quarta-feira, 30 de julho de 2014

presença



o Flávio Rodrigo Penteado me entrevistou pra estréia da sua coluna Presença, na Revista Pessoa. as perguntas dele foram muito generosas e com isso pude pensar e uma série de coisas que me interessam: e dizer. entre outras coisas, falo deste blogue tão querido. é de se ler aqui.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

viva canetti

meu grande amigo daniel tinha me avisado que havia certo risco em terminar o mestrado; que era o problema de depois de ter tantos lidos atravessado não conseguir, não querer, não ter vontade de ler nenhum autor, passar léguas nadando no vazio do não-escrito. foi o que me aconteceu durante coisa de um ano e meio.

somado a isso, como estudei poetas e ensaios na minha dissertação, devia fazer uns anos que eu não lia assim (com a dedicação do pleno absoluto mais que inteiro e vigoroso amor) nenhum prosador, romancista, nenhum desses grandes álibis do gozo para o tempo que passa pensante.

então esse ano fui ler o elias canetti, já que tanto carolina como cícero haviam me falado dele.

acho que é no segundo volume da sua biografia que o canetti fala da importância dos autores que nos aparecem quando nós consideramos que tudo está esgotado, de como há regeneração em tudo que está ao nosso redor quando descobrimos que determinado escritor nos será pra sempre um determinante.

não preciso nem dizer que o meu fogo, o princípio retornante do meu caminho, e que fica, foi e é o elias canetti.

hoje ele faria 109 anos.
e vai continuar fazendo.
 
 

quarta-feira, 23 de julho de 2014


6

Juventude, como eras outrora diferente! Não haverá súplicas
Que te façam jamais voltar? Existirá algum caminho de regresso?
Acontecer-me-á o mesmo que aos descrentes que no passado
Mesmo assim se sentaram no banquete divino com brilho no olhar,
Mas, em breve saciados, esses convidados em delírio,
Emudeceram então e agora, sob o canto das brisas,
Adormeceram sob a terra em flor, até que alguma vez
O poder de um milagre, aos que pereceram, faça
Regressar e de novo mover-se sobre o solo verdejante.
Um sopro sagrado percorre divinamente a figura de luz,
Quando a festa se anima e se agitam vagas de amor,
E na embriaguez celeste a torrente viva rumoreja,
Quando soa no subsolo, e a noite oferece os seus tesouros,
E, subindo à tona de ribeiros, o ouro enterrado cintila.







- - -
Hölderlin
Pranto de Ménon por Diotima — Elegias
Tradução de Maria Teresa Dias Furtado

sábado, 19 de julho de 2014

e cantar, e cantar, e cantar

para Maria Archer

Nós somos o fogo
somos também o telhado
em tantos jaguares
aves, confins já fui
transformada. E tive rumo.
Hoje não estou transtornada.
Nem tenho que quebrar
linhas pois sou aquele
que não cessa: o selvagem.
Ó selvagem comedor de linhas!
Que a nossa canção se faça
suficiente: manta de lã luminosa
E sem porquê utilizada. Amada!
Amam-se as peças & os ancestrais
se gastam. E se gestam.
Onde deus fez a morada. 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

desde que cheguei nesta ilha
aprendi muitas coisas práticas.
a descascar mandioca
a limpar peixe
a cozinhar quiabo
a mastigar só do lado direito
a nunca andar sem lanterna no mato.
mas ainda não entendi
a vida sem lógica sentimental dos peixes

uns dias atrás concluí

que as saudades que eu sinto de Lisboa às vezes são tão grandes que mofa nelas.

domingo, 13 de julho de 2014

the soil, the soul,

Tenho sido entregue
às mais escuras
das noites mudas.
Que posso eu?
No entre desses espinhos?
Ando tão baixo
quanto as formigas
mas se arbusto não sou
por que tenho vivido
eu coberta de espinhos?
Da queda fez-se um ninho
maceradas folhas de sombra
abrigam o meu corpo.
É o esquecimento da terra.
Mas por que, por que
vesti-me de espinhos?
Se soy el temblor, o lugar
onde o trovão diz
EU é o meu peito
alargado.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Gleice

quem vê assim uma imagem do Gleice terá a impressão de que ele é um gato qualquer, certamente portador da distinção audaz que só um felino é capaz, mas um comum. e, sim, terá razão, afinal o Gleice é só mais um vira-lata muito misturado de raízes peludas e famintas.

mas o Gleice é muito mais do que isto! embora eu não conheça muitas coisas, de gatos percebo imensas e juro que o Gleice é o gato mais legal que já conheci. é um gato completo, de desenho animado, digo que o contratem para ser quem ele é, que o sucesso será (pois já é) absoluto.

a saga que podemos contar do bichano começou com Gleice miando para a noite sem mãe da capital da Bahia, quando Wölf (um alemão aportado no Brasil pelo acaso de uma vela quebrada no veleiro em que ia desde Gibraltar para o Chile) ouviu o pequeno de poucas semanas ávido por comida, desesperado de órfão. Wölf, que nunca tinha tido nenhum animal na vida, e que não tinha muitos lugares além de estar naufrago e não tardar em ir de carona até a Bolívia, resolveu que salvaria o pequeno.

se escondem nos miúdos felinos mil mistérios e como nunca tinha tido um gato, o alemão achou que nosso príncipe era uma princesa, e assim o chamou de Grace Kelly. Wölf alimentou Grace em conta-gotas, e levou-a para todos os lugares pelos quais viajou. primeiro foi trabalhar em Arembepe, lá se apaixonou e lá salvou Grace de uma matilha de 16 cachorros. vieram os apaixonados com Grace para esta ilha, e foi assim que nós nos conhecemos.

em março comíamos um bolinho de aipim num bar na praia quando um gatinho filhote veio na nossa direção, subiu no meu colo, roubou a minha comida e brigou com a minha mão até o fim dos dias. era a Grace. logo o filhote voltou para o colo do seu dono, quer dizer, para o dentro da camiseta do Wölf, que era sua casinha de transporte já fazia dois meses. percebendo que nós tínhamos ficado amigos, a namorada de Wölf veio nos perguntar se sabíamos de algum bom lugar em que o gato pudesse ficar, pois cada um seguiria o seu rumo e aqui nesta ilha não entram carros, o que eles consideraram como um bom lugar para um gato. acho que não notaram de imediato que a maior parte dos animais aqui passa fome, mas isso é outra novela.

no fim do dia Grace já tinha esta casa como sua, e também o meu veredicto de que os alemães estavam, nesse caso, enganados, e que a pequena era, na verdade, um pequeno. Grace em Gleice, assim é transformista. no dia-a-dia Gleice tem ganhado outros apelidos, sendo o meu preferido Glaisson Carlos, ou Gleice Jr.

o medo que todos tiveram era da convivência do filhote com os cachorros grandes, que aqui são muitos. mas hoje, passados alguns meses, o que acontece? Gleice atravessa colado no Fumaça e no Veneno, cães grandes, e dá patadas no focinho deles, como quem diz "se enxerga, seu canino". depois Gleice come da comida e da água deles, se lambe com sua superioridade.

