meu tourinho, a poesia
fugiu de mim.
foi dar em outra
parte - e eu aqui, filha
dela e conselheira,
devastada por um sono
de fim de tarde de domingo
mas ainda não entregue
eu não sei onde ela está
mas desconfio
que seja em algum
lugar entre os meus
seios, e a tua garganta
quarta-feira, 18 de abril de 2012
terça-feira, 17 de abril de 2012
não estou só
minha convicção dormiu seis anos
atravessou a rua
deu as mãos pro cisne, albatroz, gaivota
mas a verdade é que só há pombo
entrega, asa aberta
e do alto a trégua avisa
lá que eu vou chegar mais tarde
cheia da gente, do mundo
vou atravessar duna
tempestade, cidade
fazer versos como quem ora
por dentro do túnel do metrô
contaminada pelo cinza
vi do teto dele
água de concreto
notei estar no século
as tubulações têm cores
pra servirem de aviso
gás, eletricidade, cursores
em pouco tempo não
haverá um homem
que nunca tenha voado
já não há ninguém
que nunca tenha ouvido
um alarme disparado
vou de fones pela rua cinzenta
nunca sei se vêm da música
EU AQUI TENTANDO ESCREVER UM ALARME DISPARADO CLARO DAÍ FUI AO BANHEIRO E AO VOLTAR BATI A PORTA o alarme parou
atravessou a rua
deu as mãos pro cisne, albatroz, gaivota
mas a verdade é que só há pombo
entrega, asa aberta
e do alto a trégua avisa
lá que eu vou chegar mais tarde
cheia da gente, do mundo
vou atravessar duna
tempestade, cidade
fazer versos como quem ora
por dentro do túnel do metrô
contaminada pelo cinza
vi do teto dele
água de concreto
notei estar no século
as tubulações têm cores
pra servirem de aviso
gás, eletricidade, cursores
em pouco tempo não
haverá um homem
que nunca tenha voado
já não há ninguém
que nunca tenha ouvido
um alarme disparado
vou de fones pela rua cinzenta
nunca sei se vêm da música
EU AQUI TENTANDO ESCREVER UM ALARME DISPARADO CLARO DAÍ FUI AO BANHEIRO E AO VOLTAR BATI A PORTA o alarme parou
segunda-feira, 16 de abril de 2012
nunca me dei bem com linha reta,
(mas amo meus amigos)
as páginas são duplas, clica em exibir que dá pra ler
o fio de cabelo é meu mesmo.
as páginas são duplas, clica em exibir que dá pra ler
o fio de cabelo é meu mesmo.
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amigos amigos negócios reparte
me deixa na savana
"Escrevi para fornecer uma forma legível e apaziguadora aos momentos na porta do quarto, no parque, na rua vazia, defronte do rosto aparecido. Escrevi para trás numa espécie de engolfamento memorial. Não consegui nada, foi como continuar no quarto, no jardim, à frente das caras súbitas. Mas conheço agora a existência de uma pergunta inesgotável que se formula, se assim posso dizer, pela objectivação dos arredores evasivos, das alusões, dos sinais remotos.
(...)
Mas este poder, que é um poder mágico, comporta riscos: muitas vezes vira-se o feitiço contra o feiticeiro - uns enlouquecem, outros suicidam-se, há também aqueles que ficam misteriosamente mudos ou estéreis, e aqueles ainda que se põem às voltas a falar, o pior, os mortos sonoros: atiram poeira para cima, estes, seriam mais bonitos crucificados. Ora é precsio intoxicar-se com a paixão do perigo, desenvolver-se a gente dentro dessa paixão: porque o ouro e a prata se escondem em recessos de floresta, fundos de mina, terras depois da água. A paixão é a moral da poesia: arrisquem a cabeça se querem entender; arrisquem sobretudo o nome pessoal, para ouvirem o nome de baptismo como o coroado nome da terra. De sorte que esse tal poder é o da própria paixão: ninguém consegue aventurar-se na poesia coleccionando objectos - estátuas, estatuetas; jóias devem ser jóias vivas, olhos de leoas maternas, insuportáveis coisas que nos contemplam, morre-se de ser assim contemplado. E então é necessária uma nobreza indizível, por exemplo: fixar de frente os olhos maternos, leoninos, e os nossos olhos ficam calcinados - o episódio, conheciam-no os antigos: dizia-se que os deuses cegavam quem os olhasse. Refiro-me a essa nobreza: como se deixássemos de ser nós mesmos, uma espécie de impassibilidade enquanto se vai ficando cego na floresta das leoas."
Herberto, em auto-entrevista, na Inimigo Rumor, n.11.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
alternativa e aliteração
eu sou eu mesma vezes três. acordei pensando, dormi pensando, que eu ando desconvicta nessa tremedeira que é me interessar pela poesia.
começou assim: quinta-série, a professora me disse que poema não tinha que rimar. curioso que eu tenha começado pela liberdade, depois continuei tentando.
vou estudar métrica, um romance, fazer
bangalô na prainha do coração
se eu parasse de escrever/ ah se eu parasse.
esse papo do escritor que não consegue escrever, esse papo do escritor que não consegue ficar sem escrever, esse papo
papada de diamante, papaya as velha come e depois dão as casca pros sabiá
obalalá
é assim
você tem um namorado português
e assiste com ele um seriado norte-americano
com legendas do brasil
ele ri de uma palavra, em especial
desde então você se chama "birita"
você tem um namorado português
e assiste com ele um seriado norte-americano
com legendas do brasil
ele ri de uma palavra, em especial
desde então você se chama "birita"
quinta-feira, 12 de abril de 2012
o cotidiano não vai nos separar, amor
eu queria me depilar com bandas de cera que só usei em portugal
em cima do carpete que aqui é alcatifa
cinza chumbo
ele abria meu armário debaixo da escrivaninha da minha adolescência
e tirava lá de dentro o videogame da minha infância
MEGA DRIVE
e eu não podia me depilar porque ele ficava perguntando
como ligava.
