domingo, 19 de maio de 2013

VIII

O que eu acho que estou querendo agora é tão delicado.
Não sei com quem falar disso.
O que estou querendo é tão delicado.
O delicado problemático. Sem volta.
Entendi que pra chegar tenho que dar outra, outra volta.
Mas não posso, meu corpo bom, trocar de terra mais uma vez.
Vou cair em todas.
Insuficientemente permeável à pele das cidades.
Não reconheço nenhum canto desta sala.
Com quem conversar o descanso?
Metade da vida é faxina. A outra metade?
Regresso do pó. E eu querendo algo
agora tão, tão delicado. De passar o vento.
Ou para sentir
só teria que pousar as mãos no pó
até vê-las brancas, espalmadas como um mar
que se instalasse sobre os móveis
mas um rabo de gato
meu dedo na boca
nervoso.
Estou no raio informe.
Se eu traçar uma circunferência estarei no raio do informe.
Do centro dela apita uma luz que ninguém vê.
Por onde, se mexe: é o que a luz diz.
Aqui também, tudo manda mensagens, significa.
Passou um barco que eu achei bonito.
Ele trazia também duas luzes.
Piscavam querendo dizer numa linguagem que não me comunico.
Mas alguém se comunicaria
com as luzes do barco.
Estou procurando um lugar de mim mesma que seja o campo de mim mesma.
Não preventiva.
Cansei de ser o princípio do cuidado descontrolado.
Estou levando uma maçã pra comer mais tarde.
Tão tranquila cidade.
Passo a mão na água.
Quem dera fazer, dos poemas, sinfonia.
Fina de chiados e sintonizações, quem passasse pudesse ouvir
como gruda o ouvido no rádio, a emancipação
do universo feito de palavra, não encontro. Nem saliva,
só aço. Nem tato, olfato.
Os olhos mesmo, perfurados.
Estou dizendo que só viverei naquele
que se enfraquece de ternura, pena carne.


do "alforria blues ou Poemas do Destino do Mar".
"Os caminhos confundem-se, os telhados de terra batida aluem, o enxurro ganha os campos. Desaparece essa frágil ordem que se cria para andar sobre os abismos. Em dois dias perdem-se todas as pistas do ano. Desapareceram os centros da vida, centros de audaz inteligência, onde se teceu, à volta, o pavor da morte - a malícia de enganá-la e a pequena vitória com seu anel de alegria. Absorveu-os a água. Na forma desfeita, já se não sabe o lugar dos bichos, da lentilha, dos barcos. 
Cavalos de areia húmida galopam nos ares. O vento bate nos campos as ferraduras de água. As casas abaixam-se, iluminadas por candeias cuja grossa torcida mergulha em gordura de carneiro. 

É preciso inventar de novo o edifício palpável das convenções: demarcar os campos de cevada, reparar as empenas dos barcos, amar a vida. Para ajudar haverá uma pobre primavera de ervagem baixa e uns passos de lentilha verde." 


do "Photomaton & Vox", Herberto Helder.

os anéis de netuno

estou lendo um livro dos anos 70, que fala da vida secreta das plantas. é engraçado que uns anos atrás eu não daria a mínima atenção pra um estudo como esses, consideraria místico e, displicentemente, me colocaria a ler algum poeta moderno de alta consideração. mas fico a cada dia mais siderada pela potência que um chá pode ter (seja ele ayahuasca ou tília, e todos os etceteras que aqui cabem), que há algo que as plantas encaminham, ajudam a curar, a limpar, a entender, e num ambiente mesmo, a presença das plantas facilita tudo. meu pai, eu já disse?, meu pai é um construtor de selvas. mas o mais engraçado que eu acho no livro é que ele está em castelhano, e muitas vezes eu me sinto lendo Cortázar. então todo o misticismo científico parece um jogo, uma jogada de ironia cheia de amor, e o texto se revive de si mesmo, na sua própria celulose, e se integra ao que eu já conheço. fico interessada e dando risada. isso não diminui o conhecimento ali exposto, nem o torna ficção, assim como tornar ensaio um poema não o faz científico. é como se cada coisa em seu lugar, revisitada pelas outras, cada coisa de fronteiras abertas mostrasse mesmo o poder dos encontros. pra que separar tanto? a vida é cheia de liberdade.

