sexta-feira, 26 de outubro de 2012

raça


RAÇA

lá vem a força, lá vem a magia
que me incendeia o corpo de alegria
lá vem a santa maldita euforia
que me alucina, me joga e me rodopia

lá vem o canto, o berro de fera
lá vem a voz de qualquer primavera
lá vem a unha rasgando a garganta
a fome, a fúria, o sangue que já se levanta

de onde vem essa coisa tão minha
que me aquece e me faz carinho?
de onde vem essa coisa tão crua
que me acorda e me põe no meio da rua?

é um lamento, um canto mais puro
que me ilumina a casa escura
é minha força, é nossa energia
que vem de longe prá nos fazer companhia

é Clementina cantando bonito
as aventuras do seu povo aflito
é Seu Francisco, boné e cachimbo
me ensinando que a luta é mesmo comigo

todas Marias, Maria Dominga
atraca Vilma e Tia Hercília
é Monsueto e é Grande Otelo
atraca, atraca que o Naná vem chegando

os escaravelhos das campinas mais baixas

NEGRO REAL

Só a noite deves deixar falar diante dos olhos:
só a folha que ouve onde ainda há vento;
só a voz na gaiola do pássaro.

Só elas, elas e nada mais.
Mas a ti mesmo dá um pontapé e diz: sê corajoso,
sê digno da pedra sobre ti,
não quebres a amizade com a barba dos mortos,
junta a flor ao verme,
iça a tua vela sobre caixões,
traz para bordo os escaravelhos das campinas mais baixas,
dá a notícia aos obscuros.

Dá-lhes a dupla notícia:
de ti e de ti,
de ambos os pratos da balança,
da escuridão que quer entrar,
da escuridão que deixa entrar.

Dá a notícia aos escaravelhos,
dá a notícia aos obscuros,
junta flor ao verme,
iça a tua vela sobre caixões,
deita o teu coração à cabeceira.



Paul Celan, em tradução de João Barrento, de "A morte é uma flor".

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

sat


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

também não sei se me quero polir, but

um gênero de texto que faz tempo que não escrevo é o da confissão empenhada. percebi que sou azul. like a river, a goddess que te deseja mais que a escrita. a deusa subiu pelo barco talhado em carvalho, respirou três lances de escada e disse: tento tanto compreender os caminhos, que algo que me ensina, algo que eu me provo estar errado, é capaz de transtornar tanto o meu caminho, a ponto de me reinventar todinha, como alguém que comesse uma caixa de bis e fosse amassando os papeiszinhos, até só terem os papéis amassados na caixinha de papelão. a capacidade de transformação já foi das coisas que mais admirei em mim, mas enquanto admirava, não conseguia perceber o quanto isso é realidade. agora que não admiro nada (não admiro praticamente nada em mim) posso perceber. e algo nisso (talvez a maturidade, sonho de uma trepadeira) teme a possibilidade reiterada de entender algo tão inteiramente, ficar tão convencida, ir de modo tão determinado em direção de uma certeza que ABRAM ALAS A PAREDE CRESCEU. é o que eu vi nos olhos do meu avô naquela fotografia em que me vi também: posso me fascinar de modo tão inteiro por alguma coisa, ao ponto de tropeçar por ver vôo onde há queda. por isso mesmo, escrevi uma vez: dar tudo à vida. e depois saí aos pulinhos.    

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

so may I introduce to you

quando entrei no jardim pensei: a europa, como sempre
só sabe agir em proveito (e destruição do que lhe é) próprio. no brasil há uma onde nacionalista legitimada pela euforia do capital e pelos ressentimentos constituídos nos últimos 200 anos.
no entanto, há pessoas que tiram fotos de neurônios, e outras de galáxias.
e ambas se parecem.

cíclico


todas as minhas identidades, as mais fundamentais,
andaram comigo na mochila pela tarde.

depois a professora, propondo-me avanços, me indicou a leitura do meu livro preferido.