-
ele sonhou que eu acabava com o papel higiênico.
em cima do carpete que aqui é alcatifa
cinza chumbo
ele abria meu armário debaixo da escrivaninha da minha adolescência
e tirava lá de dentro o videogame da minha infância
MEGA DRIVE
e eu não podia me depilar porque ele ficava perguntando
como ligava.
-
ele sonhou que eu acabava com o papel higiênico.
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
sou sou souuuu
a verdade
vocês já sabem
é que eu estou sem internet
a outra verdade
é que eu não sei mais escrever
EU ESTOU LIVRE
vocês já sabem
é que eu estou sem internet
a outra verdade
é que eu não sei mais escrever
EU ESTOU LIVRE
É GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL
não é simples estar feliz em um mundo
triste, de pessoas tristes, de animais enfezados
por isso a tranquilidade, HÁ TRANQUILIDADE AQUI?
onde eu me sento, li uma biografia de jornal do gandhi, que era um homem não só de qualidades,
foi o que a biografia me disse O DESFAZER DO MITO que época chata, meu deus, sem deus, a vida, a época chata, seus caçadores de mitos
eu quero a minha verdade bem embalada e feroz,
que ela venha com a força de um carrinho de supermercado quando desce a ladeira do jack ass
hhhhhhhhá três coisas que eu gosto de começar
colher, comer e garfo
quando tenho dentes suficientes eu os limpo
a partir daqui vou começar a escrever algo com algo
algoquesignifiquepravocêumacoisalinda
tão vagabundamente linda, perniciosa de linda, pernas longas longas longas como cílios
triste, de pessoas tristes, de animais enfezados
por isso a tranquilidade, HÁ TRANQUILIDADE AQUI?
onde eu me sento, li uma biografia de jornal do gandhi, que era um homem não só de qualidades,
foi o que a biografia me disse O DESFAZER DO MITO que época chata, meu deus, sem deus, a vida, a época chata, seus caçadores de mitos
eu quero a minha verdade bem embalada e feroz,
que ela venha com a força de um carrinho de supermercado quando desce a ladeira do jack ass
hhhhhhhhá três coisas que eu gosto de começar
colher, comer e garfo
quando tenho dentes suficientes eu os limpo
a partir daqui vou começar a escrever algo com algo
algoquesignifiquepravocêumacoisalinda
tão vagabundamente linda, perniciosa de linda, pernas longas longas longas como cílios
quinta-feira, 29 de março de 2012
Cabe a ti se separar da mente e descobrir os relevos das diferenças / delegar para um lugar desconhecido aquele que em ti escolhe/ mas o que me organiza é justamente pensar/ justamente, / retirar do caldo aquilo antes que caia,/ que vira um magma vivo, eu só revelo o magma vivo de um bochechar de boca / um cavalo tem dentes uma mulher também/ e o que se pensa enquanto se cospe a água / capacidade / média do pensamento é de mil coisas por pestanejar / eu transformei um tubo de acesso/ um tubo de acesso que sou eu/ me transformei/ acesso ao quê? / Ao resgate.
terça-feira, 27 de março de 2012
quinta-feira, 22 de março de 2012
lx news
lavei as cortinas de veludo azul, dei um armário pra um desconhecido que estava dentro de casa quando cheguei da rua. é que eu não moro mais aqui. agora tenho que ir.
corisco e concreto são irmãos
Quando passo dias assustada, só consigo me abrir para o ritmo das coisas. Para se fazer tudo finge durar para sempre. Mas aprendi com você que o ferro faz atrito por dentro do betão, se expande e espraia, a matéria tem ritmos diferentes e isto faz desarmar o concreto armado em questão de menos de um século. Somos tão modernos que incluímos o deixar de ser. Com a sua pá e as suas chaves, de nada o tempo abdica e a tudo esfarela. A sala desta conversa está a se desfazer na velocidade do que a gente não enxerga. As casas, as frutas, os livros, os olhos que você deixa pousar um instante, tudo, estudo, és tudo em transformação. Sinto o bafo do caminho e por ele tento guiar meus passos.
Faz da insegurança a sua força. O mundo não é sólido, meu bem, o edifício também. Entre eles, considero o enorme chão. Ossos na leva: areia de lava com água que lava, foi o primeiro modo de fazer concreto do mundo. Certos conhecimentos se acumulam. O fogo afinal amacia o ferro e forma a ligadura da costela. Dia a dia, serás meu e misturarás o pó dos teus ossos com o pó dos meus. Enverga comigo, para durar. A arma, amante. Dois arcos e uma flecha que assalta. Abraçamos o coração sem centro. Você diz que é de noite que o céu se mostra como é, o azul diário é uma fábula do sol quando atravessa a atmosfera. E eu que andava evitando o noturno, descubro o andaime, monto nele e pego os raios com as mãos.
sábado, 17 de março de 2012
terça-feira, 13 de março de 2012
útil 2
o papel fino que comprei
é para máquina de escrever
o papel do word e afins
acabou.
o papel fino estava em promoção.
a impressora imprime minha dissertação
no papel fino que comprei
mas não meus poemas
do destino do mar
como ondas a impressora
engasga e engole
se tivesse na praia
atirava na água a impressora
qualquer promoção
virava musgo
meu livro também
é para máquina de escrever
o papel do word e afins
acabou.
o papel fino estava em promoção.
a impressora imprime minha dissertação
no papel fino que comprei
mas não meus poemas
do destino do mar
como ondas a impressora
engasga e engole
se tivesse na praia
atirava na água a impressora
qualquer promoção
virava musgo
meu livro também
útil
o papel fino que comprei
pra usar na máquina de escrever
na papelaria fernandes
que está sempre a falir
a falir e se reconstruir
em promoções das mais variadas
o papel fino que comprei
é para usar na valentine
porém acabou o papel
o outro para word e afins
então o papel fino que comprei
ele imprime minha dissertação
mas o poemas do destino do mar
não
o papel fino que comprei
engole a impressora
quando imprime poemas
não sei se é uma retaliação
ou somente uma ação
conjunta da valentine
da papelaria fernandes
do chiado dos papéis
dos prazos
dos afins
de engolir papel
pra usar na máquina de escrever
na papelaria fernandes
que está sempre a falir
a falir e se reconstruir
em promoções das mais variadas
o papel fino que comprei
é para usar na valentine
porém acabou o papel
o outro para word e afins
então o papel fino que comprei
ele imprime minha dissertação
mas o poemas do destino do mar
não
o papel fino que comprei
engole a impressora
quando imprime poemas
não sei se é uma retaliação
ou somente uma ação
conjunta da valentine
da papelaria fernandes
do chiado dos papéis
dos prazos
dos afins
de engolir papel
segunda-feira, 12 de março de 2012
should be more drastic
As fases nas quais
eu me identifico
com o Bob Dylan
são muito boas.
eu me identifico
com o Bob Dylan
são muito boas.
