sábado, 21 de janeiro de 2017

pequena iluminação budista

Anos atrás o rapaz com quem
deixamos de ser virgens juntos
propôs que um dos primeiros exercícios
que faríamos juntos
seria nos colocarmos
um no lugar do outro.
Sem muito suor
isto criou um impasse
ilusionista como são todos
os impasses do desejo:
como iríamos juntos
parar um dentro do outro?
Se estávamos, se nascemos
e continuaremos separados?
E nos desdobramos tanto
em pensares, sem fazeres
que chegamos ao possível
colocar-se no lugar do outro
pela consciência
de se meditar
num outro
eu ele
sendo o mesmo
ponto.
Então nos perdemos.
Por que se eu me colocar
no lugar do outro
onde terei colocado o outro?
O outro é aquele o outro
que só se move
por si só.
 
ontem passei a noite com a ana cristina cesar, e o sparkling passado no céu da boca que ela me traz, passado tanto tempo, hoje em dia até eu já bebo a água com gás que antes achava amarga. tem alguns autores dos quais tenho receio de falar aqui no facebook porque sinto atmosferas de divinização do impacto que seus poemas causam que deixa as gentes meio paralisadas em frente deles. são mestres do efeito, é natural, mas eu, que certamente sou devota de ana cristina, não quero cair nessa.
voltei a pensar na ana cristina depois de uns dias vivendo em inglês em outubro passado, é curioso que certa dicção da justaposição (que banho delicioso de juntar tudo e mais um pouco que ela faz, sem nunca perder o charme da delicadeza) tenha voltado depois em meio da gagueira mental que sempre acontece quando começo a pensar em outra língua. foi assim, ouvindo outra língua que, depois de quase um ano sem, voltei a escrever.

*

só tenho conseguido ler à noite, no silêncio da madrugada. e tenho dormido quase todas as noites cedo, porque tenho trabalhado cedo, mas quando acontece um espaço, como hoje, passo a madrugada em silêncio com algum livro de poesia. ontem foi a ana cristina, hoje é a hilda hilst. uma semana atrás foi o cummings.

isto porque eu tenho procurado posturas gestuais, gestos rasantes e precisos, em poemas que eu já li algumas vezes, e que de repente me lembro deles e vou lá reler doze, quinze, dezoito, quarenta vezes, em voz alta baixa, de trás pra frente e pra trás. pulando voltando arfando gaguejando é sexo, a poesia. é sexo.

e o que é lindíssimo no que eu tenho encontrado é que os poemas me fazem sorrir pelos elegantes traços que ligam, pelos gestos da linguagem dançando, no maior espectro de emoções possíveis, como disse eliot falando de dante.

mas tudo é mais simples, o que eu quero dizer é que encontro nos poemas de amor o que se encontra de melhor, é que eles fazem sorrir mesmo a fingir que é dor, a dor que deveras sente.
como não estou escrevendo um livro de poemas de amor, é evidente que vou pesquisar o amor, e ao final do livro (que não estou escrevendo) terei relido todos os poemas de amor que eu puder lembrar que eles têm algo a me ensinar.

isto sem fazer pacote dos antepassados. a gente faz pacote demais pra poesia dos poetas que vieram antes. e tem muita gente que nem abre o pacote. e quem sabe sabe que já aprendemos com todas as últimas bolachas do pacote que o lance está em arrebentar todos os pacotes e comer misturadas todas as bolachas e ainda por cima não passar mal, e saber digeri-las.
ay bem haja a água com gás!

*

para ser culto um poeta não precisa comer todas as bolachas do pacote, e se pode nunca sequer ter visto um pacote e ser poeta, poetas do deserto, poetas da cidade, poetas afogados, haja pacote, haja poeta. e eu já estou ficando cansada disso tudo e vou pensar em outras coisas.

digamos que vou pensar na mulher de certa idade que me disse esta semana que morrer deve ser uma libertação, vou pensar em tudo o que ainda não sei o que significa a palavra transcendência, na navegação de todas as possibilidades impossíveis de amar, ouvirei os ruídos de uma lâmpada, e lembrarei das viagens que eu fiz e das que nunca fiz. isto, no poema. 

que é uma fornalha voraz que respira e não entende e pesquisa o mundo em tudo procura quais madeiras, papéis, gasolinas, queimam, não sei se mais rápido, nem mais forte, nem menos ou mais poderoso, gente: isto não interessa. o que interessa é o fogo, que alguém aprendeu a fazer, roubou dos deuses, sei e não sei, mas é o fogo o que o poema transmite.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

quase sempre é madrugada quando me lembro
desta arte de substratos que é a noite
e me lembro que a poesia é a arte de lidar com a solidão do indivíduo na linguagem em que se comunicam
os seres todos são passíveis de virarem e serem poemas
tal é o dom da metamorfose
do vice-versa
do troca-troca
do roça-roça
de uns versos com quem
lá lê ou é lido,
certamente, recebido
pelo texto em seu corpo
como alguém entra numa piscina
às vezes numa pirâmide às vezes num empecilho num pote de gelatina
mas é preciso ter onde entrar
no poema
ter por onde estar
e lá dentro abrir
como uma garganta
a voz de outro
que é você
sozinho neste mundo tão povoado
lendo este poema
amparado.