raramente se vê em apuros, mas quando tem de correr pra cima de uma árvore, passando lá um tempão, miando, pedindo ajuda, com os dois agigantados rosnando embaixo. então Gleice tem de correr mais rápido que um disparo de pistola, e corre. às vezes cai num resto de água, e todo achincalhado continua se considerando o maior o melhor o mais feliz, e dá-lhe patadas no focinho dos cães.

com os cachorros, os filhotes, Gleice brinca como se fosse um deles, e não entende suas estratégias de mordidas, salta por cima em inesperados, e depois vai embora roubar comida dos hóspedes. sobe em cima de qualquer mesa pra comer qualquer coisa, de mamão à lagosta, dando a certeza de que sua fome é hereditária.

mata toda espécie de animal que se mexa, grilos, gafanhotos, lagartixas, ratos, besouros, desde que não sejam maiores do que ele. atualmente anda assassinando uma média de três ratos por semana. dia desses matou um ratinho muito filhote, e andava com ele ainda vivo na boca, o ratinho apitando a cada passo que Gleice dava, parecia uma piada, não fosse Gleice nesses momentos o mais sério dos felinos, já que com uma presa entre os dentes, Gleice rosna como um leão.

e grita! Gleice é desses gatos conversadores, que você fala com ele & ele responde. o mais engraçado é quando a gente vai na praia e ele, que foi nômade com o alemão, não está acostumado em não poder seguir onde quer que seja alguém, e fica furioso quando levamos um cachorro, e não ele, pra passear. grita, grita, grita, anda alguns metros e reclama. ataca siris, e mais ainda, ataca as ondas do mar quando elas lhe molham os pés. dá patadas no mar como se fossem um focinho de cão.

juro, juramos que duas vezes já o vimos entrando no mar pra acompanhar os nossos banhos. é certo que ele não entende direito o que é o acontecimento do mergulho, e que graça é que pode ter?, e meio enojadinho, com aquele comum enjôo dos gatos, agita a patinha num frisson-me-solta. mas, como a vontade de estar perto de Gleice é maior do que qualquer outra coisa, ele prefere ficar encharcado do que não se aproximar de nós.

que se diga isso quando ele está no nosso colo ou deitado na mesma cama. basta ter um tecido grosso, tipo uma manta ou uma rede, pra que Gleice mame como um bebê, fazendo de qualquer calor a mãe que ele perdeu e que encontra em toda parte. afinal, o que não falta pra esse gato é a mãe da Terra, a alegria, não tem tempo ruim, tudo é mesmo interessante,

as onças pensam só "bom-bom-bonito-bonito" já dizia João Guimarães Rosa, e Gleice estende tal certeza a todos os felinos.

sendo dos mais brincalhões, adora espertar a gente em sustos, se você estiver andando no meio da noite, no entre das pequenas trilhas e, de repente, um animal saltar em cima das suas canelas, pode ter certeza, é Gleice fazendo de ti aquilo que ele mais sabe: um inimigo-amigo, um feroz como ele, um vivíssimo.
 
 

sexta-feira, 4 de julho de 2014


sábado, 28 de junho de 2014

não tem fim

faz uns 6 anos que não vejo meu psicanalista.
esta noite sonhei com ele.
estávamos os dois num ônibus
daqueles bem lataria barulhenta
sentados lado a lado e olhando pela janela.
de repente perguntei, como quem nada
"ei! e aí?" e ele respondeu primeiro com um silêncio
sutil que foi formando um sorriso de canto de boca
olhou bem pra mim e disse, rindo,
"pois é, estamos vendo a vida passar".

quarta-feira, 25 de junho de 2014

e um cinto de cometas


Não foi a única vez que vi algo como o nazismo sob o efeito do chá. Houve uma vez ainda antes, que eu estava sozinha na parte de trás do salão, estava sentada muito perto da terra escura e se de olhos abertos eu via as plantas na minha frente, de olhos fechados eu via a guerra. Meu corpo estava muito inclinado para frente, pressionado, para não dizer destruído e incapaz de manter-se ereto no próprio eixo. Até que a guerra tomou conta de tudo, mesmo de olhos abertos eu via milhares de anos de guerras passando em segundos na minha frente. Homens se matando com lanças, mulheres sendo atiradas em fogueiras, pelotões de fuzilamento, corpos estirados em trincheiras, torturas, bombas. A destruição é indiscriminadamente ampla. Sem vitimas, sem heróis. Se olharmos a humanidade sobre um só ponto de vista, quem não veria a história da humanidade como a história da guerra? São complicadas as coisas que pensamos quando estamos muito próximos da destruição. A humanidade naquele momento era uma imensidão de cinzas. O solo da minha visão era cinzento e lodoso, como um charco que estivesse se tornando deserto e não havia preservação ou continuidade de vida. Restos de pessoas sendo arrastados por pessoas em restos. Fome dentro das carnes e troncos de árvores queimados. Havia chegado o dia de depois da guerra. De repente, vi a face do poeta, vi o rosto de Carlos Drummond de Andrade olhando aquilo tudo e pensei “ele, não eu, ele teve mãos para cantar isso”. E senti a dor que o poeta sentia, a dor que ele era capaz de sentir. E eu? “O poeta é isso”, pensei, “ele avisa as pessoas de que não é por aí, mas ninguém o ouve, e ele sabe que mesmo assim ele deve dizer”. Então pensei “deixa, Júlia, a humanidade correr na arena da história” e uma capa vermelha atravessou a minha visão, percebi a manada dos homens e mulheres através dos séculos, desembestada. E que segue. Não sou eu quem vai lhe dizer que fique. E se olhasse nos olhos de si mesma como quando olham os poetas, se veria mais animalesca do que qualquer animal. Livre de todo fardo de ter de avisar alguém resolvi caminhar. Tendo já caminhado um bocado, estando na frente de um barranco e atrás de mim uma luz de estrada, vi a minha sombra refletida na terra vermelha. Como eu tinha um cobertor nas costas, na sombra parecia a capa do pequeno príncipe. “Príncipe? Se sou um príncipe já sei quem sou! Só posso ser Hölderlin! Quando estiver na Europa novamente e falarem em Hölderlin? Hei de responder, Tá falando com ele.”. E fiquei rindo sendo Hölderlin com a minha capa vermelha, mas só na sombra do barranco. E na Europa, claro. 

o que interessa

quem só pode ver o cume, de tão grande que o todo é
quem entende que o canto pode levar a ver, o que é e o que não é
desses, eu sinto saudades.
o que o canto vê, o que o canto mostra, o que o canto transforma.

