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terça-feira, 13 de junho de 2017

hoje fiz algo arriscadíssimo: li em voz alta e em público meu poema preferido do fernando pessoa (e este é do alberto caeiro) e trechos do cântico dos cânticos — atribuído a salomão — na tradução da fiama .

me diverti tanto.

cada dia mais entendo que é a parte solitária da vida que nos toca num poema, mas através do grande ser vivo em comum que existe, que é o comum da linguagem verbal, a linguagem do verbo como encaixes do que vai vibrar pra um ou outro.


acho impressionante quando estou em cerimônias de ayahauasca e não entendo nada do que o xamã canta na língua dos shipibo ou dos huni kuin e de repente alguém fala uma palavra numa língua que eu entendo. a palavra aparece sempre como uma chave de fenda, um martelo, uma pinça. a palavra muda tudo.

ando a cada dia mais atenta às vibrações que sinto no meu corpo enquanto convivo com as pessoas, elas permitem com que eu conviva sem tanto medo dos outros. e essa coisa de estar em público trazer o ressoar das moléculas num em comum — enquanto lia o caeiro sentia a alegria de haver palavra, quando li o cântico a alegria de que a palavra possa ultrapassar a si própria, a palavra-transe, a palavra-eros.

quando lemos um poema toda a linguagem de uma vez atravessa este corpo-espaço, através dos afetos sensações rumores jogos lógicas o nonsense. o poema projétil — o poema pedra.

se toda alegria é compartilhada dar a voz é um lance muito louco, a voz de um poema imenso ilumina a garganta e — durante esta travessia — abre os canais todos.

fica tudo aceso. o poema é uma tomada, afinal.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

gosto dessas madrugadas. passei grande parte da vida que já vivi achando que eu era uma pessoa notívaga e talvez eu até fosse, atravessei toda a adolescência com algum disco que pontiagudo fosse até o âmago de alguma densidade. anos depois também migrava pela noite dentro, até o reverso.

fumava, bebia água gelada, ouvia gal costa e janis joplin, coisas que não faço mais, ou não faço mais dessa forma. lentamente vou me tornando uma pessoa das manhãs, a cada ano acordo mais cedo. embora das noites eu goste, eu gosto delas tanto que permito que me comam, que me abocanhem. tem seu perigo.

tento, como eu tento e todos os dias, descultivar as angústias e eu tenho muitas angústias e as noites as ampliam como latifúndios em que é possível se caminhar. sou só um corpo pequeno no escuro, o escuro não é possível mapear. fechar os olhos, escutar.

e como eu gosto, gosto mesmo das madrugadas pós-feriados eufóricos, glutões, excessivos. eu adoro a madrugada que é agora: do 25 para o 26 de dezembro; ou a noite em que se vira do dia 1 de janeiro para o 2.

são noites infinitas silenciosas, enfastiadas, melancólicas, exaustas, enxutas. quando alguma ressaca de tudo que se viveu se apresenta numa corda bamba e há um mergulho no finito, no inevitável, que tranquilidade, parece que finalmente tudo dormiu.

faz silêncio essa noite e eu também.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

"o risco de fazer a escuta dos dias não é falhar no projeto, nem na execução. mas nos dias. viciar-se a ver/ouvir, notar/perceber e achar que enxerga quando só há resgate no inédito. inédito no sentido de desconhecido,
só há resgate no desconhecido
só há necessidade de resgate no desconhecido
ou nos tempos diferentes entre as pessoas. no intervalo
de que erram.
há também no enfraquecimento uma força ou na vulnerabilidade.
serão as pedras permeáveis?"

escrito no início de dezembro de 2011, no meu caderno que não é público como este blogue,

terça-feira, 21 de junho de 2016

abri este computador universo gélido no mais frio da noite quando meu pulmão ressoa e minha bexiga revela-se um comumente chamado corpo
são os mesmos lugares dele que ecoaram em adoecimento profundo no ano passado
as vésperas e nos depois
da morte da minha avó em 19 de julho de 2015
falta um mês para fazer um ano

*

eu vim aqui dizer umas coisas com liberdade mas aí abri o facebook 

*
hoje abri ao acaso um trecho do zaratustra em que ele fala sobre os poetas. eu li muito rapidamente como atualmente leio a maior parte das coisas que leio. eu sei que esse não é o melhor modo de ler mas no fundo não estou nem aí pra isso. muito rapidamente eu sou pisoteada por todas as ligações da linguagem que um texto quer produzir comigo. sou como um plugue de tomada na parede, conectando com o que ali me atravessa. elétrica.
zaratustra diz que os poetas de tanto falarem pela natureza pensam que a natureza é que está encantada por eles, poetas, que afinal são uns pavões que gostam de pavões.
foi o que eu entendi por hoje. foi o que eu quis entender. outro dia leio novamente e vou entender outra coisa. às vezes acho que o que eu entendo daquele momento é mais importante do que o que está sendo dito. estou me tornando só sensações. sensações críticas, mas sensações.
é claro que o zaratustra faz uma fábula crítica maravilhosa, uma capa cínica poderia pingar rancor ali, mas eu não. me reconheci em cada linha daquele trecho. não senti que ele estivesse inventando coisas, nem que não estivesse sendo violento comigo, escabroso com os outros, eu poderia citar um trecho como uma espécie de "recado". mas eu não jogaria pavões na cara de nenhum outro poeta, pelo contrário, eu cozinharia os pavões para comer e os adoraria passeando no meu jardim, adornaria minhas paredes e pernas com suas penas e os deixaria procriarem livres. nasci pra me lambuzar em pavões.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

sou uma poeta sem inéditos e assim eu me sinto como uma poça sem água. conheço meia dúzia de mandingas, noite dessas sonhei que o chão virava água, mas não sei, novamente, como é escrever e é por isso que eu tenho escrito qualquer coisa por aqui. que é pra manter a máquina rodando. uma vez li uma entrevista com o Gonçalo M. Tavares em que ele dizia que antes de começar a escrever, ele escreve durante 3 horas seguidas. "pra ligar a máquina". escrever é antes/durante/depois de tudo um gesto.

