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domingo, 4 de outubro de 2015

hoje até para o deus da coca-cola eu apelei & os carregamentos de esmeraldas não param de chegar & cheguei no final da linha de tanta mandioca frita e assim terminei meu novo livro.

já tinha algumas vezes achado que o livro tinha acabado, mas eu estava sempre enganada porque era eu que estava tentando acabar com ele. é um livro que foi todo escrito em alguma espécie de transe, seja através de plantas, seja através da música, ou simplesmente da audição das esferas. foi sempre um livro luminoso/severo e exigente/purificador de se escrever.

eu quis dá-lo como pronto, porque eu queria fazer outra coisa, mas não era bem eu que decidiria: hoje foi ele que acabou comigo, como se dissesse: você já não tem nada pra me dar. sinto-me esgotada. mas é bom, porque eu preciso mesmo de espaço pra me tornar outra.

bem me lembrou o meu professor do animal que um poema é e o livro se foi como um animal alimentado o suficiente pra, entre trôpego & temerário, sair do cativeiro e voar pro seu céu e cair em seus buracos. seres vivos, mais do que livros eles são livres.

tem muita gente que comemora isso como êxito, talvez, mas essa liberdade me deixou sem nada, às vezes acho que a assinatura que vai na capa de um livro é uma espécie de compensação material pra ausência de nome que terminar um livro me causa. romper com um livro tem me significado largos períodos de silêncio. acabar o livro é um alívio que entra numa nuvem de achar que nunca mais vou conseguir escrever algo que eu goste por não sei quanto tempo. até o animal, o besouro, o cavalo se aproximarem de mim novamente; ou talvez seja mais uma samambaia que algum outro esqueceu num canto como se nada fosse e que cabe a mim regar.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

P O E M A

Quando tiver forças voltarei
a escrever à máquina
para contar desses pés que vejo crescendo
à sombra de algo maior.
Alguém diria que são mudas frágeis
e embora este alguém esteja aqui dentro
eu diria que não são não
mas também não me mando calar a boca.
Serão o conhecer de uma nova estação
onde o coração ainda é o que importa
e tudo o que é vivo pulsa
na minha mão que o libertou pela janela
pulsa o beija-flor que prendi em concha
e que antes me olhou com minúsculos
dois olhinhos de ternura do ateu.
Ai da desavisada que puxando os brotos
para ver se as raízes já se fixaram à terra
interrompendo o ascender da seiva
verá a nuvem se esvoaçar em névoa
fazendo o ninho no rolar da fúria
e embora eu não tenha a sabedoria
sei que ainda falta muito
para que ela me visite.
Quando for a minha vez
talvez eu sinta medo
talvez eu vire assombração
mas talvez, não, eu
seja o clarão que vi.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

a montada, o veículo, a nave

A noite leva ao dia
abandona suas origens
para se elevar aos céus.

Impetuoso é o desejo dos grandes relógios naturais.

Em pleno meio dia levado
pelo vigor da sua corrida
galopa às cegas
de olhos muito abertos
procura evitar os pânicos.

Mas à noite quando
por sua vez
se torna cego
pode então ser
visionário e guia.
 

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