Veneno

fazendo a linha do livro dos animais desta ilha,

hoje vos quero apresentar o Veneno, cuja fama o precede, como o cão mais temido desta ilha, de pessoas mudarem de lado na praia ao vê-lo passar. porém não pode ouvir rojões de artifício explodindo nesses dias de Copa & São João, que Veneno entra embaixo da mesa, com as patas tremilicando, pede apoio enfiando as orelhas nas pernas mais próximas de quem encontrar.

quando chegamos por aqui eu também tinha medo dele, pelos rosnados profundos acompanhados de um fio de baba escorrendo da mandíbula, o olhar de cavalo insondável, desses que atravessa a galope a linha entre o vivo e o que não-é, apelidei-o nos meus segredos de Cérbero.

mas me avisaram: Veneno gosta de pessoas e se associa sobretudo as mulheres. o que pensei ser um exagero, mas em menos de dois dias estava confirmado: não há fidelidade maior do que a do olhar que ele carrega sobre mim. ele me seduz ao ponto de eu, se acreditasse nessas coisas, ter certeza de que fomos amantes em outras situações. se bem que se acreditasse mesmo, teria a certeza de que Veneno foi Don Juan, e o seria em todas as vidas.

atlético e potente, sempre cheirando bem, Veneno é também poderoso e capaz de se soltar em qualquer ocasião, mas somente com a intenção de ir atrás de nós. se estamos junto dele, ele nunca escapa. mas, na maior parte das vezes que passamos mais que poucas horas fora de casa, Veneno encontra um modo de nos encontrar onde estivermos.

no primeiro jogo do Brasil, por exemplo, estávamos voltando da vila, e apareceu o cão, feliz de nos encontrar, batendo o rabo de forma giratória. ou, ontem, há mais de 3 km de casa, meio dormindo tomávamos sol na praia, quando Veneno apareceu uivando para o mar. feliz de estar conosco entrou no mar, nadou, caçou os pássaros que caçam animais na orla, bebeu água dentro de um coco, voltou conosco, sem se meter com nenhum dos pequenos cães que queriam provocá-lo. e não há nada que Veneno sinta mais ciúme do que de cachorrinhos.

é chamar Veneno que Veneno atende.
é uma jóia do senso de comunidade (milenar) que une cães e gentes.
sim, ele está apaixonado & eu também.
 
 

terça-feira, 17 de junho de 2014

sobre (não) escrever

foi meu pai quem me ensinou a escrever. não que tenha sido ele a me alfabetizar e ,embora tenha tentado me contar todas as histórias do mundo pra que eu dormisse, nem que ele tivesse esgotado de tanta criação o mundo, nem assim ele teria me ensinado a escrever. uma vez, devia ter uns 9 anos e eu não queria fazer uma redação pra escola porque "não conseguia escrever", foi que meu pai disse: "escreva sobre não conseguir escrever". estava ensinada a escrita.
não sei porque esqueço disso tantas vezes e caio num movimento reflexivo tão agudo e ensimesmado que é um redemoinho de silêncio. quando retorno a escrita é como sinto esse movimento aqui: truncado, gago, minuciosamente equivocado. pouco treinado.
hoje, quando saímos da praia e entramos na trilha, no meio do caminho estavam esses cavalos. ao vê-los, imediatamente pensei sem receio nem culpa, dádiva ou reclusão: talvez eu tenha deixado de escrever pra sempre. então lembrei dos livros que já tenho publicados (não é grande coisa) e "que engraçado. se eu deixasse de escrever hoje e fizesse outra coisa completamente diferente como dirigir um navio, se eu me tornasse xamã, alguma coisa que me consumisse e a qual eu me entregasse tanto que se eu nunca mais tivesse de escrever qualquer coisa que não fossem apontamentos meus e unicamente meus... eu não sentiria angústia, nem liberdade. simplesmente os rumos teriam mudado tanto que eu acolheria os rumos como eles me acolhem: sendo." 
depois pensei no raduan nassar. meu analista dizia que achava que ele tinha parado de escrever pois sentia tanto ódio que o ódio o impossibilitava. e eu, se eu deixasse de escrever hoje, pelos grandes motivos da humanidade não seria, mas tão somente porque havia visto cavalos repentinos num caminho perto da praia, cavalos definitivos. 
& os cavalos soltos do mundo! sejam. repentinamente me deu vontade de escrever sobre não escrever. 
mas, pra pensar o que é não escrever, seria preciso entender o que é a escrita pra mim. pois eu ando por ali e escrevo uns emails onde podem nascer poemas, vou por lá e anoto uns posts no facebook, passo aqui nesse blogue menos do que me apraz, é verdade, verdade que aqui escrevo mais solto do que em qualquer outro lugar... mas, mesmo assim, não sinto que isto seja necessariamente "escrever" no que eu escrevo. são reflexos de segundo perto da formação de uma galáxia. então seria eu tão governada pelo mundo (capricorniano) do mérito, do esforço, que só me considero "escrevendo" quando estou num .doc Ou numa página de caderno que sei que vai virar um "livro", um "poema", um "ensaio"? certamente isso conta um pouco, mas em pequena parte só, pois não é só isso.
astronauta libertado cuja vida me ultrapassa em qualquer rota que eu faça / eu me sinto mesmo escrevendo quando estou escrevendo. falo tanto de cavalos, talvez, pois é o mesmo insondável que vejo nos cavalos e que não sei abarcar, o mesmo insondável que é matéria e órbita / da respiração, do futuro/ é certa atmosfera, certa atmosfera que combina prazer com controle, deslize com critério, ritmo com pensamento, que me faz "escreve"r. "escrever" seria, então, uma sensação?
cabe tanta coisa. 
não sou concreta / não sou exata. 
dito isso, "não escrever" é, por um lado, a falta de concentração em um trabalho que vai tomando forma de unidade acabada (poema, livro, etc) e, por outro, é a ausência de uma sensação atmosférica advinda do conjunto de Não Sei o Quê com impulsos mecânicos de digitação ou da textura da caneta sobre o papel.
e o que é que essa ausência causa tanto? 
repentinamente me deu sono, e este que seria o começo de um texto sobre "o que vivo ao não escrever", que "sensação que não escrever me coloca?", "etc", repentinamente esse texto se tornou escrito e o toda a escrita de hoje. espero amanhã ou depois (os dias numa ilha são cheios de imprevistos), espero continuadamente voltar a escrever sobre não escrever. 
evoé, meu pai! a benção, vovô.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

de mim

tanto pra dizer. ser um pouco como o aniversariante do dia, não sto. antónio, o maravilhoso fernando pessoa. basta desejar profundo, ser intermitente e agudo. não é pra sempre, nem sei se hoje eu conseguiria. é lancinante.
quando escrevi o poema que escrevi sobre o sr. fernando pessoa e que está no pdddm eu vivia em portugal. se eu vivesse no brasil e escrevesse um poema sobre o sr. fernando pessoa, certamente o poema não seria aquele. hoje eu vivo no brasil, mas ainda não onde eu vivo mesmo, mas não é complicado, nem sou eu quem vai explicar.
o que eu acho que tenho de mais interessante para dizer é que antes eu achava que era paisagem, o mundo natural. que as plantas vibravam no sol sem porquê, afinal o meu mestre, o sol, diz assim. já hoje eu acho que tudo que é vivo está em comunicação. é claro que alguém que é uma antena está completamente zonza quando começa a perceber isso. 
tudo o que é vivo tem sua linguagem, mesmo as plantas, intraduzíveis. era por isso, então, penso eu, que tinha tanto medo do jardim quando era pequena. medo e fascinação. tudo que eu escrevo, desde o primeiro momento, é pra falar desse medo, é pra reinventar aquela fascinação. 
meu pai conta que quando eu era pequena eu tinha medo de que a lua caísse na minha cabeça, que em noite de lua cheia eu não saía no jardim. aí já é imaginação, entende? des-suportar a gravidade, fazer destroço das órbitas, é o meu mais antigo terreno de medo.
estou fechando alguns terrenos para abrir novos. mas como deixar a desolação tomar conta do que se abandona? será que tudo se trata disso, mesmo, apego ao conhecido? e que o rumor do desconhecido arfe menos, sibile mais, sussurre, melhor! faça dos meus cabelos fitas coloridas penduradas na entrada de uma cidade do interior. de mim.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Coragem



só pudemos saber aqui, que uma das coisas que viemos fazer nesta ilha foi conhecer e tratar do cãozinho aí. Coragem, seu nome é o que ele possui.

