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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

MANIFESTO POPULISTA # 1
(1976)


Poetas, saiam dos vossos armários,
Abram as vossas janelas, abram as vossas portas,
Estiveram demasiado tempo enfiados
nos vossos mundos fechados.
Desçam, desçam
dos vossos Russian Hills e Telegraph Hills,
dos vossos Beacon Hills e dos vossos Chapel Hills,
dos vossos Montes Análogos e Montparnasses,
desçam dos nossos contrafortes e montanhas,
das vossas tendas e cúpulas.
As árvores continuam a cair
e nós deixaremos de ir aos bosques.
Não há tempo para subirmos às árvores
Enquanto o homem faz arder a sua própria casa
para assar o seu porco.
Deixaremos de cantar Hare Krishna
enquanto Roma arde.
São Francisco está a arder,
a Moscovo de Maiakovski faz arder
os combustíveis-fósseis da vida.
A Noite & o Cavalo aproximam-se
devorando luz, calor & poder,
e as nuvens têm calças.
Não há tempo para o artista se esconder
acima, além, atrás dos cenários,
indiferente, a cortar as unhas,
a refinar-se até deixar de existir.
Não há tempo para nossos joguinhos literários,
não há tempo para as nossas paranóias & hipocondrias,
não há tempo para amor e ódio,
apenas para luz & amor
Vimos os melhores espíritos da nossa geração
destruídos pelo tédio em leituras de poesia.
A poesia não é uma sociedade secreta,
Também não é um templo.
Palavras mágicas & cânticos já não funcionam.
Acabou a época do Om,
chegou o tempo dos lamentos,
o tempo de lamentar e celebrar
o fim próximo
da civilização industrial
que é má para a Terra & para o Homem.
O tempo de olhar para fora
em posição de lótus
com os olhos bem abertos,
O tempo de abrir a boca
com um discurso novo e aberto,
o tempo de comunicar com todos os seres sensíveis,
Todos vós, "Poetas das Cidades"
pendurados em museus, incluindo eu próprio,
Todos vós, poetas de poetas que escrevem poesia sobre a poesia,
Todos vós, poetas de língua morta e desconstrucionistas,
Todos vós, poetas das oficinas de poesia
no coração mais profundo da América,
Todos vós, Ezra Pounds amestrados,
Todos vós, poetas estranhos, excessivos e destroçados,
Todos vós, poetas do Concreto pré-esforçado,
Todos vós, poetas cunilinguais,
Todos vós, poetas de casas de banho públicas que se queixam com graffiti,
Todos vós, que se balançam de metro em metro mas nunca nos ramos de bétulas,
Todos vós, mestres do haiku da serração
nas Sibérias da América,
Todos vós, irrealistas cegos,
Todos vós, supersurrealistas auto-ocultantes,
Todos vós, poetas Groucho Marxistas
e camaradas da classe ociosa
que passam o dia inteiro deitados
e falam sobre o proletariado e a classe trabalhadora,
Todos vós, anarquistas católicos da poesia,
Todos vós, que nunca passaram da Black Mountain da poesia,
Todos vós, brâmanes de Boston e bucólicos de Bolinas,
todas vós, escoteiras-chefes da poesia,
Todos vós, monges zen da poesia,
Todos vós, amantes suicidas da poesia,
Todos vós, professores hirsutos da Poesia,
Todos vós, críticos de poesia,
que bebem o sangue do poeta,
Todos vós, Polícia da Poesia —
Onde estão os filhos selvagens de Whitman,
onde, as grandes vozes que se manifestam
com um sentimento de suavidade e sublimidade,
onde, a grande visão nova,
a grande perspectiva do mundo,
a sublime canção profética
da Terra imensa
e tudo o que nela canta
E a nossa relação com ela —
Poetas, desçam
às ruas do mundo uma vez mais
E abram os vossos espíritos e olhos
com o antigo prazer visual,
Limpem as gargantas e falem,
A poesia morreu, viva a poesia
com os seus olhos terríveis e a força de um búfalo.
Não esperem pela Revolução
ou ela acontecerá sem vós,
Parem de murmurar e manifestem-se
com uma nova poesia escancarada
com uma nova "superfície pública" de sensualidade comum
com outros níveis subjectivos
ou outros níveis subversivos,
um diapasão no ouvido interno
a percurtir sob a superfície.
Continuem a cantar o vosso próprio querido Eu
mas pronunciem "a palavra Massas" —
Poesia, a transportadora
que leva o público
para lugares mais elevados
do que aqueles a que outros veículos o podem transportar.
A poesia ainda cai dos céus
sobre as nossas ruas ainda abertas.
Não ergueram as barricadas, até agora,
nas ruas ainda povoadas de rostos,
homens & mulheres encantadores que ainda caminham aí,
ainda criaturas encantadoras por todo o lado,
nos olhos de todos o segredo de tudo
ainda enterrado aí,
filhos selvagens de Whitman que ainda dormem aí,
Despertem e cantem ao ar livre.



