sábado, 25 de dezembro de 2010

natal

eu hoje fiz rabanadas até a casa feder a óleo e eu mesma ser incapaz de pensar nelas, em comê-las. mesmo assim as comi, é Natal - e entre outras coisas, sobretudo é pra isso que estamos vivos.

é vagaroso viver, astronauta. nem sabes das coisas que passam e estão aqui na terra.

eu sei que vês, mas não - . - sei que nossa relação tem limites, mas por favor, me arranca dessa tela luminosa.

metade do que eu conheço está além de mim.
tem certas coisas que eu já não quero mais acreditar/duvidar entender-esquecer. ou mais: pontos pacifícos de estar. um deles é o Natal. não quero nem gostar nem não gostar, mas tem o estar e ele é comunidade com os homens.

todos estão nisso, até os que querem que não. eu agora vivo em Lisboa num dos lugares mais turísticos da cidade e posso vê-los transitando da minha janela. pixaram no muro do miradouro em frente

TURISTS ARE TERRORISTS - assim com o erro mesmo.

eu não diria isso, mas acho engraçado de como é violento com os tapados. em geral os turistas tão meio assustados em OWHHH HOW WONDERFULL e tal. eu gosto dessa ingenuidade, inclusive eu gosto de algumas outras ingenuidades também.

vejo assim, hoje vi, chineses, alemães, brasileiros, um espanhol viajando sozinho. não que eu tenha falado com eles, mas começas a aprender a reconhecer as nacionalidades pelas roupas e jeitos do corpo, e - claro, as etnias em alguns casos facilitam. todos estavam vivendo a véspera de Natal como a véspera de Natal. era possível perceber isso, não é um dia qualquer.

e não ser um dia qualquer não significa muito mais. é o belíssimo solstício de inverno, os dias agora voltarão, para o lado de cá, a ficarem mais longos, pouco a pouco. e ainda bem. mas mesmo, pra além disso. a carol disse hoje: a gente nasce sozinho e morre sozinho, mas a gente vive junto.

às vezes sair da 'comunidade' é o lance de dados que atrasa. a professora disse uma vez: "se eu digo: 'está a chover' e depois completo, 'mas não sei o que chuva significa', é quando eu me retiro da comunidade, do estar junto.

isso me aconteceu, acontece, tantas vezes. das palavras todas ficarem gastas e pra isso eu deixo de acreditar nelas. talvez por isso eu goste de ano-novo, aniversário, natal. porque a gente está junto, e ainda bem. fritura porque nos quero.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Ê VIDA BICHO ENORME QUE É
dos cantos de estima para o poemas do destino do mar
é impressionante como eu perdi o heroísmo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

não quero amor com guerreiro 
pra o fogo não me queimar
quero amor com marinheiro
que anda nas ondas do mar

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

hoje

there are some mornings
when the sky looks like a road
there are some dragons who
were built to have and hold
Joanna Newson
Acalma teu brio de fugir, mulher
havia algo com que me deparar
vinha desde a noite do nome que dei
a algo que sabia tão bem pequena
e que até ontem não sabia que sabia bem assim
alguma coisa com nome de amor
uma luz que às vezes ilumina minhas mãos
e há nitidez nas ranhuras das digitais
e sinto uma ternura imensa
pelo passado pelo futuro
tantas vezes é de noite
e me acompanha pensar
na morte como uma insônia
madrugada passada acordei berrando porque
pedia pesadelo pra amiga grita
grita pra nos salvar
ela não gritou
ao que eu gritei
levantei a cabeça
olhei as montanhas das minhas clarezas antes de dormir
e escrevi logo ao acordar:
esqueci
e fiquei olhando as montanhas e as estrelas pra ver se
elas se mexiam.

- -
dos meus cantos de estima, fofignos.

- -

na cozinha, agora pouco, disse: "como diz aquele verso da ana cristina césar: acalma teu brio de fugir, mulher" e então percebi que o verso não era dela.
já tomei banho. a luz já voltou. vou comer os restos do jantar de ontem. que são praticamente um novo universo. faz hoje céu azul violento de generosidade. coisa de 7 graus. com o vento, 4. o Tejo é mais escuro que o céu. uma letra de espaço que faltar vai fazer toda a diferença na compreensão. é por isso que eu digito tão rápido, pra ver se certas letras caem, são plumas, desnecessárias, ou o meu edredon, cheio delas, quentíssimo. hoje à noite temos concerto de lançamento da cátia. é tanta coisa a gerbera rosa que o b trouxe juntou com as amarelas flores sem nome que comprei no domingo.
temos também uma planta que é o david bowie

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

solução

eu ainda
encontro na mesma cor
que é vida de vermelho de terra em rosa
e quando os olhos, meus, fecho: estou
na caverna mais encantada que desde criança
perco encontro, acho sou.


- - -

domingo, 12 de dezembro de 2010

c

hoje, passeando de tarde, encontrei uma página, digo 30 arquivos do meu computador do romance que eu escrevia em 2007. pensei que talvez fosse legal terminá-lo. cada arquivo que abro tem uma versão completamente diferente (pelo menos de início) que a anterior. eu decididamente não sabia o que fazer, nem o que estava fazendo, e a cada momento levava a massinha pra uma massa posterior. 

(na escola eu brincava de massinha e nenhuma forma que eu queria fazer tomava forma porque no meio do caminho outra forma me parecia melhor: olha, aqui vou fazer uma casinha, não, não! como parece uma salsicha, salsicha é tão sem graça qualquer um faz, vou... cachorro! - - e tudo continuava massa informe - - a mesma coisa com os desenhos, sem contar o horror que as formas literalmente materiais, as chamadas plásticas -errôneamente? se os textos é que são sim, de plástico -, sofrem em si mesmas as marcas dos erros, muitas vezes sem corretivos possíveis. 

ou o que o computador trouxe para nós ou o que ou o que)

quando eu estava escrevendo o "antonio e asaboli" o grande acontecimento, pelo visto, era o "ou o que" e também o orgulho. por quê? porque oras, eu tinha 60 páginas de um texto que era absurdamente nada e tudo ao mesmo tempo e eu não começava nada eu era o exercício eu era o texto eu ia lá abandoná-lo? - foi o que fiz. ficaram pra lá, ficaram com suas pontas pra todos os lados e sem pontas de vez afiadas.


#

mudando de assunto pro seu oposto:
toda vez que eu termino alguma coisa na qual me dediquei por algum tempo depois sou eu o caos sacudido, a luz que incidiu nas coisas até delirá-las, um caleidoscópio partido, uma imaginação toda do universo à solta dentro de mim e eu acuada acuada acuada pensando em nada em nada em nada.

#

2010 foi um ano ótimo.
se consideraramos roberto carlos "se chorei ou se sorri/ o importante é que emoções eu vivi" e que foi um depois de 2009 e outro antes de 2011 e que eu morria de curiosidade pra saber o que ele seria e como viria e foi acontecendo tão por ele mesmo, o ano, as coisas, e eu fui indo nele, me recusando, trançando os pés de saliva, também chamada chuva, também chamada casco, sobretudo riso.

sábado, 11 de dezembro de 2010

"a verdade é que passei a vida a fugir, de cidade em
cidade, com um sussurro cortante nos lábios.
e atravessei cidade e ruas sem nome, estradas, pon-
tes que ligam uma treva a outra treva.
caminho como sempre caminhei, dentro de mim -
rasgando paisagens, sulcando mares, devorando imagens."

al berto, de abertura do romance que eu nunca terminei e cuja epígrafe, noto, não tinha nada haver com ele.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

b

depois do belo novembro em chamas nada melhor do que um dezembro de musgo

um bicho de protótipo um bicho de protesto um bicho que não terminei

a

atravessei uns dias esquivos e se escrevo é só porque me quero de volta. como uma cidade da infância (pavarosamente perdida, dizem), atravesso colinas e travesseiros. sou voltada pro dentro. no centro do meu peito tem uma chapa a que antes chamavam de externo, se não tivesse virado uma montanha de dentro. um oblíquo movimento do coração, digo, de uma inquietação. tem algo que é o bicho amansado nisso. o bicho amansado sente falta de nadar rio. riso que alucina, entrega com atraso disparatadamente entregue. balanço, baloiço, bolsinhas e alfacinhas. tudo isso trago no corpo. um dia ainda dou em ruína.

