quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Tudo se mexe, movimenta
e ataca mesmo a imobilidade
entre os lábios de Tomás
enquanto ele faz silêncio
na sombra de uma árvore.
Não há nada falhado entre os dentes
se dizer não pode de Tomás que ele seja
daqueles em quem as palavras falham entre os dentes
sentindo-se sempre
num ensaio de algo
que ainda não é a morte
embora com ela se pareça
pelo travo de silêncio.
Se mexendo as folhas
vibram e como Tomás
passa os dias procurando um tom
quando o encontra fora de si
ele pode descansar.
É a brisa. Que nos contornos
como quem pousa uma jarra chinesa em cima da lareira
desavisado
de que o pó, a rotação da terra, flores ornamentando,
ou o imprevisto de um cotovelo que a espatifasse no chão,
são mais que o movimento da jarra chinesa em cima da lareira.
São seu puro destino: acaso e esquecimento.
Essas eram as coisas que lhe importavam.
Além de um ramo de algodão
ainda meio vivo
que levava no bolso e às vezes
apertava entre o indicador e o polegar
sem ninguém ver, por dentro do jeans.
Não era o pensamento o único objeto mágico de Tomás.
e ataca mesmo a imobilidade
entre os lábios de Tomás
enquanto ele faz silêncio
na sombra de uma árvore.
Não há nada falhado entre os dentes
se dizer não pode de Tomás que ele seja
daqueles em quem as palavras falham entre os dentes
sentindo-se sempre
num ensaio de algo
que ainda não é a morte
embora com ela se pareça
pelo travo de silêncio.
Se mexendo as folhas
vibram e como Tomás
passa os dias procurando um tom
quando o encontra fora de si
ele pode descansar.
É a brisa. Que nos contornos
como quem pousa uma jarra chinesa em cima da lareira
desavisado
de que o pó, a rotação da terra, flores ornamentando,
ou o imprevisto de um cotovelo que a espatifasse no chão,
são mais que o movimento da jarra chinesa em cima da lareira.
São seu puro destino: acaso e esquecimento.
Essas eram as coisas que lhe importavam.
Além de um ramo de algodão
ainda meio vivo
que levava no bolso e às vezes
apertava entre o indicador e o polegar
sem ninguém ver, por dentro do jeans.
Não era o pensamento o único objeto mágico de Tomás.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
há uma espécie de consenso no ar, também de que eu migrei meu interesse do coração, para o coração que está em qualquer parte. o consenso que eu ia dizer não é este, é que eu ando tão repentina e violenta, numa velocidade tão pouco lenta, que qualquer coisa que acontece me atém dizer. o consenso que eu queria mostrar é de que as coisas entre as pessoas estão deterioradas e vigiantes, e eu que presto muita atenção nos ritmos e humores do mundo, um dois três estou esmagada sem nem querer, ou melhor, estou pontiaguda e desnecessária, pensando inconsequentemente em nada e me deixando ater e levar por tudo. estou angustiada por que não escrevia? ou não escrevia por que estou angustiada? mas estou mesmo angustiada? não será antes uma contracorrente da navegação do dia-a-dia? não será uma vontade de ficar parada? não será uma vontade de só me mover? não será uma fome explícita por nada? que dia a dia se traduz em temer a falta de dinheiro e o precisar de outros pra gerir tudo & tanto. minha vida não é nada precária, no entanto perco tanto tempo com nada, quando o que mais quero é o usufruto total desse gesto tão precioso e puro e fácil e vário que é respirar.
das coisas que mais acontecem por aqui
eu quero o contrário
pois não quero aumentar a preocupação de ninguém,
mas há quem diga que os mortos estão ganhando
ontem, e sempre.
eu pensava nisso justo hoje
pois parece que há uma regulagem
em que não se pode pensar que amanhã eles hão de vingar
ou que coisa feia essa gente viva cheia de órgãos pulsando
mais parece rosnando canivetes
o tempo do hoje é o do que vive
não temos transcendência, nem eternidade
e se cheiramos éter
ficamos com uma zueira
que há quem ache legal
eu prefiro as ervas
porque elas contam histórias
de folhagens e plumas que nelas pousam
e ficam dizendo que a sabedoria
única da regra geral
é fazer rir o morto,
todos os mortos do mundo
rindo de uma vez
não, meu amigo, não é morbidez
é justamente o contrário
por conta dessa leveza
que eles são incapazes
os mortos não têm
ironia, capacete, avião
os mortos, veja bem
os mortos têm outras coisas
eu quero o contrário
pois não quero aumentar a preocupação de ninguém,
mas há quem diga que os mortos estão ganhando
ontem, e sempre.
eu pensava nisso justo hoje
pois parece que há uma regulagem
em que não se pode pensar que amanhã eles hão de vingar
ou que coisa feia essa gente viva cheia de órgãos pulsando
mais parece rosnando canivetes
o tempo do hoje é o do que vive
não temos transcendência, nem eternidade
e se cheiramos éter
ficamos com uma zueira
que há quem ache legal
eu prefiro as ervas
porque elas contam histórias
de folhagens e plumas que nelas pousam
e ficam dizendo que a sabedoria
única da regra geral
é fazer rir o morto,
todos os mortos do mundo
rindo de uma vez
não, meu amigo, não é morbidez
é justamente o contrário
por conta dessa leveza
que eles são incapazes
os mortos não têm
ironia, capacete, avião
os mortos, veja bem
os mortos têm outras coisas
estou triste pois faz muito tempo que não escuto um verso que me faça escrever um verso tão meu mas não estou confusa porque as visões que tenho tido são tão pouco minhas eu vejo
eu vejo a guerra, eu vejo a fome, eu li num autor búlgaro que era alemão e era suíço (como convém ao destino do nosso esburacamento) que falava de uma pintura da morte tentando (e vencendo) a vida
e perante essa necessidade dessa força que é pra muitos a única realidade que existe, eu estava pensando nisso e procurando
quando minha melhor amiga veio me contar que lhe disseram que até os mortos
até aos mortos é preciso fazer rir,
dito isso, deixo o escabroso de lado,
eu vejo a guerra, eu vejo a fome, eu li num autor búlgaro que era alemão e era suíço (como convém ao destino do nosso esburacamento) que falava de uma pintura da morte tentando (e vencendo) a vida
e perante essa necessidade dessa força que é pra muitos a única realidade que existe, eu estava pensando nisso e procurando
quando minha melhor amiga veio me contar que lhe disseram que até os mortos
até aos mortos é preciso fazer rir,
dito isso, deixo o escabroso de lado,
formas de morrer existem muitas
e li num velho livro de um búlgaro
que era suíço e também alemão
não constando outros acaso
enquanto minha morte não vem
eu vivo de brigar contra o rei
que línguas existem muitas
e labaredas muitas mais
formas de morrer existem
tantas quantas formas de matar
até mesmo a água que renasce
pendura como um favo
o morto em mim
justo hoje que ouvi dizer
até aos mortos é preciso fazer rir
esse peso sem ressonância
nem pluma que fizesse
numa palma de pele de pé
quem sobrevive quem sobrevive
as boas cócegas que me fazes
morte que não vem?
e li num velho livro de um búlgaro
que era suíço e também alemão
não constando outros acaso
enquanto minha morte não vem
eu vivo de brigar contra o rei
que línguas existem muitas
e labaredas muitas mais
formas de morrer existem
tantas quantas formas de matar
até mesmo a água que renasce
pendura como um favo
o morto em mim
justo hoje que ouvi dizer
até aos mortos é preciso fazer rir
esse peso sem ressonância
nem pluma que fizesse
numa palma de pele de pé
quem sobrevive quem sobrevive
as boas cócegas que me fazes
morte que não vem?
como compor um poema
nesta altura da viagem?
agora se voltei
terá a viagem acabado?
tão grande o peso dessas ancas
ou o vício sem porque nem lembrança
das unhas roídas
essa vontade de escrever
fica uma corrosão por dentro
a corrosão da falta de contato
o contato imediato entre mim e meu pensamento
é mais que um alongamento muscular
embora este também seja necessário
e isto aqui, veja, não é um poema
mais um hábito de quebrar versos
ou um enter é que é.
