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domingo, 23 de setembro de 2018

depois de passar os últimos dias encaixotando coisas num lugar, movendo-as de um lugar pra outro numa mudança, com uma dor lombar que sempre me acompanha às mudanças e pensando o quanto elas – as mudanças – pra mim envolvem uma negociação interior entre uma vontade filha da puta de simplesmente deixar tudo pra trás e me sentir livre e leve pelo começo e uma negociação dolorida mistura de desapego com preguiça e inércia que é resolvida facilmente pelo gosto que tenho por materializar qualquer coisa que envolva planejamento, método, ação – desejo e movimento


depois destes dias passados e com tudo já mudado e esperando por desencaixotar (o quanto fazer caixas de mudança ou malas de viagem é uma espécie de correio em que destinatário e remetente são 1 mesma coisa-pessoa atravessada pela diferença do tempo-espaço) sonhei esta madrugada que eu entrava numa loja de tintas pra comprar uma tinta pra repintar uma "parede interior".


então a tinta tinha saído de linha, não era mais fabricada. a vendedora da loja não entendia a minha pequena frustração e eu procurava me adaptar a ideia de ter de buscar no catálogo disponível uma nova cor, até que a mulher de trás do balcão me dizia "mas é que a cor da sua alma mudou, ela agora está nesta página aqui" e apontava um azul tão profundo quanto elétrico. eu olhava pra ela e dizia "eu?". e com a tal indagação acordei às 5h40 da manhã deste domingo e não dormi mais.


*


isto tudo ou simplesmente: + 1 pequeno relato de Urano rx nos 2 primeiros graus de Touro.

sábado, 27 de janeiro de 2018

essa noite eu tive um pesadelo bizarro e tão a cara da afasia que ando sentindo nesse momento brasil.

sonhei que as esquerdas faziam um movimento pra que o enorme monumento às bandeiras (o “deixa que eu empurro”) que fica na frente do ibirapuera fosse retirado dali.

eu ajudava a fazer um cartaz enorme com a frase tão culta de WB que “todo monumento de cultura é um monumento de barbárie”. ficava orgulhosa, me sentia completa de sentido, finalmente. conforme o tempo passava um clima de exorcismo começava a pairar no ar. eu me preocupava, mas já não havia como sair da engrenagem daquilo tudo.

de repente uma grande festa: havíamos vencido, podíamos fazer o que quiséssemos com o monumento às bandeiras.

quando finalmente conseguiam retirar o monumento ele era levado pra costa litorânea por um caminhão gigantesco e acompanhado por milhares de pessoas descendo a serra a pé. os ânimos se animavam e as fúrias também. algumas pessoas se metamorfoseavam em cavalos, a noite caía e alguns cavalos eram incendiados pra fazer luz no caminho.

eu lia num cartaz: “sem barbárie não chegaremos lá”. não sabia se era o caso de concordar ou não. ao chegar na beira da praia eu percebia nas expectativas das pessoas que queriam fazer da estátua de pedra um navio navegável. achava aquilo completamente sem sentido, mas já só podia, mesmo, observar.

começava a ver cartazes dizendo “deixa que eu empurro vai nos levar por mar”. eu pensava “mas levar onde?”. e alguém gritava “morte! morte! quando matarmos todos os fascistas e seus ícones vamos chegar no futuro”. futuro?

finalmente um guindaste gigantesco colocava o monumento às bandeiras em cima do oceano. quando o trambolho de pedra afundava as milhares de pessoas choravam convulsivamente, surpresas que a pedra afundasse quando colocada em cima da água. agora que afundou, alguém me dizia: “temos que escolher novos inimigos”, tirava uma espada da cintura e cortava a cabeça da pessoa ao lado.

depois eu via na televisão que a prefeitura tinha colocado o Borba Gato no lugar do deixa-que-eu-empurro.

