tempo ainda não sabia sus-ter a respiração de modo a animar, acalmar o corpo, através, talvez, dos batimentos do meu coração. que não se confunde com o coração do nosso herói, que certamente é escrito pelo ritmo deles. sobretudo da expiração.
ontem escrevi. 
o nosso herói sobreviveu a um grande ser, que arrancou as encostas de uma montanha feito essas pontas de lápis que arrasto sobre a mesa, e atirou sobre o nosso herói. que por não ter feito nada com as abelhas do início da nossa história, salvaram-no. 

sábado, 21 de julho de 2012

Antes de ontem sonhei com a m. Ela me explicava uma meia dúzia de coisas dentro da própria casa dos meus pais. Lembro que os sofás eram de veludo e as luzes baixas. Os móveis escuros, castanhos, vinhos. Eu sentia e sentia e consentia. Havia algo entre ela e o julgamento do meu pai que se distanciava. Mas meus pais não estavam mais, ou não tinham chegado. Então ela me dizia que faltava o coração, que eu tinha que ir pro coração das coisas. 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

a câmara clara

-alô
-ei
-e aí?
-tá sussa.
-fazendo?
-texto.
-hm. tb.
-...
-...
-loucura, né?
-é. puxa.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

se um vaso na testa quebrasse

o bom das cidades é que elas não são de ninguém. mas há os comerciantes do bairro, as velhotas falando dos vasos das outras, existem os prefeitos e os presidentes das câmaras e os políciais que batem nas pessoas e as pessoas que ajudam outras a atravessar a rua. o bom das cidades é que elas não são de ninguém e se abre um fosso, um esguicho nos dias de calor, ou a impossibilidade de dois guarda-chuvas atravessarem um mesmo espaço. o bom das cidades é que elas não são de ninguém e você pode escarrar na boca-do-lobo e latir au au au pro cão dos outros. o bom das cidades é que elas têm na loja ao lado couscous do marrocos, bacalhau da noruega, mandiocas da paraíba e frangos no isopor. ultracorega. o bom das cidades é que elas não sendo de ninguém, atravessam o espaço, tomam a lua e arquitetam a órbita do universo. enquanto a sirene passa lá embaixo.   

da voz que faz o dia renascer

sexta-feira, 13 de julho de 2012

verão

essa noite, não foi sonho não, eu levantei e era quase de manhã. no caminho de volta do banheiro, vi a cama, azul. e me lembrei que virá o frio e será muito difícil. dormi. dormi triste.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

descansa,

E fica o nada e o vazio que a clareira do bosque dá como resposta àquilo que se procura. Mas se nada se procura, a oferenda será imprevisível, ilimitada. Já que parece que o nada e o vazio - ou o nada ou o vazio- têm de estar presentes ou latentes continuamente na vida humana. E para não se ser devorado pelo nada ou pelo vazio há que fazê-los cada homem em si, há pelo menos que deter-se, ficar em suspenso, no negativo do êxtase. Suspender a pergunta que cremos constitutiva do humano. A maléfica pergunta ao guia, à presença que se desvanece se for acossada, à própria alma asfixiada pelo perguntar da consciência revolta, à própria mente a que não se consente tréguas para conceber em silêncio, obscuramente também, sem que a pergunta interruptora a faça desaparecer na mudez da escrava. E o temor do êxtase que perante a claridade vivente acomete obriga a fugir da clareira do bosque o seu visitante, que assim se torna intruso. E se entra como intruso, escuta a voz do pássaro como reprovação e como troça: "buscavas-me e agora, quando te sou enfim propício, voltas para esse lugar onde respirar não podes", ou algo semelhante soa no seu canto desigual. E um certo sossego pode procurar essa reprovação e essa troça. Na cena das bodas, único momento em que Dante encontra Beatriz frente a frente, ele vê-a troçar, como uma dama vulgar com as suas amigas, da perturbação que o enamorado sem par sente ao vê-la tão perto e ao poder servi-la inesperadamente. E foge para o aposento vizinho, e o amigo apresentador - guia - pergunta-lhe qual a causa de tanta perturbação. Io tenni li piedi en quella parte de la vita di là quale nom si puote ire più per intendimento di ritornare*.



