sábado, 24 de outubro de 2015

entrei aqui com a sensação de que não escrevia por aqui desde o século XIX, mas acho que ele ainda não acabou. acabou foi meu rio, que secou. é uma pedra na mão de alguém, uma pedra de luz descendo pela garganta & engolindo existe mundo inteiro.

se eu soubesse fazer a apreciação do que não existe
gastaria à toa a força da minha saliva 

esta semana foi curiosa a minha voz baixou
meu escorpião encalacrou
e hoje me vi quase rouca
o tempo se dizendo por si mesma

o treino, o treino
o treino, o treino

é curioso que antes de começar a treinar eu já sabia que não tenho disciplina, é essa a verdade nos olhos do mestre. eu, que nunca tive um mestre, eu treino. mas dessa forma irregular, mais fonética do que disposta ao prévio, dando saltos de entendimento porque a poesia...

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

hoje eu estava voltando de um dos mais inglórios acontecimentos da minha vida de poucas aventuras, quero dizer, eu voltava a pé do dentista, com a boca anestesiada, quando duas mulheres saindo de um restaurante e, certamente no horário do almoço, passaram na minha frente.

andavam lentamente e nem notavam que eu queria passar, com aquela lerdeza de quem já almoçou e eu me adaptei pelo cansaço e fui atrás, afinal não poderia mesmo, tão cedo, comer nada. diminuí o volume dos fones pois percebi que uma parecia estar apaixonada e contava para a outra como isso era sensacional. mesmo anestesiada, achava que era sempre bom ouvir por alguns segundos alguém falando de amor. até que a menina que estava apaixonada disse:

— ele é maravilhoso... não sei nem explicar... ele é normal! sabe?

pensei ter ouvido errado... mas ela disse mais uma vez:

— normal!

eu achava que só o excepcional era motivo de ternura. os poetas que li estão todos errados. me cocei de vontade de cutucá-la e dizer: "te cuida, minha filha, ele é um serial killer". até pensei que isso seria um péssimo sintoma social. mas pior mesmo foi passar as horas seguintes pensando quem é que eu conheço que poderia ser tão tedioso a ponto de, facilmente, ser chamado por outro alguém de "normal".
demoraram alguns anos e muitas viagens mas três traços que a universidade imprimiu no meu pensamento já se apagaram quase que completamente, feito xerox velho: o hábito de ser tão analítica até descascar tudo até o grau zero do sentido e ficar lá perdidaça //// um sistêmico posicionamento da linguagem como a clave da partitura da experiência humana toda & o o old and old and old cartesianismo espiritual, digamos

domingo, 4 de outubro de 2015

hoje até para o deus da coca-cola eu apelei & os carregamentos de esmeraldas não param de chegar & cheguei no final da linha de tanta mandioca frita e assim terminei meu novo livro.

já tinha algumas vezes achado que o livro tinha acabado, mas eu estava sempre enganada porque era eu que estava tentando acabar com ele. é um livro que foi todo escrito em alguma espécie de transe, seja através de plantas, seja através da música, ou simplesmente da audição das esferas. foi sempre um livro luminoso/severo e exigente/purificador de se escrever.

eu quis dá-lo como pronto, porque eu queria fazer outra coisa, mas não era bem eu que decidiria: hoje foi ele que acabou comigo, como se dissesse: você já não tem nada pra me dar. sinto-me esgotada. mas é bom, porque eu preciso mesmo de espaço pra me tornar outra.

bem me lembrou o meu professor do animal que um poema é e o livro se foi como um animal alimentado o suficiente pra, entre trôpego & temerário, sair do cativeiro e voar pro seu céu e cair em seus buracos. seres vivos, mais do que livros eles são livres.

tem muita gente que comemora isso como êxito, talvez, mas essa liberdade me deixou sem nada, às vezes acho que a assinatura que vai na capa de um livro é uma espécie de compensação material pra ausência de nome que terminar um livro me causa. romper com um livro tem me significado largos períodos de silêncio. acabar o livro é um alívio que entra numa nuvem de achar que nunca mais vou conseguir escrever algo que eu goste por não sei quanto tempo. até o animal, o besouro, o cavalo se aproximarem de mim novamente; ou talvez seja mais uma samambaia que algum outro esqueceu num canto como se nada fosse e que cabe a mim regar.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

esta noite sonhei que eu e minha amiga estávamos num saloon no velho oeste e tínhamos que aparentar que éramos muito perigosas, já que os homens ao redor realmente eram. então minha amiga foi até o balcão e pediu uma bebida poderosa, era um refresco que entre 10 ingredientes misturava água das pedras, canela, hortelã e areia, e vinha com um canudinho borrifador de spray na ponta de um tubo de dois litros do refresco.

ela tentava beber rapidamente, afinal iríamos atravessar o deserto numa moto. e perguntou "quer provar?", eu abri a boca e ela então borrifou os dois litros dentro da minha garganta. engasguei e rindo, perguntei "por que você fez isso?" e ela, bem prática, respondeu "porque tinha que acabar, uai".


saímos do saloon e encontramos a nossa moto, que nos levaria adiante pelo deserto. a moto tinha uma placa de identificação meio bamba, mas ainda pregada nela e na qual se lia: ANSIEDADE ABANDONADA. acordei com o despertador tocando fazia já uns minutos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

entender é uma forma de alegria & estou contente que nos próximos dias me dedicarei a escrever poemas, cuidar de mim, receber uma safra de esmeraldas, verei um bom amigo, duas terapias, duas alternativas que se somam, sonharei com serpentes e beija-flores e de manhã não saberei o que está realmente acontecendo.

a palavra "realmente" foi das coisas que mais mudou em 2015. houve um momento que não conseguia escrever 2 letras em contiguidade sem errar e criar um ruído, uma, ruptura, entre elas. pareceu cansaço, mas o cansaço também pouco mais é do que a brisa que antecede o raio.
ontem quando cheguei em casa cortavam as árvores do vizinho. a companhia de energia elétrica e a companhia de engenharia de tráfego agindo em conjunto decepando radicalmente o que anda derrubando o funcionamento dos faróis do cruzamento.

lembrei-me da Julia Panadés numa das reuniões de pauta aberta que tivemos no Baldio chamando atenção pro fato de que as árvores urbanas ganham formatos impressionantes por conta das podas absurdas. desde que a Júlia falou isso eu nunca mais olhei as árvores das cidades da mesma forma. é impressionante como elas tomam o caminho de crescer em respostas possíveis à nossa brutalidade. desviam, se refazem, são pulmões que se ramificam por onde der & vier. 



depois me lembrei das ocasiões em que meu pai queria assassinar os cortadores de árvore da prefeitura de Cotia que passavam, sei lá, uma vez por ano, e podavam as árvores da selva que meu pai plantou no canteiro da frente de casa. os caras cortavam o suficiente pra que não precisassem ir lá durante um bom tempo. metros e metros de árvores abaixo. e quando eu digo "assassinar" é claro que não estou brincando e também é claro que bem se sabe como as pessoas de letras costumam assassinar as outras: com grandes argumentos violentos, pensamentos ramificados e juras que na materialidade das coisas quase nunca se cumprem. somos os lúcidos ingênuos de sempre. mas a cada ano entendo mais as vontades que meu pai vive de assassinar as pessoas que mexem descuidadamente em outros seres vivos.

ontem foi bonito de ver que a árvore do vizinho se intrincou tanto nos fios elétricos que era impossível cortar um galho dela sem levar toda a rede elétrica abaixo. não cortaram. é claro que isso um dia vai fazer o poste cair e passaremos muitas horas sem luz (e poderemos ver a noite que existe na noite E podermos ver a noite que existe na noite). se eu tivesse um carro talvez me preocupasse com o trânsito que isso vai causar, mas como morro de medo de dirigir, estou a pé. se estiver trânsito eu farei o que eu faço: andarei, escolhendo as vias mais arborizadas possíveis. até mesmo pra que eu possa aprender com as árvores, de tanto observá-las, a como responder às nossas brutalidades.

mas também há certos toques de gênio: na frente de casa havia uma paineira que, por ser propriedade da União Federal nunca ninguém encostou um dedo nela. e embora o google street view não mostre mais a selva da frente da casa em que cresci (aliás, será que alguém tem foto da frente da nossa casa antes de a "urbanizarem"?), a paineira ainda está lá, mais alta do que nunca, atravessou os fios, os brutos, as eletricidades & lá em cima porque é desde aqui debaixo a paineira está. e ela é. as plantas são mesmo como outras línguas, não separam o ser do estar.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

acordei cansada e meditativa.
quando estou meditativa é sobre um tapete
que é sempre um ramo de dinamites.
soube que o outono chegou em Lisboa
e pela primeira vez em anos fiquei muito feliz com isto.
também pensei algumas vezes, cheia de ternura
que uma coisa que nunca entendi nos homens
é como eles conseguem viver sem menstruar.
embora o bafo das janelas nas ruas
o frio ainda vem de dentro
como se alguém tivesse esquecido
o armário aberto.