Minha vida começou no infinito
e vai terminar no apocalipse.
Minha vida começou no apocalipse
e vai terminar no infinito.
e vai terminar no apocalipse.
Minha vida começou no apocalipse
e vai terminar no infinito.
Faço uma estrofe
de cada lado
que é para não tropeçar.
de cada lado
que é para não tropeçar.
Os poetas re-encarnam?
, você acha que os poetas re-encarnam
ou que eles são a mula sem quatro-cabeças?
, você acha que os poetas re-encarnam
ou que eles são a mula sem quatro-cabeças?
Gosto dos sons que as crianças emitem.
A melhor coisa que elas inventaram foi a primavera.
A melhor coisa que elas inventaram foi a primavera.
bob dylan não é van gogh
sonhei assim, um homem tinha tido a orelha decepada
estava pendurada
vinha um médico com agulha, linha, tudo
costurava, a partir de cima
o remendo. o eduardo também estava.
dava tudo certo,
olha que bom.
estava pendurada
vinha um médico com agulha, linha, tudo
costurava, a partir de cima
o remendo. o eduardo também estava.
dava tudo certo,
olha que bom.
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caderno público de sonhos
este caderno ainda está no começo
o império está
no não-saber
eu estava querendo
escolher entre
mas o império
está no não-saber
o infinito
o absoluto
o que virá
não sei se bom
se um guia
ou uma carta de condução
sinuosa, porém
eu quero vir logo pra cá
mas não posso
segredo
o nome disto é
dia-a-dia.
no não-saber
eu estava querendo
escolher entre
passado
futuro
presente
?mas o império
está no não-saber
o infinito
o absoluto
o que virá
não sei se bom
se um guia
ou uma carta de condução
sinuosa, porém
eu quero vir logo pra cá
mas não posso
segredo
o nome disto é
dia-a-dia.
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quinta-feira, 8 de março de 2012
8 deitado é infinito
no plano do dia
eu tenho cada vez mais amigas
mulheres
não sei o que isto significa
eu tenho cada vez mais amigas
mulheres
não sei o que isto significa
quarta-feira, 7 de março de 2012
terça-feira, 6 de março de 2012
puro
estou como as primeiras costelas de um corpo
empilhadas na cartilagem com a bacia
minha bacia vermelha, dispersiva
é a época da grande gestação do começo
SEI QUE OS CAMPOS IMAGINAM AS SUAS
PRÓPRIAS ROSAS.
AS PESSOAS IMAGINAM SEUS PRÓPRIOS CAMPOS
DE ROSAS. E ÀS VEZES ESTOU NA FRENTE DOS CAMPOS
COMO SE MORRESSE;
OUTRAS, COMO SE AGORA SOMENTE
EU PUDESSE ACORDAR
ele, eu sinto, depois de me dar um armário para viver por dentro
disse eu
Onde encontro os potes de massa
ao redor das pilhas enferrujando
na caixa de sapatos
junto das fotografias
enrolado numa manta
o amor, raro. O amor
tira o cavalo da naftalina
gira e grita
grita e guia.
eu ia dizer que ele precisava de um silêncio muito grande que o envolvesse
até que fossemos capazes
de entender as coisas. mas ele é um aventureiro
o meu amor é uma ventura
então o telefone toca
o meu amor é tão arrumadinho
e eu digo que estava escrevendo este poema
ou melhor, digo que já faz tanto tempo que não escrevo um poema
que estou preocupada até com isso
não digo isso assim em público
também porque a preocupação é só um cansaço
também porque do que eu sinto falta sem os poemas
do que eu sinto falta é deste senso de aventura
em que cada
movimento de partida é uma inteligência
que se desfaz, de tanto que se fixa, escrever
bem se sabe, é o meu maior prazer
se bem que o meu amor também me dê muito trabalho
ele fica um pouco atordoado de saber que sou tão estranha
e é por isso que ele me ama
digo justamente aquilo que não interessando a ninguém, é o que me interessa
não tomo nada dos outros e nisto meu amor sabe
tudo que eu turvo tende para o azul
inclusive o ouro. procuro
empilhadas na cartilagem com a bacia
minha bacia vermelha, dispersiva
é a época da grande gestação do começo
SEI QUE OS CAMPOS IMAGINAM AS SUAS
PRÓPRIAS ROSAS.
