"Estabelecer uma
colônia permanente em Marte implica ir sem voltar. Isso parece
impressionante, mas não se pode esquecer que na história de nosso
planeta, as pessoas que partiram em viagens de exploração deixaram para trás suas famílias", tirado daqui
ou a Llansol dizendo que só voltaria para Portugal quando não significasse mais voltar, que fosse um ir.
que seja um ir.
voltar como quem viaja
também é não voltar,
voltei de Paris, alguém diz
de Marte também eu
não deixava de voltar,
embora tenham descoberto que lá havia oxigênio
isso foi milhões de anos atrás.
ou isso ou um dia outros contemporâneos
sempre vão me considerar
conservadora.
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segunda-feira, 5 de agosto de 2013
notas de viagem (4)
às vezes a pergunta "como conviver com o próximo?" se alterna num salto
que pergunta "como conviver com o póstumo?". não sei, tanta gente que
conheço vive entre ruínas. nem sei mais se acho que isso é ruim.
durante algum tempo quis abdicar do valor do tempo, de dizer que as coisas se passam de um jeito ou de outro. deixei-me triste até o silêncio. hoje desconfio que já era ela, mesmo que calada, a transformação. sempre ritmada e desafinada, tom de tudo, a transformação.
e a viagem vira um intervalo, ou um procedimento? vira o virar, que uma vez na cinemateca ouvi dizer que o césar monteiro não terminou a montagem de um filme, quando recebeu o dinheiro pra fazê-lo pegou tudo e foi passar uns dias em Roma. prova de que existem irresponsáveis louváveis. nota psicanalítica (ou a transformação as usual em curso): tratar a viagem como cesar monteiro tratava a vida, à galope.
no fundo eu não tenho estômago pra nada. é literal, basta 1/4 da bactéria inteira que atacaria uma pessoa normal, basta 1/4 dela pra que eu esteja deitando as tripas pra fora. e jesus, finalmente aprendi de que lado está o baço. vou ser hipocondríaca quando póstuma: aquela que só sabia de emplastos, astrologias, poemários rotos. aliás, uma coisa que a europa me ensinou foi a amar o roto.
sem ofensas, pessoal.
tudo no mundo continua um interior sem tamanho.
durante algum tempo quis abdicar do valor do tempo, de dizer que as coisas se passam de um jeito ou de outro. deixei-me triste até o silêncio. hoje desconfio que já era ela, mesmo que calada, a transformação. sempre ritmada e desafinada, tom de tudo, a transformação.
e a viagem vira um intervalo, ou um procedimento? vira o virar, que uma vez na cinemateca ouvi dizer que o césar monteiro não terminou a montagem de um filme, quando recebeu o dinheiro pra fazê-lo pegou tudo e foi passar uns dias em Roma. prova de que existem irresponsáveis louváveis. nota psicanalítica (ou a transformação as usual em curso): tratar a viagem como cesar monteiro tratava a vida, à galope.
no fundo eu não tenho estômago pra nada. é literal, basta 1/4 da bactéria inteira que atacaria uma pessoa normal, basta 1/4 dela pra que eu esteja deitando as tripas pra fora. e jesus, finalmente aprendi de que lado está o baço. vou ser hipocondríaca quando póstuma: aquela que só sabia de emplastos, astrologias, poemários rotos. aliás, uma coisa que a europa me ensinou foi a amar o roto.
sem ofensas, pessoal.
tudo no mundo continua um interior sem tamanho.
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notas de viagem
sábado, 27 de julho de 2013
notas de viagem (3)
primeira
noite na tenda a chuva torrencial entre carvalhos. já me adaptei a
certos vocabulários e nos dias anteriores a cada cachoeira me pegava
cantando "eu sou memória das águas".
devia ser seis da manhã quando senti uma bolha na omoplata direita. não poderia ser, mas eram meus ombros nivelados por uma poça embaixo. atravessou a lona, o saco de dormir, me tornou os pulmões um precipício.
tive pneumonia uma vez por estar com a vida toda fudida e numa noite de frio ter fumado tudo e deitado com as costas no chão pra ver o céu da praça do relógio com a Mari.
lembrei disso & chorei miúdo.
