pela noite tive febre e a tosse me permitia só uma posição encaixada entre travesseiros altos
não era nem 7h da manhã e os pedreiros da obra ao lado começaram a ouvir música
altíssima e repetitiva
eu só queria dormir mais, me encaixei entre os travesseiros novamente,
e dormindo voltei a sonhar: eu no cantinho de um sofá, meio tímida, dolorida
semi-calada
abriu a porta e entrou o joão gilberto com seu violão
sentou bem do meu lado e começou a tocar
canções de calma engenhosa e paz
e eu embalada, ninada pelo joão.
dormi melhor em paz acordei
sentindo muita purificação pela sorte
da bondade de sonhar assim.
acordei e soube logo da morte de herberto helder.
mestre irmão raio total céu denso e vivo puro
entrou na escuridão sendo luz.
domingo, 22 de março de 2015
consoada
Consoada
Manuel Bandeira
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
Manuel Bandeira
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
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sexta-feira, 20 de março de 2015
falou de um homem muito velho que o foi ver e despediu-se atingido por uma pluma, o mais profundo do coração não é turvo, é manso. não há porque resvalar no medo, espero que dê tempo. espero que possa saber o mais sério escolher, que amanse o tempo do vivo, espero que o vivo amanse o que definha e que não haja falta de pedaço no coração que não sabe muito bem se é escudo ou lâmina, se é tristeza ou sutileza. o que se agita é desconhecimento, no caso de quem pede e quer, a paz. luz de muita, luz de muita paz.
quinta-feira, 19 de março de 2015
sábado, 7 de março de 2015
"coletivo"
é tão importante não perder a primeira pessoa do singular quanto não perder a primeira pessoa do plural. não gaste a primeira pessoa do plural em vão. não gaste a primeira pessoa do singular em vão.
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baldio
pra caroliny, chinnnn
acordei com vontade de estar em lisboa
não por um motivo qualquer
pra ver a primavera chegar
vivíssima e aos poucos
os dias ficando longos
o tejo saindo do chumbo
do azul ao lilás se tornando
casacos levados pra cima do armário
velhas alergias a pólen fechando gargantas
alguma esperança
e as pessoas rodeando umas as outras
finalmente! como abelhas em flor,
quarta-feira, 4 de março de 2015
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Na arte de tornar o espinhoso
maravilhoso, aprendi
a ralar os joelhos
sem quebrar os pulsos.
A construir sem ganância
os muros
rodeados de covas altas
palmeiras de açaís
e o ruído da água correndo
ao fundo. Quebrei alguns
dentes, com outros mordi
mas diante de tudo
de repente, eu até cri
no insaciável
fogo que acendi.
Preguei lantejolas, amei
e nunca, nunca me vinguei.
Desperdicei foi muito
lixo
é o que se esquece
de tirar pra fora
e, no trópico, empesteia a área
mas até às moscas do chorume
destinei o meu amor.
Não com beijos
estes, não.
Meus beijos são só teus.
Não sei você, mas para mim, a paz é uma coisa que se exercita
vejo ela abrindo as asinhas, afiando facas
lambendo beiços, abrindo latas
temperando com sal, aquilo que não mata.
maravilhoso, aprendi
a ralar os joelhos
sem quebrar os pulsos.
A construir sem ganância
os muros
rodeados de covas altas
palmeiras de açaís
e o ruído da água correndo
ao fundo. Quebrei alguns
dentes, com outros mordi
mas diante de tudo
de repente, eu até cri
no insaciável
fogo que acendi.
Preguei lantejolas, amei
e nunca, nunca me vinguei.
Desperdicei foi muito
lixo
é o que se esquece
de tirar pra fora
e, no trópico, empesteia a área
mas até às moscas do chorume
destinei o meu amor.
Não com beijos
estes, não.
Meus beijos são só teus.
Não sei você, mas para mim, a paz é uma coisa que se exercita
vejo ela abrindo as asinhas, afiando facas
lambendo beiços, abrindo latas
temperando com sal, aquilo que não mata.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
umas noites atrás sonhei que eu estava num carro numa rodovia, e a pessoa que estava do meu lado dizia que aquele que amei & me confundi estava morto, tinha morrido num acidente de carro. estava eu em outro carro, note-se que não morri.
hoje sonhei que eu estava na sala de jantar da casa em que cresci, com o meu pai e lá fora, de repente, o Grude, cachorrinho que já está morto, corria atrás da canela de alguém que passava com uma lanterna, era de noite. a minha reação me surpreendia no sonho, já que era a de também correr atrás desse alguém para ver quem ele era, e esse alguém saltava um portão que existia mesmo na casa em que cresci e como eram dois, um deles conseguia fugir, mas do outro eu agarrava a tempo canela do segundo que saltava, e de repente era de dia e o tal perigoso que eu surpreendia era, na verdade, um comerciante de palmilhas (sim, de palmilhas) que estava cortando caminho por ali. embora eu nunca entendesse porque tinha que ser por ali (ah! a propriedade privada...), ele ficava me mostrando o mostruário, depois chegava alguém que trabalhava na nossa casa e ficava desconfiadíssima com aquela história toda de palmilhas brancas e saltos de portão vermelhos.
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caderno público de sonhos
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Dom Quixote de las letras
DOM QUIXOTE DE LAS LETRAS
Leonardo Fróes
Devo estar pertencendo a outro planeta. O do Silêncio. E no entanto essas palavras me mordem — exigem para passar para fora. Escrevo obedecendo a um registro. A fala que me conscientiza já é estranha totalmente à idéia habitual de quem sou.
Dom Quixote de las Letras passava pelas redações e ditongos levando seu calhamaço de urros. Chegava à Editoria dos Ditongos, espiava. Via os moinhos da informação fumegando e não acreditava. Mas erguia, com um urro raivoso, a Sua Pena. Com um urro manso cumprimentava. Ninguém podia imaginar nem eu. Mas é verdade.
Na cabana onde Dom Quixote escrevia havia um coelhinho do mato que vinha o visitar com frequência. Nas grandes noites de Derrota o coelhinho sentava numa pedra defronte. Olhava para ele como um Coelho do Mato pode olhar.
Parece que isso aqui virou máquina. Tem coisas que pode, coisas que não pode, fios invisíveis ligando as grandes pás do moinho. Dom Quixote transgride, provoca, estaciona numa orelha e deita sua falação automática. De repente o espírito do local o possui. Mas de repente também ele retorna à sua e é o coração navegando sobre seu cavalo hipotético. Vê ao longe as bandeiras da proibição trepidando. Desgoverna-se um pouco, mas avança. Sente-se o próprio espelho do Homem com suas lamentáveis esporas que parecem medalhas que parecem ventoinhas malhadas e caldeirões de bronze. Como um Perfeito Cavaleiro Armado, o herói Dom Quixote — de las Letras — volta-se para o glorioso passado e recicla situações quixotescas que ele mesmo, sendo quem é, retira de velhos relicários onde guarda os Bilhetes.
Posiciona-se, p. ex., ante determinados palpites e arrisca sua navegação palavral pela língua terna e cansada. Poderia dizer umas Verdades, mas já é tão tarde, e depois esses grilos, esse choro, é melhor dizer ui! Claro que as Exclamações são permitidas ainda. Como também não é sensato deixar de reconhecer seu Direito. Mas por enquanto, não seria melhor questionar se, sendo ele Dom Quixote, necessitaria ou não de um parceiro? Xanxupança estava consertando uns arreios da Terra do Brasil recém-descoberta quando olhou pelo retrovisor do seu mulo e viu um Guarda. Pronto, pensou em seguida, aí vem rabo!
As Exclamações — ainda — são permitidas. As ponderações, também. As cogitações sobre o futuro, idem. Mas o dado concreto da Pessoa Presente, e era isso que Dom Quixote apontava, estava muitas vezes ausente. O Editor de Ditongos, coitado, ficava aparando os golpes do louco.
Dom Quixote de las Letras passaria naturalmente por louco face a um milhão de comodidades em voga. Não gostava de pentes, por exemplo, nem de ventilador. Gostava de sentir de perto as pessoas, por isso perdia frequentemente os jogos e não assaltava, era um Dom Quixote assustado que escutava corujas, também.
Ou de repente a situação da coruja e calar. Entidade presente numa luminosidade ímpar e tão depressa. Impreciso dizer. Estar. Sentir-se locomover como um urso portátil que se desdobra e — ponderavelmente — não se suicida.
Dom Quixote de las Luchas era também no fundo um gozador e também um grande sofredor e também um dileto e bastardo filho das hesitações e do acaso. Vacilava como qualquer cidadão, investia por necessidades distantes. Era comandado como as coisas são num rodopio de astros corriqueiros que muitos filósofos de antigamente chamaram de aparências do mundo.
Eu sei que é difícil dizer isso, dizia Dom Quixote sem traço, mas você vai concordar comigo que a gente faz confusão. Já era noite. Era hora de acordar e afiar as unhas de novo, porque O Mundo — sua grande namorada — estava completamente maluco(a). As paredes estavam brancas de novo, e exigiam uma pichação caprichada. Era de manhã. Era incrível como o sono passava rápido, e no entanto em camas das totais profundezas, cenas completamente antecipadas como um suspiro contente. Ui, dizia Dom Quixo.
Te quero como qualquer criança. Com a pureza de Xanxupança dormindo e esse momento alem dos sentimentos (mas não sem sentimentos) que é mais ou menos sair de cada um deles como a meia sai do sapato. Naquele tempo de outrora as indumentárias complicadíssimas exigiam grandes malabarismos para se vestir. Usavam-se monumentais espelhos mas a Humanidade era a Mesma.
