quarta-feira, 8 de outubro de 2014
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
sábado, 4 de outubro de 2014
ontem à noite, pela primeira vez, li o poema do Leonardo Fróes que segue abaixo. é maravilhoso demais ter trinta anos e acontecer de novo de ser a primeira vez que leio algo que parece que sempre foi o sentido de tudo, de tudo, no caso, que penso sobre o poema:
O poema
Com esse modo agreste
de usar o vocabulário,
tentando tirar o mofo
do seu emprego diário,
tentando dar às palavras
um valor não-literário,
tentando extrair vida
de um velho dicionário,
aí vai o poema,
e vai sem destinatário,
assim como surgiu,
rangente, seco, dentário
capaz de ferir a pele
por baixo do vestuário,
capaz de fundir num todo
os sentimentos contrários.
Excesso de amor perdido
no território solitário
de um aprendiz comovido,
resto de gritos e urros
num cárcere voluntário
onde me sinto mais livre,
o poema, sendo vário,
é sempre uma coisa minha
de fundo comunitário,
é sempre o desenho breve
de um gesto visionário,
uma esperança constante
de, sempre, ser solidário.
Símbolo tenso e aéreo
de um ébrio noticiário,
rumo incerto construído
com materiais precários,
o poema é sobra e soma
de impasses humanitários,
é dúvida e febre, cerco,
memória de um ser primário,
é o lance mais gratuito
de um jogo desnecessário
que eu disputo com as trevas
por ímpeto hereditário.
Meu tédio, meu desalento,
meu triste dever diário,
as forças de além-do-tempo
sujeitas ao calendário,
minha sede, meu orgulho,
meu desgosto sedentário,
minha mão sempre apontando
para um mundo igualitário,
meus monstros gesticulando
no fundo de um relicário,
meus porres e meus pavores,
meus nervos incendiários,
vai tudo contido nele
em busca de itinerário.
E se acaso esse poema
no seu ritmo arbitrário
toma fôlego e se entranha
nos meandros planetários,
se chega, tal como a brisa
ou som de um campanário,
a pungir dentro do peito
de onde é originário,
se reproduz, como pode,
a forma de um estuário
por onde meus sonhos fluem,
eu, seu modesto operário
—que nunca de um talento
fui o feliz proprietário,
cuja ambição foi só
ser um fiel escriturário
de tudo o que vai passando
no mundo do imaginário—
eu me dou satisfeito
e, fato extraordinário,
me suplanto, me extasio,
me dissolvo libertário
e sou cada vez mais eu
sendo vosso — e ainda mais vário.
- -
do "Língua Franca", de Leonardo Fróes, livro publicado quando o poeta tinha 27 anos.
O poema
Com esse modo agreste
de usar o vocabulário,
tentando tirar o mofo
do seu emprego diário,
tentando dar às palavras
um valor não-literário,
tentando extrair vida
de um velho dicionário,
aí vai o poema,
e vai sem destinatário,
assim como surgiu,
rangente, seco, dentário
capaz de ferir a pele
por baixo do vestuário,
capaz de fundir num todo
os sentimentos contrários.
Excesso de amor perdido
no território solitário
de um aprendiz comovido,
resto de gritos e urros
num cárcere voluntário
onde me sinto mais livre,
o poema, sendo vário,
é sempre uma coisa minha
de fundo comunitário,
é sempre o desenho breve
de um gesto visionário,
uma esperança constante
de, sempre, ser solidário.
Símbolo tenso e aéreo
de um ébrio noticiário,
rumo incerto construído
com materiais precários,
o poema é sobra e soma
de impasses humanitários,
é dúvida e febre, cerco,
memória de um ser primário,
é o lance mais gratuito
de um jogo desnecessário
que eu disputo com as trevas
por ímpeto hereditário.
Meu tédio, meu desalento,
meu triste dever diário,
as forças de além-do-tempo
sujeitas ao calendário,
minha sede, meu orgulho,
meu desgosto sedentário,
minha mão sempre apontando
para um mundo igualitário,
meus monstros gesticulando
no fundo de um relicário,
meus porres e meus pavores,
meus nervos incendiários,
vai tudo contido nele
em busca de itinerário.
E se acaso esse poema
no seu ritmo arbitrário
toma fôlego e se entranha
nos meandros planetários,
se chega, tal como a brisa
ou som de um campanário,
a pungir dentro do peito
de onde é originário,
se reproduz, como pode,
a forma de um estuário
por onde meus sonhos fluem,
eu, seu modesto operário
—que nunca de um talento
fui o feliz proprietário,
cuja ambição foi só
ser um fiel escriturário
de tudo o que vai passando
no mundo do imaginário—
eu me dou satisfeito
e, fato extraordinário,
me suplanto, me extasio,
me dissolvo libertário
e sou cada vez mais eu
sendo vosso — e ainda mais vário.
- -
do "Língua Franca", de Leonardo Fróes, livro publicado quando o poeta tinha 27 anos.
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segunda-feira, 29 de setembro de 2014
minha idéia de mim é como a história
PASSAMANARAGEM
O passado — que não existe — é talvez
minha única invenção gloriosa. Por ele eu crio algumas linhas
que me iludem na dissolução
da hora presente sem finalidade.
Por não lembrar de mais nada, exatamente como foi,
eu falsifico uma pessoa
que tende a ser melhor do que eu sou
e a agir brilhantemente
em qualquer aperto.
Minha idéia de mim é como a história
de um país que se idolatra em seus mortos
enforcados ilustres.
Afirmo ter estado nas paisagens do armário
que sonhei ou são
mas não encontro jamais uma das caras possíveis
por essa peregrinação da cabeça
em minhas sendas.
Só a hora presente é o meu país sem progresso
e sem grandeza.
Só as aves entendem
o que estou olhando ao longe
sem pensar mas sentindo
minha insignificância perfeita.
- - -
Leonardo Fróes, em Sibilitz.
O passado — que não existe — é talvez
minha única invenção gloriosa. Por ele eu crio algumas linhas
que me iludem na dissolução
da hora presente sem finalidade.
Por não lembrar de mais nada, exatamente como foi,
eu falsifico uma pessoa
que tende a ser melhor do que eu sou
e a agir brilhantemente
em qualquer aperto.
Minha idéia de mim é como a história
de um país que se idolatra em seus mortos
enforcados ilustres.
Afirmo ter estado nas paisagens do armário
que sonhei ou são
mas não encontro jamais uma das caras possíveis
por essa peregrinação da cabeça
em minhas sendas.
Só a hora presente é o meu país sem progresso
e sem grandeza.
Só as aves entendem
o que estou olhando ao longe
sem pensar mas sentindo
minha insignificância perfeita.
- - -
Leonardo Fróes, em Sibilitz.
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sábado, 27 de setembro de 2014
britannica
deve fazer uma semana, um pouco menos, que o Gustavo me mostrou num site português uma enciclopédia inglesa à venda, inteira, por 15 euros "negociáveis".
fiquei um pouco deprimida com isso, ou despencada como numa forca do nosso tempo, desviando do que já passou e pensando quanto vale o google. será que um dia o google também vai
fiquei um pouco deprimida com isso, ou despencada como numa forca do nosso tempo, desviando do que já passou e pensando quanto vale o google. será que um dia o google também vai
despencar de preço?
mas ninguém vende o google de porta em porta para quem quiser comprar
decorar a estante
complementar os estudos das crianças.
mas ninguém vende o google de porta em porta para quem quiser comprar
decorar a estante
complementar os estudos das crianças.
estava pensando nessas coisas quando perguntei
"mas é a Britannica?"
"não, não é. é a _____"
"ah (...)"
e fiquei entre mim mesma
mais doce do que desanimada de lembrar
que no escritório do meu pai / grande de muitas paredes com estantes, onde às vezes, por medo de ficar sozinha, eu dormia no sofá com a manta xadrez vermelha e verde dos cobertores parahyba, que não era suficiente pro frio úmido da madrugada. mas eu lá ficava com a ponta do nariz meio gelada.
mais doce do que desanimada de lembrar
que no escritório do meu pai / grande de muitas paredes com estantes, onde às vezes, por medo de ficar sozinha, eu dormia no sofá com a manta xadrez vermelha e verde dos cobertores parahyba, que não era suficiente pro frio úmido da madrugada. mas eu lá ficava com a ponta do nariz meio gelada.
era bem em cima do sofá que nesse escritório do meu pai tinha a Britannica
muitos volumes com a capa perolada
e eu tinha dificuldade em segurar o peso inteiro de um daqueles volumes
que embora contivessem o mundo inteiro, eu lá me interessava?
pegava sempre o volume com a letra D
depois de um tempo já sabia até onde abrir pra encontrar
muitos volumes com a capa perolada
e eu tinha dificuldade em segurar o peso inteiro de um daqueles volumes
que embora contivessem o mundo inteiro, eu lá me interessava?
pegava sempre o volume com a letra D
depois de um tempo já sabia até onde abrir pra encontrar
DOG
e passava inumerável tempo vendo todas as raças de cães com fotos coloridas. eram raras as fotos coloridas em todos os volumes e eu percebia assim a seriedade daqueles sujeitos: o que importa, os cães, estão coloridos, coloridíssimos. era uma maravilha. uma maravilha a seriedade que eu averiguava naqueles livros.
até hoje, que numa busca por imagens no google resolvo o que eu quero em cinquenta segundos, até hoje acho que isso fala mais sobre a minha pessoa do que muita coisa: tipo isso, confiar nuns livros gigantes, só porque em poucas páginas eles nos mostram tudo aquilo que vale no (nosso mundo). e, por hoje, é suficiente.
até hoje, que numa busca por imagens no google resolvo o que eu quero em cinquenta segundos, até hoje acho que isso fala mais sobre a minha pessoa do que muita coisa: tipo isso, confiar nuns livros gigantes, só porque em poucas páginas eles nos mostram tudo aquilo que vale no (nosso mundo). e, por hoje, é suficiente.
#
semana passada eu também soube que meu pai tirou finalmente as caixas do galpão onde viviam a maior parte dos livros dele, desde que saímos da casa em que cresci, já que essa foi brutalmente assaltada uma década atrás. depois de anos, parece que a primeira coisa que ele procurava ao abrir as caixas, já na casa nova, foi: "onde está a Britannica?". não sossegou até encontrar as caixas onde ela estava. e isso sendo seguido pela nova cadela que demos pra eles, que veio da Bahia e fará cinco meses dia desses.
