quarta-feira, 24 de abril de 2013
quero passar o dia
sozinha, na companhia
dessa dor de cabeça
por conta de algo estragado
que comi ontem
outros diriam podre
penso eu
quanto hoje
basta pra que ontem
seja o mais fundamental
quero passar o dia
com essa dor na canela
que tive cãibra
enquanto dormia
já era hoje
não, não é repetição
é só o que vinga
solta a roda vira
vou me doar
ao animal do estômago
e, quem sabe?
dar aos músculos
um cacho de bananas.
sozinha, na companhia
dessa dor de cabeça
por conta de algo estragado
que comi ontem
outros diriam podre
penso eu
quanto hoje
basta pra que ontem
seja o mais fundamental
quero passar o dia
com essa dor na canela
que tive cãibra
enquanto dormia
já era hoje
não, não é repetição
é só o que vinga
solta a roda vira
vou me doar
ao animal do estômago
e, quem sabe?
dar aos músculos
um cacho de bananas.
terça-feira, 23 de abril de 2013
também sou da sua companhia
não estou entendendo quase nada, e nem tenho feito esforço pra isso, nem pelo contrário. não estou entendendo nada e é como se eu aceitasse a lucidez de uma jaboticaba, aquela seiva que explode inesperada, como quem tem a primavera nos dentes, nos bolsos, nos extremos de extrema sensibilidade. abrir a palma da mão na terra que já secou, e é ainda aquela que explode mês a mês, ruiva e carnívora. pouca inteligência não. inteligência é pouco, isto se chama ritmo. e fé.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
O amor gasta
nesta ante-véspera, possivelmente o primeiro dia da primavera, soltei um grito e tanto que virei uma andorinha. ou muitas. o poema número X fala do amor, e eu o escrevi para o meu
terça-feira, 9 de abril de 2013
véspera I
inicio este blogue pensando se terei que criar outro quando isto terminar. olho no relógio e é exatamente 00:00. de quarta-feira, 10 de abril de 2013. e vim aqui escrever para dizer que o descontrole é que atravessa 60 segundos até às 00:01. não é o desespero. é a regra de medir a medida. a cada dia que saturno se aproxima o descontrole pra mim é medir a medida.
na verdade, amanhã (que é hoje) é o dia que chega o livro que passei três anos trabalhando nele, falando dele aqui. foi por isso que vim escrever alguma coisa. não é bem um relato isso, é uma transmissão de tensão. a carolina sonhou que as capas chegavam corrigidas pela gráfica, que assim tinham estragado tudo. e depois eu tive meu telemóvel roubado, mas ele estava dentro do bolso do meu casaco de couro vermelho que comprei na c&a de paris e está escrito cindy crawford na etiqueta dentro dele.
tudo isso me faz retornar ao livro. que não é o primeiro nem o último livro do mundo (nem o meu). passei algum tempo pensando que meu segundo livro teria a capa branca, e não é que ele quase-tem? e eu não calculei isso, era o papel que a gráfica tinha. também sabia que iria publicar meu segundo livro em Portugal, mas não imaginava que a situação econômica, emocional e política desse país fosse estar em um momento tão calamitoso como está.
muita gente já viveu esse momento, de esperar pelo próprio livro no dia seguinte. não me lembro de como foi que esperei o "cantos de estima", nem onde eu estava quando ele chegou. acho que meu pai foi pegar na gráfica em Moema, que eu estava montando a exposição dos 12 exemplares. e ah! eu tenho medo de dirigir. e mais dificuldade em digerir alimentos do que remorsos. ou não, depende.
sei que naquele tempo eu já gostava de escrever assim, de ímpeto. e que o treino vai criando ritmo ao ímpeto. é como voltar e encontrar a casa aberta cheia de velas acesas velando só a noite do coração quente. isso como se existisse uma lareira em toda casa em que eu viver. a sorte da minha editora ser minha melhor amiga. e vice-versa.
entre o primeiro poema que escrevi para este novo livro e a invenção de seu título passaram seis meses. mas foi o contrário: primeiro eu tive o título: "poemas do destino do mar". lembro que eu ainda vivia na travessa de santa quitéria, onde hoje mora a érica, e na valentine vermelha mais vermelha do que a bandeira chinesa, e num papel de seda branco escrevi um poema que falava da limpeza, dos restos, do estômago. era um poema que não valia nada. n a d a. mas na última linha dele escrevi em caixa-alta POEMAS DO DESTINO DO MAR.
então percebi que ali o futuro havia falado por mim no papel. no papel dele mesmo, futuro, estrelando o sempre presente. e peguei o rabo do cometa, pensei: é o título do meu livro. então se passaram meses que foram a morte da minha chegada, quer dizer, foram a morte dos motivos pelos quais eu sonhava em vir pra cá: a mesma língua em estrangeira, uma paixão motriz e galopante e distante, recuar são paulo, a família, a exorbitante convivência entre os entes. e tive que ir morrendo aos poucos até ser o dia de escrever o poema I, que como me prometi desde aquele momento: que eu nunca o reproduziria em qualquer outro sítio que não fosse o primeiro poema dos "poemas do destino do mar". então, se tá afim, so sorry, arranja um livro dos que chega amanhã e lê.
mas ei ei ei isso faz muito tempo! foi como se uma retroescavadeira abrisse um canyon de células no meu corpo. está tudo tão diferente que eu só posso dizer: que terminei o livro, que o livro chega amanhã, que sábado é o lançamento, e que meus pais vão estar presentes, e que tenho muita gratidão a eles, aos meus amigos, aos meus bichos, às plantas,... espero também ter a cada dia mais dedicação também. não só ao meu trabalho (que é uma forma íntima de me dedicar aos outros), mas a eles mesmo. sou tão bruta. nem sei porque estou falando disso, já que a ideia era escrever sobre o livro e até mesmo AH ATÉ MESMO pensar em falar mal dos currículos eu já pensei.
tipo eu quero que se foda. o que eu quero é o amor.