em Lisboa tive a sorte de ter aulas de escrita de romance com o Gonçalo M. Tavares, que é tão inteligente que conseguia ensinar os alunos a pensar, a ver, a observarem a diferença entre ver e olhar e observar, mas não a escrever. as apresentações de trabalhos de curso de escrita de romance de GMT eram orais.

não cheguei a apresentar nenhum trabalho, as aulas sobre Hamlet me consumiam toda a energia e chegaria a dizer que aproveitei algumas deixas interiores pra desistir de tudo algumas vezes naquele ano. seis meses antes eu tinha terminado o mestrado e um livro inteiro, os dois ao mesmo tempo. nunca vou ter coragem de reler minha dissertação e meu livro ao mesmo tempo, mas eu sei que há uma ponte, um vale, um rio entre eles, que os une. talvez eles sejam a mesma coisa.

e eu fico tão obcecada num só objeto, daí o objeto fica pronto, eu morro. e é sempre uma morte lentíssima a ressurreição. então eu só escrevo não é nem pra passar o tempo. é porque quando escrevo não tenho a mínima ideia do que estou fazendo. e é isso, o que eu amo.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

na antevéspera da morte da minha avó, no ano passado, eu sonhei o que está aí no link. passei os meses seguintes a sentir a morte pairando por redor alto em cima tudo nuvem chumbo & eu resistindo com música.

adoeci umas semanas antes da minha avó morrer (na minha vida grandes adoecimentos tendem a anteceder acontecimentos tenebrosos, não é a primeira vez que me acontece) e achei que o sonho falava disso. mas não. o sonho, como a doença, antecipava o futuro. o sonho do dia 18 de julho me dava a receita para atravessar o pós-19 de julho.


sei que hoje, quer dizer, nesta última noite, sonhei que estava no mesmo consultório que no sonho de 10 meses atrás. só que dessa vez estava com a Lisa, uma enfermeira de medicina chinesa que já me ajudou algumas vezes a ficar bem de modo muito humilde e pouco ostensivo. eu estava deitada numa maca, a Lisa vinha com um sorriso e a Lisa me enrolava a coluna numa posição como um caracol, envolvia minhas pernas no meio do meu pescoço, até que eu fiquei completamente confortável.

quando atingi o conforto total, que paciência, que ternura por existir num corpo, a Lisa me desenrolou calmamente, eu então percebi que tinha deixado a posição fetal em que estava e a Lisa disse "pronto, você acabou de nascer, agora você é você mesma". e eu acordei, muito agitada, porque nascer, vamos combinar, nascer é muita coisa ao mesmo tempo agora.
cheguei no poupatempo pra habilitar meu título de eleitor cerca de 3 horas da tarde, uma fila gigantesca chegava até a porta de entrada, fui pedir informações no balcão principal, voltei pra fila da porta de entrada, a atendente da fila. sim, uma atendente no final da fila (o Brasil não para de me surpreender, cada final de fila tem uma pessoa responsável por ficar no fim dela explicando pra quem chega que aquela é a fila exata, sim, ou não) me diz "a última pessoa que vamos atender nas próximas 2 horas é este senhor aqui"; eu respondi "esse senhor na minha frente?" e era, e eu tinha chegado 4 segundos depois que o senhor na minha frente que era o último da fila. desgraçados sejam os segundos que levam ao imprevisto.

resolvida que não voto desde 2008 e determinada a que isso não continuasse assim, perguntei que horas eu conseguiria ser atendida. não satisfeita com a resposta "volte amanhã", insisti e ouvi da atendente "talvez às 17h voltemos a abrir para atendimentos, vai depender da demanda do sistema".

e eu "demanda do sistema? mas como vocês dizem que ficam abertos até às 19h pra esse tipo de serviço e faltando 4 dias pra o prazo final eu só vou ser atendida se uma 'demanda do sistema' funcionar?". com o nada feito da demanda do sistema (what a fuck? não consigo lidar com esses conceitos ambulantes que viram triviais verborrágicos), resolvi ir até o mercado da Lapa, que é um micro lugar de preciosidades, por exemplo eles vendem as melhores velas de 7 dias que alguém já pode ter encontrado, cachimbos e sedas a preços módicos, e tem as melhores lojas de ervas que já vi: duas, uma em frente da outra, com tudo fresco. ervas pra culinária? também. mas ervas pra medicina. e as plantas têm uma capacidade muito curiosa de cuidar tanto do emocional como do espiritual das pessoas.