há este risco do silêncio, de não saber o que fazer com ele. e este coração imenso irradiante de ligações. talvez pelo buraquinho e sentou na minha mão. invadiu tomou pulsante e todo um silêncio, um ao redor onde não vai haver ninguém quando o dia acaba embora exista quem. o oceânico, não imaginava que netuno podia ser tão literal. e toda uma espera um mistério um voltar-se para si uma espessura e uma casca grossa de que ficou tudo lindo é preciso ter fé e ilustração. um amigo me chamou de idealista como o meu avô, então veja bem, eu encontrei o que era preciso para ser o entusiasmo. o entusiasmo da minha solidão? estar o dia todo no íntimo no mais íntimo dos mais íntimos e voltar da travessia para o meu deserto interior. fui adiante demais nos limites do prazer e encontrei esvaziado o lugar onde tudo é novelo e tenho aprendido a puxar a linha que engloba o novelo e não permite o nascimento do novilho. um carneiro me dando chifradas todos os dias quando passo em frente do seu estabelecimento. e eu passo todos os dias. e todos os dias eu tenho vontade novamente. acordo de manhã e quando coloco os pés na rua eu digo: olá rua, olá vida, vamos lá novamente. estou intacta. como nada fazer para o que é se aproximar como é? a generosidade que as coisas têm comigo de acontecerem.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

quadrilha

dois homens já atravessaram o atlântico
me tendo entre seus argumentos
eu mesma atravessei por outro
e nenhum de nós era o mesmo 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

"você me recebe sempre com mais alegria do que eu mereço", ouvi ao abrir a porta. já um outro amigo, astrólogo, me disse: "cuidado que este ano você tem uma tendência aos excessos", enquanto eu pensava "quando não?". acho que meu antigo psicanalista diria que tudo não passa de uma crise narcísica. eu tenho comprado lírios algumas vezes, narcisos não. criado diariamente hierarquias entre incêndios. dentro de algumas décadas tudo isto estará morto. os incêndios continuam. mas nada morre de fato, diz o meu faro que isto tudo continua sendo incompreensível e os enigmas são a cada dia mais claros. o enigma do carbono quando tão finamente se insinua em diamante.

tea for two

Tanto faz parte do destino
das mesas estarem entre nós
que sem fazer alarde
uma agulha enovela
zonzos de calor
a ternura e o risco
de uma criança que enfia o dedo no bolo
como você encaixa o dedo
no anel da xícara
enquanto retiro lentamente
do seu papel
um canudinho pra sugar a vida
este saquinho
de açúcar
pesando na mão
rasgo com os dentes
pondero, mas não sei calcular
nem ponho no suco demais
pois pode explodir
um coração
estou evitando
mas agora consigo ouvir
meu corpo
é capaz de quebrar
um copo atrás do balcão
farejar o gás vazando
abrir a porta e sair correndo
pelo tempo que nunca houve
mandar, quem sabe?, pedir
evacuar a área planetária
uma brecha na agenda
o gás alcança onde o ar atinge
se propaga a população mundial
nos níveis em que andam
as chuvas é um perigo
os postes as árvores caindo
as luzes todas piscando
que sorte com os ventos ter
esta conexão sem fios
atravessando os dias
crescendo como morangos
de sobremesa
que eu peço mas não sei se
tão doces como comer
com garfo ou colher
eu sou cheia de dedos.
às vezes tenho vontade de gritar PAREM DE ME DAR TRABALHO QUE EU GOSTO TANTO de você que poderia passar a tarde falando baixinho coisas que não interessariam a mais ninguém além das minhas bobagens eu gosto quando podemos nos distanciar e cada um num ponto do mapa perder-se até não o esquecimento mas o reencontro. o poderoso. o que sempre traz enigmas: os encontros. no último retiro que fiz eu quis trabalhar relacionamentos. enquanto conceitos, eu nem sabia, abri mais os canais. hoje encontrei alguém com quem passei o dia a falar da transcendência como modo de lidar com o controle. antes eu tinha conversado sobre capacidade analítica. outro dia falamos sobre medo de morrer. realmente, o trabalho que eu tenho é o mais interessante do mundo. nada me assusta você me assusta.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

leão

 
 
o homem que (talvez) mais tenha me amado na vida era do signo de Leão. só quem já foi amado por um leonino saberá o que quero dizer com isso. leonino quando ama, não tem o mistério dos seus primos escorpiões ou a necessidade de toca dos caranguejos. Leão? ama.

afinal Leão é regido pelo coração, eu sempre que leio o mapa de um leonino atravesso a metáfora do coração, quer dizer, bato palmas, batuco na mesa ou no peito, para lembrar: o teu estímulo vem do plexo solar. são luminosos, radiantes. nobres. e acreditam nisso.
 
entendo que Leão é sim, o canal em que a luz atravessa o mundo, e alguns leoninos confiam tanto em si mesmos que a ingenuidade os circunda, afinal Leão que quer buscar a luz do mundo pra ser só sua, morre ao vento, mas façam o que quiserem, pois são animais livres para exercerem o seu reinado. mas alguns, de tão fixados em si mesmos, quando bate um vento de mudança, tem leonino que morre engasgado pela própria juba. alguns os vão chamar de metidos, mas até disso, na imagem que fazem disso, um bom Leão há de se orgulhar. do olho misterioso, da boca que ruge grave.

dos fogos o fogo de Leão é a chama, incessante, ardendo, ardendo e ardendo. a arder. Leão é a força de vontade que sabe se concentrar sendo também instinto. certamente, pela roda do aprendizado que estabelece com Áries, o mais novo e Sagitário, o mais velho, Leão, signo fixo em seu meio, é o estabelecimento de uma estação. Leão é o centro do verão no hemisfério norte.

tem Leão que sobe caminho, faz da luz o que luz é: criação. afinal é o signo da criatividade, Leão veio ao mundo criar a partir do seu próprio peito coisas que carreguem a luz que leva no coração, coisas que importem na sua continuidade, de modo a irradiar da vida o que só a vida tem. leão não gosta da morte. Leão quer aumentar tanto a prole que conquista as felinas e felinos ao redor, mas se pular a cerca, fará convicto de que isto é a sua verdade, a sua natureza, de um modo semelhante a aquário que se conecta captando teorias que estão no ar, Leão descobre a verdade sintonizando com o próprio peito.