domingo, 14 de outubro de 2012

e isso

ricardo e eu fizemos

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

conhecer os limites - mergulhar neles. ser a fronteira deles. noite dessas sonhei com uma fronteira com o mar. revolto, a fortaleza onde começava a terra, digo, a areia. a tétis apareceu por cima da minha barriga, fora do sonho, eu olhei de soslaio e dormi novamente. a gata cinza foi parar no meu antebraço, carregador da beira-mar, fortaleza de pedras velhas, veemência do oceano ao redor.

sábado, 6 de outubro de 2012

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

saturno!

a menina hilda também o saúda


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"e a sede é tal que bebemos até ter água nas veias"
meu namorado fazia yoga, mais em idéia do que em movimento. mas a memória me interessa cada vez menos como o que aconteceu, cada vez mais como ecoa. me surpreende quando percebo que o desaparecido retorna. permaneço olhando pra fora, reconheço o que no presente me trouxe aquilo. porém meus sonhos têm sido esmagados, estou sempre numa viagem, vou nos perdidos & achados atrás do que não tenho mais em mãos, mas tantas coisas acontecem que quando acordo já não me lembro mais. e como uma agulha de assombro escuro uma imagem do sonho salta como se pedisse RESGATE RESGATE, mas o sonho fica lá, dentro de uma lamparina que se acende e o queima. tudo por si só. controlo muito mal esta máquina. 


depois um sonho em um avião. cheiro de avião, luz de avião, frio de avião, plástico de teto de avião. tem um lance com uma mala ou com meus documentos 

(sim, é tudo uma questão de perda e recuperação de identificação) um tecido vinho também, não sei se das poltronas ou da minha roupa. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

deito amarelo sobre o vinho

com o pensamento na maria
não tem jeito, não tem lugar que me sinta mais livre do que aqui. até a entrada de saturno em escorpião, estou de férias. numa grande vontade. grande vontade que não morre, só morre com a morte. meus gestos mais presos, isto quer dizer mais secos e certeiros. sou uma grande bondade de raiz. misturada com pêlo de nariz e jibóia. é isso que eu sou. jibóia jararaca mesmo naja levantando é o povo nesta crise. é como se nos dissessem "o circo não pode parar" só que em vez da palavra "circo" tivessem escrito a palavra "crise".
no entanto transatlântico e aquela euforia se fazendo espuma, espuma de raiva. de repente, no país onde tudo é possível, tudo de repente fica legitimado, deus contra todos, sr. rocha já dizia. a hilda veio falar comigo ontem à noite. ela me disse que tudo é precário. e cheio de banha, pra lambuzar as engrenagens. da mandíbula que é o músculo mais forte. não que eu ache que um sorriso custe muito, aliás, um sorriso ainda não custa nada, não é pra economizar sorriso, viu, menina.
então era madrugada e ela entraria pelos meus poros de terra. sou como um alho-poró: plantada e cheia de grânulos ao redor das minhas partes. uns dias atrás fui para o jardim, escrever o poema da espécie, e os cães ladravam em todos os quintais. considerei então a noite, fiquei sozinha com a imponderável. ontem, não. ontem vi os dois lados da madrugada: e, percebendo, escolhi que aquela noite ficaria linda e louca, mas sozinha na dela, que eu ia dormir. porque se não, madrugada que não te escolhe, te faz entristecer. talvez esse seja sempre o umbigo da madrugada, e quando a gente tem uma grande noite, que dançar ou gemer ou ler nos deixa tão felizes, é porque transitamos a noite, sem ela nos entristecer (muito).
mas o dia também, sempre volta, inabordável. a manhã te pede "pausa" e você com um sete de paus na mão, louco - louco pra blefar. cai na estrada, meu bem, vem comigo. ando toda nas polaridades e nos constrastes, algo disso há de se tornar desconhecido o bastante pra nomear-se como "seu caminho". 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