domingo, 13 de setembro de 2015




é domingo.
você que está se sentindo
múltiplo e desastroso
amante do futuro inconstante
em dúvida de se é louco navio
ou crescimento ascendente
ébrio caminhante confiante
que tropeça e mergulha
não sabe se na saúde ou na doença
se consegue escolher
método ou caos
confusão ou relaxamento
sua colher não entra no pote
você que passou os últimos dias lidando com seus vícios
caiu novamente feito uma abelha no pote de geléia
é só isso
é só Júpiter em oposição a Netuno
nesses dias
honey o inefável
é de lamber com os dedos.
seja ícaro
ou seja herói
cair do baixo
é que não vale.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

saturno em escorpião

outubro de 2012, fui de madrugada ao banheiro branco da casa que morávamos em Lisboa e meio dormindo vi um cérbero azul luminoso ao meu lado. luminoso de escuro. era de pedra e era transparente, brilhava & era discreto. uma fera, uma carranca, era um cão na entrada de um palácio, só na manhã seguinte quando abri a internet eu soube que Saturno havia mudado de signo. Saturno tinha entrado em escorpião naquela madrugada.
novembro vou a uma cerimônia de ayahuasca e danço com as mãos. cerzindo meus órgãos a minha mão é a minha mão mas eu de imediato sei que esses são gestos que sobraram do corpo do meu avô no meu. uma experiência dele atravessou uma geração e de repente tenho acesso a ela. 
resolvo escrever um romance que irá se chamar "a história do meu avô". vejo a história inteira numa noite. quando a tento escrever não consigo.
janeiro de 2013 defendo meu mestrado. viajamos para a Bahia e eu escrevo um ensaio sobre "herança".
algures entre março e abril um xamã canta para mim o seu/meu ícaro. acho que nada está acontecendo. aparece um iceberg na minha visão, um iceberg entra no meu horizonte. gigantesco. eu tento atingir com o olhar o seu topo e demoro a conseguir focar o alto. quando alcanço do alto abre-se uma labareda de fogo nos céus & que como uma lâmina atravessa o topo do iceberg. a língua de fogo que vem do céu abre o gelo em dois. o iceberg derrete pelo meio. 
abril de 2013 lanço o "poemas do destino do mar" em Lisboa.
fico muito doente no início de maio. sigo um conselho do meu irmão ariano e tomo um chá de alho com limão pra botar pra fora. boto tão pra fora que minha cabeça arrebenta de dor, meu corpo de febre, e eu tenho uma alucinação de que estou com a cara enterrada num cemitério onde estão enterrados todos os meus antepassados. minha cabeça dói porque tem os ossos dos meus antepassados.
não sei se é gripe ou alergia ao pólen mas o que estou não acaba. passam dias e nada resolve, vou numa cerimônia de ayahuasca e continuo resolvida que vou botar aquilo pra fora. não percebo que fico fazendo esse gesto de vomitar logo depois de ter pensado no que seria a natureza do "eu". o sol estava no signo de gêmeos e eu vomitei, sem perceber, um pedaço da minha identidade. 
dias e dias e mais dias e mais dias e mais dias sem conseguir fazer nada. Saturno conjunto a conjunção de Marte e Plutão do meu mapa natal. só consigo fumar maconha e não fazer nada com isso. não escrevo, não penso, sinto medo e não sei nem que eu preciso de ajuda. sinto como se os traços do meu rosto estivessem dez centímetros descolados da face, como se o meu rosto me pertencesse mas estivesse mais longe, talvez eu tenha deixado de ser titereira das minhas expressões. mas eu não sabia descrever nada na altura. minha sensibilidade tinha desaparecido.
lanço meu livro no Porto. num almoço com uns amigos, um rapaz cozinheiro tradutor de Victor Hugo e afilhado de uma mãe de santo da cidade de Mariana (MG) me recomenda chá de flor de sabugueiro com tomilho. em cinco dias tomando fico bem. axé!
início de junho vou a Barcelona ler meus poemas. aquela que nasceu da flor me leva pra uma cerimônia no campo. o curandero conversa comigo antes, me olha e diz "o que acontece? você é valente mas não está?", eu digo a ele que é verdade, falo com uma clareza vindo do meu mais fundo de mim que eu nem sabia que estava pensando. digo pra ele que preciso de pouco. dentro de um tipi com uma roda de fogo no meio eu percebo que a minha face está levantada do meu rosto. percebo que estou fora de mim mesma quando olho na palma da minha mão e vejo um bosque escuro. resolvo que só sairei quando o fogo tiver purificado as minhas mãos. toda a minha energia vem do coração. puxo, literalmente, com gestos voltados para cima do meu corpo deitado, puxo aquela vinda de mim mesma até o lugar onde eu sou eu. 
no dia seguinte escrevo para o meu psicanalista contando um sonho que tive meses antes e que falava de inércia e medo de crescer. para a xamã que cuida de mim escrevo falando que um pedaço de mim estava fora de mim. ela fica atentamente preocupada e me diz que da próxima vez tenho que ir duas vezes seguidas. 
começo a ir duas vezes seguidas, marco para dali poucos dias. na cerimônia o seu marido xamã quando canta seu/meu ícaro para mim vomita enlouquecidamente. no dia seguinte ele me faz entender em francês que retirou um véu de cima de mim e que ao abrir viu uma fila de antepassados querendo falar comigo e que quanto a isso ele não podia fazer nada: só eu poderia saber o que tenho que lidar com eles.
percebo na manhã seguinte que passei meses usando como colar um amuleto do museu de etnografia português, de xisto, quando procuro na caixa de colares encontro a embalagem com a informação "paleolítico // amuleto de conexão com ancestrais //". paro imediatamente de usá-lo.
note-se: em momento algum desta narrativa eu entrei em pânico.
continuo tentando escrever "A história do meu avô". 
vamos ao Gêres no fim de julho. início de agosto, voltando para Lisboa, penso em romper com tudo que tenho mantido em silêncio. no dia que a retrogradação de Saturno acaba e ele estaciona no grau oposto da minha lua em Touro tudo que pressurizei é dito: é chegado o momento da crise: é pegar ou largar. ele agarra. dias depois me pede em casamento numa manhã em que estou no sofá com cólicas menstruais e ainda nem tomei café. aceito.
faço a primeira purga de tabaco da minha vida. 
faço a segunda purga de tabaco da minha vida.
na terceira é outubro e vejo no fundo do balde a palavra NÃO. foi-se embora qualquer dúvida. no dia 19 nos casamos. no fim do mês lanço "O túnel e o acordeom". 
ouço "Alucinação" do Belchior o tempo todo.
novembro Saturno que atinge o grau 14 de Escorpião & no dia que Saturno encontra o meu Saturno dá um beijo de língua em si mesmo e eu escrevo o primeiro poema de "Seiva, veneno ou fruto // A casa dos nietzscheanos" — : "Voltar a estudar, não sei // mais compor meus poemas. Que alegria! Pela estrada voltar a fumar (....)". saúdo o retorno! sinto medo! o tempo todo! e me sinto a estrutura do meu mundo nos meus ombros. 
tento o ano inteiro escrever "A história do meu avô".
passam-se meses na logística da mudança. invento a playlist "exorcizar tristeza". danço-a todos os dias. meu computador quebra uns dias antes da mudança, perco meu HD e tudo dos últimos 8 meses. em janeiro chegamos no Brasil. faço aniversário com Marte em quadratura com o meu sol até então não sei o que isso significa.
março vamos para a Bahia. Netuno conjunto à lilith. fico surda. fico 20 dias surda. sinto medo medo medo medo medo. vejo coisas tendo ler as minhas. acordo dois segundo antes da entrada de alguém na nossa cabana, acordo ele ao meu lado, ele também vê um homem lá fora, eu grito com voz de macho e o ladrão foge. emprestam-nos uma cadela para nos proteger. Domitilia Pelegrina, a cadela, está grávida. uma noite a luz acaba sem previsão de voltar. nessa madrugada a cachorra cai da varanda e quase morre sufocada com a própria coleira. é ele que acorda com o barulho e a vai salvar. no fim da viagem os donos da pousada convidam-nos a voltar para cuidar dos cachorros e das casas enquanto eles estiverem fora. primeiro digo não. só deixo de estar surda ao ir a um pronto socorro em Lençóis onde quase estouram meus tímpanos com éter quente. 
a chapada de Diamantina é o lugar mais bonito em que já estive na vida. no fundo, estou cansada.
voltamos para São Paulo. vou beber ayahuasca no sítio. algumas vezes. decidimos ir aceitar a proposta.
em maio Saturno inicia a retrogradação. em maio vamos para a Bahia. Pelegrina morreu poucos dias depois do parto. temos 5 filhotes de cachorro de 10 dias pra cuidar, sem a mãe. temos que amamentá-los de três em três horas, mantê-los quentes mas não juntos, pois juntos eles se mamam uns aos outros e se perfuram e se se perfurarem os bernes tomam conta de tudo. o Coragem quase morre, eu chego a torcer numa noite para que ele morra de tanto que ele agoniza. uma hóspede resolve cuidar dele e consegue salvá-lo com reiiki e a ajuda do namorado farmacêutico & dos antibióticos, claro. salvamos as cadelas, trato a sarna do Fumaça, recebo hóspedes. aprendo o prazer que é simplesmente cuidar das coisas pra que elas fiquem bem vivas.
bebo o chá algumas vezes. acho HAHAH que sei o que estou fazendo metendo uma criança de 4 anos num tiroteio.
fins de julho Saturno retoma o movimento direto. 
nalgum lugar do mês  ir a Portugal fazer um retiro. dou um pulo em SP e vou para o Algarve no final de agosto. passam-se dos dias mais preciosos da minha vida e as noites sinto medo medo medo medo muito medo. no dia seguinte do fim do retiro o medo desapareceu e desde então, o medo que mais tenho desde criança, só o vi 4 ou 5 noites em um ano inteiro. passo vinte dias em Lisboa. é calmo, é bom viver, é tênue. sou também eu planta. lanço a plaquete "A casa dos nietzscheanos" no Porto.
volto para São Paulo. entre muitas outras coisas começo a ler mapas astrais profissionalmente. mês que vem faz um ano. a memória aqui fica rarefeita porque é recente e se agita tão íntima que
não quero mais contar em público. além de marcar o evidente de que no último julho minha avó morreu num clarão & ela também tinha esse Saturno. nós? não entramos em pânico, vivemos da estrutura no lodo luminoso. as crises nos ensinam quem somos. descobri muitas coisas, poderia fazer mais sínteses, mas já escrevi, literalmente, demais. mais, talvez, do que eu devesse. na solidão do indivíduo aprendi a linguagem com que se comunicam. mas isso de falar demais é minha turma em Sagitário que eu vou ter a oportunidade de aprender muito bem quem são com a passagem de Saturno em tal signo nos próximos anos.
depois desta passagem de Saturno em Escorpião revelei isso a mim mesma: nada me interessa mais do que a intimidade & justamente por isso nada é de se preservar & usar, mais, ao mesmo tempo & com diferença. meu novo livro não tem um poema sequer que fale só de mim mesma como esse texto. nenhum uso do "tu" ou de "você" como estratégia de enredar emocionalmente um outro. nenhum poema de amor. meu novo livro fala da morte com uma lancinante paixão pela vida que está em tudo para além de mim. e eu quero terminar este livro antes de Saturno entrar em Sagitário daqui 7 dias. conseguirei? 
azul luminoso também é o deus hindu de pedra que vi. cheio de compaixão e frieza. te esperarei voltar! daqui 28 anos, espero que eu esteja & continue disposta a entender que o que estrutura dá o rumo. 