a mãe desses filhotes morreu uns dias após o parto, e a pele deles era tão fina, e o trópico tão intenso, que eles foram atacados por bicheiras, vermes comedores de carnes vivas.

quando aqui chegamos, disso eles já estavam curados. mas dois deles tinham desenvolvido processos de inflamação a partir dos parasitas que, vejo eu, são uns nojentos.

o cachorro mais debilitado de todos foi o Coragem, que frágil desde o início, anunciado como prestes a morrer foi inúmeras vezes. já ao nascer o Escuro, que trabalha onde estamos, disse que o único macho da ninhada não ia durar mais que poucos dias. Escuro é o sábio de toda ilha, mas até os sábios se enganam. ainda bem.

o cotovelo esquerdo do pequeno inchou de ele não conseguir fazer nada a não ser estar deitado. durante três dias e três noites Coragem ganiu e latiu e rosnou o tempo todo. não comia nada que não fosse lhe dado numa seringa, e como estamos na Bahia, passou alguns dias à base de água de coco. evoé! os frutos e os líquidos.

na mais crítica das noites, dormindo ao pé de mim, depois de ter uma convulsão pela alta febre, a respiração dele chegou a se dar só de cinco em cinco segundos. eu mesma disse "é hoje, ele vai morrer". tive certeza. confesso que até fiz coisa que não se faz, torci pela morte, pois o pequeno cão estava roxo e sofria tanto, tanto...

mas não, amanheceu e Coragem estava vivo, e pedindo por comida. nosso Coragem fintou a morte mil e duas vezes e com a grande imensa suntuosa magnífica e maravilhosa ajuda dos antibióticos que a espécie humana inventou (ou descobriu?) para estarem do nosso lado, o pequenino começou a desinchar. hoje, pela primeira vez, Coragem andou nas quatro patas e abanou o rabinho. ainda está um terço menor do que suas irmãs, mas já sei o que ele me ensinou: todo dia é dia de viver.

vamos lá, Coragem!

sábado, 10 de maio de 2014

se ela morde? é claro.

depois de ver (no estado de sp) a notícia de um homem que tinha o coração do lado direito cheio de ar preso do outro lado (o do coração), isso depois de acidentado, eu não duvido de quase nada, ainda mais em termos de medicina.
confio até o limite fatal da fé na heroína de rosto de âmbar que me convidou pra dançar, digo, da heroína que coloca em órbita o sim entre as moléculas. você nunca a viu? não sei por onde você tem andado, já ela é um clássico, daqueles que quando toca, revigora.
vertigem? não, não, meu amigo, isto foi algo que você comeu, nada tem a ver com a serpente que ela leva no ombro, de nome Alegria e que nunca será domesticada.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

oh how


década

estou mirando a grande mudança acontecida
na virada dos 29 para os 30 anos
não, não falo de voltar para este país
nem recordo de um momento em que não fui casada
e nem é tanto a aparição das novas dores
pois já me vejo dos 69 pros 70, reticente 
"a cada década novas doenças pra gente tratar".
não, nem é isso de que na minha postura
está nascendo uma nova postura
onde o esforço é o relaxamento da mandíbula
que há-de reaprender a não se magoar tanto
como também tenho aprendido
a metabolizar o que me acontece.

a alteração, a mudança, a novidade
(tão grande entre palavras caras: a transformação)
é que primeiro vieram as exclamações
como é bom tê-las: !!!!!!! poupá-las
por quê? nem vergonha tenho de dizer com muitas delas
"amor!!!" ou, "que coisa!!!"; "calma!!!".
"qualquer coisa" é que não sei se dá pra exclamar...
o sinal imenso mesmo das reticências.
logo estarei a gotejar suspiros numa chuva oblíqua?
antes, meditar: por que nos recusarmos aos pontos diversos?
se outros usam tantas aspas que, de tão gastas,
nem se envergonham mais?

montes da minha urbanidade

comendo meu bife preferido eu estava na cidade de são paulo
sozinha, ouvindo a conversa da mesa ao lado
onde uma menina de vinte anos estrebuchava altamente
e comendo a mesma coisa que eu comia também quando tinha vinte anos
e que agora aos trinta continuo comendo, a menina dizia
"tenho vinte anos e não tenho profissão! sou inútil! não tenho o que fazer"
e de repente vi que eu estava lá pra ouvir aquilo & perceber
que isso há uma década me revolve o pensamento, porque agora,...
deixei minhas mãos para trás, não sem antes largar um peso
que trazia agarrado nas palmas. deixei ali mesmo.
embaixo da mesa do restaurante, larguei o medo do futuro
e quando coloquei meus fones pra vir a pé até em casa
a primeira música que tocou foi




e eu subi a aspicuelta dando altos passinhos e saltos,

quarta-feira, 7 de maio de 2014

.

ontem me cometi a violência de ver o vídeo da mulher linchada até a morte no Guarujá, cidade onde, embora longe do lugar onde ela foi assassinada, passei muitas férias.

matarem alguém na porrada tem sido recorrente, acho que nem todos meus amigos portugueses sabem, tem sido recorrente, habitual lincharem pessoas no Brasil de hoje.

hoje. hoje. hoje.

em muitos momentos a história da humanidade é a história do massacre da humanidade e em alguns momentos temos mais consciência disso. não acho trivial a recorrência com que ouço e leio associações do tempo presente ao nazismo, com a idade média, ou à ditadura. vocês acham que nos associar a esses tempos significa o quê? eu só consigo pensar que vivemos tempos sombrios. pelo menos eu, muitas vezes sonho com a guerra, eu que nunca vivi numa. mas não quero ir pela sombra, nem quero deixar que a guerra me pouse nos ombros. nem nos vossos.

mas ela pousa.
olha que pousa.

acho que é preciso pensar.

o que consegui pensar enquanto assistia é que poderia ser qualquer um no lugar dela. outros amigos disseram o mesmo. o deputado Wyllys (que é um sujeito raríssimo nesses tempos, sobretudo por combinar autoridade com alguém a quem se deve respeitar) numa recente colocação lembrou bem que provavelmente não seria qualquer um. seria alguém massacrado pela história da desigualdade social e racial que é o Brasil, alguém massacrado cotidianamente pelos contextos que a história (e a irresponsabilidade política e institucional) produziu e continua a produzir.

se é função política obrigatória lembrar de que as vítimas são vítimas, por outro lado, acho que isso faz muita gente se sentir segura, afinal supõe "a barbárie nunca me alcançará". o sinal primeiro de que ela já chegou não é quando acontecer com o seu vizinho, mas é você viver com tamanha inumanidade no seu coraçãozinho.