terça-feira, 25 de setembro de 2012

resumo


Ainda não foi desta vez.
Torna-se um prazer, então consigo.
De percalço em percalço a gente faz um salto.
Encontro no ar palavras melhores do que neste resumo.
Tomada de sobressalto:
A tradição despede-se mais uma vez.
A tradição literária precisava de um novo autor,
sou eu, vim suando muito, camelo sou.
Faça de mim seu oásis, nome de motel, estrela no céu.
Cada poeta forma uma constelação própria e se apropria
de si mesmo, dos outros, dos gatos, dos cornos, das águas
das águias, das algas, dos mofos, dos ácaros, das visitas.
Cuidado! Visitas, não deixem os óculos no sofá, que hein,
hein? Eles sentam em cima. Eles sempre chegam?
Não sei, mas tem que ser hoje. Os dias foram contados.
Os prazos estão de pé.
Trouxeste o arpão?
Você vem com os peixes, eu abro as guelras
enfio pérolas lá dentro, até explodir de tanto luxo.
Juro que eu não presto. Você também
precisa saber se inventar. Ou, adeus.
Ok, permaneço. Sou a tradição
se me destroem, vou parar em outra
outro lugar. Sou a gordura
entre os ossos que os homens roem.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

eu e meu fatal lado direito

uma história cavalar!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

das coisas que mais conheço: a gripe

desta vez a gripe entrou aos poucos, na percepção claríssima deste corpo, senti o céu da boca ardendo terça à noite, quarta o calor do céu tornou-se o frio do corpo, e o muco transformou-se em via aérea para saída do vírus-frio. ontem então tratado o frio do nariz migrou, senti o vírus entrando na carne e ficando denso, dolorido e vermelho, por dentro dos músculos. então tremi, tremi. o suor da noite, dez horas de sono, criou saídas e hoje um pouco de tosse, a garganta arranhada, não foi desta vez que o vírus partiu meu coração. quanto suor ainda há para desfazer. 

nome do homem

misturei o teu nome com o de um antigo amor que você detesta. você tinha o nome dele, que também é do herói da revolução, e nesta sobreposição de tempos e nomes, havia um sentido tão grande, de que era você que eu procurava, desde os idos que não voltam.

domingo, 16 de setembro de 2012

o ps do antes de ontem

é que meu tema é "tradição" e que o prazo termina ainda esse mês.

de antes de ontem

havia um gramado, relvado de futebol, daqueles montados sobre um descampado, cheio de pequenos relevos e tufos faltantes e pequenos arbustos misturados. acho que misturei um que vi em castro marim, com aquele da infância, atrás da escola de aplicação. eu cultivava o campo. ele era seco com cores amareladas, gastas pelo sol, e alguns novos tufos também. não discriminava o velho do novo, para tudo haveria espaço de crescer. mesmo as ervas daninhas, para elas dava a vez. depois de muito tempo com pás e baldes, rastelos e vassouras, mãos na terra, o campo era meu e de quem quisesse ver. então aparecia um par de sujeitos com uma máquina de cortar grama. o cara olhava e me dizia que tinha vindo cortar meu campo. eu ficava calma, mas indignada, tanto trabalho! e o convencia "pelo menos me deixe tirar o meu trabalho, isto é minha dissertação". e o gajo dizia "okey". fui para uma das extremidades perto de um gol, e como num decalque de adesivo, sutilmente puxei o meu trabalho. saiu como uma esteira de vime, mas muito longa, do tamanho do campo de futebol. e  a palha era transparente, escritos por cima em azul. longuíssima e enrolada, a esteira do meu trabalho era levíssima, e a levei por debaixo do braço.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Tétis


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

o imperioso trabalho de fugir

a poeta e sua velha luta com os hormônios trilhavam o caminho da espécie. alguns, outros, estavam mais interessados em constelações. mas em constelações enquanto figuras do acaso & a poeta gostava das constelações enquanto materiais para a construção de espelhos. pegou do rabo de um cometa um pedaço - com a mãos partiu - e fez um espelho. então viu o próprio nome no espelho. ele estava se apagando, como acontece toda vez que o desgaste permite*. considerando tudo entre aqueles dias muito pouco displicente, a poeta pegou suas coisas, guardou numa mala, guardou a mala embaixo da cama e dormiu. que maravilha!