sábado, 18 de maio de 2013

uns queimam as mãos, outros

é daquelas pessoas que não acreditam em abstrações,
e eu estava tentando resgatar o meu coração como o chiclete colado no asfalto quente se prendeu no meu tênis e não queria soltar
mas eu o tinha visto sentado do lado do haroldo de campos e ele esquentava um bule de água quente, estávamos num jardim japonês, fazia frio
ele esquentava a água, esquentava
pra fazer chá, eu pensava
até o momento que vertia fervente sobre uma das próprias mãos
não gemia, nem nada. não era pra ele que faltavam abstrações
eu já não me lembro bem.
lembro que naquele tempo eu esperava, esperava
nem sei pelo quê. por alguma coisa que atravessasse a minha vida
sentia medo de repentinamente me apaixonar
porque é justamente desse jeito que acontece.
eu estava toda retirada
e agora acreditava nas coisas que as plantas sentem.
acredito ainda. e uma hora eu fui no banheiro e os dois
os dois que já não eram os mesmos dois
que estavam ali acima, porque a vida é muito mais interessante do que eles
outros dois começaram a falar avidamente sobre a inquisição,
e eu senti que eles falavam sobre o peso de ter isso na memória, que a galera queimava
o vizinho. e os portugueses se sentem muito portugueses, então eu
pensei o peso que deve ser, mesmo, esse excesso de história da
maldade. porque, pelos vistos, isso é a história de todo povo, de toda
civilização, essas barbáries, mas um povo que já dura faz tanto tempo,
ah!, esse povo sanguinário deve ter que ter muita água, muita água
suficiente pra limpar as nódoas todas. é muita história.
sim, e eu.
eu estou escrevendo notas para um livro mudo.
um livro onde nada se repete e nada fica constrangido.
um livro que dança e um livro que corre.
depois apareceu uma outra solução, que era esquecer tudo isso.
embora martelasse meu pensamento a avidez do antes de dormir
maltratasse meu sono
eu me atirava! me atirava para o sono!
e o que eu pensava me tirava! me tirava o sono!
ah quantas noites iguais a de tantos.
como sempre me interessa o que está atrás
segui buscando a origem da insônia, não sei se para entendê-la
para desmitificá-la para respeitá-la curar não
mas de repente voltei a dormir
de repente voltei a comer
de repente voltei a amar
mas voltar pra quê?
foi o que eu disse num email pra maria hoje de manhã.
e depois me lembrei do álvaro de campos que tinha as botas mais gastas de portugal
botas tão gastas que eu tenho me lembrado muito dele nesses dias
quis até comprar uma outra edição, não a que eu tenho
mas ainda bem que não achei
porque eu não tenho dinheiro
e vou vivendo assim, gastando as botas
escrevendo torto torto torto gasto gasto gasto
nunca pensei que fosse dizer isso de alguém
mas não é de abstrações que lhe faltam coisas, não!
o que lhe falta é espírito. e quem disse isso foi machado assis.
não foi ninguém não.
foi machado de assis.
e fui eu.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

meu melhor amigo

copiado do marcos, do blogue do marcos:

depois do diário

i

amarram essas paredes com uma vontade bem firme
e olha só elas estão bambas

ii

a terapia dos cadernos acumula pó debaixo da cama
lá também vive o monstro que escrevia

iii

depois dos diários deixamos de enviar notícia
o mundo é grande, qualquer um encontra

iv

gaiola não canta

terça-feira, 14 de maio de 2013

quantos a ouvir a estação

isto é uma miragem, na verdade, estou sem internet. e o vulgo fato tem me feito querer mais, eu que queria só esquecimento e naturalidade, sem constrangimento, percebo assim: nada me interessa mais nessas tardes de primavera do que o suco de damasco apricot alperce orgânico e austríaco que descobri. imagino o rigor daqueles entraves amassando as frutinhas, até o enrondilhado das fibras fazendo contraste cada fruta o seu sabor, dentro de uma caixinha de tetra pak que veio parar até mim. às vezes admiro a tecnologia, às vezes admiro o campo, ambos juntos é muito convívio de humanidade. aqueles raros "e ainda bem", ou descobrir finalmente as flores de sabugueiro, e beber, beber até destapar os ouvidos. 
e escrever, escrever, escrever até não ter mais o que dizer nem o que sentir. ontem reparei no convívio deglutidor que é um poema, foi lendo os poemas do holderlin que postei logo aí embaixo. não quero nem saber de nada mais, mas me prometi que só escrevo um poema novamente quando for insuportável o júbilo de animar uma montagem. o poema como uma marionete, é no que acredito. as emoções coletadas, compostas na violência de um novo corpo. corpo = beleza.  sendo que o igual ali atrás foi cheio de dúvidas. corpo = ruído. e tantas outras equivalências poderiam ser transpostas, até encontrarmos aquilo que já sabemos: que nunca saberemos a quantidade de coisas que cabem num corpo, mas são tantas.
eu vou guardando tudo isso. aguardando aquele momento em que vou voltar a escrever o meu trabalho. isso aqui não é o meu trabalho. isso aqui é a minha respiração. por acaso você considera que um e outro são a mesma coisa? é importante averiguar as equivalências antes de acreditar nelas. ou acreditar de olhos fechados, acreditar tanto ao ponto de repetir uma palavra, um punhado de versos. seguir tendo fé e descrendo. tendo fé e descrendo. se eu fosse um trem (um comboio, são tantas as palavras que se equivalem em nossas línguas, e cada uma delas é insubstituível) um trilho meu era a fé, o outro a descrença. sim, eu apito. e passo por cima. 