no mercado fiz uma hora, entre outras coisas descobri com o rapaz da loja que "canela de velha", a planta que uma senhora comprava, serve para osteoporose. não conseguia discernir com tanto verde sendo vivo ali ao dispor e com tanta especificidade de ervas frescas comprei um trivial ramo de arruda bem farto, enfiei no bolso do casaco e voltei pro poupatempo, sem não antes dar uma olhada em pijamas, que o frio chego. entro no poupatempo com o ramo de arruda no bolso esquerdo, grandão gigantesco, eu a samambaia ambulante do amuleto, voltei, agora vocês vão me atender. não eram 17h, eram 16h20 e como eu desconfiava, já atendendiam novas pessoas. a fila estava minúscula, colei no fim dela.

aí no fim dela vem outra atendente que me diz EXATAMENTE a mesma coisa que de 1h30 antes. eu falei "amiga, não tô acreditando que hoje é meu dia mesmo, também quem mandou trabalhar com astrologia e vir aqui justamente no dia em que mercúrio foi completar a turma da retrogradação de vez e 70% do sistema solar tá andando pra trás?!!!! e eu esperando justiça eleitoral...". quer dizer, eu sorri e expliquei, e argumentei e fui simpática e exigi os meus direitos e reclamei e sorri novamente e fui ficando no fim da fila até, simplesmente, entrar pra área dos que iam ser atendidos porque eu me parecia um deles. uma mulher atrás de mim fez a mesma coisa. o Brasil é mesmo dos gregários cheios de jeitinho.

quando eu já estava com senha a atendente voltou e me disse "isso que dá ser esperta e discreta, outra pessoa não tinha conseguido" & a mulher do guichê comentou que dava pra sentir o cheiro de arruda de muito longe, mas que ela achava que vinha de outra mulher e eu reparei que a outra mulher era negra e pensei "o que pensar disso?". então olhei bem pra arruda enquanto ela conferia meu endereço e preenchia no sistema cheio de demandas, quando percebi que o cheiro de arruda tinha aberto minhas vias respiratórias e eu tinha parado de espirrar porque deusnosacuda esfriou eu resfrio, tô pra renascer numa roupa de astronauta mas enquanto isso não acontece tô me valendo mesmo das arrudas & afins, cada vez mais são as formas mais imediatas que encontro de regeneração.

sei que umas duas horas depois eu estava conversando com um atendente que me dizia pra eu não reclamar da foto que ele tinha tirado porque no inverno é a época que as mulheres se vestem melhor e eu tive vontade de mostrar pra ele a quantidade de kleenex usado que eu tinha no bolso, mas sorri e falei "vai essa mesmo", enquanto pensava "jesus no título que cara de que fumei seis que eu tô". quando o rapaz me deu finalmente meu novo título nas mãos eu disse "é esse papelzinho? só isso? nossa, foi tão fácil, que emoção". ele riu. e eu pensei "vai ser a primeira vez que vou votar na cidade em que eu nasci".

quarta-feira, 27 de abril de 2016

depois de um copo de água morna a primeira coisa que eu vi hoje de manhã foram umas mensagens do Ribão fazendo uma amorosa resenha do meu livro por WhatsApp do outro lado do oceano, eu ainda não tinha tomado café e não entendi nada, enquanto eu não entendia nada uma menina me escreveu perguntando se eu dava consultas de "orientação espiritual" e eu pensei no que não faço e é tanta coisa testes vocacionais nem falo que elx vai se divorciar ou não só porque é o que a ansiedade paga pra ouvir, mas à pergunta dela eu respondi que "sim".  tivemos também que arrumar o estoque de livros e descobrimos que uma cadeira apodreceu e que um gato mijou no obelix d'Aquele quartinho. aí eu ajudei um homem muito bonito e conversei com nosso amigo advogado amigo e fui me sentir atrasada com algumas coisas gravei um vídeo que vai passar até no Peru recebi umas coisas às quais não consegui reagir e finalmente o Daniel Faria chegou aqui em casa comi cogumelos e depois comi bife que proteína não me falte quando me sinto em colapso, passada essa parte deitei com as pernas pra cima, não entendi nada das notícias nacionais. minha mãe está gripada meu pai está bem quando falei com ele ele reclamou de alguma coisa mas eu não prestei atenção direito no que ele estava falando e no final do dia falei com minha sogra no telefone que me disse que eu faço muito bem para o filho dela e averiguei no site da justiça eleitoral o que é preciso fazer pra que eu saia da situação de indigente cidadã perante as urnas que vão dar nisso que já deram, mas, olhe, são tantos planetas retrógados no céu é por isso que tudo está muito lento agora revisando rewind é uma espécie de vento ao contrário e eu sei com um só gesto como fazer chover cometas e meteoros da ponta dos meus dedos se tenho as palmas das mãos muito abertas.

sábado, 9 de janeiro de 2016

das situações mais exóticas que já vivi foi na Bahia. estávamos na praia com o Veneno, um cão que eu gostaria que fosse meu, ou espero um dia ter um cachorro tão fiel e inteligente como aquele.

nos aproximávamos dos corais e eu vi, lá longe, uma menina com alguma coisa amarrada num anzol, colocando essa coisa indiscernível no meio das pedras marítimas. percebi no veneno uma flexão de narinas peculiar e quando pensei "hora de colocar a coleira nele", ele já havia disparado e ia correndo em direção da menina.


chamei, gritei, nada, o Veneno foi no seu alvo: a menina não, embora ela tenha entrado em pânico pela fama de ser malvado que aquele cão tem naquela ilha. mas era nada, Veneno era antes de tudo um revirador de latas de lixo na madrugada, e foi direto na isca que ela pendurava com um fiozinho de nylon amarrado numa varetinha e engoliu.

eu corri na direção deles, então a menina saiu correndo em direção da mãe e dizia "ele comeu!!! não vamos ter o que comer!!!". eu não sabia com o que entrava mais em pânico e perguntei "tinha anzol na isca?" e ela com a mão "DEEEESSSSE TAMANHO", e o anzol tinha o tamanho de um polegar e estava na isca que o Veneno tinha engolido e que o fio de nylon não permitia que fosse parar muito longe.

então o cachorro começou a chorar. a menina também, começou a chorar. eu, como não choro nessas situações, abri a boca do Veneno e meu marido enfiou a mão na boca dele e começou a puxar o que estava lá dentro pra fora.