luz, verdade de Leão, é se estabelecer naquilo que faz seu coração bater como um tambor. prezam a honra, a lealdade, a confiança. alguns podem aparentar excesso de confiança justamente porque não a tem. afinal, nada é mais difícil do que ser si mesmo, e Leão, vivendo bem consigo, o consegue, pois o é.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

nosso amor talvez se debruce
n'algum ponto equidistante
entre o atlântico e o pacífico
encontre-se radialmente exposto
nas redes interestelares do porvir
esquecido dele mesmo e por isso
reiterado, maiúsculo & minúsculo
ritmado pelo coração e o conflito
das pequenas coisas que não sabemos
porquê.
nós, que nos atracamos todos os dias
segurando garfos e por baixo de telhas
comemos e envelhecemos e disputamos
todos os dias a imensa vaga de absurdo
que faz as ilhas flutuarem
existirem cataratas e caveiras
densas matas grossos muros
cataventos e edifícios
que você constrói
e eu escrevo
pois tudo o que o tempo rói
não será inaudível
não será mistério
nem será ruído
pois tudo que nos envolve
é um breve
tão simples
e contínuo
dizer que sim.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

gosto dessas madrugadas. passei grande parte da vida que já vivi achando que eu era uma pessoa notívaga e talvez eu até fosse, atravessei toda a adolescência com algum disco que pontiagudo fosse até o âmago de alguma densidade. anos depois também migrava pela noite dentro, até o reverso.

fumava, bebia água gelada, ouvia gal costa e janis joplin, coisas que não faço mais, ou não faço mais dessa forma. lentamente vou me tornando uma pessoa das manhãs, a cada ano acordo mais cedo. embora das noites eu goste, eu gosto delas tanto que permito que me comam, que me abocanhem. tem seu perigo.

tento, como eu tento e todos os dias, descultivar as angústias e eu tenho muitas angústias e as noites as ampliam como latifúndios em que é possível se caminhar. sou só um corpo pequeno no escuro, o escuro não é possível mapear. fechar os olhos, escutar.

e como eu gosto, gosto mesmo das madrugadas pós-feriados eufóricos, glutões, excessivos. eu adoro a madrugada que é agora: do 25 para o 26 de dezembro; ou a noite em que se vira do dia 1 de janeiro para o 2.

são noites infinitas silenciosas, enfastiadas, melancólicas, exaustas, enxutas. quando alguma ressaca de tudo que se viveu se apresenta numa corda bamba e há um mergulho no finito, no inevitável, que tranquilidade, parece que finalmente tudo dormiu.

faz silêncio essa noite e eu também.

domingo, 25 de dezembro de 2016

as partilhas do absurdo
não paravam
de chegar.
mas eram só três fios
os que nos ligavam um ao outro.
o primeiro deles ia pela serra até petrópolis
e caiu uma árvore na estrada e ficamos
através dele, desligados, sem conexão.
o segundo fio percorria a minha nuca
e ia até o estabelecimento da sua vida
fazendo a gente se dar de cara
ou fazia com que tudo que você pensa
venha parar
no azul escuro
que mora dentro de mim.
o mesmo azul escuro
que mora dentro de ti.
o terceiro fio nunca foi tecido.

domingo, 11 de dezembro de 2016

sucuri, jiboia


poética

herberto helder orava ser sempre um poeta obscuro, eu de acordo com e toda encruzilhada no rigor do claro enigma, peço para as 7 ondinhas todo ano saltando que elas me banhem de ingenuidade, delicadeza, ambiguidade e humor. às três ondinhas que sobram eu digo assim: todos os dias da minha vida mantém meu coração ingênuo perpetua o que eu não sei e me faz esquecer o resto. depois meto minha visão de raio-x na cabeça, pérolas nos ornamentos e começo a assobiar. quanto mais perto o verso estiver do assobio, é nisso, um dia eu ainda chego lá.

sábado, 3 de dezembro de 2016

quando você foi embora
não foi nem que eu quis morrer
eu morri
com um livro da clarice nas mãos
(era época em que eu sofria com livros nas mãos
hoje levo um celular
e tenho 2 dedos da mão direita ficando com tendinite
pelo peso do que carrego
todos os dias)
para o jardim botânico
fui ler "amor" no jardim botânico do rio de janeiro
onde "amor" se passa
eu chorava desalmadamente
eu me arrastava pelo chão
me contorcia em cima das rosas
só espinhos e dores de estômago
tinham as rosas naqueles dias
até hoje eu não entendo
o que me abismava tanto
no desejo que sentia
medo mais nenhum
um tremendo um infindo

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

mora um novo ser em mim que não sei por onde é nem como se norteia mas que se chama coração 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

tá, me deixa mas 
vou te falar uma coisa bem sincera
já que o nosso amor
vem de outra era 
a baliza desta é a espera 
tá bom o vínculo deixa  
eu te dizer
vou ser bem sincera 
não, não é a primavera 
eu ligada assim em você 
é que não existe mais 
nesta esfera o que eu procure 
de nós dois nada nada a temer 
não tema 
que ainda sobre que ainda falte que ainda haja o que dizer que ainda 
se elabore o ainda 
a minha fera 
é tigrada fingida 
a minha bala migrada 
eu atingida 
sou um espelho que se espelha em cacos de um espelho espelhado 
migrarei para dentro do espelho 
e vou renascer em lago 
eu não consigo te dizer o que estou procurando dizer
em ti 
um alicate uma tesoura um nunca mais  
por favor não diz nada que me meta objetivamente numa coisa objetiva o objetivo o objeto o obtido o bocejo 
sim eu estou por todo o lado e por todos os lados eu estou sem você 