* o desgaste é um rei que dorme de cuecas. na próxima vez talvez ele durma nu. por enquanto, ele as aprecia. 

sábado, 8 de setembro de 2012

setembro, o terrível

setembro, o terrível,
divisor de águas
chapa de metal
abrindo a comporta
desconhecido, desconhecido
com um par de esporas
abre a garganta
azul
a gaivota que tem língua
que me disse que tem
pausa, manhã. o mundo dos mortos é meu, o cansaço, o regresso ao mundo de dizer as coisas sem farol. eu trouxe
minhas mãos, manhã do mundo.
sou capaz de tanto, desconfio
que de tudo. comer moscas por acaso,
matar mariscos na frigideira,
tirar os casacos da gaveta
lavá-los antes que chegue o inverno.
três pacotes de kleenex
e a bahia em janeiro.
se tudo for
um cursor
para dizer
entre dizer
(carolina hoje faz trinta anos)
se tudo ajudar
o júri macio
o coração macio
os pelos da barriga
a bacia solta
meu amor.

bobeira é não viver a realidade

como vocês podem considerar natural recortar textos de outros e colar, na tua parte, em toda parte, aqui? ou a cara da minha gata (nossa gata) me olhando enquanto tomo banho. todos os gestos do teu dia-a-dia tomados por outro ser. não há mais solidão, quando você se apaixona. porque é ou estar junto, ou estar na ausência do outro. recorda o dia em que não era assim. que você podia escrever o dia inteiro, não que hoje você não possa, mas você escreve outras. a vida é tão estranha, gata, tão estranha.


escrever ouvindo o outro, dizendo o que ele disse, rebatendo. escrever como quem se escuta, afinal. e conhece o arranjo de flores que tece, uma a uma, em uma espécie de guardanapo. as marcas do papel que eu uso para limpar a boca se chama espécie. disse-me o poeta. eu também, não aprendi a amar.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

será o outono capaz do degelo sentimental?
começar sem ver, a repetição do fim,
ansiosa sempre de o perceber
capaz de pular o lago de patinação
roubar as rodinhas do perseguidor
da tua parte há também dois roliços
um erro de alcatrão, pelos dias estendido
o outro é mesmo espatifação, a minha
de cara no gelo, criando muro.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

tenho medo de dirigir

atravessávamos de carro um viaduto, quando perguntei pro meu pai "o que quer dizer metafísica?".
também foi em um carro que percebi que tinha aprendido a ler, num outdoor no fim da rodovia.
também foi em um carro que meu pai me ensinou a cantar "desafinado" e "baby".
tradição & família. eu sei que é assim.  

domingo, 2 de setembro de 2012

o caule da alegria

"Se falta vida à nossa cultura moderna, é porque é impossível imaginá-la sem esta contradição, ou seja, não é uma cultura autêntica, mas uma espécie de conhecimento do que é uma cultura."

"Esse famoso pequeno povo, de uma antiguidade bastante recente - refiro-me aos Gregos - conservava tenazmente, no período do auge da sua força, o seu espírito não-histórico. Se um homem de hoje pudesse, por virtude de qualquer sortilégio, regressar a essa época, exporia à irrisão pública o segredo ciosamente dissimulado da cultura moderna. É que nós não possuímos nada de próprio; tornamo-nos algo de considerável, quero dizer, enciclopédias ambulantes, quando nos enchemos das épocas, dos costumes, das artes, das filosofias, das religiões e dos conhecimentos dos outros, como diria talvez esse velho Heleno se por acaso tivesse sido transportado à nossa época. Mas o valor das enciclopédias está apenas no seu conteúdo e não no invólucro, na encadernação de coiro; é desta forma que a cultura moderna é essencialmente interior; no exterior, o encadernador inscreve qualquer coisa como 'Manual da cultura interior para homens exteriormente bárbaros' ". 