"é frango", disse a mãe da menina. e o Veneno gania de dor. eu já imaginava o anzol cortando a garganta do Veneno, ou a língua caso a gente conseguisse arrancar, me imaginava numa lancha a caminho do hospital veterinário mais próximo, e tendo que, ao mesmo tempo, arranjar alguma coisa pra que a menina comesse, quando entre puxão e tossida, o cão regurgitou aquilo que tinha engolido numa só vez. o anzol, graças as graças, estava completamente escondido dentro da carne do frango.

um cão é um animal forte: engole um anzol dentro de um pedação de frango com osso e tudo numa bocanhada só e depois o vomita e está tudo bem. a menina ficou felicíssima de que o frango tinha voltado a ser a isca pra ela.

nunca consegui imaginar o que é que aquela menina pescava num coral com um pedaço de frango daquele tamanho, sendo que ela poderia comer o frango, ou seja, devia ser algo mais substancioso. ou especial. não sei.

só sei que tenho feito tanta coisa na vida que eu não esperava nunca ter de fazer, que às vezes só posso entender que a realidade é um anzol num pedaço de carne dentro da garganta de um cão chamado Veneno.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

desde muito pequena me interesso pelas formas do espírito: a imaginação veio primeiro. o excesso de imaginação foi, inclusive, um sintoma de diagnóstico e linhas diversas. da homeopatia à psicanálise. hoje se assustam com a retenção muscular de que sou capaz. elas por elas, noves fora, quem sofre mesmo são os meus pulmões. dentes fracos, cariados. pulmões cheios de catarro. no entanto esse brilho, esse brilho de entusiasmo pelas formas da matéria que se jogam nas coisas.

a cada dia mais associo ego com fazer. chegam a me dizer "sabia que não é preciso sempre fazer alguma coisa diante de alguma situação?". não, eu não sei. e adoeço por exaustão. olho bem nos fundos do escuro e reconheço: é o exato oposto da potência que eu senti, da capacidade de ação que eu tive, do êxito que eu executei. então fico assim: aos rastros, retalhos, confins. entende-se com isso que não é que tenho a saúde fraca, é que eu a gasto.

tenho percebido que é por aí, na modulação da potência, é que vou aprender a não morrer cedo. mas não sei, não sei se tenho aprendizagem suficiente no meu destino. sou da turma dos que acham que já entenderam, a cada dia me interesso por menos coisas, mas a abrangência de mundos: me interesso sobretudo pelos reinos vegetais e animais faz com que eu me interesse a cada dia por mais coisas. a expansão é uma das minhas regras. a contração é o que tenho que aprender.

até hoje tem sido na marra. ou no transe, no êxtase.

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há muitos anos me interesso por oráculos. não há nada que eu procure mais do que o êxtase. estou pra sempre inafiançável na turma dos delirantes, os que têm por sintoma a imaginação. adoro o espetáculo íntimo do transe. nasci entre o vermelho e o alaranjado mas, como sou uma intérprete, tenho vocação para serpente e todas as cores do arco-íris pra consultar na palma da mão, na retina, na atmosfera. estou, sempre, pela transformação.

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canja de galinha não faz mal a ninguém,

domingo, 15 de novembro de 2015

dizem que uma pessoa, um escritor, quando está em seu caminho, tem uma experiência ritual da coisa toda. uns precisam chutar uma pedra pra terem aquilo a que outros vão chamar de "insight", a caneta exata, o papel de um guardanapo, dias mais dias viajando, chás, cocaína, béques, música, silêncio, máquina de lavar funcionando, dieta de carboidratos, lerem textos acadêmicos, lerem os jornais, uma casa no campo, a brisa do vento, etc. antes de escrever eu? passo perfume.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

ontem quando cheguei em casa cortavam as árvores do vizinho. a companhia de energia elétrica e a companhia de engenharia de tráfego agindo em conjunto decepando radicalmente o que anda derrubando o funcionamento dos faróis do cruzamento.

lembrei-me da Julia Panadés numa das reuniões de pauta aberta que tivemos no Baldio chamando atenção pro fato de que as árvores urbanas ganham formatos impressionantes por conta das podas absurdas. desde que a Júlia falou isso eu nunca mais olhei as árvores das cidades da mesma forma. é impressionante como elas tomam o caminho de crescer em respostas possíveis à nossa brutalidade. desviam, se refazem, são pulmões que se ramificam por onde der & vier. 



depois me lembrei das ocasiões em que meu pai queria assassinar os cortadores de árvore da prefeitura de Cotia que passavam, sei lá, uma vez por ano, e podavam as árvores da selva que meu pai plantou no canteiro da frente de casa. os caras cortavam o suficiente pra que não precisassem ir lá durante um bom tempo. metros e metros de árvores abaixo. e quando eu digo "assassinar" é claro que não estou brincando e também é claro que bem se sabe como as pessoas de letras costumam assassinar as outras: com grandes argumentos violentos, pensamentos ramificados e juras que na materialidade das coisas quase nunca se cumprem. somos os lúcidos ingênuos de sempre. mas a cada ano entendo mais as vontades que meu pai vive de assassinar as pessoas que mexem descuidadamente em outros seres vivos.