A consciência crítica sobre a Humanidade e a Mesma não acudia a Dom Quixote como acusação nem defesa. Nem era propriamente uma Consciência Crítica assim com essa importância toda. As coisas doíam, sim, mas até um ponto. Dom Quixote não podia afetar uma sabedoria nenhuma, mas era clássico que ele deitava na sombra, matutando, passando pouco a pouco do seu confuso interior para a serenidade das árvores.
Bonito. A consciência crítica não era nada importante, as árvores não eram nada importantes, nem as vírgulas nem as cataratas, mas para chegar à grande evidência ele era assim desse jeito. Agia muito, por isso errava muito, e gostava de estar cheio de sangue para existir todinho. Assim.
Só o louco pode ser ponderado, dizia Dom Quixote com as folhas, porque ele passa para a vontade do outro. As paredes caem como se fossem de um papelão diáfano ou então de um material cósmico invisível. Podia manejar a Sua Pena y viver esse momento sin compassión, perfeito/imperfeito que navega no astral. Nada. Concreção e dissipação simultâneas. Ondas eventuais e longíssimas que explodem na formação de omoplatas, pessoas completas, tanques de guerra ou de lavar roupa.
Assim, quando tirava sua pesada armadura, Dom Quixote de las Letras chegava à situação quixotesca de espantar um mosquito antes de coçar a nuca e pensar. Sentir que o pensamento aparente é um detergente casual que se dissolve na água, revelando as Coisas. Novas aparências que se dissolvem também, revelando as bruscas encadeações e o sossego. Ui, que momento bonito.
Bonito. Ou então lindo. Papai Goethe pediu que ele parasse um momento. Como alguém, na metade da vida, pára e se divide em laranjas. Em dois companheiros que de repente desaparecem também e em seu local surge uma transparência que é a mistura de uma montanha serena com um vulcão pipocando. Assim. Cheio de sangue, vazio, cheio de algodão, e completamente desmemoriado também. Nuvem, farofa das circunstâncias, bolero e tico-tico.
Dom Quixote de las Letras passava pelas redações e ditongos levando seu calhamaço de urros. Chegava à Editoria dos Ditongos, espiava. Via os moinhos da informação fumegando e não acreditava. Mas erguia, com um urro raivoso, a Sua Pena. Com um urro manso cumprimentava. Ninguém podia imaginar nem eu. Mas é verdade.
Na cabana onde Dom Quixote escrevia havia um coelhinho do mato que vinha o visitar com frequência. Nas grandes noites de Derrota o coelhinho sentava numa pedra defronte. Olhava para ele como um Coelho do Mato pode olhar.
Parece que isso aqui virou máquina. Tem coisas que pode, coisas que não pode, fios invisíveis ligando as grandes pás do moinho. Dom Quixote transgride, provoca, estaciona numa orelha e deita sua falação automática. De repente o espírito do local o possui. Mas de repente também ele retorna à sua e é o coração navegando sobre seu cavalo hipotético. Vê ao longe as bandeiras da proibição trepidando. Desgoverna-se um pouco, mas avança. Sente-se o próprio espelho do Homem com suas lamentáveis esporas que parecem medalhas que parecem ventoinhas malhadas e caldeirões de bronze. Como um Perfeito Cavaleiro Armado, o herói Dom Quixote — de las Letras — volta-se para o glorioso passado e recicla situações quixotescas que ele mesmo, sendo quem é, retira de velhos relicários onde guarda os Bilhetes.
Posiciona-se, p. ex., ante determinados palpites e arrisca sua navegação palavral pela língua terna e cansada. Poderia dizer umas Verdades, mas já é tão tarde, e depois esses grilos, esse choro, é melhor dizer ui! Claro que as Exclamações são permitidas ainda. Como também não é sensato deixar de reconhecer seu Direito. Mas por enquanto, não seria melhor questionar se, sendo ele Dom Quixote, necessitaria ou não de um parceiro? Xanxupança estava consertando uns arreios da Terra do Brasil recém-descoberta quando olhou pelo retrovisor do seu mulo e viu um Guarda. Pronto, pensou em seguida, aí vem rabo!
As Exclamações — ainda — são permitidas. As ponderações, também. As cogitações sobre o futuro, idem. Mas o dado concreto da Pessoa Presente, e era isso que Dom Quixote apontava, estava muitas vezes ausente. O Editor de Ditongos, coitado, ficava aparando os golpes do louco.
Dom Quixote de las Letras passaria naturalmente por louco face a um milhão de comodidades em voga. Não gostava de pentes, por exemplo, nem de ventilador. Gostava de sentir de perto as pessoas, por isso perdia frequentemente os jogos e não assaltava, era um Dom Quixote assustado que escutava corujas, também.
Ou de repente a situação da coruja e calar. Entidade presente numa luminosidade ímpar e tão depressa. Impreciso dizer. Estar. Sentir-se locomover como um urso portátil que se desdobra e — ponderavelmente — não se suicida.
Dom Quixote de las Luchas era também no fundo um gozador e também um grande sofredor e também um dileto e bastardo filho das hesitações e do acaso. Vacilava como qualquer cidadão, investia por necessidades distantes. Era comandado como as coisas são num rodopio de astros corriqueiros que muitos filósofos de antigamente chamaram de aparências do mundo.
Eu sei que é difícil dizer isso, dizia Dom Quixote sem traço, mas você vai concordar comigo que a gente faz confusão. Já era noite. Era hora de acordar e afiar as unhas de novo, porque O Mundo — sua grande namorada — estava completamente maluco(a). As paredes estavam brancas de novo, e exigiam uma pichação caprichada. Era de manhã. Era incrível como o sono passava rápido, e no entanto em camas das totais profundezas, cenas completamente antecipadas como um suspiro contente. Ui, dizia Dom Quixo.
Te quero como qualquer criança. Com a pureza de Xanxupança dormindo e esse momento alem dos sentimentos (mas não sem sentimentos) que é mais ou menos sair de cada um deles como a meia sai do sapato. Naquele tempo de outrora as indumentárias complicadíssimas exigiam grandes malabarismos para se vestir. Usavam-se monumentais espelhos mas a Humanidade era a Mesma.
A consciência crítica sobre a Humanidade e a Mesma não acudia a Dom Quixote como acusação nem defesa. Nem era propriamente uma Consciência Crítica assim com essa importância toda. As coisas doíam, sim, mas até um ponto. Dom Quixote não podia afetar uma sabedoria nenhuma, mas era clássico que ele deitava na sombra, matutando, passando pouco a pouco do seu confuso interior para a serenidade das árvores.
Bonito. A consciência crítica não era nada importante, as árvores não eram nada importantes, nem as vírgulas nem as cataratas, mas para chegar à grande evidência ele era assim desse jeito. Agia muito, por isso errava muito, e gostava de estar cheio de sangue para existir todinho. Assim.
Só o louco pode ser ponderado, dizia Dom Quixote com as folhas, porque ele passa para a vontade do outro. As paredes caem como se fossem de um papelão diáfano ou então de um material cósmico invisível. Podia manejar a Sua Pena y viver esse momento sin compassión, perfeito/imperfeito que navega no astral. Nada. Concreção e dissipação simultâneas. Ondas eventuais e longíssimas que explodem na formação de omoplatas, pessoas completas, tanques de guerra ou de lavar roupa.
Assim, quando tirava sua pesada armadura, Dom Quixote de las Letras chegava à situação quixotesca de espantar um mosquito antes de coçar a nuca e pensar. Sentir que o pensamento aparente é um detergente casual que se dissolve na água, revelando as Coisas. Novas aparências que se dissolvem também, revelando as bruscas encadeações e o sossego. Ui, que momento bonito.
Bonito. Ou então lindo. Papai Goethe pediu que ele parasse um momento. Como alguém, na metade da vida, pára e se divide em laranjas. Em dois companheiros que de repente desaparecem também e em seu local surge uma transparência que é a mistura de uma montanha serena com um vulcão pipocando. Assim. Cheio de sangue, vazio, cheio de algodão, e completamente desmemoriado também. Nuvem, farofa das circunstâncias, bolero e tico-tico.
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
104
hoje meu avô, joão alfredo hansen, faria 104 anos se estivesse vivo. a
memória do meu pai o contou tantas vezes, que é sempre como se ele
estivesse. vejam, a memória que vocês espalham entre os seus, ela há de
vingar, é de se escolher.
meu avô é o homem de gravata na foto
dos meus jaguares abaixo, ao pé de uma gameleira, também pode-se ver meu
tio avô e o meu pai. o meu avô era mestre de fios na indústria têxtil
de americana, no interior do estado de são paulo.
não o conheci.
dizem que quando chegava dia 2 de fevereiro ele dizia: "ah! mas meu
aniversário é no dia 8". e quando chegava no dia 8, ele dizia: "ah! mas
foi dia 2!". e o interlocutor já sabia, era para rir, que naquele homem a
vida escapava na generosidade de fazer aniversário duas vezes. e nunca.
eu hoje conheço astrologia, e não tenho muitas dúvidas de que ele nasceu no dia 2. é o grande trígono das águas que me diz.
ele pescava, e caçava, passava semanas com um amigo, desaparecido no
pantanal, e trazia as pescas e caças, e distribuía entre os vizinhos.
ficava com muito pouco. vinha pra são paulo todos os meses só pra trocar
de carro e às vezes trazia meu pai junto e assim lhe deu para beber
refrigerante, pela primeira vez. diz meu pai que tinha gosto de
bicarbonato e coçava o nariz. outras vezes meu pai ficava em casa, e
nesses dias ganhava sempre um periquito vindo da capital.
já com
certa idade, meu avô que lia o mein kampf e detestava o catolicismo,
meu avô que tinha sido ateu, tornou-se bruxo, mateiro, pai-de-santo, um
xamã, sabe-se lá se eu sei o que foi, exatamente, o meu avô. que sabia
curar as pessoas com as plantas, e as curava. meu avô, que deve ter
matado gente na *revolução de 32.
um dia hei de escrever sua história como ela deve ser.
por enquanto só conto que na sua vida houve também um episódio daqueles
macarrônicos, quer dizer, uma paella não foi assada. conto com pausar:
meu avô, bem jovenzinho namorava uma espanhola em são paulo. ele mesmo
vivia em limeira, e vinha às vezes até são paulo vê-la. até que foi
obrigado, pelo pai da menina, a ficar noivo. que remédio além de o
fazer?
na festa de noivado, contava ele, foi se servir de uma
sopa de entrada, e percebeu que aquilo era um cozido de muitas carnes
gordurosas. sentiu-se enjoado só de olhar. pensou: imagina comer isso
durante décadas! argh, quase apagado de tontura, chegou até o alguém
mais próximo e disse "vou ali comprar cigarros". e foi! sim. um clichê
libertou o meu avô. você também, cuide bem dos clichês, quem sabe um dia
eles te libertam.
meu avô era livre.
são raríssimos, os livres.
são raríssimos, os livres.