"O homem que procura compreender, calcular, apreender, no momento em que deveria fixar na sua memória, como um longo sobressalto, o acontecimento incompreensível que o sublime constitui, pode ser considerado inteligente, no sentido em que Schiller fala da inteligência do homem inteligente; há coisas que uma criança vê e que ele não vê. Não será capaz de ver o pormenor único, exactamente o mais importante, porque a sua inteligência é mais pueril que do que a de uma criança e mais vã que a de um simples de espírito, apesar das numerosas rugas da sua face manhosa e encanecida e das suas mãos hábeis para desfazer as redes mais complicadas. Resulta isto de que, tendo perdido e destruído o seu instinto, ele não ousa soltar o freio do 'animal divino' quando a sua inteligência vacila e o seu caminho passa por desertos. O indivíduo torna-se então timorato e hesitante e perde a confiança em si; dobra-se sobre si próprio, sobre a sua 'interioridade',"

"A filosofia não tem direito de existir no interior de uma cultura histórica se pretender ser algo diferente de um saber confidencial e sem acção."

das "Considerações Intempestivas" do amiguinho Frederico Nietzsche,
mariposa rondante lâmpada. 
tradução de Lemos de Azevedo.    

terça-feira, 28 de agosto de 2012

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Oscar me escreve muito

"As trevas se dispersam e o Sol tende a iluminar novamente o caminho. Compreenda a alternância infalível dos ciclos para que a ansiedade seja posta de castigo num canto gelado, de onde nunca mais deveria sair."

terça-feira, 21 de agosto de 2012

a rota

comi um sushi podre que me revirou o estragado pro avesso, nessas últimas horas. mas, dizer bem, mais difícil foi atravessar a memória. como se o fazer das tripas pra fora fosse um ciclo de desistências e resignações, ou de momentos em que a tensão do pensamento é tão grande, ou o tsunami dos acontecimentos tão onda do tempo, que seria como se vomitar fosse uma pontuação. dos empecilhos e do excesso de estímulo que é o mundo. torci tanto pra que amanhecesse, e então pude dormir, desanuviada, com a certeza de que tempos já foram piores, e que as intoxicações alimentares continuam sendo uma maneira de dizer chega! pra algo que se violenta em mim.
meu pai, por sua vez, diz que em são paulo não chove. e que se espera então pela chuva, os pensamentos secos acompanham. é difícil ser orquídea num mundo de aço, mas no fundo é um cowboy com nervos de espaço. minha vida me ultrapassa em qualquer rota
no domingo eu vi uma ovelha comendo silvas, as amoras das silvas e os galhos cheios de espinhos das silvas. não sei, não percebi, mas estava ali, toda a alegoria da minha (difícil) digestão. 
no mais, vejo astros em toda parte e sei que saturno na soleira: segura a porta, sem bater, entra.
e é bom, a melhor coisa do mundo, voltar a escrever.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

ontem, no socalco

"Light breaks on secret lots,
On tips of thought where thoughts smell in the rain;
When logics die,
The secret of the soil grows through the eye,
And blood jumps in the sun;
Above the waste allotments the dawn halts."

dylan thomas

terça-feira, 14 de agosto de 2012

houve uma vez, eu estava viva, e os campos estalavam. estalavam conforme os passos, e o vento. depois me tornei os próprios passos, os campos se alagaram, e você foi a janela pela qual eu saltei, e fui viver na melancolia.

os cabelos negros, os pássaros negros, os dentes dos negros,
tudo agora é o teu nome
e a tua voz abre a porta, cria

domingo, 12 de agosto de 2012

este foi o terceiro

desejei três modos de escrever azul hoje.
"enumera a raiva de todas as produções poéticas, a contidão do que não cabe, em razões maiores do que as diversas. Existe uma contigüidade lateral na viagem do esquisito, que a poesia não deixa a vida perder, e ele ignora isso. Se eu tivesse um bastão e um gnu, soltava ambos em cima dele. Mas a promiscuidade do amálgama também me interessa, e alguma gentileza (mais para o veludo do que para a pelica). Com isto, oncinhas só na estampa dos outros. Eu, meu bem, vou de azul-marinho.".