lembrei-me também de quando era criança e na escola eu salvava os gatos que algumas crianças tentavam massacrar. elas o faziam por pura crueldade? por diversão? por senso de manada? é o mesmo problema, o problema da banalidade do mal, com o agravante de que seres humanos e adultos seriam pensantes. mas o mal é banal, o mal é qualquer coisa, não é grande coisa, embora seja a pior.

num momento em que tanta estupidez, ignorância, violência e destruição se qualificam como justiça, é um tanto embaraçoso, é quase confuso falar em justiça, não a justiça feita com as próprias mãos, mas a justiça feita pela justiça, a responsabilização dos culpados (diretos e indiretos) pelo assassinato, por exemplo, da mulher que estava guardando na mão uma bíblia com a foto das crianças dela, da mulher que estava saindo da igreja e que tinha transtorno bi-polar, da mulher que foi por um boato (espalhado nesse mesmo facebook em que você almoça) acusada ou confundida com alguém que fazia "magia negra" com crianças hipotéticas e coitadas e que assim merecia ser... massacrada. massacrada com paus e pneus e risos e gritos, massacrada sem nenhuma chance de reação, sem nenhuma hipótese de vida, destruída de um modo banal. morta.

e por que não responsabilizar os responsáveis? a resposta de muita gente será... "a justiça? ela não funciona". resposta mais do que triste de uma lucidez derrotada, esta é uma resposta inviável.

terça-feira, 6 de maio de 2014

duerme, amorcito

cada vez mais gosto de palavras velhas
gosto de respeito gosto de cerne e de paraíso
de cebola e de viagem, gosto de cidade
não gosto de víbora, mas tenho o que aprender
não tenho ido ao cinema, mas amigos me visitam
e a minha gata quando se entendia pede pra entrar no armário
já eu volto a escrever qualquer coisa pra comemorar
o próximo, o distante; o crescente e o minguante
e sobretudo a palavra que adoro: palavra
rara. tão válida e nunca virgem, pura, não casta
entre tudo isso, sendo, o entre sendo isso: nós.
taí, uma palavra que não esqueço.

sinchi




o símbolo é ativo operativo como a membrana entre os dentes e a gengiva, que não sei se existe, mas está presente neste raciocínio, pelo menos. prova substituta pra isso não há. parece que a corporificação é a mais comum forma de raciocínio, e também que uma série de imagens de mim mesma estão se desfazendo. é comum uma resistência maior quando algo vai se desfazer embora o terreno já esteja mais recebendo os adubos dessa transmissão do que fincando as raízes do (novo?) conhecimento. sei que estou para escrever o poema que eu mais desejo, e aqui estou falando da dissolução das imagens de mim para mim, ou pelo menos de uma menor importância pras coisas em mim, o que na verdade talvez seja só o ajuste final de saturno. ouço completamente bem? não é que eu esteja mudando, é que não estou valorizando essa mudança de tão rápida que ela tem sido. não é que eu não esteja valorizando, ela é corporificação que não encontra valor. curioso ouvir que o caminho que leva para cima é o caminho que leva para baixo, thomas sterne já comunicava há mil anos atrás. é essa tanta novidade da vida que tem me feito fechar (irresponsavelmente) a comunicação. e, no limite, estamos refeitas: o cerne estava no corpo. o cerne continua no corpo. só que agora tenho mais corpos. e todos eles me interessam. e, espero, essa sacralidade do corpo não é tornar-se mais, é tornar-se o que se é. como já era. e está sendo. r e s p e i t o.

domingo, 4 de maio de 2014

"Beauty in art reminds one what is worth while. I am not now speaking of shams. I mean beauty, not slither, not sentimentalizing about beauty, not telling people that beauty is the proper and respectable thing. I mean beauty. You don’t argue about an April wind, you feel bucked up when you meet it. You feel bucked up when you come on a swift moving thought in Plato or on a fine line in a statue".

Ezra Pound

sábado, 26 de abril de 2014

imenso canal

a senha é cordial, de cordis: do atrito entre o músculo e as cavidades, faz-se uma respiração.
a senha é: seja cordial com seus antepassados, e os convença a fazer uma revolução tão profunda em si mesmos que vai ser mais do que a novidade, vai ser o mesmo virando outro. a própria vida.

não sei muito bem como escrever o que eu tenho vivido, além de dizer que eu dividia o mundo em duas metades, uma era imaginação e a outra era matéria. isso foi uma coisa que eu conquistei na análise, que foi configurar uma *boa comunicação entre imaginário e matéria. considerei tanto isso por ter começado da mistura pura entre ambas. durante muitos anos eu não sabia a diferença,

depois criei muita diferença e comecei a alimentar um lado com o outro: escrever. isto. porém considerado,

é claro que nada nunca vai ficar como está, será que vai ficar como é? 


- - 

ele achava q ser poeta era se aproximar ao máximo de alguma coisa que vibrasse e quando estava quase encaixando ele desviava e ia fazer outra coisa, dizendo que não era com ele.

ele = alguns entre os inteligentes, é o pior.

- -

então o que eu estava chamando de mudança não é um desvio, estou cada vez mais 
essencial
dizendo coisas básicas sobre a matéria
E SOBRETUDO OPERANDO COM CATEGORIAS TABU 

por exemplo, botei stricnina pra minar a falta de coração, então o coração todo drogado saiu pulando de cordialidade, disse bom dia pros peixes, os peixes chamaram os cavalos, eu já estava em outro país. Quando os peixes chamaram os cavalos eu já estava em outro país, rodeada por novos tabus, 

embora deus, embora a essência embora a natureza embora / coisas assim ninguém se arrisca a falar sem parecer um imbecil. Eu tenho medo do caminho místico que se abre entre os corvos / quando eles voam

deixam traços repentinos que são lidos por intérpretes que têm a pele muito irrigada 
os olhos vistosos. nesses intérpretes eu acredito. nesses que atravessam a rua, 
que estão muito vivos e às vezes nem precisam ouvir o Transa pra isso

quantas vezes você teve de ouvir o Transa pra ficar bem lúcido?

tô precisando escrever mais assim / que é só pra me atualizar em mim.

é que estou recebendo um outro particípio do mundo, que espero que me faça perceber que nem terços, nem metades, fazem do mundo o mundo, girando.



poética



Escolhi te escrever nestes dias de Netuno. Há brisa, neblina em outros campos, ventos repentinos turvos, tempestades e reina tão grande a nítida beleza de tudo que me sinto alguém de outro século. Mas, se fosse alheia a este tempo, como pensaria: a cada dia mais incorporo essa certeza: nada comunica mais sem ter o que dizer do que a beleza. É por isso que falo tanto do mar e dos cavalos, é porque estou interessada na comunicação da beleza, no nada que estão dizendo o tempo todo. E é por isso que estou a cada dia mais com as plantas. É certo que tudo tem a sua linguagem, mas é muito improvável que seja possível traduzir o que uma planta pensa, talvez porque quando ela resolva pensar, ela demora mil anos. No entanto, um chá ou algumas cápsulas de alguma erva são capazes de amenizar a dor de estômago da minha convivência. No Brasil eu tenho que estar com as plantas para adquirir um estado de contemplação que na cidade de Lisboa eu vivia só de atravessar uma rua. Ver o Tejo. Sempre isto, a beleza, o que me seduz, também na cidade em que vivi. E como a beleza é uma magia, uma velha encenação, fui enganada. Nos meus últimos dias como habitante da cidade que mais amei, eu pensava: “enganada! Como uma poeta não morreria pela boca?”.

terça-feira, 15 de abril de 2014

*

Isso também
me conta mais
a respeito daquela técnica
de prever o futuro.
O futuro? Tem orelhas,
mas é surdo. E é manco
se arrasta sem espanto
mais alheio do que lúcido
com o nosso despreparo.