-----
de Lawrence Ferlinghetti, em tradução de Inês Dias.
do livro "A poesia como arte insurgente", Relógio D'Água.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Idola Fori

Eu sei diversas coisas
saber é afinal a minha única preocupação
Sei pouco de manhãs
mas talvez possam dizer de mim que amei o mar
e cada árvore que me viu passar
e insistir na vida como uma canção em voga
Quem mais que eu
quem foi esqueceu?
Estamos malfeitos pronto
Para quê a doçura no olhar
de uma mulher certos dias?
O morno calor do sol rasante pelas tardes
de setembro na senhora da guia
senti-lo em abril numa sala voltada ao poente
de súbito sabendo de todos os papéis
ou outra eternidade que não essa
Talvez ouvir egmont sentindo-me importante de repente
ou então conversar sobre o poeta à beira de água
chegar a mangualde ao pôr do sol
ou a duas igrejas na semana santa
ouvir os sinos na matriz vizinha
cheirar madeira nova nas gavetas
fechar a porta sobre todos os cuidados
cantar a triunfante juventude
Não mais andar perdido de ano em ano
Não mais a morte questão para ociosos
à tarde no café dos reformados
Oh quem dera ser católico
ou pelo menos morar alguma vez
em lisboa ou nos arredores de lisboa
Não há remédio nenhum
esqueci-me de tanta coisa
Sei que isto não é grande coisa
mas nenhuma outra coisa me é dada
O que é preciso é que não doa muito
Depois que me escondam na terra como uma vergonha


- - -

Ruy Belo

domingo, 21 de junho de 2015

Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

- - - 


Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 20 de junho de 2015

morte ao meio-dia


No meu país não acontece nadaà terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

- - -

Ruy Belo

segunda-feira, 8 de junho de 2015

f o l h e a r

ontem saiu isso aqui, são poemas do meu livro inédito que já existe-e-ainda-não.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Tarde de maio

Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma
nunca antes sem nunca mais aferidas em sua nobreza sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa...
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e e maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência de resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.


——
Drummond, obviamente. do Claro Enigma.

domingo, 10 de maio de 2015

antes de dormir, assim eu com esta

a letra de todas as noites, há anos, rezo assim:


thank you god for this fine day
bless all the children of the world
and thank you for the plants
and the animals
bring me sweet dreams tonight
and help me be good tomorrow

noah's ark
came to my house
one day
with all his animals
and he took me away




segunda-feira, 4 de maio de 2015

aquecido, malhado, batido

Há um dito nas escrituras tibetanas: "O conhecimento precisa ser aquecido, malhado e batido como o ouro puro. Só depois poderemos usá-lo como um ornamento." Portanto, quando você recebe instrução espiritual das mãos de outra pessoa, não a aceite sem espírito crítico, mas a aqueça, malhe e golpeie até que apareça a cor brilhante e nobre de ouro. Então, você faça dela um ornamento, dando-lhe o desenho que desejar, e passe a usá-la. Dessa forma, o dharma se aplica a todas as épocas, a todas as pessoas; possui uma qualidade viva. Não nos basta imitar o mestre ou guru; não estamos tentando nos transformar em uma réplica do nosso instrutor. Os ensinamentos constituem uma experiência pessoal de cada um, até chegar ao detentor atual da doutrina.