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segunda-feira, 8 de abril de 2013
let's play that
firmando ponto final e abrindo parágrafo vem o vídeo de Daniel Ribão, lá na tipografia d'O Homem do Saco, onde o Luís Henriques compôs e imprimiu as 590 capas de "alforria blues ou Poemas do Destino do Mar", que sábado em Lisboa é lançado pelas Edições Chão da Feira.
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domingo, 7 de abril de 2013
Saber das coisas não sei
e da flor nasceu maria archer arco e rama, abre o raio e reparte o fruto, diz o poema XVIII dos poemas do destino do mar,
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terça-feira, 2 de abril de 2013
substância
diferença rigorosa dos níveis. pedi pra que ele abrisse as pálpebras o suficiente. suficiente para ver a morte. ele me respondeu que não existem pálpebras suficientes. e dobrou os olhos como uma folha de papel, vincando. os cílios quase juntos da testa.
abri cirurgicamente a cabeça dele. perguntei se as descargas elétricas tinham substância de ressuscitação. ele disse: "sim, está bem, agora sim é o suficiente". e vimos, juntos, um clarão. mas eu não tinha apertado os botões.
e o canavial se abriu em dois.
e deram açúcar para os deuses.
e nós nunca mais tivemos cáries.
e a cruz caiu no chão.
e ficaram todos livres.
e as rodas rodaram rodando como rodavam
já. e tudo seguiu mundo.
Sou apenas um cavalo
cátia sá pereira, rugido da enseada, ou as madressilvas que nascem por ali,
leu a assumição do cavalo, o poema VII
sou apenas um cavalo from C. Sá on Vimeo.
leu a assumição do cavalo, o poema VII
sou apenas um cavalo from C. Sá on Vimeo.
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domingo, 31 de março de 2013
nuvens impermanentes
além da ilusão do seu ser pessoal
estou numa daquelas fases que é mais fácil citar, do que dizer
(e há pessoas que vivem em fases assim com imensa tranquilidade)
também eu não ando impaciente, embora vez ou outra meu ouvido direito fique entupido
porque meu tímpano é como uma raquete de tênis, o fulgor da bola na caçapa da rede, sem fenda para grandes objetos
porém o vento é como a areia peneirada, o vento faz sulcos nas folhas do meu dentro
e como a seiva do que há, meu muco que agora eu respeito, minhas vias respiratórias são um termômetro do redor, e não pereço verde
há tão poucas chances de inventar um mundo. e eu fundo!
eu, no fundo, encontrei o permeável permanente: e de estar sempre mergulhada já não temo. faço dos corais meu amuleto, e ponho os amuletos (todos para conversar com meus ancestrais) no sal grosso, no meio das bebidas. que ofereço pro santo,
um gole, trisca o vento, meu amor. que a rigidez não perfaça o dom. N U N C A.
segunda-feira, 25 de março de 2013
Olhos que em terra firme pousaram
susana chiocca norteia o mar, lendo os resquícios da paisagem no último poema do livro
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quinta-feira, 21 de março de 2013
Então olhei pro mar e disse
e a érica zíngano leu como se lê
no semi-silêncio que é ler um poema
silêncio de vulcão
no semi-silêncio que é ler um poema
silêncio de vulcão
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terça-feira, 19 de março de 2013
Ver até passar
eis bernardo! meu melhor amigo
lendo o poema V do meu novo livro
que logo logo se publica
lendo o poema V do meu novo livro
que logo logo se publica
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sexta-feira, 15 de março de 2013
um, dois, quatro e descendo
estive pensando nos submarinos
a noite toda
eles são capazes de respirar?
ou eles são capazes de armazenar
respiração que não falte?
de todo modo, importante
aprender com eles
de uma vez por todas
que afundo sempre
mas que tendência ô
de bater com o casco
no fundo. e ficar.
a rainha do coral.
"os peixes e os hóspedes fedem depois de três dias"
já dizia um provérbio latino
e eu que sou d'outro
tempo e lado e verbo
com os radares ligados
nadadeiras, flutuações
a areia migrando no fundo
no fundo
faróis não me faltem
nem o fogo interior
pra ir na janelinha, fumando.
quem sabe um dia ver o céu.
ver a lua. agora os aquáticos
dedos, de pele enrugada.
a noite toda
eles são capazes de respirar?
ou eles são capazes de armazenar
respiração que não falte?
de todo modo, importante
aprender com eles
de uma vez por todas
que afundo sempre
mas que tendência ô
de bater com o casco
no fundo. e ficar.
a rainha do coral.
"os peixes e os hóspedes fedem depois de três dias"
já dizia um provérbio latino
e eu que sou d'outro
tempo e lado e verbo
com os radares ligados
nadadeiras, flutuações
a areia migrando no fundo
no fundo
faróis não me faltem
nem o fogo interior
pra ir na janelinha, fumando.
quem sabe um dia ver o céu.
ver a lua. agora os aquáticos
dedos, de pele enrugada.
quarta-feira, 13 de março de 2013
passo a manhã calculando a provável altura de um tsunami
primeiro vídeo da pequena série dos que tenho pedido
pras algumas das gentes do território, a leitura
aqui o luca argel lê o poema de número IX dos "poemas do destino do mar".
pras algumas das gentes do território, a leitura
aqui o luca argel lê o poema de número IX dos "poemas do destino do mar".
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quinta-feira, 7 de março de 2013
segunda-feira, 4 de março de 2013
pelos jaguares sei
queria dizer é que é importante seguir em frente quando o mato nos chama sem sabermos bem dizer claríssimo uníssono em frente: hoje não estou para ninguém.
mas quando uma voz te chama clara e esta voz quer te fazer dizer que sim
lembre-se somente que és também o príncipe da noite
e que as moitas servem bem para os afoitos
para os precipícios
e todos aqueles que precisam se camuflar
nos caminhos.
mas quando uma voz te chama clara e esta voz quer te fazer dizer que sim
lembre-se somente que és também o príncipe da noite
e que as moitas servem bem para os afoitos
para os precipícios
e todos aqueles que precisam se camuflar
nos caminhos.
nas veias & canais submarinos
não sei porque é tão simples falar bem de uns e mal de outros.
nem porque um exemplar desta espécie de canto não se cansa
de ter um corpo que mais é um delivery de catarro
e a displicência é o meu louvor.
na frente da casa onde terminei meu livro há um pé de louros.