AS PESSOAS IMAGINAM SEUS PRÓPRIOS CAMPOS
DE ROSAS. E ÀS VEZES ESTOU NA FRENTE DOS CAMPOS
COMO SE MORRESSE;
OUTRAS, COMO SE AGORA SOMENTE
EU PUDESSE ACORDAR
ele, eu sinto, depois de me dar um armário para viver por dentro
disse eu
Onde encontro os potes de massa
ao redor das pilhas enferrujando
na caixa de sapatos
junto das fotografias
enrolado numa manta
o amor, raro. O amor
tira o cavalo da naftalina
gira e grita
grita e guia.
eu ia dizer que ele precisava de um silêncio muito grande que o envolvesse
até que fossemos capazes
de entender as coisas. mas ele é um aventureiro
o meu amor é uma ventura
então o telefone toca
o meu amor é tão arrumadinho
e eu digo que estava escrevendo este poema
ou melhor, digo que já faz tanto tempo que não escrevo um poema
que estou preocupada até com isso
não digo isso assim em público
também porque a preocupação é só um cansaço
também porque do que eu sinto falta sem os poemas
do que eu sinto falta é deste senso de aventura
em que cada
movimento de partida é uma inteligência
que se desfaz, de tanto que se fixa, escrever
bem se sabe, é o meu maior prazer
se bem que o meu amor também me dê muito trabalho
ele fica um pouco atordoado de saber que sou tão estranha
e é por isso que ele me ama
digo justamente aquilo que não interessando a ninguém, é o que me interessa
não tomo nada dos outros e nisto meu amor sabe
tudo que eu turvo tende para o azul
inclusive o ouro. procuro
quinta-feira, 1 de março de 2012
dentro de mim mora
um sonho tão bonito dois dias atrás. de que eu entrava numa casa que era minha nova casa, ela tinha as estruturas dos tetos como grandes patas de aranha, muito altos e finos, que intervalados por vidros muito grandes, davam para um jardim (que é o jardim da prima do alfredo em visconde de mauá, o jardim mais bonito que já vi, onde árvores de caqui se debruçavam no córguim que ali passava), onde era noite, mas era possível ver o jardim. um pé direito de 5 metros de altura, e todos os pavimentos do chão em carpete, mas bem no centro uma área só de madeira. o carpete era bem anos 70, figuras geométricas enormes cor de azul, vermelho vinho e amarelo mostarda. e havia uma biblioteca e sofás imensos, onde dava tanto pra deitar, como se sentar e espreguiçar. eu, maravilhada, como só sou com o que é meu.
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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
o risco do que se guarda
Primo Levi conseguiu um edredon nos últimos dia no Lager. Tomou do quarto abandonado por um SS. Décadas mais tarde, a peça de calor ainda o acompanhava, de casa em casa, pra onde ele se mudava. Quantas vezes Primo sentiu a cor e o cheiro do seu cobertor, e lembrou? Nada que eu possa explicar com minha insuficiência confortável. Só consigo pelo redor do que fascina: são três coisas: suponho que ele esquecesse até o ponto de lembrar, como em uma revelação, eu queria poder ver por dentro a imagem da sua sensação, seu sopro, som e sabor, no momento de retorno pelo objeto àquela lembrança; se ele nunca deitou fora, eu gostava de sempre ter comigo o direcionamento de interpretação que Primo fazia ao lembrar o que o edredon recordava, afinal, ele não se exilou da vivência ou a pintou com o horror do inabordável, antes fez dela uma passagem e atravessou, como quem olha, como quem toca, tecido seu e de ninguém; por fim, me impressiona como o mesmo objeto possa cobrir seres tão diversos, aquecer suas idéias, sendo elas de bem e mal, sendo sempre o mesmo, só pelo tempo corroído.
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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
é ser o ter no lugar do haver
Clarice Lispector que era de uma brutalidade, de uma violência como só um pano de linho seria capaz, de um tecido que alguém puxa com uma mão de cada lado até promover um BANG, sonoridade de um rompimento que não rompe, e você pode acarinhar o tecido intacto. Eu quero a revelação pouco a pouco. Isto aprendi com C.L.
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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
segunda história rápida sobre a integridade
A SOLIDIFICAÇÃO: A SOLIDÃO
os corpos gasosos movem-se
em correntes de ar
que solidificadas são
grossas paredes a separar
os outros corpos
a separar todos
os débeis estados da matéria
[Luiza Neto Jorge]
os corpos gasosos movem-se
em correntes de ar
que solidificadas são
grossas paredes a separar
os outros corpos
a separar todos
os débeis estados da matéria
[Luiza Neto Jorge]
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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
neste momento eu tenho um livro quase pronto e os músculos de quem dormiu quase doze horas seguidas.
o livro quase pronto quer dizer que andei trabalhando nos últimos dois anos nele. dia a dia, passo a passo,
entendo que quando tiver o último poema vou preencher o livro com mais dois ou três e lá estará
a secagem, o ritmo da máquina de lavar
todo verso, no giro, de fundo, é uma lavagem ultra
tenho também ciúmes, não do livro, mais um sentimento inédito.
o livro quase pronto quer dizer que andei trabalhando nos últimos dois anos nele. dia a dia, passo a passo,
entendo que quando tiver o último poema vou preencher o livro com mais dois ou três e lá estará
a secagem, o ritmo da máquina de lavar
todo verso, no giro, de fundo, é uma lavagem ultra
tenho também ciúmes, não do livro, mais um sentimento inédito.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
política internacional
essa noite eu tive o sonho mais bizarro da minha vida. primeiro eu andava por um shopping com um sujeito com quem já tive um lance, muitos anos atrás, ele apertava a minha bunda, e de repente ele zarpava pra outro canto e eu estava andando pelo museu de história nacional britânico, que depois virava: era um museu dos assassinatos dos tiranos do século XX. mas não tinha nem painel, nem tela, nem nada disso! eles estavam todos renascidos e eu os via morrer na minha frente. vi partirem: o castelo branco (de quem ontem falei) com um olho arrancado por um cabide, o hitler com uma peixeira atravessada na garganta até o coração, o mussolini estava já dependurado pelo pé pra cuspirem nele, o pinochet foi assassinado por uns esquilos e por último matavam a angela merkel (!!), mas não lembro como. levantei pra fazer xixi estava amanhecendo e eu pensando "mas e o stalin? cadê o stalin?"...
