segunda-feira, 8 de junho de 2015

inquietação é desvio

o que realmente me assusta nos dias de hoje é sabermos/pensarmos que embora os milhões de milhões de galáxias que já estão m a p e a d a s por aí o universo não é infinito. o universo tem um limite, tem um lugar que o universo: ACABA. não bastasse perder muito a graça das crianças que não podem mais dizer (sem mentir) a beleza de multiplicar infinito vezes infinito, afinal o universo não só tem limite como ele é curvo. o universo acaba em uma curva!

f o l h e a r

ontem saiu isso aqui, são poemas do meu livro inédito que já existe-e-ainda-não.

domingo, 7 de junho de 2015

como isso?

nos sonhos e nos sons tesoura e tijolo não existem, mas lá estão.
como pode o universo ser finito?
fingir que não ligo,
eu não? grito.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

VERGAR

estava na avenida paulista quando mordi um crepe
olhei para o céu e vendo a lua me emocionei
não pelo satélite velho e cheio, antiquíssimo
muito mais estruturado do que meus ossos.
no entanto, que felicidade! mordi com a mandíbula
os dois lados funcionando por igual
foi como se Urano começasse a orbitar mais pra baixo
e acertasse, assim, a testa de quem não sabe vergar.

domingo, 31 de maio de 2015

ontem minha sobrinha de 4 anos de idade me contou uma história que era para eu repetir, de imediato pra ela, mas não só, pois ela me disse "depois você conta pras suas amigas", eu prometi e aqui vai:

a princesa acordou de manhã e foi comer morangos, precisava atravessar o caminho, daí o caminho era escuro e ela tropeçou numa pedra e caiu de cara no chão. com a cara no chão veio uma minhoca e comeu o olho da princesa, que sem olho não percebeu a aproximação do lobo. então a princesa teve que sair correndo e ao ver a porta de casa gritou: "mamãe mamãe vem me salvar!!", a mãe abriu a porta e o lobo comeu a mãe da princesa, que assim ficou sem a mamãe.

FIM
hoje faz dez anos que minha avó se foi. percebi que não tenho nenhuma foto dela, o que, claro vai ter de ser conquistado. lembro que íamos visitá-la no interior de SP e a força que ela tinha me impressionava. soube por outros que ela dançava com aqueles saltos altos, dançava em salões, em gafieiras, dançava com paixão.

quando eu era bem pequena, lembro de estar no sofá com ela, que me cantava uma canção, até que ela parou e bem densamente me contou que um irmão, por cobiça, tinha destelhado a casa em que ela vivia com a mãe e as irmãs. todas tinham ficado noite e dia, sol e chuva, a viver sem telhado, durante um ano. aquilo me impressionou muitíssimo, pela crueldade e fatalidade. no carro, voltando pra SP, contei pro meu pai o que ela tinha me contado e ele respondeu "o nome disso, Júlia, o nome disso é Nonna Itália".


dia desses eu estava no metrô com o Marcos e o Luiz quando vi um casal abraçado, os dois já idosos. ela muito branca e mais velha do que ele, um homem com um rosto de índio mulato. foi aí que me lembrei do seu Jorge, o namorado da minha vó, que sempre estava lá quando íamos visitá-la. eles assistiam o programa do Raul Gil na televisão e ele era muito amoroso comigo, quase não falava, tinha enorme paciência, mãos de violeiro, que pousava na minha cabeça cheio de afeto. minha vó mandava nele o tempo todo, até que um dia o mandou embora.

me lembro que o banheiro tinha azulejos azuis e que o quarto dela parecia ter mil anos. às vezes me lembro do retrato de um homem na sala daquela casa, numa praça de alguma cidade, com um monte de pombos voando ao redor dele e eu olhava o retrato e pensava "como alguém pode ser tão sério e tão alegre ao mesmo tempo?". aquele retrato era pra mim um enigma. um dia perguntei "vó? quem é no retrato?", "como quem é? é o seu avô." foi aí que percebi que aquele homem era muito parecido com o meu pai.

a casa dela tinha também uma grande tapeçaria com um tapete onde havia uma esfinge. muito do que ela era para mim representava aquele tapete, uma esfinge insondável. o quarto dela não tinha mil anos porque parecesse velho, são coisas diferentes. quando me lembro de como ela me abraçava, sinto que tenho o mesmo esqueleto que ela tinha, a mesma formação entre os músculos.

a minha avó certamente nunca estudou música e tinha ouvido absoluto, qualquer melodia que se cantasse para ela, imediatamente ela reproduzia no violão ou no piano. como eu gostaria de ter herdado esse dom!

infelizmente também não tenho um dos seus sobrenomes, o Brancaglione, que ela se desfez quando se casou com meu avô. embora eu a tenha conhecido, sinto que foi pouco perto do que poderia ter sido. mas a vida inteira que poderia ter sido e que não foi, são uns versos de um poeta muito querido, mas que também não está mais entre nós.
insight \'ɪnsajt\ [Língua: Inglês, lit. 'visão interna']

substantivo masculino
1 clareza súbita na mente, no intelecto de um indivíduo; iluminação, estalo, luz
2 psic compreensão ou solução de um problema pela súbita captação mental dos elementos e relações adequados; estalo
3 psic nova reação que aparece subitamente, não baseada em experiências anteriores, segundo as teorias da Gestalt
4 psic capacidade demonstrada por um paciente, em maior ou menor grau, de reconhecer as deformações que seus pensamentos e sentimentos introduzem na realidade
    ‹ um i. claro e distinto ›
5 psiq capacidade de avaliar de modo objetivo o próprio comportamento; autoconhecimento
6 rel revelação mística
Etimologia

ing. insight (sXIII) 'a faculdade ou ato de ver dentro de uma situação; o ato ou resultado de perceber a natureza interior das coisas ou de ver intuitivamente'

sábado, 30 de maio de 2015

essa semana eu estava indo embora da casa da minha vó, ela me disse
— a porta do céu é muito estreita
— como você sabe?
— ué, se não não faz sentido ter uma vida bondosa na terra...
— mas o que é uma vida bondosa?
— é não alimentar nem raivas, nem remorsos.
Nenhuma visão
me ensinou a ler
as próprias mãos.