ontem foi bonito de ver que a árvore do vizinho se intrincou tanto nos fios elétricos que era impossível cortar um galho dela sem levar toda a rede elétrica abaixo. não cortaram. é claro que isso um dia vai fazer o poste cair e passaremos muitas horas sem luz (e poderemos ver a noite que existe na noite E podermos ver a noite que existe na noite). se eu tivesse um carro talvez me preocupasse com o trânsito que isso vai causar, mas como morro de medo de dirigir, estou a pé. se estiver trânsito eu farei o que eu faço: andarei, escolhendo as vias mais arborizadas possíveis. até mesmo pra que eu possa aprender com as árvores, de tanto observá-las, a como responder às nossas brutalidades.

mas também há certos toques de gênio: na frente de casa havia uma paineira que, por ser propriedade da União Federal nunca ninguém encostou um dedo nela. e embora o google street view não mostre mais a selva da frente da casa em que cresci (aliás, será que alguém tem foto da frente da nossa casa antes de a "urbanizarem"?), a paineira ainda está lá, mais alta do que nunca, atravessou os fios, os brutos, as eletricidades & lá em cima porque é desde aqui debaixo a paineira está. e ela é. as plantas são mesmo como outras línguas, não separam o ser do estar.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

saturno em escorpião

outubro de 2012, fui de madrugada ao banheiro branco da casa que morávamos em Lisboa e meio dormindo vi um cérbero azul luminoso ao meu lado. luminoso de escuro. era de pedra e era transparente, brilhava & era discreto. uma fera, uma carranca, era um cão na entrada de um palácio, só na manhã seguinte quando abri a internet eu soube que Saturno havia mudado de signo. Saturno tinha entrado em escorpião naquela madrugada.
novembro vou a uma cerimônia de ayahuasca e danço com as mãos. cerzindo meus órgãos a minha mão é a minha mão mas eu de imediato sei que esses são gestos que sobraram do corpo do meu avô no meu. uma experiência dele atravessou uma geração e de repente tenho acesso a ela. 
resolvo escrever um romance que irá se chamar "a história do meu avô". vejo a história inteira numa noite. quando a tento escrever não consigo.
janeiro de 2013 defendo meu mestrado. viajamos para a Bahia e eu escrevo um ensaio sobre "herança".
algures entre março e abril um xamã canta para mim o seu/meu ícaro. acho que nada está acontecendo. aparece um iceberg na minha visão, um iceberg entra no meu horizonte. gigantesco. eu tento atingir com o olhar o seu topo e demoro a conseguir focar o alto. quando alcanço do alto abre-se uma labareda de fogo nos céus & que como uma lâmina atravessa o topo do iceberg. a língua de fogo que vem do céu abre o gelo em dois. o iceberg derrete pelo meio. 
abril de 2013 lanço o "poemas do destino do mar" em Lisboa.
fico muito doente no início de maio. sigo um conselho do meu irmão ariano e tomo um chá de alho com limão pra botar pra fora. boto tão pra fora que minha cabeça arrebenta de dor, meu corpo de febre, e eu tenho uma alucinação de que estou com a cara enterrada num cemitério onde estão enterrados todos os meus antepassados. minha cabeça dói porque tem os ossos dos meus antepassados.
não sei se é gripe ou alergia ao pólen mas o que estou não acaba. passam dias e nada resolve, vou numa cerimônia de ayahuasca e continuo resolvida que vou botar aquilo pra fora. não percebo que fico fazendo esse gesto de vomitar logo depois de ter pensado no que seria a natureza do "eu". o sol estava no signo de gêmeos e eu vomitei, sem perceber, um pedaço da minha identidade. 
dias e dias e mais dias e mais dias e mais dias sem conseguir fazer nada. Saturno conjunto a conjunção de Marte e Plutão do meu mapa natal. só consigo fumar maconha e não fazer nada com isso. não escrevo, não penso, sinto medo e não sei nem que eu preciso de ajuda. sinto como se os traços do meu rosto estivessem dez centímetros descolados da face, como se o meu rosto me pertencesse mas estivesse mais longe, talvez eu tenha deixado de ser titereira das minhas expressões. mas eu não sabia descrever nada na altura. minha sensibilidade tinha desaparecido.
lanço meu livro no Porto. num almoço com uns amigos, um rapaz cozinheiro tradutor de Victor Hugo e afilhado de uma mãe de santo da cidade de Mariana (MG) me recomenda chá de flor de sabugueiro com tomilho. em cinco dias tomando fico bem. axé!
início de junho vou a Barcelona ler meus poemas. aquela que nasceu da flor me leva pra uma cerimônia no campo. o curandero conversa comigo antes, me olha e diz "o que acontece? você é valente mas não está?", eu digo a ele que é verdade, falo com uma clareza vindo do meu mais fundo de mim que eu nem sabia que estava pensando. digo pra ele que preciso de pouco. dentro de um tipi com uma roda de fogo no meio eu percebo que a minha face está levantada do meu rosto. percebo que estou fora de mim mesma quando olho na palma da minha mão e vejo um bosque escuro. resolvo que só sairei quando o fogo tiver purificado as minhas mãos. toda a minha energia vem do coração. puxo, literalmente, com gestos voltados para cima do meu corpo deitado, puxo aquela vinda de mim mesma até o lugar onde eu sou eu. 
no dia seguinte escrevo para o meu psicanalista contando um sonho que tive meses antes e que falava de inércia e medo de crescer. para a xamã que cuida de mim escrevo falando que um pedaço de mim estava fora de mim. ela fica atentamente preocupada e me diz que da próxima vez tenho que ir duas vezes seguidas. 
começo a ir duas vezes seguidas, marco para dali poucos dias. na cerimônia o seu marido xamã quando canta seu/meu ícaro para mim vomita enlouquecidamente. no dia seguinte ele me faz entender em francês que retirou um véu de cima de mim e que ao abrir viu uma fila de antepassados querendo falar comigo e que quanto a isso ele não podia fazer nada: só eu poderia saber o que tenho que lidar com eles.