*

noves fora, que asfixia, gente.

sábado, 17 de junho de 2017

sonho tantas vezes que estou em hotéis que concluí

* nunca me sinto completamente em casa
* viajar é a osso de toda experiência (uns 35% dum mapa em Sagitário)
* até meu inconsciente é burguês


*

o que eu quero contar é que no sonho da última noite o hotel ficava em cima do mar. o gerente que me recebia ainda no lado da terra tinha os cabelos compridos clareados com parafina e um tridente (sim, o gerente tinha o tridente de Netuno) num dourado purpurina bem pride.

ele me mostrava a ponte que levava pra dentro do hotel e na areia da praia ao redor da ponte muitos banhistas tomavam sol, alegres e cheios das plenitudes da beira do mar num verão. então o mar — azulzíssimo que chegava a ser insuportável de tanto brilho — avançou toda a espuma em ondas imensas passou por cima de todos os banhistas. que, detalhe, sequer se mexeram com aquelas lambidas intensas das ondas.

sorri pro rapaz do tridente, que sorriu para mim e disse: "agora que já vimos o que acontece, podemos entrar, onde estão suas malas?". "nas minhas costas", respondi.

domingo, 30 de abril de 2017

tive esta noite um sonho muito explícito. tenho tido sonhos muito explícitos. esta noite foi dos mais bonitos sonhos que já tive. um tigre tigre tigre imenso se aproximava de mim. eu estava na beira duma piscina num fim de tarde morno de verão. piscina enorme, quase não tinha área sem água naquele lugar. o tigre vinha ladeando pela lateral. o tigre me cheirava, cheirava as outras pessoas que tinham medo dele. eu não tinha confiança, mas também não tinha medo. saía da piscina, já estava dentro do hall do hotel e o tigre entrava pelo corredor e vinha me cheirar novamente. desta vez ele insistia comigo, erguia minha mão com o focinho, o tigre começou a me lamber, me deitou no chão e deitou no meu colo, o tigre me deu um abraço, enquanto me lambia como uma cria. então o tigre falou: "estou muito feliz de te encontrar. você é uma das 9 pessoas que conhece a encarnação da Lama budista que estou procurando". eu era um sinal de contentamento para o destino do tigre do meu sonho. e acordei com a Tétis com o focinho no meu nariz, ronronando.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

depois de meses sonhei com a minha avó, ela saindo de dentro duma sala de velório, vestida num manto azul, me dizia: "se não há pressa na morte, por que tanta pressa, por que tão apressada na vida?" e me dizia algo sobre relíquias, os seus valores, os modos de distinção entre elas e o lixo "que não é desperdício". ainda antes de se despedir dizia: "o amor é uma caixinha de música dos pulmões, é saber tocá-la com a respiração".

sábado, 24 de setembro de 2016

caleidoscópio

ou uma noite que sonhei com meu primeiro beijo
e me imaginei muito velha escrevendo a minha autobiografia
(que certamente escreverei um dia, já se nota)
e no lugar muito luminoso a quadra onde jogávamos
tive um espasmo tão absorto que foi
onde era timidez
os músculos se contraindo todos juntos, soltando
soltando juntos também
uma novidade


sendo que na véspera eu havia sonhado com o corpo do meu pai aos pedaços no chão de uma sala de piso vermelho e só havia um lençol curto e insuficiente o bastante


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

sonhei que estávamos em guerra. um departamento de literatura de uma universidade em que estudei havia se transformado num hospício para receber aqueles que tinham enlouquecido com o som das bombas. eu tinha um envelope nas mãos, sabia que ele estava vazio, mas os loucos, misturados entre os professores, e os professores que tinham enlouquecido, e os médicos que cuidavam dos loucos mas que também me pareciam loucos, imaginavam que aquela correspondência continha um segredo de sabedoria. eu tentava não chamar atenção. alguém colocava uma antiga vitrola pra tocar uma espécie de valsa e dizia que as músicas mais recentes tinham se perdido em meio ao conflito. os loucos e os médicos dançavam, dançavam. um homem muito inteligente me tirava para dançar, ele tinha as mãos imensas e eu dizia que não, que não queria dançar. eu estava tímida. assustada com a loucura, também. ele insistia: "por que você não quer dançar?", e eu: "porque preciso voltar a escrever", disse apontando para o elevador no qual entrei para voltar a escrever.  e que estava tomado de camas para os doentes que não estavam loucos. 
 