É possível que muitos dos meus leitores estejam familiarizados com as histórias de Naropa, Tilopa, Marpa, Milarepa, Gampopa e outros mestres da linhagem Kagyü. Foi uma experiência viva para eles e é viva a experiência dos atuais detentores da linhagem. Apenas os pormenores das situações de vida é que são diferentes. Os ensinamentos têm a qualidade do pão quente, recém-saído do forno; o pão ainda se conserva quente e fresco. Cada padeiro precisa aplicar os conhecimentos gerais de como fazer pão ao seu próprio amassar e enfornar. A seguir, precisa experimentar pessoalmente o pão fresco, cortá-lo enquanto fresco e comê-lo enquanto quente. Precisa tornar seus os ensinamentos e, depois, praticá-los. Este é um processo muito vivo. Não há engano algum em termos de coletar conhecimentos. Temos de trabalhar com nossas próprias experiências. Quando ficamos confusos, não podemos nos voltar para a nossa coleção de conhecimentos e tentar encontrar alguma confirmação ou consolo: "O mestre e todos os ensinamentos estão do meu lado." O caminho espiritual não segue por esse rumo. É um caminho solitário, individual.
- -
Chögyam Trungpa, em tradução de Octavio Mendes Cajado
(e, trocando umas palavras, tipo "espiritual" por "poesia", podia ser Ezra Pound!)

domingo, 22 de março de 2015

consoada

Consoada
Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Dom Quixote de las letras



DOM QUIXOTE DE LAS LETRAS
Leonardo Fróes


Devo estar pertencendo a outro planeta. O do Silêncio. E no entanto essas palavras me mordem — exigem para passar para fora. Escrevo obedecendo a um registro. A fala que me conscientiza já é estranha totalmente à idéia habitual de quem sou.

Dom Quixote de las Letras passava pelas redações e ditongos levando seu calhamaço de urros. Chegava à Editoria dos Ditongos, espiava. Via os moinhos da informação fumegando e não acreditava. Mas erguia, com um urro raivoso, a Sua Pena. Com um urro manso cumprimentava. Ninguém podia imaginar nem eu. Mas é verdade.

Na cabana onde Dom Quixote escrevia havia um coelhinho do mato que vinha o visitar com frequência. Nas grandes noites de Derrota o coelhinho sentava numa pedra defronte. Olhava para ele como um Coelho do Mato pode olhar.

Parece que isso aqui virou máquina. Tem coisas que pode, coisas que não pode, fios invisíveis ligando as grandes pás do moinho. Dom Quixote transgride, provoca, estaciona numa orelha e deita sua falação automática. De repente o espírito do local o possui. Mas de repente também ele retorna à sua e é o coração navegando sobre seu cavalo hipotético. Vê ao longe as bandeiras da proibição trepidando. Desgoverna-se um pouco, mas avança. Sente-se o próprio espelho do Homem com suas lamentáveis esporas que parecem medalhas que parecem ventoinhas malhadas e caldeirões de bronze. Como um Perfeito Cavaleiro Armado, o herói Dom Quixote — de las Letras — volta-se para o glorioso passado e recicla situações quixotescas que ele mesmo, sendo quem é, retira de velhos relicários onde guarda os Bilhetes.

Posiciona-se, p. ex., ante determinados palpites e arrisca sua navegação palavral pela língua terna e cansada. Poderia dizer umas Verdades, mas já é tão tarde, e depois esses grilos, esse choro, é melhor dizer ui! Claro que as Exclamações são permitidas ainda. Como também não é sensato deixar de reconhecer seu Direito. Mas por enquanto, não seria melhor questionar se, sendo ele Dom Quixote, necessitaria ou não de um parceiro? Xanxupança estava consertando uns arreios da Terra do Brasil recém-descoberta quando olhou pelo retrovisor do seu mulo e viu um Guarda. Pronto, pensou em seguida, aí vem rabo!

As Exclamações — ainda — são permitidas. As ponderações, também. As cogitações sobre o futuro, idem. Mas o dado concreto da Pessoa Presente, e era isso que Dom Quixote apontava, estava muitas vezes ausente. O Editor de Ditongos, coitado, ficava aparando os golpes do louco.

Dom Quixote de las Letras passaria naturalmente por louco face a um milhão de comodidades em voga. Não gostava de pentes, por exemplo, nem de ventilador. Gostava de sentir de perto as pessoas, por isso perdia frequentemente os jogos e não assaltava, era um Dom Quixote assustado que escutava corujas, também.