ps, este texto foi escrito para o bernardo. e com o pensamento no filipe.
ps do ps, também foi com o pensamento em ezra pound, porque hoje de manhã joguei i ching e o hexagrama 11 me lembrou de encontrar aquilo que se preserva na liberdade do novo. na herança há confiança, e o futuro é o calçado destes pés, 

não estou em festa, mas gostaria de coroar-me de flores

1

Todos os dias saio em busca de algo diferente,
Demandei-o há muito por todos os atalhos destes campos;
Além nos cumes frescos visito as sombras,
E as fontes; o espírito erra dos cimos para a planície,
Implorando sossego; tal como o animal ferido se refugia nas florestas,
Onde antes repousava pelo meio-dia à sua sombra, fora de perigo;
Mas o seu verde abrigo já lhe não dá novas forças,
O espinho cravado fá-lo gemer e tira-lhe o sono,
De nada servem o calor da luz nem a frescura da noite,
E em vão mergulha as feridas nas ondas da torrente.
E tal como é inútil à terra oferecer-lhe a agradável
Erva curativa e nenhum zéfiro consegue estancar o sangue que fermenta,
O mesmo me acontece, caríssimos! Assim parece, e não haverá ninguém
Que possa aliviar-me da tristeza do meu sonho?


2

De nada serve, ó deuses da morte, enquanto tiverdes
Em vosso poder, prisioneiro, o homem acossado pelo destino,
Enquanto de vosso furor, o tiverdes lançado na noite tenebrosa,
De nada serve então procurar-vos, suplicar-vos ou queixarmo-nos,
Ou viver pacientemente neste desterro de temor,
E escutar sorrindo o vosso canto sóbrio.
Se assim for, esquece a tua felicidade e dormita silenciosamente.
No entanto brota no teu peito uma réstea de esperança,
Tu ainda não podes, ó minha alma! Não podes ainda
Habituar-te e sonhas dentro de um sonho férreo!
Não estou em festa, mas gostaria de coroar-me de flores;
Não me encontro eu só? Mas algo apaziguador deve
Aproximar-se de mim vindo de longe e sou forçado a sorrir e a admirar-me
Por experimentar alegria no meio de tão grande sofrimento.


5

Desejo festejar, mas para quê? E cantar com outros,
Mas assim sozinho tudo o que é divino me falta.
É este o meu mal, sei-o, uma maldição paralisa-me
Os tendões e abate-me ao menor movimento,
E assim passo o dia insensível e mudo como os meninos,
Apenas me brotam dos olhos frias lágrimas,
E a verdura dos campos entristece-me e o canto dos pássaros
Porque na sua alegria são também mensageiros do céu,
Mas o sol que reanima cai frio e esterilmente
No meu peito convulso como se fossem raios nocturnos,
Ai! E inútil e vazio como paredes de uma prisão o céu
É um peso excessivo que paira sobre a minha cabeça!



Friedrich Hölderlin, de "Pranto de Ménon por Diotima", in: "Elegias", tradução de Maria Teresa Dias Furtado.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

o melhor o tempo esconde

gostei do papo, me disse o príncipe todo enrolado na ramagem de unha de gato. é imprescindível saber que cresci com a cura ao lado. assim como o taxista que me avisou a respeito do amarelo. sou dessas pessoas que atravessa a rua e recebe um presente e guarda tão bem a cabeça dentro da caixa onde veio o pacote que a prenda se perde dentro da ramagem e o castelo cai e o príncipe fica sendo aquilo que ele é: um distúrbio, uma raridade, alguma coisa que não estava prevista, e que encaixa tão bem, tão direitinho, que até as melhores roupas de veludo e até mesmo os sequestradores de um país estrangeiro, tão interessados em abrirem as fronteiras do príncipe, torná-lo um vassalo, fazerem dele puro esquecimento da nobreza da estirpe, ó príncipe sem dentes, és menos poderoso do que um vírus, mas veja lá, isto não te faz menos vivo.

o Porto a voltar, a o Porto


Em “alforria blues ou Poemas do Destino do Mar” existem dois juntos em um, o que prova ser um livro sobre a biodiversidade. O de letras capitulares é um cavalo que querendo ter mãos para construir uma ânfora, foi tão devassado pelo dom de tê-las, que se transformou em um pássaro, que se transformou em açúcar: a primeira droga que experimentamos. Gasto açúcar, tua pele perdida feito cobra trocada na sombra da copa de uma árvore carregada: “alforria blues” é porque deve haver um jeito mais fácil de comer romã. Mas não se entretenha muito com o que diverge, os dois se acompanham, e quando um diz que tudo está em aberto, o outro responde: sim, está aberto e entre nós.

domingo, 5 de maio de 2013

no quando agora em mim

sujaram um pano até ele ficar dark dark oh so dark de pó e acúmulo de flores mortas. não era uma fonte velha que se limpasse, era o próprio lugar do júbilo, e de tanta festa os olhos manchados pelo fim da noite. eu sou esse pano que passaram no chão do fim da festa. depois por ele fizeram passar tanta água que ele de gasto passou a branco, mas encharcado ficou. torceram, torceram, torceram até não poder mais. e o pano não se secou. é assim que estou. 