à sombra de uma azinheira
penso eu que há um povo
uma pessoa que me espera
para cantar e ter um filho só pra colocar pelúcia de foca
aos pés dele sou capaz de despelar um salmão
e aprender quem é que me faz seguir em frente
e as coisas que me interpelam responder sem prender
sem prender o estômago e a imperatriz do tarot
quis me dizer que eu sou a própria seiva da minha descoberta
ontem alguém falava em transformação outro alguém falou em treino
sei que meus ouvidos estão faz tempo nos lugares certos
e que o telefone vai tocar mais vezes mais vezes mais vezes
mais vezes eu vezes tu vezes boca
nem porque um exemplar desta espécie de canto não se cansa
de ter um corpo que mais é um delivery de catarro
e a displicência é o meu louvor.
na frente da casa onde terminei meu livro há um pé de louros.
à sombra de uma azinheira
penso eu que há um povo
uma pessoa que me espera
para cantar e ter um filho só pra colocar pelúcia de foca
aos pés dele sou capaz de despelar um salmão
e aprender quem é que me faz seguir em frente
e as coisas que me interpelam responder sem prender
sem prender o estômago e a imperatriz do tarot
quis me dizer que eu sou a própria seiva da minha descoberta
ontem alguém falava em transformação outro alguém falou em treino
sei que meus ouvidos estão faz tempo nos lugares certos
e que o telefone vai tocar mais vezes mais vezes mais vezes
mais vezes eu vezes tu vezes boca
domingo, 3 de março de 2013
à tua cidade
hoje foi tanto cheiro de gás
nas horas que saímos para o aniversário
da minha avó que lutávamos
pelo telefone e pelas janelas abertas
à brigada de salvação
aos fechadores de gás
meus agradecimentos sinceros
se explodisse o raio de pinheiros
tanta caca ia voar
que meu sobrinho
ia gostar
e rir
ia rir com ele como quem nasce
de novo.
nas horas que saímos para o aniversário
da minha avó que lutávamos
pelo telefone e pelas janelas abertas
à brigada de salvação
aos fechadores de gás
meus agradecimentos sinceros
se explodisse o raio de pinheiros
tanta caca ia voar
que meu sobrinho
ia gostar
e rir
ia rir com ele como quem nasce
de novo.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
you know you should be glad
de tantos hiatos grandes nunca houve um tamanho como esse e vim postar essa postagem e vi que ela será a de número 800 deste blogue. não ando ausente. no entanto. escrever tem sido raro, mas é a primeira vez que não me dificulto isso, e não estou afixiada nem triste. estou substituindo as peças, trocando óleo. viajando pelo brasil. talvez seja a última vez que eu viajo em são paulo. será? antes eu considerava as mudanças como irreversíveis, agora elas também só me parecem um estágio. o pedro sempre dizia que eu dividia tudo em fases. mas é que é como a mudança da era glacial para o aquecimento global, os turnos e returnos de uma vida. ou não. o gustavo diz que eu sou exagerada. mas hoje também eu prometi pra ele que vamos fazer o melhor dos mundos. é bom telefonar pra alguém pra quem você tem toda a gasolina que te falta pra escrever. e tenho lido a llansol antes de dormir. e tenho evitado dormir. ontem só consegui dormir quando a li dizer que um Prunus Triloba estava exercitando seu caminho textual. então a minha insônia, saudade de arbustos, se desfez. dormi até sentir tanta falta de ti que foi preciso acordar. agora o texto já está suficientemente grande e rebarbativo para que eu escreva qualquer coisa aqui no meio, coisa que garantida, vai ficar incólume. fiquei preocupada com a tua voz no telefone. acredita em mim. eu também não sei de nada e a tudo tenho respondido "depende". espero continuar suficientemente reconhecida em mim para não me abstrair do sim. e lembrar que eu não posso com essa cidade, menos vezes, lembrar mais vezes que é muito difícil. não prometer navios, fazê-los. ter todas as técnicas e todas as dispersões e misturá-las até encontrar eu e o poema e uma ligação com um cão. no mais, é daqui menos de dois meses que tenho um novo livro pra mostrar.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
e sim coberta de nuvens
sinto entre os pés,
por baixo deles,
ou nos olhos da minha pele
quando troco ou presto atenção devida
que é
um continente antigo
o outro cansado.
por baixo deles,
ou nos olhos da minha pele
quando troco ou presto atenção devida
que é
um continente antigo
o outro cansado.
o sol me guia
o cotovelo coça
atrás da perna também
três pingos caem de três em três mais três e de vez em quando um cacau bate com tudo caído no teto.
minha sobrinha colhe idéias com as mãos no ar, leva-as até a boca e mastiga
repete meu nome sem parar. ela vai parar primeiro no colo dele do que no meu, e depois comemos mangas colhidas no fundo do terreno que chega na praia. ele fica com a barba toda babada e amarela e todo rindo e todo lindo. a volúpia do que não desaparece. esse prazer.
o pleno é o mais raro de tudo, e o pleno, e a menininha na beira da água levanta o bracinho e diz AAAAAAI BAHIIIIA e ri. e ri.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
os ombros estremecem-me com a inesperada onda
Elegia múltipla
VII
vinte e nove anos. Devo despedir-me de ti,
amanhã morrerei.
Talvez eu comece a morrer na tua mão direita,
alterosa e quente na minha mão
sufocada. Aqui mesmo na europa
começa a vagarosa iluminação das giestas. É a minha vida
percorrida por um álcool penetrante, é a imediata
atenção ao misterioso trabalho da idade.
Vinte e nove anos agora, na europa, sobre os canais
sombrios da carne, sobre um vasto segredo.
Será apenas isso, um ponto móvel
de eternidade, isto – a sufocação veloz e profunda
da vida inteira na minha garganta? E depois
o acender das luzes, bruxelas como uma câmara
de archotes e ao alto as ameias
enevoadas dos astros? Devo olhar com uma grande
memória aquilo que acaba na violência triste
do poema.