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
pra mais tarde
corre o mar vermelho
da retina da visita que - de tarde - vem te ver
ela procura a cura, sentada no alpendre da tua casa
pelo menos no campo se tem repouso
mas és uma raposa que visita a toca
suga teus olhos como uns ovos
de cobra reinada
enrolada, sobre si
ssssssssssilva pela boquinha verde
dançando pela fogueira
a língua toca o lume
é o fogo quem se queima
acovardado
cresce e nasce
some e desce
vigiado
neste inverno retrógrado
sou toda ouvidos, meu bem
a visita, agora sim, vai de pé
olhando às vezes pra trás acena
o farol sempre
atenta
da retina da visita que - de tarde - vem te ver
ela procura a cura, sentada no alpendre da tua casa
pelo menos no campo se tem repouso
mas és uma raposa que visita a toca
suga teus olhos como uns ovos
de cobra reinada
enrolada, sobre si
ssssssssssilva pela boquinha verde
dançando pela fogueira
a língua toca o lume
é o fogo quem se queima
acovardado
cresce e nasce
some e desce
vigiado
neste inverno retrógrado
sou toda ouvidos, meu bem
a visita, agora sim, vai de pé
olhando às vezes pra trás acena
o farol sempre
atenta
pede mais chá
VIII
Guardo-vos manhãs de terracota e azul
Quando o meu peito tingido de vermelho
Vivia a dissolvência da paixão.
O capim calcinado das queimadas
Tinha o cheiro da vida, e os atalhos
Estreitos tinham tudo a ver com o desmedido
E as águas do universo se faziam parcas
Para afogar meu verso. Guardo-vos, Iluminadas
Recendentes manhãs tão irreais no hoje
Como fazer nascer girassóis do topázio
E dos rubis, romãs.
X
Há um incêndio de angústias e de sons
Sobre os intentos. E no corpo da tarde
Se fez uma ferida. A mulher emergiu
Descompassada no de dentro da outra:
Uma mulher de mim nos incêndios do Nada.
Tinha o rosto de uns rios: quebradiço
E terroso. O peito carregado de ametistas.
Uma mulher me viu no roxo das ciladas:
Esculpindo de novo teu rosto no vazio.
[de Hilda Hilst, no "Amavisse" no volume Do desejo.]
Guardo-vos manhãs de terracota e azul
Quando o meu peito tingido de vermelho
Vivia a dissolvência da paixão.
O capim calcinado das queimadas
Tinha o cheiro da vida, e os atalhos
Estreitos tinham tudo a ver com o desmedido
E as águas do universo se faziam parcas
Para afogar meu verso. Guardo-vos, Iluminadas
Recendentes manhãs tão irreais no hoje
Como fazer nascer girassóis do topázio
E dos rubis, romãs.
X
Há um incêndio de angústias e de sons
Sobre os intentos. E no corpo da tarde
Se fez uma ferida. A mulher emergiu
Descompassada no de dentro da outra:
Uma mulher de mim nos incêndios do Nada.
Tinha o rosto de uns rios: quebradiço
E terroso. O peito carregado de ametistas.
Uma mulher me viu no roxo das ciladas:
Esculpindo de novo teu rosto no vazio.
[de Hilda Hilst, no "Amavisse" no volume Do desejo.]
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
transformar a transformação
eu pedi à terra
eu pedi à terra
para não ter dúvidas
mas se eu fosse a terra
não seria poeta
os lugares podem mudar
as paisagens podem mudar
o corpo este depósito
de emoções
a yoga mexe com o corpo do grito
e eu querendo ser trigo
e eu querendo ser terra
acho que meus problemas todos nascem de tomar o mar
tomar o mar
a água salina
apodrece o sangue
mas não é isto que eu queria dizer
não
eu ia dizer que o mar com a sua horizontalidade sempre cambiante
talvez venha dele a minha metamorfose
quando todo mundo sabe que é do fogo
que só o fogo é capaz de trazer
aquilo
continua
que por aqui
tem feito dias lindos
e eu pensando
em um jeito
de afirmar tudo
estancar tudo
desencalhar meus músculos direitos
virei a mesa
serei um pano de linho
sobre a table
merci monsieur cesariny
quero ser pedra alucinada
não calçada claudicante
porosidade que se atravessa
minério que se encharca
eu
eu pedi à terra
para não ter dúvidas
mas se eu fosse a terra
não seria poeta
os lugares podem mudar
as paisagens podem mudar
o corpo este depósito
de emoções
a yoga mexe com o corpo do grito
e eu querendo ser trigo
e eu querendo ser terra
acho que meus problemas todos nascem de tomar o mar
tomar o mar
a água salina
apodrece o sangue
mas não é isto que eu queria dizer
não
eu ia dizer que o mar com a sua horizontalidade sempre cambiante
talvez venha dele a minha metamorfose
quando todo mundo sabe que é do fogo
que só o fogo é capaz de trazer
aquilo
continua
que por aqui
tem feito dias lindos
e eu pensando
em um jeito
de afirmar tudo
estancar tudo
desencalhar meus músculos direitos
virei a mesa
serei um pano de linho
sobre a table
merci monsieur cesariny
quero ser pedra alucinada
não calçada claudicante
porosidade que se atravessa
minério que se encharca
eu
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
cortei caminho e a parte de cima do lábio cortou-se.
penso sem tardança em me atrasar. resisto a todos os choques e acho que meu sistema imunitário não dá bola pra ser tão antigo e equivocado.
o tempo abriu. meu tempo abriu. eu sou o tempo do aberto,
cortou-se de frio e vento a parte do ventre do lábio direito
mamãe está aqui comigo.
disse que eu e ele fazemos o parzinho mais bonito que ela já viu.
e eu coroada com a hera que maria me deu.
o nietzsche disse que em um milênio tem 34 vidas, eu me pergunto quantos antepassados diretos tenho a um milênio atrás? tudo isto pra desviar da rinietzsche e acho que a resposta é o rizoma.
neste carnaval vou me fantasiar de marinheiro
e digo mais, argentino. agora vou arrumar minhas coisas
que tenho a yoga mais mística que o coração do brasil já não viu.
penso sem tardança em me atrasar. resisto a todos os choques e acho que meu sistema imunitário não dá bola pra ser tão antigo e equivocado.
o tempo abriu. meu tempo abriu. eu sou o tempo do aberto,
cortou-se de frio e vento a parte do ventre do lábio direito
mamãe está aqui comigo.
disse que eu e ele fazemos o parzinho mais bonito que ela já viu.
e eu coroada com a hera que maria me deu.