sábado, 4 de maio de 2013

primeiro dia de escola


pro inferno com a literatura

este é pro Marcos

Numa coincidência infame
tivemos a oportunidade
Bob Dylan e eu
de morrermos os dois amanhã

e os amigos lembrariam
ah como tinha futuro
ah como tinha talento
ah como sabia viver
ah como tinha sorte
ah até que veio que morreu no mesmo dia que o Bob Dylan
eu nunca me esqueceria desse dia estavam ambos em Lisboa
tomada por um ataque nos eléctricos nos bondes nos pickpockets
no pitoresco mundo ibérico dos franceses que em realidade nunca entendem absolutamente nada ah souvenires coqueluches tíquetes de ingresso aos céus! meia dúzia de vezes em um século alguém pode dizer que sua amiga morreu no mesmo dia que o Bob Dylan morreu.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

grrrauuu

não sei por onde achar a estrada, e se eu tivesse uma tesoura cortava pedra e caminho, até encontrar mercedes que me guiasse. não gosto de textos assim como esse que estou escrevendo. dos sentidos, sou pelo vento. aquele que te rasga e que em mim sempre sempre vai causar sinusite e outras espécies de monstruosidades derivadas da permeabilidade dos meus poros. li clarice dizendo que sofria tudo que estivesse ao redor. o outro falava dos escritores de ouvidos perfurados. eu tenho olhos, tímpanos, mãos, tudo pra ver a maldade desaparecer. meus ouvidos ainda parecem a guerra nas estrelas. quando escrevo assim não é pra ter continuidade. uns tempos atrás eu falava em tirar o outdoor da frente dos olhos, sendo isto uma espécie de medicina, purificação dos meios e sentidos. hoje sei que, na verdade, escrevo pra trazer o o he-man na linha debaixo  



quinta-feira, 2 de maio de 2013

desejo cegado

nenhuma leitura soube
me ensinar a ler
as próprias mãos

"tornei o mar meu espelho"
disse o sol
pra explicar a minha vida

a luz era tanta
vinha vindo branca
splash! fez. E arrebentou.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

não trago outra mensagem

começamos cedo demais, e por isso não tivemos tempo para ressentimentos. tivemos excessivas certezas. nos culparam pelo excesso, pelo excesso de afirmatividade. consideraram que era tempo de mortos, de restos, de rolhas de cortiça trazidas pelas ondas. e já podres. o mar mesmo, era visto como um morto que, de tanto afundar em si mesmo, trazia os bolsos rotos, cheios de migalhas de pães e bolos que só comeu quando era criança, pois teve de abandonar a própria mãe pra que se considerasse vivo.  eu, não. quando fazia frio e lavava os cabelos, secava-os com o calor, amadureci no sol. comendo jaboticabas disputadas com o bem-te-vi que as sugava até secarem, e vendo entre as ramagens as luzes tornando as folhas quase brancas, quando não ainda mais verdes. 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

febre fria

meia madrugada e eu nos lençóis muito brancos, toda molhada de suor, os sinos da face entupidos e doendo, minha cara enterrada no chão de um cemitério na terra úmida da noite. todo meu corpo vivo, mas o meu rosto já não tem pele, é só a caveira do meu esqueleto,  de face enterrada na terra. e por cima dos ossos duros, como é grande ter um maxilar que lateja, não sou um monstro, só só os meus ossos apodrecendo, mas há vida que renasce onde cresce o musgo. ele é quem formiga, é dele a plantação. tive meu rosto enterrado no chão, meia madrugada, com o musgo. o frio do musgo. a proliferação do musgo. o sufocamento de ter musgos nas vias respiratórias. 
e embora eu soubesse o delírio 
(aquele que tantas vezes procuro), 
quando a morte é certa como é sempre, 
que medo terrífico. 
consegui finalmente me levantar e fui tomar banho, cinco da manhã, 6 graus na primavera, 20 minutos debaixo de água, algo assim. lembro que cantei e senti falta dos meus pais. puro desamparo, certeza da morte. a água foi amansando. vim pra sala e só quando amanheceu é que voltei pro quarto, acalmada, fora da cova. dormi finalmente.

sábado, 27 de abril de 2013


quarta-feira, 24 de abril de 2013

really want to see you lord




quero passar o dia
sozinha, na companhia
dessa dor de cabeça
por conta de algo estragado
que comi ontem
outros diriam podre
penso eu
quanto hoje
basta pra que ontem
seja o mais fundamental
quero passar o dia
com essa dor na canela
que tive cãibra
enquanto dormia
já era hoje
não, não é repetição
é só o que vinga
solta a roda vira
vou me doar
ao animal do estômago
e, quem sabe?
dar aos músculos
um cacho de bananas.