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a história do meu avô
zzzz
milhas por vir saudações ancestrais
escambo
me dá canela que te dou minha caneta
pouco mais valioso há.
esta vaidade
enterra em mim
o gozo de viver.
não te impressiona que foi pela vitória de uma gosma que encontrou outra gosma (mais carnuda, é certo) que o que havia de antepassado vingou e agora: és tu, sou eu?
nós vivos somos gosmas
os mortos também.
às vezes me pergunto se essa dicotomia
vivo/morto
é uma polaridade real, intrínseca
ou é só um ponto de observação
já dizia o velho poeta que era americano e inglês
no ponto morto do mundo em rotação
e cuspiu aos céus e cria em deus e amava (quando sim) os seus.
vou vitalizar meus órgãos: dormir.
esta semana lerei três mapas.
entre eles, o destino
entre eles um xamã
entre eles,
dia de Iemanjá, meu avô faria anos.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
o Ateu
ontem o chefe da matilha, o pequeníssimo Ateu, com a trovoada que fazia
meteu-se no meu colo, apavorado e tremia.
me preocupei com o pequeno, que há 12 anos está conosco
sendo, desde que o conheço, Ateu,
o coração do pobrezinho disparado. e a casa em meio a tempestade resistia (uma goteira no telhado, mamãe me lembre de lembrá-la), lá fora as árvores balançavam muito e os trovões aconteciam em simultâneo aos raios. estávamos dentro da nuvem.
o Ateu tremia tremia de coração a mil. até que saltou do meu colo e desceu as escadas. pensei "vai se abrigar embaixo de algum móvel"; até que meia hora depois encontrei
o Ateu audaz
voltando do meio da chuva!
não é todo dia que um ateu se mantém convicto, nem que um ancião vai pro meio do seu medo. e volta intacto.
sequei-o por minutos & ele em júbilo não deixou que ninguém mais se aproximasse do osso que ganhou.
meteu-se no meu colo, apavorado e tremia.
me preocupei com o pequeno, que há 12 anos está conosco
sendo, desde que o conheço, Ateu,
o coração do pobrezinho disparado. e a casa em meio a tempestade resistia (uma goteira no telhado, mamãe me lembre de lembrá-la), lá fora as árvores balançavam muito e os trovões aconteciam em simultâneo aos raios. estávamos dentro da nuvem.
o Ateu tremia tremia de coração a mil. até que saltou do meu colo e desceu as escadas. pensei "vai se abrigar embaixo de algum móvel"; até que meia hora depois encontrei
o Ateu audaz
voltando do meio da chuva!
não é todo dia que um ateu se mantém convicto, nem que um ancião vai pro meio do seu medo. e volta intacto.
sequei-o por minutos & ele em júbilo não deixou que ninguém mais se aproximasse do osso que ganhou.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
fiquei 11 anos sem tomar um antibiótico. ontem tomei 1.
entrou um caminhão de armaduras sintéticas em cada célula do meu corpo.
nos últimos anos fui me curando com vegetais diversos, chás incluídos, muitos fitoterápicos chineses. e ah! acupuntura.
e ontem tomei 1 dose só de aniquiladores do excesso de corpos estranhos. ah! inflamações q são nossa saída ah q são a nossa pane.
sabe, encontrei na internet q o antibiótico é um "veneno seletivo"
foi ontem quando falei aqui de veneno também estava dentro de um hospital. falei de veneno num sentido moral, mas pensava em veneno num sentido literal.
literal / moral
são questões,
não são?
fiquei anos também sem ir a uma igreja, desde q entrei numa noite de natal na sé de lisboa e me senti tão mal tão mal tão mal tão mal. no domingo também fui numa igreja. todo esse papo e nunca fui a Netuno.
mas em poucos dias fui a uma igreja e a um hospital.
tomei um antibiótico.
às vezes é tão importante a gente não ser a gente mesma.
e pra um corpo q está sempre na esfera de produção de si mesma
pra um corpo q leu em algum lugar "eu sou todo sensações"
e então teve essa sensação de ser todo sensações
pra alguém que se elabora entre as sensações não sintéticas da matéria
a única coisa q reconheço agora se passando no meu corpo é que não-seremos vencidas ainda,
q um amigo não vegetal colou aqui
tal amigo sintético veio ajudar
e ele não queria diálogo.
não se dialoga com o sintético, enfim.
viva a carne. q se viva na carne. e beijos,
entrou um caminhão de armaduras sintéticas em cada célula do meu corpo.
nos últimos anos fui me curando com vegetais diversos, chás incluídos, muitos fitoterápicos chineses. e ah! acupuntura.
e ontem tomei 1 dose só de aniquiladores do excesso de corpos estranhos. ah! inflamações q são nossa saída ah q são a nossa pane.
sabe, encontrei na internet q o antibiótico é um "veneno seletivo"
foi ontem quando falei aqui de veneno também estava dentro de um hospital. falei de veneno num sentido moral, mas pensava em veneno num sentido literal.
literal / moral
são questões,
não são?
fiquei anos também sem ir a uma igreja, desde q entrei numa noite de natal na sé de lisboa e me senti tão mal tão mal tão mal tão mal. no domingo também fui numa igreja. todo esse papo e nunca fui a Netuno.
mas em poucos dias fui a uma igreja e a um hospital.
tomei um antibiótico.
às vezes é tão importante a gente não ser a gente mesma.
e pra um corpo q está sempre na esfera de produção de si mesma
pra um corpo q leu em algum lugar "eu sou todo sensações"
e então teve essa sensação de ser todo sensações
pra alguém que se elabora entre as sensações não sintéticas da matéria
a única coisa q reconheço agora se passando no meu corpo é que não-seremos vencidas ainda,
q um amigo não vegetal colou aqui
tal amigo sintético veio ajudar
e ele não queria diálogo.
não se dialoga com o sintético, enfim.
viva a carne. q se viva na carne. e beijos,
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Como em dia de festa...
Como em dia de festa, quando o homem do campo
Sai pela manhã para olhar a sementeira, quando
Da noite quente desceram fogos refrescantes
Sem parar, e longe ainda se ouve a portentosa vibração dos ares,
De novo ao leito se acomoda o grande rio,
E o verde da terra se renova
E a chama do céu alegra
A cepa gotejante e no seu brilho
Crescem para o sol tranquilo as árvores do bosque ______
Assim se erguem em tempo propício
Aqueles que nenhum mestre até ao fundo forma,
Moldados só pela poderosa natureza, divinamente bela,
Omnipresente e rara na leveza do seu abraço.
Por isso, quando ela, em certas épocas do ano, parece dormir
No céu ou entre as plantas e os povos,
Também os rostos dos que adensam a palavra se entristecem,
Parecem estar sós, mas são sempre futuro.
E ela própria, futurando, repousa também.
Mas desponta já o dia! Esperei e vi-o chegar,
E o que vi, o sagrado, seja minha palavra.
Pois ela, ela mesma, mais antiga que os tempos
E senhora dos deuses de Ocidente e Oriente,
A natureza, acordou agora com fragor de armas;
E das alturas do éter até aos abismos,
Seguindo a firme lei das origens, gerado do sagrado caos,
Uma vez mais se sente
O júbilo da alma que tudo cria.
E como a chama que nos olhos do homem se acendeu
Ao conceber coisas sublimes, assim também
Se incendeia de novo com os sinais, com os feitos do mundo,
Um fogo na alma dos que adensam a palavra.
E o que no princípio aconteceu sem quase ser sentido
Só agora é revelado,
E podes chamar pelo nome as fontes da vida,
Aquelas que, servis e com um sorriso,
Nos lavraram o campo: a pujança viva dos deuses
Tens perguntas para eles? No canto sopra o seu ruah
Quando desperta do sol do dia e da terra quente
Ou das vibrações troantes do ar, e de outras
Que, mais preparadas no fundo dos tempos
E mais grávidas de sentido, a nossos olhos mais legíveis,
Se passeiam entre céu e terra e entre os povos
São pensamentos do espírito do mútuo
Que culminam no silêncio da alma dos que adensam a palavra,
De tal modo que ela, logo tocada, há muito tempo
Hóspede da casa do infinito, estremece na lembrança
E, incendiada pelo fogo sagrado,
É-lhe dado conceber em amor a obra de deuses e homens,
O dom do canto, que de ambos dará testemunho.