Estamos nos quartos, há flores nas mesas. De babilónia
partem rios. Por detrás das cortinas,
despeço-me. Amanhã vou morrer. Tenho
vinte e nove bocas urdindo
a falsa doçura da confusão. Os países constroem
a torre sombria do amor. Dá-me a tua mão
pensativa e antiga, deixa que se queime ainda um instante
a loucura masculina
da minha vida. Pensa um pouco na beleza
ignota das coisas: peixes, flores, o sono terrível
das pessoas ou o seu respirar
que arde e brilha e se apaga à superfície
das lágrimas ocultas. Pensa um pouco no sorriso
rapidíssimo
que jamais desaparece do silêncio, na candeia
que cobre com agulhas de ouro os escombros
dos lírios. E por cima de tudo estende
a tua pequena mão eterna. Cai
tu própria na treva quente da minha
cega mão masculina de vinte
e nove
anos. Tenho vinte e nove anos ou uma onda
inesperada que me estremece a carne ou a minha garganta
cheia de sangue actual – amanhã morrerei.
Vi um dia alguém tomar nas mãos, entre faúlhas
velozes, pedras que pareciam
imortais. Eram casas que se levantavam
sobre o meu coração. Vi que tomavam
animais feridos, flores imaturas, objectos
breves, imagens instantâneas e perdidas. Faziam
alguma coisa eterna. Era gente
de vinte e nove anos que se despedia dolorosa
pormenorizada
violentamente de uma parte de sua carne, a parte
mais iluminada de sua
carne de vinte e nove anos. Amanhã
morrerei.
Herberto Helder, de "A colher na boca".
sábado, 5 de janeiro de 2013
onda feita pro teu pé
mas este apreço
pelo peso não combina exatamente comigo. então fico duas vezes sem combinar
a primeira se estabelece na diferença; a segunda na constatação da diferença. estou longe demais para as cartas que me tentam alcançar.
normalmente nesse momento de empecilho e destroço eu me derreto até ficar só a casquinha.
mas o gosto de framboesa é o gosto de deus.
no cde meu cazuza no pdddm meu variações. USA UMA LUZ COM QUE ILUMINA
A TRAVESSA DAS ALMAS MANCAS
eu sou da deriva, meu bem. isso ainda é muito útil.
tenho escrito e sonhado com lugares, com coisas que falam de lugares. tenho que me desabitar mais vezes. me tornar a lua, como se dois copos de poeira dois copos de dust misturados com água morna resultassem numa lua plena, plenilúnio. mas a grávida está cortando cebolas, a fase é minguante. cantam os grilos que não cantam. e as seivas correm para baixo.
eu tenho que ser como o dom que guia pela rédea do cavalo em direção ao pasto. viver o dom sem dono o dom do som. mas nem nada. eu levei o pasto para o abismo do pântano e agora tenho que pentear os capins com água fresca desembaraçante.
pelo peso não combina exatamente comigo. então fico duas vezes sem combinar
a primeira se estabelece na diferença; a segunda na constatação da diferença. estou longe demais para as cartas que me tentam alcançar.
normalmente nesse momento de empecilho e destroço eu me derreto até ficar só a casquinha.
mas o gosto de framboesa é o gosto de deus.
no cde meu cazuza no pdddm meu variações. USA UMA LUZ COM QUE ILUMINA
A TRAVESSA DAS ALMAS MANCAS
eu sou da deriva, meu bem. isso ainda é muito útil.
tenho escrito e sonhado com lugares, com coisas que falam de lugares. tenho que me desabitar mais vezes. me tornar a lua, como se dois copos de poeira dois copos de dust misturados com água morna resultassem numa lua plena, plenilúnio. mas a grávida está cortando cebolas, a fase é minguante. cantam os grilos que não cantam. e as seivas correm para baixo.
eu tenho que ser como o dom que guia pela rédea do cavalo em direção ao pasto. viver o dom sem dono o dom do som. mas nem nada. eu levei o pasto para o abismo do pântano e agora tenho que pentear os capins com água fresca desembaraçante.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
o fantasma ergue a saia
sou aquilo que se pode chamar de pessoa estimulada.
só que o que está rolando agora é que eu ando farta de estimular. que viagem. com isso não tenho muitos impulsos a seguir.
sinto que não estou à altura de mim mesma, e o que estava à altura de mim mesma tem que cair pro lugar onde estou.
domingo, 30 de dezembro de 2012
ano 13
e o destino guiando a carroça de tudo pela estrada de nada
palavra que não é minha
amarás um homem cujo nome começa com o alfabeto
depois virá outro homem também com dentes
caminhando com calcanhares de engenhosos tendões
e quando mastiga batata palha faz crec-crec
muito depois foi me dada uma constelação
ela tinha o teu nome. o teu nome escrito entre as pedras
a rodar e a rodar e a rodar
e eu a dormir e a engordar
é inverno, pá
de cal nos cílios pra estancar
lá no sertão quem tem tanta água é rio longínquo
então escrever voltou a escrever
aquela escavação.
vou contar para vocês que eu tenho considerado que o herberto helder tem uma obra excessivamente irregular. VOU CONTAR QUE EU FALEI COM DEUS.
palavra que não é minha
amarás um homem cujo nome começa com o alfabeto
depois virá outro homem também com dentes
caminhando com calcanhares de engenhosos tendões
e quando mastiga batata palha faz crec-crec
muito depois foi me dada uma constelação
ela tinha o teu nome. o teu nome escrito entre as pedras
a rodar e a rodar e a rodar
e eu a dormir e a engordar
é inverno, pá
de cal nos cílios pra estancar
lá no sertão quem tem tanta água é rio longínquo
então escrever voltou a escrever
aquela escavação.
vou contar para vocês que eu tenho considerado que o herberto helder tem uma obra excessivamente irregular. VOU CONTAR QUE EU FALEI COM DEUS.
ele era um grilo que eu tirei do bolso e depois comi.
amo vocês.
domingo, 23 de dezembro de 2012
semente
o inverno chegou. dá pra sentir no peso dos pés na terra.
a cidade tão úmida que os pinheiros parecem aspargos.
mastigo entre os cordeiros, e os espinhos das silvas
me cobrem de riscos na pele.
soube que as noites começam a ficar mais curtas
onde ela habita. ela é uma coruja,
tem pescoço para todos os lados. a giratória
abre as asas, separa o escuro
com olhos de manhã, tem sede.
a cidade tão úmida que os pinheiros parecem aspargos.
mastigo entre os cordeiros, e os espinhos das silvas
me cobrem de riscos na pele.
soube que as noites começam a ficar mais curtas
onde ela habita. ela é uma coruja,
tem pescoço para todos os lados. a giratória
abre as asas, separa o escuro
com olhos de manhã, tem sede.