terça-feira, 23 de abril de 2013

também sou da sua companhia

não estou entendendo quase nada, e nem tenho feito esforço pra isso, nem pelo contrário. não estou entendendo nada e é como se eu aceitasse a lucidez de uma jaboticaba, aquela seiva que explode inesperada, como quem tem a primavera nos dentes, nos bolsos, nos extremos de extrema sensibilidade. abrir a palma da mão na terra que já secou, e é ainda aquela que explode mês a mês, ruiva e carnívora. pouca inteligência não. inteligência é pouco, isto se chama ritmo. e fé.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O amor gasta

nesta ante-véspera, possivelmente o primeiro dia da primavera, soltei um grito e tanto que virei uma andorinha. ou muitas. o poema número X fala do amor, e eu o escrevi para o meu

terça-feira, 9 de abril de 2013

véspera I

inicio este blogue pensando se terei que criar outro quando isto terminar. olho no relógio e é exatamente 00:00. de quarta-feira, 10 de abril de 2013. e vim aqui escrever para dizer que o descontrole é que atravessa 60 segundos até às 00:01. não é o desespero. é a regra de medir a medida. a cada dia que saturno se aproxima o descontrole pra mim é medir a medida. 

na verdade, amanhã (que é hoje) é o dia que chega o livro que passei três anos trabalhando nele, falando dele aqui. foi por isso que vim escrever alguma coisa. não é bem um relato isso, é uma transmissão de tensão. a carolina sonhou que as capas chegavam corrigidas pela gráfica, que assim tinham estragado tudo. e depois eu tive meu telemóvel roubado, mas ele estava dentro do bolso do meu casaco de couro vermelho que comprei na c&a de paris e está escrito cindy crawford na etiqueta dentro dele.

tudo isso me faz retornar ao livro. que não é o primeiro nem o último livro do mundo (nem o meu). passei algum tempo pensando que meu segundo livro teria a capa branca, e não é que ele quase-tem? e eu não calculei isso, era o papel que a gráfica tinha. também sabia que iria publicar meu segundo livro em Portugal, mas não imaginava que a situação econômica, emocional e política desse país fosse estar em um momento tão calamitoso como está. 

muita gente já viveu esse momento, de esperar pelo próprio livro no dia seguinte. não me lembro de como foi que esperei o "cantos de estima", nem onde eu estava quando ele chegou. acho que meu pai foi pegar na gráfica em Moema, que eu estava montando a exposição dos 12 exemplares. e ah! eu tenho medo de dirigir. e mais dificuldade em digerir alimentos do que remorsos. ou não, depende.

sei que naquele tempo eu já gostava de escrever assim, de ímpeto. e que o treino vai criando ritmo ao ímpeto. é como voltar e encontrar a casa aberta cheia de velas acesas velando só a noite do coração quente. isso como se existisse uma lareira em toda casa em que eu viver. a sorte da minha editora ser minha melhor amiga. e vice-versa. 

entre o primeiro poema que escrevi para este novo livro e a invenção de seu título passaram seis meses. mas foi o contrário: primeiro eu tive o título: "poemas do destino do mar". lembro que eu ainda vivia na travessa de santa quitéria, onde hoje mora a érica, e na valentine vermelha mais vermelha do que a bandeira chinesa, e num papel de seda branco escrevi um poema que falava da limpeza, dos restos, do estômago. era um poema que não valia nada. n a d a. mas na última linha dele escrevi em caixa-alta POEMAS DO DESTINO DO MAR. 

então percebi que ali o futuro havia falado por mim no papel. no papel dele mesmo, futuro, estrelando o sempre presente. e peguei o rabo do cometa, pensei: é o título do meu livro. então se passaram meses que foram a morte da minha chegada, quer dizer, foram a morte dos motivos pelos quais eu sonhava em vir pra cá: a mesma língua em estrangeira, uma paixão motriz e galopante e distante, recuar são paulo, a família, a exorbitante convivência entre os entes. e tive que ir morrendo aos poucos até ser o dia de escrever o poema I, que como me prometi desde aquele momento: que eu nunca o reproduziria em qualquer outro sítio que não fosse o primeiro poema dos "poemas do destino do mar". então, se tá afim, so sorry, arranja um livro dos que chega amanhã e lê.

mas ei ei ei isso faz muito tempo! foi como se uma retroescavadeira abrisse um canyon de células no meu corpo. está tudo tão diferente que eu só posso dizer: que terminei o livro, que o livro chega amanhã, que sábado é o lançamento, e que meus pais vão estar presentes, e que tenho muita gratidão a eles, aos meus amigos, aos meus bichos, às plantas,... espero também ter a cada dia mais dedicação também. não só ao meu trabalho (que é uma forma íntima de me dedicar aos outros), mas a eles mesmo. sou tão bruta. nem sei porque estou falando disso, já que a ideia era escrever sobre o livro e até mesmo AH ATÉ MESMO pensar em falar mal dos currículos eu já pensei.

tipo eu quero que se foda. o que eu quero é o amor. 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

let's play that

firmando ponto final e abrindo parágrafo vem o vídeo de Daniel Ribão, lá na tipografia d'O Homem do Saco, onde o Luís Henriques compôs e imprimiu as 590 capas de "alforria blues ou Poemas do Destino do Mar", que sábado em Lisboa é lançado pelas Edições Chão da Feira.

domingo, 7 de abril de 2013

Saber das coisas não sei

e da flor nasceu maria archer arco e rama, abre o raio e reparte o fruto, diz o poema XVIII dos poemas do destino do mar,

terça-feira, 2 de abril de 2013

substância

diferença rigorosa dos níveis. pedi pra que ele abrisse as pálpebras o suficiente. suficiente para ver a morte. ele me respondeu que não existem pálpebras suficientes. e dobrou os olhos como uma folha de papel, vincando. os cílios quase juntos da testa.

abri cirurgicamente a cabeça dele. perguntei se as descargas elétricas tinham substância de ressuscitação. ele disse: "sim, está bem, agora sim é o suficiente". e vimos, juntos, um clarão. mas eu não tinha apertado os botões. 

e o canavial se abriu em dois.
e deram açúcar para os deuses.
e nós nunca mais tivemos cáries.
e a cruz caiu no chão.
e ficaram todos livres.
e as rodas rodaram rodando como rodavam
já. e tudo seguiu mundo. 