segunda-feira, 7 de setembro de 2015

ainda

calor sadio
alternativa o coração rio
corre dentro
corre fora
o córrego foi embora 

suspiro suo rio esqueço
meto águas no sofrimento
as éguas bebem sim
o tabaco limpa tudo por dentro
sou eu meu recomeço
escrevo pra soltar
o rumo vai desabrochar 

fazia muito isso quando era adolescente
escrevia pelo rumor o som um fulgor ascendente
só veio depois.
eu não conseguia dizer nada que tivesse sentido e som ao mesmo tempo
fortes 

depois a faculdade teceu a racionalidade dos textos
a faculdade de letras me ensinou a escrever, sim
porque nela eu aprendi a fazer sentido
escrever sobre textos foi um exercício fundamental
para aprender a escrever nada funciona além de escrever 
é por isso que eu treino muito

no fim da faculdade decidi que era isso que eu amava fazer
que eu sou isso
escrever 

mas foi só com a ayahuasca
entrando na minha vida
isso já deve ter uns dez anos
que consegui conectar
soltura gesto desejo tesão
ritmo esquecimento sentido
memória tradição vontade
inconsciente afirmação
& muita ambigüidade
& muita abertura
& muita canalização
nos textos

agora estou atrás também da medicina

divago abismo rito mito
preciso deixar disso e atentar ao não fixo
estou viciada nas formas que conheço
não encontro fórmula nenhuma onde não padeço 

curioso. curioso.
sempre reaprender para esquecer.
fazer para reaprender. 

eu mesma não me interesso muito mais
do que pela experiência
nas mínimas coisas 

você sabe por onde eu ando?
sempre pelas minimas coisas.

às vezes ainda não deixo os outros falarem
não enriqueci
não vou enlouquecer 

tenho mais tensão do que medo
entre meus rigores está a flexibilidade
o limite e também a aceitação 

sou muito grata por ter visto a morte
e também muito agradecida pela nuvem ter saído de cima da minha cabeça 

minha cabeça aberta pelas nuvens
enfurecida e calma

nos trinta e um ritmos que tenho no meu coração
jovem ainda o suficiente
espero que por muito tempo
ainda 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015


terça-feira, 1 de setembro de 2015

ontem à noite voltando do tai chi sentia que toda a velocidade em que eu tinha entrado tinha saído compartimentada pela continuidade do movimento de tudo e cada pedaço meu estava numa parte. a agitação virou fragmento. meu antebraço? um fragmento. só que minhas partes reunidas por cotovelos joelhos a vida e a morte. eu vinha andado na rua bem na parte em que os postes caíram e estava tudo escuro e tão raro dar pra ver a luz da lua nas coisas da cidade. nos fones o drummond começou a declamar "os ombros suportam o mundo" e eu achei aquele poema uma bobagem. nunca antes na minha vida eu tinha achado o drummond uma bobagem, fiquei por um momento pensando-o como um exagerado. pensei "nossa que cara nas trevas", "também não é pra tanto" e, afinal "que metáfora exagerada para o desespero do excesso de controle"... bem, hoje perto da hora do almoço fui fazer algum movimento com o pescoço e a tensão que eu estava na omoplata ontem a tarde Subiu e veio parar nos ombros. resultado: torcicolo. o drummond tinha razão, como sempre, "os ombros suportam o mundo", suportam a cabeça. o peso da cabeça não é nenhuma metáfora. carlinhos, seu outro nome, seu nome verdadeiro como a noite é perigo.
uns poemas do meu novo livro que ainda não saiu: aqui
já esta noite sonhei que eu estava no meio da revolução francesa, guilhotinas e agitações, fogos queimando alto e eu atravessava a revolução francesa dando uma aula sobre a revolução francesa na qual eu dizia que a unidade do eu é uma invenção moderna a ser descartada. e uma guilhotina cortava a cabeça de alguém ao meu lado.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

dois dias atrás eu tive um sonho que não tinha começo meio e fim, era um sonho cíclico e sempre se repetindo e ao mesmo tempo eram só episódios que não tinham consecutividade, mas aconteciam em paralelo, eu saltava de um cenário e acontecimento para o outro, ou talvez eu estivesse neles ao mesmo tempo.

eu estava, ao mesmo tempo, numa cerimônia que acontecia no porão de um navio descendo o amazonas; assistindo um documentário dos anos 80 sobre as fábricas de armamento nazista num cinema de poltronas cor-de-rosa; numa reunião da ONU em que duas pessoas faziam sexo na porta da sala de reunião.

sim, isto é a minha vida.
 
isto significa que não escrevi uma dissertação em vão, e também que tudo que ando lendo sobre mitos há uns anos tem realmente atiçado minha forma de pensar e isto já chegou ao subterrâneo das coisas.

e isto também quer dizer que tenho acordado todos os dias com cada parte de mim num lugar diferente & e para isto, meus amigos, hoje achei uma nova simbolização

a cada coisa que reclamava para a médica chinesa ela me respondia "é fogo. fogo alto". o fogo está alto, as partes se atiçam e agitadas que ficam em compor uma nova pessoa entram em atrito e causam inflamações, pavios curtos, euforias, agitações. todos nomes clínicos pra algo muito mais interessante do que isso.