*
só pode ser domingo, é isso.
me impressionava no primeiro livro de poemas que li a quantidade de vezes que "domingo" era referido. logo a poesia me mostrou que podia tourear o tédio, nosso imenso companheiro.
o livro era o "alguma poesia".
*
estou rodeada de antepassados aqui, os carvalhos. e everything inside is made of stone.
domingo e água.
domingo é água.
devia ser seis da manhã quando senti uma bolha na omoplata direita. não poderia ser, mas eram meus ombros nivelados por uma poça embaixo. atravessou a lona, o saco de dormir, me tornou os pulmões um precipício.
tive pneumonia uma vez por estar com a vida toda fudida e numa noite de frio ter fumado tudo e deitado com as costas no chão pra ver o céu da praça do relógio com a Mari.
lembrei disso & chorei miúdo.
*
só pode ser domingo, é isso.
me impressionava no primeiro livro de poemas que li a quantidade de vezes que "domingo" era referido. logo a poesia me mostrou que podia tourear o tédio, nosso imenso companheiro.
o livro era o "alguma poesia".
*
estou rodeada de antepassados aqui, os carvalhos. e everything inside is made of stone.
domingo e água.
domingo é água.
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notas de viagem
sexta-feira, 26 de julho de 2013
notas de viagem (2)
durante
uns anos, eu não tinha nem 25, escrevi um romance. ele tinha
referências aos contrastes entre as cores: por exemplo: barro de
terracota versus verde costela-de-Adão.
não me lembro de muito mais coisa. na foto com a cara de leão eu completava naquele dia 25 anos.
também me lembro que nas duzentas páginas havia uma personagem que se chamava asaboli. ela acabou virando o amor abandonado de infância pelo narrador que se chamava Antônio.
essas páginas foram um modo de decantar o fulgor do jardim em que cresci.
*
tudo até aqui foi desimportante.
ah o que eu me lembro foi que numa noite dura e cheia de notas de rodapé e rodeada por colegas de Letras que eram os mais inteligentes e que só citavam,
foi terminando um trabalho sobre tropicalia, a do caetano, que a cabeça a mil no travesseiro pensa pensou: "as aspas eu as aboli". as aboli.
daí pra asaboli foi um pulo. um pulo frustrado, ou assim considerado neste imediato.
imediato imprescindível!
200 páginas pra nada
pensei nesses últimos anos
*
aquela personagem que não existia, asaboli não tinha dentes. asaboli era uma alavanca, ou melhor, um cajado, minha terceira perna.
desde que a quis
abriu-se buraco negro
passei anos comendo
os versos os entendimentos
a fabricação
de outros e de outros e de mais outros
até apagar
reverenciar
fabricar
esses outros esses ouros
tudo por começar
oh pudores oh ana cristina
*
isso aqui escrito porque escrevi no caderno uns versos que daqui a pouco cito e pensei longamente se colocava aspas ou não.
vontade que me deu foi de escrever uns versos do Caetano, que
pra mim é como era a Amália
para o Variações.
"aranha tece puxando
o fio da teia
a ciência da abelha
da aranha e a minha
muita gente desconhece".
*
venturosos eram
aqueles como
o Bento e a Maria Gabriela
que elogiavam
sempre a alegria
constituintes dos entres
no entre as coisas.
*
tudo isso vendo a construção da nova teia aqui em frente.
essa aranha é daquelas que Darwin nenhum punha defeito
não me lembro de muito mais coisa. na foto com a cara de leão eu completava naquele dia 25 anos.
também me lembro que nas duzentas páginas havia uma personagem que se chamava asaboli. ela acabou virando o amor abandonado de infância pelo narrador que se chamava Antônio.
essas páginas foram um modo de decantar o fulgor do jardim em que cresci.
*
tudo até aqui foi desimportante.
ah o que eu me lembro foi que numa noite dura e cheia de notas de rodapé e rodeada por colegas de Letras que eram os mais inteligentes e que só citavam,
foi terminando um trabalho sobre tropicalia, a do caetano, que a cabeça a mil no travesseiro pensa pensou: "as aspas eu as aboli". as aboli.
daí pra asaboli foi um pulo. um pulo frustrado, ou assim considerado neste imediato.
imediato imprescindível!