percebo na manhã seguinte que passei meses usando como colar um amuleto do museu de etnografia português, de xisto, quando procuro na caixa de colares encontro a embalagem com a informação "paleolítico // amuleto de conexão com ancestrais //". paro imediatamente de usá-lo.
note-se: em momento algum desta narrativa eu entrei em pânico.
continuo tentando escrever "A história do meu avô". 
vamos ao Gêres no fim de julho. início de agosto, voltando para Lisboa, penso em romper com tudo que tenho mantido em silêncio. no dia que a retrogradação de Saturno acaba e ele estaciona no grau oposto da minha lua em Touro tudo que pressurizei é dito: é chegado o momento da crise: é pegar ou largar. ele agarra. dias depois me pede em casamento numa manhã em que estou no sofá com cólicas menstruais e ainda nem tomei café. aceito.
faço a primeira purga de tabaco da minha vida. 
faço a segunda purga de tabaco da minha vida.
na terceira é outubro e vejo no fundo do balde a palavra NÃO. foi-se embora qualquer dúvida. no dia 19 nos casamos. no fim do mês lanço "O túnel e o acordeom". 
ouço "Alucinação" do Belchior o tempo todo.
novembro Saturno que atinge o grau 14 de Escorpião & no dia que Saturno encontra o meu Saturno dá um beijo de língua em si mesmo e eu escrevo o primeiro poema de "Seiva, veneno ou fruto // A casa dos nietzscheanos" — : "Voltar a estudar, não sei // mais compor meus poemas. Que alegria! Pela estrada voltar a fumar (....)". saúdo o retorno! sinto medo! o tempo todo! e me sinto a estrutura do meu mundo nos meus ombros. 
tento o ano inteiro escrever "A história do meu avô".
passam-se meses na logística da mudança. invento a playlist "exorcizar tristeza". danço-a todos os dias. meu computador quebra uns dias antes da mudança, perco meu HD e tudo dos últimos 8 meses. em janeiro chegamos no Brasil. faço aniversário com Marte em quadratura com o meu sol até então não sei o que isso significa.
março vamos para a Bahia. Netuno conjunto à lilith. fico surda. fico 20 dias surda. sinto medo medo medo medo medo. vejo coisas tendo ler as minhas. acordo dois segundo antes da entrada de alguém na nossa cabana, acordo ele ao meu lado, ele também vê um homem lá fora, eu grito com voz de macho e o ladrão foge. emprestam-nos uma cadela para nos proteger. Domitilia Pelegrina, a cadela, está grávida. uma noite a luz acaba sem previsão de voltar. nessa madrugada a cachorra cai da varanda e quase morre sufocada com a própria coleira. é ele que acorda com o barulho e a vai salvar. no fim da viagem os donos da pousada convidam-nos a voltar para cuidar dos cachorros e das casas enquanto eles estiverem fora. primeiro digo não. só deixo de estar surda ao ir a um pronto socorro em Lençóis onde quase estouram meus tímpanos com éter quente. 
a chapada de Diamantina é o lugar mais bonito em que já estive na vida. no fundo, estou cansada.
voltamos para São Paulo. vou beber ayahuasca no sítio. algumas vezes. decidimos ir aceitar a proposta.
em maio Saturno inicia a retrogradação. em maio vamos para a Bahia. Pelegrina morreu poucos dias depois do parto. temos 5 filhotes de cachorro de 10 dias pra cuidar, sem a mãe. temos que amamentá-los de três em três horas, mantê-los quentes mas não juntos, pois juntos eles se mamam uns aos outros e se perfuram e se se perfurarem os bernes tomam conta de tudo. o Coragem quase morre, eu chego a torcer numa noite para que ele morra de tanto que ele agoniza. uma hóspede resolve cuidar dele e consegue salvá-lo com reiiki e a ajuda do namorado farmacêutico & dos antibióticos, claro. salvamos as cadelas, trato a sarna do Fumaça, recebo hóspedes. aprendo o prazer que é simplesmente cuidar das coisas pra que elas fiquem bem vivas.
bebo o chá algumas vezes. acho HAHAH que sei o que estou fazendo metendo uma criança de 4 anos num tiroteio.
fins de julho Saturno retoma o movimento direto. 
nalgum lugar do mês  ir a Portugal fazer um retiro. dou um pulo em SP e vou para o Algarve no final de agosto. passam-se dos dias mais preciosos da minha vida e as noites sinto medo medo medo medo muito medo. no dia seguinte do fim do retiro o medo desapareceu e desde então, o medo que mais tenho desde criança, só o vi 4 ou 5 noites em um ano inteiro. passo vinte dias em Lisboa. é calmo, é bom viver, é tênue. sou também eu planta. lanço a plaquete "A casa dos nietzscheanos" no Porto.
volto para São Paulo. entre muitas outras coisas começo a ler mapas astrais profissionalmente. mês que vem faz um ano. a memória aqui fica rarefeita porque é recente e se agita tão íntima que
não quero mais contar em público. além de marcar o evidente de que no último julho minha avó morreu num clarão & ela também tinha esse Saturno. nós? não entramos em pânico, vivemos da estrutura no lodo luminoso. as crises nos ensinam quem somos. descobri muitas coisas, poderia fazer mais sínteses, mas já escrevi, literalmente, demais. mais, talvez, do que eu devesse. na solidão do indivíduo aprendi a linguagem com que se comunicam. mas isso de falar demais é minha turma em Sagitário que eu vou ter a oportunidade de aprender muito bem quem são com a passagem de Saturno em tal signo nos próximos anos.
depois desta passagem de Saturno em Escorpião revelei isso a mim mesma: nada me interessa mais do que a intimidade & justamente por isso nada é de se preservar & usar, mais, ao mesmo tempo & com diferença. meu novo livro não tem um poema sequer que fale só de mim mesma como esse texto. nenhum uso do "tu" ou de "você" como estratégia de enredar emocionalmente um outro. nenhum poema de amor. meu novo livro fala da morte com uma lancinante paixão pela vida que está em tudo para além de mim. e eu quero terminar este livro antes de Saturno entrar em Sagitário daqui 7 dias. conseguirei? 
azul luminoso também é o deus hindu de pedra que vi. cheio de compaixão e frieza. te esperarei voltar! daqui 28 anos, espero que eu esteja & continue disposta a entender que o que estrutura dá o rumo. 