*

a saída da linearidade, aos saltos.
o luto tem me ensinado que realmente não existe "superação"
existe é crescer como uma árvore que primeiro se enraíza, para depois subir.

*

darei frutos, sim os darei
hoje estava empacotando umas coisas pro correio e percebi que o universo de coisas materiais que já fiz no planeta (para além de comida) já preenche alguns centímetros cúbicos. fiquei capricornianamente feliz. 

*

ia dizer mais coisas, mas basta dizer que sinto que encontrei a prática que eu tanto desejei: tai chi chuan. anoto aqui pra quando no futuro eu ler eu me lembrar de quem sou agora.

mosaico

tenho perdido os conectivos
eu sou a dona do exagero
ele vive sem coleira
eu não, tenho mandíbula
ouvidos e repelentes

anda difícil lembrar as vezes o que veio antes o que veio depois
clarão foi tanto
estou lembrando das coisas em episódios
talvez um dia eu desfaça a linearidade
de vez

ou só estou amalgamando outra
sendo decorrente
o sono agitado
por muitos sonhos de quem não sonha
comigo mesma
ou a metamorfose

estou. estou. estou.

sólido é o vento que leva as coisas embora
que traz as coisas embora

profundamente.

entre hoje e terça serei cinqüenta mil e todas elas estão a fim de viver & de viver mais & de viver melhor 

saúde!

quinta-feira, 27 de agosto de 2015




hoje de manhã peguei um ônibus pra ir até o metrô que eu acordei cansada, tenho acordado cansada depois de um dia tão bom de afazeres como foi ontem e o ônibus era um ônibus do século XIX e eu não usarei nunca mais o facebook pelo celular e me lembrei que depois eu gostaria de dizer isso por aqui: que eu hoje estive num ônibus do século XIX e isso sequer existiu em SP. 

ou uns dias atrás 1 português me disse que SP não é uma cidade, é uma ocupação provisória de um parque de campismo & então eu estava pensando nessas coisas e tentando, de algum modo, me sentir de férias no meio de tempos que em nada se parecem férias quando uma menina falou pra outra, já dentro do vagão do metrô "é sério, eu sinto tesão em quem ouve beethoven" e eu pensei "meu deus, estou ouvindo coisas, vou ficar mais perto para ver se é isso mesmo que ela disse".

e era, senhoras e senhores, a menina de uns 20 e poucos anos (faixa etária que se tornou "os jovens" para mim faz bem pouco tempo, o que ainda me é completamente aterrador) dizia pra amiga que sente tesão em quem ouve beethoven. eu tive certeza nesse momento que eu estava no século certo e percebi que tinha saído de casa sem sutiã sem perceber e pensei que maravilha "não estou só ficando velha, estou ficando livre" duas coisas que, muitas vezes, se combinam naqueles que eu admiro.

aliás, dia desses meu pai não cumprimentou uma pessoa que eu me senti na obrigação de cumprimentar, eu não sabia muito bem o que dizer pra ele, que rapidamente me olhou e disse "estou velho, isto tem que servir para não cumprimentar pessoas arrogantes". meu pai também vive citando uma máxima de goethe que diz que os modestos são velhacos, mas ele só diz isso quando alguém não aceita repetir o prato de comida e, sobretudo, se alguém não quer comer a sobremesa.

é como as crianças acreditam: o melhor está no açúcar, mas tem gente que faz disso achar que a vida é cor de rosa. gente, acorda, a vida não é cor de rosa. mas quando dou chocolate pros meus sobrinhos comerem eu entendo porque no supermercado aqui em frente os chocolates ficam trancados num armário junto com as giletes e as garrafas de álcool caras, mas eu nunca entendo porque os desodorantes estão lá também. será que cheirar desodorante dá barato? as pessoas pensam em cada coisa.

o século XIX não acabou, agosto ainda é o mês de omulu e recomendo a todos que comam pipoca com os mais velhos & mais novos, que a carne desse planeta somos nós, vamos tentar não ser a praga, ok? e a última coisa que eu vou dizer nos próximos dias é que o maleável é o bagulho & como setembro vai inaugurar uma época em que o mutável será o ponto de questionamento & pelos vistos a palavra "crise" substitui a "recessão" dos anos 80 nas notícias televisivas da minha infância acabou que chegou o momento do Brasil investir na produção de chá de lúcia-lima. serião, faz a maior falta no coração dos nossos ânimos.

sábado, 22 de agosto de 2015

Os antepassados não nos imaginaram aqui
e embora nos esqueçamos deles com certa frequência
podemos visitar os seus túmulos.
Ou, no mínimo, podemos lembrá-los
saber que não estaríamos aqui sem eles
já o contrário não parece ser acessado.
O passado é menos incerto do que o que virá.
Quem poderia alterar o acontecido?
Haveria um deus capaz de apertar o auto-reverse?


*

Como epicentro o mundo
e as réplicas: nossos corpos
pela terra tragados em vagas.

*

nada se supera, tudo se transtorna.
ou o luto é um estado uma ilha crescendo à deriva e chegando ao continente
formando uma nuvem no alto das palmeiras das minhas omoplatas
as cadeiras foram feitas pra que eu me sente
as camas foram feitas pra que eu me deite
o amor pra que eu sinta falta
e tal sentir pra que eu me acostume.

os gatos parecem acreditar em outras coisas,
embora eles também tenham amigos imaginários
e saibam que não podem contar com botes infláveis.

*

houve um tempo que ao voltar pra casa eu pensava que ela teria se incendiado.
hoje estou mais de acordo com o que penso
compro montes de isqueiros por vez
e o fogo o interior sou eu ardendo.


sexta-feira, 21 de agosto de 2015


entre os rituais do luto vive o cinema
— e no cinema vive woody allen:
tenho assistido muitos filmes dele —
nesses dias da senhora das nuvens de chumbo
quando muitos dias bate sol
eu sonho com uma nova casa
em que o quarto principal tem vistas para um deserto
e o deserto vive num cubo
& quando vier a chuva também nosso amigo
woody se perguntará
como sempre:
se há algum sentido em viver
além de um correr indistinto em direção
à indesejada das gentes?
& se a iniludível nunca tem ouvidos pra ninguém
de que adianta se perguntar em voz amiudada ou maior,
perguntar em voz alta
como acontece em todos os filmes do woody?
que em algum momento alguém se pergunta
muitas vezes diretamente para a câmera:
qual o sentido da vida?
por que a vida tem que acabar?
se vai acabar por que é que a gente tem que viver?
como viver vivendo o tempo todo esquecendo e lembrando disso?
e a gente ri que em alguém essa questão possa eclodir o tempo todo
virando cinema.
e então a repetição dessa angústia é engraçadíssima.
que dom! transformar a angústia em graça.
só a cura e a arte são capazes disso
e o menino que foi woody crescendo
numa casa embaixo de uma montanha-russa
nervoso & atento a tudo que fosse pensável
descobre que o universo está se expandindo
e no meio do brooklyn o menino não consegue fazer mais nada.
não quer ir à escola não quer fazer a lição de casa nem comer
porque o universo está se expandindo
qual o sentido de tudo?
se o universo está se expandindo.
meses atrás eu soube que hoje se sabe que o universo é finito.
e eu fiquei bem confusa com essa possibilidade de ali na frente acabar
embora seja impossível chegar até lá pra ver.
e tento passar agora os dias rindo com uns filmes do woody allen.
porque não quero ser o menino que cresceu embaixo da montanha russa.
também nunca quis ser menino embora eu queira ter graça.
quero ser é a montanha russa expandindo no universo finito.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

os últimos dias de Saturno em escorpião

angustiada com a escassez monetária ou a incapacidade de tornar o prático a ordem do dia a dia ou a busca da satisfação contra a melancolia em espiral já estava quando abri a janela pra ver com estes olhos o céu azul pardo desta cidade fuligem e pó e as estrelas pouquinhas mas suficientes e uma brisa sutil mostrou-se vital ao alívio --- e os gatos vieram me acompanhar no ver da noite tantas vezes senti frio ou quis o prático momento de pelo hábito enrijecer esquecer do fluido levar-se por ver a noite e os gatos cheiravam a noite como eu alguém gritou na rua longe um palavrão qualquer e que importava nada além de ser mais uma madrugada de domingo pra segunda quando no mundo todo é domingo e no domingo o mundo todo despenca. já eu, não, pois vi a noite. e a noite era viva e eu também. pelas estrelas enviei mensagens aos mortos que me amaram e quis abraçá-los pela ternura que me faltam. assim como das estrelas aceito a distância. que mais? não cai a lágrima cristaliza na retina. tenho saudades.