o nietzsche disse que em um milênio tem 34 vidas, eu me pergunto quantos antepassados diretos tenho a um milênio atrás? tudo isto pra desviar da rinietzsche e acho que a resposta é o rizoma.
neste carnaval vou me fantasiar de marinheiro
e digo mais, argentino. agora vou arrumar minhas coisas
que tenho a yoga mais mística que o coração do brasil já não viu.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
se abro o caminho do caminho, viajo.
se tento me recolher ao erro, vicio.
ontem tentei destruir a destruição.
fui absolutamente incapaz de fingir que me interesso por ela o quanto me interesso. é porque não sei atravessar os esquecimentos e deixar de te dar a mão, quando me pedes, ou se não pedes. é só uma coisa de estar ao lado. de deixar de tomar um lado, incapaz? há momentos em que um vento ocidental varre os negócios dos ócios e tira os olhos da flexibilização, quem escolhe? posso, inclusive, elaborar essa estratégia de tentar encontrar uma falta de sentido libertadora, um dizer que não seja nada mais que uma mão estendida por dentro de uma garganta. mas é impossível. impossível também com este desânimo de fim de inverno, o corpo todo tomado por isto, mas sei bem mas sei bem mas não vou. digo: sei que amanhã vou subir uma serra e todo o medo será um carpete para pisar o céu. o céu das coisas têm cor de romã e une, o céu das coisas une intenção e gesto. a prática da sinceridade é uma prática de desestabilização dos métodos. há um ponto em que eu resolvo parar de dizer qualquer coisa. há um texto do deleuze que quero muito ler e que se chama "para por um fim no juízo", alguma coisa assim, sempre. e quero tanto ler as coisas que quando abro o primeiro parágrafo quero sugar cada um daqueles líquens de musgo até mastigar as conchas e os vinhos da tua carne dura, ó carne dura, inverno de merda. ontem tentei destruir a destruição e hoje fui recompensada com duas páginas. faltam mais oito nesse pedaço e tenho que desfazer essa espécie de expectativa do suficiente, porque a única coisa que é suficiente nesse campo de mim mesma é a seriedade. e alguma rinite que sobra, que obra, a rinite obra em mim uma precariedade constante. o bate-papo nacional em portugal hoje tem a ver que o governo está dizendo uma coisa e o ministro das finanças falou no ouvido do alemão outras coisas. e portugal está querendo dizer que é outra coisa que não a grécia, por que "se a grécia sair". putz. momento histórico de merda.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
trabalho a prazo
eu e meu irmão num ônibus de londres até paris
demorava 15 dias a viagem, e estávamos só no começo
paramos no graal da castelo branco (aquele onde o flavio compra lenha pro sítio e eu tomo suco de milho)
as poltronas do autocarro eram azuis
15 dias!
demorava 15 dias a viagem, e estávamos só no começo
paramos no graal da castelo branco (aquele onde o flavio compra lenha pro sítio e eu tomo suco de milho)
as poltronas do autocarro eram azuis
15 dias!
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caderno público de sonhos
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
hilda pede mais chá
escrever é um lance embora o cansaço
tanto que desconfio as vezes se escrever não é um lance do cansaço
e parece que quanto mais desconfiança a gente tiver, menos o texto vai
e que o cansaço só nos permite a desconfiança instintiva
A DESCONFIANÇA INSTINTIVA
conta-se que ana cristina cesar, meu bem, ana cristina cesar comia cacos de telha todas as tardes como quem mastigasse cigarras, não, cascas de noz, conta-se que este treino a deixou tão apta que toda a sua desconfiança era instintiva
no futuro falaram que eu tive de matá-la. terão razão. os homens de letras, tão arrazoados. é por isto que aos homens de letras vamos embebedá-los até todos serem bons homens de letras.
toda escrita é uma troca de letra desenfreada
meus dedos digitam como quem não tropeça, trupica
e quem trupica e cai cai cai cai cai cai
num "cai cai cai cai"
que até lembra quando
a gente diz ai quando a gente diz ah
ah ah ah
minha macaca só pensa EM
ela se debruça na porta da geladeira como quem aguilhotina a jaula
abre e fecha
fecha e abre
a minha macaca instruída
e digital
deixa marca em todo traço
que laça.
ps, conta-se que ana cristina cesar queria ser roteirista da globo. e inafiançável é a lembrança de que A DESCONFIANÇA INSTINTIVA seria um belo título no ecrã.
"ECRÃ!"
tanto que desconfio as vezes se escrever não é um lance do cansaço
e parece que quanto mais desconfiança a gente tiver, menos o texto vai
e que o cansaço só nos permite a desconfiança instintiva
A DESCONFIANÇA INSTINTIVA
conta-se que ana cristina cesar, meu bem, ana cristina cesar comia cacos de telha todas as tardes como quem mastigasse cigarras, não, cascas de noz, conta-se que este treino a deixou tão apta que toda a sua desconfiança era instintiva
no futuro falaram que eu tive de matá-la. terão razão. os homens de letras, tão arrazoados. é por isto que aos homens de letras vamos embebedá-los até todos serem bons homens de letras.
toda escrita é uma troca de letra desenfreada
meus dedos digitam como quem não tropeça, trupica
e quem trupica e cai cai cai cai cai cai
num "cai cai cai cai"
que até lembra quando
a gente diz ai quando a gente diz ah
ah ah ah
minha macaca só pensa EM
ela se debruça na porta da geladeira como quem aguilhotina a jaula
abre e fecha
fecha e abre
a minha macaca instruída
e digital
deixa marca em todo traço
que laça.
ps, conta-se que ana cristina cesar queria ser roteirista da globo. e inafiançável é a lembrança de que A DESCONFIANÇA INSTINTIVA seria um belo título no ecrã.
"ECRÃ!"