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agora que sou sincera
açúcar
fazia coisa de cinquenta dias que eu não comia açúcar. sou uma máquina à combustíveis e que excelência vinha sendo esta capacidade de dizer não a uma série de substâncias que alteram as velocidades e as consciências. dizem que é questão das células se acostumarem, que é preciso dar o tempo delas pra que elas se desliguem de certos hábitos. qual o tempo de uma célula é a mesma pergunta que: qual é o tempo do seu ser?
beija-flor ligue os beiços nos meus
estamos falando de amor:
sugar cane fields forever.
estamos falando de amor:
sugar cane fields forever.
hoje comi açúcar num doce de padaria, senti-me inicialmente como se tivesse levado um leve empurrão que me fez sentar. sentada senti muita alegria e constrição no meu peito, que constrição levou o corpo todo a se aquecer, as extremidades muito irrigadas de júbilo. o açúcar é a droga que nos dão na infância.
imagine como era antes do açúcar? por onde se inebriavam os meninos?
será que o nascimento da infância tem suas redondezas na descoberta e espalhamento do açúcar?
então comi mais algo doce e comecei a me sentir numa música dos jackson 5, assim de pequenos movimentos cintilando pelo corpo todo, a alegria de qualquer coisa sendo qualquer coisa se fazendo. a velocidade do arbitrário. e cabrum! meus músculos se fechando. como explicar o fechamento? pequenas placas como tectônico é o solo, omoplatas se juntando, e um grande peso no corpo aumentando.
então comi mais algo doce e comecei a me sentir numa música dos jackson 5, assim de pequenos movimentos cintilando pelo corpo todo, a alegria de qualquer coisa sendo qualquer coisa se fazendo. a velocidade do arbitrário. e cabrum! meus músculos se fechando. como explicar o fechamento? pequenas placas como tectônico é o solo, omoplatas se juntando, e um grande peso no corpo aumentando.
não é à toa que o açúcar fecha a intuição. pequenos cristais de insensibilidade coagulam.
e que é dos maiores depressores que conheço.
um pouco te põe pra cima, um pouco mais, ou mais repetidamente durante dias: AY QUE DESÂNIMO.
dizem que isto tem a ver com o tamanho da molécula que é preciso quebrar: são gigantescas as moléculas de açúcar e a produção de enzimas do corpo não dá conta de absorver tudo aquilo. por isso engorda tão facilmente, também.
curiosa capacidade do corpo não poder assimilar aquilo maior & assim conter.
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agora que sou sincera
1
ando desprositadamente longe das sílabas que se reúnem num simples toque de dedos
ou como dois e dois logo, com mais um, formam os dedos de uma mão
vou diagonalmente zanzando por tudo que encontro e que não tenha
o núcleo duro de uma separação — um desvio avistado — a cólera
coisas que não, hoje em dia não me interessam: não.
é curiosa a delicadeza que pode ter um não. ou a distribuição criteriosa de um não
não, não gosto; não, não quero; não, eu evito; não, agora não.
e retumbante a aproximação do diverso: o sim. B me disse hoje que tem mais espaço
mais espaço pro outro ser, receber esse inteirar-se que é ter espaço pro outro.
também tenho sentido isso nos diálogos aproximados. e tem a ver com corpo.
portanto também tem a ver com aquele verso de gilberto gil:
minha aura clara só quem é clarividente, pode pode ver.
também é bom estar na sombra, tantas quis os holofotes
tantas só o beijo do bem, mas que vigilante descoberta
essa da proximidade do que cresce melhor: à sombra.
certas plantas de sombra nunca reverdescem
outras não, nasceram lianas e descobertas
até mesmo essa desimportância de estar ou não
de estar ou não fazendo sentido.
escrevendo simplesmente.
como ensina GMT: pra máquina ligar.
ou como dois e dois logo, com mais um, formam os dedos de uma mão
vou diagonalmente zanzando por tudo que encontro e que não tenha
o núcleo duro de uma separação — um desvio avistado — a cólera
coisas que não, hoje em dia não me interessam: não.
é curiosa a delicadeza que pode ter um não. ou a distribuição criteriosa de um não
não, não gosto; não, não quero; não, eu evito; não, agora não.
e retumbante a aproximação do diverso: o sim. B me disse hoje que tem mais espaço
mais espaço pro outro ser, receber esse inteirar-se que é ter espaço pro outro.
também tenho sentido isso nos diálogos aproximados. e tem a ver com corpo.
portanto também tem a ver com aquele verso de gilberto gil:
minha aura clara só quem é clarividente, pode pode ver.
também é bom estar na sombra, tantas quis os holofotes
tantas só o beijo do bem, mas que vigilante descoberta
essa da proximidade do que cresce melhor: à sombra.
certas plantas de sombra nunca reverdescem
outras não, nasceram lianas e descobertas
até mesmo essa desimportância de estar ou não
de estar ou não fazendo sentido.
escrevendo simplesmente.
como ensina GMT: pra máquina ligar.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
sábado, 20 de setembro de 2014
nido
"A este momento do dia dei o nome de
ensaio do primeiro amor"
Marta Navarro
Ponho-me a pensar o que seria
da palavra ninho
se falássemos outra língua
—falsearíamos outras hipóteses
na lista do supermercado —
e não tivéssemos casa
para nos abrigar deste vento que agora venta
como se fosse chover ou como se trouxesse a chuva.
Nestes dias em que esperamos que chova
mas quando amanhece chovendo
nos esquecemos do quanto esperávamos
—vazio de quanto vivíamos —
há chuva e nos pomos melancólicos
— nos pomos melancólicos de deus
não há estudo nem pormenores
aglutina-se por dentro a saliva
vigiam por fora estátuas / correm cavalos —
a meditar num saxofone
gravíssimo
como um compositor
que, tocado pela súbita neblina,
com os ombros um pouco tensos
—é tanta coisa a sentir-se viva
pelo mundo — ergue! os braços
alcança os galhos e salva da ventania:
um ninho. Antes que se molhe
antes que nunca mais chova:
pega pela mão a fibra
do abrigo tece o som
tece o meu e o teu.
O compositor quem é?
Nos abrigamos onde não há perguntas.
Sabemos o que é um ninho
quando ouvimos e dizemos: ninho.
Somos capazes de chorar.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
o mistério de frente?
As letras destas canções são quase totalmente incompreensíveis para os Yaminahua que não são xamãs. Townsley escreve: "Não há praticamente nada nestas canções que seja designado pelo seu próprio nome. Utilizam-se as perífrases metafóricas mais obscuras. Por exemplo, a noite torna-se 'antas velozes', a floresta 'amendoins cultivados', os peixes 'pecaris', os jaguares 'cestos', as anacondas 'redes para dormir' e assim por diante".
(...)
Por que motivo os xamãs yaminahua utilizam esta maneira de se exprimir? Segundo um deles: "Com os meus koshuiti eu quero ver; ao cantar examino cuidadosamente as coisas; a linguagem dupla e entrelaçada aproxima-se delas, mas não demasiado; com as palavras normais esbarrava nelas, com as palavras duplas e entrelaçadas ando à sua volta e consigo vê-las claramente".
- -
do livro do Jeremy Narby
"A serpente cósmica - o ADN e a origem do saber".
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domingo, 31 de agosto de 2014
escrevo
tenho como mestres um professor e um xamã
e embora ambos se confundam um no outro
(assim como o meu pai é o meu avô
e ambos são as fusões do magma celeste)
eles me querem a escrever: então escrevo.
e como minha melhor amiga vai ler: escrevo.
e como eu mesma encontro o que dizer: escrevo:
há leveza nos ombros e limpeza nos olhos.
já se percebeu que entre planta e planeta
há só um "e" escrito a mais
o que isto quer dizer?
que criar raízes é o mesmo que fazer órbitas.
e o ritmo acontece nesse entre.
se eu soubesse desenhar o resto da água
que se abanca em gelo nos polos
ou a cobertura de musgo que vive na sombra
e com o vento não se arranca embora
movimente sutilmente quando chove
ah! sorriria. como não sei, sorrio também
pois há um meio: dar o meu rosto: dizer.
e ofereço meu próprio corpo a ser:
arbusto e água corrente, vento já não sei
o que engloba o que me olha.
mas, pois, que escrevo
tenho o meu lugar.
e embora ambos se confundam um no outro
(assim como o meu pai é o meu avô
e ambos são as fusões do magma celeste)
eles me querem a escrever: então escrevo.
e como minha melhor amiga vai ler: escrevo.
e como eu mesma encontro o que dizer: escrevo:
há leveza nos ombros e limpeza nos olhos.
já se percebeu que entre planta e planeta
há só um "e" escrito a mais
o que isto quer dizer?
que criar raízes é o mesmo que fazer órbitas.
e o ritmo acontece nesse entre.
se eu soubesse desenhar o resto da água
que se abanca em gelo nos polos
ou a cobertura de musgo que vive na sombra
e com o vento não se arranca embora
movimente sutilmente quando chove
ah! sorriria. como não sei, sorrio também
pois há um meio: dar o meu rosto: dizer.
e ofereço meu próprio corpo a ser:
arbusto e água corrente, vento já não sei
o que engloba o que me olha.
mas, pois, que escrevo
tenho o meu lugar.
acho uma coisa impressionante como participam
do reino dos assuntos, todos
numa velocidade de semana a semana
e ficam todos assuntando a mesma coisa e trocam e trocam e trocam.
o reino dos assuntos é veloz,
deslocalizado.
não
tem
nem
onde
passar uma (lírica?) bola de feno
numa estrada deserta
num faroeste em que mocinho e bandido
vão duelar e quem vai vencer?
ninguém sabe quem.
no reino dos assuntos não dá tempo
nem de ver a bola de feno rolando no pó da areia
nem de ouvir a trilha sonora
nem de ver nos olhos do bandido o reflexo do homem bom
que ele foi, talvez ainda seja ?
quando cuida de quem quer bem.
no reino dos assuntos isso tudo parece
mas nada interessa de fato ao reino dos assuntos
a não ser ele mesmo
O Reino dos Assuntos
em seu mecanismo
trucidante e pouco imaginativo.
o reino dos assuntos
tem por inimigo de fronteiras o reino do silêncio
da espera
do entendimento
e, sobretudo, da passagem do tempo.
do reino dos assuntos, todos
numa velocidade de semana a semana
e ficam todos assuntando a mesma coisa e trocam e trocam e trocam.
o reino dos assuntos é veloz,
deslocalizado.
não
tem
nem
onde
passar uma (lírica?) bola de feno
numa estrada deserta
num faroeste em que mocinho e bandido
vão duelar e quem vai vencer?
ninguém sabe quem.
no reino dos assuntos não dá tempo
nem de ver a bola de feno rolando no pó da areia
nem de ouvir a trilha sonora
nem de ver nos olhos do bandido o reflexo do homem bom
que ele foi, talvez ainda seja ?
quando cuida de quem quer bem.
no reino dos assuntos isso tudo parece
mas nada interessa de fato ao reino dos assuntos
a não ser ele mesmo
O Reino dos Assuntos
em seu mecanismo
trucidante e pouco imaginativo.
o reino dos assuntos
tem por inimigo de fronteiras o reino do silêncio
da espera
do entendimento
e, sobretudo, da passagem do tempo.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
o verão em lisboa está meio mentiroso
mas eu não.
veja que as religiões só ensinam a confeitaria
mas eu não.
sou um albatroz
com uma plaquinha pendurada no pescoço.
é de aço
quando abro as asas
faz tlim-tlim.
só depois de vencer o seu peso
tornando-o meu corpo
alço o céu.
na plaquinha
do albatroz que sou
se lê
APRENDIZ
estou em alfabetização.
mas eu não.
veja que as religiões só ensinam a confeitaria
mas eu não.
sou um albatroz
com uma plaquinha pendurada no pescoço.