terça-feira, 22 de novembro de 2016

vive em mim uma pessoa muito passional
nos dias ímpares ela se liberta
nos pares ela se comporta
essa pessoa toma sol no caminho do trabalho
cumprimenta com delicadeza
escancara com cumplicidade
duvida com confiança
tem armadilha lance coice travesseiro peito
pede comida delivery
abre a janela escancara a porta
escancara os dentes a minha pessoa muito
passional diverge de si mesma
estabelece prioridades imediatas
convive com seus poemas antes de escrevê-los
dia sim dia não o nome de alguém esquece
a minha pessoa muito passional o fogo ligado
e ainda volta mais cedo pra casa pra tirar o lixo
alimentar os gatos a minha pessoa passional
adora alimentar
as veias de gordura os vasos com adubo
o rigor dos astutos
não assusta a minha pessoa
o escuro
a morte
o amor a minha pessoa passional
não conhece nada disso
a minha pessoa muito passional
não aprende
mas esquece
e dura como dura como é dura a minha pessoa
de carne mole sangue fresco corpo vivo
muito passional a minha pessoa

terça-feira, 15 de novembro de 2016

ela me disse "troquei seu nome para 'ninguém' nos meus contatos" & saiu lúdica e lúcida sem dever uma chamada, uma mensagem ou uma massagem. onde tudo é esquecimento os burros foram dar na minha agenda e sem que ela pudesse sequer pensar em se afogar, duas horas no sofá e uma paz certeira na certeza vá embora desate fique a boiar como uma terra no espaço rodando uma balsa atravessando o canal ou a ilha da tranquilidade afundando. 
o nunca mais mora muito longe 
não tem nada dentro dele além de frio 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

isto aqui funciona como os emails
se envio sem reler
é porque tá pronto
acho homens com um pouco de crivo descuidado charmosos, com muito crivo deliciosos, com crivo e timidez incríveis, com crivo e um belo rosto aliás, é uma coisa de louco. não me movimento na direção deles pois eles estão sempre cansados de tanto crivo que tem. quanto mais crivo eles carregam mais eu sinto que as chaves de fenda deles abrem todas as minhas cinturas. não que eu deixe alguém com um pedaço de metal se aproximar de mim, não. eu afasto tudo que é armamento com a respiração do meu pensamento. mas não desarmo as bombas, eu as estico entre as minhas canelas, eu desmonto o mecanismo do armamento e perco as mãos, nunca troco as palavras e esta articulação me custa uma dor na mandíbula que aumenta quando eu durmo pouco, estou para menstruar ou esqueci a caixa de ferramentas em casa, o que praticamente nunca tem acontecido, porque eu desci com tudo pronto de dentro da cabeça do meu pai que é também uma nave alienígena que foi dar no calor da minha mãe e pena que eu não nasci boêmia, não sei porque isso referido agora.

em que a aurora atravessa a primavera

eu poderia falar outras coisas também, contar da amplitude de sentido que me mostrou um sacerdote uns dias atrás, ele me abriu como um machado, coisa que ninguém faz, ele entrou onde ninguém absolutamente entra nunca além de mim e alguns ícaros ele chegou lá com as palavras ele me disse aprenda entenda estude arrisque o direito a lei o direito entenda até conseguir direcionamento direcione direcione eu nem entendi direito mas eu entendi tudíssimo tudinho eu já tinha visto mas ele foi com um bisturi com uma alavanca derrubou a porta mas como uma revoada também agitou muita pequena coisa à toa e eu entendi mais uma vez que a senhora de tudo dentro de mim é tão inteligente que pode até, ocultar-se num búfalo deixar-se desaparecer em nome do nosso destino que é um só caminho um só caminho e também não é o caminho do mar, é o caminho do rio, ser assim, leito de corredeira doçura hoje mamãe foi lá me visitar eu deitei também, deixei passar, não é todo dia que mamãe assim essa não minha e presente numa alteridade do que não sei ser colher colher tanta pequena coisa tão juntinha é tão ternura isso também a ternura a ternura a ternura mora tanto desapego na ternura eu aprendendo que falta tanta coisa tanta coisa e um redemoinho que desagua em flecha tão bom não precisar fazer sentido e, assim mesmo, fazer tanto. 

sei que às vezes, em nome do enorme, eu fico um tanto simplista: tanto que fui fazer outra coisa e me esqueci do que eu ia dizer aqui.

em que a autora expõe seu veredicto final e descansa

uma alternância de velocidades, talvez até uma dificuldade de perceber o que é velocidade. ando bem interessada nessa palavra, também. a velocidade toma toda forma de inconsequência consequente, vivendo da transformação energética. por exemplo, é uma velocidade a minha preguiça de pensar, de fato, sobre "velocidade", mas este cinismo é só cansaço mesmo. evitam qualquer relação com pessoas de temperamento sórdido. ai ai ai quem dera. olha o cinismo de novo.

mas eu vou enfrentar esse medo de escrever de fato, porque eu vou começar, eu já comecei, eu já voltei a escrever, até mesmo a te escrever eu já voltei duas vezes por uma mesma porta eu me perdi mas eu nunca nunca estive tão certa de algumas coisas dentro das minhas partes imediatas e mediadas também. uma nova mudança em breve, vai acontecer.