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agora que sou sincera,
brutalidade e jardim
para dois rapazes
sabe quando um acontecimento é tão acontecimento que ele é disruptivo
isto é, ele cria uma cisão de distância que não é real
parece que faz cem anos, mas faz dois dias
?
então. menstruar é assim.
ou seja, as mulheres todo mês podem recomeçar. tudo.
esta parte já é para a minha amiga
as mulheres menstruam juntas
você tá entendendo?
as mulheres menstruam juntas
fiquei pensando no seu último email falando da revolta que a gente deve ter e infelizmente tem de carregar.
primeiro de tudo a hannah arendt eu quero mandar um beijo pra ela.
tô tão cansada, queria te contar mais coisas, falar de uma história bonita da hannah,
imagem, in fact
que ela diz
o tempo
numa imagem do kafka
é ser empurrado (um homem)
pela frente e por trás
por forças equivalentes
passado e futuro
onde o presente fica preso no intervalo entre um e outro
empurrado, amassado
a imagem é essa,
do kafka. a hannah diz
que maravilhoso era o kafka
mas-e-que se esta imagem-experimento
acontecesse num paralelograma
duas forças contrárias incidindo uma sobre a outra
tem como fluxo resultante um vetor
este vetor, no homem
é o pensamento.
primeiro de tudo a hannah arendt eu quero mandar um beijo pra ela.
tô tão cansada, queria te contar mais coisas, falar de uma história bonita da hannah,
imagem, in fact
que ela diz
o tempo
numa imagem do kafka
é ser empurrado (um homem)
pela frente e por trás
por forças equivalentes
passado e futuro
onde o presente fica preso no intervalo entre um e outro
empurrado, amassado
a imagem é essa,
do kafka. a hannah diz
que maravilhoso era o kafka
mas-e-que se esta imagem-experimento
acontecesse num paralelograma
duas forças contrárias incidindo uma sobre a outra
tem como fluxo resultante um vetor
este vetor, no homem
é o pensamento.
hóstia não quer dizer hostil
saguão de hotel, estofados laranja. eu, que não sou muito do laranja, parada no corredor esperando pelo elevador. ele chega, eu entro. entram muitos mais. alguém pisa no meu pé. o elevador me irrita. no saguão do hotel encontro uma mulher toda vestida de laranja, como o saguão. ela me abraça. já estou inventando, que eu não lembro mais. queria era sonhar mais, mas acho que ando tão pragmática, que ando sonhando pouco. mas não será esta uma separação muito pragmática também entre sonho e não-sonho. sei que hoje não quero ter de ir longe. já bebi meio litro de chá de erva príncipe. e tenho cólicas.
o b dia desses leu pra mim um trecho que o castañeda conta de umas índias que menstruavam vendo paradas uma fenda se abrir entre as montanhas. quer dizer, tinham que olhar a montanha até verem a fenda. quer dizer, eu já estou inventando, o b disse outra coisa, mas eu gostei dessa imobilidade atenta, também chamada cansaço com sangue.
talvez se eu imaginar um pote com sangue bem escuro fervendo até cheirar sangue pelas paredes como no inverno respiram as paredes o frio e se há fogo transpiram facilmente as paredes se fosse sangue na panela de um bicho ou seu; ficavam cor?
tenho visto muitos romanos de noite, na casa do meu bem, de dia fico assim, vendo romanos, augúrios, augustos, ave! estou pra o que é que tem.
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caderno público de sonhos
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
"eu devo dizer eu guardo um mundo em mim" - aviso de viagem,
olho as graves as traves as aves
o metro passou dia de ontem em greve
a garganta arde pelos graus
se eu fosse um termômetro (a imagem é de ezra pound para o papel do escritor)
vejam ezra pound
se eu fosse um termômetro
meu braço direito anulava a temperatura do coração
tomava tudo
para si
em potes de mercúrio.
no entanto não ando mudo.
viajo no cavalo do tudo, estudo.
sou o lombo do mundo.
quando virei ali na Sé, pra baixo, eram lascas
os galhos das árvores eram estalactites
não sei se a cidade é desta vez uma caverna
ou se o que me governa é a queimada
que virá no rosto da primavera
mas hoje mesmo estive muito vermelha quando me olhei no espelho da casa de chá
digo, pastelaria luso-japonesa, na rua da alfandega, recomendo
não as alfândegas, delas desconfio, inclusive que são tão antigas
tão mais antigas
antigas tanto quanto a desconfiança do homem
atrás dos bigodes
é firme, forte
quase não conversa
mas tem amigos, o homem
rumores de que terá amores
louvores dos primórdios
ele inventa o que virá
com três pés se faz um monstro
ou um poema de amor
"nenhum verso é livre para quem quiser fazer um bom trabalho"
e quando a assombração do ritmo do passado
vem esse corpo de outros, o MEU CORPO
este corte, esta corte
meu rei
abram caminho
olho as graves as traves as aves
o metro passou dia de ontem em greve
a garganta arde pelos graus
se eu fosse um termômetro (a imagem é de ezra pound para o papel do escritor)
vejam ezra pound
se eu fosse um termômetro
meu braço direito anulava a temperatura do coração
tomava tudo
para si
em potes de mercúrio.
no entanto não ando mudo.
viajo no cavalo do tudo, estudo.
sou o lombo do mundo.
