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sábado, 13 de fevereiro de 2016

que meu avô, dizem, era meio bruxo, era coisa que eu já sabia desde antes de nascer, que procurou isso tanto quanto o acaso lhe deu.

mas foi só uns dias atrás que ouvi uma história sobre uma margem em curva do rio Piracicaba onde houve uma matança tão grande entre diferentes bandeirantes que disputavam índios e terras e tudo que traziam que mataram-se uns aos outros mais de uma centena de homens.

tanto sangue sem dó houve lá que se dizia daquele lugar que era amaldiçoado. que, passados tantos séculos, vozes gritavam de madrugada ainda pedindo por salvação e luta. que o vento ali zunia tanto que uma pessoa era capaz de perder os sentidos se lá ficasse muito tempo. a começar pela audição. dizia-se de lá também que os capins tinham faces de espinhos e sibilavam nas pernas de quem lá entrava. até as plantas deitavam sangue.

meu avô foi lá passar quatro vezes as noites. sozinho no escuro fazia das suas. não tinha medo? de nada, é o que me respondem os que o conheceram. ali trazia como escudo os gestos da paz. negociava, intermediava, fazia caminhos e traçava limites. tudo, tudo com as mãos, as palavras e os gestos. ou isso sou eu que imagino. aquele mato denso e escuro e ele se confundindo com as folhas pra poder pelo poder transformar poder. mas ele nunca explicou pra ninguém, nem fazia muito alarde.

então um dia meu avô chegou em casa e disse para o meu pai "pronto, sossegou, 'tão em paz. não tenho mais que voltar lá". e nunca mais voltou.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

104

hoje meu avô, joão alfredo hansen, faria 104 anos se estivesse vivo. a memória do meu pai o contou tantas vezes, que é sempre como se ele estivesse. vejam, a memória que vocês espalham entre os seus, ela há de vingar, é de se escolher.
meu avô é o homem de gravata na foto dos meus jaguares abaixo, ao pé de uma gameleira, também pode-se ver meu tio avô e o meu pai. o meu avô era mestre de fios na indústria têxtil de americana, no interior do estado de são paulo.
não o conheci.
dizem que quando chegava dia 2 de fevereiro ele dizia: "ah! mas meu aniversário é no dia 8". e quando chegava no dia 8, ele dizia: "ah! mas foi dia 2!". e o interlocutor já sabia, era para rir, que naquele homem a vida escapava na generosidade de fazer aniversário duas vezes. e nunca.
eu hoje conheço astrologia, e não tenho muitas dúvidas de que ele nasceu no dia 2. é o grande trígono das águas que me diz.
ele pescava, e caçava, passava semanas com um amigo, desaparecido no pantanal, e trazia as pescas e caças, e distribuía entre os vizinhos. ficava com muito pouco. vinha pra são paulo todos os meses só pra trocar de carro e às vezes trazia meu pai junto e assim lhe deu para beber refrigerante, pela primeira vez. diz meu pai que tinha gosto de bicarbonato e coçava o nariz. outras vezes meu pai ficava em casa, e nesses dias ganhava sempre um periquito vindo da capital.
já com certa idade, meu avô que lia o mein kampf e detestava o catolicismo, meu avô que tinha sido ateu, tornou-se bruxo, mateiro, pai-de-santo, um xamã, sabe-se lá se eu sei o que foi, exatamente, o meu avô. que sabia curar as pessoas com as plantas, e as curava. meu avô, que deve ter matado gente na *revolução de 32.
um dia hei de escrever sua história como ela deve ser.
por enquanto só conto que na sua vida houve também um episódio daqueles macarrônicos, quer dizer, uma paella não foi assada. conto com pausar: meu avô, bem jovenzinho namorava uma espanhola em são paulo. ele mesmo vivia em limeira, e vinha às vezes até são paulo vê-la. até que foi obrigado, pelo pai da menina, a ficar noivo. que remédio além de o fazer?
na festa de noivado, contava ele, foi se servir de uma sopa de entrada, e percebeu que aquilo era um cozido de muitas carnes gordurosas. sentiu-se enjoado só de olhar. pensou: imagina comer isso durante décadas! argh, quase apagado de tontura, chegou até o alguém mais próximo e disse "vou ali comprar cigarros". e foi! sim. um clichê libertou o meu avô. você também, cuide bem dos clichês, quem sabe um dia eles te libertam.
meu avô era livre.
são raríssimos, os livres.

domingo, 18 de agosto de 2013

do que restou interessa a voracidade da alegria

eu estive de olhos vendados pelas pálpebras, agora mesmo no sofá de domingo, e pensava na intermitência do que se lembra, e tentava perceber se as nuances do que foi vivido mais antigamente são mais tênues, fracas, apagadas do que a memória de ontem. não sei bem porque troquei o estacionamento da escola do qual eu sempre me lembrava pelo bem comum pátio onde quase nunca passava os recreios, não sei bem porque não gostava daquele lugar, nem sei bem se eu reparava que não gostava dele, e fiquei antepondo ele a lembrança do casal que ontem estava apaixonado na praia, eles tinham por volta de uns 50 anos, e deviam ter acabado de se conhecer, era muita fascinação, bonito. 
acho que em imagem todas as lembranças têm o mesmo viço, mas se pensarmos em associações do pensamento com aquelas imagens, as mais recentes tem tentáculos mais fortes, mas isso também depende do impacto, as memórias mais recentes, se forem excessivamente contundentes, elas são de um impacto puro e duro, único e não-narrável. nessas a distância do tempo opera de maneira mais associativa, os acontecimentos paradigmáticos, quando se tornam imagens da memória, tendem a ganhar relações com o passar do tempo.
mas quando isso se trata de um pensamento, ou de uma narrativa que não se viveu? 
eu usava isso, de ficar parada imaginando o transcorrer do tempo no tempo, de tanta fortificação pela imagem, eu imaginava por horas tudo aquilo que não estava acontecendo, era uma forma de me desistituir da experiência e do tempo, através do pensamento. depois tomei pudor por essas formas associativas, e acabei escrevendo poemas, quantos mais, todos os dias. gosto quando estou com tanto sabor no pensamento que a cada cotidiano vão aparecendo ruídos que se tornam versos. 
mas hoje penso que foi e é essa associação entre escrita e cotidiano, entre escrita e presentificação, combinada a um corpo muito mútuo de percepções, seja ele muito mútuo na convivência com os outros (a permeabilidade) ou, muito mais do que isso, o medo de imaginar o que não existe (embora passe tempo demais supondo ressentimentos, céus, como ando ressentida) é o que me dificulta escrever uma narrativa, umas narrativas em prosa. 
mas antes de ontem pensei uma coisa muito importante: que é preciso sentir com o corpo, a cena. que é preciso sentir a atmosfera que eu sentiria se estivesse presente. porque é isso que eu sei perceber, então é isso que eu preciso imaginar. a minha escrita nasce disso, desse passeio pela atmosfera.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

nos entres das coisas

eu levo em consideração que tudo que acontece enquanto estou escrevendo um livro deve poder caber nele. até agora estive escrevendo sobre mim. agora assim, é só sobre eu mesma de novo, cabrum veio uma nuvem, molhou molhou eu. e a galinha cabidela. eu tentando ir pro fim do século xix, mas é a mesma história. minha gata que nasceu no ano passado cabe dentro da minha história. isso porque ela está aqui do meu lado. isso porque ela está viva. espero que vocês respeitem isso. e se não respeitarem? cabrum vem uma nuvem, molha molha nóis. é isso, vou ao .doc. 

o novo o novo o novo está chegando

 

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