#
dei nisso!

#

engraçado que é, a pessoa ter vindo pra portugal estudar um mestrado em edição de texto que não se consolidou, porque queria mesmo era aprender a fazer livros e não comércio (ou o comércio que vem depois) e de repente a pessoa desiste vai estudar teoria (& seus pares históricos) (& seus amigos já são pares históricos) e se vê fazendo, de repente, livrinhos.
ainda que haja tempo - ainda. que a vida se recolha toda nela. mesmo que 2010 não me
recordo mais.

acordo de amanhã cedo é manhã do meu vício. no sonho eu dizia terrivelmente terrivelmente que esse lugar é terrível é terrível o mofo. as coisas que a gente escolhe tem de

de fazer
de morrer
de esquecer
de assinar
de limpar
de

mim, pra você, dizendo: recolhe
o varal;
me dá saúde
cuida dos nós.

hoje foi o primeiro dia em muitos: me esforcei e consegui fazer nele inteiro: nada.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

I

pelo lado norte vem o cortante vento do mar
o dia acaba de se agasalhar no musgo das acácias
fico imóvel
atento ao estalar nocturno das madeiras

a roupa foi deixada em cima da cadeira
cobre-se de penumbras... a casa treme
com a explosão da pedreira

viro-me para a terra alegre dos sonhos
invento uma lua invento um inverno só pra mim

donde chegarão aqueles barcos de sobressalto?

um dedo arde na poeira das vidraças
uma planta corrói o silêncio dos corredores
debruço-me para a velha mesa encerada
uma aranha arrasta-se sobre a folha de papel
espeto-lhe o aparo... escrevo
a crueldade das palavras que te cantam

tento acender outras imagens devoradas pelo tempo
mas estou confuso e definitivamente só

de que lado da casa rebentará o novo dia?
em que arrecadação escura sossegará o amor?

resta-me escancarar a porta da casa
e sorrir a todos os desconhecidos

[al berto, do "eras novo ainda"]

terça-feira, 30 de novembro de 2010


ALUVIÃO
exposição minha e da Mayana Redin
inaugura no próximo sábado, 4 de dezembro, às 22h.
às 23h, vamos ter show do Flavio Tris, meu camarada, amigo, coração.


FUNDAÇÃO
Rua do Bonjardim 951, Porto
http://a-fundacao.blogspot.com/

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

hoje vi um caminhão de concreto, daqueles que rodam, que a empresa na logomarca chamava CABAÇO & CABAÇO.
você viu, invadir meu coração sem limites, eu sou a cara dos meus antepassados sitiados pela força inconclusiva de uma fome. atravesso de partilha em partilha escorando o limite do céu e quando me recheio de plena lua, os pulmões escancarados sobre o aterro em vento. estou definitivamente pronta para - espatifar nossos corpos essa vontade de -

ALÔ aqui quem fala é o setor de supervisão do seu ódio, como vai?
sou eu que pergunto.

sábado, 20 de novembro de 2010

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

insônia

antes de dormir fico - tentando dormir fico - eu nunca tenho insônia - reconta a série de coisas pra fazer até o fim de novembro - eu ainda não dormi - amanhã a junta de freguesia em dezembro o flavio vem - preciso comprar cobertor pro flavio - o bernardo também não tem vamos juntos no ikea - capricórnio não desiste mesmo de organizar tudo -  depois essa dor nas omoplatas, semana passada era no maxilar - mas agora o remédio chinês deve fazer efeito - vou ficar mais tempo offline, 2011 - ixi, a polícia federal francesa tenho que levar as receitas - onde estão as receitas? na pasta azul grande junto com o histórico escolar - era bom comprar outra pasta dessas amanhã - nossa hoje fiquei tão cansada de andar por aí fazendo mil coisas amanhã vai ser pior - não consegui dormir ainda - gente tô ficando igual a minha mãe - porque naquela época eu consegui não ficar igual a minha mãe? - tinha um alvo que era vir morar em Portugal - daí eu vim, deu no que deu - é, o alvo é só um vulto - essa chuva, vou ouvi-la até me acalmar - ... - é bonitinha a chuva caindo - como será que era em Auschwitz ouvir a chuva caindo? - isso podia mesmo (consternada) dar um bom verso - em homenagem ao Paul Celan - é, um Dante, o Celan, é um Dante, e eu nunca li Dante - ok, então um Eliot - Eliot, Celan, Drummond - povinho fácil, né? - gentinha leve leve leve - será que eles pensavam em Auschwitz com essa dor? - é, meu pai é daquelas pessoas que tragou o universo e percebeu - casa 12 - meu pai entende essa dor - cavalo dado não se olha os dentes - eu posso colocar também um general nazista - é um soldado da SS melhor - mas que lado eu vou tomar dele? - talvez um soldado da SS vestido de cinta-liga de mulher e um prisioneiro de Auschwitz ouvindo a chuva cair - mas que coisa terrível eles transformavam gente em verme e até os vermes são mais bem tratados - a dor da duras ele voltou e vomitava tudo verde cagava tudo verde - a quantidade de frio e umidade que devia ser Auschwitz - devia chover bué pra caralho de chuva e aquelas horas de sono horas de insônia - que brutalidade - não tô nem pensando nos fornos ainda - por que eu resolvi pensar nisso agora? - o impacto da chuva - ou a chuva que não tem nada haver com Auschwitz - vão me transformar em estrela costurada no pano da roupa de alguém e chove em Auschwitz e eu não consigo dormir - minha língua bem que tá com gosto de pano amarelo - será que eu vou ficar doente? - tão típico, não tenho nem tempo pra isso - será que lá eu resistia melhor? - cada coisa que pode acontecer na vida de alguém - e eu aqui começo, de repente, a cantar VIVER Ê Ô Ê Ô - não tô pensando mais em Auschwitz, que horror - nem sei se ainda tá chovendo - será que amanhã vai molhar as caixas? - ai era melhor dormir e estar descansada amanhã pra tudo que tenho que fazer - mas que vontade de ouvir E NÃO TER A VERGONHA DE SER FELIZ - ai vou ligar o computador ai vou gastar essa insônia ai eu tentei de tudo - prende a respiração meu pai falava isso quando eu era criança e eu não conseguia dormir. funcionava - quem é a pessoa que você mais ama no mundo? - meu pai e a minha mãe - você gosta mais do seu pai ou da sua mãe?  - eu gosto de carne - ai que saudades do marcos - ano que vem ele vem - quem vem em dezembro é o flavio - em janeiro vem minha mãe e vem o meu pai - depois de amanhã tô com meu irmão - vai nascer minha sobrinha eu não vou estar lá - tanta gente pra ver em Paris - se eu apresentasse todos eles eles certamente não iam se dar bem - porque eu faço mais amigo do que macaco sobe em árvore - a vida que é a vida é -  sempre deeesejada - ai meu nariz entupiu de novo - atchim - quem inventou o amor? - se aparecesse agora, o amor, tinha que cair do telhado pra eu perceber - se deus vier, que venha armado - eu tô aqui até que bem, né? - não durmo, mas isso é pra depois - sim, alguma hora hei de dormir - mas só 5 horas essa noite de novo não agüento - ai calma, tem a 4a feira inteira pra isso - mas já dá menos do que  5 horas- vou fazer também o livro do "Temes a noite em que os nomes não se registram nos radares" - - -  é, acho que cheguei n'algum lugar - já posso, de novo, tentar dormir.

axé nóis tudo

mudar: essa espécie de remessa para o futuro: a organização do caos, o ano todo de pó atrás dos livros, desfeito. e se refaz: o grupo de roupas, vestidos, os utensílios de cozinha. as fotos que saem das paredes. tudo que é estágio de intervalo, ou resto: é lixo. e os esquecimentos todos, que se tendem a lembrar: dessa hora tenho medo. mas: contar que sou eu também que ali na frente desencaixoto mais esse começo.

domingo, 7 de novembro de 2010

o túnel e o acordeom








No dia 4 de dezembro vai inaugurar uma exposição minha com a Mayana Redin na Fundação, no Porto.

Eu vivo em Lisboa, a Mayana em Porto Alegre, e não nos conhecemos pessoalmente.
A tentativa do encontro produziu essa de fazermos túnel, túneis.






















A primeira edição d'"O túnel e o acordeom" lá estará, entre outros trabalhos.






