sexta-feira, 21 de agosto de 2015


entre os rituais do luto vive o cinema
— e no cinema vive woody allen:
tenho assistido muitos filmes dele —
nesses dias da senhora das nuvens de chumbo
quando muitos dias bate sol
eu sonho com uma nova casa
em que o quarto principal tem vistas para um deserto
e o deserto vive num cubo
& quando vier a chuva também nosso amigo
woody se perguntará
como sempre:
se há algum sentido em viver
além de um correr indistinto em direção
à indesejada das gentes?
& se a iniludível nunca tem ouvidos pra ninguém
de que adianta se perguntar em voz amiudada ou maior,
perguntar em voz alta
como acontece em todos os filmes do woody?
que em algum momento alguém se pergunta
muitas vezes diretamente para a câmera:
qual o sentido da vida?
por que a vida tem que acabar?
se vai acabar por que é que a gente tem que viver?
como viver vivendo o tempo todo esquecendo e lembrando disso?
e a gente ri que em alguém essa questão possa eclodir o tempo todo
virando cinema.
e então a repetição dessa angústia é engraçadíssima.
que dom! transformar a angústia em graça.
só a cura e a arte são capazes disso
e o menino que foi woody crescendo
numa casa embaixo de uma montanha-russa
nervoso & atento a tudo que fosse pensável
descobre que o universo está se expandindo
e no meio do brooklyn o menino não consegue fazer mais nada.
não quer ir à escola não quer fazer a lição de casa nem comer
porque o universo está se expandindo
qual o sentido de tudo?
se o universo está se expandindo.
meses atrás eu soube que hoje se sabe que o universo é finito.
e eu fiquei bem confusa com essa possibilidade de ali na frente acabar
embora seja impossível chegar até lá pra ver.
e tento passar agora os dias rindo com uns filmes do woody allen.
porque não quero ser o menino que cresceu embaixo da montanha russa.
também nunca quis ser menino embora eu queira ter graça.
quero ser é a montanha russa expandindo no universo finito.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

P O E M A

Quando tiver forças voltarei
a escrever à máquina
para contar desses pés que vejo crescendo
à sombra de algo maior.
Alguém diria que são mudas frágeis
e embora este alguém esteja aqui dentro
eu diria que não são não
mas também não me mando calar a boca.
Serão o conhecer de uma nova estação
onde o coração ainda é o que importa
e tudo o que é vivo pulsa
na minha mão que o libertou pela janela
pulsa o beija-flor que prendi em concha
e que antes me olhou com minúsculos
dois olhinhos de ternura do ateu.
Ai da desavisada que puxando os brotos
para ver se as raízes já se fixaram à terra
interrompendo o ascender da seiva
verá a nuvem se esvoaçar em névoa
fazendo o ninho no rolar da fúria
e embora eu não tenha a sabedoria
sei que ainda falta muito
para que ela me visite.
Quando for a minha vez
talvez eu sinta medo
talvez eu vire assombração
mas talvez, não, eu
seja o clarão que vi.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015


eu tinha acabado de sair de um prédio e subia a rua vivendo uma série de revelações espirituais & oraculares enquanto o panelaço atravessava pelas janelas e sacadas, algumas até piscavam! estavam no ritmo veloz & cadenciado das coisas que eu estava entendendo, e as sacações pareciam palmas naqueles bateres de tampas, tanto que eu por um ou dois minutos me senti subindo o meu destino como quem atravessa o ritmo, ai pisando os passos: um caminho, o meu caminho nessa frente indo adiante, e um rapaz passou dizendo AI AI AI tsc tsc tsc pros habitantes de potentes caçarolas e e eu ri e eu ri e então eu senti aquelas panelas como telhas de cascos batendo subindo o asfalto desses tempos, e fiquei tão esmagada entre o meu caminho e as manadas desembestadas da história. nesse dia que, sem mais nem menos, a bomba atômica fez 70 anos de atirada.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

a memória é uma casa que se visita pra trocar as chaves. é uma noite de lua cheia que te leva para um lugar sem nome. um estado, uma viagem, um-todo-lugar, um desvio, um abismo, lareira e percurso.

