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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

hilda pede mais chá

escrever é um lance embora o cansaço
tanto que desconfio as vezes se escrever não é um lance do cansaço
e parece que quanto mais desconfiança a gente tiver, menos o texto vai
e que o cansaço só nos permite a desconfiança instintiva
A DESCONFIANÇA INSTINTIVA
conta-se que ana cristina cesar, meu bem, ana cristina cesar comia cacos de telha todas as tardes como quem mastigasse cigarras, não, cascas de noz, conta-se que este treino a deixou tão apta que toda a sua desconfiança era instintiva
no futuro falaram que eu tive de matá-la. terão razão. os homens de letras, tão arrazoados. é por isto que aos homens de letras vamos embebedá-los até todos serem bons homens de letras.
toda escrita é uma troca de letra desenfreada
meus dedos digitam como quem não tropeça, trupica
e quem trupica e cai cai cai cai cai cai
num "cai cai cai cai"
que até lembra quando
a gente diz ai quando a gente diz ah
ah ah ah
minha macaca só pensa EM
ela se debruça na porta da geladeira como quem aguilhotina a jaula
abre e fecha
fecha e abre
a minha macaca instruída
e digital
deixa marca em todo traço
que laça.

ps, conta-se que ana cristina cesar queria ser roteirista da globo. e inafiançável é a lembrança de que A DESCONFIANÇA INSTINTIVA seria um belo título no ecrã.

"ECRÃ!"

terça-feira, 19 de abril de 2011

psicostasia

Psicostasia é o nome atribuído a uma cena comum representada no Livro dos Mortos que retrata a cerimónia de pesagem do coração do defunto no tribunal da deusa Maat.

De acordo com as crenças dos habitantes do Antigo Egipto, a morte física não era o fim da existência, existindo a possibilidade de uma vida no Além. Historicamente esta vida no Além esteve de início reservada ao rei, tendo a partir do Império Médio se alargado a toda a população. Contudo, para se poder aceder a esta vida era necessário ter levado uma vida de acordo com a Maet (ou Maat), conceito egípcio que traduz a ideia da ordem universal marcada pela justiça e pela harmonia.

A pesagem do coração acontecia na sala das Duas Maet (também designada como sala Duas Verdades ou sala das Duas Justiças), onde existia uma grande balança colocada num pedestal em cujo topo se encontrava um babuíno. Na sala estavam presentes Osíris, sentado no trono, e quarenta e dois juízes.

O defunto deveria realizar uma confissão - a chamada "confissão negativa", registada no capítulo 125 do Livro dos Mortos - através da qual atestava que não tinha praticado o homicídio, cometido o adultério, maltratado animais, praticado o roubo, etc., num total de quarenta e duas declarações de inocência que anunciava a cada um dos juízes.

Enquanto isso, o coração era colocado num dos pratos uma pena de avestruz (a representação da leveza ou do coração da deusa Maat) colocada no outro prato. Se os dois pratos se equilibram o defunto está absolvido; em caso de ter mentido, o coração tornava-se pesado e seria condenado.

Os deuses Anúbis e Tot também estavam presentes sala cumprindo cada um com uma função. Anúbis regulava a balança, enquanto que Tot escrevia o resultado. Perto da balança encontra-se um monstro híbrido (metade crocodilo, metade pantera e metade hipopótamo), conhecido como Ammit ou a Grande Devoradora, pronto para engolir o coração do defunto caso este tivesse um peso excessivo. Uma vez aniquilado o coração não existiria a possibilidade de ressurreição.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

agora mais sentimental

Talvez seja a idade, talvez o deserto, talvez o recesso, talvez o rancor?
Quem sabe o carinho, quem sabe pro Nilo, quem sabe em viagem, quem vai de regresso?

Quem quer o que planta, quem come o que morre, quem vive o que dá?
Quase o que sei, menos esqueci, mais me criei.

Será amanhã, por que não ontem, virá o que fui e trará desde o fundo
O musgo a bóia o resmungo a corja a vespa e a várzea que é meu coração.


Bom mesmo será me apaixonar e fazer bobagem pra sempre.
Do amor, herói.

Ao Sr. Fernando

Passei o dia desenhando sobre o Sr. Fernando Pessoa.
Estou tentando alguma coisa honesta que acabe enfrentando as coisas.
Porque há fantasmas demais nesse mundo.
E nossos motivos fazem as coisas não funcionarem.

O Sr. Fernando Pessoa gosta imensamente de mim e garante que o Sr. Ricardo Reis teria gostado imensamente de mim se tivéssemos nos conhecido na temporada em que vivemos respectivamente em nossos países trocados.

O Sr. Fernando Pessoa por mais que tentasse, o Sr. Fernando Pessoa não acordava diariamente e pensava SOU PORTUGUÊS ao comprar pequenas coisas e discutir trocados. O Sr. Fernando Pessoa se ouvisse a minha língua, 

Não sei o que o Sr. Fernando Pessoa consideraria ao saber que nenhum brasileiro ao ouvir "o brasileiro" pensaria em algo além do povo ou de um indivíduo, e que nunca (a não ser a viver em Portugal), nunca pensaria que o "brasileiro" pode se referir ao idioma falado no Brasil. Será que Sr. Fernando Pessoa em seu escondido sem profundeza sentiria uma ponta de orgulho ao saber que falamos (nós?) português?

Ao Sr. Fernando Pessoa ergueram-se monumentos os monumentos ao Sr. Fernando Pessoa.

Também estimo o Sr. Fernando Pessoa e faço votos para que o Sr. Fernando Pessoa encontre o Sr. Fernando Pessoa a cantar com o Sr. Fernando Pessoa enquanto bebe um café com o Sr. Fernando Pessoa vestindo uma camiseta do Sr. Fernando Pessoa e pense Ah! bom mesmo era o Sr. Fernando Pessoa.

o Sr. Fernando Pessoa foi português.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

temporada chuvão 2010/11

chove agora em Lisboa como se uma faca cortasse o mundo ao meio.
como um rio que se instaura, um sonho que já morreu. foi mero caminho de não ir.

chove em Lisboa como se abrissem um lençol escorrido no céu porque cada gota de chuva cai de um lugar diferente. aos olhos é aparentemente a mesma, mas o ritmo da chuva aqui é diferente.

um esquadro traça que o ritmo é mais alternado do que constante, mas isso entre um pingo e outro; será que consigo ouvir um pingo e outro?


que país selvagem!
 

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