Ou de repente a situação da coruja e calar. Entidade presente numa luminosidade ímpar e tão depressa. Impreciso dizer. Estar. Sentir-se locomover como um urso portátil que se desdobra e — ponderavelmente — não se suicida.

Dom Quixote de las Luchas era também no fundo um gozador e também um grande sofredor e também um dileto e bastardo filho das hesitações e do acaso. Vacilava como qualquer cidadão, investia por necessidades distantes. Era comandado como as coisas são num rodopio de astros corriqueiros que muitos filósofos de antigamente chamaram de aparências do mundo.

Eu sei que é difícil dizer isso, dizia Dom Quixote sem traço, mas você vai concordar comigo que a gente faz confusão. Já era noite. Era hora de acordar e afiar as unhas de novo, porque O Mundo — sua grande namorada — estava completamente maluco(a). As paredes estavam brancas de novo, e exigiam uma pichação caprichada. Era de manhã. Era incrível como o sono passava rápido, e no entanto em camas das totais profundezas, cenas completamente antecipadas como um suspiro contente. Ui, dizia Dom Quixo.

Te quero como qualquer criança. Com a pureza de Xanxupança dormindo e esse momento alem dos sentimentos (mas não sem sentimentos) que é mais ou menos sair de cada um deles como a meia sai do sapato. Naquele tempo de outrora as indumentárias complicadíssimas exigiam grandes malabarismos para se vestir. Usavam-se monumentais espelhos mas a Humanidade era a Mesma.

A consciência crítica sobre a Humanidade e a Mesma não acudia a Dom Quixote como acusação nem defesa. Nem era propriamente uma Consciência Crítica assim com essa importância toda. As coisas doíam, sim, mas até um ponto. Dom Quixote não podia afetar uma sabedoria nenhuma, mas era clássico que ele deitava na sombra, matutando, passando pouco a pouco do seu confuso interior para a serenidade das árvores.

Bonito. A consciência crítica não era nada importante, as árvores não eram nada importantes, nem as vírgulas nem as cataratas, mas para chegar à grande evidência ele era assim desse jeito. Agia muito, por isso errava muito, e gostava de estar cheio de sangue para existir todinho. Assim.

Só o louco pode ser ponderado, dizia Dom Quixote com as folhas, porque ele passa para a vontade do outro. As paredes caem como se fossem de um papelão diáfano ou então de um material cósmico invisível. Podia manejar a Sua Pena y viver esse momento sin compassión, perfeito/imperfeito que navega no astral. Nada. Concreção e dissipação simultâneas. Ondas eventuais e longíssimas que explodem na formação de omoplatas, pessoas completas, tanques de guerra ou de lavar roupa.

Assim, quando tirava sua pesada armadura, Dom Quixote de las Letras chegava à situação quixotesca de espantar um mosquito antes de coçar a nuca e pensar. Sentir que o pensamento aparente é um detergente casual que se dissolve na água, revelando as Coisas. Novas aparências que se dissolvem também, revelando as bruscas encadeações e o sossego. Ui, que momento bonito.

Bonito. Ou então lindo. Papai Goethe pediu que ele parasse um momento. Como alguém, na metade da vida, pára e se divide em laranjas. Em dois companheiros que de repente desaparecem também e em seu local surge uma transparência que é a mistura de uma montanha serena com um vulcão pipocando. Assim. Cheio de sangue, vazio, cheio de algodão, e completamente desmemoriado também. Nuvem, farofa das circunstâncias, bolero e tico-tico.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

As on a holiday....





Hölderlin, em tradução de Michael Hamburger

Como em dia de festa...

Como em dia de festa, quando o homem do campo
Sai pela manhã para olhar a sementeira, quando
Da noite quente desceram fogos refrescantes
Sem parar, e longe ainda se ouve a portentosa vibração dos ares,
De novo ao leito se acomoda o grande rio,
E o verde da terra se renova
E a chama do céu alegra
A cepa gotejante e no seu brilho
Crescem para o sol tranquilo as árvores do bosque ______

Assim se erguem em tempo propício
Aqueles que nenhum mestre até ao fundo forma,
Moldados só pela poderosa natureza, divinamente bela,
Omnipresente e rara na leveza do seu abraço.
Por isso, quando ela, em certas épocas do ano, parece dormir
No céu ou entre as plantas e os povos,
Também os rostos dos que adensam a palavra se entristecem,
Parecem estar sós, mas são sempre futuro.
E ela própria, futurando, repousa também.