é uma necessidade
não a miragem
do que escuto quando ouço um verso
mas sei bem que uma tática que tenho
é gastar, gastar gastar o pensamento
até dele conseguir o, não sei se diria,
digamos o essencial,
hoje me disseram que até os mortos
é preciso fazer rir até os mortos
nesta altura da viagem?
agora se voltei
terá a viagem acabado?
tão grande o peso dessas ancas
ou o vício sem porque nem lembrança
das unhas roídas
essa vontade de escrever
fica uma corrosão por dentro
a corrosão da falta de contato
o contato imediato entre mim e meu pensamento
é mais que um alongamento muscular
embora este também seja necessário
e isto aqui, veja, não é um poema
mais um hábito de quebrar versos
ou um enter é que é.
é uma necessidade
não a miragem
do que escuto quando ouço um verso
mas sei bem que uma tática que tenho
é gastar, gastar gastar o pensamento
até dele conseguir o, não sei se diria,
digamos o essencial,
hoje me disseram que até os mortos
é preciso fazer rir até os mortos
domingo, 2 de fevereiro de 2014
pequeno compêndio das coisas físicas
o alecrim tem a ver com a alegria e previne gases.
a lavanda purifica, abranda, acalma.
a canela materializa tanto quanto avisa que a imortalidade está presente.
o eucalipto espanta baratas e abre os pulmões. dá papel.
chá de alfazema faz dormir um boi, ou dormir um boi como fica dentro da jibóia.
a lavanda purifica, abranda, acalma.
a canela materializa tanto quanto avisa que a imortalidade está presente.
o eucalipto espanta baratas e abre os pulmões. dá papel.
chá de alfazema faz dormir um boi, ou dormir um boi como fica dentro da jibóia.
há uma canaleta da história que se abriu como o barro e fez os nossos ancestrais. os meus, digo. desconfio às vezes que alguns humanos não vieram do barro, mas dos insetos que, por sua vez, derivam da fibra das antenas da avenida.
há muito perdi os logradouros. toda avenida é qualquer parte, e substitui uma cidade em que todos os pavimentos eram brancos pelo alcatrão que por aqui se chama asfalto.
alguns homens teimam em ser lindos.
mas todos eles nem todos juntos seriam tão bonitos como a minha vó. com seus olhos cinzentos e sua pele de quase índia. adocicando-se pelo tempo.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
das chegadas
muitas narrativas por fazer, em toda parte. qualquer lugar que eu chego é a mesma sensibilidade. já dizia o outro "o corpo é que paga", no entanto estamos ouvindo noel, já temos panelas, o lixo é novo e quebrou tão cedo. ele instalou novas luzes na cozinha, funcionam tão bem. melhor que eu mesma, que estou limpíssima, embora a tosse. purguei tanto pra chegar aos príncipes. não os gordos príncipes das peles de frango, os príncipes das cintilações, que sobem pelas ramas das unhas de gato e se prendem aos muros com tanta fibra e - por que não? - delicadeza.
é curioso que são paulo me pede outra ruptura, embora ela também estivesse presente nas coisas que eu sentia, escrevia ou queria em lisboa, a ruptura era mais mental por lá, quebrar com as mentalidades vigentes. aqui eu (ainda? nunca?) senti isso. aqui é quebrar a própria mentalidade. destroçar a mentalidade estiolando junto com os urubus que passeiam entre os girassóis.
sem dúvida entro na cidade com outra mentalidade.
por um lado vim da europa trazendo notícias amazônicas.
por outro lado tem mesmo o lance das calçadas, dos contentores, das coisas públicas.
embora isso, estava cansada da decadência. isso aqui é um descontrole arrumadíssimo,
a cada dia que entro no metrô amo mais aqueles que trabalham no metrô e fazem as engrenagens funcionar
(escrever isso num verso, escreverei isso num verso)
perdi metade do meu ano passado numa bobagem do disco rígido
e agora não tenho nem um word que pudesse editar uns poemas novos
que ainda não escrevi.
sempre esse abismo, essa emancipação do gesto, como se fosse possível que o poema escapasse de mim.
escrevi o "cantos de estima" neste apartamento.
os livros que chegaram vão ter de se adaptar.
tudo que é, é o nosso.
dá-me estrutura e flexibilidade, o resto é o que virá.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
das despedidas
Perdi meu amuleto, depois achei
o âmbar do mar báltico me espera
na outra ponta de Lisboa.
Embora a morte de ilustres seja a cada dia mais cotidiana
não é só a cidade que está afogueada de vermelho
nesses dias de fuga,
veja bem,
veja meus olhos,
tantas coisas a fazer
a melhor delas é que percebas isso
mas eu teria que ter garganta
grafite, que era pouco, nunca usei.
Gasta-se como o tempo
nas solas dos sapatos
nas calçadas brancas
embora haja o aprendido
de carregar minhas coisas
limpar os ambientes
tomar chuva sem chapéu
e falar duas línguas
numa mesma língua
numa mesma língua
ainda não sei se "grafite" é masculino ou feminino.
São tantas as nuances do desejo.
Quando chega o fim
é assim a gente se confunde
sempre pensa ligeiro e lento
onde estará o alicate?
Que tenho de levar
pra arrebentar o elo
que desaprendeu a amar
esquecido de voar
depois de ser do sol
onde criava caminhos
agora vê só a marcha lenta
o nevoeiro dessa terra
onde as folhas ainda caem
sustenidas pela minha saliva.
É a mesma salina memória que vem do rio
e que tantos ouvidos furou até que cantassem
a mesma salina memória que vem do rio
e que, depois de parecer brisa, revela-se entranha
e pesa nas ancas como gruda os calhaus
na orla.
Caiu a noite lenta
a cidade
se dissipou?, não sei.
Sei que choveu
dentro do adeus.
o âmbar do mar báltico me espera
na outra ponta de Lisboa.
Embora a morte de ilustres seja a cada dia mais cotidiana
não é só a cidade que está afogueada de vermelho
nesses dias de fuga,
veja bem,
veja meus olhos,
tantas coisas a fazer
a melhor delas é que percebas isso
mas eu teria que ter garganta
grafite, que era pouco, nunca usei.
Gasta-se como o tempo
nas solas dos sapatos
nas calçadas brancas
embora haja o aprendido
de carregar minhas coisas
limpar os ambientes
tomar chuva sem chapéu
e falar duas línguas
numa mesma língua
numa mesma língua
ainda não sei se "grafite" é masculino ou feminino.
São tantas as nuances do desejo.
Quando chega o fim
é assim a gente se confunde
sempre pensa ligeiro e lento
onde estará o alicate?
Que tenho de levar
pra arrebentar o elo
que desaprendeu a amar
esquecido de voar
depois de ser do sol
onde criava caminhos
agora vê só a marcha lenta
o nevoeiro dessa terra
onde as folhas ainda caem
sustenidas pela minha saliva.
É a mesma salina memória que vem do rio
e que tantos ouvidos furou até que cantassem
a mesma salina memória que vem do rio
e que, depois de parecer brisa, revela-se entranha
e pesa nas ancas como gruda os calhaus
na orla.
Caiu a noite lenta
a cidade
se dissipou?, não sei.
Sei que choveu
dentro do adeus.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
eu hoje conversei por encontrar por acaso na rua com um dos homens mais
inteligentes e entusiasmados que já passaram pelo nosso século e ele
estava muito desanimado. não desejou mal, mas me preveniu tanto dele.
eu realmente acho que algo está fora do lugar na curva do parafuso.
tem um prego entortado na estrutura das coisas.
tive vontade de lhe dizer: que o senhor não caia.
que o senhor se espalhe. seja a própria cordilheira
o rabo da baleia espatifando água
por todo lugar, seja. essas borbulhas são sobretudo isso:
um bom mecanismo de sangrar.
eu realmente acho que algo está fora do lugar na curva do parafuso.
tem um prego entortado na estrutura das coisas.
tive vontade de lhe dizer: que o senhor não caia.
que o senhor se espalhe. seja a própria cordilheira
o rabo da baleia espatifando água
por todo lugar, seja. essas borbulhas são sobretudo isso:
um bom mecanismo de sangrar.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
cobra preta
tenho sonhado pouquíssimo ou lembrado muito menos. mas essa noite sonhei e lembro que sonhei que no meu quarto de adolescência havia uma cobra gorda e preta. eu subia em cima da cama, não era exatamente medo que eu tinha, era dúvida, eu não sabia se a corda era venenosa ou não, o que me causava um pouco de repugnância. tive a impressão de sair do quarto e encontrar meu pai, mas nesse momento não sei se não encontrei meu avô, mas a dúvida permanecia, ninguém tinha visto a cobra além de mim (acho) e então nenhum deles sabia dizer se a cobra era venenosa ou não. também havia uma coisa curiosa que o quarto, o chão do quarto tinha uma mistura entre um carpete de tecido e uns trechos eram como mato de pasto, terra batida e seca, onde estava, claro, a cobra. às vezes ele era gorda demais, às vezes eram lembranças q eu tinha dela o sonho. dormi sem ter a resposta e só vim aqui escrever esse sonho pois foi dos sonhos mais enigmáticos que uma vez já sonhei e, portanto, melhor guardar.
quando aparecem interpretados já também, guardo. mas depois quando releio esses trechos de textos já não lembro quase nada do que sonhei, e o que escrevi fica parecendo um novo sonho, o que deve ser bom, pra acelerar metáforas, sempre.