por exemplo me dar uns minutos por semana pra escrever aqui no meu blogue e simplesmente deixar os dígitos rolarem tipo neeeeeeeeeem aí se alguém está lendo se não está. eu gosto dessa indisciplina e mais até do que isso: eu preciso. por favor, tudo que eu menos quero é me tornar escritora profissional, eu só escrevo porque eu preciso eu quero eu necessito me perder todos os dias um pouco. umas semanas atrás na ponte do Sumaré tinham uns lambes colados dizendo SEJA VOCÊ MESMO SEJA VOCÊ MESMO SEJA VOCÊ MESMO SEJA VOCÊ MESMO eu olhei aquilo, eu hein, me deu uma raiva, eu tive vontade de enfiar o seja você mesmo não vou nem dizer onde de quem fez aquilo, porque vocês sabem onde é. quem sabe assim nos entenderíamos melhor.

a ana cristina já renasceu em mim eu agora vou numa mesa branca receber a clarice e já volto. pronto, fui, voltei, estamos aqui as três e nenhuma de nós sabe muito bem onde colocar as mãos. a primeira a resolver isto é clarice, sagitariana e confiante, coloca as mãos em cima da barriga e solta um miado. clarice começa a se lamber a barriga e quando, de repente, se assusta, diz algo muito acutilante e terno em direção a ana cristina, que a beija na boca enquanto tira um brigadeiro e põe debaixo dos meus cílios. percebo que é um brigadeiro envenenado, ana querida, mas como assim mesmo, estava uma delícia, querida, quererá ainda me matar? 

ele também não sabe o que fazer então não faz nada. as decisões prudentes as intermitências do tempo as analíticas posições do esfriamento os esfriamentos das posições as travas do destino as carrancas dos meus guias as fronteiras da minha força o fogo eterno pra consumir o inferno fora daqui & eu como devoto, trago um cesto de alegrias de quintal

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Levo com ternura as coisas preciosas que você me entregou
como as desconhecia não sei bem de que material são feitas
madrepérola barquinho de papel carne e passado
onde as colocar se nem cabem nos armários que divido
com o mundo as misturarei
no barro levado pelas enxurradas
asas para voar nos dias sem horizonte
um punhal para abrir a correspondência
eu carrego junto ao peito feito amuleto
amaciando os joelhos os tijolos sem metafísica estalam
as estruturas na esperança de que tudo estará desencontrado
e um travesseiro deita o meu pescoço no teu esquecimento
há embriaguez para as noites sem fumo
para as noites de lua todas as canções
dos compositores de destinos eu sopro
as melodias no vento que desce a rua
o vento em que me torno para te ensurdecer
me enovela me envolve e me acolhe
feito uma capa para os dias nublados
o sol volta a esquentar a nuca dos gatos
no parapeito da janela uma vontade de nunca mais
rodar as engrenagens que rodam as folhinhas dos calendários
já não se usam mais a não ser em alguma parte
onde também o nosso amor insiste
aberto pela temporada de chuvas
fechado sempre que é primavera.
raramente me pergunto porque isto não desaparece
sinto simplesmente uma rarefeita forma de loucura
um incêndio agitado um calor exatamente baixo
como a temperatura que caiu
e se não se entra duas vezes num mesmo rio
divirto-me à beça nos dias ao redor
e tu também
atravessou o mar pra me ver
uma espaçonave
que vagasse incandescente
me norteava mais do que a mim mesma
não sei porque nos despedimos na primavera

domingo, 30 de outubro de 2016

desde 1984 é a primeira vez
que eu me sento
onde o corpo expande 10 metros
antes ainda do pensamento
os gigantes não me assustam mais


também conhecida como a mulher
polvo gameleira
ela resolve descansar
para isso passa os dias enviando convites

como já não sabe mais escrever
quando ela se senta ela escreve
sobre o tempo em que se sente
o tempo todo agitada
como se a habitasse
outra encadeada
grande sorte
arrebentar-se-á até as estruturas
sem partir um osso
te desconcentrar

de lamúrias e desistências
camisas e gatilhos
as relações estão cheias

fui reler o que escrevi 10 anos atrás.
era interessante essa época
eu passava o tempo
a explicar o que os textos faziam.
e isto me ensinou a dedilhar
como uma harpa uma faca um cardume
não são a mesma coisa
mas são.

passo o domingo a ler poetas
cujos nomes não sei pronunciar em voz alta
mas cada uma das letras que eles grafaram
eles escreveram para mim
remetidas e atrevidas
como estas, eu
são para ti

quando eu irremediavelmente
me perdi
nascendo
tempo verbal contínuo
que exige um eu

o eu toma ar
o eu recua dez passos
o fôlego respira como uma bandeira branca
que instaurasse
o salário diário de 7.000 fotões & 0 rancores
entre os intermediários
que nos levam e trazem
oxigênio, e-mails e sensações

pois eu me esqueci de tudo
que era sabedoria eu já não tinha
e eu aprendi
embora todo o universo
se alimente das trocas de mensagens
é mais difícil decifrar suas consequências
do que ler nos gestos
de aborígenes dançando
o ritmo dos corvos
a língua do futuro nos céus

eu visitei
a língua do futuro nos céus
e voltei para ver o Pacífico
e ele era como o Atlântico.
nós viemos dele

sempre na origem
sinto-me uma raiz de gengibre
e já nos aconteceu antes.
a minha letra mudou.
aquele homem 
que não se esquece 
atravessa a river
he cries a little bit 
no porvir 
eu lhe devoto 
o fogo 

*

aquele homem a quem nunca 
escrevi envia
um e-mail 
para esta travessia 
celeste 

enquanto eu descubro 
a claridade luminosa 
de São Francisco 
e tudo que ele aprendeu 
com os animais 

*
não veio de lá 
nem veio daqui 
também não é dele 
o meu lugar 

estou todo dia com ele 
onde ele não está 
sei que há um pedaço em mim
que é só seu 