Estejam convidados desde já.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

eu hoje que só reparei que muitas vezes a maior sobriedade é a facilidade do acesso ao fora.

eu tenho um texto que tem que acabar. estou me comunicando com ele.

amor

o mais importante, me parece ser garantir a permeabilidade, sem medo. isso pode ser uma poética, mas falo da respiração. ou me diga a mim mesma: não vão te arrancar o estômago se você quiser colocar todo o seu desejo nas coisas do seu próprio corpo, e se fizeres isso a olhar para o outro lado, o resultado será cinismo com crueldade ou ansiedade se for só pelo desespero. então a gente aceita o convite do amigo pra nadar.

e eu já distingui uma vez ter que fazer um milhão de coisas ao mesmo tempo de fazer as coisas com correria. sem prazer eu não faço nada que preste. é o mundo que está ao contrário, você não reparou? onde você está uma hora dessas? atrás do mundo sou eu quem estou. vem.


quinta-feira, 28 de outubro de 2010



não sei se é bobagem, mas cada vez mais acho que as coisas são como acontecem, as mais cotidianas coisinhas. os encontros desmarcados, os caminhos escolhidos, os sonos bem dormidos. talvez isso seja  calmaria no meio de um mundo escorado pra se terem expectativas e ao mesmo tempo que vou ficando mais torcível, isto é, maleável, também mais levo sem revidar. talvez tudo seja mesmo uma questão entre dureza, duração e amabilidade. amar a habilidade de durar, amolecer, encobrir os astros de sonhos que depois se aceleram em frases, precipícios. o risco disso é que várias vezes eu acho mesmo que está tudo bem, mas alguém há de fazer justiça, que depois não era bem assim que eu estava. tenho como céu aquele precipício dentrão, em escorpião. de todo modo, amanhã um tanto antes do almoço tem encontro pra gente conseguir a casa mais gira de Lisboa, então eu vou dormir, porque o mundo gira, a Lusitânia roda e eu aqui, já é hora, adormeço.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

a única coisa que tende a não mudar é o movimento - - - quando eu tive um blogue que era o samba sobre o movimento eu já sabia disso (e assim me orgulho de mim mesma jovenzinha), se é que a máxima é uma verdade, que valor disso, pra mim, ela tem.

dos barcos, movimeeeeento, aquela música-sofrimento, que eu doía até não mais poder na primeira vez que sofri (mesmo) por amor. eu tinha 21 anos.

as coisas que a gente conta só por contar. e as coisas que as pessoas transformam em regra só pra ter uma prática de vida, um resguardar. acho a primeira situação melhor que a segunda. se bem que ao lavar a louça a segunda me orienta.


passei a tarde lendo o al berto e agora a noite na adélia prado. o melhor dos livros de poesia é isso, que 5 ou 10 poemas fazem dez minutos, ou uma tarde inteira. ou uma tarde inteira de leitura que pode ter 10 minutos e parecer uma tarde inteira.

a vida é muito pra ser pouco e passagem. movimento, movimento, arde!

vou me cobrir e dormir e amanhã acordar menos tensa. porque estou tão tensa tão tensa que travei.
 qlec, um dia quebro no meio essa rocha toda e te envio de envelope só a saliva.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

fulminante

crescer é tão brutal. como naquela manhã, ao sair da tua casa, em que eu descobri que te amava. acordamos um em cima do outro. depois falamos de duchamp. e de repente você fez um discurso comentando que não era o melhor como parecia se achar, que não era arrogante, como eu te achava. então nos levantamos da cama, aprendi a comer o melhor iogurte do mundo, e fui embora. era domingo. a cidade parecia toda plana e eu tinha dormido cinco horas. naquela manhã eu tinha te encontrado em mim. era eu a cidade, meu amor.



então, quando você se endurece mais é um golpe de cintura como brota feito flor em um vasinho de barro em cima da mureta que o rabo do cachorro derruba no chão branco e a terra se espalha,  eu tantas vezes bruta, então me impressiono com a minha delicadeza.
 
tem algo em aberto na minha vida muito em grande nesses últimos momentos.
e é como se eu sentisse o bafo disso, um bafo de estrela, diariamente.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

capítulos verossímeis e capítulos verdadeiros

meu psicanalista é ex mas é das pessoas mais importantes da minha vida. ele me dizia que eu tenho dificuldades pra conter as coisas. fiquei pensando nisso agora e pensei que dava pra fazer um capítulo com subtítulos. os subtítulos teriam por sua vez alternâncias entre pontos só verossímeis e só verdadeiros.

(só verdadeiros me pergunto o que quer dizer isso - - será que posso perguntar se só verossímeis também que sentido isso faz? O.O) (pra confundir o público: ou: lunação de libra: compartilhe a dúvida com o cosmos)

jch: o que chorei, o que sorri, o importante é que emoções, bem, eu vivi (título do livro ou epígrafe da minha vida de escritora latino-americana)

capítulo: CONTER E CONTENTAR

a) o amor, as declarações e os subterrâneos
b) diarréias e narizes que escorrem (creio que menstruações tb podem entrar aqui?)
c) escrever, esse diabólico diário.

domingo, 17 de outubro de 2010

dos sonhos eu sou o amor

uma entrega mesmo ao que é vivo / ou o aprendizado de me preparar pra nunca estar preparada.

- - -

certos lugares que a gente nunca imagina que vão se inverter, de repente estão, invertidos.

- - -

ou tudo é uma questão de pedir (e não pedir): por favor, me ame.

encontros

você pode ser a pessoa certa para a pessoa errada; a pessoa errada para a pessoa certa; a pessoa errada para a pessoa errada; a pessoa certa para pessoa certa  - - - e tudo isso pode não coincidir reciprocamente. ou seja: 

ao mesmo tempo que  você pode ser a pessoa errada para pessoa certa, ela ser a pessoa errada para você, a pessoa certa. ou seja acontece uma espécie de colisão entre errados e certos e você fica absolutamente baratinada por saber que é errado e é certo. e depois de se desiludir não com alguém em si, mas com o amor e a sua grandeza emocional, não consegue nem explicar no seu próprio blogue mais uma teoria fajuta da sua série "agora que sou sincera" e/ou "tenho sempre amor".

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

com louvor

hoje desisti de três idéias que me pareceram fundamentais nos últimos meses e dividi ao meio um rolo de 30 metros de papel kraft com uma faca de pão. ficou reto. e as idéias, ultrapassadas. só o coração que continua. e eu vou dormir que a imaginação é uma corrente sangüínea, o pensamento é um músculo, e A CIDADE SOU EU MEU AMOR
.







não sei pra onde
dizem vão essas placas abandonadas
nem porque elas ficam assim
penduradas

pulsação e água

faz dias que se me distraio a pálpebra esquerda vive a pulsação do corpo como se o coração tivesse migrado para um hemisfério de cansaço da imagem. ou que o único jeito de amolecer a pedra que estou é um banho de banheira quente antes de deitar.

quando eu era criança aprendi a misturar a temperatura da água. é importante jogar a que está no fundo para a frente, ou o contrário. 

quando eu era criança, 8 anos?, me levaram num médico porque eu sofria de pontadas no coração e insônia. o consultório tinha um jardim interno que ficava separado por um recanto de vidro blindex, e o chão de seixos de rio e bambus que subiam ficavam por lá. o médico fez uns exames. me mandou comer mais proteína, por conta das pontadas no peito e as manchinhas brancas que eu tinha nas unhas. e pra insônia me recomendou banhos muito quentes antes de dormir. lembrei ontem.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

farewell

desconfio que a senhora que mora aqui em frente, morreu. então, a senhora que morava aqui em frente. dias atrás quando fui estender roupa reparei que as plantas que ela sempre rega no canteirinho na janela pendurado estavam secas. depois os pombos que ela alimenta começaram a não aparecer entre os fios do estendal. ontem saí pra comprar um chocolate no meio da tarde de (tentativa) trabalho e as portas da casa dela estavam absolutamente escancaradas, com os objetos agrupados em grupos de similares (garrafas com garrafas, papéis com papéis, louças com louças) e duas mulheres gritando lá dentro com dois pedreiros ucranianos que vi subindo as escadas mais cedo.

toda vez que eu a encontrava nas escadas do nosso 3o andar (e lembro de uma vez encontrá-la saindo de casa, desci, fui até o banco e quando voltei ela tinha alcançado a porta de saída) ela (de quem nunca soube, infelizmente, o nome) conversava animadamente comigo, sobre qualquer coisa que encontrasse. no geral um modo de reclamar da velhice de maneira bem humorada. e ria me contando "quantos? adivinhas? 94 anos!" .  ficou tão feliz quando percebeu que eu comecei a namorar e quando nos encontrava juntos é que mais falava. e de repente exclamava "oh my god!" ou "what a shame!". era inglesa, minha adorável vizinha cheia de humor e ternura. god bless her soul!



sonhei com andar procurando o aeroporto pelas ladeiras que mais pareciam labaredas de tanto que não podia parar, ruelas ruelas. então encontro o aeroporto improvisado dentro de uma tenda de circo. minha mãe me telefonava pra que eu organizasse as coisas. eu ia para a bahia, encontrar meus pais.  então ainda tinha que trocar meus bilhetes, em outro lugar, mas faltavam só 10 minutos para o embarque. eu corria, corria, começava a chover. troquei o ticket por uma passagem, sentada numa mesa de aros verdes metálicos, com uma senhora que não gostava do que fazia e quando agradeci se surpreendeu. então desci as escadas correndo, fiquei molhada de suor e água, e lá estava de volta ao aeroporto, quando acordei.