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caderno público de sonhos
sábado, 4 de janeiro de 2014
todo sujo de batom
se desde muito a verdade virou uma moeda rota
e a metáfora uma nota de troco rasgada,
lime-se uma na outra e do contágio
entre o velho, o desuso e o cansado
nasce (do cascalho!) o fogo.
usem as metáforas, senhoras e senhores,
são vossa humanidade. eu vou dormir,
sonhando com uma coluna vertebral renascida em cauda.
e a metáfora uma nota de troco rasgada,
lime-se uma na outra e do contágio
entre o velho, o desuso e o cansado
nasce (do cascalho!) o fogo.
usem as metáforas, senhoras e senhores,
são vossa humanidade. eu vou dormir,
sonhando com uma coluna vertebral renascida em cauda.
domingo, 29 de dezembro de 2013
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
antes de mim está
não li aquele livro do Jung que meus pais falaram pra que eu não lesse.
não porque meus pais disseram, simplesmente porque não entrei.
um amigo uma vez me disse que tinha lido um poema meu e tinha tomado uma pedrada no ouvido. é assim mesmo.
se eu não tomo uma pedrada na cabeça que me arranca o coração
eu não leio, não. as pessoas também publicam demais.
conheci muitos masturbadores proletários.
são a maioria
raro, raríssimos, sabem gozar juntinho.
*
asteriscos são os olhos dos cavalos cintilando
*
"SINTO-ME DISPERSO
ANTERIOR A FRONTEIRAS
HUMILDEMENTE VOS PEÇO
QUE ME PERDOEIS".
(cda, quem mais cintila tanto assim?)
*
uma tarde aberta é quase
um poema
uma temporada sem metereologia
uma tarde aberta é quase
um poema por ser escrito
temporada pede auxílio
completamente fora dos princípios
mas se, no fundo, tudo
é órbita e ritmo, eu
que vejo mal na névoa
por isso intuo um precipício.
esses versos sebosos.
quero cinco anos de distância
em cinco anos de distância
eu me esqueceria
me esqueceria antes, provavelmente
às vezes parece que me especializo na vida
a deixar as coisas para trás
crio enigmas para os gatos
desde criança sou mestra
em deixá-los curiosos e despertos
com algo que - dado meu curto sentido de aventura -
coisas que quase nunca ou praticamente não acontecem.
quem me leva pela mão?
reconhece que sou uma porta
de saída para o que não se repete.
antes de mim está
*
não porque meus pais disseram, simplesmente porque não entrei.
um amigo uma vez me disse que tinha lido um poema meu e tinha tomado uma pedrada no ouvido. é assim mesmo.
se eu não tomo uma pedrada na cabeça que me arranca o coração
eu não leio, não. as pessoas também publicam demais.
conheci muitos masturbadores proletários.
são a maioria
raro, raríssimos, sabem gozar juntinho.
*
asteriscos são os olhos dos cavalos cintilando
*
"SINTO-ME DISPERSO
ANTERIOR A FRONTEIRAS
HUMILDEMENTE VOS PEÇO
QUE ME PERDOEIS".
(cda, quem mais cintila tanto assim?)
*
uma tarde aberta é quase
um poema
uma temporada sem metereologia
uma tarde aberta é quase
um poema por ser escrito
temporada pede auxílio
completamente fora dos princípios
mas se, no fundo, tudo
é órbita e ritmo, eu
que vejo mal na névoa
por isso intuo um precipício.
esses versos sebosos.
quero cinco anos de distância
em cinco anos de distância
eu me esqueceria
me esqueceria antes, provavelmente
às vezes parece que me especializo na vida
a deixar as coisas para trás
crio enigmas para os gatos
desde criança sou mestra
em deixá-los curiosos e despertos
com algo que - dado meu curto sentido de aventura -
coisas que quase nunca ou praticamente não acontecem.
quem me leva pela mão?
reconhece que sou uma porta
de saída para o que não se repete.
antes de mim está
*
sábado, 21 de dezembro de 2013
agora pouco senti o sangue de um poema novo correndo em mim e quando me sentei para escrever meu corpo finalmente havia se acalmado da falta de calor, e quente que estava, se esqueceu do poema que começava
começava com uma criança brincando entre a luz e a sombra,
essa criança era eu. com meus objetos mágicos, a palavra
agora sinto só uma dispersão no ventre e tanta vontade de dormir e só acordar na bahia.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
sábado, 14 de dezembro de 2013
irtoi
vou fazer uma lista dos 15 livros da minha vida no dia de hoje
1. four quartets, t.s. eliot
2. elegias, hölderlin
3. a teus pés, ana cristina cesar
4. vertumno, brodsky
5. do desejo, hilda hilst
6. claro enigma, drummond
7. memórias póstumas de brás cubas, machado
8. laços de família, clarice
9. los hijos del limo, octavio paz
10. o guardador de rebanhos, alberto caeiro
11. hamlet, shakespeare
12. poemacto, herberto helder
13. é isto um homem, primo levi
14. os tarahumaras, artaud
15.
16.
1. four quartets, t.s. eliot
2. elegias, hölderlin
3. a teus pés, ana cristina cesar
4. vertumno, brodsky
5. do desejo, hilda hilst
6. claro enigma, drummond
7. memórias póstumas de brás cubas, machado
8. laços de família, clarice
9. los hijos del limo, octavio paz
10. o guardador de rebanhos, alberto caeiro
11. hamlet, shakespeare
12. poemacto, herberto helder
13. é isto um homem, primo levi
14. os tarahumaras, artaud
15.
16.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
*
estavámos e era de noite
minha amiga mostrou-me a lua
eu mostrei-lhe os altos ramos
e os cães ladravam
em todos os quintais.
radial como a nossa rede
de compartilhamento atual
era o latido dos cães.
mais radical, talvez
miram os dentes
mas, como nós,
estão sós dentro
de seus muros
defendendo somente
o que conhecem.
minha amiga mostrou-me a lua
eu mostrei-lhe os altos ramos
e os cães ladravam
em todos os quintais.
radial como a nossa rede
de compartilhamento atual
era o latido dos cães.
mais radical, talvez
miram os dentes
mas, como nós,
estão sós dentro
de seus muros
defendendo somente
o que conhecem.
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a casa dos nietzscheanos
solitário percurso é o buraco
escavado como ruptura
bote encantado
salvação do limite
quando aparece o dizer
que arrebenta aquilo
que encerra a coisa
a coisa toma conta de tudo
vira um mote
e todo mote é um percurso
aditivo dos motivos
esse dizer tudo
e você acompanhando
alguma semântica
que eu consigo manter
mesmo sem estar
com nada a dizer.
primeiro pensei: minha amizade
percorre todos os muros e arrebenta.
quem entendeu o buraco do começo
como o mal, foi a tua moral.
escavado como ruptura
bote encantado
salvação do limite
quando aparece o dizer
que arrebenta aquilo
que encerra a coisa
a coisa toma conta de tudo
vira um mote
e todo mote é um percurso
aditivo dos motivos
esse dizer tudo
e você acompanhando
alguma semântica
que eu consigo manter
mesmo sem estar
com nada a dizer.
primeiro pensei: minha amizade
percorre todos os muros e arrebenta.
quem entendeu o buraco do começo
como o mal, foi a tua moral.
hoje
Antigos acreditavam que quando um cometa atravessa visível no céu populações inteiras, a colheita, o sumo das frutas se altera. Se a passagem de um cometa já foi parte de um sistema de adivinhação, penso no cometa como um fogo de predileção, aquilo que a gente repara na distração e sente que vê-lo é um dom, do acaso, da sorte. Dom de estarmos atentos, ao fulgor e ao delicado. É tão simples um cometa, ele atravessa todo especial, e é assim que é o primeiro disco do Flavio Tris. Suas músicas atravessam o nosso céu, vindas de passados universos, indo para onde? Confio no que canta o cantor: “minha meta que era só coração”. Arranque-se do céu o que o cometa decalca: que tudo se reinicia, caloroso. E se transmite entre nós, os vivos.