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fabulário
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
sábado, 1 de dezembro de 2012
o peito cheio de estrelas
com a lua ainda alta saio
pela cidade mágica onde o inverno chega antes
do que eu
chego na estação
GREVE dos comboios
o caixa eletrônico sem notas
vou até outro e volto com dinheiro suficiente
sento com intenção
no banco de granito
será que consigo não esfriar os fundilhos?
sento em cima do guarda-chuva
o dia amanhecendo pelo leste
em frente uma placa VENDE
as casas ao lado desabando
a ruína de cada dia
passam dois autocarros
FORA DE SERVIÇO
tiro do bolso a maçã que roubei
fresca como toda
primeira refeição do homem
até que aparece um taxi
e me leva até amadora.
conversamos quinze quilômetros
e ele era um otimista.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
elenco sem determinação daqueles que desistiram
Entre aqueles que não desistiram está, na frente de todos, Arthur. Seu raio ultrapassa sua morada. Parasse eu agora seria uma desistência, depois de provar morangos, não querer conhecer as amêndoas nem as amoras. Como um par de mãos ofertado, porém de punhos ausentes, mutilados. Arthur não tinha medo de punhos mutilados, por isso não desistiu, foi para África. Se de agora em diante recuasse do ruído e conseguisse abdicar do foco que encanta, se eu perdesse os olhos e a capacidade de olhar o fogo, mesmo que eu me apaixonasse por outra coisa, eu estaria desistindo. Arthur, não. Arthur nunca desistiu.
Ana atravessando o deserto pensou
que pudesse bebê-lo.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
de um peixe
na verdade esta noite dormi muito. e ainda estou lá, como se nada houvesse começado. lenta, com espirros. a gata também tossiu, mas enquanto eu dormia lambeu meus cabelos - estavam sujos - até dividir o caminho e encontrar meu couro cabeludo. acordei com a língua áspera no crânio.
como é possível que existam dias que a única coisa que me interessa é exterminar minha maior capacidade? a sensibilidade. não se trata exatamente de um extermínio, mas de uma exacerbação que anestesia, faz-se fumo. onde tudo toca, até só a vida formigar e o coração sem centro dominar a tudo.
vrummm
quando acontece o teu foguetório como uma rajada me torno um pássaro
com seu minúsculo cérebro e velocidade radiante no céu
tudo em ti que se abre - no dia seguinte, é limite.
já faz tempo sei que só as pessoas do limite me interessam. a mim, que não sou uma delas,
está mais frio que um pé de brócolis e os almocei com tofu fumado, alho, batatinha
meus olhos sanguinários nada mais sabem do que querer saúde
purificação. mas quando você fica assim a única coisa que quero é ficar longe.
longe tão longe tão longe
que todo limite te baste e afogado, queiras tudo.
na próxima semana vou conhecer berlim.
ontem mudou minha relação com mapas
como se eu tornasse do pássaro a relação relâmpago entre os neurônios
e os símbolos tornassem leituras já, antes dos símbolos serem lidos
o mapa ser a rua ser as mãos o mapa ser teu caminho.
no entanto, acordo fragmentada como quem não tem os papéis certos.
ainda.
não sei como vai ser amanhã, se vou conseguir olhar na cara com tranquilidade.
às vezes, talvez não aparente, mas a única coisa que sou é um motorzinho
um motorzinho de rancor.
com seu minúsculo cérebro e velocidade radiante no céu
tudo em ti que se abre - no dia seguinte, é limite.
já faz tempo sei que só as pessoas do limite me interessam. a mim, que não sou uma delas,
está mais frio que um pé de brócolis e os almocei com tofu fumado, alho, batatinha
meus olhos sanguinários nada mais sabem do que querer saúde
purificação. mas quando você fica assim a única coisa que quero é ficar longe.
longe tão longe tão longe
que todo limite te baste e afogado, queiras tudo.
na próxima semana vou conhecer berlim.
ontem mudou minha relação com mapas
como se eu tornasse do pássaro a relação relâmpago entre os neurônios
e os símbolos tornassem leituras já, antes dos símbolos serem lidos
o mapa ser a rua ser as mãos o mapa ser teu caminho.
no entanto, acordo fragmentada como quem não tem os papéis certos.
ainda.
não sei como vai ser amanhã, se vou conseguir olhar na cara com tranquilidade.
às vezes, talvez não aparente, mas a única coisa que sou é um motorzinho
um motorzinho de rancor.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
f.
1, de manhã cedo, estou no metro da alameda, atravessando da linha vermelha para a verde, voltando do veterinário, carregando a tétis na casinha que é grande demais pra ela, e fica como um pêndulo derrubado pro lado que ela estiver. a banca de jornais que também vende bichos de pelúcia (e bilhetes de loteria, e algumas coisas de papelaria, há duzentas mil assim pela cidade) tem um mostruário de jornais mais à mostra do que outros. leio uma manchete: "aumenta número de bebés abandonados".
2, de tarde, estou no departamento de finanças da graça, com o gustavo. depois de 50 minutos nos atendem. preciso de um número de contribuinte (um cpf local). é claro que tudo que o sistema quer sou eu, alguém pra pagar impostos, foi a burocracia mais fácil de resolver, foi a primeira vez que fui atendida por um funcionário local de qualquer sistema e que não me faltava nenhum documento, nem nada estava errado. então a funcionária digitou minha nacionalidade errada "portuguesa" e logo corrigiu e escreveu "brasileira". eu brinco com ela: "olha que assim eu me aproveito, hein?" e ela responde: "minha filha, ninguém quer ser português.".