Sou apenas um cavalo

cátia sá pereira, rugido da enseada, ou as madressilvas que nascem por ali,
leu a assumição do cavalo, o poema VII

 
sou apenas um cavalo from C. Sá on Vimeo.

domingo, 31 de março de 2013

nuvens impermanentes

além da ilusão do seu ser pessoal
estou numa daquelas fases que é mais fácil citar, do que dizer
(e há pessoas que vivem em fases assim com imensa tranquilidade)
também eu não ando impaciente, embora vez ou outra meu ouvido direito fique entupido
porque meu tímpano é como uma raquete de tênis, o fulgor da bola na caçapa da rede, sem fenda para grandes objetos
porém o vento é como a areia peneirada, o vento faz sulcos nas folhas do meu dentro
e como a seiva do que há, meu muco que agora eu respeito, minhas vias respiratórias são um termômetro do redor, e não pereço verde 

sobretudo descobri que sou um armário do meu avô, carrego as plantas e não deixo ninguém tocar. quem quiser trazer o mal que fale com ele. sobretudo fui instruída a desviar os olhares dos negativos, estou prenhe de purezas; que este resto, esta permeabilidade, é um acaso que não se cura, mas que o meu acesso é o paliativo, ou ser a fibra do trigo pelo alto junho queimada,

há tão poucas chances de inventar um mundo. e eu fundo!

eu, no fundo, encontrei o permeável permanente: e de estar sempre mergulhada já não temo. faço dos corais meu amuleto, e ponho os amuletos (todos para conversar com meus ancestrais) no sal grosso, no meio das bebidas. que ofereço pro santo,

um gole, trisca o vento, meu amor. que a rigidez não perfaça o dom. N U N C A.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Olhos que em terra firme pousaram

susana chiocca norteia o mar, lendo os resquícios da paisagem no último poema do livro

 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Então olhei pro mar e disse

e a érica zíngano leu como se lê
no semi-silêncio que é ler um poema
silêncio de vulcão




terça-feira, 19 de março de 2013

Ver até passar

eis bernardo! meu melhor amigo
lendo o poema V do meu novo livro
que logo logo se publica

sexta-feira, 15 de março de 2013

um, dois, quatro e descendo

estive pensando nos submarinos
a noite toda
eles são capazes de respirar?
ou eles são capazes de armazenar
respiração que não falte?

de todo modo, importante
aprender com eles
de uma vez por todas
que afundo sempre

mas que tendência ô
de bater com o casco
no fundo. e ficar.
a rainha do coral.

"os peixes e os hóspedes fedem depois de três dias"
já dizia um provérbio latino
e eu que sou d'outro
tempo e lado e verbo

com os radares ligados
nadadeiras, flutuações
a areia migrando no fundo
no fundo

faróis não me faltem
nem o fogo interior
pra ir na janelinha, fumando.

quem sabe um dia ver o céu.
ver a lua. agora os aquáticos
dedos, de pele enrugada.

quarta-feira, 13 de março de 2013

passo a manhã calculando a provável altura de um tsunami

primeiro vídeo da pequena série dos que tenho pedido
pras algumas das gentes do território, a leitura
aqui o luca argel lê o poema de número IX dos "poemas do destino do mar".

quinta-feira, 7 de março de 2013

mantém sempre teso o arco da promessa

mantém sempre teso o arco da promessa

segunda-feira, 4 de março de 2013

pelos jaguares sei

queria dizer é que é importante seguir em frente quando o mato nos chama sem sabermos bem dizer claríssimo uníssono em frente: hoje não estou para ninguém.
mas quando uma voz te chama clara e esta voz quer te fazer dizer que sim
lembre-se somente que és também o príncipe da noite
e que as moitas servem bem para os afoitos
para os precipícios
e todos aqueles que precisam se camuflar
nos caminhos.

nas veias & canais submarinos

não sei porque é tão simples falar bem de uns e mal de outros.
nem porque um exemplar desta espécie de canto não se cansa
de ter um corpo que mais é um delivery de catarro
e a displicência é o meu louvor.