domingo, 16 de agosto de 2015

postagem

Conta-se que Jung e Freud ainda amigos, chegando na América viram do navio os que avidamente saudavam no porto as suas chegadas. Um olhou pro outro e disse: "mal sabem eles que nós trazemos o mal". Muitas vezes quando vejo algum oba-oba em torno de algum poeta lembro dessa cena primitiva da intimidade psicanalítica. Daí observo os escritos em questão & se os escritos da pessoa em questão não sabem morder o mal entre os dentes, seja como flor ou pavio, lareira ou túmulo, tal "poeta" não recebe esse nome, não é um poeta. É alguém que escreve. E tantos fomos alfabetizados! Mas se ficar só chafurdando nessas profundidades do terrível também não é nada mais do que uma mosca do lixo zunindo na podridão. Embora tenha um momento em que cada um percebe que é tão só uma mosca no lixo. Um momento, um agora. E nunca se está livre de, talvez, de repente ter que voltar a ser mosca. E há água limpa para jogar por cima do corpo e beber para dentro das vísceras e há luz para as plantas crescerem, a luz que aquece o planeta. Estar em toda permeabilidade, ser do raro, do vigor sensível entre o critério & a liberdade: ser poeta é ter a respiração mútua entre o momento e sua deriva oscilante, respirar entre o dia e a noite. Às vezes confundir-se com qual é qual e enovelar-se nas sombras queimar asas no sol e ao lembrar respirar fundo de certeza e se enganar numa percepção de que nunca mais vai esquecer de que o dia e a noite a terra e o mar o fogo e a água o bem e o mal a vida e a morte não são excludentes, embora sejam muito diferentes.

*

Alguém muito interessante poderia perguntar: mas o que é o mal? e talvez eu respondesse que é como o tempo na definição de santo Agostinho: se não me perguntam eu sei, mas se perguntam não sei. 


*

O poeta é um agenciador
agencia tão completamente 
que chega a agenciar a dor
a dor que deveras sente.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

P O E M A

Quando tiver forças voltarei
a escrever à máquina
para contar desses pés que vejo crescendo
à sombra de algo maior.
Alguém diria que são mudas frágeis
e embora este alguém esteja aqui dentro
eu diria que não são não
mas também não me mando calar a boca.
Serão o conhecer de uma nova estação
onde o coração ainda é o que importa
e tudo o que é vivo pulsa
na minha mão que o libertou pela janela
pulsa o beija-flor que prendi em concha
e que antes me olhou com minúsculos
dois olhinhos de ternura do ateu.
Ai da desavisada que puxando os brotos
para ver se as raízes já se fixaram à terra
interrompendo o ascender da seiva
verá a nuvem se esvoaçar em névoa
fazendo o ninho no rolar da fúria
e embora eu não tenha a sabedoria
sei que ainda falta muito
para que ela me visite.
Quando for a minha vez
talvez eu sinta medo
talvez eu vire assombração
mas talvez, não, eu
seja o clarão que vi.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

domingo, 9 de agosto de 2015

* "não há nada que seja previsto que ainda não tenha sido visto"
* "porque a gente sabia que só os absurdos
enriquecem a poesia"
* "ela faz o ninho do rolar da fúria (...) para quem vive e canta no mau tempo"

sábado, 8 de agosto de 2015

uns anos atrás quando a coisa apertava pro meu lado eu sempre ia ler beckett, achava (e ainda acho) que ali existe tudo que realmente existe. mas poucas coisas mudaram tanto na minha vida nos últimos tempos como a palavra "realmente" e, realmente, de uns tempos pra cá, quando a coisa aperta eu vou ler a "odisséia".

é claro que uma concepção de mundo é atravessada por outra quando uma mudança assim acontece. o novo mundo engloba, come e lança regurgitado de deuses e vitalidades & diversas o antes o durante o porvir. 

dia desses vou entrar aqui e escrever sobre o destino de ulisses ser um, mas estar traçado por disputas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

quinta-feira, 6 de agosto de 2015


eu tinha acabado de sair de um prédio e subia a rua vivendo uma série de revelações espirituais & oraculares enquanto o panelaço atravessava pelas janelas e sacadas, algumas até piscavam! estavam no ritmo veloz & cadenciado das coisas que eu estava entendendo, e as sacações pareciam palmas naqueles bateres de tampas, tanto que eu por um ou dois minutos me senti subindo o meu destino como quem atravessa o ritmo, ai pisando os passos: um caminho, o meu caminho nessa frente indo adiante, e um rapaz passou dizendo AI AI AI tsc tsc tsc pros habitantes de potentes caçarolas e e eu ri e eu ri e então eu senti aquelas panelas como telhas de cascos batendo subindo o asfalto desses tempos, e fiquei tão esmagada entre o meu caminho e as manadas desembestadas da história. nesse dia que, sem mais nem menos, a bomba atômica fez 70 anos de atirada.

a montada, o veículo, a nave

A noite leva ao dia
abandona suas origens
para se elevar aos céus.

Impetuoso é o desejo dos grandes relógios naturais.

Em pleno meio dia levado
pelo vigor da sua corrida
galopa às cegas
de olhos muito abertos
procura evitar os pânicos.

Mas à noite quando
por sua vez
se torna cego
pode então ser
visionário e guia.

passo a passo

não reconheço entre os meus mais que uma centena e me sento com a sentinela acesa, queimando rodopio, mas não sei quais insetos espanto e quais agrego: no sangue chupado, nesta necessidade de dizer "eu" e uma situação constante de subir para cair / de cair para subir. já faz tempo que aprendi a escrever por aqui sem pensar em muita coisa, sem me profissionalizar em nada, porque é isso, é isso, é uma liberdade não ser eficiente o tempo todo. o que é quase impossível. porque parar sem ter o que fazer é uma irrealidade, e ontem mergulhei no mar o único possível o real. o sentido da palavra realmente mudou tanto para mim em menos de um mês. acho que já disse isso por aqui. estou tecendo uma a uma em cordões e entradas as palavras feito grutas escavadas. desmonto quinze dias de tristeza numa só palavra que se diz: sim. não posso agora com muito. nem com muita alegria. ontem eu estive, antes de ontem também, estive visitada pela alegria e que força que beleza e que ressaca esse dia seguinte. não almejo a constância e nunca penso em termos de salvação, mas pé quente, cabeça fria, boas horas de sono, uma cidade menos poluída. almejo um dia entender o ar porque o ar tantas vezes por minuto é um dos sinais vitais.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

a memória é uma casa que se visita pra trocar as chaves. é uma noite de lua cheia que te leva para um lugar sem nome. um estado, uma viagem, um-todo-lugar, um desvio, um abismo, lareira e percurso.

meu mergulho.

ao entrar no mar me lembrei de um outro julho quando, era de noite, e minha Vó me deu uma prancha de surf vermelha. no dia seguinte ainda era inverno, estava frio, e era preciso estrear a prancha, mas o dia garoava solenemente. vovó não se deu por desperdiçada: embaixo de um guarda-sol, com uma capa de chuva e um guarda-chuva voltado contra o vento ficou lá da praia, me olhando, os minutos que eu no mar cinzento ignorava o frio e "surfava" nesse mesmo outro mar onde hoje mergulhei e mergulhei com gesto de homenagem ao que se vive e perdura em nós. pela memória sempre limpa, mergulhar. no sal. na cor. na dor. e no amor.


a memória é o mar - e vice-versa.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

neste ano que estão a me quebrar o sol ganhei um novo sol.
amanhã vou ver o mar
e é o mar da minha infância.

domingo, 2 de agosto de 2015

atenção para o refrão

Senhora soberana da escarpa rochosa em declive
em outros tempos diríamos: os deuses estão furiosos
hoje não sei o que dizemos.
Espatifamos as xícaras no chão
elegantemente não
esquecemos das mudanças de estação

Como epicentro o mundo
e as réplicas: nossos corpos
pela terra tragados em vagas.