Tornei o mar meu espelho
disse o sol
para explicar a minha vida.

A luz era tanta
vinha vindo branca
splash! fez. E arrebentou.
Cada vez mais gosto de palavras velhas
gosto de respeito gosto de cerne e de paraíso de cebola
e de viagem, gosto de cidade, detesto paisagem
não gosto de víbora, mas tenho o que aprender.
Não tenho ido ao cinema, mas amigos me visitam
e a gata quando se entendia pede pra entrar no armário.
Já eu volto a escrever qualquer coisa pra comemorar
o próximo, o distante; o crescente e o minguante
e sobretudo a palavra que adoro: palavra.
Tão válida e nunca virgem, pura, não casta
entre tudo sendo, o entre sendo isso: nós.
Taí, uma palavra que não esqueço.
A primeira vez que escrevi a palavra “muito”
foi meu irmão que me ensinou
eu não acreditei. Tinha certeza de que era mentira.
Faltava um som, um som fundamental. Mas acabei
acabei acreditando.
Faz parte ter de acreditar.
Agora quando escrevo “muito” percebo que a letra está mudando.
Eu não tinha esse “t”
assim
tão pouco tenso.
Não atraso a hora das plantas
deixo as ramagens invadirem os portões.
Agora vivo acendendo incenso
pra qualquer córrego vagabundo
se chamar deus
eu peço um pouco de atenção
quando alguém está comendo eu tiro o talher
da mão enfio na testa.
Tem muito “t” nessa língua
não dá pra viver sem eles.
Eu tinha um “t” que me estruturava
me ajudava tanto aquele “T”
agora tenho três “t” diferentes
conforme cada encontro de letra.
Ainda vão dizer que me rebusquei
só por conta do “t” trifurcado
foi que eu me perdi.






Ponho-me a pensar o que seria
da palavra ninho
se falássemos outra língua
—falsearíamos outras hipóteses
na lista do supermercado —
e não tivéssemos casa
para nos abrigar deste vento do agora
como se fosse chover
ou os passos sintonizados de alguém
trouxessem a chuva
como um primitivo saber
acendia o fogo. Nestes dias
em que esperamos que chova
mas quando amanhece chovendo
nos esquecemos do quanto esperávamos
— vazio de quanto vivíamos —
quando há chuva nos pomos melancólicos
— nos pomos melancólicos de deus
não há estudo nem pormenores
aglutina-se por dentro a saliva
vigiam por fora estátuas / correm cavalos —
a meditar num saxofone
gravíssimo
como um compositor
que, tocado pela súbita neblina,
com os ombros um pouco tensos
— é tanta coisa a sentir-se viva
pelo mundo — ergue! os braços
alcança os galhos e salva da ventania:
um ninho. Antes que se molhe
antes que nunca mais chova:
pega pela mão a fibra
do abrigo tece o som
tece o meu e o teu.
O compositor quem é?
Nos abrigamos onde não há perguntas.
Sabemos o que é um ninho
quando ouvimos e dizemos: ninho.
Somos capazes de chorar.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Perdi meu amuleto, depois achei.
O âmbar do mar báltico me espera
na outra ponta de Lisboa.
Embora a morte de ilustres
a cada dia mais cotidiana
não é só a cidade
afogueada de vermelho
veja bem,
veja meus olhos,
tantas coisas a fazer
nesses dias de fuga
a melhor delas é que percebas isto
mas eu teria que ter garganta.
Grafite, que era pouco, nunca usei.
Gasta-se como o tempo
nas solas dos sapatos
nas calçadas brancas.
Embora haja o aprendido
de carregar minhas coisas
limpar os ambientes
tomar chuva sem chapéu
e falar duas línguas
numa mesma língua
numa mesma língua
ainda não sei se "grafite" é masculino ou feminino.
São tantas as nuances do desejo.
Quando chega o fim
é assim a gente se confunde
sempre pensa ligeiro e lento
onde estará o alicate?
Que tenho de levar
para arrebentar o elo
que desaprendeu a amar
depois de ser do sol
onde criava caminhos
agora vê só a marcha lenta
o nevoeiro dessa terra
onde as folhas ainda caem
sustenidas pela minha saliva.
É a mesma salina memória que vem do rio
e que tantos ouvidos furou até que cantassem
a mesma salina memória que vem do rio
e que depois de parecer brisa
revela-se entranha
e pesa
nas ancas
tanto quanto gruda
os calhaus na orla.
Caiu a noite
lenta
a cidade
se dissipou?
Não sei.
Sei que choveu no adeus.