*

I will devir fera de pelúcia 
nos dois sides 
de mim 

*

e se alguém procurar por mim 
suba as montanhas 

*

hoje acordei com um corvo cantando 
it was a pleasure 


*

sinto nas mãos como comer geléia de strawberry tomada num canudinho 

*

it's the second time 
nesta vida 
que isto me aparece 
quando não consigo escrever um
poema 

*

embora todo o universo 
se alimente das trocas de mensagens
é mais difícil decifrar suas consequências 
do que ler nos gestos 
de aborígenes dançando 
o ritmo dos corvos 
a língua do futuro nos céus  



- [ ] 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

senti primeiro o coração com uma vontade de me dizer coisas 
eram um lampejo de brilhos 
uma tranquilidade 
passiflora 

amarguei o que não era virtude neste cansaço me deixei ficar sem fazer nada além deste texto 

me achei longe demais de algumas coisas que não quero ficar longe 
coisas que eu quero aprender 
e os caminhos mudaram 

por anos amei e quis e não sabia nem onde
muito bem por onde passava este vínculo
verde 

hoje ainda não sei mas sinto uma porta 
se fechando uma sensação de dever 
por hábito mais que prazer mais que descoberta 

por muito tempo tudo entre nós foi descoberta 

e eu sou grata
só faz dia e já sinto saudades
de tragar  
mas umas gotas 
me abrem para o bambuzal 
da minha infância 
atrás das quadras de tênis 
tão perto do córrego ali 
passavam tantas coisas 
e eu achava que eram só as solas 
dos tênis 

e eu percebo que também se gastaram 
mas que meu cansaço é maior 
no seu uso 
presente 

imagino que um dia, querida, vamos nos despedir, querida, um dia vamos nos reencontrar também 

feito a luz de Maria que sei que minha avó viu ao morrer 

fazia algum tempo já que eu não me lembrava do seu rosto naquele exato momento em que nada era pacifico e no entanto havia a paz 

sinto-me leve presente e incompleta 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

não consigo entender como existiam cidades antes de existirem fones de ouvido tocando música para as atravessar.

*

percebi que faz um ano que só escuto música de macumba e que só escrevo quando estou andando na rua. não tento registrar. e pra além de ouvir música enquanto escrevo, gosto mesmo é de escutar música andando. e como tenho andado demais todos os dias, eu tenho escutado muita música de macumba, com muita concentração no caminho e nos ouvidos, enquanto escrevo com a minha respiração. acho que para quem escreve poesia são uma mesma coisa: o caminho e os ouvidos. os passos. sigo sem saber onde esta exposição ao som, aos ritmos, ao conhecimento emocional e espiritual, a cada uma das narrativas que vive nestas músicas e que são sempre sincrônicas umas às outras, quando isto tudo vai acabar por aparecer no que escrevo. isto tudo sem projeto. por prazer. por acaso-destino. assim, só por andar por um caminho ouvindo tais potências. observando. quem escreve respira. as árvores são os seres que mais respiram nas ruas que tenho andado. por enquanto eu estou respirando. 

sábado, 24 de setembro de 2016

caleidoscópio

ou uma noite que sonhei com meu primeiro beijo
e me imaginei muito velha escrevendo a minha autobiografia
(que certamente escreverei um dia, já se nota)
e no lugar muito luminoso a quadra onde jogávamos
tive um espasmo tão absorto que foi
onde era timidez
os músculos se contraindo todos juntos, soltando
soltando juntos também
uma novidade


sendo que na véspera eu havia sonhado com o corpo do meu pai aos pedaços no chão de uma sala de piso vermelho e só havia um lençol curto e insuficiente o bastante


quando hoje contornei com as mãos o livro que me deste
em que cada poema escolhido pelo amigo que te abençoou
todo sublinhado pelo teu pensamento que respira
de modo que falamos a mesma língua
onde tudo nela dia a dia intensidade
os planos e os plenos da memória
ou cada um dos sítios
os cantos moídos das páginas
que atravessaram malas e foram carregados
pelas mãos, os braços pousados
no colo ou na mesa de almoço, da biblioteca
e eu, que tão rapidamente coloquei o nome nele,
embora desconheça a luz da manhã do gabinete
reconheço a mancha na capa
os riscos de uma chave
ou o dia em que ele quase se foi
esquecido num banco de comboio
como em abraços engoliu o lápis que o grifava
e se escondeu entre almofadas
que eu desconheço
desconheço o dom de desaparecer
embora possa me fingir discreta
como uma planta
tendo à luminosidade
e não compreendo a angústia
que estes dias têm
por objetivo próprio
oculto ou revolucionário
me enlaçado
como a um objeto
todo rasurado por gestos
cheios de memória
que embora fossem
não eram meus e nem são
os que eu teria
e, no entanto,
tem tanto a ensinar

Furacão é diferente de ventania
vista grossa voz ferina
há tanta brisa insípida
e alegria sem calmaria.
Escalar raios ou faíscas
independe de saber trepar
montanhas e paredões
por vezes só um túnel
pode atravessar.

Por muito tempo observo
a força das minhas mãos
têm ranhuras, não são dentes
há tanto cálcio nelas
quanto gastos, ansiedades
cortes feitos de raspão.
Por sorte há a realidade
e eu a abraço toda ela
com mistificação.
Não pego atalhos
não quero sabedoria
nem posição.

Não se sente confuso
nenhum vulcão
quando explode
procura a razão
são sem motivos
os cem motivos
de um coração.

É nele que abro
caminho e canyon
botão de camisa, rosa
este nó de marinheiro
já não sei, só você
tão simétrico
saberá desatar
em rio, corredeira
a espuma que dá a vida.
Nossa vida sem a fronteira.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Virgem




antes que a primavera chegue no hemisfério Sul, com a entrada do Sol no signo de Libra, quero cumprir o prometido, também pela minha gratidão ao signo de Virgem e aqui me ponho a escrever algumas coisas que sei e que tanto aprendo com este signo mutável.