#
 
terei 3 falas em público em universidade em 3 meses.  
 
#
 
é a junção do pensamento com a medicina, a necessidade de reaproximar certos pedaços de conhecimento. é bem mais que isso também. mas deixo para as entrelinhas. 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

na antevéspera da morte da minha avó, no ano passado, eu sonhei o que está aí no link. passei os meses seguintes a sentir a morte pairando por redor alto em cima tudo nuvem chumbo & eu resistindo com música.

adoeci umas semanas antes da minha avó morrer (na minha vida grandes adoecimentos tendem a anteceder acontecimentos tenebrosos, não é a primeira vez que me acontece) e achei que o sonho falava disso. mas não. o sonho, como a doença, antecipava o futuro. o sonho do dia 18 de julho me dava a receita para atravessar o pós-19 de julho.


sei que hoje, quer dizer, nesta última noite, sonhei que estava no mesmo consultório que no sonho de 10 meses atrás. só que dessa vez estava com a Lisa, uma enfermeira de medicina chinesa que já me ajudou algumas vezes a ficar bem de modo muito humilde e pouco ostensivo. eu estava deitada numa maca, a Lisa vinha com um sorriso e a Lisa me enrolava a coluna numa posição como um caracol, envolvia minhas pernas no meio do meu pescoço, até que eu fiquei completamente confortável.

quando atingi o conforto total, que paciência, que ternura por existir num corpo, a Lisa me desenrolou calmamente, eu então percebi que tinha deixado a posição fetal em que estava e a Lisa disse "pronto, você acabou de nascer, agora você é você mesma". e eu acordei, muito agitada, porque nascer, vamos combinar, nascer é muita coisa ao mesmo tempo agora.

quarta-feira, 30 de março de 2016

essa noite sonhei que o saguão de entrada do prédio das férias litorâneas da minha infância tinha sido todo reformado de forma a tornar-se aquilo que era "originalmente". era lindo! no lugar das paredes de pedra o edifício tinha grandes traves de madeira em forma de céu de planetário e em cada pedaço do "céu" existia algum conhecimento demonstrado.
por exemplo, havia uma área para o que se sabia sobre as plantas e suas funções. e era tudo em imagem, não havia uma só palavra pra explicar as coisas.
ao mesmo tempo, no saguão, um bando de amigos brincavam um jogo que simulava ser xadrez, mas eles mudavam as regras do jogo o tempo todo, e eu sabia que o nome daquele jogo era "a invenção do fogo". 
só depois de acordar percebi que todos que estavam no sonho além de mim eram pessoas do signo de áries. 
e faço assim: um pouco como os eles do sonho fariam: beijos para o momento do eu, em que o não-eu não vai entender muito bem tudo que quero dizer com isso. e aí? o fogo!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

esta noite sonhei que eu e minha amiga estávamos num saloon no velho oeste e tínhamos que aparentar que éramos muito perigosas, já que os homens ao redor realmente eram. então minha amiga foi até o balcão e pediu uma bebida poderosa, era um refresco que entre 10 ingredientes misturava água das pedras, canela, hortelã e areia, e vinha com um canudinho borrifador de spray na ponta de um tubo de dois litros do refresco.

ela tentava beber rapidamente, afinal iríamos atravessar o deserto numa moto. e perguntou "quer provar?", eu abri a boca e ela então borrifou os dois litros dentro da minha garganta. engasguei e rindo, perguntei "por que você fez isso?" e ela, bem prática, respondeu "porque tinha que acabar, uai".


saímos do saloon e encontramos a nossa moto, que nos levaria adiante pelo deserto. a moto tinha uma placa de identificação meio bamba, mas ainda pregada nela e na qual se lia: ANSIEDADE ABANDONADA. acordei com o despertador tocando fazia já uns minutos.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

já esta noite sonhei que eu estava no meio da revolução francesa, guilhotinas e agitações, fogos queimando alto e eu atravessava a revolução francesa dando uma aula sobre a revolução francesa na qual eu dizia que a unidade do eu é uma invenção moderna a ser descartada. e uma guilhotina cortava a cabeça de alguém ao meu lado.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

dois dias atrás eu tive um sonho que não tinha começo meio e fim, era um sonho cíclico e sempre se repetindo e ao mesmo tempo eram só episódios que não tinham consecutividade, mas aconteciam em paralelo, eu saltava de um cenário e acontecimento para o outro, ou talvez eu estivesse neles ao mesmo tempo.