Sim, porque é sobretudo disso que se trata, falemos de discos e de cometas, o que importa é estar vivo, arder. E as músicas do Flavio cuidam disso a todo o momento. Se respeitam os ensinamentos dos passados, de músicos que ouvimos, dos avós que tivemos, dos amigos que não estão mais entre nós, sobretudo as músicas do Flavio Tris produzem caminhos amansados pelo sol, pelo senso de justiça, direi melhor, pela constituição de uma ética do pulsar do coração. O Flavio canta para cuidar de nós, destecer as feridas, esquentar os corpos de desejo. Galã, herói, flâmula e luz, a sua voz de brasa é também um carvão.
O disco Flavio Tris foi testado: em 150 km/h nas autoestradas, desviando de buracos nos caminhos de terra, tropeçando nos desavisados no metrô; foi ouvido em jantar com amigos, na solidão com livros, dançando de olhos fechados e de olhos abertos, em audição para compreender a construção das letras, fazendo amor, afiando lápis e flechas, bebendo vinho, percebendo só os instrumentos, fumando dos mais diversos aditivos, dando ares à distração; o disco foi testado depois de tudo, e antes de tudo também, e julgo que foi aprovado com máxima distinção, fruição e encanto. Ouça também. Tudo isso para não perder a visão do céu que é o nosso céu, pelo cometa atravessado.
Sim, porque é sobretudo disso que se trata, falemos de discos e de cometas, o que importa é estar vivo, arder. E as músicas do Flavio cuidam disso a todo o momento. Se respeitam os ensinamentos dos passados, de músicos que ouvimos, dos avós que tivemos, dos amigos que não estão mais entre nós, sobretudo as músicas do Flavio Tris produzem caminhos amansados pelo sol, pelo senso de justiça, direi melhor, pela constituição de uma ética do pulsar do coração. O Flavio canta para cuidar de nós, destecer as feridas, esquentar os corpos de desejo. Galã, herói, flâmula e luz, a sua voz de brasa é também um carvão.
O disco Flavio Tris foi testado: em 150 km/h nas autoestradas, desviando de buracos nos caminhos de terra, tropeçando nos desavisados no metrô; foi ouvido em jantar com amigos, na solidão com livros, dançando de olhos fechados e de olhos abertos, em audição para compreender a construção das letras, fazendo amor, afiando lápis e flechas, bebendo vinho, percebendo só os instrumentos, fumando dos mais diversos aditivos, dando ares à distração; o disco foi testado depois de tudo, e antes de tudo também, e julgo que foi aprovado com máxima distinção, fruição e encanto. Ouça também. Tudo isso para não perder a visão do céu que é o nosso céu, pelo cometa atravessado.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
que mistérios tem
quem não sabe devia saber, mas acho que todo mundo já sabe que hoje a
clarice lispector faria 93 anos. a clarice construiu tudo que conhecemos
e tudo que desconhecemos, pra além de que destruiu tudo, tudo. era um
jipe e um trator, embora fosse um diamante, a clarice falava do que é
podre e do que cintila: a linguagem.
só não fico enraivescida com as correntes e blablablas que são ditos em seu nome porque é perda de tempo?, atualmente, moro numa cidade que até carro turístico está assinado com nome de poeta e, ... talvez o necessário seja rir disso tudo.
às vezes me pergunto, se é isso o que é eles fariam: rir rir rir rir rir e imaginem bem, se todos os escritores mortos do mundo rirem todos ao mesmo tempo, a órbita da terra desvia uns centímetros e assim, quiçá, oxalá, etc.
nos enfins, posto um trecho do trecho "amor", do "cantos de estima", meu primeiro livro, que fala da clarice, e aqui está:
*
ontem chorei por causa de um passarinho. às vezes acontece da vida entrar pela janela uma história da Clarice. domingo. um passarinho do tamanho do meu polegar entrou entre as abas da janela e caiu no fosso em que elas se guardam. ficou preso lá dentro. às vezes suas asinhas batiam fazendo schuif schuif schuif. se eu abrisse a janela completamente o mataria esmagado. demorei a entender que ele era tão pequeno e que chorar não adiantava-nos nada. perguntava assim: o que tenho eu a ver com a vida desse passarinho que veio cair na minha janela por inexperiência? me respondia, tenho tudo a ver com ele e nada dele me diz respeito. mas é a vida, né, então fiz de tudo. bambus, varetas, lanternas, cestinhas, farelos de bolacha pra mantê-lo vivo. precisava de mão de obra especializada. hoje de manhã vieram salvá-lo. ele abriu a janela e eu peguei o passarinho na mão. apavorado. voou. estou só agora, sem o passarinho.
só não fico enraivescida com as correntes e blablablas que são ditos em seu nome porque é perda de tempo?, atualmente, moro numa cidade que até carro turístico está assinado com nome de poeta e, ... talvez o necessário seja rir disso tudo.
às vezes me pergunto, se é isso o que é eles fariam: rir rir rir rir rir e imaginem bem, se todos os escritores mortos do mundo rirem todos ao mesmo tempo, a órbita da terra desvia uns centímetros e assim, quiçá, oxalá, etc.
nos enfins, posto um trecho do trecho "amor", do "cantos de estima", meu primeiro livro, que fala da clarice, e aqui está:
*
ontem chorei por causa de um passarinho. às vezes acontece da vida entrar pela janela uma história da Clarice. domingo. um passarinho do tamanho do meu polegar entrou entre as abas da janela e caiu no fosso em que elas se guardam. ficou preso lá dentro. às vezes suas asinhas batiam fazendo schuif schuif schuif. se eu abrisse a janela completamente o mataria esmagado. demorei a entender que ele era tão pequeno e que chorar não adiantava-nos nada. perguntava assim: o que tenho eu a ver com a vida desse passarinho que veio cair na minha janela por inexperiência? me respondia, tenho tudo a ver com ele e nada dele me diz respeito. mas é a vida, né, então fiz de tudo. bambus, varetas, lanternas, cestinhas, farelos de bolacha pra mantê-lo vivo. precisava de mão de obra especializada. hoje de manhã vieram salvá-lo. ele abriu a janela e eu peguei o passarinho na mão. apavorado. voou. estou só agora, sem o passarinho.
oração de ir pra rua
a crua alegria, a anarquia
que saía dessa caixa
salvava um país.
ou dois.
que alguém agora
fizesse o que ele fazia
com a dor e com o remorso
com o medo e o cansaço
lascava a pedra, fazia o fogo.
O FOGO.
que saía dessa caixa
salvava um país.
ou dois.
que alguém agora
fizesse o que ele fazia
com a dor e com o remorso
com o medo e o cansaço
lascava a pedra, fazia o fogo.
O FOGO.
*
o dia em que alguém levantar as mãos
e delas caírem duas estrelas
cintilações, vertigens
vão se dissipar
como uma concha já sem caramujo
rolada para o fundo do mar
todos os caminhos desmanchando juntos.
eu
que só conheço um lado
e do outro desvio
vou colocar a mão nos bolsos, então.
porque se algo cair das minhas mãos
não vai acontecer nada, não
além do céu, o céu se partir.
e delas caírem duas estrelas
cintilações, vertigens
vão se dissipar
como uma concha já sem caramujo
rolada para o fundo do mar
todos os caminhos desmanchando juntos.
eu
que só conheço um lado
e do outro desvio
vou colocar a mão nos bolsos, então.
porque se algo cair das minhas mãos
não vai acontecer nada, não
além do céu, o céu se partir.
domingo, 8 de dezembro de 2013
a guerra é a guerra
você tem dias que acorda sentindo que está em dívida com tudo
(por mais que a vida que leve não seja mais do que cumprir com as coisas a que se propõe)
você tem dias que acorda e só tem a fome dos que não tem fome e a quem nada sacia?
você tem a fome do esquecimento?
ou a fúria da memória?
eu tenho ambas além de sintonias múltiplas
estar com a mandíbula doendo (e o canal do ouvido por consequência)
e leio num livro de capa negra (repentinamente espalharam-se livros de capas negras pela casa)
que a mandíbula determinou o tamanho da caixa craniana
em todos os vertebrados (nos quais eu me incluo)
a estrutura da coluna é mais violenta do que se pensava
e mais delicada também.
ando só ossos
os descobrindo e reagrupando e desconfio profundamente
(superfície com destaque) que meu cérebro esteja sendo reprogramado
como uma esponja cósmica
outros poetas já disseram
que o poeta é a antena da raça
se isso for verdade
eu sou a esponja cósmica
e no fundo (e também no princípio)
há uma baba de resto de sabão
água acumulada e detritos
que passar por debaixo da água liberta
como quem desmaia o mal
a água é mesmo o maior veículo
por isso vou voar
para não tocar no que é grande.
estou fadada às enormidades
alguns se assemelham
ao minúsculo, ao particular
eu coloco a força toda nos músculos
depois é domingo e eu acordo com a mandíbula doendo
e passo minutos vendo crânios de animais que não existem mais
(embora ele me interrompa para falar da segunda grande guerra e da influência disso na ucrânia hoje)
embora suas mandíbulas com dentes distintos entre si permaneçam
nos cães. que correm e saltam e comem e mordem
a minha mandíbula.