Assim desceu, como dizem os que a palavra adensam,
Sobre a casa de Semele, presa do desejo de ver o deus,
O seu raio dardejante, e a mulher atingida
Pariu o fruto da portentosa vibração do ar, Baco, sagrado.
E por isso os filhos da Terra bebem
Agora o fogo celeste, sem perigo.
Mas cabe-nos, sob os trovões do deus,
A nós e a vós que adensais a palavra, permanecer de cabeça nua
E com a própria mão tomar do dardo divino,
Ele mesmo, e oferecer à luz comum a edénica dádiva que o canto oculta.
Pois se formos sem impostura, como as crianças,
E nossas mãos sem culpa,
Não as queimará o fogo puro do pai,
E no mais fundo âmago tocado, sofrendo as dores do mais alto,
No meio das tempestades do deus que do céu descem
Quando ele se aproxima, o coração não vacila.
Mas que fazer quando ___________
Que fazer?
E se eu disser
Que me aproximei para contemplar os do céu,
Eles mesmos me lançarão para o abismo dos vivos,
Para as trevas, a mim, falso oficiante, para que eu,
Com um canto de aviso, mate a sede aos que querem aprender.
Lá, nesse lugar ____________
- - -
Hölderlin, em tradução de João Barrento, presente no ensaio "Do peso e da leveza na palavra da poesia", in: Geografia Imaterial.
Sai pela manhã para olhar a sementeira, quando
Da noite quente desceram fogos refrescantes
Sem parar, e longe ainda se ouve a portentosa vibração dos ares,
De novo ao leito se acomoda o grande rio,
E o verde da terra se renova
E a chama do céu alegra
A cepa gotejante e no seu brilho
Crescem para o sol tranquilo as árvores do bosque ______
Assim se erguem em tempo propício
Aqueles que nenhum mestre até ao fundo forma,
Moldados só pela poderosa natureza, divinamente bela,
Omnipresente e rara na leveza do seu abraço.
Por isso, quando ela, em certas épocas do ano, parece dormir
No céu ou entre as plantas e os povos,
Também os rostos dos que adensam a palavra se entristecem,
Parecem estar sós, mas são sempre futuro.
E ela própria, futurando, repousa também.
Mas desponta já o dia! Esperei e vi-o chegar,
E o que vi, o sagrado, seja minha palavra.
Pois ela, ela mesma, mais antiga que os tempos
E senhora dos deuses de Ocidente e Oriente,
A natureza, acordou agora com fragor de armas;
E das alturas do éter até aos abismos,
Seguindo a firme lei das origens, gerado do sagrado caos,
Uma vez mais se sente
O júbilo da alma que tudo cria.
E como a chama que nos olhos do homem se acendeu
Ao conceber coisas sublimes, assim também
Se incendeia de novo com os sinais, com os feitos do mundo,
Um fogo na alma dos que adensam a palavra.
E o que no princípio aconteceu sem quase ser sentido
Só agora é revelado,
E podes chamar pelo nome as fontes da vida,
Aquelas que, servis e com um sorriso,
Nos lavraram o campo: a pujança viva dos deuses
Tens perguntas para eles? No canto sopra o seu ruah
Quando desperta do sol do dia e da terra quente
Ou das vibrações troantes do ar, e de outras
Que, mais preparadas no fundo dos tempos
E mais grávidas de sentido, a nossos olhos mais legíveis,
Se passeiam entre céu e terra e entre os povos
São pensamentos do espírito do mútuo
Que culminam no silêncio da alma dos que adensam a palavra,
De tal modo que ela, logo tocada, há muito tempo
Hóspede da casa do infinito, estremece na lembrança
E, incendiada pelo fogo sagrado,
É-lhe dado conceber em amor a obra de deuses e homens,
O dom do canto, que de ambos dará testemunho.
Assim desceu, como dizem os que a palavra adensam,
Sobre a casa de Semele, presa do desejo de ver o deus,
O seu raio dardejante, e a mulher atingida
Pariu o fruto da portentosa vibração do ar, Baco, sagrado.
E por isso os filhos da Terra bebem
Agora o fogo celeste, sem perigo.
Mas cabe-nos, sob os trovões do deus,
A nós e a vós que adensais a palavra, permanecer de cabeça nua
E com a própria mão tomar do dardo divino,
Ele mesmo, e oferecer à luz comum a edénica dádiva que o canto oculta.
Pois se formos sem impostura, como as crianças,
E nossas mãos sem culpa,
Não as queimará o fogo puro do pai,
E no mais fundo âmago tocado, sofrendo as dores do mais alto,
No meio das tempestades do deus que do céu descem
Quando ele se aproxima, o coração não vacila.
Mas que fazer quando ___________
Que fazer?
E se eu disser
Que me aproximei para contemplar os do céu,
Eles mesmos me lançarão para o abismo dos vivos,
Para as trevas, a mim, falso oficiante, para que eu,
Com um canto de aviso, mate a sede aos que querem aprender.
Lá, nesse lugar ____________
- - -
Hölderlin, em tradução de João Barrento, presente no ensaio "Do peso e da leveza na palavra da poesia", in: Geografia Imaterial.
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"Wie Wenn Am Feiertage",
amigos amigos negócios reparte
Assim como em dia santo...
Assim como em dia santo, para ver as terras,
O lavrador sai, pela manhã, quando
Da noite quente caíram relâmpagos refrescantes
Todo esse tempo e o trovão ruge ainda ao longe,
O rio regressa de novo ao seu leito,
E fresco o solo verdeja,
E a chuva alegre do céu
Goteja a videira, e resplendentes
Ao sol tranquilo se erguem as árvores do bosque:
Assim se erguem eles em tempo propício,
Aqueles, a quem nenhum mestre só, a quem maravilhosa
E omnipresente forma e cria em leve enlace
A potente, a divinamente bela Natureza.
Por isso, quando ela parece dormir em certas estações do ano
No céu ou entre as plantas ou nos povos,
Se enche de luto também a face dos poetas,
Parecem estar sozinhos, mas eles pressentem sempre.
Pois, pressentindo, ela própria repousa também.
Agora, porém, rompe o dia! Eu esperava e via-o vir,
E o que eu vi, o Sagrado, seja o meu Verbo.
Pois ela, ela mesma, que é mais velha que os tempos
E está acima dos deuses do Oeste e do Oriente,
A Natureza, acordou agora com ruído de armas,
E o alto do Éter até ao fundo abismo
Segundo lei fixa, como outrora, saído do caos sagrado,
Sente-se de novo o entusiasmo
Que tudo cria.
E como no olhar do homem brilha um fogo
Quando concebeu altas coisas, assim
Se incendeia de novo c‘os sinais, c‘os feitos do mundo agora,
Um fogo na alma dos poetas.
E o que outrora aconteceu, mas mal se sentiu,
Eis que só agora se revela
E as que a sorrir nos lavram a terra
Em figura de escravos, são-te agora conhecidas,
As sempre vivas, as forças dos deuses.
Queres interrogá-los?: na canção sopra o seu espírito,
Quando do sol do dia e da terra quente
Ela surge, ou das trovoadas do ar, e de outras
Que, mais preparadas nas funduras do tempo
E mais ricas de sentido e a nós mais distintas,
Vagueiam entre céu e terra e entre os povos.
São pensamentos do espírito comum
Que acabam calmos na alma do poeta,
Tais que ela, ferida de repente, há muito já
Patente ao Infinito, treme de recordação,
E, inflamada do raio sagrado, lhe é dado
O fruto nascido em amor, obra de deuses e homens,
O canto, que a ambos dê testemunho.
Assim caiu, como os poetas cantam, por ela desejar
Ver com os olhos o deus, o seu raio sobre a casa de Sémele,
E ela, ferida do deus, pariu,
Fruto da trovoada, o Baco sagrado.
E por isso bebem fogo celeste agora
Os filhos da terra sem perigo.
Mas a nós cabe, sob as trovoadas do deus,
Ó poetas! permanecer de cabeça descoberta,
E com a própria mão agarrar o raio do Pai,
O próprio raio, e, oculta na canção,
Oferecer ao povo a dádiva celeste.
Pois se formos puros de coração
Como crianças, e as nossas mãos sem culpa,
O raio do Pai, puro, não o queimará,
E, fundamente abalado, sofrendo do mais forte
As dores, nas tempestades do Deus que do alto
Caem, quando Ele se aproxima, o coração fica firme.
Mas, ai de mim! quando de...
………………………………………………………………….
Ai de mim!
E se eu disser,
………………………………………………………………….
Que me aproximei pra contemplar os Celestiais,
Eles mesmos me precipitaram fundo pra entre os vivos,
A mim falso sacerdote, para as trevas, para que eu
Cante aos que queiram aprender a canção de aviso
Ali…
- - - - - - - - - - -
Hölderlin, em tradução de Paulo Quintela,
-->Obras Completas II (Traduções I), Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997 / 1.ª edição: Poemas, Lisboa: Instituto de Cultura Alemã, 1945 / 2.ª edição: Lisboa: Relógio d’Água, 1991
O lavrador sai, pela manhã, quando
Da noite quente caíram relâmpagos refrescantes
Todo esse tempo e o trovão ruge ainda ao longe,
O rio regressa de novo ao seu leito,
E fresco o solo verdeja,
E a chuva alegre do céu
Goteja a videira, e resplendentes
Ao sol tranquilo se erguem as árvores do bosque:
Assim se erguem eles em tempo propício,
Aqueles, a quem nenhum mestre só, a quem maravilhosa
E omnipresente forma e cria em leve enlace
A potente, a divinamente bela Natureza.
Por isso, quando ela parece dormir em certas estações do ano
No céu ou entre as plantas ou nos povos,
Se enche de luto também a face dos poetas,
Parecem estar sozinhos, mas eles pressentem sempre.