é de aço
quando abro as asas
faz tlim-tlim.
só depois de vencer o seu peso
tornando-o meu corpo
alço o céu.
na plaquinha
do albatroz que sou
se lê
APRENDIZ
estou em alfabetização.
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
Fumaça
-->
não posso deixar essa ilha sem escrever sobre o Fumaça.
filho de Pimenta, irmão de mesma barriga do Veneno, todo mundo acha que ele é muito mais velho (e mais bonzinho) do que o irmão. mas esse talvez não seja o maior equívoco de interpretação na sua história. este quem cometeu fui eu.
quando conheci o Fumaça em março eu achei que ele era mais um cão desses honestos, que não ligam de ficarem gordos e bobos, afinal nada nada nada é mais interessante no planeta terra do que comida. o fato de que ele exalava de maneira, digamos, tão forte, devia ser mesmo um resultado dele não fazer distinção entre os comestíveis, preferindo, sem dúvida, as proteínas e as gorduras.
como ele não tinha dos cheiros mais delicados dessa localidade, em março eu evitei tocar muito nele, preferindo as festinhas de presentes com comida mesmo. eu era hóspede, ele percebe a diferença, fez-se aquele limite entre nós.
quando nós voltamos em maio, percebi logo que o mais imprevisto, com a sua preguiça e gosto por ser ele mesmo, era muito mais ele do que o Veneno, que só tem cara de Cérbero, mas é o mais fiel (e dependente) cão do planeta. porém, verdade seja dita, se por um lado é o Fumaça que mata os saruês e ratazanas, que passam pelo seu caminho; e que morre de vontade de um dia conseguir pegar o Gleice de jeito; também foi o Fumaça quem primeiro acolheu e brincou com os pequenos cachorrinhos, que são órfãos, aliás.
mas essas percepções não foram suficientes pra que eu me aproximasse do Fumaça. e nem mesmo a insistência dos seus olhares e do ato quase reflexo da sua pata de unhas duras se levantando e batendo na coxa da gente, como quem diz ATENÇÃO EU! nem assim eu dei pro Fumaça aquilo tudo que ele merece. biscoitos, carinhos leves na orelha, pedaços da gordura da carne, cabeças assadas de peixe, sim, mas ainda não aquele abraço em que a gente vive governado.
acontece que o Fumaça tem um tipo de sarna que é de nascença, que o filhote pega da mãe. e essa sarna apareceu pequena, na pata dele, tão logo os donos dele o deixaram pra gente cuidar. eu tinha em mãos um sabonete com enxofre, e um spray antiséptico, com a instrução de aplicá-los durante três dias e tudo ok.
com que custo! eu tirava o Fumaça da cama dele, onde ele é capaz até de comer os restos de alguma coisa sem nem virar de lado. o Fumaça e a cama dele tem um velcro tão resistente, com seus muitos quilos e a força gravitacional do planeta, que eu só conseguia depois de muitas tentativas fazer com que ele se levantasse e fosse até a árvore onde eu o amarrava ao lado da mangueira do jardim. e como, afinal, se fosse comigo, que um desconhecido me arrancasse do meu conforto e me levasse pra onde eu não gosto, como eu mesma reagiria agressivamente, eu não tinha confiança na amizade daquele animal. apliquei os três dias e ok, pensei "passou", e deixei estar. eu, que era uma ignorante em termos de sarna.
menos de um mês depois, Carlinhos passou aqui, o Fumaça fez um carinho nele, virou o pescoço pra cima, até que Carlinhos disse "vixi! ele tá cheio de sarna!". era verdade: de tanto coçar a pata, todo o focinho dele, nas laterais e por baixo, e também logo embaixo do nariz, estavam cobertos de sarna e a pata do lado da primeira pata com sarna, também estava contaminada. eu não tinha reparado porque não sabia que sarna era uma coisa rosa. rosa não era pra ser inofensivo? cada engano nos passam as cores...
e então não tinha mais jeito, a gente ia ter que se aproximar. não dava pra seguir o conhecimento do Carlinhos, de que aqui matam sarna de cachorro com uma mistura de pólvora e suco de limão, que mata tanto na hora imediata que a boca do cão precisa ser amarrada, se não ele sai mordendo tudo que estiver pela frente.
meu pai estava aqui e me ensinou que a sarna é um ácaro, e que essas formas inferiores de vida morrem sufocadas com óleo, coisa que eu já sabia que funcionava com carrapatos. pesquisei na internet e descobri que melhor ainda se fosse morno. comecei a aplicar óleo no Fumaça, e o Fumaça gordo como é, vocês podem imaginar, o Fumaça adorou o óleo. adorou tanto, lambia tanto, que não dava pra saber se os ácaros tinham se sufocado ou não. e o Fumaça contente todo lambuzado, a areia prendendo nele, que adora uma boa porcaria & ele lambendo o óleo e a areia, uma maravilha!
e a sarna lá. aumentando. não tardou apareceram feridas abertas, cheias de sangue. quanto mais feridas mais culpada eu ia me sentindo, e ficava concentrada em não deixar aquilo crescer. limpava com sabão, passava o spray, e depois o óleo morno também. até aquele momento eu também não sabia que o tipo de sarna dele não passa nem pra outros cães, muito menos pra gente. eu imaginava com terror que todos os cães da casa iam ser comidos por aqueles ácaros, e então a visão do horror virou uma questão de espécie contra espécie: aí, humanidade, a guerra contra os ácaros a gente luta, a gente luta pra vencer?
como pessoa do nosso tempo que sou, procurei no google "remédios caseiros contra sarna": óleo + pó de enxofre.
como pessoa neta de pai de santo que sou, descobri uma planta cujo sumo apertado, mata pulgas, carrapatos e sarna. aqui na ilha ela se chama corana, mas as coranas que aparecem no google não são a mesma.
então, resolvi vencer, como 2+2+2+2+2 devem dar n'algum lugar: durante uns 10 dias intercalei óleo de copaíba, óleo de mamona, sabonete de enxofre, spray antiséptico, pedaços de babosa, sumo de corana, aplicações esporádicas de pó de enxofre com óleo de soja... e, pra ganhar, foi importante perder: perdi o nojo que eu tinha das feridas, perdi o medo que eu tinha que ele me mordesse. depois de uns dias eu mexia dentro da boca dele, com a cara há 2cm dos dentões dele e ele, por mais que não gostasse, ficava ali presente em confiança e segurança. eu nem me lembrava mais do medo.
sinceramente, foi tanta coisa, que não sei o que foi que o curou.
provavelmente foi um passeio, quando ele já estava quase bom. quando chegamos na praia de Bainema, a maré estava muito baixa, mas lá as ondas se mantém suficientes pra que sempre haja mar. o Fumaça estava felicíssimo de estarmos no sol, juntos e foi me puxando pra dentro do mar. andamos por uns quilômetros com a água nos meus joelhos, ou seja, cobrindo o peito dele.
todas as vezes que eu tentava voltar pra areia ele não deixava. entendi e respeitei que o remédio dele era não só o sal, o iodo, a água, a memória do mundo, o mar, como a própria felicidade com que ele me olhava em retribuição. naquele dia o Fumaça, correndo em direção ao mar, e me puxando pela coleira e olhando pra trás, como quem diz, "confia", o Fumaça me deu um fulminante olhar de amor e gratidão, que sem exagero, eu juro que nunca mais vou me esquecer.
é isso: Fumaça me ensinou o antigo e vivo óbvio: que o amor é, muitas vezes, uma sarna. e nela se descobre. sarna que vale cada um dos cuidados que a gente tem.
filho de Pimenta, irmão de mesma barriga do Veneno, todo mundo acha que ele é muito mais velho (e mais bonzinho) do que o irmão. mas esse talvez não seja o maior equívoco de interpretação na sua história. este quem cometeu fui eu.
quando conheci o Fumaça em março eu achei que ele era mais um cão desses honestos, que não ligam de ficarem gordos e bobos, afinal nada nada nada é mais interessante no planeta terra do que comida. o fato de que ele exalava de maneira, digamos, tão forte, devia ser mesmo um resultado dele não fazer distinção entre os comestíveis, preferindo, sem dúvida, as proteínas e as gorduras.
como ele não tinha dos cheiros mais delicados dessa localidade, em março eu evitei tocar muito nele, preferindo as festinhas de presentes com comida mesmo. eu era hóspede, ele percebe a diferença, fez-se aquele limite entre nós.
quando nós voltamos em maio, percebi logo que o mais imprevisto, com a sua preguiça e gosto por ser ele mesmo, era muito mais ele do que o Veneno, que só tem cara de Cérbero, mas é o mais fiel (e dependente) cão do planeta. porém, verdade seja dita, se por um lado é o Fumaça que mata os saruês e ratazanas, que passam pelo seu caminho; e que morre de vontade de um dia conseguir pegar o Gleice de jeito; também foi o Fumaça quem primeiro acolheu e brincou com os pequenos cachorrinhos, que são órfãos, aliás.
mas essas percepções não foram suficientes pra que eu me aproximasse do Fumaça. e nem mesmo a insistência dos seus olhares e do ato quase reflexo da sua pata de unhas duras se levantando e batendo na coxa da gente, como quem diz ATENÇÃO EU! nem assim eu dei pro Fumaça aquilo tudo que ele merece. biscoitos, carinhos leves na orelha, pedaços da gordura da carne, cabeças assadas de peixe, sim, mas ainda não aquele abraço em que a gente vive governado.
acontece que o Fumaça tem um tipo de sarna que é de nascença, que o filhote pega da mãe. e essa sarna apareceu pequena, na pata dele, tão logo os donos dele o deixaram pra gente cuidar. eu tinha em mãos um sabonete com enxofre, e um spray antiséptico, com a instrução de aplicá-los durante três dias e tudo ok.
com que custo! eu tirava o Fumaça da cama dele, onde ele é capaz até de comer os restos de alguma coisa sem nem virar de lado. o Fumaça e a cama dele tem um velcro tão resistente, com seus muitos quilos e a força gravitacional do planeta, que eu só conseguia depois de muitas tentativas fazer com que ele se levantasse e fosse até a árvore onde eu o amarrava ao lado da mangueira do jardim. e como, afinal, se fosse comigo, que um desconhecido me arrancasse do meu conforto e me levasse pra onde eu não gosto, como eu mesma reagiria agressivamente, eu não tinha confiança na amizade daquele animal. apliquei os três dias e ok, pensei "passou", e deixei estar. eu, que era uma ignorante em termos de sarna.
menos de um mês depois, Carlinhos passou aqui, o Fumaça fez um carinho nele, virou o pescoço pra cima, até que Carlinhos disse "vixi! ele tá cheio de sarna!". era verdade: de tanto coçar a pata, todo o focinho dele, nas laterais e por baixo, e também logo embaixo do nariz, estavam cobertos de sarna e a pata do lado da primeira pata com sarna, também estava contaminada. eu não tinha reparado porque não sabia que sarna era uma coisa rosa. rosa não era pra ser inofensivo? cada engano nos passam as cores...