eu estava, ao mesmo tempo, numa cerimônia que acontecia no porão de um navio descendo o amazonas; assistindo um documentário dos anos 80 sobre as fábricas de armamento nazista num cinema de poltronas cor-de-rosa; numa reunião da ONU em que duas pessoas faziam sexo na porta da sala de reunião.

sim, isto é a minha vida.
 
isto significa que não escrevi uma dissertação em vão, e também que tudo que ando lendo sobre mitos há uns anos tem realmente atiçado minha forma de pensar e isto já chegou ao subterrâneo das coisas.

e isto também quer dizer que tenho acordado todos os dias com cada parte de mim num lugar diferente & e para isto, meus amigos, hoje achei uma nova simbolização

a cada coisa que reclamava para a médica chinesa ela me respondia "é fogo. fogo alto". o fogo está alto, as partes se atiçam e agitadas que ficam em compor uma nova pessoa entram em atrito e causam inflamações, pavios curtos, euforias, agitações. todos nomes clínicos pra algo muito mais interessante do que isso.

*

a saída da linearidade, aos saltos.
o luto tem me ensinado que realmente não existe "superação"
existe é crescer como uma árvore que primeiro se enraíza, para depois subir.

*

darei frutos, sim os darei
hoje estava empacotando umas coisas pro correio e percebi que o universo de coisas materiais que já fiz no planeta (para além de comida) já preenche alguns centímetros cúbicos. fiquei capricornianamente feliz. 

*

ia dizer mais coisas, mas basta dizer que sinto que encontrei a prática que eu tanto desejei: tai chi chuan. anoto aqui pra quando no futuro eu ler eu me lembrar de quem sou agora.

terça-feira, 26 de maio de 2015

não sei se a intenção era a de um usurpador, mas sua presença não me dava confiança. a vontade de proteção me fez deitar no chão, como faria um animal, e o chão era coberto de violetas e as violetas me protegiam. embora não tenha avançado, ele também não retrocedeu. senti mais medo e pedi: "ajuda!", assim vieram lobos ao meu redor, e ele se foi.

domingo, 17 de maio de 2015

caminho

às vezes volto à fase de sonhar recorrentemente com caminhos, estradas, estou sempre a andar ; e já sei: há algo, nesta pessoa, a trocar de lugar. por agora sonho com meus pais, com meus irmãos. e existem esses caminhos a percorrer, eu mesma, sou um caminho a percorrer. esta noite entrei em casas de pessoas desconhecidas, onde havia gatos, eu me escondi num armário, saí por uma janela, subi muitos montes e os desci também, andei milhares de quilômetros numa mesma rua (que era a apinagés) porque tinha que chegar antes da hora que eles iriam e poderiam me dar uma carona, saí num rompante, e afinal me perdi. e afinal não tinha como ir sozinha, tive que voltar, estavam todos no sofá, uma delas com uma cara de que sabia que eu não conseguiria, mesmo. desde o princípio. outra noite eram caminhos de água, rios gigantescos, era o pantanal, mas eram plantações de arroz. um irmão os havia comprado, os caminhos. andávamos dentro da água, minha mãe simulava apreço e eu não me molhava. sei que sonhei com a memória. e ela é sempre. é sempre um futuro.

terça-feira, 24 de março de 2015

pela noite tive febre e a tosse me permitia só uma posição encaixada entre travesseiros altos
não era nem 7h da manhã e os pedreiros da obra ao lado começaram a ouvir música
altíssima e repetitiva
eu só queria dormir mais, me encaixei entre os travesseiros novamente,
e dormindo voltei a sonhar: eu no cantinho de um sofá, meio tímida, dolorida
semi-calada
abriu a porta e entrou o joão gilberto com seu violão
sentou bem do meu lado e começou a tocar
canções de calma engenhosa e paz
e eu embalada, ninada pelo joão.
dormi melhor em paz acordei
sentindo muita purificação pela sorte
da bondade de sonhar assim.
acordei e soube logo da morte de herberto helder.
mestre irmão raio total céu denso e vivo puro
entrou na escuridão sendo luz.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

umas noites atrás sonhei que eu estava num carro numa rodovia, e a pessoa que estava do meu lado dizia que aquele que amei & me confundi estava morto, tinha morrido num acidente de carro. estava eu em outro carro, note-se que não morri.