3, .
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
olhos que em terra firme pousaram
segunda-feira. meio de novembro. as cápsulas chinesas harmonizaram a minha temperatura o suficiente para que meu corpo inteiro não esteja doendo o tempo inteiro nessa entrada do frio pelos poros e músculos, também chamada outono.
2012.
consegui me acalmar em relação as burocracias de renovação dos papéis e me parece que estarei confiante pelo resto da estação. isto tem a ver, sobretudo, com estar conseguindo me sentir em dia com tudo. hoje foi a primeira vez em muitos meses que não tenho nenhum email não lido na caixa de entrada.
não lido means não respondido, no meu vocabulário de convívio.
na quinta-feira passada escrevi um poema do destino do mar. não sei, mas também fazia muitos meses (seis, talvez?) que não escrevia e terminava um poema para o livro. não que eu não estivesse conseguindo escrever, eu não estava é me sentindo identificada com o que escrevia. mesmo as coisas deste blogue. por mais que eu me entregue aos fluxos, não acredito sempre estar entregue a eles, ou estar neles.
isto estava me fazendo sofrer. não escrever. então escrevi um poema.
depois chorei duas horas por conta da burocracia dos papéis de renovação do meu visto e toda essa fartura que é ser estrangeira num país em que todas as pessoas estão, umas mais outras menos, infelizes. é claro que, como disse o daniel, chorar era um ponto furo.
mas eu choro quando as coisas morrem e eu me sinto feliz. ou eu choro até chegar nesse lugar em que as coisas morrem e eu me sinto feliz.
então dormi, a cabeça estourando. acordei com as vias respiratórias estourando de secas pelas lágrimas da noite anterior. e ao me sentar para ler o poema, percebi que ele era o último. o último poema do livro, o vinte e seis, que havia tempo já que eu pensava nele. era meu movimento sempre futuro: o último poema, que vai fechar o livro, eu pensava nele como uma cortina que fecha a fábula, assim como o "farewell" foi no cde.
o XXVI não. afinal, o pdddm não tem a fábula como espectro feito o cde tinha. nele se fala de dúvidas. algo que se quebrou e, no entanto, por haver se quebrado, está mais forte. o XXVI é calmo e leve, só trabalhando com a força que restou. nem heróico, nem infantil. mas estival, aberto.
dito que o XXVI chegou, concluí que todo o resto devia acabar. e o objeto me dizendo livro, claramente, adeus. ainda temos algumas despedidas, mas março, quem sabe, além da primavera, trará "alforria blues ou poemas do destino do mar", impresso, publicado, outro, seu.
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agora que sou sincera,
cantos de estima,
poemas do destino do mar
domingo, 18 de novembro de 2012
tu eras feito de calor
do "acabou produto", em 14 de junho de 2010:
este livro mudou tudo pra mim, um mês atrás. "Vertumno" do Iosif Brodskii, em tradução de Carlos Leite. o livro é dedicado "Em memória de Giovanni Buttafava" e datado Milão, dezembro de 1990. três poemas, entre os vinte e seis (maluco: eu querendo fazer 26 no "poemas do destino do mar", encontro esse livro, com XVI e tão a cara do que eu teria querido fazer se já não visse feito)
I
Encontrei-te pela primeira vez em latitudes que dirias
estranhas. Nunca os teus pés as pisaram. A tua fama, porém, chegara
a essas partes onde se fazem faianças com formas de frutas.
Com neve pelo joelho, dominavas o lugar, muito branco,
e além disso nu, na companhia de outros unipernetas
- as árvores, igualmente nuas- na tua qualidade de especialista
das baixas temperaturas. "Divindade Romana"
proclamava uma placa já delida,
e para mim eras deus, pois que sabias
mais do passado do que eu (o futuro
nesse tempo pouco me importava).
No entanto, de caracóis e cara larga,
podias muito bem ser meu coetâneo. E embora não percebesses
patavina do falar local, pusemo-nos à conversa.
Quem começou fui eu. Com qualquer coisa sobre a Pomona,
os meandros dos nossos rios, os caprichos do tempo, dinheiro,
a falta de legumes frescos, o desconchavo das estações
- coisas, pensava, que deviam ser-te acessíveis,
senão na essência, pelo menos no seu tom
de lamento. Pouco a pouco - o lamento é a língua-mãe
universal; muito provavelmente, no princípio,
era o "ui" ou o "ai" - começaste a reagir:
picaste os olhos, franziste a testa; a parte inferior do rosto
pareceu derreter-se e os teus lábios descerraram-se lentamente:
"Vertumno", disseste enfim. "Chamo-me Vertumno".
II
Era um dia de Inverno, cinzento, ou melhor, sem cor.
Os teus membros, os ombros, o torso, à medida
que passávamos dum assunto a outro,
tornavam-se lentamente rosados e revestiam-se de tecido:
chapéu, camisa, calças, casaco, sobretudo
verde escuro, sapatos Balenciaga.
O calor propagou-se ao ar ambiente e tu detinhas-te por momentos,
à escuta do suave rumorejar do parque,
voltando por vezes no chão uma folha pegajosa
à procura da palavra, da expressão, exactas.
Em todo caso, se não me engano,
quando eu - então excessivamente animado-
perorava sobre história, guerras, más colheitas,
os escândalos do governo, já o lírio se fanava.
E estavas sentado num banco. Visto de longe parecias
um cidadão como os outros, atormentado pelo Estado;
a tua temperatura era trinta e seis vírgula seis.
"Anda", disseste, pegando-me no braço.
"Anda daí. Vou mostrar-te o sítio onde nasci e cresci."
X
Nunca ninguém soube como passavas as noites.
Mas isso não é assim tão estranho, para quem conheça
as tuas origens. Uma vez, depois da meia-noite, no centro do universo,
fui dar contigo na companhia dumas estrelas declinantes
e tu piscaste-me o olho. Pedias-me discrição? Mas o cosmos
é tudo menos discreto. Pelo contrário. No cosmos pode-se ver
tudo à vista desarmada, e as coisas dormem sem lençóis.