Virgem é um dos signos responsáveis pelo manejo da informação, partilhando com Gêmeos o regente Mercúrio. diferentemente do primo mais novo, em que a alteridade é um tênue fio em que se caminha no equilíbrio de não se diferir entre o bem e o mal, ou a verdade e a mentira, Virgem lida com a informação de modo a diferenciá-la, torná-la útil, construtiva e organizada.

é por isso que a astrologia de memes de internet entende que Virgem seria viciado em tuppewares e obcecado em ter as coisas todas bem encaixadas, controladas. muitos virginianos coincidem com essa simplificação, mas outros tantos, não. provavelmente aqueles que não têm obsessões com a organização da matéria ao redor, estão preocupados em organizar o pensamento, a consciência, primeiramente de si mesmos e dos que estão ao redor. Virgem é cheio de concatenações. de métodos que vão apurar os gestos e de gestos que vão apurar os métodos.

Virgem é uma ponte entre 5 os primeiros signos do zodíaco em que as questões são mais primárias, corpóreas: nascer, comer, falar; e os outros 6 signos que lidam com questões abstratas, conceituais. dizem que é por isso que Virgem cuida da saúde, do corpo físico, do cotidiano, porque só com muito trabalho e cuidado é possível perceber o que é importante no corpo a ponto de tornar-se espírito.

trabalhador, trabalhador e trabalhador, Virgem numa fábula como a da cigarra e da formiga provavelmente seria a cigarra e também a formiga, porque sabe que todas as formas de trabalho produzem resultados úteis. se é produtor de instrumentos, Virgem é em si uma caixa de ferramentas, onde se encontram as funções de chave de fenda, pinça, peneira, escada, martelo, bandeja, tapete. e se é necessário para Virgem servir, ser útil, funcional, Virgem que cuida de si tem que prestar atenção a servir e ser só os instrumentos que realmente desejar. alô, Virgem! cuidado com quem te vampiriza.

desde pequena tenho sempre um ou mais virginianos ao meu redor, e é por isso que brinco dizendo: "tá em dúvida? consulte sempre o seu virginiano favorito". mas cuidado, tenha respeito com seu Virgem amado, porque eles podem resolver tudo por você, sobrecarregando-os ao ponto deles se sentirem tão úteis quanto usados.

se a palavra chave de Virgem é crivo, a pessoa de Virgem que não cuida de optar pela delicadeza nos seus critérios e pela despoluição da sua imensa capacidade mental, torna-se o vulgar "cricri", intolerante, arrogante com seu saber precavido. o problema aí não é nem só a fama de chato com o pessoal ao redor, mas é que a medida cuidadosa que Virgem tanto procura, torna-se desmedida e aí Virgem perde-se naquilo que mais teme: a indiferenciação, o indistinto, o pouco preciso.

dos signos de Terra, Virgem é aquele que vem entender e mostrar que rosas são diferentes de samambaias, que são diferentes de coqueiros e estes não dão amoras. tudo que tem substância pode ter utilidade, e Virgem parece às vezes um botânico coletor de amostras da vida para seus cadernos. tive um grande amigo de Virgem que na adolescência listou todas as catástrofes naturais que tinha conhecimento. um tsunami é diferente de um terremoto, e conhecer a vida é organizar a sua reverberação. Virgens são abençoados pela existência da multiplicidade. tem tanta coisa no mundo e Virgem é quem conhece todas. e como seu intelecto é também sensóreo, Virgem entende.

no entendimento, Virgem divide com Peixes o eixo da medicina, o que o torna responsável pela limpeza, pela higiene e acima de tudo, Virgem é o signo da purificação. muitos astrólogos o associam à figura da Virgem, Maria. e já cantava a canção que "da flor nasceu Maria e de Maria o salvador".

humana e divina, a associação com a Virgem traz também a marca de Virgem ser o signo da bondade. os virginianos que encontram a natural bondade que há em si, a carregam como um amuleto e parecem irradiar uma luz diferente, luz que purifica.

sábado, 17 de setembro de 2016

não sei usar pronomes nem conjunções não conheço as regras sintáticas eu me confundo-me na própria língua e isto é, é isto a minha língua 

própria como o esquecimento / esquecimento é uma palavra que utilizo demasiadamente, e é porque tenho memória 
esse espaço de trilhos trilhas rascunhos nós pedras prisões encanto liberdade lonjura encostada 
e sem definição  
uma tentativa comum de amaciar o amor sempre só na nitidez da sua purificação reunida em luz que entreteria para sempre ou quase o rigor o feixe a faixa que limita ao lado de lá ou quase quase talvez seja a minha nova palavra favorita, uma em mim improvável estética do quase que deslumbra os menos frustrados e assusta os que estão completamente de acordo com o dia a dia ou ser capaz de enfiar um garfo no olho de um sujeito que vem dizer alguma coisa para fora ou por dentro sem esquecimento é um é este alguém 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

sonhei que estávamos em guerra. um departamento de literatura de uma universidade em que estudei havia se transformado num hospício para receber aqueles que tinham enlouquecido com o som das bombas. eu tinha um envelope nas mãos, sabia que ele estava vazio, mas os loucos, misturados entre os professores, e os professores que tinham enlouquecido, e os médicos que cuidavam dos loucos mas que também me pareciam loucos, imaginavam que aquela correspondência continha um segredo de sabedoria. eu tentava não chamar atenção. alguém colocava uma antiga vitrola pra tocar uma espécie de valsa e dizia que as músicas mais recentes tinham se perdido em meio ao conflito. os loucos e os médicos dançavam, dançavam. um homem muito inteligente me tirava para dançar, ele tinha as mãos imensas e eu dizia que não, que não queria dançar. eu estava tímida. assustada com a loucura, também. ele insistia: "por que você não quer dançar?", e eu: "porque preciso voltar a escrever", disse apontando para o elevador no qual entrei para voltar a escrever.  e que estava tomado de camas para os doentes que não estavam loucos. 
 