terça-feira, 28 de julho de 2015

no tic tic tac

entre os acontecimentos desta semana realmente agora pouco me aproximei de um animal que se debatia contra uma grande janela de vidro. minha mãe é que me mostrou, e eu achando que era uma mariposa, a minha curiosidade se enterneceu ao perceber que se tratava de um beija-flor.

me aproximei calmamente dando a ele entender a minha natureza ou a natureza da minha aproximação. suave ele me olhou de volta sem agitar as asas, sem nunca pensar em me esconder ou mostrar qualquer coisa, ele estava ali e eu estou aqui. sou destra e fui abrindo a palma da única que o alcançava, minha mão esquerda me aproximando lentamente do bichinho voador. quando fechei a mão o beija-flor se encaixou, ficou, me olhou com a simpatia de um cão. e tão veloz seu pequeno ser coração era uma bateria batendo entre os meus dígitos. que alegria pacífica.
 
saí pra varanda, o mostrei pro gustavo, olhei suas penas pretas mescladas de azul e verde fosforescentes seu bico preto pintadinho, seus olhos pequeninos
cheios de confiança
abri a palma da minha mão e imediatamente o beija-flor voou. livre.

sábado, 25 de julho de 2015

e-mail para m.

owwwwww a merda rolou em cima de mim, depois passou um rolo compressor de cocô, seguidos de baldes de bosta & então eu me vi como o nosso belíssimo saturno manda nessas situações: LIMPÍSSIMA de luz translúcida.

sério, essa semana foi punk. caí no balde em que o aquiles é colocado pra ficar protegido mas acho que o resultado foi o contrário, fiquei com a cabeça pra cima. e como tá desde o começo de julho assim, eu tô baixando as orelhas pra ver se não vem aí um helicóptero e corta com suas hélices o topo da minha cabeça.

mas tipo saio pra por o lixo e o vento venta & que alegria é o vento! estou viva! eu amo o vento! meu deus! que lindo vento! que lindo vento que me empena as costas! minhas costas só podem estar empenadas porque estou viva!

e o milton aqui cantando: "que tragédia é essa que cai sobre todos nós?".

e hoje fui ver a xxx no ateliê dela e ela quase morreu ontem à noite num acidente de carro. quer dizer, o carro deu perda total e ela e o namorado não sofreram nenhum arranhão.

em outros tempos diríamos que os deuses estão furiosos. hoje não sei o que dizemos.

mas eu sei que escrevi um livro que só fala da porra da morte e daí tô dizendo "acabei" minha vó morre nas minhas mãos. é claro que não vou publicar esse livro antes de escrever um poema sobre isso. falta um poema. que pode demorar meses, anos. mas é isso. isso é um livro, isso é a poesia e é isso, viver a vida.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

julho

dia desses reli no meu caderno / agenda que sempre tenho comigo há anos e onde escrevo sempre que as mãos tenham o ritmo da tinta da minha caneta que curiosamente a.m.m. e m.c. usam igual / galopes que estouram: estava lá escrito:

1.7

julho será um longo mês. o primeiro julho em oito anos em são paulo. o primeiro inverno em são paulo em tanto tempo.


não sabia que seria tão longo esse julho.
quando eu era criança tinha muitas dores de ouvido em julho.
e muitas vezes o que me curava era muito chá de camomila.

desde que julho começou tomei litros de chá de camomila pra ver se melhorava. e foi o último chá que minha vó bebeu e fui eu que fiz pra ela. devia ter feito erva-doce, que ela sempre me dava quando eu era criança e eu não gostava muito, mas aprendi que era um gosto bonito de se sentir porque era o que minha avó me dava. agora já não posso ver camomila que eu choro.

não deixei do que sempre associei camomila à claridade dos dias de verão. era isso que a camomila me trazia dentro do corpo quando eu era criança: a tranquilidade de uma brisa leve num dia quente.

lembro de uma trilha no Gerês, noutro julho, onde era verão, que subimos uma montanha gigantesca, infindável, antiquíssima. e quando chegamos lá no topo não existiam grandes promessas conquistadas além do corpo tomado pelo oxigênio dos músculos, e a delicadeza portentosa de um imenso campo de camomilas que tomavam o sol e a chuva primeiro do que todos que estavam lá embaixo.

lá no sol me deitei. e adormeci.
talvez tenha ido embora um resto de saliva que eu não sabia que tinha ficado no canto da boca e o guardanapo levou; ou talvez tenha sido algo mais sério, como o dente que mora no terceiro olho da gente. de todo modo caí numa encruzilhada com todos os meus dentes. veio uma luminosidade tão grande que quase me cegou. outros na frente do que eu vi talvez vissem a destruição, que eu também vi, mas a fineza da vibração da diferença entre o que ainda se realiza e aquilo que não se realizará lembrou-me o quanto o desconhecido é uma imensidão de energia. e estou tanto noutro lugar que tenho receio de que as pessoas também não consigam mais me ver. a não ser aqueles que se solidarizam. a profundidade. há também os que desaparecem. uma coisa que eu pensei essa semana foi: de que adianta matar deus se é pra ficar assim depois angustiado quando a morte acontece? me deu vontade de dizer isso na cara de uma pessoa. mas uma vontade muito pequena como são as vontades agora. há mais necessidades: entender o clarão no sentido de não recusá-lo & afinar os passos dessa reentrada. cuidado mais que nunca com os abismos que eles são ralos com dragas de duzentas vezes mais força. e um espaço entre meio espaço e entre meio espaço e um e meio espaço aberto aberto aberto. porém o desabamento não sei se já acabou ou se a cada réplica do sismo ele vai destroçar mais duzentas coisas. a sensação de que minhas mãos estão sujas desapareceu com o passar de duzentas vezes sabão, mas o receio de esperar alguém que está no banheiro, não. não posso ver camomila que eu choro. e quando olho pra trás observo esse texto e a sensação é de que já andei duzentos quilômetros a mais no meu fôlego do que realmente andei. realmente, o realmente, a minha compreensão do que quer dizer e do que é o realmente mudou completamente em muitos poucos dias. e estou pisando em ovos. se eu acelerar todos eles quebram e o terremoto ainda não parou. it means: urano. um golpe de espadachim e furo dez olhos, mas estou desarmada, e o vento é capaz de me fazer chorar pois estou viva. e neste lado ainda: lutando por isto.

sábado, 18 de julho de 2015

sonhei que estava numa colônia de férias
e meu nariz começava a jorrar sangue
me levavam pro médico que fazia atestado pra usar a piscina
eu ficava em dúvida se aquilo iria funcionar
até ver o médico
um chinês muito velho
com uma barba muito comprida
daquelas que afinam na ponta.
e em cima da mesa dele um tigre de porcelana
do tamanho de um pórtico, gigantesco.

daí o doutor me dizia:
—presta bem atenção que vou te dar a receita da cura.
e eu:
—tá bom, a cura? se o senhor puder anota também.
—anotar só em chinês, tá?
—tá...
e ele:
—a receita da cura é muito difícil: presta atenção:
tem que sentar e ficar ouvindo música sem fazer mais nada.

e me deu um papel cheio de ideogramas.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

escrevi como se o inconsciente tivesse virado um passarinho que vinha vindo, vinha vindo comer na minha na mão & a minha mão era uma fonte de água no sol das 4.

*

a primeira coisa que me atropelou semana passada fui eu mesma, depois uma encruzilhada de bactérias & aí vieram as drogas fortes: os antibióticos & aí entraram pra luta uns vírus respiratórios. então eu tive que entender quem estava ao meu lado e quem é que não estava ao lado daqueles a que podemos chamar de "quem" naquela luta, & então a memória veio à tona escavocou esburacou & cada noite era um emaranhado diferente do que já foi & e quanta escuridão há num corpo doente & quando lá do outro lado eu vi aquilo que destrói & convoquei as plantas! que só podiam vir por fora, que por dentro era a terra do sintético mas vez ou outra elas assobiavam com o vento & isso também é correr atrás do vento & tive medo como se estivesse numa poça d'água amansada se agitando & eram muito a mesma coisa & eu tive um impulso de um telefonema & então eu encontrei uma medicina & então eu pude voltar & eu assim eu vim com a minha sorte. e a felicidade foi tão grande que tive de conter o entusiasmo, porque ando aprendendo que às vezes com a sua velocidade alucinante porque eu o amo ele vem e me toma & me ama & depois me derruba na cama.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Idola Fori