A incandescência de qualquer estrela é de tal ordem
que ao arrefecer pode engendrar o alfabeto,
as plantas, a forma do tempo; e a nós, simplesmente,
com o nosso passado, presente, futuro,
e tudo o resto, mas sobretudo o futuro. Nós não passamos
de termómetros, irmãos e irmãs do gelo,
não da Betelgeuse. Tu eras feito de calor,
daí a tua omnipresença. É difícil imaginar-te
num ponto preciso, por mais brilhante que seja.
Daí a tua invisibilidade. Os deuses não deixam mancha
num lençol, sem falar da progenitura,
contentam-se com uma verosimilhança artesanal
num nicho de pedra, ao fundo duma álea do jardim,
demasiados felizes com a minoria que são.
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sábado, 17 de novembro de 2012
VII
E eu assentei praça num mundo onde o teu gesto e a tua palavra
eram imperativos. O mimetismo, a imitação
passavam por lealdade. Tornei-me mestre na arte
de me confundir com a paisagem, com os móveis ou as cortinas
(com o tempo, invadiu o meu guarda-roupa).
A boca deixa escapar, no decurso de uma conversa,
a primeira pessoa do plural
e nos dedos despertou a sensibilidade do espinho da sebe.
Deixei também de olhar por cima do ombro. Se ouço passos
atrás de mim, já não me sobressalto. Dantes sentia um calafrio
nas omoplatas, mas hoje sei que nas minhas costas
se estende a rua ajoujada de colunatas,
e também que onde acaba brilham as ondas turquesa
do Adriático. As ondas e as colunatas são, claramente,
um presente teu, Vertumno. Trocos, se quiseres, umas moedas
de prata com que, de vez em quando, a generosa eternidade
inunda o efémero. Em parte por superstição,
em parte, talvez, porque só ele,
o efémero, é capaz de sentir, de ser feliz.
de "Vertumno" in: Paisagem com inundação.
Iosif Brodskii em tradução de Carlos Leite.
E eu assentei praça num mundo onde o teu gesto e a tua palavra
eram imperativos. O mimetismo, a imitação
passavam por lealdade. Tornei-me mestre na arte
de me confundir com a paisagem, com os móveis ou as cortinas
(com o tempo, invadiu o meu guarda-roupa).
A boca deixa escapar, no decurso de uma conversa,
a primeira pessoa do plural
e nos dedos despertou a sensibilidade do espinho da sebe.
Deixei também de olhar por cima do ombro. Se ouço passos
atrás de mim, já não me sobressalto. Dantes sentia um calafrio
nas omoplatas, mas hoje sei que nas minhas costas
se estende a rua ajoujada de colunatas,
e também que onde acaba brilham as ondas turquesa
do Adriático. As ondas e as colunatas são, claramente,
um presente teu, Vertumno. Trocos, se quiseres, umas moedas
de prata com que, de vez em quando, a generosa eternidade
inunda o efémero. Em parte por superstição,
em parte, talvez, porque só ele,
o efémero, é capaz de sentir, de ser feliz.
de "Vertumno" in: Paisagem com inundação.
Iosif Brodskii em tradução de Carlos Leite.
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quarta-feira, 14 de novembro de 2012
do alto de uma torre
que em cima não tinha parapeito, vidro, nada que escorasse
lá embaixo o mar azul gigantesco
na frente o céu
do alto passavam aviões
e neles estava agarrada uma corda
a outra ponta da corda tinha uma prancha de surf
em cima do mar, como a elas convém
alguém saltava e surfava
na prancha guinchada pelo avião.
na torre estávamos eu e meu irmão.
que em cima não tinha parapeito, vidro, nada que escorasse
lá embaixo o mar azul gigantesco
na frente o céu
do alto passavam aviões
e neles estava agarrada uma corda
a outra ponta da corda tinha uma prancha de surf
em cima do mar, como a elas convém
alguém saltava e surfava
na prancha guinchada pelo avião.
na torre estávamos eu e meu irmão.
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caderno público de sonhos
terça-feira, 13 de novembro de 2012
acordo antes do despertador
antes até das 8h30
os nove graus ditam o ritmo
casacos antes dos remédios nos olhos
da gata que ronrona toda doce
mesmo que o colírio arda
banho mais quente que o quente dos banhos
tudo entrecortado por espirros
a roupa por cima do meio úmido
vestir-se ainda no cômodo em que se banha
(as variantes entre as nossas línguas por vezes me obrigam a falar como se esquecida das palavras certas)
o café fica sendo o primeiro movimento para fora
sem ele não enfrento a saída do estado de tapete enrolado
nem ir ao consulado pegar meu passaporte
na faculdade pagar a faculdade
isso que esta noite sonhei com o júri da minha dissertação
(sim, aqui é assim que se chama)
ele acontecia numa rotatória
na rotatória da pracinha da igrejinha da granja
lugar onde tantas vezes esperei
teve uma que prendi o dedo na porta do gol vermelho
minha mãe não viu e saiu acelerando
essa noite estávamos lá
eu a. e s.
o primeiro anotava frases na lousa do que eu tinha feito
eu olhava aquelas frases e dizia pra mim mesma
"meu deus, nunca pensei que fosse ter que explicar meus versos assim, sendo que esses, eu que fiz!, e não entendo"
mas ele parecia contente com o lirismo
mais contente do que eu?
enquanto isso s. sentada como se estivéssemos tomando chá com a alice
alice e toda a turma
mui distinta, me dizia algo que a sensação era como
"ler teu trabalho é como tomar chá com alice"
sendo que alice também podia ser uma senhora mui distinta
nobre talvez até
guardando biscoitos para os netos mais novos.
a vida tem seus mimos.
o mínimo é a vida.