Se fosse um deus amava o humano, mas como não existe
o futuro tem de amansar seus ventos, marcando as peles,
as montanhas. Sendo um gênio, não é um exército
de cronogramas, nem de antecipações. 

Tem firmeza de flor, e é invisível
reconhecido em seus efeitos 
brisa, furacão.

Nunca adiado. E se ama os despreparados
lhe sabem tanto os que fazem quanto os que esperam.   
Os otimistas valem mais
valem quanto? Cem bifurcações,
sucessivas gerações
de bem aventurados
que topam em pedras,
cicatrizam e correm
bem alimentados
com fome de mais
alimento. 

São seus sinais
os imprevistos, os cavalos
os pontos cardeais 
os sete sentidos e os setes buracos da cabeça.

Virá. E nunca.

terça-feira, 11 de março de 2014

e FIQUEI MIRANDO A INEXPERIÊNCIA DAS PESSOAS COM O INESPERADO.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Tudo se mexe, movimenta
e ataca mesmo a imobilidade
entre os lábios de Tomás
enquanto ele faz silêncio
na sombra de uma árvore.

Não há nada falhado entre os dentes
se dizer não pode de Tomás que ele seja
daqueles em quem as palavras
falham entre os dentes 
sentindo-se sempre
num ensaio de algo
que ainda não é a morte
embora com ela se pareça
pelo travo de silêncio.

Se mexendo as folhas
vibram e como Tomás
passa os dias procurando um tom
quando o encontra fora de si
ele pode descansar.
É a brisa. Que nos contornos 

como quem pousa uma jarra chinesa em cima da lareira
desavisado
de que o pó, a rotação da terra, flores ornamentando,
ou o imprevisto de um cotovelo que a espatifasse no chão,
são mais que o movimento da jarra chinesa em cima da lareira.
São seu puro destino: acaso e esquecimento.

Essas eram as coisas que lhe importavam.
Além de um ramo de algodão
ainda meio vivo
que levava no bolso e às vezes
apertava entre o indicador e o polegar
sem ninguém ver, por dentro do jeans.

Não era o pensamento o único objeto mágico de Tomás.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

há uma espécie de consenso no ar, também de que eu migrei meu interesse do coração, para o coração que está em qualquer parte. o consenso que eu ia dizer não é este, é que eu ando tão repentina e violenta, numa velocidade tão pouco lenta, que qualquer coisa que acontece me atém dizer. o consenso que eu queria mostrar é de que as coisas entre as pessoas estão deterioradas e vigiantes, e eu que presto muita atenção nos ritmos e humores do mundo, um dois três estou esmagada sem nem querer, ou melhor, estou pontiaguda e desnecessária, pensando inconsequentemente em nada e me deixando ater e levar por tudo. estou angustiada por que não escrevia? ou não escrevia por que estou angustiada? mas estou mesmo angustiada? não será antes uma contracorrente da navegação do dia-a-dia? não será uma vontade de ficar parada? não será uma vontade de só me mover? não será uma fome explícita por nada? que dia a dia se traduz em temer a falta de dinheiro e o precisar de outros pra gerir tudo & tanto. minha vida não é nada precária, no entanto perco tanto tempo com nada, quando o que mais quero é o usufruto total desse gesto tão precioso e puro e fácil e vário que é respirar.
das coisas que mais acontecem por aqui
eu quero o contrário
pois não quero aumentar a preocupação de ninguém,
mas há quem diga que os mortos estão ganhando
ontem, e sempre.
eu pensava nisso justo hoje
pois parece que há uma regulagem
em que não se pode pensar que amanhã eles hão de vingar
ou que coisa feia essa gente viva cheia de órgãos pulsando
mais parece rosnando canivetes
o tempo do hoje é o do que vive
não temos transcendência, nem eternidade
e se cheiramos éter
ficamos com uma zueira
que há quem ache legal
eu prefiro as ervas
porque elas contam histórias
de folhagens e plumas que nelas pousam
e ficam dizendo que a sabedoria
única da regra geral
é fazer rir o morto,
todos os mortos do mundo
rindo de uma vez
não, meu amigo, não é morbidez
é justamente o contrário
por conta dessa leveza
que eles são incapazes 
os mortos não têm
ironia, capacete, avião
os mortos, veja bem
os mortos têm outras coisas 
estou triste pois faz muito tempo que não escuto um verso que me faça escrever um verso tão meu mas não estou confusa porque as visões que tenho tido são tão pouco minhas eu vejo
eu vejo a guerra, eu vejo a fome, eu li num autor búlgaro que era alemão e era suíço (como convém ao destino do nosso esburacamento) que falava de uma pintura da morte tentando (e vencendo) a vida
e perante essa necessidade dessa força que é pra muitos a única realidade que existe, eu estava pensando nisso e procurando
quando minha melhor amiga veio me contar que lhe disseram que até os mortos
até aos mortos é preciso fazer rir,
dito isso, deixo o escabroso de lado,
formas de morrer existem muitas
e li num velho livro de um búlgaro
que era suíço e também alemão
não constando outros acaso
enquanto minha morte não vem
eu vivo de brigar contra o rei
que línguas existem muitas
e labaredas muitas mais
formas de morrer existem
tantas quantas formas de matar
até mesmo a água que renasce
pendura como um favo
o morto em mim
justo hoje que ouvi dizer
até aos mortos é preciso fazer rir
esse peso sem ressonância
nem pluma que fizesse
numa palma de pele de pé
quem sobrevive quem sobrevive
as boas cócegas que me fazes
morte que não vem?
como compor um poema
nesta altura da viagem?
agora se voltei
terá a viagem acabado?
tão grande o peso dessas ancas
ou o vício sem porque nem lembrança
das unhas roídas
essa vontade de escrever
fica uma corrosão por dentro
a corrosão da falta de contato
o contato imediato entre mim e meu pensamento
é mais que um alongamento muscular
embora este também seja necessário
e isto aqui, veja, não é um poema
mais um hábito de quebrar versos
ou um enter é que é.
é uma necessidade
não a miragem
do que escuto quando ouço um verso
mas sei bem que uma tática que tenho
é gastar, gastar gastar o pensamento
até dele conseguir o, não sei se diria,
digamos o essencial,
hoje me disseram que até os mortos
é preciso fazer rir até os mortos

domingo, 2 de fevereiro de 2014

pequeno compêndio das coisas físicas

o alecrim tem a ver com a alegria e previne gases.
a lavanda purifica, abranda, acalma.
a canela materializa tanto quanto avisa que a imortalidade está presente.
o eucalipto espanta baratas e abre os pulmões. dá papel.
chá de alfazema faz dormir um boi, ou dormir um boi como fica dentro da jibóia.  
há uma canaleta da história que se abriu como o barro e fez os nossos ancestrais. os meus, digo. desconfio às vezes que alguns humanos não vieram do barro, mas dos insetos que, por sua vez, derivam da fibra das antenas da avenida. 
há muito perdi os logradouros. toda avenida é qualquer parte, e substitui uma cidade em que todos os pavimentos eram brancos pelo alcatrão que por aqui se chama asfalto. 
alguns homens teimam em ser lindos. 
mas todos eles nem todos juntos seriam tão bonitos como a minha vó. com seus olhos cinzentos e sua pele de quase índia. adocicando-se pelo tempo.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