pares prováveis

EXPLICAÇÃO DA NOITE

Sobre a água estarei solto de caminhos
Dos que vierem nenhum barco é para ti

Não deixes a candeia acesa
Dorme: basta-me essa luz


(Daniel Faria)


DO NOT GO GENTLE INTO THAT GOOD NIGHT

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night,
Rage, rage against the dying of the light.


(Dylan Thomas)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

eu sou a casa no rolar da fúria

eu te amo quando você diz que precisa se perder para se encontrar. 
e imagino como isto é terrível, libertador. 
eu posso te perder.
eu posso te encontrar.
eu me perco muito, tentando me encontrar.
"sou uma devastação inteligente".
no fundo, temos a mesma cor. 
e quando você é uma tempestade, eu sou a água entrando por dentro da terra, inchando as raízes, arrebentam. a água que evapora é você de novo. sutil nuvem. então quando eu chovo, descubro que é você a terra.

domingo, 5 de agosto de 2012

a partir de


Apartirde,
minha ancestral vontade de partir
não pode ver um aeroporto
que tem ganas de ir te ver.

na janelinha sabiás, melros
urubus abrem os ligamentos das nuvens.
saberás pela primeira andorinha
que ao meu lado tudo
tudo estréia, primavera
depois verão.

o corpo está dando pane
o tempo entre um verso e outro
alargou-se
de 20 segundos a 2 minutos ou 20 anos.

esta deusa é tudo, menos fácil
canelinha roxa com penduricalho
e lá por dentro as viúvas nos portais
oscilando, dizendo não.

a dona só se veste de azul-marinho.
aqui de calcinha.
28 anos e a barriga estufada.
domingo no lençol rosa.



seta maybe reset

bom dia. atribulada.
tenho sonhos que parecem peregrinações. se chegarmos a um santuário, imagino que vá implodi-lo.
penso até muito tarde que devo me afastar dos símbolos,
das alegorias, viva o carnaval
ou a carne que se dá
de troco a troco
arpões, sereias e serpentes.
embora não tenha mais vertigens, vontades de saltar
ah isso sim. e ontem quando chegamos em casa
na porta eu pensava que haveria fogo
subindo, subido pelas prateleiras
ou no armário da cozinha
as pimentas carbonizadas.
vou ficar atrás da porta?
quando me acostumo com uma casa
começa acontecer, de voltar cansada
que na minha ausência tudo se perdeu.
os fogos nos pés de Hermes, palavras
apetrechadas de asas. só deus sabe
o que eu teria sido sem ti.

terça-feira, 31 de julho de 2012

miolo de pão

os três livros ao meu redor
são quatro, na verdade
têm a mesma cor de capa entre si
cor de vinho quando entorpece.
é das minhas cores favoritas.
mas, problema! problema!
há tanta severidade, atenção!
entre as minhas costelas
que o linho da camisa pinica
e os três (quatro) livros?
intoleráveis!

mas hoje de manhã quando acordei
fiquei deitada no sofá e escolhi
acender aquele de ontem, aquele.
nem café ainda, eu tinha
mas já no copo de manhã
quando peguei no lume,
e tchibum, tchalá
lá e dois goles de café
para cada título empilhado
um formigamento diferente.

nesta manhã me prometi
que não ia
escrever sobre livros.
mas já estou aqui
tentando descrever
o que foi olhá-los
hoje de manhã
e que eles me convidaram
um a um, para lembrar
das festas, as roçadas,
obscuros fins de tarde
tivemos juntos.

porque muita gente escreve sobre livros.
muita gente demais escreve sobre livros.
eu sou uma delas. eu stalactite.
estela, by a starlight.
mais do que o teu sonho, a galáxia
eles transmitem.