Pois, pressentindo, ela própria repousa também.
Agora, porém, rompe o dia! Eu esperava e via-o vir,
E o que eu vi, o Sagrado, seja o meu Verbo.
Pois ela, ela mesma, que é mais velha que os tempos
E está acima dos deuses do Oeste e do Oriente,
A Natureza, acordou agora com ruído de armas,
E o alto do Éter até ao fundo abismo
Segundo lei fixa, como outrora, saído do caos sagrado,
Sente-se de novo o entusiasmo
Que tudo cria.
E como no olhar do homem brilha um fogo
Quando concebeu altas coisas, assim
Se incendeia de novo c‘os sinais, c‘os feitos do mundo agora,
Um fogo na alma dos poetas.
E o que outrora aconteceu, mas mal se sentiu,
Eis que só agora se revela
E as que a sorrir nos lavram a terra
Em figura de escravos, são-te agora conhecidas,
As sempre vivas, as forças dos deuses.
Queres interrogá-los?: na canção sopra o seu espírito,
Quando do sol do dia e da terra quente
Ela surge, ou das trovoadas do ar, e de outras
Que, mais preparadas nas funduras do tempo
E mais ricas de sentido e a nós mais distintas,
Vagueiam entre céu e terra e entre os povos.
São pensamentos do espírito comum
Que acabam calmos na alma do poeta,
Tais que ela, ferida de repente, há muito já
Patente ao Infinito, treme de recordação,
E, inflamada do raio sagrado, lhe é dado
O fruto nascido em amor, obra de deuses e homens,
O canto, que a ambos dê testemunho.
Assim caiu, como os poetas cantam, por ela desejar
Ver com os olhos o deus, o seu raio sobre a casa de Sémele,
E ela, ferida do deus, pariu,
Fruto da trovoada, o Baco sagrado.
E por isso bebem fogo celeste agora
Os filhos da terra sem perigo.
Mas a nós cabe, sob as trovoadas do deus,
Ó poetas! permanecer de cabeça descoberta,
E com a própria mão agarrar o raio do Pai,
O próprio raio, e, oculta na canção,
Oferecer ao povo a dádiva celeste.
Pois se formos puros de coração
Como crianças, e as nossas mãos sem culpa,
O raio do Pai, puro, não o queimará,
E, fundamente abalado, sofrendo do mais forte
As dores, nas tempestades do Deus que do alto
Caem, quando Ele se aproxima, o coração fica firme.
Mas, ai de mim! quando de...
………………………………………………………………….
Ai de mim!
E se eu disser,
………………………………………………………………….
Que me aproximei pra contemplar os Celestiais,
Eles mesmos me precipitaram fundo pra entre os vivos,
A mim falso sacerdote, para as trevas, para que eu
Cante aos que queiram aprender a canção de aviso
Ali…
- - - - - - - - - - -
-->Obras Completas II (Traduções I), Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997 / 1.ª edição: Poemas, Lisboa: Instituto de Cultura Alemã, 1945 / 2.ª edição: Lisboa: Relógio d’Água, 1991
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"Wie Wenn Am Feiertage",
amigos amigos negócios reparte
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
ou a consciência deitada
lembro do meu travesseiro preferido
ele era manchado, quase abatido
de suores e vezes sangrando as narinas
os meus poros eram os dele
os seus ácaros os meus micróbios
um dia veio alguém. minha mãe
ou o tempo ou alguém com igual autoridade
e fez meu travesseiro preferido desaparecer. minha nuca nunca
mais foi a mesma.
isto foi há uns vinte anos atrás.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Autobiographia Literaria
Frank O'Hara
When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.
I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.
If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried out "I am
an orphan".
And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!
(22)
Frank O'Hara
When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.
I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.
If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried out "I am
an orphan".
And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!
(22)
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amigos amigos negócios reparte
quando eu tinha 24 anos
achava que a vida
ou seria isto ou seria nada.
era um trânsito de Plutão
depois as ramagens invadiram o portão
tomaram o mármore
capins & musgos em tudo.
achava que a vida
ou seria isto ou seria nada.
era um trânsito de Plutão
depois as ramagens invadiram o portão
tomaram o mármore
capins & musgos em tudo.
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agora que sou sincera
com 25 anos mudei de país e descobri o óbvio: uma vez caetano, caetano até morrer
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amigos amigos negócios reparte
26 vezes eu recordaria esta imagem (THE HUMAN CONDITION) ao acordar
& quando isso se multiplicasse pelo fato de q hoje a ciência propõe q
o universo não é infinito, impossibilitada de multiplicar as coisas
pelo infinito, talvez eu resolvesse crescer exponencialmente, até
atingir o status de nebulosa, shiny and new, e então finalmente, a só
ser.
vinte-e-sete é o número de emails não respondidos na caixa de entrada.
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agora que sou sincera
TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928
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amigos amigos negócios reparte
que meu livro já tem dedicatória; e ela, no que não diz, dedica-se aos 29 anos.
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amigos amigos negócios reparte
estive aqui a pensar num outro número, 30, e pelo meu ouvido ouço
nessa música sempre "limpai", ao invés de "limpei", que é mais provável,
pela constância dos verbos reforçar (eu faço) a canção. destas pequenas
convivências vive o meu ouvido, vive a minha língua. só serve pro que
eu quiser.
perdi a memória
turvou-se-me o pensamento
não posso contar a minha história
perdi a razão do tempo
quebrou-se o espelho
não sei como sou
não sei se sou novo ou velho
não sei onde estou
no meu quadro eu só tenho
esta visão
tantos olhos apontados
à minha mão
não tem sinal nem posição
do bem ou mal não tem cartão
não trago marcas de solidão
nem gargalhadas de emoção
perdi a lembrança
da mente risquei
a história que não me interessa
a história que eu não serei
limpei a cabeça
de tudo o que ela não quer
e ao corpo fiz a promessa
só serve pro que eu quiser
será vossa imagem
que me convém
ao sair da desfocagem
não vi ninguém
não quero ver o que enganei
nem quero ter o que eu já dei
não quero ver o que enganei
nem quero ter o que eu já dei
perdi a memória
turvou-se-me o pensamento
não posso contar a minha história
perdi a razão do tempo
quebrou-se o espelho
não sei como sou
não sei se sou novo ou velho
não sei onde estou
no meu quadro eu só tenho
esta visão
tantos olhos apontados
à minha mão
não tem sinal nem posição
do bem ou mal não tem cartão
não trago marcas de solidão
nem gargalhadas de emoção
perdi a lembrança
da mente risquei
a história que não me interessa
a história que eu não serei
limpei a cabeça
de tudo o que ela não quer
e ao corpo fiz a promessa
só serve pro que eu quiser
será vossa imagem
que me convém
ao sair da desfocagem
não vi ninguém
não quero ver o que enganei
nem quero ter o que eu já dei
não quero ver o que enganei
nem quero ter o que eu já dei
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sábado, 10 de janeiro de 2015
respiração
o que eu gosto mais do verão
e eu gosto muito dele
é que "vida interior" e "paisagem" são duas idéias abstratas demais
no único real que há
a mutualidade da respiração.
o q é confuso pacas
numa cidade como estas
(nossas cidades se parecem a cada dia mais / ou será que são nossas roupas? / as máscaras das embalagens de dentifrícios?) nossas
cidades de carbudores
a utilidade da máquina x a mutualidade das árvores
e o mais natural dos corpos é cansar seus pulmões. os meus, no caso.
e eu gosto muito dele
é que "vida interior" e "paisagem" são duas idéias abstratas demais
no único real que há
a mutualidade da respiração.
o q é confuso pacas
numa cidade como estas
(nossas cidades se parecem a cada dia mais / ou será que são nossas roupas? / as máscaras das embalagens de dentifrícios?) nossas
cidades de carbudores
a utilidade da máquina x a mutualidade das árvores
e o mais natural dos corpos é cansar seus pulmões. os meus, no caso.
31
nas vésperas dos meus aniversários não há nada que eu pense mais do que no Esteves, vocês também o conhecem, é o Esteves sem metafísica. fica aqui meu Adeus, ó Esteves!
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agora que sou sincera
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
rojões & heranças
acordei com um sicrano soltando rojões pelo bairro & me lembrei de que, algumas vezes, quando criança no fim da noite de natal eu chorava. chorava de frustração. sentia um aperto crescente, uma expectativa que não se completava nem com os melhores presentes do mundo. ainda deitada, desejei que o sicrano explodidor de foguetes terminasse a noite como essa criança que fui.
então me lembrei de que este ano eu e meu pai estávamos no trânsito dos arredores da rodovia Raposo Tavares, indo ao cartório eleitoral da cidade de Cotia, quando eu fiz pra ele uma pergunta fulminante, pra ver se ele parava de reclamar dos estúpidos que não sabem pegar a rotatória da maneira certa, ou que correm mais do que Hermes pisando em fogo, ou que deixam buracos na estrada, ou que...
não sou batizada em nenhuma religião, não tenho crenças e mesmo a fé às vezes me falta mais do que eu gostaria. cresci ouvindo meu pai dizer que meu avô caçador-curandeiro-bon-vivant foi até a escola do meu pai brigar com um professor. o motivo? por conta do pecado: meu pai era criança e o professor tinha lhe dito que ele não poderia fazer alguma coisa porque era pecado. meu pai chegou em casa e perguntou pro meu avô: "pai, o que é pecado?" e o meu avô, iradíssimo, respondeu: "pecado é comer palha!". e foi até a escola e disse para o professor que se ele metesse novamente aquelas ideias na cabeça do meu pai ele faria o próprio professor comer palha.