e então não tinha mais jeito, a gente ia ter que se aproximar. não dava pra seguir o conhecimento do Carlinhos, de que aqui matam sarna de cachorro com uma mistura de pólvora e suco de limão, que mata tanto na hora imediata que a boca do cão precisa ser amarrada, se não ele sai mordendo tudo que estiver pela frente.
meu pai estava aqui e me ensinou que a sarna é um ácaro, e que essas formas inferiores de vida morrem sufocadas com óleo, coisa que eu já sabia que funcionava com carrapatos. pesquisei na internet e descobri que melhor ainda se fosse morno. comecei a aplicar óleo no Fumaça, e o Fumaça gordo como é, vocês podem imaginar, o Fumaça adorou o óleo. adorou tanto, lambia tanto, que não dava pra saber se os ácaros tinham se sufocado ou não. e o Fumaça contente todo lambuzado, a areia prendendo nele, que adora uma boa porcaria & ele lambendo o óleo e a areia, uma maravilha!
e a sarna lá. aumentando. não tardou apareceram feridas abertas, cheias de sangue. quanto mais feridas mais culpada eu ia me sentindo, e ficava concentrada em não deixar aquilo crescer. limpava com sabão, passava o spray, e depois o óleo morno também. até aquele momento eu também não sabia que o tipo de sarna dele não passa nem pra outros cães, muito menos pra gente. eu imaginava com terror que todos os cães da casa iam ser comidos por aqueles ácaros, e então a visão do horror virou uma questão de espécie contra espécie: aí, humanidade, a guerra contra os ácaros a gente luta, a gente luta pra vencer?
como pessoa do nosso tempo que sou, procurei no google "remédios caseiros contra sarna": óleo + pó de enxofre.
como pessoa neta de pai de santo que sou, descobri uma planta cujo sumo apertado, mata pulgas, carrapatos e sarna. aqui na ilha ela se chama corana, mas as coranas que aparecem no google não são a mesma.
então, resolvi vencer, como 2+2+2+2+2 devem dar n'algum lugar: durante uns 10 dias intercalei óleo de copaíba, óleo de mamona, sabonete de enxofre, spray antiséptico, pedaços de babosa, sumo de corana, aplicações esporádicas de pó de enxofre com óleo de soja... e, pra ganhar, foi importante perder: perdi o nojo que eu tinha das feridas, perdi o medo que eu tinha que ele me mordesse. depois de uns dias eu mexia dentro da boca dele, com a cara há 2cm dos dentões dele e ele, por mais que não gostasse, ficava ali presente em confiança e segurança. eu nem me lembrava mais do medo.
sinceramente, foi tanta coisa, que não sei o que foi que o curou.
provavelmente foi um passeio, quando ele já estava quase bom. quando chegamos na praia de Bainema, a maré estava muito baixa, mas lá as ondas se mantém suficientes pra que sempre haja mar. o Fumaça estava felicíssimo de estarmos no sol, juntos e foi me puxando pra dentro do mar. andamos por uns quilômetros com a água nos meus joelhos, ou seja, cobrindo o peito dele.
todas as vezes que eu tentava voltar pra areia ele não deixava. entendi e respeitei que o remédio dele era não só o sal, o iodo, a água, a memória do mundo, o mar, como a própria felicidade com que ele me olhava em retribuição. naquele dia o Fumaça, correndo em direção ao mar, e me puxando pela coleira e olhando pra trás, como quem diz, "confia", o Fumaça me deu um fulminante olhar de amor e gratidão, que sem exagero, eu juro que nunca mais vou me esquecer.
é isso: Fumaça me ensinou o antigo e vivo óbvio: que o amor é, muitas vezes, uma sarna. e nela se descobre. sarna que vale cada um dos cuidados que a gente tem.
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animais desta ilha
sábado, 2 de agosto de 2014
um epitáfio
meu querido ipod
que o eduardo me deu
era branco e funcionava
como poucos desde 2006
o eduardo é budista
o desapego é a liga
ah mas eu mas eu ah mas eu ah
mas eu mas eu ah mas eu
ouço a música dos passarinhos
do coaxar das rãs
das libélulas e no alto-mar
& não é o bastante
quero aquele rock cintilante
o abajour do meu crânio
quebrou, eu sei não
ligar pra essas coisas
o que será do metrô lotado
ah o que será do meu heroísmo
urbano, cavalgante
a velocidade passando em trinados
ah como poderei andar
sem mp3 ah amputaram-me
a perna ah perdi o meu baço
ah que exagero
vou fazer um epitáfio.
,
que o eduardo me deu
era branco e funcionava
como poucos desde 2006
o eduardo é budista
o desapego é a liga
ah mas eu mas eu ah mas eu ah
mas eu mas eu ah mas eu
ouço a música dos passarinhos
do coaxar das rãs
das libélulas e no alto-mar
& não é o bastante
quero aquele rock cintilante
o abajour do meu crânio
quebrou, eu sei não
ligar pra essas coisas
o que será do metrô lotado
ah o que será do meu heroísmo
urbano, cavalgante
a velocidade passando em trinados
ah como poderei andar
sem mp3 ah amputaram-me
a perna ah perdi o meu baço
ah que exagero
vou fazer um epitáfio.
,
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
agosto
agosto começa sempre
não me lembro bem
quando eu era criança
voltávamos pras aulas
e eu já não tinha a ansiedade
do primeiro dia em fevereiro
e também não me incomodava
trocar a umidade de casa
pelos bancos frios da escola.
agosto não era muita coisa
além de no meio um dia
que minha mãe ficava triste
pois era o aniversário do meu avô
agosto não era muita coisa
além de no fim o aniversário
do meu irmão, meu herói patinador.
agosto não me dava desgosto
agosto não fazia os cachorros loucos
agosto passava como não.
meu mês era janeiro já é a revolução
porém nos destinos diversos
de uma mesma Terra fui errante
para o outro hemisfério
e embora lá não falassem a minha língua
a gente se entendia
e eu tinha (e tenho) muito a aprender.
inclusive sobre agosto.
agosto das auto-estradas lotadas
agosto das amêijoas
agosto de passar acampada
agosto de arranjar namorado
agosto de ir à praia no mesmo dia e voltar
agosto de muita música
agosto de nunca ficar doente
nem sofrer com essa dor de dentes
agosto místico & mítico
espalhado o corpo pelos 40 graus
de um jeito que nem as moscas voam
de calor.
agosto quando o vento do Saara traz areia
e as janelas e os carros amanhecem vermelhas
agosto das florestas incendiadas, dos bombeiros queimando de tantas chamadas
agosto do esquecimento da melancolia
agosto de nunca dormir
e quando dormir, dormir tão bem.
nada suposto
agosto se faz
agosto.
não me lembro bem
quando eu era criança
voltávamos pras aulas
e eu já não tinha a ansiedade
do primeiro dia em fevereiro
e também não me incomodava
trocar a umidade de casa
pelos bancos frios da escola.
agosto não era muita coisa
além de no meio um dia
que minha mãe ficava triste
pois era o aniversário do meu avô
agosto não era muita coisa
além de no fim o aniversário
do meu irmão, meu herói patinador.
agosto não me dava desgosto
agosto não fazia os cachorros loucos
agosto passava como não.
meu mês era janeiro já é a revolução
porém nos destinos diversos
de uma mesma Terra fui errante
para o outro hemisfério
e embora lá não falassem a minha língua
a gente se entendia
e eu tinha (e tenho) muito a aprender.
inclusive sobre agosto.
agosto das auto-estradas lotadas
agosto das amêijoas
agosto de passar acampada
agosto de arranjar namorado
agosto de ir à praia no mesmo dia e voltar
agosto de muita música
agosto de nunca ficar doente
nem sofrer com essa dor de dentes
agosto místico & mítico
espalhado o corpo pelos 40 graus
de um jeito que nem as moscas voam
de calor.
agosto quando o vento do Saara traz areia
e as janelas e os carros amanhecem vermelhas
agosto das florestas incendiadas, dos bombeiros queimando de tantas chamadas
agosto do esquecimento da melancolia
agosto de nunca dormir
e quando dormir, dormir tão bem.
nada suposto
agosto se faz
agosto.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
sexta-feira, 25 de julho de 2014
viva canetti
meu grande amigo daniel tinha me avisado que havia certo risco em terminar o mestrado; que era o problema de depois de ter tantos lidos atravessado não conseguir, não querer, não ter vontade de ler nenhum autor, passar léguas nadando no vazio do não-escrito. foi o que me aconteceu durante coisa de um ano e meio.
somado a isso, como estudei poetas e ensaios na minha dissertação, devia fazer uns anos que eu não lia assim (com a dedicação do pleno absoluto mais que inteiro e vigoroso amor) nenhum prosador, romancista, nenhum desses grandes álibis do gozo para o tempo que passa pensante.
então esse ano fui ler o elias canetti, já que tanto carolina como cícero haviam me falado dele.
acho que é no segundo volume da sua biografia que o canetti fala da importância dos autores que nos aparecem quando nós consideramos que tudo está esgotado, de como há regeneração em tudo que está ao nosso redor quando descobrimos que determinado escritor nos será pra sempre um determinante.
não preciso nem dizer que o meu fogo, o princípio retornante do meu caminho, e que fica, foi e é o elias canetti.
hoje ele faria 109 anos.
e vai continuar fazendo.
somado a isso, como estudei poetas e ensaios na minha dissertação, devia fazer uns anos que eu não lia assim (com a dedicação do pleno absoluto mais que inteiro e vigoroso amor) nenhum prosador, romancista, nenhum desses grandes álibis do gozo para o tempo que passa pensante.
então esse ano fui ler o elias canetti, já que tanto carolina como cícero haviam me falado dele.
acho que é no segundo volume da sua biografia que o canetti fala da importância dos autores que nos aparecem quando nós consideramos que tudo está esgotado, de como há regeneração em tudo que está ao nosso redor quando descobrimos que determinado escritor nos será pra sempre um determinante.
não preciso nem dizer que o meu fogo, o princípio retornante do meu caminho, e que fica, foi e é o elias canetti.
hoje ele faria 109 anos.
e vai continuar fazendo.
quarta-feira, 23 de julho de 2014
6
Juventude, como eras outrora diferente! Não haverá súplicas
Que te façam jamais voltar? Existirá algum caminho de regresso?
Acontecer-me-á o mesmo que aos descrentes que no passado
Mesmo assim se sentaram no banquete divino com brilho no olhar,
Mas, em breve saciados, esses convidados em delírio,
Emudeceram então e agora, sob o canto das brisas,
Adormeceram sob a terra em flor, até que alguma vez
O poder de um milagre, aos que pereceram, faça
Regressar e de novo mover-se sobre o solo verdejante.
Um sopro sagrado percorre divinamente a figura de luz,
Quando a festa se anima e se agitam vagas de amor,
E na embriaguez celeste a torrente viva rumoreja,
Quando soa no subsolo, e a noite oferece os seus tesouros,
E, subindo à tona de ribeiros, o ouro enterrado cintila.
- - -
Hölderlin
Pranto de Ménon por Diotima — Elegias
Tradução de Maria Teresa Dias Furtado
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amigos amigos negócios reparte
sábado, 19 de julho de 2014
e cantar, e cantar, e cantar
para Maria Archer
Nós somos o fogo
somos também o telhado
em tantos jaguares
aves, confins já fui
transformada. E tive rumo.