 


#

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
– Sem medo,
Sem remorso,
Sem saudade.

(Bandeira)



quarta-feira, 13 de outubro de 2010

agora mais sentimental

Talvez seja a idade, talvez o deserto, talvez o recesso, talvez o rancor?
Quem sabe o carinho, quem sabe pro Nilo, quem sabe em viagem, quem vai de regresso?

Quem quer o que planta, quem come o que morre, quem vive o que dá?
Quase o que sei, menos esqueci, mais me criei.

Será amanhã, por que não ontem, virá o que fui e trará desde o fundo
O musgo a bóia o resmungo a corja a vespa e a várzea que é meu coração.


Bom mesmo será me apaixonar e fazer bobagem pra sempre.
Do amor, herói.

Ao Sr. Fernando

Passei o dia desenhando sobre o Sr. Fernando Pessoa.
Estou tentando alguma coisa honesta que acabe enfrentando as coisas.
Porque há fantasmas demais nesse mundo.
E nossos motivos fazem as coisas não funcionarem.

O Sr. Fernando Pessoa gosta imensamente de mim e garante que o Sr. Ricardo Reis teria gostado imensamente de mim se tivéssemos nos conhecido na temporada em que vivemos respectivamente em nossos países trocados.

O Sr. Fernando Pessoa por mais que tentasse, o Sr. Fernando Pessoa não acordava diariamente e pensava SOU PORTUGUÊS ao comprar pequenas coisas e discutir trocados. O Sr. Fernando Pessoa se ouvisse a minha língua, 

Não sei o que o Sr. Fernando Pessoa consideraria ao saber que nenhum brasileiro ao ouvir "o brasileiro" pensaria em algo além do povo ou de um indivíduo, e que nunca (a não ser a viver em Portugal), nunca pensaria que o "brasileiro" pode se referir ao idioma falado no Brasil. Será que Sr. Fernando Pessoa em seu escondido sem profundeza sentiria uma ponta de orgulho ao saber que falamos (nós?) português?

Ao Sr. Fernando Pessoa ergueram-se monumentos os monumentos ao Sr. Fernando Pessoa.

Também estimo o Sr. Fernando Pessoa e faço votos para que o Sr. Fernando Pessoa encontre o Sr. Fernando Pessoa a cantar com o Sr. Fernando Pessoa enquanto bebe um café com o Sr. Fernando Pessoa vestindo uma camiseta do Sr. Fernando Pessoa e pense Ah! bom mesmo era o Sr. Fernando Pessoa.

o Sr. Fernando Pessoa foi português.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

temporada chuvão 2010/11

chove agora em Lisboa como se uma faca cortasse o mundo ao meio.
como um rio que se instaura, um sonho que já morreu. foi mero caminho de não ir.

chove em Lisboa como se abrissem um lençol escorrido no céu porque cada gota de chuva cai de um lugar diferente. aos olhos é aparentemente a mesma, mas o ritmo da chuva aqui é diferente.

um esquadro traça que o ritmo é mais alternado do que constante, mas isso entre um pingo e outro; será que consigo ouvir um pingo e outro?


que país selvagem!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

perda e posse

no fim de semana sonhei com um assalto. que estávamos eu e alguém (talvez, o b?) sentados no parapeito de uma vitrine e passava um carro muito rapidamente na nossa frente e apontava pra mim a direção da esquina, tipo "se liga". em meio segundo apareceu na esquina um cara com um revólver apontado pra nós 2 e pediu a minha carteira, que abri ainda dentro da mochila e joguei o cartão de crédito no fundo, e dei a carteira. daí prenderam o assaltante e o sonho ficou com as cores do 'the wrong man', do Hitchcock, que assisti recentemente. no filme o Manny (o Herny Fonda) é acusado de uma série de assaltos que não cometeu. então no meu sonho o assaltante ainda era o Henry Fonda,  estávamos todos em tribunal, mas dessa vez ele era culpado e estava sendo julgado como se não fosse.

*

essa noite sonhei que ia para um casamento vestida com um micro-vestido curto e descalça. ia andando pela margem de uma grande rodovia e estava tudo verão. de repente percebia que precisava de sapatos e que iria escurescer e esfriar. encontrei um Frango Assado desses que ficam na beira das estradas do interior de SP e tinham muitas lojas, stands improvisados de roupas. tudo muito excessivo de dourados e cores fortes. eu não tinha dinheiro? me sentia cada vez mais nua, mas precisava de sapatos e eram todos muito coloridos. encontrava um tênis lindo que super ornava com meu vestido e ficava chic e prazeiroso daí eu ia pagar e a mulher me dizia 500 euros. e eu não podia, claro. daí começava a me preocupar com o frio, com o frio.

*

dadas as últimas circunstâncias, acho que sei mesmo interpretar o que é ter a lua em touro na casa 2.
"Dizem que Goethe escreveu e re-escreveu os seus poemas. Leonardo era mortalmente paciente diante das cores. E que sabemos dos outros, os mais antigos? Tudo é eternamente recomeçado. Não se sabe o que acharam. Acharam alguma coisa - os antigos, os modernos?"

Herberto Helder no "Descobrimento" d'Os passos em volta.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

já é a 2a noite que sonho com saúde esta semana.

tinha alguma coisa haver com bile, um amigo aparecia e me dizia que os órgãos estavam tomando conta do mundo e eu tinha que escolher uma cor. Amarelo, e a bile tomava conta de tudo, principalmente de umas verduras que estavam sobre uma mesa, mas eram a horta do lugar. e o amigo dizia "não soube te amar, a bile tomou conta de tudo".

(?)

antes tinha sonhado um sonho bem bergmaniano, de que eu estava sentada na minha própria frente e olhava minha pele bem de perto com uma lupa e me dizia "tá comendo muita gordura, pode parar com isso".

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acordei e enfrentei o congelador congelado há meses. ia passando um paninho embebido em água quente, inútil. daí achei uma marreta de amassar bife, e me senti um esquimó tentando invadir a própria casa. meia hora de marretada até a porta fechar. meus braços tremem do esforço matutino.


um ano em Portugal, hoje pela primeira vez cozinho bacalhau.


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lista de amores (ou de como o tempo passa e algumas coisas se confirmam): drummond, clarice lispector, hilda hilst, herberto helder. amém nóis tudo na admiração.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

a rainha do perdão

olho para um lado, também ao outro. não sei onde foi que deixei aquela força?

já não é a primeira vez que me dizem que não estão à minha altura. eu devo ter muitos metros e pernas de gigantes que de tanto comerem borboletas subiram pra depois do pé de feijão do seu Adamastor. no ano que vem vou abrir um concurso pra mim mesma, e como vou ser a única concorrente, vou ganhar.

lá do alto do meu prêmio vai ter uma faixa no meu peito:
                                                                    MISS MADRE TERESA DE CALCUTÁ 2011.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

no mesmo lugar, as coisas só acontecem no tempo.
eu olho para um lado e o meu estômago para outro.
sentimos medo, ferimos.

convidei-a e fiz uma regra para essa noite: Terra, não simule terremotos em Lisboa. enquanto durmo, façamos leis: separa o livro do corpo, pois misturá-los é voltar e dar adeus na curva que já dobramos.

A palavra é nunca. A palavra é pouco. A palavra é fechada.
Não há grades. Há desatentos presos. Há presos pela atenção.
Alheia, própria. Há a prisão e há o caminho.
É um campo e depois uma jaula. É um campo de jaulas.

Onde já se viu enjaular o sonho dando o nome de liberdade.
Onde já se viu? Em todo lugar!
Com a placa na frente (o mapa do zoológico sou eu): LIBERDADE. Se liberdade é coisa que passa, não que se estabiliza. Livre é fluir. Livre é onde não estás. Liberdade é esquecer o nome
de quem? Jaula.
puxa. choveu nas minhas roupas. e eu não estava em Lisboa. foi em Lisboa que choveu?