quando estudei nas Letras da USP ouvia uns boatos de que meu pai sabe o que sabe sobre o século XVII porque teria sido seminarista! e lembro dos risos que dávamos disso falando dessas histórias do vovô. cresci, portanto, ouvindo meu pai dizer que meu avô não gostava de nada que passasse perto do cristianismo e tomei isso com uma crença fulcral na herança da minha família paterna.
então estávamos em Cotia, tentando achar uma via para subir para o centro, meu pai dirigindo e sendo fechado por outros carros, aquela aridez de beira de estrada, ele mesmo disse "São Paulo é toda linda, toda linda nessa perspectiva Waste Land" e quando cometeu impropérios sobre os transeuntes, eu fiz o que às vezes faço, uma pergunta lançada do nada ao sábio: "papai, o que você acha de Jesus Cristo?".
ele respirou fundo, começou com um "bem" e me respondeu "ele era um cara legal, tinha uma mensagem excelente, que ninguém ouviu direito. se tivessem ouvido, toda a história seria outra. por exemplo, 'amai-vos uns aos outros como a si mesmos', seria maravilhoso, não seria?... mas na prática! é impraticável... olha o que esse imbecil está fazendo!" e apontou para um motoqueiro avançando em cima da faixa de pedestres. respondi: "nossa, nunca imaginei isso, achava que você não simpatizava com a figura". e ele "não é uma questão de simpatia, é uma questão de vida: ele dizia: 'atire a primeira pedra quem nunca pecou', isso é uma liberdade, ficar cagando regra na vida dos outros é uma mensagem não-cristã, os caras não entendem nada... não entendem nada nem de liberdade, nem de perdão".
lembrando de tudo isso, me levantei da cama, não sem antes ouvir mais um rojão do vizinho a quem eu deveria amar como a mim mesma, como ao meu sono, o sonho de todos, o pai. o meu, aliás, vai passar os próximos dias dizendo
NATAL É FATAL
é assim, viva e deixe viver.
então me lembrei de que este ano eu e meu pai estávamos no trânsito dos arredores da rodovia Raposo Tavares, indo ao cartório eleitoral da cidade de Cotia, quando eu fiz pra ele uma pergunta fulminante, pra ver se ele parava de reclamar dos estúpidos que não sabem pegar a rotatória da maneira certa, ou que correm mais do que Hermes pisando em fogo, ou que deixam buracos na estrada, ou que...
não sou batizada em nenhuma religião, não tenho crenças e mesmo a fé às vezes me falta mais do que eu gostaria. cresci ouvindo meu pai dizer que meu avô caçador-curandeiro-bon-vivant foi até a escola do meu pai brigar com um professor. o motivo? por conta do pecado: meu pai era criança e o professor tinha lhe dito que ele não poderia fazer alguma coisa porque era pecado. meu pai chegou em casa e perguntou pro meu avô: "pai, o que é pecado?" e o meu avô, iradíssimo, respondeu: "pecado é comer palha!". e foi até a escola e disse para o professor que se ele metesse novamente aquelas ideias na cabeça do meu pai ele faria o próprio professor comer palha.
quando estudei nas Letras da USP ouvia uns boatos de que meu pai sabe o que sabe sobre o século XVII porque teria sido seminarista! e lembro dos risos que dávamos disso falando dessas histórias do vovô. cresci, portanto, ouvindo meu pai dizer que meu avô não gostava de nada que passasse perto do cristianismo e tomei isso com uma crença fulcral na herança da minha família paterna.
então estávamos em Cotia, tentando achar uma via para subir para o centro, meu pai dirigindo e sendo fechado por outros carros, aquela aridez de beira de estrada, ele mesmo disse "São Paulo é toda linda, toda linda nessa perspectiva Waste Land" e quando cometeu impropérios sobre os transeuntes, eu fiz o que às vezes faço, uma pergunta lançada do nada ao sábio: "papai, o que você acha de Jesus Cristo?".
ele respirou fundo, começou com um "bem" e me respondeu "ele era um cara legal, tinha uma mensagem excelente, que ninguém ouviu direito. se tivessem ouvido, toda a história seria outra. por exemplo, 'amai-vos uns aos outros como a si mesmos', seria maravilhoso, não seria?... mas na prática! é impraticável... olha o que esse imbecil está fazendo!" e apontou para um motoqueiro avançando em cima da faixa de pedestres. respondi: "nossa, nunca imaginei isso, achava que você não simpatizava com a figura". e ele "não é uma questão de simpatia, é uma questão de vida: ele dizia: 'atire a primeira pedra quem nunca pecou', isso é uma liberdade, ficar cagando regra na vida dos outros é uma mensagem não-cristã, os caras não entendem nada... não entendem nada nem de liberdade, nem de perdão".
lembrando de tudo isso, me levantei da cama, não sem antes ouvir mais um rojão do vizinho a quem eu deveria amar como a mim mesma, como ao meu sono, o sonho de todos, o pai. o meu, aliás, vai passar os próximos dias dizendo
NATAL É FATAL
é assim, viva e deixe viver.
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domingo, 21 de dezembro de 2014
reza
entre os finais de ano: o verão.
ressuscitar como o menino que vão comemorar
esquecidos do menino que foi.
o poeta alberto caeiro tinha uma flor entre os dentes e disse algumas coisas a esse respeito.
numa luz eu (também) vi a virgem: mas tive medo.
sua luz era intensíssima, brilhante navegava
o azul e o céu. o azul e o céu são de quem?
do condor, do avião, do contorno dos teus olhos.
ouvi um homem dizer na rua na frente de casa mesmo atravessando no nosso portão
o homem disse ao telefone: "é a época do ano, má, é pesado".
desconfio que "má" do outro lado era marília
marília que não conheço
que o apelidava de olhos fechados: poeta.
era quase natal e dirceu,
com seu cotovelo levantado a segurar,
o celular no ouvido dirceu lembrava
com a ajuda desse gesto de cotovelo que ajuda a lembrar
que todo mundo sofre
que a família sempre tem excessiva memória
que o natal nos lembra do que não temos
que estão todos ausentes mesmo presentes
que estão todos presentes mesmo os ausentes
faz senhor deste repetir uma oração
que estão ausentes todos os presentes
que é porque ficam tão presentes no presente
no presente dos seus passados
(em comprar presentes nem se fale da
falta/ do excesso/ da escassez / do retrocesso)
que é porque todos os seus antepassados
viajam para ocupar os corpos vivos
(é este o primordial motivo para que no hemisfério norte se comece o inverno
e no sul o verão, assim, ao mesmo tempo e cruzado, pois nesta noite os mortos abrem uma fenda no vácuo das galáxias e a terra desloca-se)
e é por isso que as pessoas bebem tanto,
comem tanto, brigam tanto
no dia da natal.
é tudo corpo velho em gesto antigo rebocado no futuro deste agora:
dá um tranco: os antepassados precisam se alimentar.
"não é nada a ver não, má",
disse o dirceu
que vai dar de presente pra marília
nenhuma maldade
vai dar um danado
amor. pra durar no dia mais longo do ano
ouvindo aquele sempre do bem, o bom, o baden.
ressuscitar como o menino que vão comemorar
esquecidos do menino que foi.
o poeta alberto caeiro tinha uma flor entre os dentes e disse algumas coisas a esse respeito.
numa luz eu (também) vi a virgem: mas tive medo.
sua luz era intensíssima, brilhante navegava
o azul e o céu. o azul e o céu são de quem?
do condor, do avião, do contorno dos teus olhos.
ouvi um homem dizer na rua na frente de casa mesmo atravessando no nosso portão
o homem disse ao telefone: "é a época do ano, má, é pesado".
desconfio que "má" do outro lado era marília
marília que não conheço
que o apelidava de olhos fechados: poeta.
era quase natal e dirceu,
com seu cotovelo levantado a segurar,
o celular no ouvido dirceu lembrava
com a ajuda desse gesto de cotovelo que ajuda a lembrar
que todo mundo sofre
que a família sempre tem excessiva memória
que o natal nos lembra do que não temos
que estão todos ausentes mesmo presentes
que estão todos presentes mesmo os ausentes
faz senhor deste repetir uma oração
que estão ausentes todos os presentes
que é porque ficam tão presentes no presente
no presente dos seus passados
(em comprar presentes nem se fale da
falta/ do excesso/ da escassez / do retrocesso)
que é porque todos os seus antepassados
viajam para ocupar os corpos vivos
(é este o primordial motivo para que no hemisfério norte se comece o inverno
e no sul o verão, assim, ao mesmo tempo e cruzado, pois nesta noite os mortos abrem uma fenda no vácuo das galáxias e a terra desloca-se)
e é por isso que as pessoas bebem tanto,
comem tanto, brigam tanto
no dia da natal.
é tudo corpo velho em gesto antigo rebocado no futuro deste agora:
dá um tranco: os antepassados precisam se alimentar.