Virada não é jangada, não naufraga o que é evidente
que as luzes o iluminismo, oh o iluminismo? Está em colapso
é evidente que o colapso é evidente
                                        é tão evidente quanto
                                        se um meteoro caísse agora
na tua cabeça. Na tua cabeça
aberta eu estarei
de braços abertos
para o caos.                     E desidratada, com as vias secas
                                        a tossir


SERÁ O IMPÉRIO DA TOSSE

Antibióticos em cápsulas
abortos com um fio de arame
nenhuma tática será suficiente
para conter a era
em que o novo não acabou.
Geologia será pouca para contar quantas camadas
de destruição, metal forjado em aço
locomotivas e foguetes
e a sonda que anda em Marte e todo dia envia novos registros
e Marte é árido e Marte é seco e Marte é bruto e Marte não é a guerra
podemos ver que Marte não é a Terra
sem nunca irmos lá.

O mesmo não se pode dizer do amor
meu filho, quando o amor te acontecer
suspira e beija, beija e suspira
na mesma quantidade que amor houver.
Te aproxima. Ouve esta respiração?

É ela é ela é tua é tua
a respiração em ato
neste poema
pisando este chão.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

minibio

Desenvolve uma pesquisa sobre o Cosmos em Viagem: herbanárias e diretrizes dos humildes — iluminações & meios visionários. É amigas de cães & gatos; costura botão, mas não sabe fazer bainha. Não come carne de porco e praticamente nunca mente (porque já mentiu demais). Às vezes tem que se lembrar de dizer sim, mas nunca se esquece de agradecer. Constrói diariamente, há anos, uma rede pra fisgar o invisível e já está.

terça-feira, 26 de maio de 2015

não sei se a intenção era a de um usurpador, mas sua presença não me dava confiança. a vontade de proteção me fez deitar no chão, como faria um animal, e o chão era coberto de violetas e as violetas me protegiam. embora não tenha avançado, ele também não retrocedeu. senti mais medo e pedi: "ajuda!", assim vieram lobos ao meu redor, e ele se foi.

11 anos de idade

a cura palavra tão rara e utilizada solta por aí nesses contextos espirituais de pessoas que procuram a salvação. cura palavra cara preciosa e séria, digo, deixemos a cura, daremos a cura para quem necessita mesmo dela. de fato, respeito a saúde, que ela se faça na luta cotidiana de cada corpo pelo bem estar, emocional, psíquico e físico, que a vida vença a cada dia a morte e que a morte seja só o que ela é: uma só. a vida? é múltipla. mas há muitas maneiras de morrer. como um cometa, o abandono, a entrega, ou a dignidade da escolha. dignidade é uma palavra bonita, 

a beleza cifra as portas de entrada 
inebria simulando 

vi num rapaz um tanto servil, num rapaz um pouco perdido na sua função, vi a sua capacidade de audácia, liberto ele será pois já é. 

a boca que se abre e profere palavras vazias 
má fortuna
balbuciar 
não seja a minha.

vi uma caverna 
a importância de ser ninguém 
de não fazer inimigos a essa altura dos acontecimentos 
(talvez em nenhuma)
o mal há quilômetros farejo 
vem em pacto prepotência de leão orgulhoso arrogância 
meu coração é da canela exalo por osso e poros um breu de canela meu suor cheira a canela 
saí para ver a noite cheirar manjericão 
aguardar o dote de tudo
torcer pelo eterno retorno do mútuo 
cavalgar esta insatisfação 
ter pálpebras nos ouvidos 
ouvir o vento de brisa, o agudo não 
meu fatal lado direito

e seguir 
o mesmo que vi ao atravessar a rua 
meu caminho entre arbustos 
em frente iluminado 
pela seta de luz da minha testa 
é aberto e é fechado
meu caminho é um só 

o mundo é dos audaciosos 
e não, não é por fama, glória 
é só pela circulação 
pulmonar intravenosa 
cúspide & inteiro
coração.

meu alvo. 

sábado, 23 de maio de 2015

Da palavra sair
habitar outros mundos
a espinha dorsal do peixe
lamber até limar os dígitos.
Dar os tímpanos
ao vibrar dos grilos
reconhecer a chegada do trovão
no deslocar do sangue
e ao anteceder terremotos
subir! No alto da árvore
e cair com o rabo
enovelando um galho
se dependurar na abobada celeste
soprar o rumo dos pólos
e das marés que vem dos pólos.
Não conhecer despedida
viagem ou remorso,
código, símbolo ou faca.
Nunca alterar a rota do fogo.
Ser seiva, veneno. Ou fruto.

domingo, 17 de maio de 2015

sopraram na véspera da lua nova um pedido.
os sonhos nascem da memória que temos.
alguns, entre os mortos, diziam: existe a memória do futuro.
*

algumas coisas se projetam — outras se catapultam 
*

preguei um mapa da situação fundiária indígena deste país na parede. quem me deu foi o poeta que admiro. eu já tinha tentado colar com materiais diversos. o vento sempre o derrubava. hoje: 4 pregos. o quarto entortou e eu achei bonito o entortamento, gosto de ver o acaso entortar as coisas que faço com tanta delicadeza. minha intenção sempre mais forte do que a minúcia. meu amigo também vai gostar de ver quando vier aqui. espero que o veja naquela determinada estação do ano — me esqueci qual é — em que a situação fundiária indígena toma o solzinho morno do fim da tarde.
*

no mais que famoso extrapeso emocional que, vez por outra, me invade
corpo & espírito
de chumbo
estanque até o degelo.
*

um sacerdote trouxe determinada fúria de fogo, e o fogo ardeu o topo
e abriu-se um iceberg em dois.

um portal, certamente foi.
com ele se via alto o céu e a forma mais nutrida de terra: o continente.
imaginado, o continente não foi visto.
o céu era tranquilo, azul, iluminado: diria-se que: perfeito.
as labaredas também.

no entanto, os icebergs não derreteram.
havia entendido que a separação que abriu o fogo neles significava abertura.
a diferença entre erro e equívoco reside em cada sutileza.
me foi importante acreditar, não foi um erro.
agora vejo que os dois icebergs, não sendo mais um, diminuíram de tamanho, mas não desapareceram.
que as labaredas os entreguem aos céus e ao mar, que invadam em degelo a terra
e a umidade do meu gelo possa comover alguém.