Hoje não estou transtornada.
Nem tenho que quebrar
linhas pois sou aquele
que não cessa: o selvagem.
Ó selvagem comedor de linhas!
Que a nossa canção se faça
suficiente: manta de lã luminosa
E sem porquê utilizada. Amada!
Amam-se as peças & os ancestrais
se gastam. E se gestam.
Onde deus fez a morada.
segunda-feira, 14 de julho de 2014
uns dias atrás concluí
que as saudades que eu sinto de Lisboa às vezes são tão grandes que mofa nelas.
domingo, 13 de julho de 2014
the soil, the soul,
Tenho sido entregue
às mais escuras
das noites mudas.
Que posso eu?
No entre desses espinhos?
Ando tão baixo
quanto as formigas
mas se arbusto não sou
por que tenho vivido
eu coberta de espinhos?
Da queda fez-se um ninho
maceradas folhas de sombra
abrigam o meu corpo.
É o esquecimento da terra.
Mas por que, por que
vesti-me de espinhos?
Se soy el temblor, o lugar
onde o trovão diz
EU é o meu peito
alargado.
às mais escuras
das noites mudas.
Que posso eu?
No entre desses espinhos?
Ando tão baixo
quanto as formigas
mas se arbusto não sou
por que tenho vivido
eu coberta de espinhos?
Da queda fez-se um ninho
maceradas folhas de sombra
abrigam o meu corpo.
É o esquecimento da terra.
Mas por que, por que
vesti-me de espinhos?
Se soy el temblor, o lugar
onde o trovão diz
EU é o meu peito
alargado.
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a casa dos nietzscheanos
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Gleice
quem vê assim uma imagem do Gleice terá a impressão de que ele é um gato qualquer, certamente portador da distinção audaz que só um felino é capaz, mas um comum. e, sim, terá razão, afinal o Gleice é só mais um vira-lata muito misturado de raízes peludas e famintas.
mas o Gleice é muito mais do que isto! embora eu não conheça muitas coisas, de gatos percebo imensas e juro que o Gleice é o gato mais legal que já conheci. é um gato completo, de desenho animado, digo que o contratem para ser quem ele é, que o sucesso será (pois já é) absoluto.
a saga que podemos contar do bichano começou com Gleice miando para a noite sem mãe da capital da Bahia, quando Wölf (um alemão aportado no Brasil pelo acaso de uma vela quebrada no veleiro em que ia desde Gibraltar para o Chile) ouviu o pequeno de poucas semanas ávido por comida, desesperado de órfão. Wölf, que nunca tinha tido nenhum animal na vida, e que não tinha muitos lugares além de estar naufrago e não tardar em ir de carona até a Bolívia, resolveu que salvaria o pequeno.
se escondem nos miúdos felinos mil mistérios e como nunca tinha tido um gato, o alemão achou que nosso príncipe era uma princesa, e assim o chamou de Grace Kelly. Wölf alimentou Grace em conta-gotas, e levou-a para todos os lugares pelos quais viajou. primeiro foi trabalhar em Arembepe, lá se apaixonou e lá salvou Grace de uma matilha de 16 cachorros. vieram os apaixonados com Grace para esta ilha, e foi assim que nós nos conhecemos.
em março comíamos um bolinho de aipim num bar na praia quando um gatinho filhote veio na nossa direção, subiu no meu colo, roubou a minha comida e brigou com a minha mão até o fim dos dias. era a Grace. logo o filhote voltou para o colo do seu dono, quer dizer, para o dentro da camiseta do Wölf, que era sua casinha de transporte já fazia dois meses. percebendo que nós tínhamos ficado amigos, a namorada de Wölf veio nos perguntar se sabíamos de algum bom lugar em que o gato pudesse ficar, pois cada um seguiria o seu rumo e aqui nesta ilha não entram carros, o que eles consideraram como um bom lugar para um gato. acho que não notaram de imediato que a maior parte dos animais aqui passa fome, mas isso é outra novela.
no fim do dia Grace já tinha esta casa como sua, e também o meu veredicto de que os alemães estavam, nesse caso, enganados, e que a pequena era, na verdade, um pequeno. Grace em Gleice, assim é transformista. no dia-a-dia Gleice tem ganhado outros apelidos, sendo o meu preferido Glaisson Carlos, ou Gleice Jr.
o medo que todos tiveram era da convivência do filhote com os cachorros grandes, que aqui são muitos. mas hoje, passados alguns meses, o que acontece? Gleice atravessa colado no Fumaça e no Veneno, cães grandes, e dá patadas no focinho deles, como quem diz "se enxerga, seu canino". depois Gleice come da comida e da água deles, se lambe com sua superioridade.
raramente se vê em apuros, mas quando tem de correr pra cima de uma árvore, passando lá um tempão, miando, pedindo ajuda, com os dois agigantados rosnando embaixo. então Gleice tem de correr mais rápido que um disparo de pistola, e corre. às vezes cai num resto de água, e todo achincalhado continua se considerando o maior o melhor o mais feliz, e dá-lhe patadas no focinho dos cães.
com os cachorros, os filhotes, Gleice brinca como se fosse um deles, e não entende suas estratégias de mordidas, salta por cima em inesperados, e depois vai embora roubar comida dos hóspedes. sobe em cima de qualquer mesa pra comer qualquer coisa, de mamão à lagosta, dando a certeza de que sua fome é hereditária.
mata toda espécie de animal que se mexa, grilos, gafanhotos, lagartixas, ratos, besouros, desde que não sejam maiores do que ele. atualmente anda assassinando uma média de três ratos por semana. dia desses matou um ratinho muito filhote, e andava com ele ainda vivo na boca, o ratinho apitando a cada passo que Gleice dava, parecia uma piada, não fosse Gleice nesses momentos o mais sério dos felinos, já que com uma presa entre os dentes, Gleice rosna como um leão.
e grita! Gleice é desses gatos conversadores, que você fala com ele & ele responde. o mais engraçado é quando a gente vai na praia e ele, que foi nômade com o alemão, não está acostumado em não poder seguir onde quer que seja alguém, e fica furioso quando levamos um cachorro, e não ele, pra passear. grita, grita, grita, anda alguns metros e reclama. ataca siris, e mais ainda, ataca as ondas do mar quando elas lhe molham os pés. dá patadas no mar como se fossem um focinho de cão.
juro, juramos que duas vezes já o vimos entrando no mar pra acompanhar os nossos banhos. é certo que ele não entende direito o que é o acontecimento do mergulho, e que graça é que pode ter?, e meio enojadinho, com aquele comum enjôo dos gatos, agita a patinha num frisson-me-solta. mas, como a vontade de estar perto de Gleice é maior do que qualquer outra coisa, ele prefere ficar encharcado do que não se aproximar de nós.
que se diga isso quando ele está no nosso colo ou deitado na mesma cama. basta ter um tecido grosso, tipo uma manta ou uma rede, pra que Gleice mame como um bebê, fazendo de qualquer calor a mãe que ele perdeu e que encontra em toda parte. afinal, o que não falta pra esse gato é a mãe da Terra, a alegria, não tem tempo ruim, tudo é mesmo interessante,
as onças pensam só "bom-bom-bonito-bonito" já dizia João Guimarães Rosa, e Gleice estende tal certeza a todos os felinos.
sendo dos mais brincalhões, adora espertar a gente em sustos, se você estiver andando no meio da noite, no entre das pequenas trilhas e, de repente, um animal saltar em cima das suas canelas, pode ter certeza, é Gleice fazendo de ti aquilo que ele mais sabe: um inimigo-amigo, um feroz como ele, um vivíssimo.
mas o Gleice é muito mais do que isto! embora eu não conheça muitas coisas, de gatos percebo imensas e juro que o Gleice é o gato mais legal que já conheci. é um gato completo, de desenho animado, digo que o contratem para ser quem ele é, que o sucesso será (pois já é) absoluto.
a saga que podemos contar do bichano começou com Gleice miando para a noite sem mãe da capital da Bahia, quando Wölf (um alemão aportado no Brasil pelo acaso de uma vela quebrada no veleiro em que ia desde Gibraltar para o Chile) ouviu o pequeno de poucas semanas ávido por comida, desesperado de órfão. Wölf, que nunca tinha tido nenhum animal na vida, e que não tinha muitos lugares além de estar naufrago e não tardar em ir de carona até a Bolívia, resolveu que salvaria o pequeno.
se escondem nos miúdos felinos mil mistérios e como nunca tinha tido um gato, o alemão achou que nosso príncipe era uma princesa, e assim o chamou de Grace Kelly. Wölf alimentou Grace em conta-gotas, e levou-a para todos os lugares pelos quais viajou. primeiro foi trabalhar em Arembepe, lá se apaixonou e lá salvou Grace de uma matilha de 16 cachorros. vieram os apaixonados com Grace para esta ilha, e foi assim que nós nos conhecemos.
em março comíamos um bolinho de aipim num bar na praia quando um gatinho filhote veio na nossa direção, subiu no meu colo, roubou a minha comida e brigou com a minha mão até o fim dos dias. era a Grace. logo o filhote voltou para o colo do seu dono, quer dizer, para o dentro da camiseta do Wölf, que era sua casinha de transporte já fazia dois meses. percebendo que nós tínhamos ficado amigos, a namorada de Wölf veio nos perguntar se sabíamos de algum bom lugar em que o gato pudesse ficar, pois cada um seguiria o seu rumo e aqui nesta ilha não entram carros, o que eles consideraram como um bom lugar para um gato. acho que não notaram de imediato que a maior parte dos animais aqui passa fome, mas isso é outra novela.
no fim do dia Grace já tinha esta casa como sua, e também o meu veredicto de que os alemães estavam, nesse caso, enganados, e que a pequena era, na verdade, um pequeno. Grace em Gleice, assim é transformista. no dia-a-dia Gleice tem ganhado outros apelidos, sendo o meu preferido Glaisson Carlos, ou Gleice Jr.
o medo que todos tiveram era da convivência do filhote com os cachorros grandes, que aqui são muitos. mas hoje, passados alguns meses, o que acontece? Gleice atravessa colado no Fumaça e no Veneno, cães grandes, e dá patadas no focinho deles, como quem diz "se enxerga, seu canino". depois Gleice come da comida e da água deles, se lambe com sua superioridade.
raramente se vê em apuros, mas quando tem de correr pra cima de uma árvore, passando lá um tempão, miando, pedindo ajuda, com os dois agigantados rosnando embaixo. então Gleice tem de correr mais rápido que um disparo de pistola, e corre. às vezes cai num resto de água, e todo achincalhado continua se considerando o maior o melhor o mais feliz, e dá-lhe patadas no focinho dos cães.
com os cachorros, os filhotes, Gleice brinca como se fosse um deles, e não entende suas estratégias de mordidas, salta por cima em inesperados, e depois vai embora roubar comida dos hóspedes. sobe em cima de qualquer mesa pra comer qualquer coisa, de mamão à lagosta, dando a certeza de que sua fome é hereditária.