- - - - - - - vou aprender a esparramar geléia no corpo intenso - - - - - - - - - - -

domingo, 29 de julho de 2012

pra quem me gosta sem conhecer

ando com tanta boa vontade com as pessoas que quando ouvi uma moto acelerando lá embaixo pensei que fosse uma britadeira sendo usada em horário inadequado por algum vizinho, domingo. ou seja, falei a frase em cima disso: "estão serrando uma pessoa ali embaixo, com uma lixa.".

então veio a noite de todos os destinos, e descortinou-se.

num determinado dia

Quando alguém vem de dentro de uma coisa cultural e certamente não se é européia, nem índia, mas o que se é por toda parte, e se depara com Artaud oscilando pelas experiências com o Peyotl e os Tarahumaras, no reconhecimento desta proximidade: tanto de Artaud, o alucinado sofredor da coragem que nunca vou ser, só se por admiração ou vício, sente-se, senti-me de certa forma estúpida por ainda nunca ter simplesmente escrito do chá, embora muitas vezes já tenha escrito com ele ou usando da força que a combinação fervida de um cipó com uma folha (amazônicos, ambos) por horas de preparo, pode suscitar em um corpo humano, neste caso de mulher, eu. Para além da narrativa se produzir enquanto relato, eu um filtro do contar (fingir que dizer não significa, é um ato), certas coisas me inquietam e certamente são, como todas as coisas que me inquietam verdadeiramente, da ordem das semelhanças. Das semelhanças entre os homens. Por que onde começa e onde termina a natureza? Química, biologia, de nada disso posso dizer. Não tenho ciência. E sei que a poesia nem sempre me visita. Suave implacável mariposa. Divina espécie, este corpo do qual faço parte.

mas o espírito de tudo quando ainda não havia

Um corpo de medo ultrapassado. O mato gordo e mais virgem que uma puta, mato daquele verde retinto e gordo, que tão bem se acopla em si mesmo, quanto mais perto do barro vermelho. Aquele verde carnudo feito um olho. Que explode feito olho mordido. Mas, de seiva branca que deitará, ninguém morde. A não ser quando no corpo invade a cobra. Mas eu estava voltada para a pessoa que vive em mim. Estava feliz por ser eu mesma, com as plantas ao redor e uma estrada embaixo dos pés. Eu era incapaz de ser incapaz, naquele instante. Com os passos que eu estava dando, toda a fúria do frio tornava-se liquida pelos tendões, se aquecendo em sangue. Eu era o próprio arame da cobra que tinha comido a seiva branca, eu tinha coragem. E nenhum veneno.

sábado, 28 de julho de 2012

nem gente, nem parafuso

A origem de tudo o que eu conheço é um carrossel. Quando nós começamos era o coração da minha mãe. Eu estava fora do salão e tocava Mozart lá dentro. Eu ouvia, debruçada em mim mesma, como se o queixo abraçasse meu esterno, o pescoço curvado, a testa em direção ao estômago. Enrolada no meu edredom cor de rosa como em um longo xale que, vindo pelos ombros e cobrindo todas as costas, alcançasse até minhas pernas também, toda embrulhada. Ao que nunca soube se a cor de carne que tantas vezes acabo por ver deriva do meu próprio sangue ou de uma espécie de cortina, seja ele do meu respeitável aquecedor em tecido que outras vezes me fez o audaz super-herói da capa vermelha, ou das minhas próprias pálpebras. Os acordes, talvez, a combinação dos violinos mais propriamente a agora a recordação do meu amigo, minha primeira paixão, o homem com quem perdi a virgindade dizer anos antes “o som dos violinos é tão natural” e a de anos depois do meu professor “a língua da poesia é a língua materna”, a música compunha dentro do meu peito um carrossel de vidro e carne, dentro de um cristal giravam cavalos pequeninos brancos, delicadamente, e num mesmo ritmo sem nunca oscilarem, a pequena pedra era um salão austríaco onde dançavam e era sobretudo o amor que a minha mãe sente por mim. Pude descansar como se respirasse cem vezes em uma só e o corpo absolutamente oxigenado recomeçasse leve, sutil, encarnado. E de tão íntegro só pudesse confiar nos seres de presente absoluto.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

momento sabedoria

as épocas de concretização são épocas de gênese, na verdade.