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

acordo, ontem de manhã e não sei escrever. meus dedos foram tomados de uma variedade sintética de fundo, ficam retraídos. começo a me lembrar de nunca comparar corpo com livro, a não ser se for pra crescer o desconforto disso, como quem diz "meu estômago, esse grande inimigo". eu olho para um lado e o meu estômago para o outro, no entanto. ou tratar a dor companheira e o livro como terreiro da saúde? bah! também não enjaular qualquer procedimento ou delírio dando o nome de liberdade. onde já se viu, com a placa na frente (o mapa do zoológico sou eu): LIBERDADE?


domingo, 12 de setembro de 2010

entendimento e decepção

o marcos postou e me lembrei que meu pai me levava pra escola cantando everybody knows that our cities we're built, to be destroyed e como na época ele só escutava jazz, eu tinha certeza que era uma música da billie holiday. meu pai tinha (e ainda tem) em cima da mesa de trabalho uma foto dela. além dela, em um porta-retrato muito bonito porque simples, só uma armação-pinça de metal e um vidro meio verde, feito lente de óculos, por cima, tem esta imagem:



durante coisa de uma década achei que o kafka era meu avô jovem.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Agora Senhor,
dá a teu servo
um coração
capaz dessa escuta.

Primeiro livro dos Reis - Tradição hebraica



Quantas vezes deixámos de fazer sacrifícios e de enumerar
os teus títulos honoríficos? Por que és tão avarento?
Se não te modificares, iremos deixar cair no esquecimento
todos os teus nomes honoríficos.
Que sorte será depois a tua? Podes limitar-te a comer gafanhotos.
Torna-te melhor, para que não te esqueçamos.
Para que serve fazermos sacrifícios e louvações em teu nome?
Tu não nos dá colheitas, nem gado em abundância.
Não pareces sequer reconhecer os males que nos preocupam.
Por isso vamos repudiar-te completamente
e dizer aos outros homens que deixámos de ter os espíritos
dos nossos antepassados.
E és tu quem sofrerá com isso. Estamos zangados contigo.

Zulu- África do Sul


In: A oração dos homens - uma antologia das tradições espirituais. Assírio & Alvim.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

brasilis

é claro que, ao contrário do que pretendem os que divulgam isso, pra mim essa ficha faz dela alguém mais presidenciável,




essa noite eu estava no alto de um monte, na frente de um palco onde iria começar um show, era de tarde, e eu resolvia descer pra fazer não sei o quê. pegar minha mochila? então reparava que ela estava nas minhas costas e eu resolvia subir. o caminho se multiplicava em 200 vezes e virava noite. ouvia o wisnik tocando no palco e percebia que eu estava no campus da usp. algo me fazia me sentir em casa, ao mesmo tempo que a polícia vinha atrás de mim. cercas se colocavam pelo caminho, feito uma falésia cheia de cercas de quadra de tênis, e eu aprendia a saltar as cercas, até que as próximas estavam lá com aqueles pregos pontiagudos que me impediam. e eu corria por todos os lados, com a mochila nas costas, e conhecia todas as músicas que tocavam, de longe. outras pessoas tentavam a mesma coisa que eu, não conseguiam também. levantei com o barulho de um avião, que, juro, parecia que tinha transformado o meu quarto no aeroporto, de tão perto que estava, e veio se aproximando, se aproximando (eu estava acordada! não era sonho) e desconfio que foi por pouco que o avião não bateu, não caiu, não fez do tejo seu destino final.






me questionar sobre a pertinência desse diário em público seria uma neurose comum demais nesta nossa aflita geração. então, às vezes me questiono se tb deveria fazer interpretações dos sonhos, assim, públicas. isso porque, quando eu releio os sonhos aqui, não lembro mais porque os sonhei, embora quando escrevo pareço saber porque os anoto. então, registro da interpretação. mas acho que quem ler acharia explícito demais. eu não sei. tb a vergonha, ando perdendo cada vez mais,

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

'mocionei



"don't hurt my pride like her / 'cause I couldn't stand the pain /and I / would be sad if our new love/ was in vain"

essa era das minhas músicas preferidas aos 16 anos. mas eu não tinha quem tivesse me hurteado o pride, ou que tivesse loved in vain.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

por que tantos de nós, quando choramos é em Lisboa tanto?

domingo, 29 de agosto de 2010

e não é que já ouço o português de Portugal sem perceber o sotaque? só noto quando acontecem grandes atos coletivos, tipo ontem quando vi duas pessoas discutindo no trânsito, - - é cômico, são obrigados a vestirem uns coletes verde-fosforescente quando batem os carros ou trocam os pneus, - - - ou ainda mais, pronto! quando ouvi cantarem "parabéns a você", não só pelo "cantam as as nossas almas" no lugar de "é pique, é pique, é pique", mas na força da reunião, mesmo, percebo nos juntares das vozes os trejeitos, o sotaque como um dilúvio, - - -

sábado, 28 de agosto de 2010

peixe espada, da cidade soube luz

já não entendo mais nada, absolutamente. quando alguém que escreve encontra que o texto é sensação e não prodígio de soluções, onde está o grito, o dito, que poderá me re-suspender? tenho vontade de dormir e vontade de trabalhar e as palavras perdem os eixos, como um caminhão tombado sem rodas, quando as leio elas já não são mais nada, estão nelas mesmas me olhando e se eu sondo encadear colocam: fluxo fluxo, onde está? não consigo colocar muito.

enquanto isso o corpo transfigura, relata uma cidade encantada onde os dutos todos, meio entupidos, fazem eco, se criamos uma batida meio crua, com as mãos pelos canos, podemos enfim constatar que somos uma cintilação do espaço, e os sentidos são nada mais do que uma metereologia. pensei que sou nova demais pra ser escritora já pensando assim. pelo menos consegui formular, finalmente, o que pra mim é uma novidade velha.

IX

Dentro dele mora um bosque de musgo
um nadador a dar ordem as ondas
de cujo olhar ao espelho, o teto do mundo, nasce
arrefece as costas no pássaro que mergulha, céu,
voa.

domingo, 22 de agosto de 2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010





I

antes de dormir, ontem, eu lia, crescente de honestidade o meu al berto - - - ou as desfibrilações que sinto ao deitar, coração que vira terremoto, a idade do tempo, a coluna vertebral do tempo se agitando é um fóssil, no mais marinho dos oceanos, o sono que se aproxima, e sinto nas minhas pálpebras que piscam no travesseiro, os cílios arados do medo. ouvia esse bater dos olhos quando criança e achava que eram os mortos que se comunicam nos segundos anteriores do dormir. falavam só de espanto e o estouro de silêncio da ausência colava nas paredes do quarto.

sábado, 14 de agosto de 2010

vem de mim, se aproxima com aquele sorriso caiado, aquele jeito que eu falo, que você fala e a gente nunca encontra uma língua que fale a do outro e cada um no seu vaso, vento e ventre, a gente então aí, se entende

OU

a vida que se encontra no desconhecido


OU

agora em solo europeu (kkkquase) entendo/penso invento/percebo a necessidade de conceber o informe como resistência/liberdade; para isso "architeture", "les grois orteil", "informe", do Bataille, na Documents


(ou entendo porque meus amigos daqui todos gostam tanto do que parece não fazer sentido, como tem espaço pra invenção, porque o sentido é CONSERVADOR. - - - anchovas de sentido, picles de sentido. - - - but I will be, forever, a drummondian girl,)


de todo modo sempre inventar uma poética que não rasure a paisagem, antes a invente: se sobressai isso em: fazendo dos rascunhos, definitivos. talvez isso seja um modo de dizer do mar.

e meu modo único de respirar.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010



segunda-feira, 9 de agosto de 2010

as coisas no meu quarto/casa tão bagunçadas de um jeito que eu não consigo nem começar a colocar ordem. lápis, canetas, guaches, roupas, livros, louças, pincéis, máquinas de escrever, de fotografar, de mensagear, de conectar e também, propriamente, santos, budas, orixás, pedras da cidade, fotos de amigos de outro lugar, cartões postais, cartas já preparadas e ainda não enviadas, pastas vazias, idéias incompletas, sussuros, 35 graus e nublado hoje entendi o que é pressão atmosférica,

selvagem é o clima temperado, viram, porra vida bizarra de cada 3 meses completamente diferentes um dos outros

o único poema sincero da história é o "cântico dos cânticos de salomão" mas quem mexe nele mente

o alvo é só um vulto

sábado, 7 de agosto de 2010

certas coisas que não se podem esquecer

MUNDO GRANDE

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias:preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros,
carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem...sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...

Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos-voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam).

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante
exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
que o mundo, o grande mundo está
crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
-ó, vida futura! Nós te criaremos.



[do Drummond, no Sentimento do Mundo].