antes até das 8h30
os nove graus ditam o ritmo
casacos antes dos remédios nos olhos
da gata que ronrona toda doce
mesmo que o colírio arda
banho mais quente que o quente dos banhos
tudo entrecortado por espirros
a roupa por cima do meio úmido
vestir-se ainda no cômodo em que se banha
(as variantes entre as nossas línguas por vezes me obrigam a falar como se esquecida das palavras certas)
o café fica sendo o primeiro movimento para fora
sem ele não enfrento a saída do estado de tapete enrolado
nem ir ao consulado pegar meu passaporte
na faculdade pagar a faculdade
isso que esta noite sonhei com o júri da minha dissertação
(sim, aqui é assim que se chama)
ele acontecia numa rotatória
na rotatória da pracinha da igrejinha da granja
lugar onde tantas vezes esperei
teve uma que prendi o dedo na porta do gol vermelho
minha mãe não viu e saiu acelerando
essa noite estávamos lá
eu a. e s.
o primeiro anotava frases na lousa do que eu tinha feito
eu olhava aquelas frases e dizia pra mim mesma
"meu deus, nunca pensei que fosse ter que explicar meus versos assim, sendo que esses, eu que fiz!, e não entendo"
mas ele parecia contente com o lirismo
mais contente do que eu?
enquanto isso s. sentada como se estivéssemos tomando chá com a alice
alice e toda a turma
mui distinta, me dizia algo que a sensação era como
"ler teu trabalho é como tomar chá com alice"
sendo que alice também podia ser uma senhora mui distinta
nobre talvez até
guardando biscoitos para os netos mais novos.
a vida tem seus mimos.
o mínimo é a vida.
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segunda-feira, 12 de novembro de 2012
sábado, 10 de novembro de 2012
last night i said to my soul, be still and warm
nem ana cristina cesar
nem bob dylan
eu sou o príncipe hamlet.
nem bob dylan
eu sou o príncipe hamlet.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
os ingleses
voltei a sonhar, faz duas noites que sonho. essa noite sonhei com a peça de teatro que estou tentando escrever. espécie de prova de que a fertilidade não me abandonou. e também de que a ofuscação significa só o que significa, a necessidade de aceitar e desanuviar. desanuviar emblemas, desanuviar. fazer das nuvens, nuvens. só. mas derrubar a barreira, não aceitar que o disforme se torne a forma do que eu acredito. porque não.
dizia Eliot que entre os românticos e os clássicos, ele era pelos clássicos, e devemos lembrar que tal embate é uma invenção romântica.
estou numa questão dessas com a forma da escrita. os signos de ar e fogo talvez lidem melhor com o imprevisto e os de água desejem o disforme. mas, não se enganem, o meu delírio é muito calculado. quem pensa que o que escrevo é surreal está sendo lido no que lhe falta: imaginação. isso sim, tenho demais e excessiva tendo à imaginação, desde criança. sempre pude passar horas imaginando sem tomar um ato que fosse para corporificar aquelas histórias. depois o sofrimento apareceu, e a corporificação nasceu, penso, da necessidade de não ser das trevas. porque tudo que a imaginação é fértil e iluminada, ela é da escuridão. só na quente escuridão as coisas são gestadas, e as pálpebras de um recém nascido que se abrem, provam a luz como um fruto. depois o fruto nos esbanja, escorre seu líquido pela face de cada um, e há quem faça do fruto o seu veneno.
eu, por exemplo, que sempre quero entender, até o ponto da tristeza de entender que não é possível entender. hamlet, por exemplo, sofreu tanto, tanto. e um gato atravessa o telhado da casa ali em frente. quisera ter no pensamento as espumas que os gatos têm nas patas. quisera ter o pensamento de um gato. mas, atualmente, com nada me identifico mais do que com a tormenta das personagens que se atormentam por entender.
o pensamento como uma bolacha cracker, de água e sal, somos feitos.
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
HAMLET
Eu tinha no coração, senhor, uma espécie de debate
Que não me deixava dormir. Cria-me pior deitado
Que amotinados enleados por grilhetas. Num ímpeto-
E abençoada seja tal impetuosidade: pois saibamos
Que a nossa indiscrição por vezes assaz nos serve
Se planos profundos se dissipam; e isto ensina-nos
Que há uma divindade que nos modela os fins,
Talhemo-los nós como quisermos -
(trad. de António Feijó)
Eu tinha no coração, senhor, uma espécie de debate
Que não me deixava dormir. Cria-me pior deitado
Que amotinados enleados por grilhetas. Num ímpeto-
E abençoada seja tal impetuosidade: pois saibamos
Que a nossa indiscrição por vezes assaz nos serve
Se planos profundos se dissipam; e isto ensina-nos
Que há uma divindade que nos modela os fins,
Talhemo-los nós como quisermos -
(trad. de António Feijó)
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amigos amigos negócios reparte
novembro chegou. e com ele veio também a minha impaciência à tona. impaciência de milênios, de horas não aproveitadas. impaciência de dar cabo ao que é da esperança. fértil, infértil, a vida é tão ritmada. continuo pondo à prova certas coisas: minha expectativa de que as coisas melhorem, meus pulmões na ebriedade do que arde. é tantas vezes a lucidez que me guia dentro da tormenta, que me acostumei a enfiar os dedos na água e agitá-la até causar o vigor de uma tempestade. dou a água para você beber, a água grita dentro de você. a água me espanca quando entro embaixo do chuveiro e vou dizer: eu gosto. é melhor sentir qualquer coisa entorno do corpo, do que não ter um corpo. meus versos viajaram em mais goelas do que o mick jagger. estou é cansada dessa morbidez sem estrutura. não aceito o delírio como prova de nada, é só a lucidez que me interessa no delírio. só a aprendizagem do delírio. então, se fumo, é para resistir. e depois de um mês, um dia sem, me faz perceber os sons da rua e do metrô. ontem os trilhos zumbiam e eu olhei pra eles como quem procura um rato. hoje duas meninas passaram de bicicleta e o suave trino dos aros me disseram que é outono, a ponta do nariz gelado. a gatinha tem cheiro de ser vivo, eu acordo às 8h30 todos os dias pra aplicar antibiótico em seus olhos. e, quando posso, volto a dormir. "eu tinha no coração, senhor, uma espécie de debate". no entanto, a única coisa que posso te dar, por enquanto, é a minha ausência. depois disso, depois disso, depois disso eu não sei. JÁ DISSE.
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