*

tempos em que se confunde pessimismo com verdade, e aqueles que se carregam de verdade estão pessimamente tristes. tempos em que os pessimistas portam a verdade de se considerarem os mais lúcidos, tão lúcidos que tombaram nas costas da lucidez: tão perto da luz, só enxergam escuridão. entre os que riem, tantos ácidos, corrosivos, que chegam a corroer os próprios dentes, balbuciam, perderam a língua, já não sabem falar. alguns, sensíveis de humor e de espírito, foram simplesmente varridos pelas manadas de informação. a maioria não está nem uma coisa nem outra, são os distraídos. já os que estão otimistas também são os mais místicos: são dançarinos, acreditam em analogias, falam por metáforas, trazem códigos antigos lavados & novos entre despojos sujos. alguns adoram objetos mágicos como a poesia, seres como cristais, creem em movimentos como os dos astros. todos entre todos, claro, exageram, se misturam, perdem a cabeça e não ousam o suficiente. entre os taciturnos não estou, mas nutro grandes esperanças. 

caminho

às vezes volto à fase de sonhar recorrentemente com caminhos, estradas, estou sempre a andar ; e já sei: há algo, nesta pessoa, a trocar de lugar. por agora sonho com meus pais, com meus irmãos. e existem esses caminhos a percorrer, eu mesma, sou um caminho a percorrer. esta noite entrei em casas de pessoas desconhecidas, onde havia gatos, eu me escondi num armário, saí por uma janela, subi muitos montes e os desci também, andei milhares de quilômetros numa mesma rua (que era a apinagés) porque tinha que chegar antes da hora que eles iriam e poderiam me dar uma carona, saí num rompante, e afinal me perdi. e afinal não tinha como ir sozinha, tive que voltar, estavam todos no sofá, uma delas com uma cara de que sabia que eu não conseguiria, mesmo. desde o princípio. outra noite eram caminhos de água, rios gigantescos, era o pantanal, mas eram plantações de arroz. um irmão os havia comprado, os caminhos. andávamos dentro da água, minha mãe simulava apreço e eu não me molhava. sei que sonhei com a memória. e ela é sempre. é sempre um futuro.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

dia desses aprendi que no universo não existe uma só linha reta, só nas abstrações. e a gente achando rua, régua, rigidez uma coisa "normal". vou concentrar-me nas curvas e nos múltiplos flexíveis formados por tudo que a gravidade deforma. lembrem-se: a gravidade está puxando tudo, até a ponta de cartilagem das suas orelhas para a terra. se existisse alguém capaz de viver por séculos certamente estaria com os lóbulos na altura dos joelhos e riria toda vez que visse um quadrado.

blue like my pillow

às vezes bem perto
de dormir enquanto leio
qualquer coisa
sinto os ossos da face
também os das mãos
na minha pequenez
imagino longe estão
os outros planetas
e que acaso absurdo
permite acontecer a primavera
um livro uma gruta uma pessoa
lendo antes de dormir
e mesmo dormir!
que inteligência da matéria é o descanso
e que necessário prover.
há mundos feitos de gases
outros são tão longe do sol
nem deve haver luz
se você quer ir para o centro da galáxia
partindo daqui siga em flecha
até Sagitário no céu
dizem que lá há um buraco negro
que condensa ou traga transforma ou anula
tudo que existe
que acaso permite aqui eu sem ser
parede de buraco
rede de meteoros
nem sei.
depois quando fecho o livro
angustiada já a pequenez
o ínfimo na jugular do tempo
pulsante tenho o pensamento
na morte não como um norte
mas indefensável rigor
não uma saída
um não sei que que não sei
e me angustia como a existência
de outros planetas e esse acaso da espécie
não ter nascido macaco nem maçã
ser supernova enquanto metáfora
conhecer garfo metáfora e triângulo
acreditar em linhas retas mesmo sabendo que elas não existem
e estar aqui
com medo de cair do galho
render a ser
adubo
ou mais: os outros serem também
acasos planetários
e eles também vão partir
e antes estarei só
com a cabeça num travesseiro
sem me perguntar por nada
que não tenha o nome de futuro
que não se chame o cotidiano
desbravar do acaso
lume e rumo?
água, por favor.


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Tarde de maio

Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma
nunca antes sem nunca mais aferidas em sua nobreza sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa...
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e e maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência de resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.


——
Drummond, obviamente. do Claro Enigma.
nos dias que acordo e não temos gás em casa sei que será aquela aventura do amanhecer como um tapete enrolado sem café. dessa vez os 45 minutos que disseram que a entrega demoraria se converteram em 3h30. o entregador chegou pedindo

— desculpas moça! hoje tá tudo assim atrasado — enquanto eu pensava que o gás sempre acaba aqui em casa perto das retrogradações de mercúrio — é por conta de um problema na petrobras! estamos praticamente sem gás...
— oi? problema na petrobras?
— é! a sra. deu sorte! se acabasse amanhã ia ficar 15 dias sem gás!!
— é mesmo?


entramos em casa e ele foi logo trocando um botijão, sentado no outro. o Gustavo veio falar com ele, que rapidamente percebeu uma diferença e, enrolando a língua?

