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terça-feira, 13 de junho de 2017

hoje fiz algo arriscadíssimo: li em voz alta e em público meu poema preferido do fernando pessoa (e este é do alberto caeiro) e trechos do cântico dos cânticos — atribuído a salomão — na tradução da fiama .

me diverti tanto.

cada dia mais entendo que é a parte solitária da vida que nos toca num poema, mas através do grande ser vivo em comum que existe, que é o comum da linguagem verbal, a linguagem do verbo como encaixes do que vai vibrar pra um ou outro.


acho impressionante quando estou em cerimônias de ayahauasca e não entendo nada do que o xamã canta na língua dos shipibo ou dos huni kuin e de repente alguém fala uma palavra numa língua que eu entendo. a palavra aparece sempre como uma chave de fenda, um martelo, uma pinça. a palavra muda tudo.

ando a cada dia mais atenta às vibrações que sinto no meu corpo enquanto convivo com as pessoas, elas permitem com que eu conviva sem tanto medo dos outros. e essa coisa de estar em público trazer o ressoar das moléculas num em comum — enquanto lia o caeiro sentia a alegria de haver palavra, quando li o cântico a alegria de que a palavra possa ultrapassar a si própria, a palavra-transe, a palavra-eros.

quando lemos um poema toda a linguagem de uma vez atravessa este corpo-espaço, através dos afetos sensações rumores jogos lógicas o nonsense. o poema projétil — o poema pedra.

se toda alegria é compartilhada dar a voz é um lance muito louco, a voz de um poema imenso ilumina a garganta e — durante esta travessia — abre os canais todos.

fica tudo aceso. o poema é uma tomada, afinal.

domingo, 19 de outubro de 2014

incorporando pessoa - parte 1

estudo astrologia faz uns 15 anos. só queria dizer que acabei de me confrontar com o fato de que o drummond e o belchior tem mapas astrais parecidos. acho que vou chamar o fernando pessoa pra conversar sobre esse assunto.
como seria a i no vo ca ção (a invocação cheia de novo, sem nostalgia) do poeta? se o próprio fernando se sentasse na cadeira ao meu lado, como se ela não fosse a sintética cadeira de madeira com desenho de violão cantando canção dos anos '60,  mas sim uma namoradeira de pedra de algum segundo andar da rua de são mamede e se de algum jeito o próprio fernando falasse comigo: olá, Júlia.  Fernando assinaria "com os melhores cumprimentos"? ou, faria assim lindo:
"Seu,
Pessoa."
nada disso, pois ele já está sentado ao meu lado. vejo uma cadeira vazia, não escuto a sua voz, nem ele está aqui mesmo de verdade... penso que estou frustrada. vou ter que chamá-lo novamente:
Seu Pessoa, 
por favor, venha até mim pra conversarmos sobre o mapa astral do Belchior e do Drummond. você não os conhece, mas eles o conheceram. diria mais: diria (por favor me dê o seu coração que pensa tanta quanto sente): eles passaram a vida a te amar. vamos ver os mapas deles juntos?
aguardo com carinho a sua mensagem. 
beijo!
júlia.
 

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