Eu sei diversas coisas
saber é afinal a minha única preocupação
Sei pouco de manhãs
mas talvez possam dizer de mim que amei o mar
e cada árvore que me viu passar
e insistir na vida como uma canção em voga
Quem mais que eu
quem foi esqueceu?
Estamos malfeitos pronto
Para quê a doçura no olhar
de uma mulher certos dias?
O morno calor do sol rasante pelas tardes
de setembro na senhora da guia
senti-lo em abril numa sala voltada ao poente
de súbito sabendo de todos os papéis
ou outra eternidade que não essa
Talvez ouvir egmont sentindo-me importante de repente
ou então conversar sobre o poeta à beira de água
chegar a mangualde ao pôr do sol
ou a duas igrejas na semana santa
ouvir os sinos na matriz vizinha
cheirar madeira nova nas gavetas
fechar a porta sobre todos os cuidados
cantar a triunfante juventude
Não mais andar perdido de ano em ano
Não mais a morte questão para ociosos
à tarde no café dos reformados
Oh quem dera ser católico
ou pelo menos morar alguma vez
em lisboa ou nos arredores de lisboa
Não há remédio nenhum
esqueci-me de tanta coisa
Sei que isto não é grande coisa
mas nenhuma outra coisa me é dada
O que é preciso é que não doa muito
Depois que me escondam na terra como uma vergonha


- - -

Ruy Belo

quarta-feira, 8 de julho de 2015

urano |_ sol

a vida é isso: você vinha correndo desenfreadamente daí reparou que era preciso lutar contra o ritmo dessa cidade um pouco então: intervalar os encontros os trabalhos. passaram as maiores responsabilidades e antes delas acabarem no meio do furacão você teve uma gripe tão horrorosa que um arco-íris seria pouco pra contar as cores que te saíram do meio do nariz. no meio disso uma experiência mística em uma religião que não tem nada a ver com você. sonhos que enterrariam um avô já morto.

então você melhora quando volta pra casa, você já está em casa. outra maratona de dias. passada ela você pensa assim: vou fazer aquilo que eu mais quero: terminar meu livro. escreve-se desenfreadamente. chega na hora de dormir você não dorme você tem a bexiga cheia. daí escreve-se desenfreadamente e você pensa "também vou aproveitar pra descansar, eu vou voltar (sem voltar atrás) e vou repensar todo o ritmo da minha respiração." então você não se sente doente você se sente feliz as pessoas ao teu redor todas brilham são teus melhores amigos desde outras duzentas gerações. nisso tua melhor amiga te ensina que aprendeu que a palavra "obrigado" significa o que tem dentro de todo "ob" manter nesta circunferência. "observar", p. ex., "manter em observação"; "obrigado": "manter em estado de graça". você pensa: nada me interessa mais do que manter algo em estado de graça: estou obrigada.

você precisou interromper um processo muito intenso devido a grande intensidade do estado de graça místico que é viver. sentiu-se furiosamente triste e furiosamente feliz. sou cinquenta sou cento e cincoenta etc. todos os gatos te sorriem e você pensa assim: "taí, tem um cachorro sempre me acompanhando". mas ele não está lá. então você embarca furiosamente numa espécie de transe da lucidez até que você não aguenta mais entender tudo tão rapidamente e fecha a porta e conhece a morte então você abre a porta e por ela entram todos os seus vícios. minha amiga que é xamã me disse isso uma vez: você abre a porta pra um vício, entram todos. não, não vou te contar quais são meus vícios.

a sensibilidade? um dos treinos, um treino nunca é um vício. me impressionou muito no documentário da nina simone ela dizer que nunca pensou a vida em termos de escolha. isso parte teu coração assim como quando você consegue começar a dizer tudo na primeira pessoa. na primeira pessoa do singular, outro treino. mas você não consegue. ainda bem. imagine ter o coração partido a cada minuto. você não consegue parar embora você saiba que você precisa porque afinal essa velocidade toda é só uma impressão de ótica, um olhar uraniano sobre a realidade. você sabe que urano em áries na tua vida é como se o primo do interior viesse de botas sujas de bosta de vaca cheias de capins novíssimos pisados e sempre capazes de germinar uma faísca de germinar um incêndio de novidade. e esse teu primo coloca os pés em cima da mesa, da tua mesa de trabalho, aquele seu trabalho de sempre passo a passo está lá com seu primo do interior dançando feito o fred astaire dançaria o "on the corner" do miles davis.

esse teu primo vai se hospedar por aqui coisa de um ano e meio. ele acabou de chegar. "eu preciso descansar pra que esse primo não me derrube", você pensa, então você para de pensar por que o que é pensar? ah! você faz, afinal, você "nasceu" pra fazer. e você faz as coisas com um cão de um lado, um cão ateu, e do outro lado esse primo puxa teu cabelo porque quer brincar de cavalinho com você. ele já está saltando nas suas costas. pensando bem você até gosta. pensando bem eu até gosto. então você se anima com tudo e sente a necessidade de pular na jugular do primeiro que aparecer e dizer NEM VEM mas você sempre gostou de dizer NU VEM. então você pensa eu vou dormir porque eu finalmente posso eu vou acabar o meu livro porque finalmente é preciso e faço. e faço. e faço.

então você não consegue dormir de tanta dor no rim esquerdo, rola pra um lado, rola pro outro, a cabeça dispara então você se levanta, coloca um livro na mochila, pede um taxi por um aplicativo e vai às 4h da manhã pro hospital com dor no rim esquerdo. você vai sozinha, você só avisa alguém de que está lá às 8h da manhã, você passa 5 horas no hospital mas não vai acordar ninguém, afinal você nem pensa nisso, só repara depois voltando pra casa, você cresceu e está doendo mas também não é pra tanto, marte nem chegou ainda, ele só vem no fim do mês. depois de cinco horas detectam uma infecção mas te dizem que é na bexiga só, que o rim foi um devaneio, uma ansiedade, uma paranóia.

então você se pergunta por que você sempre sente os sintomas? os sintomas de tudo, os sintomas do mundo: antes? deve ser por isso o constante aviso: quando a água se agita demais no profundo, minha filha não se segura: terremoto: aprende a voar. e agora é isso, aprender a voar, não romper os tendões de Aquiles como sugere a bula do remédio. ok, uma semana, uma semana compromissada a estar flanando num sofá.

terça-feira, 7 de julho de 2015

a indústria diz eu curo e o poeta? ai que escuro!

escrevam poemas como quem vende pirulitos
enquanto as farmácias vendem drogas mais convincentes
com a desculpa de matarem bactérias
escrevam mesmo escrevam mais escrevam
ai eu fiz isso aqui mas isso aqui não serve para nada
talvez sirva de cortina
mamãe eu trouxe um poema talvez sirva de bandeja?
ou o julinho, ali atrás? o desocupado; peçam pra ele,
talvez o fantasiem de palhaço
que desgraça ele anda ele atinge a praça ele escreve versos: 
amor nunca tive & o que não tive me deixou
& blablablá vivo a me mudar em cima do meu sofá & blablablablá 
& cita um vivo: um renomado, outro esquecido & depois até que é inteligente
mas OLHA não honesto: os honestos não saem bem na foto, e os que não saem bem
bem bem bem bem estes vão para o céu com Hölderlin &
só finja e finja mais um pouco como quem finge
quem finge na reta final o gozo o açúcar o perdão
vai remoendo circulando finja!
um verso palavrinha palavrinha vai dando
um poema! redija na forma mais altiva
e o chupe o chupe como pirulito
deixe ali
no canto não
com os cacos de vidro & eu não
eu não mastigo de boca fechada &
é, ele faz uma jocosidade qualquer &
lambendo um pirulito redondinho
e vermelho como o botão do fim do mundo
nessa rodada: duplo cowboy!
vamos gastar mais umas árvores? vamos!
pirulito gozado só gira na boca do mais certo
mas o que é o mais certo?
é o capaz rapaz que articula dez palavras
num só girar de dígitos
teclados bancários & afins
palmas para ele!
atravessando bits um efeito despedaço
bateu as asas levantou voo, voou?
estampado numa notícia: quem acreditou?
escrevam poemas como o alucinado fantasiado de anjo
que subiu no carrossel e disse: a mesquinhez
é o algodão doce dessa festa!
& nesses murais & nas bancas de jornais & as vitrines coisas & tais
só os legitimados! só os legitimados! circulando circulando
carimbados como touros! os passaportes!
sucesso & cana de açúcar para todos
andy dizia: forever não: cinco minutos de fama & eu direi:
cinco segundos a mais na cama, por favor & eu direi:
aos destroçados: façam mais!
as farmácias estão vendendo drogas com efeitos mais poderosos
enquanto a indústria diz eu curo & o poeta diz ai que escuro! & diz:
& diz & diz & diz & diz
a mesa do café está posta 
a rainha que não há não foi deposta & toda a vidinha blablablá
sou tão especial & escrevam
pra que ela — a vidinha — não seja exposta
& pra que a ternura! ah! a ternura pelo menos
a ternura! tenha resposta
mas o que você pode prometer? em troca?
te escrevo sobre aquilo te prometo ligar com os certos te prometo
ai me dá um pouquinho do seu fermento
ah um efeitozinho royal flush no coração
ai me poupe isso eu não faço não
enquanto as farmácias vendem drogas mais convincentes
escrevam poemas, é uma farra! é uma festa! é uma sexta! 
escrevam poemas como quem vende pirulitos.

domingo, 5 de julho de 2015

enquanto uns tentam fazer sentido, outros fazer sucesso,
alguns provocam o riso outros os jornais,
prefiro mesmo é fazer pesquisa nos meus versos.
o que eu pesquiso? longos tecidos do mútuo
esquecimento & arbusto.