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

songs, days, suor

cavei minha ansiedade porque criei uma aterrisagem de futuro no presente. vertigem.

eu não penso o que escrevo, cada vez mais. não penso o que escrevo. é o pensamento que se escreve e pensa enquanto instrumento (a mão-guindaste). e o exagero, exagero. exagero que nunca de mim escapa. a maré tá subindo. vou ter que sair da gruta-delícia.

fico um pouco em dúvida às vezes da eficiência do novo protetor solar. minha capa invernal às vezes caí do armário quando tiro um vestido. com o peso/pêlo dela me assando os dedos penso, preocupamo-nos com cada coisa em cada certa estação.

tudo o que pensamos é colocado para as emoções. talvez escrever signifique nas palavras, efetue?, um sentimento?

pelo menos eu, me ponho em auto-contato.



estou em SAGRES
que coisa estranha é essa?
é a eterna falta do que falar que bate tão indefinida?
é sempre o canto. e eu com ele, só.


cantei "vida louca vida" pro vento e os canhões. e ninguém, ninguém, nem essas ervas, nunca cresceu como eu.



"capacidade de ouvir e surpreender." fpd


o que há de algo a se escolher já se escolheu e não há mais o que mudar. talvez viver. e haverá que preferir outras saídas. criar saídas laterais.


*
e poderíamos atravessar um universo de estrelas. isso na vida toda. e o que calhasse era viver e sorrir, das coisas que me lembro.

se aqui em casa não tivesse um monstro eu te convidava para vir. dançar as hecatombes. mentias como dançavas os rituais. são as únicas mortes que nos são permitidas ou alguém acredita na solidão? estou hoje maduro como se estivesse disposto.

*

estou é justamente interessada em não partir. vamos levantar o ritmo de transformação para o centro da escrita. efetuá-lo para além da vida. é uma nova descoberta para mim que jovens - - - .

saindo do metro na constatação absoluta de que vivo nesta cidade segura, quente em julho.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

em Lisboa há abacates que secam antes de amadurecer.
video


É tanta a minha mania de observar. Os objetos foram se apropriando do tempo até se tornarem histórias esquecidas. Apertam o olhar como se amarrassem os órgãos do pousar por mais que um instante de mosca. Quando voltar ao topo: Pousar feito um pássaro nas histórias. Anteceder os sismos do alto conceber o azul.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

como a vida sem caderneta
como a folha lisa da janela
como a cadela violeta
- ou a violenta cadela?

como estar egípcio e mudado
no salão do navio de espelhos
como nunca ter embarcado
ou só ter embarcado com velhos

como ter-te procurado tanto
que haja qualquer coisa quebrada
como percorrer uma estrada
com memórias a cada canto

como os lábios prendem o copo
como o copo prende a tua mão
como se o nosso louco amor louco
estivesse cheio de razão

e como se a vida fosse o foco
de um baço lento projector
e nós dois ainda fôssemos pouco
para uma tempestade de cor

um ao outro nos fôssemos pouco
meu amor meu amor meu amor


[do mário cesariny]

domingo, 25 de julho de 2010

quem puder abrir mão de mim, será como o tempo,

quinta-feira, 22 de julho de 2010

"O medo, leva e traz ao deserto os distraídos, prometendo-lhes sempre algo, fazendo-os desesperar da sua simplicidade. Mas o deserto é mais simples que o medo, e a sua luz apropriada."

do Álvaro Lapa, em "seqüências narrativas completas".

tomei o lugar dos meus irmãos

sonhei, depois de semanas sem me lembrar: lembrei. com a casa em que cresci, vivi até os 20 anos, estava na escada azul e amarela - que era meu símbolo de medo e acesso - e tinham (minha mãe) emprestado minha saia branca -preferida- pra outra pessoa, eu não gostava, pois tinha que ir à Paris. eu era mais nova e meu peito sufocava - ainda - e ia até Paris.


quem era a mulher e porque Paris, eu já entendi, nem é muito importante esconder, mas não vou dizer.

terça-feira, 20 de julho de 2010

tenho de invadir a minha vida verdadeira

fazendo uga uga tomaram-na como peixes pelo anzol
tinham minhocas que eram como cenoura na frente do burro
o burro que morreu entre meus dentes
como uma cabeça de bode enterrada
e eu parente, co-parente, bi-polar de onça

sou ROCHA ROCHA

há sempre um rochedo a implodir um caminho que transtorna o hoje de pedregulhos em poeira





nossa senhora da transformação rogai por nós
revogai as estradas perdidas, encaminhai o tempo para si mesmo
multiplicai os abismos dos nossos inimigos
dai boas noites a todos, nossa senhora, e dorme.


tudo que me atravessa encolhe um pouco os ombros
vês aquela?
multiforme em si tem dois braços duas pernas uma cabeça cheia de estrelas no meio
ah! pensava que era um buraco negro
não, não é uma brasileira
até que é branca branquíssima
eu sou filha da via láctea.




faz tempo que não encontro uma vaca pra dizer que VACA!


o calcário europeu faz mal para os meus cabelos ficam parecendo lambidos de vaca
ou território de patinação de patinetes dos meus pensamentos.


mas que bonitinho



descobri que esses são aqueles do mario bros e também os da alice e tb os de iluminação dos vedas e há vacas muito loucas por aí?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

inventar a minha vida verdadeira

diário de julho de 2010 agora

"tenho de inventar minha vida verdadeira"
cada coisa por dentro é feita de pedra
de atiradeira passo à contração
consolatriz sem convicção

tenho duas gajas cheias de gaivotas esperando pra cagar em você / elas vivem em gaiolas sobrenaturais

(nas gaiolas sobrenaturais tudo tem cor de raio-x / inclusive os mêandros dos brócolis)

"em Portugal o letreiro dos taxis ocupados parece chamar mais atenção do que os dos desocupados". meu amigo riu.

íamos em busca da chave.



aqui em mim tudo ruiu.

no último mês me colocaram (milkshake) num liquidificador lançaram-me por dentro em tudo em tudo e zzzzzzás me devolveram sorvete de novo no pote

percebi que não tenho nenhum medo absolutamente medo nenhum de não saber pra onde vou, meu único medo é de continuar assim como e onde estou.

e já senti tanto isso que parece ser uma vertente da minha vida

será que é possível derrubar vertentes da própria vida como numa casa se retirar as paredes?

UMA CASA EM QUE SE TIRASSEM AS PAREDES E O AR CAÍSSE SOBRE NÓS

esse ar veio parar no meu pulmão esquerdo

cada noite a cama numa posição diferente e tantas emergências na nossa conquista de encontro e vigilância e as vidas de redor sempre a arder nossa vida mesmo sempre a se querer como nossa e a certeza de que o que vale é crescer, ser sempre jovem, humildizar sem desdém por si mesmo no tamanho de envolver a vida com o que é e comer bem um coração que não tivesse centro eu aprendi tanto que depois até me despreendi agora precisamos ir tomar um gelado pra falarmos a respeito as pálpebras que acompanham as órbitas vivem mesmo é dos nossos lábios fechando com o calor minha boca também está seca não estou em brasília não sou ana cristina e

os dois vão se encontrar numa rua qualquer e vão se abraçar e vão saber quem está mais nervoso que o outro vão ter certeza que estão mais nervoso que o outro e até que em algum momento eu vou aparecer e convidar pra dançar e a gente vai dançar e depois de manhã vamos sentir fome e vai ser preciso comer e vamos ter certeza que não há, nem nunca houve, amizade mais brilhante do que a nossa, e ainda bem que acontece

sem amor todo meu corpo me chama atenção ATENÇÃO estás VIVA E SEM eu quero um coração batendo novíssimo que me retire desse estado de pedra acho que amanhã vou à praia tomar banho de novo ou ficar imóvel imóvel embaixo de mim mesma que é o mesmo que estar por fora de ti (ainda bem que estou por fora de ti) e encavocar um escaravalho no lugar do coração ninguém acredita quando eu digo cuidado que em mim mora o Maior Escorpião e ele atravessa os ferrolhos das portas pelas órbitas

"nos anos 60, sabe? aquela época em que tudo era permitido, o amor livre, só não valia arrancar os olhos das órbitas"

me espanta a naturalidade como as pessoas falam sem parar e convictamente que dizer coisas com lógica vai fazer uma lógica eu que incendeio tudo ao redor em mim em busca de uma escrita mais debruçada em desconcatenar e ao mesmo tempo incidir como a única pequena luz viável naquela brecha de prédio e que faz toda a diferença no caminhar de alguém que vem confortavelmente reparando em viver e nos caminhos sempre úteis na sua inutilidade contínua

e eu que já saí de tantas já entrei em tantas acho que é mesmo a única solução viver desenfreadamente até que algo nos refreie