— e você? você é de Lisxxxboa?
— sou sim!
— meu irmão vai pra lá! foi comprado pelo Porto.
— pro futebol?
— sim! meu irmão é craque, vai ganhar em euro, até eu vou ficar rico! vamos sair desse buraco!

e ficaram conversando enquanto fui pegar o cartão. quando voltei, o entregador me diz que a máquina ficou no carro, se posso ir até lá com ele. vou.

chegando lá os botijões empilhados, pergunto

— não tá com mais botijão do que o carro aguenta, não?
— tá sim! mas foi o que eu te disse! a petrobras tá com problema, a gente tem que entregar muito hoje!
— ...
— olha só! o que me fizeram fazer! tem gás até no banco do passageiro!

e gargalhou. perguntou:

— seu marido é mesmo português, é?
— é sim. morei lá também.
— e não gostou?
— gostei sim.
— e voltou?
— voltei sim.

digitei errada a senha, olhando o gás deitado no banco do passageiro, pensando no meu pai dizendo que deus protege os incautos. mas disse pro homem que era porque ainda não tinha tomado café, por conta da falta de gás. e ele:

— isso é por conta da petrobras! mas agora a senhora pula o café! e toma uma cachaça! esqueci a blusa em casa, e com esse frio já tomei uma, daqui a pouco vou tomar outra. se você tomar uma cachaça agora vai esquecer de tudo, não vai nem se lembrar que voltou pro brasil! da próxima vez que faltar gás essa crise já vai ter acabado e vai ter começado outra! eu vou é com meu irmão, só no drible... tchau! obrigado! desculpa a demora.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

dia das mães

as convalescências respiratórias derivam das emoções conturbadas, a interação atmosférica entre fora e dentro prejudica-se pelo excesso de transações entre eu/outro. que, de tantas, impossíveis são de mapear. o território familiar é dos mais propícios a ácaros emocionais. parentes não se separam, mesmo quando brigam e não se falam. os canais sensíveis? são como entubados em nós e em nós e nas atmosferas e em nós e nas nossas relações com qualquer ente/ser. os tubos ligam-se e desligam-se, existem receptores por toda parte. tomadas que mudam de registro. às vezes percebemos as ligações, às vezes não. às vezes as escolhemos, às vezes tentamos a conexão e ela falha. às vezes estamos ligados sem consciência. a não-consciência não é necessariamente negativa. já a poluição emocional é, a poluição emocional entre duas ou mais pessoas nada mais é do que tubos entupidos. intoxicados. no meu íntimo, talvez a fissura venha de um excesso yang, com a particularidade da ação estar coligada à transformação/podridão. e ser todo um lance emocional ativando a mensagem // a mensagem desaguando matérias férteis e potentes, de quem mergulhou na escuridão e saiu, imune: saiu luz. mas às vezes fica andando na fronteira de proximidade entre transformação e podridão. é muito tênue. eu sei que é assim. quem se perde quem se movimenta em meio ao pântano e rejuvenesce? desmontado fica o que não estabeleceu raízes. a solidez a que chamamos terra chama a si mesma de meu-núcleo-tem-magma. o solo é outra coisa: é onde se gestam as sementes. com um tanto de água e calor e trocas gasosas e de dentro do chão acontecem as árvores. também as genealogias. maturava tudo isso espirrando no sofá branco da minha avó. 

domingo, 10 de maio de 2015

antes de dormir, assim eu com esta

a letra de todas as noites, há anos, rezo assim:


thank you god for this fine day
bless all the children of the world
and thank you for the plants
and the animals
bring me sweet dreams tonight
and help me be good tomorrow

noah's ark
came to my house
one day
with all his animals
and he took me away




quinta-feira, 7 de maio de 2015

hoje papai me deu um buda

segunda-feira, 4 de maio de 2015

aquecido, malhado, batido

Há um dito nas escrituras tibetanas: "O conhecimento precisa ser aquecido, malhado e batido como o ouro puro. Só depois poderemos usá-lo como um ornamento." Portanto, quando você recebe instrução espiritual das mãos de outra pessoa, não a aceite sem espírito crítico, mas a aqueça, malhe e golpeie até que apareça a cor brilhante e nobre de ouro. Então, você faça dela um ornamento, dando-lhe o desenho que desejar, e passe a usá-la. Dessa forma, o dharma se aplica a todas as épocas, a todas as pessoas; possui uma qualidade viva. Não nos basta imitar o mestre ou guru; não estamos tentando nos transformar em uma réplica do nosso instrutor. Os ensinamentos constituem uma experiência pessoal de cada um, até chegar ao detentor atual da doutrina.

É possível que muitos dos meus leitores estejam familiarizados com as histórias de Naropa, Tilopa, Marpa, Milarepa, Gampopa e outros mestres da linhagem Kagyü. Foi uma experiência viva para eles e é viva a experiência dos atuais detentores da linhagem. Apenas os pormenores das situações de vida é que são diferentes. Os ensinamentos têm a qualidade do pão quente, recém-saído do forno; o pão ainda se conserva quente e fresco. Cada padeiro precisa aplicar os conhecimentos gerais de como fazer pão ao seu próprio amassar e enfornar. A seguir, precisa experimentar pessoalmente o pão fresco, cortá-lo enquanto fresco e comê-lo enquanto quente. Precisa tornar seus os ensinamentos e, depois, praticá-los. Este é um processo muito vivo. Não há engano algum em termos de coletar conhecimentos. Temos de trabalhar com nossas próprias experiências. Quando ficamos confusos, não podemos nos voltar para a nossa coleção de conhecimentos e tentar encontrar alguma confirmação ou consolo: "O mestre e todos os ensinamentos estão do meu lado." O caminho espiritual não segue por esse rumo. É um caminho solitário, individual.
- -
Chögyam Trungpa, em tradução de Octavio Mendes Cajado
(e, trocando umas palavras, tipo "espiritual" por "poesia", podia ser Ezra Pound!)