hoje sonhei que eu estava na sala de jantar da casa em que cresci, com o meu pai e lá fora, de repente, o Grude, cachorrinho que já está morto, corria atrás da canela de alguém que passava com uma lanterna, era de noite. a minha reação me surpreendia no sonho, já que era a de também correr atrás desse alguém para ver quem ele era, e esse alguém saltava um portão que existia mesmo na casa em que cresci e como eram dois, um deles conseguia fugir, mas do outro eu agarrava a tempo canela do segundo que saltava, e de repente era de dia e o tal perigoso que eu surpreendia era, na verdade, um comerciante de palmilhas (sim, de palmilhas) que estava cortando caminho por ali. embora eu nunca entendesse porque tinha que ser por ali (ah! a propriedade privada...), ele ficava me mostrando o mostruário, depois chegava alguém que trabalhava na nossa casa e ficava desconfiadíssima com aquela história toda de palmilhas brancas e saltos de portão vermelhos.

sábado, 22 de novembro de 2014


Seu deu a fissura:se atrelou contra mim
através de uma ranhura.
Criou relevo:
decalquei o silêncio.
Que profundidade!

*

Depois da notícia da miss motosserra
ser ministra da agricultura
sonhei que a água acabou tanto
que fui morar com minha amiga
de tempos de juventude
dentro de uma caverna.
Ficava numa encosta de vale
rochoso de argila seca cor de rosa
e tinha o teto azul de cristal.
Era uma ironia melancólica
que o teto da nossa casa
parecesse água, sendo rocha.
E eu ficava olhando o teto
sempre embasbacada com a beleza
que nostalgia!

Tínhamos uma horta
e uma lata. Toda gota de água
que, eventualmente, caía na lata
era metade nossa
metade da horta
que plantávamos humildemente
dividindo as espécies vegetais
com restinhos de madeira vermelha.
E assim levamos a vida
em contar as gotas
fazer um pouco de fogo
e ver o teto brilhar
feito o fundo de uma piscina.


*

Ouvi muitas vezes na minha família que foi Brasília que matou o meu avô. Cresço considerando que o poder mata Brasília que mata as pessoas e assim, como um dominó, o país continua. 
sonhei que a seca havia chegado de maneira tão definitiva que houve um deserto em tudo. então eu morava numa caverna que tinha o teto azul, de cristais azuis. era bonito quando era noite e acendíamos o fogo. tentávamos cultivar uma horta.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

meu gato estava equilibrado no parapeito da janela daqui de casa, que vista na perspectiva desta madrugada tornou-se um oitavo andar, e então ele SALTOU, abriu as asas como um paraquedas de morcego, foi caindo entre flanando e se desgraçando, chegou lá embaixo e se espatifou. vi da lonjura que ele saiu andando e fui recuperá-lo. no caminho me aconteceram duas vezes outras coisas, até que diretamente o tive nos braços. as patinhas dele estavam mais estateladas do que nunca (ele tem mania de alongar o entre dedos até o estado de tensão absoluta das mãos) e, deitado no meu colo, quando ele parecia que iria ronronar, meu gato, o Capim, ele CANTOU. a queda (ou o vôo?) ensina a cantar.

sábado, 28 de junho de 2014

não tem fim

faz uns 6 anos que não vejo meu psicanalista.
esta noite sonhei com ele.
estávamos os dois num ônibus
daqueles bem lataria barulhenta
sentados lado a lado e olhando pela janela.
de repente perguntei, como quem nada
"ei! e aí?" e ele respondeu primeiro com um silêncio
sutil que foi formando um sorriso de canto de boca
olhou bem pra mim e disse, rindo,
"pois é, estamos vendo a vida passar".
 

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