200 páginas pra nada
pensei nesses últimos anos
*
aquela personagem que não existia, asaboli não tinha dentes. asaboli era uma alavanca, ou melhor, um cajado, minha terceira perna.
desde que a quis
abriu-se buraco negro
passei anos comendo
os versos os entendimentos
a fabricação
de outros e de outros e de mais outros
até apagar
reverenciar
fabricar
esses outros esses ouros
tudo por começar
oh pudores oh ana cristina
*
isso aqui escrito porque escrevi no caderno uns versos que daqui a pouco cito e pensei longamente se colocava aspas ou não.
vontade que me deu foi de escrever uns versos do Caetano, que
pra mim é como era a Amália
para o Variações.
"aranha tece puxando
o fio da teia
a ciência da abelha
da aranha e a minha
muita gente desconhece".
*
venturosos eram
aqueles como
o Bento e a Maria Gabriela
que elogiavam
sempre a alegria
constituintes dos entres
no entre as coisas.
*
tudo isso vendo a construção da nova teia aqui em frente.
essa aranha é daquelas que Darwin nenhum punha defeito
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quinta-feira, 25 de julho de 2013
notas de viagem (1)
já se sabia que herberto helder compreendeu: o coração das: montanhas,
aves, raves, libélulas, pontes (de concreto, de pedra, aço, etc); e o
modo como estas e outras coisas respiram.
lembremos pois:
"até que deus é destruído pelos extremo exercício da beleza";
"a beleza quando avança é como um exército
e eu trabalho quanto possa pela sua violência".
*
depois de tanto presunto
preciso eu comer
todos morangos do mundo.
lembremos pois:
"até que deus é destruído pelos extremo exercício da beleza";
"a beleza quando avança é como um exército
e eu trabalho quanto possa pela sua violência".
*
depois de tanto presunto
preciso eu comer
todos morangos do mundo.
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notas de viagem
segunda-feira, 22 de julho de 2013
notas de viagem (0)
há uns tempos que penso na necessidade de
inventar um verbo que esteja entre o pensar e o sentir, alguém conhece?
então é nesse verbo que sinto-penso a guerra oculta da guerra em que
vivemos, pois lustremos os artifícios e as técnicas,
e de repente aquela consideração aos insetos, não sei bem se ternura. ternura é dedicação para os felinos. ou a delicadeza, a patada que só atira as unhas lá no fim do gesto. e corta. claro que a delicadeza corta.
seres vivos abrindo, as flores e as batatas, outras espécies, cerejeiras, quaresmeiras, mariri, tulipas, samambaias, tílias, afins vegetais que são espécies superiores a nós, os animais.
solicito também o comparecimento das rúculas, dos espinafres, das rosas e do alazão. cada coisa que a gente tem que justificar, pedir, s i m p l e s m e n t e para postar O Leãzinho com o peacemaker heart mode on.
compareçam ao seu próprio evento astrológico. cuidem da memória de Ezra Pound. que nenhuma reconfiguração lhes tome mais tempo do que esvaziar os bolsos.
nós vamos para a montanha, seremos engolidos pelas encostas e os vales, ribanceiras de água e sapos do Gerês.
e de repente aquela consideração aos insetos, não sei bem se ternura. ternura é dedicação para os felinos. ou a delicadeza, a patada que só atira as unhas lá no fim do gesto. e corta. claro que a delicadeza corta.
seres vivos abrindo, as flores e as batatas, outras espécies, cerejeiras, quaresmeiras, mariri, tulipas, samambaias, tílias, afins vegetais que são espécies superiores a nós, os animais.
solicito também o comparecimento das rúculas, dos espinafres, das rosas e do alazão. cada coisa que a gente tem que justificar, pedir, s i m p l e s m e n t e para postar O Leãzinho com o peacemaker heart mode on.
compareçam ao seu próprio evento astrológico. cuidem da memória de Ezra Pound. que nenhuma reconfiguração lhes tome mais tempo do que esvaziar os bolsos.
nós vamos para a montanha, seremos engolidos pelas encostas e os vales, ribanceiras de água e sapos do Gerês.
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