terça-feira, 21 de abril de 2015

autobiografia, não, biografia

cinco anos atrás escrevi uma autobiografia, tinha 1 linha, inspirada no elvis, "i'm a solid volcano". era plutão. repensei a minha geologia e reescrevi esses dias tais linhas: "eu? uma fronteira. e muitos canais. todos analógicos.".

segunda-feira, 20 de abril de 2015

hoje

o correio tocou uma vez era de manhã chegou chá de alfazema e mel de flor de laranjeira.
voltou o carteiro meia hora depois, "júlia! tô esquecido!", de uma caixa com tabaco, água florida, palo santo e cânfora.
atendi o interfone e eu falava e de resposta só ouvia "eight days a week" tocando do outro lado. 
mais tarde cheirava a erva.
outrossim, tocou 1 entregador com minha mochila.
quase fim do dia um dos livros que mais gostei de ler quando adolescente me foi entregue.
ao entardecer veio nos ver meu amigo poeta.
se o sol não entrou em touro hoje não sei o que aconteceu.

é tudo como calha

existe uma situação ideal e difícil, de liberdade maravilhosa na vida contemporânea, que é a de não ter nenhum email na caixa de entrada por responder.

diariamente me prometo que chegarei lá, diariamente eu falho.

afinal, é como podar para crescer, quanto mais respondo, mais tenho o que responder e falharei cotidianamente na minha meta e nunca vou me aprimorar.

o bom é que o falhanço já me ensinou a não esperar dos outros o que não consigo de mim e nunca sinto alguém em falta, pelo contrário, sempre espero com os melhores sorrisos nos dentes as respostas. as respostas são como as surpresas: chegam quando convém.

domingo, 19 de abril de 2015

Urano


terça-feira, 14 de abril de 2015

chegada

como não há metrô que ligue o aeroporto até a cidade, descemos do ônibus na paulista. com duas malas e uma máquina de escrever, preferi pegar um táxi até minha casa. tinha que consegui-lo antes do túnel da dr. arnaldo, pra que não existisse uma imensa volta no taxímetro, e carregada fui andando, cansada, até um lugar em que fosse suficiente.

nenhum táxi passava, ou passava cheio, ou não me via atrás da banca e não parava. um morador de rua me viu naquela situação e gritou, com um sorriso gigantesco, "moça! senhora! vou conseguir um táxi pra você!" e saiu correndo, descalça, até a esquina com a augusta. quase dois metros de homem, ele brilhava dourado, como se tivesse mergulhado em purpurina, vestindo uma camiseta rota de atendente do mc donald's, pelo meio da avenida, pisando firme no asfalto.

afinal, ele conseguiu um táxi, parou, apontou pra mim, enquanto alguém descia do táxi. o homem veio gritando de felicidade, "consegui! consegui! sozinha a sra. não conseguiria", se sentou na minha frente, e já sentado, em lótus, muito gentilmente me disse "a sra. poderia me dar um trocado? preciso comprar uma roupa".

então me lembrei que fazia pouco tinha dito pro mateus que gostava de usar a camisa que era do gustavo porque me lembrava do meu pai, que sempre tem tudo que precisa nos bolsos da camisa. juntei a isso a firmeza da lembrança de contar, algumas vezes, que quando pedem dinheiro pro meu pai, ele tira sem olhar a primeira nota do bolso, sem cálculo, e dá. lembrei de dizer pro reuben "espero 1 dia conseguir fazer o mesmo", e entre tantas lembranças simplesmente agi, tirei sem ver uma nota de 20 reais do bolso e dei pro homem que tinha me ajudado. o taxista já parado guardava a minha mala e olhava com uma cara de não entendimento.

o homem sorriu, ficou um pouco encabulado, foi aí que notei que ele tremia todo suando alguma droga muito forte dentro do corpo. e todo dourado. então ele riu e me disse:

— a senhora é jornalista, não é? — e eu:
— por conta dessa máquina de escrever? não! não sou jornalista, mas é quase isso... eu escrevo.
— a sra. acabou de chegar de outro estado, não é?
— sim! isso sim!
— então seja bem-vinda à são paulo! — e fez uma vênia apontando pro chão.
— ah! te agradeço!
— já sei! já sei! a sra. é publicitária!!!!
— hahahahaha não!!!!! isso não! nem jornalista! nem publicitária! eu sou poeta!
— poeta?! eu amo poesia! foi por isso então que a sra. me deu tanto dinheiro. poeta não guarda nada! poeta não guarda nada! — e ria enlouquecido — qual o nome da sra? vou comprar seu livro!
— meu nome é júlia hansen, mas não gaste dinheiro com meu livro não! dia desses a gente se encontra por acaso de novo e eu te dou.

ele sorriu, e nisso o táxi arrancou. o rapaz dirigindo tinha a minha idade, disse:

— o negão tava doidão né? mas ele era do bem.
— era sim do bem. tem muito doidão do bem.
— é... a gente esquece.

já pra frente no percurso, achando graça no que tinha acontecido, me sentindo bem de chegar em casa, vi um carro da polícia atravancando o trânsito por simples displicência de acharem que são donos da rua, da lei, da morte, do que quiserem ser... reclamei baixo, mas com confiança. toda a simpatia do taxista, naquele momento, recuou. percebi pelo retrovisor que ele estava entre incomodado e furioso. e, claramente, do lado da polícia. estremeci, fiquei sem saber o que fazer.