(por mais que a vida que leve não seja mais do que cumprir com as coisas a que se propõe)
você tem dias que acorda e só tem a fome dos que não tem fome e a quem nada sacia?
você tem a fome do esquecimento?
ou a fúria da memória?
eu tenho ambas além de sintonias múltiplas
estar com a mandíbula doendo (e o canal do ouvido por consequência)
e leio num livro de capa negra (repentinamente espalharam-se livros de capas negras pela casa)
que a mandíbula determinou o tamanho da caixa craniana
em todos os vertebrados (nos quais eu me incluo)
a estrutura da coluna é mais violenta do que se pensava
e mais delicada também.
ando só ossos
os descobrindo e reagrupando e desconfio profundamente
(superfície com destaque) que meu cérebro esteja sendo reprogramado
como uma esponja cósmica
outros poetas já disseram
que o poeta é a antena da raça
se isso for verdade
eu sou a esponja cósmica
e no fundo (e também no princípio)
há uma baba de resto de sabão
água acumulada e detritos
que passar por debaixo da água liberta
como quem desmaia o mal
a água é mesmo o maior veículo
por isso vou voar
para não tocar no que é grande.
estou fadada às enormidades
alguns se assemelham
ao minúsculo, ao particular
eu coloco a força toda nos músculos
depois é domingo e eu acordo com a mandíbula doendo
e passo minutos vendo crânios de animais que não existem mais
(embora ele me interrompa para falar da segunda grande guerra e da influência disso na ucrânia hoje)
embora suas mandíbulas com dentes distintos entre si permaneçam
nos cães. que correm e saltam e comem e mordem
a minha mandíbula.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
cantar e cantar
amanhã temos entrevista com o serviço de estrangeiros e fronteiras português
sexta temos entrevista com o consulado brasileiro
sábado quando tudo isso ultrapassado já estiver
vou me sentir como quem desmoronou todas as paredes que encontrou - desviou digo, deeeeeesviou -
como quem não fez um parafuso a cada diálogo
& sobreviveu ao ranho dos colega na fila
com os nossos livros de ler na fila
"a história do anarquismo" & "o guardador de rebanhos"
fones de ouvido & vez em quando pensando
em botar fogo em tudo, inclusive
nos passaportes só pra deixar
a luz brilhar e ser muito tranquilo
antes que me obriguem a vir para a rua gritar.
em resumo, torçam pela delicadeza,
sábado ressuscitamos da longa noite
que é a papelada, a burocracia a lei do estado
(diz ele q no tempo dos romanos era pior
perante a) nação
testemunho, lavro e boto fé.
sexta temos entrevista com o consulado brasileiro
sábado quando tudo isso ultrapassado já estiver
vou me sentir como quem desmoronou todas as paredes que encontrou - desviou digo, deeeeeesviou -
como quem não fez um parafuso a cada diálogo
& sobreviveu ao ranho dos colega na fila
com os nossos livros de ler na fila
"a história do anarquismo" & "o guardador de rebanhos"
fones de ouvido & vez em quando pensando
em botar fogo em tudo, inclusive
nos passaportes só pra deixar
a luz brilhar e ser muito tranquilo
antes que me obriguem a vir para a rua gritar.
em resumo, torçam pela delicadeza,
sábado ressuscitamos da longa noite
que é a papelada, a burocracia a lei do estado
(diz ele q no tempo dos romanos era pior
perante a) nação
testemunho, lavro e boto fé.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
desinvestimento
como um relógio cuco quando apita a hora - hora e meia, não sei?
a língua - que é todo um investimento - está capitalizada em um lugar nenhum.
dinheiro? que me dêem mais do que é preciso & que assim eu fique bem.
é o credo dos tempos, não disse?, e haja quem puder abnegar o deus
dizer três vezes que não necessita, ou viver entre os pauszinhos
de uma cabana ou amassar o próprio pão - respeito-os todos.
a roda dentada não para de morder entretanto não tenho paraíso
fiscal para fugir. é toda vez isso: a conta no negativo,
e mais e mais e mais. em retribuição escarro em mim
a dívida do mérito, vácuo que rege a fé em todos os supermercados,
estacionamentos, eleições de municípios, e se camufla
em latifúndios de uma gente sem esperança, só com resultados
mortes de índios, helicópteros empilhados num hangar,
vez ou outra é só uma imensidão de queda
vez ou outra é só um hemisfério inteiro
que padece de fome, de frio, e morre.
a língua - que é todo um investimento - está capitalizada em um lugar nenhum.
dinheiro? que me dêem mais do que é preciso & que assim eu fique bem.
é o credo dos tempos, não disse?, e haja quem puder abnegar o deus
dizer três vezes que não necessita, ou viver entre os pauszinhos
de uma cabana ou amassar o próprio pão - respeito-os todos.
a roda dentada não para de morder entretanto não tenho paraíso
fiscal para fugir. é toda vez isso: a conta no negativo,
e mais e mais e mais. em retribuição escarro em mim
a dívida do mérito, vácuo que rege a fé em todos os supermercados,
estacionamentos, eleições de municípios, e se camufla
em latifúndios de uma gente sem esperança, só com resultados
mortes de índios, helicópteros empilhados num hangar,
vez ou outra é só uma imensidão de queda
vez ou outra é só um hemisfério inteiro
que padece de fome, de frio, e morre.
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a casa dos nietzscheanos
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
e o que eu não sei mais
quando foi que fiz essa colagem? a foto é de 2004, devem ter sido os últimos meses em que vivi nesse quarto. os cartões vinham de fontes diversas, misturas de postais, cortes de revistas, postais que vinham de viagens minhas com meus pais, e lembro que eu via toda oferta das lojas de museu e demorei a entender que aquelas coisas tinha funções, que elas não estavam ali só expostas como as do resto daquele edifício, que não era só a mesma coisa, só que em algumas salas o que se devia fazer era olhar e não tocar, e nos outros tipos de sala era preciso desejar, pegar, ter até o fim de comprar. certas coisas triviais não são evidentes, ainda mais se você cresce e vive meio alheia, o que é um profundo modo de estar presente. não sei se profundo, ou se aquático. enfins, os postais.
os beatles ali em cima, o adesivo da campanha do lula, a billie holiday, o lacan, o wilde, o che, o james dean, oxum, o bandido da luz vermelha, a marylin do cartão que minha irmã me deu junto com o primeiro sutiã que ganhei, a cruz vermelha ao canto era uma propaganda da igreja universal que eu ganhei na consolação e morri de rir, alguma iconoclastia também em maria dando palmadas no menino jesus, um pássaro sozinho voando, lirismo, umas palavras, entre elas: poemas.
vi outras fotos desse quarto e me lembrei que eu tentava estudar latim. e eu não tinha um quarto de alguém que fosse conseguir.
depois comecei a pasta seguinte de fotos e vi que foram as últimas fotos que tirei nesse quarto, provavelmente porque já o estava deixando pra trás. e confiei em poder confiar em alguém que dez anos atrás tomava esse cuidado já, de fotografar também os lugares para lembrar.
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agora que sou sincera
terça-feira, 26 de novembro de 2013
de mal bem dizer
5.
Saberem-se errados, turvos, iludidos, desmascarados
não faz de vocês pessoas melhores ou mais reais.
A infelicidade, a tormenta, o vício, as fezes
não fazem de vocês pessoas melhores ou mais reais.
As desculpas, as explicações, quaisquer intenções
não fazem de vocês pessoas. Fazem de vocês, vocês
estarem errados, turvos, iludidos, desmascarados
infelizes, atormentados, viciados, cagões,
desculpados, explicados, intencionais,
vivos. E não sozinhos.