mata toda espécie de animal que se mexa, grilos, gafanhotos, lagartixas, ratos, besouros, desde que não sejam maiores do que ele. atualmente anda assassinando uma média de três ratos por semana. dia desses matou um ratinho muito filhote, e andava com ele ainda vivo na boca, o ratinho apitando a cada passo que Gleice dava, parecia uma piada, não fosse Gleice nesses momentos o mais sério dos felinos, já que com uma presa entre os dentes, Gleice rosna como um leão.
e grita! Gleice é desses gatos conversadores, que você fala com ele & ele responde. o mais engraçado é quando a gente vai na praia e ele, que foi nômade com o alemão, não está acostumado em não poder seguir onde quer que seja alguém, e fica furioso quando levamos um cachorro, e não ele, pra passear. grita, grita, grita, anda alguns metros e reclama. ataca siris, e mais ainda, ataca as ondas do mar quando elas lhe molham os pés. dá patadas no mar como se fossem um focinho de cão.
juro, juramos que duas vezes já o vimos entrando no mar pra acompanhar os nossos banhos. é certo que ele não entende direito o que é o acontecimento do mergulho, e que graça é que pode ter?, e meio enojadinho, com aquele comum enjôo dos gatos, agita a patinha num frisson-me-solta. mas, como a vontade de estar perto de Gleice é maior do que qualquer outra coisa, ele prefere ficar encharcado do que não se aproximar de nós.
que se diga isso quando ele está no nosso colo ou deitado na mesma cama. basta ter um tecido grosso, tipo uma manta ou uma rede, pra que Gleice mame como um bebê, fazendo de qualquer calor a mãe que ele perdeu e que encontra em toda parte. afinal, o que não falta pra esse gato é a mãe da Terra, a alegria, não tem tempo ruim, tudo é mesmo interessante,
as onças pensam só "bom-bom-bonito-bonito" já dizia João Guimarães Rosa, e Gleice estende tal certeza a todos os felinos.
sendo dos mais brincalhões, adora espertar a gente em sustos, se você estiver andando no meio da noite, no entre das pequenas trilhas e, de repente, um animal saltar em cima das suas canelas, pode ter certeza, é Gleice fazendo de ti aquilo que ele mais sabe: um inimigo-amigo, um feroz como ele, um vivíssimo.
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sexta-feira, 4 de julho de 2014
sábado, 28 de junho de 2014
não tem fim
faz uns 6 anos que não vejo meu psicanalista.
esta noite sonhei com ele.
estávamos os dois num ônibus
daqueles bem lataria barulhenta
sentados lado a lado e olhando pela janela.
de repente perguntei, como quem nada
"ei! e aí?" e ele respondeu primeiro com um silêncio
sutil que foi formando um sorriso de canto de boca
olhou bem pra mim e disse, rindo,
"pois é, estamos vendo a vida passar".
esta noite sonhei com ele.
estávamos os dois num ônibus
daqueles bem lataria barulhenta
sentados lado a lado e olhando pela janela.
de repente perguntei, como quem nada
"ei! e aí?" e ele respondeu primeiro com um silêncio
sutil que foi formando um sorriso de canto de boca
olhou bem pra mim e disse, rindo,
"pois é, estamos vendo a vida passar".
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quarta-feira, 25 de junho de 2014
e um cinto de cometas
Não foi a única vez que vi algo como o nazismo sob o efeito do chá. Houve uma vez ainda antes, que eu estava sozinha na parte de trás do salão, estava sentada muito perto da terra escura e se de olhos abertos eu via as plantas na minha frente, de olhos fechados eu via a guerra. Meu corpo estava muito inclinado para frente, pressionado, para não dizer destruído e incapaz de manter-se ereto no próprio eixo. Até que a guerra tomou conta de tudo, mesmo de olhos abertos eu via milhares de anos de guerras passando em segundos na minha frente. Homens se matando com lanças, mulheres sendo atiradas em fogueiras, pelotões de fuzilamento, corpos estirados em trincheiras, torturas, bombas. A destruição é indiscriminadamente ampla. Sem vitimas, sem heróis. Se olharmos a humanidade sobre um só ponto de vista, quem não veria a história da humanidade como a história da guerra? São complicadas as coisas que pensamos quando estamos muito próximos da destruição. A humanidade naquele momento era uma imensidão de cinzas. O solo da minha visão era cinzento e lodoso, como um charco que estivesse se tornando deserto e não havia preservação ou continuidade de vida. Restos de pessoas sendo arrastados por pessoas em restos. Fome dentro das carnes e troncos de árvores queimados. Havia chegado o dia de depois da guerra. De repente, vi a face do poeta, vi o rosto de Carlos Drummond de Andrade olhando aquilo tudo e pensei “ele, não eu, ele teve mãos para cantar isso”. E senti a dor que o poeta sentia, a dor que ele era capaz de sentir. E eu? “O poeta é isso”, pensei, “ele avisa as pessoas de que não é por aí, mas ninguém o ouve, e ele sabe que mesmo assim ele deve dizer”. Então pensei “deixa, Júlia, a humanidade correr na arena da história” e uma capa vermelha atravessou a minha visão, percebi a manada dos homens e mulheres através dos séculos, desembestada. E que segue. Não sou eu quem vai lhe dizer que fique. E se olhasse nos olhos de si mesma como quando olham os poetas, se veria mais animalesca do que qualquer animal. Livre de todo fardo de ter de avisar alguém resolvi caminhar. Tendo já caminhado um bocado, estando na frente de um barranco e atrás de mim uma luz de estrada, vi a minha sombra refletida na terra vermelha. Como eu tinha um cobertor nas costas, na sombra parecia a capa do pequeno príncipe. “Príncipe? Se sou um príncipe já sei quem sou! Só posso ser Hölderlin! Quando estiver na Europa novamente e falarem em Hölderlin? Hei de responder, Tá falando com ele.”. E fiquei rindo sendo Hölderlin com a minha capa vermelha, mas só na sombra do barranco. E na Europa, claro.
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chá
o que interessa
quem só pode ver o cume, de tão grande que o todo é
quem entende que o canto pode levar a ver, o que é e o que não é
desses, eu sinto saudades.
o que o canto vê, o que o canto mostra, o que o canto transforma.
quem entende que o canto pode levar a ver, o que é e o que não é
desses, eu sinto saudades.
o que o canto vê, o que o canto mostra, o que o canto transforma.
Veneno
fazendo a linha do livro dos animais desta ilha,
hoje vos quero apresentar o Veneno, cuja fama o precede, como o cão mais temido desta ilha, de pessoas mudarem de lado na praia ao vê-lo passar. porém não pode ouvir rojões de artifício explodindo nesses dias de Copa & São João, que Veneno entra embaixo da mesa, com as patas tremilicando, pede apoio enfiando as orelhas nas pernas mais próximas de quem encontrar.
quando chegamos por aqui eu também tinha medo dele, pelos rosnados profundos acompanhados de um fio de baba escorrendo da mandíbula, o olhar de cavalo insondável, desses que atravessa a galope a linha entre o vivo e o que não-é, apelidei-o nos meus segredos de Cérbero.
mas me avisaram: Veneno gosta de pessoas e se associa sobretudo as mulheres. o que pensei ser um exagero, mas em menos de dois dias estava confirmado: não há fidelidade maior do que a do olhar que ele carrega sobre mim. ele me seduz ao ponto de eu, se acreditasse nessas coisas, ter certeza de que fomos amantes em outras situações. se bem que se acreditasse mesmo, teria a certeza de que Veneno foi Don Juan, e o seria em todas as vidas.
atlético e potente, sempre cheirando bem, Veneno é também poderoso e capaz de se soltar em qualquer ocasião, mas somente com a intenção de ir atrás de nós. se estamos junto dele, ele nunca escapa. mas, na maior parte das vezes que passamos mais que poucas horas fora de casa, Veneno encontra um modo de nos encontrar onde estivermos.
no primeiro jogo do Brasil, por exemplo, estávamos voltando da vila, e apareceu o cão, feliz de nos encontrar, batendo o rabo de forma giratória. ou, ontem, há mais de 3 km de casa, meio dormindo tomávamos sol na praia, quando Veneno apareceu uivando para o mar. feliz de estar conosco entrou no mar, nadou, caçou os pássaros que caçam animais na orla, bebeu água dentro de um coco, voltou conosco, sem se meter com nenhum dos pequenos cães que queriam provocá-lo. e não há nada que Veneno sinta mais ciúme do que de cachorrinhos.
é chamar Veneno que Veneno atende.
é uma jóia do senso de comunidade (milenar) que une cães e gentes.
sim, ele está apaixonado & eu também.
hoje vos quero apresentar o Veneno, cuja fama o precede, como o cão mais temido desta ilha, de pessoas mudarem de lado na praia ao vê-lo passar. porém não pode ouvir rojões de artifício explodindo nesses dias de Copa & São João, que Veneno entra embaixo da mesa, com as patas tremilicando, pede apoio enfiando as orelhas nas pernas mais próximas de quem encontrar.
quando chegamos por aqui eu também tinha medo dele, pelos rosnados profundos acompanhados de um fio de baba escorrendo da mandíbula, o olhar de cavalo insondável, desses que atravessa a galope a linha entre o vivo e o que não-é, apelidei-o nos meus segredos de Cérbero.
mas me avisaram: Veneno gosta de pessoas e se associa sobretudo as mulheres. o que pensei ser um exagero, mas em menos de dois dias estava confirmado: não há fidelidade maior do que a do olhar que ele carrega sobre mim. ele me seduz ao ponto de eu, se acreditasse nessas coisas, ter certeza de que fomos amantes em outras situações. se bem que se acreditasse mesmo, teria a certeza de que Veneno foi Don Juan, e o seria em todas as vidas.
atlético e potente, sempre cheirando bem, Veneno é também poderoso e capaz de se soltar em qualquer ocasião, mas somente com a intenção de ir atrás de nós. se estamos junto dele, ele nunca escapa. mas, na maior parte das vezes que passamos mais que poucas horas fora de casa, Veneno encontra um modo de nos encontrar onde estivermos.
no primeiro jogo do Brasil, por exemplo, estávamos voltando da vila, e apareceu o cão, feliz de nos encontrar, batendo o rabo de forma giratória. ou, ontem, há mais de 3 km de casa, meio dormindo tomávamos sol na praia, quando Veneno apareceu uivando para o mar. feliz de estar conosco entrou no mar, nadou, caçou os pássaros que caçam animais na orla, bebeu água dentro de um coco, voltou conosco, sem se meter com nenhum dos pequenos cães que queriam provocá-lo. e não há nada que Veneno sinta mais ciúme do que de cachorrinhos.
é chamar Veneno que Veneno atende.
é uma jóia do senso de comunidade (milenar) que une cães e gentes.
sim, ele está apaixonado & eu também.