* Eu tinha meus pés naquela parte da vida à qual não se pode ir com intenção de regressar. María Zambrano refere-se a um trecho da Vita Nuova, de Dante. (N. do T.)
[do "Clareiras do Bosque", María Zambrano. Tradução de José Bento]

o mundo é feito de possíveis

lembrei ontem o que eu quero ser na vida: uma pré-escola.

armadura

eu estava chegando em casa. na farmácia que fica aqui embaixo e onde só comprei uma pomada contra assaduras e uns remédios pra dor de cabeça uma vez, tinha um cartaz colado na vitrine em que a cara do homem da propaganda tinha sido substituída por um buraco onde uma xícara de café despejava. assustei como criança, filme de terror, não sei. tenho visto setas, flechas atravessando o céu do quarto, quando acordo. se eu tivesse um trapézio talvez os ombros mais leves. mas sou de prata. eu sou a própria luminância por cima.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

achei a salvação pública


vamos chamar o vento

curioso, os sonhos com azul. e também a auto-salvação, de percebida que foi a falta de auto-contato. não sei bem onde isto vai dar. sei que tenho que escrever uma dissertação, mas preferia olhar o guindaste ali em frente trabalhando. talvez ele falasse mais de tradição do que eu, ou concebesse do tempo a estrutura vital. rasgando o céu, 

vamos pensar
em público. o pensamento público. o caminho do pensamento,

o leitor do tempo
constelação do
homem constelação

ensinou-me uma espécie de rito, do respeito.
averigua-se uma vontade pronominal de encaixe
anca com anca
língua com língua
meus países
bela vista.

visitas em monumentos históricos. castelos, ruínas. gosto de ambos. e os turistas de meias brancas. e os turistas vestindo muito cáqui. e os turistas. o nietzsche tinha tanta razão, em nós sermos (notados desde quando não sei, mas do seu termômetro-escrita) a cultura do excesso de cultura histórica. 

que mundo é este onde as pessoas não têm mais tanto só "a roupa de domingo", separada dos outros dias da semana. mas seriamente desconfiada - ando- de que existam roupas de turistas. lojas de roupas de turistas, onde eles passam antes de visitar as (nossas) disneylândias históricas e escolhem as melhores meias mais brancas, e todas as roupas cáquis do mundo, 

in the sky, by my dream.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

trilogia da incomunicabilidade

tríade de quadrúpedes saltavam num campo de crateras
cada patada abria um buraco maior na esfera
e de cada salto se fazia uma estrela, um dom, uma luva.

luva esta que permitia a entrada nas tripas
nas tripas da luz de uma estrela
anti-queimaduras, vertigem em chamas

meu livro está tão quase pronto
tão quase pronto
que nem mexo nele, que é pra não acabar.

dia desses vou tê-lo. entre os dedos
das pernas, o novelo. o que cair no chão
risca a cisma, invade o ringue, fura a bóia
de língua no salão: salteia, rodopia
feito alho na frigideira quente
quando esparrama, mata bactérias
meu coração fungicida
ontem soube que o lorca
que a tradição do lorca
falava em duendes, depois
ny o deixou doente
não foi suficiente
para a poesia moderna
nascer & nem morrer
tantas coisas suficientes
mas ali dela, nem isto.
eu continuo, prefiro
perder o risco
sou tão domada
arisco é o ceú
nesse quente-esfria
entre todas as probabilidades
não sou de mais ninguém
escolho o queixo
tudo teu. meu. e teu
de novo.

a incrível saga del rei


minha mão esquerda tem seis anos

acordei disposta a pensar num gato ou a pensar numa flecha. fazia muito tempo que antes de dormir eu não cerzia tudo. é como se um corte tivesse fechado, e eu dormi num playground de travesseiros, macios.
mas tive um sonho de ciúmes, transgrediram tuas mãos. em um comboio, o vagão, a carruagem da alimentação. meu coração é uma vagem, teus olhos as ervilhas, etc.

sábado, 30 de junho de 2012

é que ontem fiquei olhando muito tempo um livro na estante da carol

este sonho foi assim: só lembro da cara de um menino de coisa de 8, 10 anos. ele era um menino de filme do truffaut, ou de foto do doisneau, um menino em preto e branco. se mexia, vivo. e ele tinha em volta da cara uma moldura ambulante que o acompanhava. embaixo dela, o título, que também era o nome do menino: O ROMANCE.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

do diabo tenho alergia do diabo

lembrei-me repentinamente da cura e do dom para. há um pedaço que viaja pelas lágrimas, mas há maior pedaço que se concentra em não se desesperar, em contornar, em fazer pensar o melhor. com tantos defeitos, o maior deles não será a fraqueza.