quando me deixou em casa, o taxista me cobrou mais do que tinha sido, e ainda usou como argumento "gorjeta". claramente calculando o meu gesto porque tinha me visto dar uma nota alta para o acaso do amigo que no meio da rua tinha sacado tudo e pra quem qualquer centavo faria diferença. achou que eu, poeta, sou rica. logo então eu disse:

— gorjeta costuma ser um ato de gentileza, não de dívida. mas se você quer me tirar a minha escolha, fique à vontade, o troco é seu.

preocupada e contente, entrei na casa, nesse tempo nosso. às vezes me parece que a humildade e a generosidade estão do mesmo lado versus a dívida e a polícia de outro. e isso é em cada um, mesmo. um ato diário de posicionamento e escolha.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

sempre que eu sinto muita saudade de São Paulo, é inevitável a entrada pela marginal

daí na marginal eu sofro um choque de realidade tão radical que nem é explicável. a podridão do rio me dá vergonha e tristeza e indignação e cansaço e eu juro mil vezes que a saudade não tem nada a ver com aquilo

daí me lembro de uma vida toda que poderia ter sido e que não foi. suspiro distraio e reparo no matagal nas ilhas entre as ruas. nunca vi numa cidade matagais tão generosos como os que crescem ao redor da marginal Tietê. dou um sorriso pela civilização, um abraço imaginário no matagal.


olho as nuvens, não chove nem faz sol. essa umidade de abril, essa nuvem empoeirada de fumo, ninguém te tira, minha cidade.

domingo, 5 de abril de 2015

marte nos primeiros graus de touro ativa em mim

líquidos acumulam entre órgãos e músculos
na carne mútua de tudo, dissipo
a fissura das questões ponho
guardas na fronteira que sana.
encarno e desmonto e hoje não
menstruo e nem agrido ninguém.
sou tanto não, tanto que sucede
desmonto com foco, aproveito
o domingo de páscoa torcendo
pra deusa q renasça em mim
observar a guerra com dureza
ceder o controle à ternura
vir pelo campo até dar
nas margens do pântano carpir
água. alimento de aceitação.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

toda vez que um poeta

toda vez que um poeta encontra uma fórmula e só a repete
toda vez que um poeta não perfura os caminhos da já-língua
toda vez que um poeta diz aquilo que se espera dele
toda vez que um poeta não alarga nem cria distúrbio no que as instituições lhe pedem
toda vez que um poeta acredita no jornal que lhe espanca a escrita
toda vez que um poeta sorri direito, strike a pose, alinha o cabelo
toda vez que um poeta
esquece aquele que nunca foi
toda vez que um poeta se conforma com o morto no colo
toda vez morre um pássaro acabado de nascer, cai do ninho, sem acolhimento, no asfalto.



31 anos

mergulhar no diverso respirando firme
entre as camadas
abarcar a névoa e o clarão.
despertar atenção para tudo relaxar
podar o capim para que ele cresça firme
flexível e reto como o mato
ter dado espaço para o outro entrar e entrar nele todo
não esquecer nada disso
mas nunca lembrar de nada
pois não há monotema nenhum
girando desconforme a galáxia
nem trilhos onde encaixar roldanas, mergulhar
mergulhar até soltar a mandíbula
inflamando o peso caindo, a inflação subindo.
há paciência e é agora
                     de pé no chão.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

tem

disritmia entre braço e perna a canela bamba sobre a pedra
quase tropecei pra trás
o que significa que não havia frente para me agarrar
cansada demais em ser sutil sem fluxo de queda
além da saúde frágil, os gestos fartos
s e m p r e
ouvidos dispositivos do abrir-se
ao caos dos poros — todos sensíveis
e as ranhuras de coisas que entram por baixo das unhas
ensinam a gemer por pouco e arder por mais
ser como o mar que retrocede
e nunca perde o horizonte, verás
o salto de quem nasce
a face de quem morre
a faísca que se apaga
o morro que se sobe
o amor de quem o tem
o escuro tem também.

quarta-feira, 25 de março de 2015

truliluliuiii

como é bom escrever só com o compromisso da honestidade poética, o que acaba por significar um compromisso quase total com quase nada,

terça-feira, 24 de março de 2015

no dia da morte de herberto helder

faz uns dez anos. eu estava na universidade de são paulo, fazendo uma matéria de manhã, porque queria me formar. eu detestava, naquela época, a manhã. eu preferia sumir do que acordar. chegou-me na mão uma folha de papel em xerox, onde tinham muitos poemas. eu estava distraída, nada me apetecia, e de repente ouvi uma voz de algum colega lendo, lendo um poema que seria, eu só saberia depois, do meu poeta preferido, junto com drummond.

eu não entendia nada
eu achava lindíssimo

eu morava ao lado de uma livraria e naquela época existiam dois livros dele em catálogo nacional. comprei no mesmo dia. eu lia e não entendia nada, mas eu não parava de ler. de repente comecei a ler em voz alta. eu entendi então que a voz do poema é a voz da respiração. eu lia para os meus amigos que diziam que aquilo tudo, que era nada, que nada daquilo fazia sentido. eu mostrava como em voz alta fazia sentido sim, e o que importa o sentido de frente ao estremecimento? papoulas importam mais do que razões. e fico contente de ver tanta gente falando dele hoje nesta rede social. muito antes disso, mostrei-o pra toda gente que pude.