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animais desta ilha
terça-feira, 17 de junho de 2014
sobre (não) escrever
foi meu pai quem me ensinou a escrever. não que tenha sido ele a me alfabetizar e ,embora tenha tentado me contar todas as histórias do mundo pra que eu dormisse, nem que ele tivesse esgotado de tanta criação o mundo, nem assim ele teria me ensinado a escrever. uma vez, devia ter uns 9 anos e eu não queria fazer uma redação pra escola porque "não conseguia escrever", foi que meu pai disse: "escreva sobre não conseguir escrever". estava ensinada a escrita.
não sei porque esqueço disso tantas vezes e caio num movimento reflexivo tão agudo e ensimesmado que é um redemoinho de silêncio. quando retorno a escrita é como sinto esse movimento aqui: truncado, gago, minuciosamente equivocado. pouco treinado.
hoje, quando saímos da praia e entramos na trilha, no meio do caminho estavam esses cavalos. ao vê-los, imediatamente pensei sem receio nem culpa, dádiva ou reclusão: talvez eu tenha deixado de escrever pra sempre. então lembrei dos livros que já tenho publicados (não é grande coisa) e "que engraçado. se eu deixasse de escrever hoje e fizesse outra coisa completamente diferente como dirigir um navio, se eu me tornasse xamã, alguma coisa que me consumisse e a qual eu me entregasse tanto que se eu nunca mais tivesse de escrever qualquer coisa que não fossem apontamentos meus e unicamente meus... eu não sentiria angústia, nem liberdade. simplesmente os rumos teriam mudado tanto que eu acolheria os rumos como eles me acolhem: sendo."
depois pensei no raduan nassar. meu analista dizia que achava que ele tinha parado de escrever pois sentia tanto ódio que o ódio o impossibilitava. e eu, se eu deixasse de escrever hoje, pelos grandes motivos da humanidade não seria, mas tão somente porque havia visto cavalos repentinos num caminho perto da praia, cavalos definitivos.
& os cavalos soltos do mundo! sejam. repentinamente me deu vontade de escrever sobre não escrever.
mas, pra pensar o que é não escrever, seria preciso entender o que é a escrita pra mim. pois eu ando por ali e escrevo uns emails onde podem nascer poemas, vou por lá e anoto uns posts no facebook, passo aqui nesse blogue menos do que me apraz, é verdade, verdade que aqui escrevo mais solto do que em qualquer outro lugar... mas, mesmo assim, não sinto que isto seja necessariamente "escrever" no que eu escrevo. são reflexos de segundo perto da formação de uma galáxia. então seria eu tão governada pelo mundo (capricorniano) do mérito, do esforço, que só me considero "escrevendo" quando estou num .doc Ou numa página de caderno que sei que vai virar um "livro", um "poema", um "ensaio"? certamente isso conta um pouco, mas em pequena parte só, pois não é só isso.
astronauta libertado cuja vida me ultrapassa em qualquer rota que eu faça / eu me sinto mesmo escrevendo quando estou escrevendo. falo tanto de cavalos, talvez, pois é o mesmo insondável que vejo nos cavalos e que não sei abarcar, o mesmo insondável que é matéria e órbita / da respiração, do futuro/ é certa atmosfera, certa atmosfera que combina prazer com controle, deslize com critério, ritmo com pensamento, que me faz "escreve"r. "escrever" seria, então, uma sensação?
cabe tanta coisa.
não sou concreta / não sou exata.
dito isso, "não escrever" é, por um lado, a falta de concentração em um trabalho que vai tomando forma de unidade acabada (poema, livro, etc) e, por outro, é a ausência de uma sensação atmosférica advinda do conjunto de Não Sei o Quê com impulsos mecânicos de digitação ou da textura da caneta sobre o papel.
e o que é que essa ausência causa tanto?
repentinamente me deu sono, e este que seria o começo de um texto sobre "o que vivo ao não escrever", que "sensação que não escrever me coloca?", "etc", repentinamente esse texto se tornou escrito e o toda a escrita de hoje. espero amanhã ou depois (os dias numa ilha são cheios de imprevistos), espero continuadamente voltar a escrever sobre não escrever.
evoé, meu pai! a benção, vovô.
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não escrever
sexta-feira, 13 de junho de 2014
de mim
tanto pra dizer. ser um pouco como o aniversariante do dia, não sto. antónio, o maravilhoso fernando pessoa. basta desejar profundo, ser intermitente e agudo. não é pra sempre, nem sei se hoje eu conseguiria. é lancinante.
quando escrevi o poema que escrevi sobre o sr. fernando pessoa e que está no pdddm eu vivia em portugal. se eu vivesse no brasil e escrevesse um poema sobre o sr. fernando pessoa, certamente o poema não seria aquele. hoje eu vivo no brasil, mas ainda não onde eu vivo mesmo, mas não é complicado, nem sou eu quem vai explicar.
o que eu acho que tenho de mais interessante para dizer é que antes eu achava que era paisagem, o mundo natural. que as plantas vibravam no sol sem porquê, afinal o meu mestre, o sol, diz assim. já hoje eu acho que tudo que é vivo está em comunicação. é claro que alguém que é uma antena está completamente zonza quando começa a perceber isso.
tudo o que é vivo tem sua linguagem, mesmo as plantas, intraduzíveis. era por isso, então, penso eu, que tinha tanto medo do jardim quando era pequena. medo e fascinação. tudo que eu escrevo, desde o primeiro momento, é pra falar desse medo, é pra reinventar aquela fascinação.
meu pai conta que quando eu era pequena eu tinha medo de que a lua caísse na minha cabeça, que em noite de lua cheia eu não saía no jardim. aí já é imaginação, entende? des-suportar a gravidade, fazer destroço das órbitas, é o meu mais antigo terreno de medo.
estou fechando alguns terrenos para abrir novos. mas como deixar a desolação tomar conta do que se abandona? será que tudo se trata disso, mesmo, apego ao conhecido? e que o rumor do desconhecido arfe menos, sibile mais, sussurre, melhor! faça dos meus cabelos fitas coloridas penduradas na entrada de uma cidade do interior. de mim.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Coragem
só pudemos saber aqui, que uma das coisas que viemos fazer nesta ilha foi conhecer e tratar do cãozinho aí. Coragem, seu nome é o que ele possui.
a mãe desses filhotes morreu uns dias após o parto, e a pele deles era tão fina, e o trópico tão intenso, que eles foram atacados por bicheiras, vermes comedores de carnes vivas.
quando aqui chegamos, disso eles já estavam curados. mas dois deles tinham desenvolvido processos de inflamação a partir dos parasitas que, vejo eu, são uns nojentos.
o cachorro mais debilitado de todos foi o Coragem, que frágil desde o início, anunciado como prestes a morrer foi inúmeras vezes. já ao nascer o Escuro, que trabalha onde estamos, disse que o único macho da ninhada não ia durar mais que poucos dias. Escuro é o sábio de toda ilha, mas até os sábios se enganam. ainda bem.
o cotovelo esquerdo do pequeno inchou de ele não conseguir fazer nada a não ser estar deitado. durante três dias e três noites Coragem ganiu e latiu e rosnou o tempo todo. não comia nada que não fosse lhe dado numa seringa, e como estamos na Bahia, passou alguns dias à base de água de coco. evoé! os frutos e os líquidos.
na mais crítica das noites, dormindo ao pé de mim, depois de ter uma convulsão pela alta febre, a respiração dele chegou a se dar só de cinco em cinco segundos. eu mesma disse "é hoje, ele vai morrer". tive certeza. confesso que até fiz coisa que não se faz, torci pela morte, pois o pequeno cão estava roxo e sofria tanto, tanto...
mas não, amanheceu e Coragem estava vivo, e pedindo por comida. nosso Coragem fintou a morte mil e duas vezes e com a grande imensa suntuosa magnífica e maravilhosa ajuda dos antibióticos que a espécie humana inventou (ou descobriu?) para estarem do nosso lado, o pequenino começou a desinchar. hoje, pela primeira vez, Coragem andou nas quatro patas e abanou o rabinho. ainda está um terço menor do que suas irmãs, mas já sei o que ele me ensinou: todo dia é dia de viver.
vamos lá, Coragem!
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sábado, 10 de maio de 2014
se ela morde? é claro.
depois
de ver (no estado de sp) a notícia de um homem que tinha o coração do
lado direito cheio de ar preso do outro lado (o do coração), isso depois
de acidentado, eu não duvido de quase nada, ainda mais em termos de
medicina.
confio até o limite fatal da fé na heroína de rosto de âmbar que me convidou pra dançar, digo, da heroína que coloca em órbita o sim entre as moléculas. você nunca a viu? não sei por onde você tem andado, já ela é um clássico, daqueles que quando toca, revigora.
vertigem? não, não, meu amigo, isto foi algo que você comeu, nada tem a ver com a serpente que ela leva no ombro, de nome Alegria e que nunca será domesticada.
confio até o limite fatal da fé na heroína de rosto de âmbar que me convidou pra dançar, digo, da heroína que coloca em órbita o sim entre as moléculas. você nunca a viu? não sei por onde você tem andado, já ela é um clássico, daqueles que quando toca, revigora.
vertigem? não, não, meu amigo, isto foi algo que você comeu, nada tem a ver com a serpente que ela leva no ombro, de nome Alegria e que nunca será domesticada.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
década
estou mirando a grande mudança acontecida
na virada dos 29 para os 30 anos
não, não falo de voltar para este país
nem recordo de um momento em que não fui casada
e nem é tanto a aparição das novas dores
pois já me vejo dos 69 pros 70, reticente
"a cada década novas doenças pra gente tratar".
não, nem é isso de que na minha postura
está nascendo uma nova postura
onde o esforço é o relaxamento da mandíbula
que há-de reaprender a não se magoar tanto
como também tenho aprendido
a metabolizar o que me acontece.
a alteração, a mudança, a novidade
(tão grande entre palavras caras: a transformação)
é que primeiro vieram as exclamações
como é bom tê-las: !!!!!!! poupá-las
por quê? nem vergonha tenho de dizer com muitas delas
"amor!!!" ou, "que coisa!!!"; "calma!!!".
"qualquer coisa" é que não sei se dá pra exclamar...
o sinal imenso mesmo das reticências.
logo estarei a gotejar suspiros numa chuva oblíqua?
antes, meditar: por que nos recusarmos aos pontos diversos?
se outros usam tantas aspas que, de tão gastas,
nem se envergonham mais?
na virada dos 29 para os 30 anos
não, não falo de voltar para este país
nem recordo de um momento em que não fui casada
e nem é tanto a aparição das novas dores
pois já me vejo dos 69 pros 70, reticente
"a cada década novas doenças pra gente tratar".
não, nem é isso de que na minha postura
está nascendo uma nova postura
onde o esforço é o relaxamento da mandíbula
que há-de reaprender a não se magoar tanto
como também tenho aprendido
a metabolizar o que me acontece.
a alteração, a mudança, a novidade
(tão grande entre palavras caras: a transformação)
é que primeiro vieram as exclamações
como é bom tê-las: !!!!!!! poupá-las
por quê? nem vergonha tenho de dizer com muitas delas
"amor!!!" ou, "que coisa!!!"; "calma!!!".