quando virei ali na Sé, pra baixo, eram lascas
os galhos das árvores eram estalactites
não sei se a cidade é desta vez uma caverna
ou se o que me governa é a queimada
que virá no rosto da primavera
mas hoje mesmo estive muito vermelha quando me olhei no espelho da casa de chá
digo, pastelaria luso-japonesa, na rua da alfandega, recomendo
não as alfândegas, delas desconfio, inclusive que são tão antigas
tão mais antigas
antigas tanto quanto a desconfiança do homem
atrás dos bigodes
é firme, forte
quase não conversa
mas tem amigos, o homem
rumores de que terá amores
louvores dos primórdios
ele inventa o que virá
com três pés se faz um monstro
ou um poema de amor
"nenhum verso é livre para quem quiser fazer um bom trabalho"
e quando a assombração do ritmo do passado
vem esse corpo de outros, o MEU CORPO
este corte, esta corte
meu rei
abram caminho
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o futuro
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
via carolina, via gustavo: o futuro:
Para compreender o que significa a palavra futuro, é preciso antes saber o que significa uma outra palavra, a qual não estamos mais habituados a utilizar, ou ainda, que estamos habituados a usar apenas na esfera religiosa: a palavra fé. Sem fé ou crença, não é possível futuro. Isto é, há futuro somente se podemos esperar ou crer em algo. Mas, o que é a fé? David Flusser, um grande estudioso de ciências da religião, e ainda há uma disciplina com esse estranho nome, um dia estava trabalhando sobre a palavra pistis, que é o termo grego que Jesus e os apóstolos usavam para fé. Naquele dia, estava passeando e, por acaso, encontrava-se numa praça em Atenas. Num determinado momento, olhando para cima, viu escrito em grandes letras à sua frente Trapeza tés Pistéos. Surpreendido pela coincidência – a palavra pistis – observou com mais atenção. Depois de alguns segundos se deu conta de que se encontrava simplesmente diante de um banco. Trapeza tés Pistéos significa em grego “banco de crédito”. Foi uma espécie de iluminação. Eis, finalmente, o que significava a palavra pistis, que há meses estava tentando compreender. Pistis, fé, é simplesmente o crédito de que gozamos junto a deus e de que a palavra de deus goza em nós a partir do momento em que nela cremos. Por isso Paulo pode dizer, numa famosíssima definição, que a fé é “substância de coisas esperadas”. A fé é o que dá realidade ao que ainda não existe, mas na em que cremos e temos fé, porque nela colocamos em jogo o nosso crédito, a nossa palavra. Algo como um futuro existe apenas na medida em que a nossa fé consegue dar substância, isto é, realidade, às nossas esperanças. Mas a nossa, sabe-se, é uma época de escassa fé. Ou, como dizia Nicolà Chiaromonte, uma época de má-fé; isto é, de fé mantida à força e sem convicção. Portanto, uma época sem futuro e sem esperanças (ou, de futuros vazios e de falsas esperanças). Mas nesta época, muito velha para crer verdadeiramente em algo e muito esperta para ser verdadeiramente desesperada como deveria, o que se faz do nosso crédito? O que se faz do nosso futuro? Porque, parece-me, se se observa bem, há ainda uma esfera que gira inteiramente ao redor do tema do crédito. Uma esfera que englobou toda a nossa pistis, toda a nossa fé. Esta esfera é o dinheiro e o banco, a Trapeza tés Pistéos, é o seu templo. Vocês sabem que o dinheiro é apenas um crédito. Em todas as notas, na esterlina, no dólar, curiosamente não no euro (isto deveríamos deixar sob suspeita), vem escrito que o banco central promete garantir aquele crédito. Está escrito: “o banco pagará ao portador” – libra esterlina, ou dólar, mesmo se agora não há mais o padrão ouro e se a conversão ao dólar não existe mais. Vocês sabem também que a assim chamada “crise” que estamos atravessando – e espero que sejam bastante inteligentes para suspeitar de que o que se chama crise não é algo provisório, mas o modo normal no qual funciona o capitalismo do nosso tempo – começou com uma série desconsiderada de operações sobre o crédito, sobre créditos que vinham descontados e revendidos dezenas de vezes antes de poderem ser realizados. Isso significa, em outras palavras, que o capitalismo financeiro e os bancos, que são seu órgão principal, funcionam jogando sobre o crédito, isto é, sobre a fé dos homens. Isso também significa que a hipótese de Walter Benjamin, para mim uma belíssima hipótese, segundo a qual o capitalismo é, na verdade, uma religião, a mais feroz e implacável religião que já existiu porque não conhece redenção nem dia de festa, deve ser tomada literalmente. O banco tomou o lugar da igreja e dos seus padres, e, governando o crédito, manipula e gerencia a fé – a escassa e incerta crença que o nosso tempo tem ainda em si mesmo. E o faz do modo mais irresponsável e sem escrúpulos, procurando lucrar dinheiro da crença e da esperança dos seres humanos, estabelecendo o crédito que cada pessoa pode gozar e o preço que deve pagar por isso. Hoje estabelecendo e avaliando até mesmo o crédito dos estados que cederam, não se sabe o porquê, a sua soberania. Desse modo, governando o crédito, governa não somente o mundo, mas também o futuro dos homens, este que a crise torna sempre mais curto e a termo. E se hoje a política não parece mais possível, isso acontece, de fato, porque o poder financeiro sequestrou toda fé e todo o futuro, todo o tempo e todas as esperas. Enquanto durar essa situação, enquanto a nossa sociedade, que se crê laica, permanecer servindo a mais obscura e irracional das religiões, eu os aconselho a retomar o seu crédito e o seu futuro das mãos destes sombrios, desacreditados, pseudo-sacerdotes, banqueiros, de uma parte, e dos funcionários das várias agências de rating, de moldings, de Standard & Poor’s, ou qualquer outra denominação que tenham. E, talvez, a primeira coisa a se fazer é parar de olhar tanto ou apenas para o futuro, como eles exortam a fazer, para, ao contrário, voltar o olhar para o passado. Somente compreendendo o que aconteceu, sobretudo procurando compreender como e por que pôde acontecer, talvez, poderão conseguir liberar-se dessa situação. Não a futurologia, mas a arqueologia é a única via de acesso ao presente.
Intervenção de Giorgio Agamben no programa "Chiodo Fisso" da emissora de rádio "Rai 3" no último dia 25/01/2012. (Link para arquivo de áudio original: http://www.radio.rai.it/podcast/A42410486.mp3)
Transcrição e tradução para o português: Vinícius Nicastro Honesko.
[retirei deste blogue aqui: flanagens]
Intervenção de Giorgio Agamben no programa "Chiodo Fisso" da emissora de rádio "Rai 3" no último dia 25/01/2012. (Link para arquivo de áudio original: http://www.radio.rai.it/podcast/A42410486.mp3)
Transcrição e tradução para o português: Vinícius Nicastro Honesko.
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domingo, 29 de janeiro de 2012
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