Mas quem não sabe de nada disso
Mas quem sabendo de tudo isso
confunde-se ao ponto de se achar
achado, melhor e vivo
está sozinho. E, bem,
nem os mortos
estão sozinhos.
Saberem-se errados, turvos, iludidos, desmascarados
não faz de vocês pessoas melhores ou mais reais.
A infelicidade, a tormenta, o vício, as fezes
não fazem de vocês pessoas melhores ou mais reais.
As desculpas, as explicações, quaisquer intenções
não fazem de vocês pessoas. Fazem de vocês, vocês
estarem errados, turvos, iludidos, desmascarados
infelizes, atormentados, viciados, cagões,
desculpados, explicados, intencionais,
vivos. E não sozinhos.
Mas quem não sabe de nada disso
Mas quem sabendo de tudo isso
confunde-se ao ponto de se achar
achado, melhor e vivo
está sozinho. E, bem,
nem os mortos
estão sozinhos.
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sexta-feira, 22 de novembro de 2013
segunda dentição
hoje eu estava carregando um livro de 700 páginas na chuva
eu vinha abraçada no livro que eu ganhei
com um guarda chuva aberto
uns dois quilometros
eu abraçada no livro ainda embalado
meu pulso controlando a cãibra
por conta do chapéu de chuva
daí meio quarteirão de casa
eu enfiei o pé direito num laço de um resto
de um resto de laço de fechar caixa
e aquilo deu um bambolê num pé
noutro pé aquela circularidade
presa. caí
me es pa ti fei
a perna esquerda atrevessou uns metros de água
e o livro andou uns poucos centímetros
de tão grande que ele é
depois pensei que eu podia ter quebrado um pulso
eu podia ter quebrado um poste
mas não quebrei não.
vai ser numa cárie não na bacia
quebrada que a maturidade
vai cair em mim
dessa vez.
eu vinha abraçada no livro que eu ganhei
com um guarda chuva aberto
uns dois quilometros
eu abraçada no livro ainda embalado
meu pulso controlando a cãibra
por conta do chapéu de chuva
daí meio quarteirão de casa
eu enfiei o pé direito num laço de um resto
de um resto de laço de fechar caixa
e aquilo deu um bambolê num pé
noutro pé aquela circularidade
presa. caí
me es pa ti fei
a perna esquerda atrevessou uns metros de água
e o livro andou uns poucos centímetros
de tão grande que ele é
depois pensei que eu podia ter quebrado um pulso
eu podia ter quebrado um poste
mas não quebrei não.
vai ser numa cárie não na bacia
quebrada que a maturidade
vai cair em mim
dessa vez.
patrícia me deu
CONTROLO PARENTAL
Não leias horácios, meu filho, lê horários:
são mais exactos. Abre as cartas marinhas
antes que seja tarde demais. Alerta, e não cantes.
Virá o dia em que eles pregarão listas
na porta outra vez e marcarão com sinais no peito
todos os que dizem não. Aprende a passar despercebido,
aprende mais do que eu aprendi: a mudar
de residência, de passaporte, de cara. Torna-te
erudito nas pequenas traições e nas escapatórias
sujas do dia a dia. As encíclicas
são boas para atear o fogo,
manifestos: embrulhar a manteiga e o sal
para aqueles que não se podem defender a si mesmos. São
precisas raiva e paciência
para soprar nos pulmões do poder
a poeira letal
finalmente moída por aqueles que aprenderam muito
e são exactos, por ti.
- Hans Magnus Enzensberger
(tradução de Américo António Lindeza Diogo)
Não leias horácios, meu filho, lê horários:
são mais exactos. Abre as cartas marinhas
antes que seja tarde demais. Alerta, e não cantes.
Virá o dia em que eles pregarão listas
na porta outra vez e marcarão com sinais no peito
todos os que dizem não. Aprende a passar despercebido,
aprende mais do que eu aprendi: a mudar
de residência, de passaporte, de cara. Torna-te
erudito nas pequenas traições e nas escapatórias
sujas do dia a dia. As encíclicas
são boas para atear o fogo,
manifestos: embrulhar a manteiga e o sal
para aqueles que não se podem defender a si mesmos. São
precisas raiva e paciência
para soprar nos pulmões do poder
a poeira letal
finalmente moída por aqueles que aprenderam muito
e são exactos, por ti.
- Hans Magnus Enzensberger
(tradução de Américo António Lindeza Diogo)
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amigos amigos negócios reparte
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
o que o flexível ensina para o que não se dobra
havia, no canto da sala, um sujeito que era a própria violência, barulhento e desperdiçado nos seus gestos. na sala pairava um clima que desejava que o violento se calasse, que parasse, que respeitasse, que se tocasse, e demorou demorou. então um homem se levantou e foi até ele. e enquanto os outros esperavam que chegasse a polícia, a escola, a mãe, o pai, que viesse o não, o homem chamou o violento pelo seu nome três vezes, até que ele respondeu, e o homem então lhe disse: "você deve descansar". só então eu percebi que desejava que a violência acabasse com violência. e não. o um homem sabe como são as coisas. presto minhas homenagens.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
tempo
fui procurar um poema sobre são paulo que escrevi em 1999 e é dos primeiros que tenho memória de ter escrito e ainda lembrar dele; afinal encontrei um arquivo com 25 páginas de poemas escritos antes de 2001. impressionante já me ver lá naquela voz, ler que é a mesma voz, mas eu queria o quê? que a voz fosse outra? é que a vida muda tanto, tanto. e eu me exercitava mais nas ideias dentro dos poemas do que hoje, por exemplo escrevendo poemas de estrutura formal similar, em que um defendia num o frio, no outro o calor. ou em um a noite, no outro o dia.
mas era ainda uma ligação moral entre essas coisas. carol falou que o fellini falou que associar de imediato mal e escuro, bem e luz é uma moral. carol é um gênio, federico de capricórnio, daí já viu: grudou-lembrei.
hoje fui procurar o esboço de um poema sobre são paulo, que escrevi dois meses atrás no meu diário, mas quem disse que eu encontrei o diário? deixa que eu te diga, tive que abrir os mais ou menos 20 cadernos dos últimos 4 anos, e de todos perceber que não eram o que eu procurava. repentinamente, agora penso que será a contribuição pra gratuita número 2, a minha. e que como tudo, terá de ser construído gradualmente, assim portanto não o encontrei. mas achei o começo do poema que eu tinha escrito ontem, só que num caderno de 2 anos atrás. pra além de ter um novo poema reitegrando partes de uma mesma sensação sobre a NOITE, encontrei no começo de um caderno de 2011 essa pérola:
"vocês não acham que sorte haverá? o meu avô foi o primeiro a abrir os matos? ele conhecia as ervas da floresta, da selva, as ervas do mato mesmo.
(Portugal está me levando aos meus avós?)
deixa a mandíbula solta que chega até o vovô num espeto. agora que notei que vou fazer um caderno editado dos meus diários"
::
só no meio de 2013 é que comecei o arquivo "a história do meu avô".
::
saturno é tão literal: estrutura & nem pense em atravancar os meus ossos, que eles estão a se deslocar de lugar. preciso voltar e ver não aqueles dois quartos vazios, mas aqueles quartos cheios não de ossos. cheios de ternuras, entendimentos. a ternura que é o entendimento.
saturno é tão literal: estrutura & nem pense em atravancar os meus ossos, que eles estão a se deslocar de lugar. preciso voltar e ver não aqueles dois quartos vazios, mas aqueles quartos cheios não de ossos. cheios de ternuras, entendimentos. a ternura que é o entendimento.
o nome do arquivo da minha adolescência, do livro que eu pensava reunir na altura é "tentativas em um acaso", destilei do acaso para o destino e me vi mais fidedigna, por enquanto, no agora.
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agora que sou sincera
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
sábado, 9 de novembro de 2013
a casa dos nietzscheanos
Voltar a estudar, não sei
mais compor meus poemas.
Que alegria! Como quem viaja
pela estrada começar a fumar
seu próprio dom e ritmo.
Não havia superfície que não fosse
estilhaçada no caleidoscópio
e o olho da imagem continua
sendo o que se pode ver:
ramagens, dicionários, rachaduras
no concreto existindo deus!
a imaginação! Como gostaria
de poder ver o poder ver.
mais compor meus poemas.