Mas desponta já o dia! Esperei e vi-o chegar,
E o que vi, o sagrado, seja minha palavra.
Pois ela, ela mesma, mais antiga que os tempos
E senhora dos deuses de Ocidente e Oriente,
A natureza, acordou agora com fragor de armas;
E das alturas do éter até aos abismos,
Seguindo a firme lei das origens, gerado do sagrado caos,
Uma vez mais se sente
O júbilo da alma que tudo cria.

E como a chama que nos olhos do homem se acendeu
Ao conceber coisas sublimes, assim também
Se incendeia de novo com os sinais, com os feitos do mundo,
Um fogo na alma dos que adensam a palavra.

E o que no princípio aconteceu sem quase ser sentido
Só agora é revelado,
E podes chamar pelo nome as fontes da vida,
Aquelas que, servis e com um sorriso,
Nos lavraram o campo: a pujança viva dos deuses

Tens perguntas para eles? No canto sopra o seu ruah
Quando desperta do sol do dia e da terra quente
Ou das vibrações troantes do ar, e de outras
Que, mais preparadas no fundo dos tempos
E mais grávidas de sentido, a nossos olhos mais legíveis,
Se passeiam entre céu e terra e entre os povos
São pensamentos do espírito do mútuo

Que culminam no silêncio da alma dos que adensam a palavra,

De tal modo que ela, logo tocada, há muito tempo
Hóspede da casa do infinito, estremece na lembrança

E, incendiada pelo fogo sagrado,
É-lhe dado conceber em amor a obra de deuses e homens,
O dom do canto, que de ambos dará testemunho.
Assim desceu, como dizem os que a palavra adensam,
Sobre a casa de Semele, presa do desejo de ver o deus,
O seu raio dardejante, e a mulher atingida
Pariu o fruto da portentosa vibração do ar, Baco, sagrado.

E por isso os filhos da Terra bebem
Agora o fogo celeste, sem perigo.
Mas cabe-nos, sob os trovões do deus,
A nós e a vós que adensais a palavra, permanecer de cabeça nua
E com a própria mão tomar do dardo divino,
Ele mesmo, e oferecer à luz comum a edénica dádiva que o canto oculta.
Pois se formos sem impostura, como as crianças,
E nossas mãos sem culpa,

Não as queimará o fogo puro do pai,
E no mais fundo âmago tocado, sofrendo as dores do mais alto,
No meio das tempestades do deus que do céu descem
Quando ele se aproxima, o coração não vacila.
Mas que fazer quando ___________



Que fazer?

E se eu disser

Que me aproximei para contemplar os do céu,
Eles mesmos me lançarão para o abismo dos vivos,
Para as trevas, a mim, falso oficiante, para que eu,
Com um canto de aviso, mate a sede aos que querem aprender.
Lá, nesse lugar ____________


- - -


Hölderlin, em tradução de João Barrento, presente no ensaio "Do peso e da leveza na palavra da poesia", in: Geografia Imaterial.

Assim como em dia santo...

Assim como em dia santo, para ver as terras,
O lavrador sai, pela manhã, quando
Da noite quente caíram relâmpagos refrescantes
Todo esse tempo e o trovão ruge ainda ao longe,
O rio regressa de novo ao seu leito,
E fresco o solo verdeja,
E a chuva alegre do céu
Goteja a videira, e resplendentes
Ao sol tranquilo se erguem as árvores do bosque:

Assim se erguem eles em tempo propício,
Aqueles, a quem nenhum mestre só, a quem maravilhosa
E omnipresente forma e cria em leve enlace
A potente, a divinamente bela Natureza.
Por isso, quando ela parece dormir em certas estações do ano
No céu ou entre as plantas ou nos povos,
Se enche de luto também a face dos poetas,
Parecem estar sozinhos, mas eles pressentem sempre.
Pois, pressentindo, ela própria repousa também.

Agora, porém, rompe o dia! Eu esperava e via-o vir,
E o que eu vi, o Sagrado, seja o meu Verbo.
Pois ela, ela mesma, que é mais velha que os tempos
E está acima dos deuses do Oeste e do Oriente,
A Natureza, acordou agora com ruído de armas,
E o alto do Éter até ao fundo abismo
Segundo lei fixa, como outrora, saído do caos sagrado,
Sente-se de novo o entusiasmo
Que tudo cria.