"qualquer coisa" é que não sei se dá pra exclamar...
o sinal imenso mesmo das reticências.
logo estarei a gotejar suspiros numa chuva oblíqua?
antes, meditar: por que nos recusarmos aos pontos diversos?
se outros usam tantas aspas que, de tão gastas,
nem se envergonham mais?
montes da minha urbanidade
comendo meu bife preferido eu estava na cidade de são paulo
sozinha, ouvindo a conversa da mesa ao lado
onde uma menina de vinte anos estrebuchava altamente
e comendo a mesma coisa que eu comia também quando tinha vinte anos
e que agora aos trinta continuo comendo, a menina dizia
"tenho vinte anos e não tenho profissão! sou inútil! não tenho o que fazer"
e de repente vi que eu estava lá pra ouvir aquilo & perceber
que isso há uma década me revolve o pensamento, porque agora,...
deixei minhas mãos para trás, não sem antes largar um peso
que trazia agarrado nas palmas. deixei ali mesmo.
embaixo da mesa do restaurante, larguei o medo do futuro
e quando coloquei meus fones pra vir a pé até em casa
a primeira música que tocou foi
e eu subi a aspicuelta dando altos passinhos e saltos,
sozinha, ouvindo a conversa da mesa ao lado
onde uma menina de vinte anos estrebuchava altamente
e comendo a mesma coisa que eu comia também quando tinha vinte anos
e que agora aos trinta continuo comendo, a menina dizia
"tenho vinte anos e não tenho profissão! sou inútil! não tenho o que fazer"
e de repente vi que eu estava lá pra ouvir aquilo & perceber
que isso há uma década me revolve o pensamento, porque agora,...
deixei minhas mãos para trás, não sem antes largar um peso
que trazia agarrado nas palmas. deixei ali mesmo.
embaixo da mesa do restaurante, larguei o medo do futuro
e quando coloquei meus fones pra vir a pé até em casa
a primeira música que tocou foi
e eu subi a aspicuelta dando altos passinhos e saltos,
quarta-feira, 7 de maio de 2014
.
ontem
me cometi a violência de ver o vídeo da mulher linchada até a morte no
Guarujá, cidade onde, embora longe do lugar onde ela foi assassinada,
passei muitas férias.
matarem alguém na porrada tem sido recorrente, acho que nem todos meus amigos portugueses sabem, tem sido recorrente, habitual lincharem pessoas no Brasil de hoje.
hoje. hoje. hoje.
em muitos momentos a história da humanidade é a história do massacre da humanidade e em alguns momentos temos mais consciência disso. não acho trivial a recorrência com que ouço e leio associações do tempo presente ao nazismo, com a idade média, ou à ditadura. vocês acham que nos associar a esses tempos significa o quê? eu só consigo pensar que vivemos tempos sombrios. pelo menos eu, muitas vezes sonho com a guerra, eu que nunca vivi numa. mas não quero ir pela sombra, nem quero deixar que a guerra me pouse nos ombros. nem nos vossos.
mas ela pousa.
olha que pousa.
acho que é preciso pensar.
o que consegui pensar enquanto assistia é que poderia ser qualquer um no lugar dela. outros amigos disseram o mesmo. o deputado Wyllys (que é um sujeito raríssimo nesses tempos, sobretudo por combinar autoridade com alguém a quem se deve respeitar) numa recente colocação lembrou bem que provavelmente não seria qualquer um. seria alguém massacrado pela história da desigualdade social e racial que é o Brasil, alguém massacrado cotidianamente pelos contextos que a história (e a irresponsabilidade política e institucional) produziu e continua a produzir.
se é função política obrigatória lembrar de que as vítimas são vítimas, por outro lado, acho que isso faz muita gente se sentir segura, afinal supõe "a barbárie nunca me alcançará". o sinal primeiro de que ela já chegou não é quando acontecer com o seu vizinho, mas é você viver com tamanha inumanidade no seu coraçãozinho.
lembrei-me também de quando era criança e na escola eu salvava os gatos que algumas crianças tentavam massacrar. elas o faziam por pura crueldade? por diversão? por senso de manada? é o mesmo problema, o problema da banalidade do mal, com o agravante de que seres humanos e adultos seriam pensantes. mas o mal é banal, o mal é qualquer coisa, não é grande coisa, embora seja a pior.
num momento em que tanta estupidez, ignorância, violência e destruição se qualificam como justiça, é um tanto embaraçoso, é quase confuso falar em justiça, não a justiça feita com as próprias mãos, mas a justiça feita pela justiça, a responsabilização dos culpados (diretos e indiretos) pelo assassinato, por exemplo, da mulher que estava guardando na mão uma bíblia com a foto das crianças dela, da mulher que estava saindo da igreja e que tinha transtorno bi-polar, da mulher que foi por um boato (espalhado nesse mesmo facebook em que você almoça) acusada ou confundida com alguém que fazia "magia negra" com crianças hipotéticas e coitadas e que assim merecia ser... massacrada. massacrada com paus e pneus e risos e gritos, massacrada sem nenhuma chance de reação, sem nenhuma hipótese de vida, destruída de um modo banal. morta.
e por que não responsabilizar os responsáveis? a resposta de muita gente será... "a justiça? ela não funciona". resposta mais do que triste de uma lucidez derrotada, esta é uma resposta inviável.
matarem alguém na porrada tem sido recorrente, acho que nem todos meus amigos portugueses sabem, tem sido recorrente, habitual lincharem pessoas no Brasil de hoje.
hoje. hoje. hoje.
em muitos momentos a história da humanidade é a história do massacre da humanidade e em alguns momentos temos mais consciência disso. não acho trivial a recorrência com que ouço e leio associações do tempo presente ao nazismo, com a idade média, ou à ditadura. vocês acham que nos associar a esses tempos significa o quê? eu só consigo pensar que vivemos tempos sombrios. pelo menos eu, muitas vezes sonho com a guerra, eu que nunca vivi numa. mas não quero ir pela sombra, nem quero deixar que a guerra me pouse nos ombros. nem nos vossos.
mas ela pousa.
olha que pousa.
acho que é preciso pensar.
o que consegui pensar enquanto assistia é que poderia ser qualquer um no lugar dela. outros amigos disseram o mesmo. o deputado Wyllys (que é um sujeito raríssimo nesses tempos, sobretudo por combinar autoridade com alguém a quem se deve respeitar) numa recente colocação lembrou bem que provavelmente não seria qualquer um. seria alguém massacrado pela história da desigualdade social e racial que é o Brasil, alguém massacrado cotidianamente pelos contextos que a história (e a irresponsabilidade política e institucional) produziu e continua a produzir.
se é função política obrigatória lembrar de que as vítimas são vítimas, por outro lado, acho que isso faz muita gente se sentir segura, afinal supõe "a barbárie nunca me alcançará". o sinal primeiro de que ela já chegou não é quando acontecer com o seu vizinho, mas é você viver com tamanha inumanidade no seu coraçãozinho.
lembrei-me também de quando era criança e na escola eu salvava os gatos que algumas crianças tentavam massacrar. elas o faziam por pura crueldade? por diversão? por senso de manada? é o mesmo problema, o problema da banalidade do mal, com o agravante de que seres humanos e adultos seriam pensantes. mas o mal é banal, o mal é qualquer coisa, não é grande coisa, embora seja a pior.
num momento em que tanta estupidez, ignorância, violência e destruição se qualificam como justiça, é um tanto embaraçoso, é quase confuso falar em justiça, não a justiça feita com as próprias mãos, mas a justiça feita pela justiça, a responsabilização dos culpados (diretos e indiretos) pelo assassinato, por exemplo, da mulher que estava guardando na mão uma bíblia com a foto das crianças dela, da mulher que estava saindo da igreja e que tinha transtorno bi-polar, da mulher que foi por um boato (espalhado nesse mesmo facebook em que você almoça) acusada ou confundida com alguém que fazia "magia negra" com crianças hipotéticas e coitadas e que assim merecia ser... massacrada. massacrada com paus e pneus e risos e gritos, massacrada sem nenhuma chance de reação, sem nenhuma hipótese de vida, destruída de um modo banal. morta.
e por que não responsabilizar os responsáveis? a resposta de muita gente será... "a justiça? ela não funciona". resposta mais do que triste de uma lucidez derrotada, esta é uma resposta inviável.
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terça-feira, 6 de maio de 2014
duerme, amorcito
cada vez mais gosto de palavras velhas
gosto de respeito gosto de cerne e de paraíso
de cebola e de viagem, gosto de cidade
não gosto de víbora, mas tenho o que aprender
não tenho ido ao cinema, mas amigos me visitam
e a minha gata quando se entendia pede pra entrar no armário
já eu volto a escrever qualquer coisa pra comemorar
o próximo, o distante; o crescente e o minguante
e sobretudo a palavra que adoro: palavra
rara. tão válida e nunca virgem, pura, não casta
entre tudo isso, sendo, o entre sendo isso: nós.
taí, uma palavra que não esqueço.
gosto de respeito gosto de cerne e de paraíso
de cebola e de viagem, gosto de cidade
não gosto de víbora, mas tenho o que aprender
não tenho ido ao cinema, mas amigos me visitam
e a minha gata quando se entendia pede pra entrar no armário
já eu volto a escrever qualquer coisa pra comemorar
o próximo, o distante; o crescente e o minguante
e sobretudo a palavra que adoro: palavra
rara. tão válida e nunca virgem, pura, não casta
entre tudo isso, sendo, o entre sendo isso: nós.
taí, uma palavra que não esqueço.
sinchi
o símbolo é ativo operativo como a membrana entre os dentes e a gengiva, que não sei se existe, mas está presente neste raciocínio, pelo menos. prova substituta pra isso não há. parece que a corporificação é a mais comum forma de raciocínio, e também que uma série de imagens de mim mesma estão se desfazendo. é comum uma resistência maior quando algo vai se desfazer embora o terreno já esteja mais recebendo os adubos dessa transmissão do que fincando as raízes do (novo?) conhecimento. sei que estou para escrever o poema que eu mais desejo, e aqui estou falando da dissolução das imagens de mim para mim, ou pelo menos de uma menor importância pras coisas em mim, o que na verdade talvez seja só o ajuste final de saturno. ouço completamente bem? não é que eu esteja mudando, é que não estou valorizando essa mudança de tão rápida que ela tem sido. não é que eu não esteja valorizando, ela é corporificação que não encontra valor. curioso ouvir que o caminho que leva para cima é o caminho que leva para baixo, thomas sterne já comunicava há mil anos atrás. é essa tanta novidade da vida que tem me feito fechar (irresponsavelmente) a comunicação. e, no limite, estamos refeitas: o cerne estava no corpo. o cerne continua no corpo. só que agora tenho mais corpos. e todos eles me interessam. e, espero, essa sacralidade do corpo não é tornar-se mais, é tornar-se o que se é. como já era. e está sendo. r e s p e i t o.
domingo, 4 de maio de 2014
"Beauty in art reminds one what is worth while. I am not now speaking of shams. I mean beauty, not slither, not sentimentalizing about beauty, not telling people that beauty is the proper and respectable thing. I mean beauty. You don’t argue about an April wind, you feel bucked up when you meet it. You feel bucked up when you come on a swift moving thought in Plato or on a fine line in a statue".
Ezra Pound
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