das chegadas

muitas narrativas por fazer, em toda parte. qualquer lugar que eu chego é a mesma sensibilidade. já dizia o outro "o corpo é que paga", no entanto estamos ouvindo noel, já temos panelas, o lixo é novo e quebrou tão cedo. ele instalou novas luzes na cozinha, funcionam tão bem. melhor que eu mesma, que estou limpíssima, embora a tosse. purguei tanto pra chegar aos príncipes. não os gordos príncipes das peles de frango, os príncipes das cintilações, que sobem pelas ramas das unhas de gato e se prendem aos muros com tanta fibra e - por que não? - delicadeza.
é curioso que são paulo me pede outra ruptura, embora ela também estivesse presente nas coisas que eu sentia, escrevia ou queria em lisboa, a ruptura era mais mental por lá, quebrar com as mentalidades vigentes. aqui eu (ainda? nunca?) senti isso. aqui é quebrar a própria mentalidade. destroçar a mentalidade estiolando junto com os urubus que passeiam entre os girassóis. 
sem dúvida entro na cidade com outra mentalidade.
por um lado vim da europa trazendo notícias amazônicas. 
por outro lado tem mesmo o lance das calçadas, dos contentores, das coisas públicas. 
embora isso, estava cansada da decadência. isso aqui é um descontrole arrumadíssimo, 
a cada dia que entro no metrô amo mais aqueles que trabalham no metrô e fazem as engrenagens funcionar
(escrever isso num verso, escreverei isso num verso) 
perdi metade do meu ano passado numa bobagem do disco rígido 
e agora não tenho nem um word que pudesse editar uns poemas novos
que ainda não escrevi. 
sempre esse abismo, essa emancipação do gesto, como se fosse possível que o poema escapasse de mim. 
escrevi o "cantos de estima" neste apartamento.
os livros que chegaram vão ter de se adaptar. 
tudo que é, é o nosso. 
dá-me estrutura e flexibilidade, o resto é o que virá.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

das despedidas

Perdi meu amuleto, depois achei
o âmbar do mar báltico me espera
na outra ponta de Lisboa.
Embora a morte de ilustres seja a cada dia mais cotidiana
não é só a cidade que está afogueada de vermelho
nesses dias de fuga,
veja bem,
veja meus olhos,
tantas coisas a fazer
a melhor delas é que percebas isso
mas eu teria que ter garganta
grafite, que era pouco, nunca usei.
Gasta-se como o tempo
nas solas dos sapatos
nas calçadas brancas
embora haja o aprendido
de carregar minhas coisas
limpar os ambientes
tomar chuva sem chapéu
e falar duas línguas
numa mesma língua
numa mesma língua
ainda não sei se "grafite" é masculino ou feminino.
São tantas as nuances do desejo.
Quando chega o fim
é assim a gente se confunde
sempre pensa ligeiro e lento
onde estará o alicate?
Que tenho de levar
pra arrebentar o elo
que desaprendeu a amar
esquecido de voar
depois de ser do sol
onde criava caminhos
agora vê só a marcha lenta
o nevoeiro dessa terra
onde as folhas ainda caem
sustenidas pela minha saliva.
É a mesma salina memória que vem do rio
e que tantos ouvidos furou até que cantassem
a mesma salina memória que vem do rio
e que, depois de parecer brisa, revela-se entranha
e pesa nas ancas como gruda os calhaus
na orla.
Caiu a noite lenta
a cidade
se dissipou?, não sei.
Sei que choveu
dentro do adeus.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

eu hoje conversei por encontrar por acaso na rua com um dos homens mais inteligentes e entusiasmados que já passaram pelo nosso século e ele estava muito desanimado. não desejou mal, mas me preveniu tanto dele.
eu realmente acho que algo está fora do lugar na curva do parafuso.
tem um prego entortado na estrutura das coisas.

tive vontade de lhe dizer: que o senhor não caia.
que o senhor se espalhe. seja a própria cordilheira
o rabo da baleia espatifando água
por todo lugar, seja. essas borbulhas são sobretudo isso:
um bom mecanismo de sangrar.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

cobra preta

tenho sonhado pouquíssimo ou lembrado muito menos. mas essa noite sonhei e lembro que sonhei que no meu quarto de adolescência havia uma cobra gorda e preta. eu subia em cima da cama, não era exatamente medo que eu tinha, era dúvida, eu não sabia se a corda era venenosa ou não, o que me causava um pouco de repugnância. tive a impressão de sair do quarto e encontrar meu pai, mas nesse momento não sei se não encontrei meu avô, mas a dúvida permanecia, ninguém tinha visto a cobra além de mim (acho) e então nenhum deles sabia dizer se a cobra era venenosa ou não. também havia uma coisa curiosa que o quarto, o chão do quarto tinha uma mistura entre um carpete de tecido e uns trechos eram como mato de pasto, terra batida e seca, onde estava, claro, a cobra. às vezes ele era gorda demais, às vezes eram lembranças q eu tinha dela o sonho. dormi sem ter a resposta e só vim aqui escrever esse sonho pois foi dos sonhos mais enigmáticos que uma vez já sonhei e, portanto, melhor guardar. 

quando aparecem interpretados já também, guardo. mas depois quando releio esses trechos de textos já não lembro quase nada do que sonhei, e o que escrevi fica parecendo um novo sonho, o que deve ser bom, pra acelerar metáforas, sempre.

sábado, 4 de janeiro de 2014

todo sujo de batom

se desde muito a verdade virou uma moeda rota
e a metáfora uma nota de troco rasgada,
lime-se uma na outra e do contágio
entre o velho, o desuso e o cansado
nasce (do cascalho!) o fogo.
usem as metáforas, senhoras e senhores,
são vossa humanidade. eu vou dormir,
sonhando com uma coluna vertebral renascida em cauda.

domingo, 29 de dezembro de 2013

o nojo é um sentimento horroroso. quando ele é raro, ele é bem colocado.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

antes de mim está

não li aquele livro do Jung que meus pais falaram pra que eu não lesse.
não porque meus pais disseram, simplesmente porque não entrei.
um amigo uma vez me disse que tinha lido um poema meu e tinha tomado uma pedrada no ouvido. é assim mesmo.
se eu não tomo uma pedrada na cabeça que me arranca o coração
eu não leio, não. as pessoas também publicam demais.
conheci muitos masturbadores proletários.
são a maioria
raro, raríssimos, sabem gozar juntinho.

*

asteriscos são os olhos dos cavalos cintilando

*

"SINTO-ME DISPERSO
ANTERIOR A FRONTEIRAS
HUMILDEMENTE VOS PEÇO
QUE ME PERDOEIS".

(cda, quem mais cintila tanto assim?)