E como no olhar do homem brilha um fogo
Quando concebeu altas coisas, assim
Se incendeia de novo c‘os sinais, c‘os feitos do mundo agora,
Um fogo na alma dos poetas.
E o que outrora aconteceu, mas mal se sentiu,
Eis que só agora se revela
E as que a sorrir nos lavram a terra
Em figura de escravos, são-te agora conhecidas,
As sempre vivas, as forças dos deuses.

Queres interrogá-los?: na canção sopra o seu espírito,
Quando do sol do dia e da terra quente
Ela surge, ou das trovoadas do ar, e de outras
Que, mais preparadas nas funduras do tempo
E mais ricas de sentido e a nós mais distintas,
Vagueiam entre céu e terra e entre os povos.
São pensamentos do espírito comum
Que acabam calmos na alma do poeta,

Tais que ela, ferida de repente, há muito já
Patente ao Infinito, treme de recordação,
E, inflamada do raio sagrado, lhe é dado
O fruto nascido em amor, obra de deuses e homens,
O canto, que a ambos dê testemunho.
Assim caiu, como os poetas cantam, por ela desejar
Ver com os olhos o deus, o seu raio sobre a casa de Sémele,
E ela, ferida do deus, pariu,
Fruto da trovoada, o Baco sagrado.

E por isso bebem fogo celeste agora
Os filhos da terra sem perigo.
Mas a nós cabe, sob as trovoadas do deus,
Ó poetas! permanecer de cabeça descoberta,
E com a própria mão agarrar o raio do Pai,
O próprio raio, e, oculta na canção,
Oferecer ao povo a dádiva celeste.
Pois se formos puros de coração
Como crianças, e as nossas mãos sem culpa,

O raio do Pai, puro, não o queimará,
E, fundamente abalado, sofrendo do mais forte
As dores, nas tempestades do Deus que do alto
Caem, quando Ele se aproxima, o coração fica firme.
Mas, ai de mim! quando de...
………………………………………………………………….
Ai de mim!

E se eu disser,
………………………………………………………………….
Que me aproximei pra contemplar os Celestiais,
Eles mesmos me precipitaram fundo pra entre os vivos,
A mim falso sacerdote, para as trevas, para que eu
Cante aos que queiram aprender a canção de aviso
Ali…


- - - - - - - - - - -
 
Hölderlin, em tradução de Paulo Quintela, 
-->Obras Completas II (Traduções I), Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997 / 1.ª edição: Poemas, Lisboa: Instituto de Cultura Alemã, 1945 / 2.ª edição: Lisboa: Relógio d’Água, 1991

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Autobiographia Literaria
Frank O'Hara

When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.

I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.

If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried out "I am
an orphan".

And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!

(22)
com 25 anos mudei de país e descobri o óbvio: uma vez caetano, caetano até morrer


TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Álvaro de Campos, 15-1-1928
que meu livro já tem dedicatória; e ela, no que não diz, dedica-se aos 29 anos.

estive aqui a pensar num outro número, 30, e pelo meu ouvido ouço nessa música sempre "limpai", ao invés de "limpei", que é mais provável, pela constância dos verbos reforçar (eu faço) a canção. destas pequenas convivências vive o meu ouvido, vive a minha língua. só serve pro que eu quiser.

perdi a memória
turvou-se-me o pensamento
não posso contar a minha história
perdi a razão do tempo


quebrou-se o espelho
não sei como sou
não sei se sou novo ou velho
não sei onde estou

no meu quadro eu só tenho
esta visão
tantos olhos apontados
à minha mão

não tem sinal nem posição
do bem ou mal não tem cartão
não trago marcas de solidão
nem gargalhadas de emoção

perdi a lembrança
da mente risquei
a história que não me interessa
a história que eu não serei

limpei a cabeça
de tudo o que ela não quer
e ao corpo fiz a promessa
só serve pro que eu quiser

será vossa imagem
que me convém
ao sair da desfocagem
não vi ninguém

não quero ver o que enganei
nem quero ter o que eu já dei
não quero ver o que enganei
nem quero ter o que eu já dei

31. voltar a fazer aniversário no verão


 

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