"não é nada a ver não, má",
disse o dirceu
que vai dar de presente pra marília
nenhuma maldade
vai dar um danado
amor. pra durar no dia mais longo do ano
ouvindo aquele sempre do bem, o bom, o baden.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
7
não sei, mas acho que foi quando eu tinha 7 anos, que me levaram num médico porque eu não conseguia dormir e sentia uma imensa pontada no coração. de vez em quando. o médico me ensinou a tomar banho antes de dormir, e leite quente. e descobriram que meu coração estava bem, mas que eu (carnívora que sempre fui) deveria comer mais proteína.
eu tinha 7 anos também quando entrei na 1a série e ainda não sabia escrever nem ler em letra cursiva. todos sabiam. a lousa parecia tecida de hieróglifos, é assim que hoje vejo outras dimensões. não sei se com o tempo saberei ler tudo o que vejo, mas como não sei entender tudo que leio, acho que não, que o desconhecido vai vencendo em toda parte do mundo. amém.
eu tinha 7 anos quando saí pela primeira vez do Brasil, fomos até Portugal e Espanha. ainda não existia a comunidade européia (q dentro em pouco talvez também volte à ruína) e quando entramos no metro, na primeira carruagem descemos no Rossio, cheios de malas, e minha mãe ainda dentro do vagão descobriu q tínhamos sido assaltados. lembro do trem atravessando fronteiras. contam que passamos alguma fome, já que o dinheiro tinha sido quase todo levado ao chegarmos para a viagem. meus ouvidos doíam muito. atravessamos a fronteira para a Espanha de madrugada, não carimbaram nossos passaportes. ganhei um coelho de pelúcia branco numa grande praça em Madrid, cuja etiqueta nomeava a fábrica: Alegria. meus pais brigavam enquanto me deram o coelho. essa talvez seja uma das imagens mais fortes da minha memória.
meus ouvidos doíam quando eu tinha 7 anos. fiquei surda durante uns dias. doíam muito.
meus ouvidos doíam quando eu tinha 7 anos. fiquei surda durante uns dias. doíam muito.
eu tinha um moleton roxinho do fim dos anos 80 que eu achava uma gracinha. não deixava que ninguém me penteasse, a não ser minha irmã, que eu via poucas vezes por mês. meu irmão dizia que meu cabelo parecia a orelha da setter que tínhamos, a Bela.
acho que ganhei a Bela quando fiz 7 anos. dei o nome para ela, que era frágil e foi pegada de noite numa casa na cidade de SP.
eu não cresci na cidade de SP.
e acho que, finalmente, aprendo a gostar dela.
acho que ganhei a Bela quando fiz 7 anos. dei o nome para ela, que era frágil e foi pegada de noite numa casa na cidade de SP.
eu não cresci na cidade de SP.
e acho que, finalmente, aprendo a gostar dela.
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agora que sou sincera
domingo, 23 de novembro de 2014
sábado, 22 de novembro de 2014
Seu deu a fissura:se atrelou contra mim
através de uma ranhura.
Criou relevo:
decalquei o silêncio.
Que profundidade!
*
Depois da notícia da miss motosserra
ser ministra da agricultura
sonhei que a água acabou tanto
que fui morar com minha amiga
de tempos de juventude
dentro de uma caverna.
Ficava numa encosta de vale
rochoso de argila seca cor de rosa
e tinha o teto azul de cristal.
Era uma ironia melancólica
que o teto da nossa casa
parecesse água, sendo rocha.
E eu ficava olhando o teto
sempre embasbacada com a beleza
que nostalgia!
Tínhamos uma horta
e uma lata. Toda gota de água
que, eventualmente, caía na lata
era metade nossa
metade da horta
que plantávamos humildemente
dividindo as espécies vegetais
com restinhos de madeira vermelha.
E assim levamos a vida
em contar as gotas
fazer um pouco de fogo
e ver o teto brilhar
feito o fundo de uma piscina.
e uma lata. Toda gota de água
que, eventualmente, caía na lata
era metade nossa
metade da horta
que plantávamos humildemente
dividindo as espécies vegetais
com restinhos de madeira vermelha.
E assim levamos a vida
em contar as gotas
fazer um pouco de fogo
e ver o teto brilhar
feito o fundo de uma piscina.
*
Ouvi muitas vezes na minha família que foi Brasília que matou o meu avô. Cresço considerando que o poder mata Brasília que mata as pessoas e assim, como um dominó, o país continua.
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agora que sou sincera,
caderno público de sonhos
sonhei que a seca havia chegado de maneira tão definitiva que houve um deserto em tudo. então eu morava numa caverna que tinha o teto azul, de cristais azuis. era bonito quando era noite e acendíamos o fogo. tentávamos cultivar uma horta.
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caderno público de sonhos
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
tem um recôndito do meu olho que está ardendo
ganas de viagens sempre.
escondo mais o jogo do que aquele que está vendo
é uma forma de viajar por dentro.
visito uma cidade só de estar nela & há gente q não sabe ler.
não sei imaginar o q seja isso, os símbolos não param de ganir.
estou com as energias baixas e não consigo desligar.
atravesso uma uma uma uma uma estou sempre sendo uma.
não me deram: a experiência de ser duas
nem a experiência de ser homem (ainda bem)
nem o movimento de ser nuvem (pena).
será q a nuvem tem um ser?
gostaria de q incentivassem o meu ser tecnológico a esse tipo de perguntas.
mas acho q vive bem assim quem não precisa de incentivo & ou amacia a carne do seu peixe.
meu peixe é um agulhão, um peixe-espada, rasgando a imensidão.
meu peixe não come anzol do tédio. meu peixe é meu peixinho querido.
agita ondas de um lado & de outro não engole o anzol.
flana pelo azul agitadinho, descobre fascínios
come só com a rebarba das barbatanas de cada namorado
q não tive nem me quis afinal só me interessa o q não é meu
dizia titio oswald. acho q eu devia ter nascido (homem?) andrade
e no começo do século passado. aí sim, ia rolar um lance
mais forte do q aquela batalha na mesa de ping-pong
12x25, você fazia sempre questão de narrar primeiro o valor mais baixo
coisa q sua capacidade de cálculo nunca notou.
é do meu mercúrio, hoje eu sei.
aliás há cada órbita no porvir! menina! é um fenômeno fundamental.
o q? o q o q? ah! o porvir é q é um fenômeno fundamental.
além do desfazamento do rigor q é uma elegância!
vão tentar te enganar com discursos: vai ser assim, vão te dizer
agora qualquer coisa ou finalmente começamos ou
a humanidade está começando a entender ou
no princípio a humanidade sabia entender ou
a humanidade não sabe entender ou
como era boa a minha humanidade ah
você só pode estar de brincadeira
é melhor dar banana pra humanidade
sair desse blablablablabla randômico
q já cansou minhas linearidades.
ah! minhas linearidades cansadas de tanto movimento
ah! meu inconsciente magnético e gasto de tanta informação
ah! meu unicórnio prateado vestido de david bowie
eu & você
vamos passear
com cornetas & cores.
ah q sono dessa chuva oblíqua desse pensamento.
GRITA GRITA pra nos salvar escrevi em 2009.
não vai resolver
a humanidade não vai ter tempo pra chegar.
os animais vão nos salvar.
vão trazer a água e as florestas.
vem sempre juntas uma com a outra.
estamos aqui, os sadios, fazendo uns ritos por um tempo de florestas.
ganas de viagens sempre.
escondo mais o jogo do que aquele que está vendo
é uma forma de viajar por dentro.
visito uma cidade só de estar nela & há gente q não sabe ler.
não sei imaginar o q seja isso, os símbolos não param de ganir.
estou com as energias baixas e não consigo desligar.
atravesso uma uma uma uma uma estou sempre sendo uma.
não me deram: a experiência de ser duas
nem a experiência de ser homem (ainda bem)
nem o movimento de ser nuvem (pena).
será q a nuvem tem um ser?
gostaria de q incentivassem o meu ser tecnológico a esse tipo de perguntas.
mas acho q vive bem assim quem não precisa de incentivo & ou amacia a carne do seu peixe.
meu peixe é um agulhão, um peixe-espada, rasgando a imensidão.
meu peixe não come anzol do tédio. meu peixe é meu peixinho querido.
agita ondas de um lado & de outro não engole o anzol.
flana pelo azul agitadinho, descobre fascínios
come só com a rebarba das barbatanas de cada namorado
q não tive nem me quis afinal só me interessa o q não é meu
dizia titio oswald. acho q eu devia ter nascido (homem?) andrade
e no começo do século passado. aí sim, ia rolar um lance
mais forte do q aquela batalha na mesa de ping-pong
12x25, você fazia sempre questão de narrar primeiro o valor mais baixo
coisa q sua capacidade de cálculo nunca notou.
é do meu mercúrio, hoje eu sei.
aliás há cada órbita no porvir! menina! é um fenômeno fundamental.
o q? o q o q? ah! o porvir é q é um fenômeno fundamental.
além do desfazamento do rigor q é uma elegância!
vão tentar te enganar com discursos: vai ser assim, vão te dizer
agora qualquer coisa ou finalmente começamos ou
a humanidade está começando a entender ou
no princípio a humanidade sabia entender ou
a humanidade não sabe entender ou
como era boa a minha humanidade ah
você só pode estar de brincadeira
é melhor dar banana pra humanidade
sair desse blablablablabla randômico
q já cansou minhas linearidades.
ah! minhas linearidades cansadas de tanto movimento
ah! meu inconsciente magnético e gasto de tanta informação
ah! meu unicórnio prateado vestido de david bowie
eu & você
vamos passear
com cornetas & cores.
ah q sono dessa chuva oblíqua desse pensamento.