na frente da casa onde terminei meu livro há um pé de louros.
à sombra de uma azinheira
penso eu que há um povo
uma pessoa que me espera
para cantar e ter um filho só pra colocar pelúcia de foca
aos pés dele sou capaz de despelar um salmão
e aprender quem é que me faz seguir em frente
e as coisas que me interpelam responder sem prender
sem prender o estômago e a imperatriz do tarot
quis me dizer que eu sou a própria seiva da minha descoberta

ontem alguém falava em transformação outro alguém falou em treino
sei que meus ouvidos estão faz tempo nos lugares certos
e que o telefone vai tocar mais vezes mais vezes mais vezes
mais vezes eu vezes tu vezes boca

domingo, 3 de março de 2013

à tua cidade

hoje foi tanto cheiro de gás
nas horas que saímos para o aniversário
da minha avó que lutávamos
pelo telefone e pelas janelas abertas

à brigada de salvação
aos fechadores de gás
meus agradecimentos sinceros

se explodisse o raio de pinheiros
tanta caca ia voar
que meu sobrinho
ia gostar
e rir

ia rir com ele como quem nasce
de novo.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

you know you should be glad

de tantos hiatos grandes nunca houve um tamanho como esse e vim postar essa postagem e vi que ela será a de número 800 deste blogue. não ando ausente. no entanto. escrever tem sido raro, mas é a primeira vez que não me dificulto isso, e não estou afixiada nem triste. estou substituindo as peças, trocando óleo. viajando pelo brasil. talvez seja a última vez que eu viajo em são paulo. será? antes eu considerava as mudanças como irreversíveis, agora elas também só me parecem um estágio. o pedro sempre dizia que eu dividia tudo em fases. mas é que é como a mudança da era glacial para o aquecimento global, os turnos e returnos de uma vida. ou não. o gustavo diz que eu sou exagerada. mas hoje também eu prometi pra ele que vamos fazer o melhor dos mundos. é bom telefonar pra alguém pra quem você tem toda a gasolina que te falta pra escrever. e tenho lido a llansol antes de dormir. e tenho evitado dormir. ontem só consegui dormir quando a li dizer que um Prunus Triloba estava exercitando seu caminho textual. então a minha insônia, saudade de arbustos, se desfez. dormi até sentir tanta falta de ti que foi preciso acordar. agora o texto já está suficientemente grande e rebarbativo para que eu escreva qualquer coisa aqui no meio, coisa que garantida, vai ficar incólume. fiquei preocupada com a tua voz no telefone. acredita em mim. eu também não sei de nada e a tudo tenho respondido "depende".   espero continuar suficientemente reconhecida em mim para não me abstrair do sim. e lembrar que eu não posso com essa cidade, menos vezes, lembrar mais vezes que é muito difícil. não prometer navios, fazê-los. ter todas as técnicas e todas as dispersões e misturá-las até encontrar eu e o poema e uma ligação com um cão. no mais, é daqui menos de dois meses que tenho um novo livro pra mostrar.

sábado, 9 de fevereiro de 2013


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

e sim coberta de nuvens

sinto entre os pés,
por baixo deles,
ou nos olhos da minha pele
quando troco ou presto atenção devida
que é
um continente antigo
o outro cansado.

o sol me guia

o cotovelo coça
atrás da perna também
três pingos caem de três em três mais três e de vez em quando um cacau bate com tudo caído no teto.
minha sobrinha colhe idéias com as mãos no ar, leva-as até a boca e mastiga
repete meu nome sem parar. ela vai parar primeiro no colo dele do que no meu, e depois comemos mangas colhidas no fundo do terreno que chega na praia. ele fica com a barba toda babada e amarela e todo rindo e todo lindo. a volúpia do que não desaparece. esse prazer.
o pleno é o mais raro de tudo, e o pleno, e a menininha na beira da água levanta o bracinho e diz AAAAAAI BAHIIIIA e ri. e ri. 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

os ombros estremecem-me com a inesperada onda


Elegia múltipla 

VII

Os ombros estremecem-me com a inesperada onda dos meus
vinte e nove anos. Devo despedir-me de ti,
amanhã morrerei.
Talvez eu comece a morrer na tua mão direita,
alterosa e quente na minha mão
sufocada. Aqui mesmo na europa
começa a vagarosa iluminação das giestas. É a minha vida
percorrida por um álcool penetrante, é a imediata
atenção ao misterioso trabalho da idade.

Vinte e nove anos agora, na europa, sobre os canais
sombrios da carne, sobre um vasto segredo.
Será apenas isso, um ponto móvel
de eternidade, isto – a sufocação veloz e profunda
da vida inteira na minha garganta? E depois
o acender das luzes, bruxelas como uma câmara
de archotes e ao alto as ameias
enevoadas dos astros? Devo olhar com uma grande
memória aquilo que acaba na violência triste
do poema.

Estamos nos quartos, há flores nas mesas. De babilónia
partem rios. Por detrás das cortinas,
despeço-me. Amanhã vou morrer. Tenho
vinte e nove bocas urdindo
a falsa doçura da confusão. Os países constroem
a torre sombria do amor. Dá-me a tua mão
pensativa e antiga, deixa que se queime ainda um instante
a loucura masculina
da minha vida. Pensa um pouco na beleza
ignota das coisas: peixes, flores, o sono terrível
das pessoas ou o seu respirar
que arde e brilha e se apaga à superfície
das lágrimas ocultas. Pensa um pouco no sorriso
rapidíssimo
que jamais desaparece do silêncio, na candeia
que cobre com agulhas de ouro os escombros
dos lírios. E por cima de tudo estende
a tua pequena mão eterna. Cai
tu própria na treva quente da minha
cega mão masculina de vinte
e nove
anos. Tenho vinte e nove anos ou uma onda
inesperada que me estremece a carne ou a minha garganta
cheia de sangue actual – amanhã morrerei.