a constância também não é um equívoco.

tinha mais uma, mas eu tenho que ir beber sakê.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

coisas que faltam

eu tinha uma moto tipo scooter, preta. e andava com ela quilómetros numa estrada de muitos pinheiros, era de noite. chegava lá no fim da estrada tinha um posto de saúde, que era onde eu estava indo, fazer uns exames. mas chego lá e meus documentos não são exatamente os que eu preciso pra'quela situação. aparece a virgínia, eu prometo que dou carona pra ela de volta. então outra funcionária surge e resolve minha falta de documentos com um sorriso. vou ver não sei o quê na scooter e noto que o pneu traseiro estava furado. muito furado. chego no posto de gasolina da cidade (que eu imaginava até então que não existia) e o cara diz que consegue consertar meu pneu. e eu fico olhando. pergunto pra ele se tem problema dirigir sem capacete, ele me diz que não, que ali não é regra, nem lei. 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

aterrisei assim

aterrisei assim
deixei meus pais no aeroporto
almocei caril de camarão
(indeed caril de gambas)
fui na praia com o daniel
tomei rajada de vento
água fria
gelado
magnum
comboio
participei de uma filmagem
meus poemas pisaram em mim com os dois pés
sábado todo sem sair de casa
chorei por uma frase
domingo guacamole
espirro
o melhor sexo de todos os tempos
dor de garganta
fico menstruada
termino um capítulo
o tempo e o octavio
vão bem
copio palavras de outros até meu ombro doer
tenho cólicas
não salto no abismo antes de terminar.

me sabe a europa



‎"Much of it is expensively copied and decorated, but it has a rich and complex history: additions, resequencing, later annotations, and much else make its origins and changes hard to trace."

estão falando no trecho acima sobre a tal música européia de muitos séculos atrás. 
o que me impressiona é como com pequenas modificações poderia ser um texto sobre a cultura da miscigenação no brasil. 

terça-feira, 24 de julho de 2012

as abelhas que salvaram da encosta

começa assim. uma história. começa assim. alguém entre as árvores, salta. alguém que nunca tinha saído de uma ilha. este alguém vê uma abelha. não sei se o pensamento deste alguém sentiu primeiro que corria o risco de ser picado ou se lembrou que as abelhas dão doce mel. mas este alguém não era alérgico, e eu nem sei exatamente se as abelhas dão mel, feito as flores, ou se o fazem; e algum de nós se mete a tirar delas, tudo o que tiver para lambuzar
eu quero. esta história que estou lendo é dos tempos que eu gostava de lápis de cor. mas naquele tempo ainda não sabia sus-ter a respiração de modo a animar, acalmar o corpo, através, talvez, dos batimentos do meu coração. que não se confunde com o coração do nosso herói, que certamente é escrito pelo ritmo deles. sobretudo da expiração.
ontem escrevi. 
o nosso herói sobreviveu a um grande ser, que arrancou as encostas de uma montanha feito essas pontas de lápis que arrasto sobre a mesa, e atirou sobre o nosso herói. que por não ter feito nada com as abelhas do início da nossa história, salvaram-no. 

sábado, 21 de julho de 2012

Antes de ontem sonhei com a m. Ela me explicava uma meia dúzia de coisas dentro da própria casa dos meus pais. Lembro que os sofás eram de veludo e as luzes baixas. Os móveis escuros, castanhos, vinhos. Eu sentia e sentia e consentia. Havia algo entre ela e o julgamento do meu pai que se distanciava. Mas meus pais não estavam mais, ou não tinham chegado. Então ela me dizia que faltava o coração, que eu tinha que ir pro coração das coisas. 
 

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