(eu tô freiada até os dentes, tô um burro morto, mataram um burro nos meus dentes ele já tava empacado agora ele tá até apodrecendo pobre burro pobres dentes pobre dentifrício insuficiente e que ainda por cima o miúdo de alguém rouba pra colocar na escova de dentes de dinossauro e depois quando ele fala disso parece que enlouqueceu num mundo de artifícios de plástico mas ainda podemos contar com os jardins e nesses jardins descobrir que não há porque não estar a todos os momentos perto dos jardins das árvores das marés e que as marés e seus marulhos e conchas são tão incendiários como o arder conflituoso dos joelhos, a sálvia que eu vou me dar de presente amanhã vai ser ela, certamente, que vai arder em mim essa insuportabilidade tensa de resistir eu

eu resisto tanto que resistindo não desfaço

viajei completamente no próprio sentimento, eu já contei, namoro o amor, ele me namora, somos abelha na florzinha o mel é que é um outro que se interpõe de substrato entre nossas espécies naturais e eu poderia me arrepender de tudo tantas vezes e não sei se é melhor ou pior (lembrei que comprei uma bicicleta que usei 4 vezes e esqueci no fundo de um coberto úmido, mais uma vez e agora lá deve estar anoitecido já e frio, mais frio do que aqui, eu vivi lá nessa época do ano passado e eu resistia a todas essas oscilações escrevendo e organizando e trabalhando e comendo conforme meu apetite e a geladeira cheia)

tudo que eu deixei pra trás, inclusive o analista, a análise não me larga mais, jamais. o analista também não. é um amor.

no fundo, eu sou capaz

ele não, ele é um estúpido de aberrante e um estúpido duplicado porque sabe que é um estúpido é quantas vezes mais estúpido por isso? um estúpido que é uma flor não deixa de ser um estúpido.

fazia tempo que ninguém me olhava como ele assim debaixo e com óculos depois sem óculos e uma sacolinha de algodão pra aclimatar as texturas das conclusões indefinidas mas dessa vez eu não quis brincar de em aberto eu quero é o resolvido resolvendo-se mútuo com você que eu posso ser franca eu até levantei o pézinho na frente do comboio que ninguém me beijava assim com dois lábios grossos que tens que delícia és, quer?

não sei quem sabe o que será de ti agora? bebes em algum lugar pensando que ainda és o mesmo colecionador de histórias de amor enquanto ele bebe os fracassos de tudo que nunca encostou um fio de cabelo por não passar da peneira de si mesmo doido doido pra ter os tornozelos até os tornozelos embebidos de desejo e mordidas mas depois de um tempo ou a gente vive ou esquece não dá pra enternecer tudo o que não se vive com a delicadeza que eu tive eu agora não vou regugitar essa mordaça em ninguém tô comigo mesma

tô comigo mesma



e foi tão bom que você apareceu me inventou dançou lambeu pena que já desapareceu tudo em mim não pude nem criar dessa vez o melhor de tudo é quando as coisas dão tempo de acontecer e se eu continuar um velho marinheiro vesgo visitando país arruinado de país arruinado um dia vou ter que conseguir um emprego

e não ficar com 40 anos virar homem até os 40 anos e ter uma barriga enorme e ficar pensando na mesada da minha mãe enquanto olho o armário de vidro separado no supermercado com as bebidas caras os whiskys e também as giletes - por que será que as giletes ficam ali? são fáceis de roubar? ou uma pessoa que as compra tem que ter cara de intenção de se depilar e não se suicidar? estariam os supermercados fazendo um bem-serviço para o público social humano não se matar? mas e a gordura hidrogenada? e os hormônios nos frangos? e a vida sem pêssego em calda?

então ele parou de me escrever eu parei de escrever pra ele e ele não é uma mesma pessoa

eu gosto dos pronomes indefinidos porque eles são funcionais quem inventou isso aqui assim como quem inventou as mesas e também quem inventou qualquer coisa que seja suficientemete bué da fixe é alguém genial

as línguas foram inventadas por mim, todas elas. é por isso que eu escrevo tão bem.



ele riu, quando perguntou que estilo você escreve? e eu quis entender o que ele queria dizer com isso? "mais racional ou mais emotivo?" eu VIRGE TÔ NO MEIO DO CAMINHO. ele riu e não entendeu. daí eu peguei o ombro dele, era bonito ele e tinha cheiro de sabão novo, e aparência do melhor abraço do mundo e ele fez mais duas ou quatro formas de dizer como poderia ser que eu escrevo até que falei: definitivamente, você quer saber? eu escrevo bem.

e esquecer sobretudo esquecer eu tô precisando de esquecil, não de anonimato

mas também não sei porque profissionalizar (escrever) a coisa que eu mais gosto de fazer (assim, profissionalmente)

quando eu me sinto com 16 anos eu me sinto com 22 também e depois agora com 26 eu tô me sentindo de um jeito que nunca me senti antes? que é um jeito que eu não tô sentindo NADA ai meu fernarndo pessoa no oratório ai fernandinho me ajuda que eu leio o bernardo soares e acho ele tão realista ai fernando pessoa meu que pastel de natas poderá me salvar? será que tá faltando graviola? ou é rabiola? rabanada rebuscada schoppenhauer chopin é c'os cacete

ah! aquela do arnaldo.

faz nem um ano que ouço arnaldo antunes.

"qualquer coisa que se sinta"

agora eu vou escutar, não vou escrever.

ah só quero dizer uma coisa a mais

e agora, quem poderá me liquefazer?



sábado, 17 de julho de 2010

eu não sei. mas acho que é preciso amar muito.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

um país planctônico

o vento em Lisboa às vezes é tão forte que é como ter passagens a arder

sei que minha máquina de escrever está cheia de pêlos de gatos, mas eu não tenho mais gatos. e nem um aspirador de pó para retirá-los. não sei o que é então que estou fazendo da minha vida se não tenho gatos nem um aspirador de pó nem um homem pra me fazer esquecer que não tenho gatos nem aspirador de pó nem pai nem mãe por perto só uma garrafa de vinho do alentejo uma meia dúzia de livros de poetas mortos (que são tudo menos mortos) e também não foram eles que sujaram a minha máquina de escrever. ah se pelo menos eu tivesse aprendido contigo a leve arte de precaver os objetos da deterioração, mas nem isso, minhas calças sempre rasgam, as palavras ferem, e desconfio que ninguém, nunca mais, ninguém, entrará pela minha porta a não ser que seja pra dizer adeus, que nunca estive aqui.
Não encontro
no meio de todas essas histórias
nenhuma que seja minha.
Nenhum desses temas me consola.
Espero ardentemente que me telefonem.
Espero que a chuva pare e os trens voltem a circular.
Espero como se estivesse em Lisboa
e sentisse saudades de Lisboa.
Bateriam à porta, chegariam os parentes queridos, mortos recentes,
e não me dou por satisfeita. Mas os figurinos na noite de
estréia! imediatamente antes!
A goma, o brilho no camarim.

Ana Cristina Cesar, dos Inéditos e dispersos

terça-feira, 13 de julho de 2010

quem corre pra viver toda aventura (quando pode) foge de qualquer confusão





quinta-feira, 8 de julho de 2010

o que acabou não cessa de começar: amor

meus ombros viraram uma asa delta desde que você me apareceu. sobrevôo a cidade, ninguém vai partir. cobriram os aeroportos de festas. os vigilantes das bagagens começaram a dançar, os cães farejadores se roçam e o próprio raio-x se acelerou ao ponto de criar uma batida, destroçou os vidros e o sol come por dentro da sala de embarque. sim, fui eu, ele meu, imperador. o nome do rei é Tempo e ele dá morangos às carabinas.

os frutos imitam o sangue nas propriedades de uma boca. alguém em mim aprenderia a amar tudo o que é incerteza e a descobrir todas as ultrapassagens da lógica. cheguei na selva : o que eu sinto é verde e denso e úmido e não é você. escuta: uma lógica que não é silêncio. é hiato. o esquecimento é uma produtividade. tenho vivido.

somos todos pessoas, impressionantes as coisas que precisamos dizer para nos lembrarmos.


quarta-feira, 16 de junho de 2010

o que é o tempo




clarisse: HAHAHAHAHAHAHAHAHA
esse comentario a 5 anos atras nao teria acontecido!!!
eu: hahahahahha não mesmo
em nenhum sentido
se ele me abraçasse por trás hahahah never
o q é o tempo, não é minha filha

pra ver a voz

o B me explicou dia desses que nós ouvimos a própria voz diferente do que os outros ouvem porque escutamos a vibração no osso, nos ossos.

coloquei o rosto, o ouvido no peito dele e o ouvi falar. então escutei duas vezes a voz.