Vi um dia alguém tomar nas mãos, entre faúlhas
velozes, pedras que pareciam
imortais. Eram casas que se levantavam
sobre o meu coração. Vi que tomavam
animais feridos, flores imaturas, objectos
breves, imagens instantâneas e perdidas. Faziam
alguma coisa eterna. Era gente
de vinte e nove anos que se despedia dolorosa
pormenorizada
violentamente de uma parte de sua carne, a parte
mais iluminada de sua
carne de vinte e nove anos. Amanhã
morrerei.


Herberto Helder, de "A colher na boca".

sábado, 5 de janeiro de 2013

onda feita pro teu pé

mas este apreço
pelo peso não combina exatamente comigo. então fico duas vezes sem combinar
a primeira se estabelece na diferença; a segunda na constatação da diferença. estou longe demais para as cartas que me tentam alcançar.

normalmente nesse momento de empecilho e destroço eu me derreto até ficar só a casquinha.
mas o gosto de framboesa é o gosto de deus.

no cde meu cazuza no pdddm meu variações. USA UMA LUZ COM QUE ILUMINA
                                               A TRAVESSA DAS ALMAS MANCAS

eu sou da deriva, meu bem. isso ainda é muito útil.

         tenho escrito e sonhado com lugares, com coisas que falam de lugares. tenho que me desabitar mais vezes. me tornar a lua, como se dois copos de poeira dois copos de dust misturados com água morna resultassem numa lua plena, plenilúnio. mas a grávida está cortando cebolas, a fase é minguante. cantam os grilos que não cantam. e as seivas correm para baixo.

eu tenho que ser como o dom que guia pela rédea do cavalo em direção ao pasto. viver o dom sem dono o dom do som. mas nem nada. eu levei o pasto para o abismo do pântano e agora tenho que pentear os capins com água fresca desembaraçante.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

o fantasma ergue a saia

sou aquilo que se pode chamar de pessoa estimulada.
só que o que está rolando agora é que eu ando farta de estimular. que viagem. com isso não tenho muitos impulsos a seguir.
sinto que não estou à altura de mim mesma, e o que estava à altura de mim mesma tem que cair pro lugar onde estou.

domingo, 30 de dezembro de 2012

ano 13

e o destino guiando a carroça de tudo pela estrada de nada
palavra que não é minha

amarás um homem cujo nome começa com o alfabeto
depois virá outro homem também com dentes
caminhando com calcanhares de engenhosos tendões
e quando mastiga batata palha faz crec-crec

muito depois foi me dada uma constelação
ela tinha o teu nome. o teu nome escrito entre as pedras
a rodar e a rodar e a rodar

e eu a dormir e a engordar
é inverno, pá

de cal nos cílios pra estancar
lá no sertão quem tem tanta água é rio longínquo

então escrever voltou a escrever
aquela escavação.

vou contar para vocês que eu tenho considerado que o herberto helder tem uma obra excessivamente irregular. VOU CONTAR QUE EU FALEI COM DEUS.

ele era um grilo que eu tirei do bolso e depois comi. 

amo vocês.

domingo, 23 de dezembro de 2012

semente

o inverno chegou. dá pra sentir no peso dos pés na terra.
a cidade tão úmida que os pinheiros parecem aspargos.
mastigo entre os cordeiros, e os espinhos das silvas
me cobrem de riscos na pele.
soube que as noites começam a ficar mais curtas
onde ela habita. ela é uma coruja,
tem pescoço para todos os lados. a giratória
abre as asas, separa o escuro
com olhos de manhã, tem sede.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

sábado


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

hoje


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

muito se usa a imagem da encruzilhada, ou da forquilha como aquele lugar que abre a possibilidade, ou o encontro a disrupção, mudança, travessia mas considerando que diariamente tudo é desvio muitas vezes sei que estou passando pelo arame farpado o delicado respiro do atalho

sábado, 1 de dezembro de 2012

o peito cheio de estrelas

com a lua ainda alta saio pela cidade mágica onde o inverno chega antes do que eu chego na estação GREVE dos comboios o caixa eletrônico sem notas vou até outro e volto com dinheiro suficiente sento com intenção no banco de granito será que consigo não esfriar os fundilhos? sento em cima do guarda-chuva o dia amanhecendo pelo leste em frente uma placa VENDE as casas ao lado desabando a ruína de cada dia passam dois autocarros FORA DE SERVIÇO tiro do bolso a maçã que roubei fresca como toda primeira refeição do homem até que aparece um taxi e me leva até amadora. conversamos quinze quilômetros e ele era um otimista.
 

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