havia uma cena da memória que retornava. fantasiada de fantasma, ou fantasma mesmo sendo, era uma viagem. eu, que já fui samurai, eu que uso azul todos os dias, costurando. costurar a língua com a linha azul, a língua do pensamento labareda, queima. tornar azul, a água arrefece e amacia, a língua.

dentre os elementos falta-me o ar
sem nunca fazer falta

eu mesma cometo muitas
derrubo o atacante na área
etc etc etc etc etc etc

fica cansada não
mia fia faz pão.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

ternura

minha mãe tão
justa, pela justiça enfeitiçada.
eu: feiticeira do critério.
oscilaria quanto mais
fosse preciso, mas agora
vou dizer: tu és a minha
carne, ó dor (ó mãe), e
eu sou a tua voz e
te farei quantas vezes sofrer
por nós.

terça-feira, 26 de junho de 2012

instruções para melhorar as coisas

o comandante trouxe uma bandeja com os dejetos. havia três olhos nela. por conta da falta de um para dois pares, logo se pensou que o olho que sobrava ainda estaria nas órbitas de alguém, que havia perdido, portanto, um. 

ah! se no mundo tantas coisas fossem lógicas como aquela bandeja.

- - -

tive um avião, tive um comandante.
fui feliz.
hoje, o avião quando sobe apita. o comandante foi beber água
beber água
e saltou.


- - -

se fosse possível trazer uma estrela da próxima vez?


- - -

respire uma vez
respire outra
respire uma vez
respire outra
respire uma vez
respire outra
respire respire
respire respire
reprise

- - -

seja, você também, o verão dos seus contemporâneos.

No hay poema en sí, sino en mí o en tí.

Don Octavio, el amor.

domingo, 24 de junho de 2012

ou a pangéia craquelasse um cadinho mais lá

estou com sinceras impressões
de que hoje é janeiro
se houvesse manga, era bahia
e que caetano quando compôs
baby "vivemos na melhor
cidade da América do Sul"
se referia à Lisboa.

se a crise é "européia" achei
a solução;

sexta-feira, 22 de junho de 2012

o melhor lugar do mundo

o melhor lugar do mundo
é o mundo. se eu me chamasse raimundo
talvez não tivesse cortado o cabelo ontem.
hoje a grécia vai eliminar a alemanha.
ontem depois do jogo
quis vos dizer: é bom vê-los felizes.
depois eram 4h da manhã e acordei com uns gajos gritando
ainda lá embaixo
a vitória. achei melancólico.
não perdi o sono.
o primeiro dia do verão é hoje.
e eu sou uma aventura
enrolada entre os galhos
uma andorinha se esconde
ainda não é hora de guardar
nem de tirar as mantas
esse verão mais frio do que o frio.
mas hoje esquentou
e eu tenho onde ir
quem amar e
o hábito de dizer três coisas
diferentes e completamentares.

realce

eu ontem comecei a escrever também aqui
quem faz pesquisa é o google, eu estudo.

El remedio contra la sensación y su dispersión instantánea es la reflexión. Entre una sensación y otra, entre un instante y otro, la reflexión interpone una distancia que también es un puente: una medida. Esa distancia se llama ritmo, también se llama símbolo e idea. 

Don Octavio, el perseguidor.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

propício

tudo tão só
no próprio lugar
que nem me interessa escrever um poema
a não ser que ele fale
do próprio lugar
em que tudo está.

os acontecimentos
como são? e o amor?
entretanto dizem tanto
não sei se vertigem
rumor da água
o princípio do caos.

os seixos shhhhhhh
rolam fazem ssssss
ilêncio tinha três filhos
ilêncio filho, ilhota e ilharga.
deles agora resta o aroma.
ponho os pés sobre a mesa.
o isqueiro que acabou
tanta coisa
pra se pensar.

não definhar
na insistente, hi-
     per dura
     vida.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

13/03/12 (à máquina)

no autocarro pensei em fazer uma série no livro de poemas de retratos familiares. depois lembrei que [...] sem dúvida outro seria para o meu vô [...]