quando eu o li, eu escrevia poemas já, mas não eram os meus poemas não. herberto helder atravessou minha dicção pelo começo, e isso pode parecer esnobe para quem não me conhece, ou não gosta do que escrevo, mas que se lixe toda a paúra sórdida: se hoje meus versos têm alguma respiração eu, sinceramente, devoto toda ela as minhas leituras do herberto. pouso tudo que escrevo nos pés daquele chão.

se fui morar em portugal, cinco anos depois, muito foi pelo fascínio que a poesia do herberto me causa. chegando lá percebi que muito do que eu achava que era estilo era só o português de lá, mesmo. mas isso só me fez aprofundar ainda mais a minha admiração, porque o que é se não um poeta do que um atravessamento, um meio, garganta entre estrelas?

em lisboa ouvi muitas histórias sinceras sobre o herberto, de amigos dele próximos e nunca vou contar as mais especiais para ninguém. são coisas dele. e nunca tive vontade de vê-lo pessoalmente, pois seria isso como um machado atravessando a minha cabeça.

mas, no fim do ano, junto com nossas frontes editoriais, escrevi uma carta pra ele. enviamos também alguns livros. sei que ele recebeu, sei também que ele leu. e ainda bem. não que isso fizesse diferença alguma para ele, mas era um modo de pousar algumas vênias da minha dedicação. a carta que escrevi começou durante um efeito do chá lucidíssimo de amor, e eu lembro que eu o chamava de príncipe durante a carta e dizia que ele não seria um rei (embora fosse muitos), já que ele era aquele sempre jovem demais, intenso e humilde demais, aquele que há de demorar mil anos para envelhecer. quem que se apossa do poder no mesmo gesto que o recusa, aquele que nunca se curva e está perante a tudo.

no fundo, acho que eu imaginava que ele sempre estaria a rejuvenescer.
embora eu ainda não o entenda, também não entendo a morte.
e, em certo sentido, isto tudo é certo: ambos agora estão juntos, e isso só pode, mesmo, ajudar a viver com tudo que a gente não entende, que é coisa, aliás, que a poesia faz o tempo todo: lidar com o desconhecido e nele dormir, terrífico e puro, devastador e calmante.
pela noite tive febre e a tosse me permitia só uma posição encaixada entre travesseiros altos
não era nem 7h da manhã e os pedreiros da obra ao lado começaram a ouvir música
altíssima e repetitiva
eu só queria dormir mais, me encaixei entre os travesseiros novamente,
e dormindo voltei a sonhar: eu no cantinho de um sofá, meio tímida, dolorida
semi-calada
abriu a porta e entrou o joão gilberto com seu violão
sentou bem do meu lado e começou a tocar
canções de calma engenhosa e paz
e eu embalada, ninada pelo joão.
dormi melhor em paz acordei
sentindo muita purificação pela sorte
da bondade de sonhar assim.
acordei e soube logo da morte de herberto helder.
mestre irmão raio total céu denso e vivo puro
entrou na escuridão sendo luz.

domingo, 22 de março de 2015

consoada

Consoada
Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

sexta-feira, 20 de março de 2015

falou de um homem muito velho que o foi ver e despediu-se atingido por uma pluma, o mais profundo do coração não é turvo, é manso. não há porque resvalar no medo, espero que dê tempo. espero que possa saber o mais sério escolher, que amanse o tempo do vivo, espero que o vivo amanse o que definha e que não haja falta de pedaço no coração que não sabe muito bem se é escudo ou lâmina, se é tristeza ou sutileza. o que se agita é desconhecimento, no caso de quem pede e quer, a paz. luz de muita, luz de muita paz.

quinta-feira, 19 de março de 2015

equinócio ascendente mulheres


baldio

não divulguei aqui, que me esqueci de avisar, mas não de fazer & estou trabalhando em BALDIO

sábado, 7 de março de 2015

"coletivo"

é tão importante não perder a primeira pessoa do singular quanto não perder a primeira pessoa do plural. não gaste a primeira pessoa do plural em vão. não gaste a primeira pessoa do singular em vão.
pra caroliny, chinnnn

acordei com vontade de estar em lisboa
não por um motivo qualquer
pra ver a primavera chegar
vivíssima e aos poucos
os dias ficando longos
o tejo saindo do chumbo
do azul ao lilás se tornando
casacos levados pra cima do armário
velhas alergias a pólen fechando gargantas
alguma esperança
e as pessoas rodeando umas as outras
finalmente! como abelhas em flor,

quarta-feira, 4 de março de 2015

há anos leio astrólogos dizendo
que março de 2015
é dos meses mais pesados
da história recente.
é uma alegria estar com vocês.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Na arte de tornar o espinhoso
maravilhoso, aprendi
a ralar os joelhos
sem quebrar os pulsos.
A construir sem ganância
os muros
rodeados de covas altas
palmeiras de açaís
e o ruído da água correndo
ao fundo. Quebrei alguns
dentes, com outros mordi
mas diante de tudo
de repente, eu até cri
no insaciável
fogo que acendi.

Preguei lantejolas, amei
e nunca, nunca me vinguei.
Desperdicei foi muito
                     lixo
é o que se esquece
de tirar pra fora
e, no trópico, empesteia a área
mas até às moscas do chorume
destinei o meu amor.
Não com beijos
estes, não.
Meus beijos são só teus.

Não sei você, mas para mim, a paz é uma coisa que se exercita
vejo ela abrindo as asinhas, afiando facas
lambendo beiços, abrindo latas
temperando com sal, aquilo que não mata.
 

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