GRITA GRITA pra nos salvar escrevi em 2009.
não vai resolver
a humanidade não vai ter tempo pra chegar.
os animais vão nos salvar.
vão trazer a água e as florestas.
vem sempre juntas uma com a outra.
estamos aqui, os sadios, fazendo uns ritos por um tempo de florestas.
sábado, 15 de novembro de 2014
ontem
5h da manhã subindo a Rebouças num taxi
numa rara conversa com o taxista
que me contou ser obreiro da palavra
ele falava de religião, eu de poesia
ele além de taxista, trabalhando contra a mentira, imaginem
dentro da igreja combatendo charlatões em busca do poder pelo poder & do dinheiro pelo poder & esses ciclos-vícios todos.
me falou da Bíblia sem querer me ensinar nada; me contou da irmã que se separou de um milionário austríaco e escolheu ficar sem nenhum
centavo do marido; falou do absurdo da falta de água em
sp ser programático pra gerar mais obras e mais desvios; falou q ficou tristíssimo na época das eleições, q abria o facebook e sentia náuseas.
a acelerada conversa cheia das pausas da madrugada
terminou com ele me dizendo
"essa história que você contou de que, a não ser q seja pra ferir, ao vermos uma parede é melhor descascar do que dar um murro, me lembrou aquela do beija-flor que está apagando um incêndio. daí chega um elefante meio cínico e diz assim pro beija-flor:
-e aí? acha mesmo que vai conseguir?!
e o beija-flor:
- não sei, mas pelo menos estou fazendo a minha parte".
abri o portão de casa acreditando no beija-flor.
numa rara conversa com o taxista
que me contou ser obreiro da palavra
ele falava de religião, eu de poesia
ele além de taxista, trabalhando contra a mentira, imaginem
dentro da igreja combatendo charlatões em busca do poder pelo poder & do dinheiro pelo poder & esses ciclos-vícios todos.
me falou da Bíblia sem querer me ensinar nada; me contou da irmã que se separou de um milionário austríaco e escolheu ficar sem nenhum
centavo do marido; falou do absurdo da falta de água em
sp ser programático pra gerar mais obras e mais desvios; falou q ficou tristíssimo na época das eleições, q abria o facebook e sentia náuseas.
a acelerada conversa cheia das pausas da madrugada
terminou com ele me dizendo
"essa história que você contou de que, a não ser q seja pra ferir, ao vermos uma parede é melhor descascar do que dar um murro, me lembrou aquela do beija-flor que está apagando um incêndio. daí chega um elefante meio cínico e diz assim pro beija-flor:
-e aí? acha mesmo que vai conseguir?!
e o beija-flor:
- não sei, mas pelo menos estou fazendo a minha parte".
abri o portão de casa acreditando no beija-flor.
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quinta-feira, 13 de novembro de 2014
meu gato estava equilibrado no parapeito da janela daqui de casa, que vista na perspectiva desta madrugada tornou-se um oitavo andar, e então ele SALTOU, abriu as asas como um paraquedas de morcego, foi caindo entre flanando e se desgraçando, chegou lá embaixo e se espatifou. vi da lonjura que ele saiu andando e fui recuperá-lo. no caminho me aconteceram duas vezes outras coisas, até que diretamente o tive nos braços. as patinhas dele estavam mais estateladas do que nunca (ele tem mania de alongar o entre dedos até o estado de tensão absoluta das mãos) e, deitado no meu colo, quando ele parecia que iria ronronar, meu gato, o Capim, ele CANTOU. a queda (ou o vôo?) ensina a cantar.
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quarta-feira, 12 de novembro de 2014
espaço & tempo
vários tratam as palavras como admiráveis
indomáveis admiro também
às vezes até em letreiros
que me fascinam e movimentam
apiacás, sacomã, pompéia
praça ramos, socorro, lapa
tantas vezes esperei por ver vocês
oxalá apareçam sempre
e rápido e brilhantes de letras
inescapáveis.
indomáveis admiro também
às vezes até em letreiros
que me fascinam e movimentam
apiacás, sacomã, pompéia
praça ramos, socorro, lapa
tantas vezes esperei por ver vocês
oxalá apareçam sempre
e rápido e brilhantes de letras
inescapáveis.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
autografia I
Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra
O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
(antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico do Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente — tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris — já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião — não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais — também, já por cá passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnífica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-las semi-mortas à linha
E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
em franca ascenção para ti O Magnífico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais nem lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido entre
lagos de incêndio e o teu retrato grande!
- -
Mário Cesariny
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segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Canto do guerreiro (primeira versão)
Sou o guerreiro. Ninguém me iguala.
Não foi em vão que me vesti de plumas amarelas:
graças a mim nasceu o sol.
Graças às plumas amarelas, o homem da região das nuvens teve um presságio funesto,
o homem da região do frio perdeu um pé.
Distribuem-se entre as gentes as plumas que o guerreiro colou ao corpo.
O nome do meu deus significa "aquele que vence as gentes".
O meu deus tornou-se num deus terrível.
O meu deus faz turbilhonar a poeira,
turbilhonar a poeira.
Oh, junta-te a mim,
junta-te a mim com as tuas plumas amarelas,
entre a poeira.
- -
poema asteca
de "poemas ameríndios"
mudado para o português por Herberto Helder
Não foi em vão que me vesti de plumas amarelas:
graças a mim nasceu o sol.
Graças às plumas amarelas, o homem da região das nuvens teve um presságio funesto,
o homem da região do frio perdeu um pé.
Distribuem-se entre as gentes as plumas que o guerreiro colou ao corpo.
O nome do meu deus significa "aquele que vence as gentes".
O meu deus tornou-se num deus terrível.
O meu deus faz turbilhonar a poeira,
turbilhonar a poeira.
Oh, junta-te a mim,
junta-te a mim com as tuas plumas amarelas,
entre a poeira.
- -
poema asteca
de "poemas ameríndios"
mudado para o português por Herberto Helder
domingo, 19 de outubro de 2014
incorporando pessoa - parte 1
estudo astrologia faz uns 15 anos. só queria dizer que acabei de me
confrontar com o fato de que o drummond e o belchior tem mapas astrais
parecidos. acho que vou chamar o fernando pessoa pra conversar sobre
esse assunto.
como seria a i no vo ca ção (a invocação cheia de novo, sem nostalgia) do poeta? se o próprio fernando se sentasse na cadeira ao meu lado, como se ela não fosse a sintética cadeira de madeira com desenho de violão cantando canção dos anos '60, mas sim uma namoradeira de pedra de algum segundo andar da rua de são mamede e se de algum jeito o próprio fernando falasse comigo: olá, Júlia. Fernando assinaria "com os melhores cumprimentos"? ou, faria assim lindo:
"Seu,
Pessoa."
Pessoa."
nada disso, pois ele já está sentado ao meu lado. vejo uma cadeira vazia, não escuto a sua voz, nem ele está aqui mesmo de verdade... penso que estou frustrada. vou ter que chamá-lo novamente:
Seu Pessoa,
por favor, venha até mim pra conversarmos sobre o mapa astral do Belchior e do Drummond. você não os conhece, mas eles o conheceram. diria mais: diria (por favor me dê o seu coração que pensa tanta quanto sente): eles passaram a vida a te amar. vamos ver os mapas deles juntos?
aguardo com carinho a sua mensagem.
beijo!
júlia.
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quinta-feira, 16 de outubro de 2014
terça-feira, 14 de outubro de 2014
como calha
viver no lixo ou na cama
casar na cama ou na capela
putas vinho e cinderela
caça ao fim-de-semana
ganhar o pão de gravata
a chafurdar-me na lama
ficar para sempre com a manuela
ou não se ama como calha
por que é que não é tudo como calha
nem mesmo no acaso a culpa falha
bem que podia ser tudo como calha.
matar a velha das finanças
ou ser verde e amoroso no andanças
a encher as freaks todas de esperanças
e lembranças uma vida de caganças
juntar-me a um homem lindo
ou fingir que vou dormindo onde calha
por que é que não é tudo como calha
nem mesmo no acaso a culpa falha
bem que podia ser tudo como calha.
fica sempre tanta gente para trás
ou é para a frente nem me lembro
agora tanto faz
os ofícios as rotinas que escaparam rapaz
as mentiras as meninas que deixaste em paz
as leituras as viagens as carreiras
que deixaste em paz
já perdeste um companheiro
e 'tás inteiro sem os sonhos que deixaste em paz
a velha ganância a namorada de infância a casa no bairro o carro
e tudo o que não volta atrás
do karma que deixaste em paz
deixaste em paz
casar na cama ou na capela
putas vinho e cinderela
caça ao fim-de-semana
ganhar o pão de gravata
a chafurdar-me na lama
ficar para sempre com a manuela
ou não se ama como calha
por que é que não é tudo como calha
nem mesmo no acaso a culpa falha
bem que podia ser tudo como calha.
matar a velha das finanças
ou ser verde e amoroso no andanças
a encher as freaks todas de esperanças
e lembranças uma vida de caganças
juntar-me a um homem lindo
ou fingir que vou dormindo onde calha
por que é que não é tudo como calha
nem mesmo no acaso a culpa falha
bem que podia ser tudo como calha.
fica sempre tanta gente para trás
ou é para a frente nem me lembro
agora tanto faz
os ofícios as rotinas que escaparam rapaz
as mentiras as meninas que deixaste em paz
as leituras as viagens as carreiras
que deixaste em paz
já perdeste um companheiro
e 'tás inteiro sem os sonhos que deixaste em paz
a velha ganância a namorada de infância a casa no bairro o carro
e tudo o que não volta atrás
do karma que deixaste em paz
deixaste em paz
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quinta-feira, 9 de outubro de 2014
há um concerto tão lindo da mercedes sosa na suíça, em que ela cita o cesare pavese dizendo que os poetas são profetas. ontem de madrugada tentaram me enganar num daqueles telefonemas em que se fingem de algum conhecido teu dizendo que foi sequestrado (há tanta má farsa na realidade!), e eu depois de um pesadelo, e de dormir muito bem, passei o dia cantarolando pelas ruas daqui (e dali também) "quero ter olhos pra ver / a maldade desaparecer", e lembrando da mercedes fui esperando o ônibus dizendo o que o pavese diz entre os lábios (onde tantos versos perdi!), pensei que se os poetas são profetas, os sambistas são, então, a profecia.
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