       meu avô era tipo marlom brando
       que depois empenou como uma pipa de massa
       os portugueses gostam de gordura
       que é uma forma de aliciamento do desejo
       da matéria.
o que mais interessa falar no caso desse vô é dos olhos.
        meu avô me regulava os corredores escursos
        e xxxxxxxxxx o sexo infantil dos objetos macios
        seu olhar morto viajava pela criança que fui
        e foi bem mais tarde que as duas fotografias
        em cima do móvel da casa da minha vó
        que notei no meu olhar de sete anos
        o moleton roxinho e a franja cortadinha
a foto para o passaporte para vir conhecer
aos sete anos esse país onde vim viver
e da onde meio que meu avô era
e pra onde veio concluir, em coimbra, os
estudos, com a minha vó, muito apaixonados
vê-se nas fotos - - - mas em cima do móvel
denso da minha vó, a fotografia dele era muito
maior e de outra oficialidade, uma foto de cargo
a cabeça inclinada, catedrático ou reitor, mas o olhar
o modo de olhar, o ângulo meio vesgo e aquático
perfurático e diretivo, do meu avô aos 40 e tantos
era idêntico, era o meu aos 7 anos.
esse olhar de ter idéias, ainda me acompanha
hoje.      nem sempre, talvez
               as melhores.

[...]
essa noite eu sonhei
(tão óbvio)
que eu tinha cavalos
no lugar dos pulmões

quarta-feira, 13 de junho de 2012

homens que

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

#

Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltados para a velhice
Muito danificados pelas intempéries

Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior

# #

Amanhecemos sem materiais suficientes para a luz total
Embora nos estiquemos como cabras nos penhascos para os arbustos
Mais tenros, esticamo-nos para não nos doer a lembrança
Das manhãs tão sossegadas dos cavalos nos pastos

Explico que amanhecemos mastigando as ervas venenosas
Buscando um som mais poderoso do que o bater dos cascos
Um balido interior reunindo rebanhos
Uma palavra fonte múltipla como o úbere das cabras

Amanhecemos cheios de sede como se viéssemos de um outro hemisfério
Num galope rápido
Esticando-nos como arbustos tenros chamando
Amanhecemos nocturnamente fincando os joelhos nos penhascos
Levantamo-nos para sacudir as crinas para escovar os cavalos

Amanhecemos sem braçados bastantes para a luz
Queimados pelas palavras.
Organizamos rebanhos junto das águas
Andamos nas margens no meio da tarde.
Esticamo-nos para seremos setas de fogo
Ou o som dos chocalhos trespassando
Os mais tenros rebentos das chamas.



(poemas do Daniel Faria, de "Homens que são como lugares mal situados".)

domingo, 10 de junho de 2012

os alquimistas estão chegando

eu chegava numa casa suspensa por colunas, e o chão dela por baixo era todo gramado. eram duas casas vizinhas, uma muito bem cuidada, a outra não tanto. eram como imagens do passado e do presente. a do passado estava mais arruínada, impressionava o desgaste, mas também se notava o mais simples: de que não havia nada lá, além de muita atmosfera de tudo. a entrada nelas era por alçapões embaixo, mas como o terreno ficava em declive, as faces da frente delas também tinham janelas. não era minha casa, mas eu tinha sido convidada, e havia muita gente lá. 

eu procurava por um cão que era da casa, e encontrava num velho tanque, improvisado, uma casinha para filhotes de cães que tinham nascido faz pouco. quando pegava um deles, era o cão mais lindo do mundo, e já tinha uns seis anos. uma espécie de basset hound, só que com a pelagem escura e brilhante, e com uma crista feito a de um cavalo. andávamos pelo terreno, éramos amigos.

repentinamente eu estava no centro do terreno, aquele lugar era uma vila medieval e queriam me enforcar. perguntavam o que eu queria, que eu tinha ido ali roubar o capitão. eu dizia "não, o que quero é o cachorro do capitão". então eu virava um navegante japonês, samurai, umas roupas do século XIX, me davam um barco à vela e o cão.

eu via no sonho eu navegante com o cão, navegando no mar sem tamanho, que era azul azul azul, e brilhante, todo ondulado como se eu visse montanhas no mar. um mar de lona, mas não, mar de água. minha vela cortava o oceano, o cão era meu, tão maior o azul.
 

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