Que alegria! Como quem viaja
pela estrada começar a fumar
seu próprio dom e ritmo.
Não havia superfície que não fosse
estilhaçada no caleidoscópio
e o olho da imagem continua
sendo o que se pode ver:
ramagens, dicionários, rachaduras
no concreto existindo deus!
a imaginação! Como gostaria
de poder ver o poder ver.
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sexta-feira, 8 de novembro de 2013
só serve pra o que eu quiser
embora hoje de manhã
eu não tenha ideia
tudo certo como dois
em uníssono vibram
o afeto são duas gotas pingando
num balde velho e aquele som
que calmaria é dormir
numa carne
toda vermelha
a pedra que ontem ganhei
hoje já perdi
daqui pra frente vou tratar assim
o que me acontece, de repente
os bolsos se esvaziam
a gente está livre mesmo
cheios de malas por carregar
cheios de malas por carregar
feito aquele poema mais longo
do qual gosto tanto
que nunca pude acabar
balela. balela que esse poema não existe.
é o eco entre dois vales
o que existe e a gente pode pensar em.
eu não tenha ideia
tudo certo como dois
em uníssono vibram
o afeto são duas gotas pingando
num balde velho e aquele som
que calmaria é dormir
numa carne
toda vermelha
a pedra que ontem ganhei
hoje já perdi
daqui pra frente vou tratar assim
o que me acontece, de repente
os bolsos se esvaziam
a gente está livre mesmo
cheios de malas por carregar
cheios de malas por carregar
feito aquele poema mais longo
do qual gosto tanto
que nunca pude acabar
balela. balela que esse poema não existe.
é o eco entre dois vales
o que existe e a gente pode pensar em.
sábado, 2 de novembro de 2013
um blues furioso, uma flor
É ter a mais pura razão o sentimento que alucina. Estar soldado em si mesmo. Houve uma vez que uma tia avó minha estava para falecer. Fui visitá-la na véspera da morte no hospital Albert Einstein. Ela estava absolutamente lá do outro lado, já. Toda entubada e roxa, a boca enormemente aberta, era só aparelhos que do lado piscavam. Quis vê-la não porque algum sentimento especial me ligasse a ela (embora gostasse dela, não era um elo vital ao ponto de querer estar ao seu lado na hora em que o vital morresse para continuar vivo em mim. E continuou) mas porque estava numa dessas ondas de “sou escritora”, “a morte nos é vedada”, “nunca vi ninguém morrer”. Jovem, tinha me aparecido um sonho de identificação profissional. É claro que quando entrei na sala da UTI senti uma esmagada. Ingenuidade foi pouco, talvez puerilidade ou falta de senso da experiência, dos ecos dela em nós. Encontrei: o céu da boca com um tubo enfiado por dentro e já roxo, o céu. De dentro vinha um ronco, era o próprio corredor do Hades que urgia. Deve ter sido terça-feira. Quarta-feira velório. Quinta feira enterro. Isto no começo de 2008.
Eu havia visto ou ouvido a morte, sei não sei, escancarada na boca da minha tia avó, o rugido do chamado. Deve ser o som da galáxia quando faz. Foi um tapa na orelha da menina que queria ver de perto a ausência, a que nos é vedada. Mas quando fui no sábado ao sítio não me sentia triste. Lembro-me que sentei nas escadinhas de cimento de fora, que dão pra mata. Mas não importa. Porque de olhos fechados sou tubo, eu virei um rio. Pensava na altura “estou sempre no fundo de mim mesma”, ou como diz Ana Cristina César “estou muito compenetrada no meu pânico/ cá de dentro/ tomando medidas preventivas”. Eu estava no subterrâneo de mim mesma, porque não me ensinaram a me revoltar. Isto é coisa que temos que aprender sozinhas, Ana. E para fora. Mas o subterrâneo era noite, brotava. Eu estava na corredeira do subterrâneo e quando abria os olhos a areia do chão estava desenhada em padrões astecas, ou maias. Regulares, retangulares, labirintos, círculos. De olhos fechados era tudo dourado. Eu chorava. E chorava. Enquanto do meu corpo subiam capins, agitados nos cílios. Meu ventre fertile: o choro é o que devolve à terra o sal da terra, o chão. E nos leva onde não podemos com palavra, gesto intencional ou saída, chegar. Comecei a cantar um poema, verso a verso, onde cada palavra chegava já na última. Mas sabia que não poderia me levantar pra escrever. Era preciso lembrar dele. Memória sempre me sobrou. Eu era um rio, e os rios só se levantam para se ausentarem em nuvens. O verso final foi retirado em todas as publicações e era “E o caminho é dourado”. Retirado por sugestão de um professor que também me deu a dica de desistir dos romances. Verso escrito porque no fim de tudo chegou Osíris, ou alguma divindade muito clara e com dois tubos no lugar de cornos na testa, um capricórnio ceifador do trigo, todo dourado, pranteou feito lançasse com a mão fechada que se abre, purpurina que se jogasse, em tudo o que eu tinha passado — sementes de dourado. Antes de tudo, foi isto:
Eu sou o rio dos mortos
dos meus parentes mortos
e os meus mortos são o mundo inteiro
eu sou o rio dos mortos
nasci da sede pelo dó das lágrimas
quando mortos todos os pensamentos
eu sou o rio dos mortos
me criei no pântano das palavras
dos restos tudo trago
eu sou o rio dos mortos
minha carne é das nuvens
se fujo só dou em mim
eu sou o rio dos mortos
e o meu choro o que devolve à terra
o chão do sal da terra o chão
eu sou o rio dos mortos
minha margem de árvores
dos astecas que me sangraram
eu sou o rio dos mortos
da terra não passo
e ninguém me ultrapassa sem desvão.
No dia seguinte resgatei o poema do meu esquecimento. Entorpecida, eu e minha máquina de escrever. Estava sobre a mesa um vaso com belas flores e elas alimentavam minha vontade de ter o poema fora do que eu tinha visto e só a dificuldade do ritmo da valentine poderia decalcar. Foi o segundo poema do "cantos de estima" que escrevi.
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chá
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
o bom samba
Intercedei por mim, bosques da velha terra. Teus homens, alguns entre meus antepassados, mataram seus ursos e lobos, curtiram suas peles para cobrirem os corpos, até confundirem os próprios ossos com os da violência de um animal e assim nasceu a civilização. Não os culpo, provavelmente com frio, provavelmente com fome, provavelmente pela vida eu faria até pior. Nada interessa como a vida interessa. E, portanto, tuas vidas não se extinguiram, bosques. É por isso, que para tudo que vou contar preciso da sua persistência. Intercedei por mim, árvores e pântanos, umidade que me cansa, silenciosa mata de poucos insetos, gravetos que estalam, ajudem-me a perceber a ligação entre as coisas. Humildemente vos peço que intercedei. Ensinem-me também a doçura do que só está. E oxalá com a vossa presença poderei entrar na história que quero contar.
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
tupã
que a névoa nutre lua já se sabia e há quem saiba que a arte de perceber anda, se não em desuso, perdida pelas calles del ayer. há também quem confunda lucidez com descrédito em algo, em tudo, num símbolo. descrédito em si.
meus amigos não. meus amigos sabem ler sinais.
meus amigos estão bêbados de tanto interpretar.
alguns se perdem, outros saúdam.
que os encantos e os órgãos do que vive os ajudem.
de manhã uma pura espécie de profissionais, os arqueólogos que são biólogos e pescadores que devolvem peixes ao mar, estavam desmontando o aqueduto sobre o nosso chão, e mostravam as tubulações pra quem quisesse ver. avisaram que o trígono das raízes e das algas, quero dizer, os profissionais mostravam o lodo entranhado numas raízes do pântano, e aquilo borbulhava; e na borbulhação ficou clara a emissão: era para as algas esponjosas que vivem do sal da beira do mar. o que se dizia? não era bem um dizer, era como se não houvesse dúvida, elas respondiam. e assim se agitavam as raízes e as algas, úmidas como a nossa carne, quem olhasse percebia a comunicação em festejo, já que esse diálogo, que na verdade era muitos, esses diálogos formavam um triângulo onde no centro que não havia; onde no centro que não há estava você, e estava eu.
a água era verdade.
e eu que de manhã tentei pensar a respeito
vivi só de que é mais simples:
beber, banhar. aquecer, arrefecer. amolecer, formar
a forma do ser que envolve é
o que é.
evoé, saturno.
a benção, sol.
meus amigos não. meus amigos sabem ler sinais.