*

& um novo livro que não tem nem um nenhum n1 poema de amor. e tem tanta esperança. tem muito fruto, água. tem órbita e abóbada. tem animal & humano & vegetal. ah! então tem amor mesmo sem ter. é o que se tem em tudo.


*

quem também acha impossível
pensar lendo jornal
me dá um balão de ar de presente?
pelas minhas perspectivas pesquisas espectantes
até o fim do ano pretendo ganhar uns 200
e, espetando cada um deles, espero
alcançar outro nível de vínculo
com a atmosfera.

terça-feira, 23 de junho de 2015

uma das coisas mais fodidas do sofrimento é que ele, por dar mais peso, parece ser mais real e, sendo mais real, maior merecedor de sentidos do que a alegria.

quantas vezes a lucidez que acompanha o sofrimento percorre concatenações que criam motivos e razões e sentidos e lógicas?

o alegre por si só é um bobo que gosta de fazer sorrir outro alguém, por quê? por nada, oras: a alegria não precisa de nenhuma legitimidade, motivo qualquer para existir, ela simplesmente é. como uma pluma, é certo, móvel, volátil. ou, mais resumidamente: "tristeza não tem fim / felicidade sim".

segunda-feira, 22 de junho de 2015

na berma do caminho

Ver assim: a escrita é uma passagem: a gente deixa passar: dizer: eu estava no ônibus uns dias atrás, voltando desesperadamente para casa, o quanto eu precisava de casa. E na autoestrada, vi bem de noite, na margem contrária, uma menina (desconfio) andando toda encapuzada, sozinha, no acostamento do outro lado. Ela parecia ter em frente um farol, embora estivesse, discretíssima no escuro fazendo da estrada a sua linha reta, como se mudasse de cidade no escuro, ou atravessasse um período de necessária solidão, ou fartou-se do carro e foi adiante como vamos: com os pés. Era ela uma guardiã da noite, muito de longe, eu passando ao contrário e em outra velocidade, me peguei pensando que talvez talvez ela tivesse desmontado o porta-malas de um carro e aquela mochila que ela levava nas costas era, profundamente, o seu próprio escondido. Tinham dezenas de olhos que olhavam para o seu escondido, mas todos estavam cegos. Profundamente auxiliadores. Eu a vi por menos de cinco segundos e hoje ainda me lembro perfeitamente de como admirei sua audácia e torci pela sua segurança. Não sei quem ela era, talvez a perdição que ela se meteu me desfizesse irremediavelmente o ser quem sou, talvez o acaso que a colocou naquela estrada nunca pudesse ser o meu, porém tive certeza que sua indescritível fé no ir adiante nos tornaria, para sempre, irmãs de rumo e luz. Isto sem falar no belo capuz.
Na berma, que é uma palavra muito melhor do que acostamento, eu mesma não estou acostumada a fazer sentido quando escrevo: o planejamento não me serve de trajeto, digamos toda escolha é arbitrária, a razão engendra subterfúgios, é melhor não tentar alguma coisa lógica, ser só essa antena a que chamamos vida. Você então só sabe falar falar e falar difícil? Difícil, ainda por cima, querendo contar uma história completa, mas só tem rumores.

as línguas bárbaras

em sonho eu caminhava por entre duas camadas de terra, escrevendo essa frase agora me lembrei que eu escrevi um livro que fala da escavação de um túnel, as coisas que podemos nos esquecer. e que lembramos de nos lembrar. amassei uns ramos de planta no profundo de uma tigela, para um preparado verde, que mais tarde vou tomar: ela ajuda na absorção de outra plantas: planta: aquilo em que não me vou tornar, embora seja a única coisa que me interessa fazer nesta vida: que elas me ensinassem a viver harmoniosamente entre luz & sombra: vento vibrando. vulnerável eu sou, três vezes minha garganta inflamou, é como se eu estivesse a dizer o tempo todo: falo, depois penso: a velocidade do esquecimento. neste momento me coça a base do pescoço: é porque estou efetivando o meu desejo: escrever. hoje, que era meu primeiro dia de descanso, corri o dia inteiro, até o banco eu fui: pagar o que estava em atraso. mas hoje não quero falar de dinheiro. 

é como se um besouro estivesse se deslocando na minha faringe: eu sei, quando um poeta ganha uma nova personalidade ele, ela, no caso, eu não ganho só uma nova pessoa em mim, mais disruptiva talvez pela via da sinceridade, recebo é uma nova forma de dizer: eu. todas as formas de dizer eu me interessam, é por isso que, via de regra, respeito a paixão de qualquer um que vive e tinha paixão? sim. sou dessa turma. não estou ausente, não, estou só um tanto quanto agitada. queria exclusivamente me sentar nas minhas próprias coxas e ler, ou escrever, mas as próprias coxas saíram antes, foram não sei para onde, isto que tenho aqui não são próteses, são as minhas coxas, mas ainda não são as minhas. embora sejam. 

acho que estou escrevendo excessivamente "embora". minha eterna vontade de fugir tem diminuído com o passar dos anos. talvez, como as maiorias, eu esteja me tornando um capitalista, embora nenhum sofá, atualmente, consiga me prender por muito tempo, quase sempre porque estou resolvendo algo de muito fundamental & ao mesmo tempo prosaico. tão prosaico quanto sobreviver. queria ter raízes e ler a Odisséia, alguma coisa que me trouxesse de volta a mim mesma, mas isso é tão só uma movimentação do desejo como qualquer outra ausência. três páginas de prosa me entendiam, doze me fazem querer mudar de país, cento e cinco acho que morri!... e a poesia? leio pouco meus contemporâneos, afinal já respiramos o mesmo ar, deve ser suficiente. 



embora os emboras ando escavando quer dizer repentinamente ouço num buraco da minha memória alguém me estendendo a mão: sou sempre eu mesma: que tornei a voltar e a voltar e a voltar: enquanto amassava os galhos da planta que sou e portanto me protege (tudo que sou é meu amuleto): lembrei das plantas que eu amassava quando criança, num pote com água, muitas marias-sem-vergonha (ou qualquer outra coisa que eu não saberia ainda, se iria ou não, me tornar), trevos de 3 folhas (a sorte que me sobra me faltou para ver de 4) e depois, um tanto quanto frustrada porque ninguém via aquela magia e nem eu mesma era capaz de perceber o perfume, tudo ficava na intenção. com o tempo vamos aprendendo certas técnicas, por exemplo a de que a frustração não leva a nada que não seja radicalmente transformador e a transformação é, em si, uma raridade. embora não exista nada de mais interessante do que ela. nem o meu atribulado imaginário povoado por séries do netflix saberia perceber algo tão rumoroso, verdejante do que aquilo que estala.

no jantar também, peguei a coxa de frango com as mãos e com os dentes parti os pedaços de carne que eu desejava para dentro de mim, o óleo que vem parar nas mãos é só uma opção de que os talheres são um privilégio desta era, mas que poucas coisas sabem tão bem do que meter a mão num pedaço de bolo, ter na ponta dos dedos um chocolate meio derretido, o eterno prazer da alimentação, minha preferência pelas coxas acima de qualquer outro pedaço e, subitamente, transportada fui para a sala da casa em que cresci. foi a segunda vez no dia de hoje. não é todo dia que temos no máximo 8 anos, mais uma vez. o medo de dormir passou. o coração continua.

domingo, 21 de junho de 2015

Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

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Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 20 de junho de 2015

morte ao meio-dia


No meu país não acontece nadaà terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

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Ruy Belo
 

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