será que há algum lugar do corpo de outro que se encostamos ouvimos a voz que o outro ouve ao falar? em que haja coincidência.

talvez procurar o lugar seja o amor.

criar compostagem

deito-me às 2h30. durmo às 4h30. levanto às 5h30. como. volto a dormir. acordo 12h30. não consigo entender quando chega às 16h30 e não vivi nem metade do dia.

encontro antes de dormir mil coisas. parece que é essa a viagem, viver como se fosse um hotel de mim mesma. fechei os olhos e noitei que dou muito foco aos órgãos da barriga. porque pensei que a pele também é um órgão. os ossos são um órgão? então fiquei desconcentrando a informação pra todo o corpo, conversei com meus pés durante horas. mas com eles até que é fácil conversar. pensei então nos músculos, tendões. eu estava por dentro de tudo. pra conversar não é preciso se mexer. então pensei que os gatos também são assim, se concentram na barriga. as patas são pra movimentar. os órgãos, não os chamam "vitais"? estarei então concentrada em viver?

sexta-feira, 11 de junho de 2010

é curioso como escrever é a única coisa que me permite não ficar completamente vulnerável; ao mesmo tempo que só há escrita na vulnerabilidade - - - ou: troca-se vulnerável por permeável, também se dizem muitas coisas do que eu quero dizer.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

mas não sorrimos à toa

os dias se encontram como pontos finais, ou desenham um arco, é, melhor assim: um arco. antes de dormir e ao acordar, parece que as energias coincidem, as forças que sinto, vontades e clarezas - - - enquanto o meio é um tremendo meio. as madrugadas e manhãs: paredes de um canyon, todas as tardes: abismo desértico, isso de nariz entupido, o vento tão chato. lá no meio da rua, no meio do banco, o caixa do banco era outro, não era o de sempre, e fez anedota com o meu nariz, com meu responder "oi" ao não entender (se eu fizesse cara feia toda vez que um português me diz "força" ah se eu fizesse), me ofereceu um comprimido e a tarde ventava imensa, não era brasil, não era brasil. minha capa de chuva parecia de cobre porque não chovia, era ontem o dia da chuva, hoje era só vento e sair contra revelia. - - - - -


-------- acordei que nem contei: não tinha pão, abri uma lata de pêssego em calda joguei sucrilhos e linhaça, meu dia começou assim. agora terminou com iogurte de pêssego, aí estão os ciclos de sucrilhos, todos terminados, passando pela tarde com espinafre, frango, arroz integral e cenoura, não li o nietzsche que eu tenho que ler (antes quando não tinha, eu lia), respondi uns 3 ou seis emails, todos eles contando da minha técnica de exaustão (eu gosto disso, de ter muitos emails todos os dias, respondo a cada um deles e antes de dormir faço a minha oração compaixão com os escritores destinatários compaixão que eles nos levem à sério e não e percebam que sou só remetente de palavras que me remeteram em vigores lombos adestrados e vazios escrever, nunca te metas com um escritor se quiseres um par leal com as palavras um escritor vai dizê-las vai dizer-te tudo que pensa vai trançá-lo até o extase e depois BANG acabado BANG BANG BANG vai meter na tua caixa palavras de um ódio frio e ameno sempre estará do outro lado se revigorando com elas sempre maravilhado com as caixinhas de montar com a propriedade das palavras de provocarem misturarem incitarem CLARÕES - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - pois que palavra essencial é amor é amizade é eu e és tu - - - - - - voltamos) como um método de sucumbir para depois levantar, pensei como somos jovens, como somos jovens, como somos jovens, COMO SOMOS JOVENS, e de repente passa e não seremos jovens e não poderei mais usar a minha técnica infalível do recomeçar derrubando a arrogância no salão dos espirros recobrindo a humildade com catarro eu não poderei contar-te cem mil coisas - - - - - só duas ou três que te parecerão cem mil coisas de tanto que te acompanharão pelos incêndios e insônias, e ao plantar os pés de alface - sonífereas e insípidas- do teu cotidiano. -- - - - - - - - então descubro que com tanto contágio do meu amor querente passaste para mim seu vivo ostra de ser modos, agora sou eu que enclausurada estou numa rocha, e é ele, o sempre outro, o sempre vivo outro, que se aproxima da rocha e olha a mim mexilhão, com todos os olhos d miúdo que nunca tinha visto tais seres colados às rochas marinhas, e sem enciclopédia ou discovery channel, tenta ver-me e, maravilhado, quiçá, oxalá e colchão, o miúdo ama as pérolas e sabe mastigá-las com os dentes até parti-las, como eu, um dia, também contigo tentei.

terça-feira, 8 de junho de 2010

play with fire

sim e isso é tanto, mas as coisas se vão embora também nossas células se trocam quantas novas é tudo já renovado, resetado em quantos anos? onde será que estaremos daqui 20 anos? que pessoas nos tocarão? se esse ano é Hilda Hilst a maior escritora que já li quem será em 2030?

"Ai Senhor, tu tens igual a nós o fétido buraco? Escondido atrás mas quantas vezes pensado, escondido atrás, todo espremido, humilde mas demolidor de vaidades, impossível ao homem se pensar espirro do divino tendo esse luxo atrás, discurseiras, senado, o colete lustroso dos políticos, o cravo na lapela, o cetim nas mulheres, o olhar envesgado, trejeitos, cabeleiras, mas o buraco ali, pensaste nisso? Ó buraco, estás aí também, no teu Senhor?"



não sei dos lugares adiante, tão pouco tu sabes, e sigo, segues, somos seguidos.

dia desses duas moscas zumbiram em seqüencia no meu ouvido, mas não as pude ver. estive certa por dois segundos e tremi: É A LOUCURA.


que coisa forte que é.

alazão, alazão, acalma-te.

domingo, 6 de junho de 2010

não vês que teu mal é perdição? e que descanso além d'em exaustão só há no amor?

que idéia convulsa a que tens do amor, des-vivida, se nas encruzilhadas dos teus imaginários os amores são cães que se encontram, e latem, e saltam atrás das rodas enquanto atravessam a rua e se coçam de poeira na sarjeta

no que coube a mim enterrei todas as cordilheiras, achava. mas viramos as fronteiras de nós mesmos, não é preciso nem voltar-se pras costas e essas coisas sobem em (todos) nós como trepadeiras, fortalezas. que espécie de orgulho é esse que não permite uma pessoa deitar ao lado de outra pessoa. e só isso. um compartimento sem rigidez, um caber-nos.

se eu tivesse olhos nas costas também acharia que o terremoto (quando vier) virá por trás de mim?

que sabe me explicar perfeitamente/ e não me entende / e não entende nada (...)/ e nunca o ato mero/ de compor uma canção foi tão desesperadamente necessário

nem duas palavras consigo escrever sem me sentir improvável, precária, falante. quero o amor pelo ritmo, seja lá isso o que for. amor, excedente.

terça-feira, 1 de junho de 2010

alforria blues

em um dia otimista
se eu escrevesse tanto quanto lavo a louça, já tinha ganhado o nobel
1/3 da vida é faxina outro terço a gente passa dormindo ou comendo o outro terço

quinta-feira, 27 de maio de 2010

meus lábios estão partidos e acho que me apaixonei. preciso fazer uma lista das coisas que me importam e dar pra ele. abacate com limão ardeu minha boca. a água do banho estava quente e me queimou os pés. nunca ganhei um anel de alguém, ao que parece, ainda estou livre. e se um dia nosso amor me encher de dúvidas, não saberei como resolvê-las.


vitalidade

o espelho: dividir o corpo em heterônimos.
o mundo: espalhar os heterônimos em cores.
as cores: repartir os espelhos com todos.
diria nessa manhã que já é tarde

XIV

Uma viagem sem fim, Túlio, eu te proponho
Um percorrer o mundo, vagaroso, uns caminhares
Largos, entre a montanha e o vale, e acertos
Entre nós dois, nós viajores, nós repensando
Os rios,
E um campo de papoulas nos tomando, um frêmito
Luminoso,
Agudos, inquietantes no entender dos outros,
Lúdicos como convém a cálidos amantes.

Viagem de madrugada milenares, Sírius intensa,
Tudo ao redor papoulas e cerejas, como convém
A mim, louca de lucidez, e como a ti, Túlio,
Comigo, te convém.


[Hilda Hilst, do "O poeta inventa viagem, retorno, e sofre de saudade" no Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão.]

domingo, 23 de maio de 2010

o fim da história

se essa história acabar como está, certamente. certamente minha fatal memória será das promessas cumpridas em frustrações, sucessivamente.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

pra ver Lisboa

video

essa é direto do túnel pra ela
 

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