meus amigos estão bêbados de tanto interpretar.
alguns se perdem, outros saúdam.
que os encantos e os órgãos do que vive os ajudem.
de manhã uma pura espécie de profissionais, os arqueólogos que são biólogos e pescadores que devolvem peixes ao mar, estavam desmontando o aqueduto sobre o nosso chão, e mostravam as tubulações pra quem quisesse ver. avisaram que o trígono das raízes e das algas, quero dizer, os profissionais mostravam o lodo entranhado numas raízes do pântano, e aquilo borbulhava; e na borbulhação ficou clara a emissão: era para as algas esponjosas que vivem do sal da beira do mar. o que se dizia? não era bem um dizer, era como se não houvesse dúvida, elas respondiam. e assim se agitavam as raízes e as algas, úmidas como a nossa carne, quem olhasse percebia a comunicação em festejo, já que esse diálogo, que na verdade era muitos, esses diálogos formavam um triângulo onde no centro que não havia; onde no centro que não há estava você, e estava eu.
a água era verdade.
e eu que de manhã tentei pensar a respeito
vivi só de que é mais simples:
beber, banhar. aquecer, arrefecer. amolecer, formar
a forma do ser que envolve é
o que é.
evoé, saturno.
a benção, sol.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
fronteira
sonhei e me lembrei! há quanto tempo. estava num aeroporto e meu visto estava vencido, mas eu chegava no meu próprio país e o visto estava vencido pra entrar no meu próprio país. a entrada do brasil era uma catraca, tinham catracas pra atravessar, e me pediam documentos que eu não encontrava, acabava encontrando, estava tudo vencido, mas dava tudo certo e me deixavam entrar, então eu via pelos vidros do aeroporto que estava uma grande tempestade (que eu não temia). já na rua encontava a maria, que tinha um lugar para nos hospedar. ela estava acompanhada, mas estava sozinha. andávamos por viadutos e estava na capital do meu país e pensava "no chão da capital do meu país" e me deu uma emoção, uma vontade de chorar, e então a gente andava mais e aquelas ruas todas de prédios novos não me pareciam com brasília e eu ficava em dúvida se não estava, sei lá, em araraquara, ou qualquer outra coisa assim. pensava "isto aqui não é brasília... ainda bem?".
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caderno público de sonhos
domingo, 6 de outubro de 2013
La sombra de una flor movida por el viento:
eso eres tú, cuando el sol resplandece.
La sombra de una flor movida por el viento:
eso soy yo, cuando las nubes pasan.
Chantal Maillard, de Hainuwele.
eso eres tú, cuando el sol resplandece.
La sombra de una flor movida por el viento:
eso soy yo, cuando las nubes pasan.
Chantal Maillard, de Hainuwele.
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amigos amigos negócios reparte
oração noturna
Perdi a cruz e o cavalo que me atrelavam o pescoço
havia os guardado no bolso
mas, de caminho próprio
como tudo o que existe,
meus protetores prateados desapareceram
para ir viver, eu sei, numa outra espécie
de lodo, rascunho, ou pé de armário
cheios de pó, tragados sejam
pela escuridão.
havia os guardado no bolso
mas, de caminho próprio
como tudo o que existe,
meus protetores prateados desapareceram
para ir viver, eu sei, numa outra espécie
de lodo, rascunho, ou pé de armário
cheios de pó, tragados sejam
pela escuridão.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
abetos
para quem canta velhas canções em guarani, eu escrevo este gesto no ar, e ele se expande até integrar uma roda de gente a girar, de mão dadas, não nos afastemos muito. depois disso eu vou comer umas bananas, não num dia tão úmido como hoje, que elas me colocariam a espirrar. no meu primeiro livro escrevi que achava que não se devia tomar banho em dias de chuva, isso quando eu era criança. atualmente tenho mais preguiça de escrever do que de tomar banho. e a necessidade das duas coisas. organizei um pouco a correspondência do futuro. foi o que consegui fazer logo de manhã, e de repente eram quatro horas da tarde e eu já havia temperado o frango. espero que não chova no dia do nosso casamento, não é possível que outubro seja essa nuvem cinza que só se atravessa ao chegar do outro lado. do atlântico. não sei como você acompanhou isso até aqui, se fosse eu lendo já tinha achado uma egotrip sem tamanho, estaria fazendo outra coisa. é que eu posso pouco com a porosidade. tenho órgãos demais, talvez. ontem eu sentia meu fígado saltando, por exemplo. isso depois de comer muito sal porque ele tirou mal a água do bacalhau. os detalhes do matrimônio. os ritmos dos fluxos. que vontade de comer mais. que vontade de nunca mais parar de comer. e o sal lá, o sal tinindo meus impulsos, e todas as outras coisas que os humanos inventam consumir para sentir menos, ou para morrer mais rápido, não sei bem. aliás, se tem uma coisa que eu não entendo é impressora. ando assim, num nível mais básico do que o básico. não quero mais que escrever durante uma tarde toda algo com nexo e foco, mas por enquanto melhor seria vestir um fato de foca, e sair por aí.
alguém me traga o traje de foca, que aí sim, eu bato palmas.
tô difícil, não nego.
para escrever é que estou me esperando no futuro
de abraços e abertos.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
exato
justo agora, atualmente, que a situação política está inflamadíssima (há dias que meus úteros também), hoje conversei com uma senhora que tinha um crachá com o seu nome escrito e embaixo a sua profissão. é ela quem vai me casar, mas percebi que já não se assinam papéis. como será ainda não sei. ela disse que se quisermos ter uma cerimônia (será que se chama cerimônia?) de casamento com rituais nossos podemos, desde que eles sejam "normais", e a turma toda do Variações bateu palmas para as plumas de pavão que, sim, vivem em mim. eu pensando essas coisas e segurando meu passaporte. que não é suficiente. o sistema burocrático brasileiro não vai pendurando suas fichas de cidadão como despojos de inimigos mortos pendurados nas casacas de dentro da pele de alguém. vê bem, eu pensando essas coisas, vê bem, parecia que era de manhã mas já era mais de meio-dia, nós em Almada no primeiro dia de chuva, o outono também pode entrar, o que consegui perceber foi ler, abaixo do seu nome, sua função social "conservadora". já não dei risada. já não rio mais com essa língua, ela já é a minha língua? não. só fui parar noutro lugar. em que rir não é demais, é tanto, rir é um soluço, ah rir é tão raro. mas não estou triste. nunca estive tão pouco triste. sou um âmbar, sou uma águia, e ah!, vi a virgem maria.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
sobe do chão
Foi-se o tempo em que confundi ação
com a fúria do movimento
arrancava lascas dos pratos
quando os punha a secar sem jeito
com o que é celestial
a calma
ou o agora que tudo concede
lento, tão lento
tudo cresce e permite
sentir a espessura da língua
como pedras de sal entre os dentes.
Visitei o encontro entre dois oceanosmuito fundo vi o azul
que o sal respingou nos meus ossos
me marcando feito gado.
Uma besta intentou fugir, mas senti
os braços como galhos
de um velho carvalho
enraízado e que não considera
mudar de rumo.
Cativa, tua árvore dá madeira
para a minha vela ao vento.
Onde que te encontro?
Se chacoalho dentro
dos meus frutos.
com a fúria do movimento
arrancava lascas dos pratos
quando os punha a secar sem jeito
com o que é celestial
a calma
ou o agora que tudo concede
lento, tão lento
tudo cresce e permite
sentir a espessura da língua
como pedras de sal entre os dentes.
Visitei o encontro entre dois oceanosmuito fundo vi o azul
que o sal respingou nos meus ossos
me marcando feito gado.
Uma besta intentou fugir, mas senti
os braços como galhos
de um velho carvalho
enraízado e que não considera
mudar de rumo.
Cativa, tua árvore dá madeira
para a minha vela ao vento.
Onde que te encontro?
Se chacoalho dentro
dos meus frutos.
domingo, 15 de setembro de 2013
oficioso, em três vias
perguntaram-me ontem qual é a minha profissão. considerando que, num mundo como o nosso, tal questionamento é, no mínimo, acintoso, e o único ofício que me interessa é a honestidade; respondi: "atualmente trabalho para que a tristeza não vença". o questionador, sentindo-se dúbio, desapareceu.
eu permaneci com amor nos olhos.
não foram as tesouras que me cegaram.
qualquer um que se sinta a maior parte do tempo desempenhando um papel não é meu amigo.
era domingo, mas nem os itálicos descansavam.
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