meu mergulho.

ao entrar no mar me lembrei de um outro julho quando, era de noite, e minha Vó me deu uma prancha de surf vermelha. no dia seguinte ainda era inverno, estava frio, e era preciso estrear a prancha, mas o dia garoava solenemente. vovó não se deu por desperdiçada: embaixo de um guarda-sol, com uma capa de chuva e um guarda-chuva voltado contra o vento ficou lá da praia, me olhando, os minutos que eu no mar cinzento ignorava o frio e "surfava" nesse mesmo outro mar onde hoje mergulhei e mergulhei com gesto de homenagem ao que se vive e perdura em nós. pela memória sempre limpa, mergulhar. no sal. na cor. na dor. e no amor.


a memória é o mar - e vice-versa.

terça-feira, 28 de julho de 2015

no tic tic tac

entre os acontecimentos desta semana realmente agora pouco me aproximei de um animal que se debatia contra uma grande janela de vidro. minha mãe é que me mostrou, e eu achando que era uma mariposa, a minha curiosidade se enterneceu ao perceber que se tratava de um beija-flor.

me aproximei calmamente dando a ele entender a minha natureza ou a natureza da minha aproximação. suave ele me olhou de volta sem agitar as asas, sem nunca pensar em me esconder ou mostrar qualquer coisa, ele estava ali e eu estou aqui. sou destra e fui abrindo a palma da única que o alcançava, minha mão esquerda me aproximando lentamente do bichinho voador. quando fechei a mão o beija-flor se encaixou, ficou, me olhou com a simpatia de um cão. e tão veloz seu pequeno ser coração era uma bateria batendo entre os meus dígitos. que alegria pacífica.
 
saí pra varanda, o mostrei pro gustavo, olhei suas penas pretas mescladas de azul e verde fosforescentes seu bico preto pintadinho, seus olhos pequeninos
cheios de confiança
abri a palma da minha mão e imediatamente o beija-flor voou. livre.

sábado, 25 de julho de 2015

e-mail para m.

owwwwww a merda rolou em cima de mim, depois passou um rolo compressor de cocô, seguidos de baldes de bosta & então eu me vi como o nosso belíssimo saturno manda nessas situações: LIMPÍSSIMA de luz translúcida.

sério, essa semana foi punk. caí no balde em que o aquiles é colocado pra ficar protegido mas acho que o resultado foi o contrário, fiquei com a cabeça pra cima. e como tá desde o começo de julho assim, eu tô baixando as orelhas pra ver se não vem aí um helicóptero e corta com suas hélices o topo da minha cabeça.

mas tipo saio pra por o lixo e o vento venta & que alegria é o vento! estou viva! eu amo o vento! meu deus! que lindo vento! que lindo vento que me empena as costas! minhas costas só podem estar empenadas porque estou viva!

e o milton aqui cantando: "que tragédia é essa que cai sobre todos nós?".

e hoje fui ver a xxx no ateliê dela e ela quase morreu ontem à noite num acidente de carro. quer dizer, o carro deu perda total e ela e o namorado não sofreram nenhum arranhão.

em outros tempos diríamos que os deuses estão furiosos. hoje não sei o que dizemos.

mas eu sei que escrevi um livro que só fala da porra da morte e daí tô dizendo "acabei" minha vó morre nas minhas mãos. é claro que não vou publicar esse livro antes de escrever um poema sobre isso. falta um poema. que pode demorar meses, anos. mas é isso. isso é um livro, isso é a poesia e é isso, viver a vida.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

julho

dia desses reli no meu caderno / agenda que sempre tenho comigo há anos e onde escrevo sempre que as mãos tenham o ritmo da tinta da minha caneta que curiosamente a.m.m. e m.c. usam igual / galopes que estouram: estava lá escrito:

1.7

julho será um longo mês. o primeiro julho em oito anos em são paulo. o primeiro inverno em são paulo em tanto tempo.


não sabia que seria tão longo esse julho.
quando eu era criança tinha muitas dores de ouvido em julho.
e muitas vezes o que me curava era muito chá de camomila.

desde que julho começou tomei litros de chá de camomila pra ver se melhorava. e foi o último chá que minha vó bebeu e fui eu que fiz pra ela. devia ter feito erva-doce, que ela sempre me dava quando eu era criança e eu não gostava muito, mas aprendi que era um gosto bonito de se sentir porque era o que minha avó me dava. agora já não posso ver camomila que eu choro.

não deixei do que sempre associei camomila à claridade dos dias de verão. era isso que a camomila me trazia dentro do corpo quando eu era criança: a tranquilidade de uma brisa leve num dia quente.

lembro de uma trilha no Gerês, noutro julho, onde era verão, que subimos uma montanha gigantesca, infindável, antiquíssima. e quando chegamos lá no topo não existiam grandes promessas conquistadas além do corpo tomado pelo oxigênio dos músculos, e a delicadeza portentosa de um imenso campo de camomilas que tomavam o sol e a chuva primeiro do que todos que estavam lá embaixo.

lá no sol me deitei. e adormeci.
 

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