*

uma tarde aberta é quase
um poema
uma temporada sem metereologia
uma tarde aberta é quase
um poema por ser escrito
temporada pede auxílio
completamente fora dos princípios
mas se, no fundo, tudo
é órbita e ritmo, eu
que vejo mal na névoa
por isso intuo um precipício.
esses versos sebosos.

quero cinco anos de distância
em cinco anos de distância
eu me esqueceria
me esqueceria antes, provavelmente
às vezes parece que me especializo na vida
a deixar as coisas para trás
crio enigmas para os gatos
desde criança sou mestra
em deixá-los curiosos e despertos
com algo que - dado meu curto sentido de aventura -
coisas que quase nunca ou praticamente não acontecem.
quem me leva pela mão?
reconhece que sou uma porta
de saída para o que não se repete.
antes de mim está

*




sábado, 21 de dezembro de 2013

agora pouco senti o sangue de um poema novo correndo em mim e quando me sentei para escrever meu corpo finalmente havia se acalmado da falta de calor, e quente que estava, se esqueceu do poema que começava 
começava com uma criança brincando entre a luz e a sombra, 
essa criança era eu. com meus objetos mágicos, a palavra
agora sinto só uma dispersão no ventre e tanta vontade de dormir e só acordar na bahia.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

experiências fortes, talvez demais
estou me recompondo, nutrindo ainda
uma espécie de grande confiança por dentro
e cinco centímetros acima da minha pele uma capa grande
talvez uma saburra de desconfiança
participação da proteção

sábado, 14 de dezembro de 2013

irtoi

vou fazer uma lista dos 15 livros da minha vida no dia de hoje

1. four quartets, t.s. eliot
2. elegias, hölderlin
3. a teus pés, ana cristina cesar
4. vertumno, brodsky
5. do desejo, hilda hilst
6. claro enigma, drummond
7. memórias póstumas de brás cubas, machado
8. laços de família, clarice
9. los hijos del limo, octavio paz 
10. o guardador de rebanhos, alberto caeiro
11. hamlet, shakespeare
12. poemacto, herberto helder
13. é isto um homem, primo levi
14. os tarahumaras, artaud
15. 
16.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

*

estavámos e era de noite
minha amiga mostrou-me a lua
eu mostrei-lhe os altos ramos
e os cães ladravam
em todos os quintais.
radial como a nossa rede
de compartilhamento atual
era o latido dos cães.

mais radical, talvez
miram os dentes
mas, como nós,
estão sós dentro
de seus muros
defendendo somente
o que conhecem.
solitário percurso é o buraco
escavado como ruptura
bote encantado
salvação do limite
quando aparece o dizer
que arrebenta aquilo
que encerra a coisa
a coisa toma conta de tudo
vira um mote
e todo mote é um percurso
aditivo dos motivos
esse dizer tudo
e você acompanhando
alguma semântica
que eu consigo manter
mesmo sem estar
com nada a dizer.

primeiro pensei: minha amizade
percorre todos os muros e arrebenta.
quem entendeu o buraco do começo
como o mal, foi a tua moral.





hoje

Antigos acreditavam que quando um cometa atravessa visível no céu populações inteiras, a colheita, o sumo das frutas se altera. Se a passagem de um cometa já foi parte de um sistema de adivinhação, penso no cometa como um fogo de predileção, aquilo que a gente repara na distração e sente que vê-lo é um dom, do acaso, da sorte. Dom de estarmos atentos, ao fulgor e ao delicado. É tão simples um cometa, ele atravessa todo especial, e é assim que é o primeiro disco do Flavio Tris. Suas músicas atravessam o nosso céu, vindas de passados universos, indo para onde? Confio no que canta o cantor: “minha meta que era só coração”. Arranque-se do céu o que o cometa decalca: que tudo se reinicia, caloroso. E se transmite entre nós, os vivos.

Sim, porque é sobretudo disso que se trata, falemos de discos e de cometas, o que importa é estar vivo, arder. E as músicas do Flavio cuidam disso a todo o momento. Se respeitam os ensinamentos dos passados, de músicos que ouvimos, dos avós que tivemos, dos amigos que não estão mais entre nós, sobretudo as músicas do Flavio Tris produzem caminhos amansados pelo sol, pelo senso de justiça, direi melhor, pela constituição de uma ética do pulsar do coração. O Flavio canta para cuidar de nós, destecer as feridas, esquentar os corpos de desejo. Galã, herói, flâmula e luz, a sua voz de brasa é também um carvão.

O disco Flavio Tris foi testado: em 150 km/h nas autoestradas, desviando de buracos nos caminhos de terra, tropeçando nos desavisados no metrô; foi ouvido em jantar com amigos, na solidão com livros, dançando de olhos fechados e de olhos abertos, em audição para compreender a construção das letras, fazendo amor, afiando lápis e flechas, bebendo vinho, percebendo só os instrumentos, fumando dos mais diversos aditivos, dando ares à distração; o disco foi testado depois de tudo, e antes de tudo também, e julgo que foi aprovado com máxima distinção, fruição e encanto. Ouça também. Tudo isso para não perder a visão do céu que é o nosso céu, pelo cometa atravessado.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

que mistérios tem

quem não sabe devia saber, mas acho que todo mundo já sabe que hoje a clarice lispector faria 93 anos. a clarice construiu tudo que conhecemos e tudo que desconhecemos, pra além de que destruiu tudo, tudo. era um jipe e um trator, embora fosse um diamante, a clarice falava do que é podre e do que cintila: a linguagem.

só não fico enraivescida com as correntes e blablablas que são ditos em seu nome porque é perda de tempo?, atualmente, moro numa cidade que até carro turístico está assinado com nome de poeta e, ... talvez o necessário seja rir disso tudo.

às vezes me pergunto, se é isso o que é eles fariam: rir rir rir rir rir e imaginem bem, se todos os escritores mortos do mundo rirem todos ao mesmo tempo, a órbita da terra desvia uns centímetros e assim, quiçá, oxalá, etc.

nos enfins, posto um trecho do trecho "amor", do "cantos de estima", meu primeiro livro, que fala da clarice, e aqui está:

*


ontem chorei por causa de um passarinho. às vezes acontece da vida entrar pela janela uma história da Clarice. domingo. um passarinho do tamanho do meu polegar entrou entre as abas da janela e caiu no fosso em que elas se guardam. ficou preso lá dentro. às vezes suas asinhas batiam fazendo schuif schuif schuif. se eu abrisse a janela completamente o mataria esmagado. demorei a entender que ele era tão pequeno e que chorar não adiantava-nos nada. perguntava assim: o que tenho eu a ver com a vida desse passarinho que veio cair na minha janela por inexperiência? me respondia, tenho tudo a ver com ele e nada dele me diz respeito. mas é a vida, né, então fiz de tudo. bambus, varetas, lanternas, cestinhas, farelos de bolacha pra mantê-lo vivo. precisava de mão de obra especializada. hoje de manhã vieram salvá-lo. ele abriu a janela e eu peguei o passarinho na mão. apavorado. voou. estou só agora, sem o passarinho.

oração de ir pra rua

a crua alegria, a anarquia
que saía dessa caixa
salvava um país.
ou dois.

que alguém agora
fizesse o que ele fazia
com a dor e com o remorso
com o medo e o cansaço
lascava a pedra, fazia o fogo.

O FOGO.


 

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