#
 
terei 3 falas em público em universidade em 3 meses.  
 
#
 
é a junção do pensamento com a medicina, a necessidade de reaproximar certos pedaços de conhecimento. é bem mais que isso também. mas deixo para as entrelinhas. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

maravilhoso é dizer porém não consigo ainda quebrar o ritmo no que escuto embora já esteja quebrado se levo à sério isto que está acontecendo agora preciso ficar sem fazer porque se encho essas linhas de um sentido para além delas mesmas sinto que ainda não é o momento de escrever mas já não aguento mais ficar assim nessa convicção deglutida eu que fiz um retiro nele aprendi como respirar bem fundo alterar o diafragma e interromper uns soluços que estavam encalacrados desde muito tempo mas que agora não me permitiam dormir com os pulmões completos completa estou eu de líquidos que poderiam simplesmente irromper mas estão em dúvida se já é o momento ou se é uma completa necessidade de completar-se completamente completamente sem transbordar e assim
é uma certa convicção, não sei se fria, ou pelo menos estimulada por um fio narrativo pouco acentuado recriado nesta necessidade de dizer qualquer coisa, não por um antecedente anterior ao ímpeto, mas só pelo ímpeto de escoar mesmo. esta incontinência, a virtualidade do fazer, do como fazer, e um incômodo praticamente total ao redor de tudo, uma aura de insatisfação, também chamado e conhecido como um ancestral que invade a glote e estilhaça uma falta total, falta intransitiva, não é nem "de" alguma coisa, um acúmulo de líquidos, uma espada de cristal azul enterrada na nuca mas não não não mais. um anjo arcanjo da mesma cor da espada, talvez um serafim, eu que não conheço a hierarquia dos anjos, nem retiro deles o significado de serem simplesmente o sentido ascendente da luz, a quem eu peço, ensina-me o teu sim. já dizia a outra que tudo começou com um sim e um outro que se é ele o portador do grande coração temei não partam dele as grandes negações, este ir perdendo vestes na certeza de que não há sentinela que resista à umidade da noite a não ser que se consolide um treinamento pacífico não é por medo não que alguém permanece acordado e no compromisso 

e no compromisso.

domingo, 11 de setembro de 2016

quando já não sei mais o que fazer, assustada com ser flecha e espada, toda a violência, me abraço os próprios joelhos e me torno rocha. torço torço torço pra ser pedra de nascente, menos que cume, pois eu sou a descida pelo ventre, situada pela espuma, cantante meu gato tenta chamar a minha atenção, quem sabe eu deixe assim, de fato, de situar-me tanto em quem sou e possa, quiçá e oxalá!, transformar-me. 
é confuso, dilacerador, estar num lugar em que ouço rojões ao fundo do horizonte e tenho certeza que são bombas de gás, mesmo que não sejam. e mais confuso é o som misturado das risadas no salão de festas dos vizinhos, as risadas, o bater de copos, misturado em cima de estrondos que tenho certeza que são, mesmo que não sejam, bombas de gás. as camadas do tempo, o vento. o som e a fúria.
dizer 
a vida 
decifra-se 
reparte-se
como um bolo uma torta uma bacia 
esse posicionar-se vertiginoso 
sobre um garfo 
levando até a boca 
o ritmo da mandíbula 
o mudo 
dizer de quem mastiga 

eu só queria jantar em paz 
uma guerra se deflagrou 
ruídos rajadas eu ouvi
bombas 
de gás 
na linha do horizonte 
tanta gente só queria 
ver o barco correr 

eu acho assustador 
ouvir os vizinhos rindo no salão de festas 
na linha do horizonte as bombas de gás 
me dizendo que não vai mais falar comigo 
que é menos confuso 
estar sem confusão 

eu volto, não sei se aos poucos, de perto ou de supetão, a escrever 

tenho a impressão de que você vai 
não quero 
dizer 

ser diferente
de si
a si
sendo
transformada

sábado, 13 de agosto de 2016

Saturno avançou e eu me lembrei da velhice, Capricórnio que sou, reaprendida sempre por outros tempos: não me interesso por nada que não atualize alguma tradição. atualizar é tornar ato. o que corta foice, o afiado, quem é? o vento.

*

é chegar a Lisboa que começo dar em versos.

*

havia duas coisas ou mais para serem ditas, mas antes era necessário senti-las.

*

preciso falar contigo e dizer mal dos que o venceram 
chego a tremer de tanta eternidade

*

estou disposta a, mais uma vez, reinventar-me, saudando o Chão, esse limite.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

o projeto é entrar de férias
desaparecer compromissos da frente
esquecer tudo que não for
necessidade mais básica
como o amor

a névoa que vi dissipou
no entanto meus ouvidos
aqui no espaço
encontraram silêncio

vento cru uma beleza e outra
também atmosfera
cidade de atmosfera
reflexo céu de terra

e com sono de pálpebras
tantas adormecer
todos os dias
por muito mais que o suficiente

terça-feira, 26 de julho de 2016

karma, talvez

um nível de intensidade vibrátil por muitas conexões recombinadas em um termo quase total de necessidade de veiculação vibrátil eu já disse vibrátil é mesmo a palavra chave depois de intensidade e uma sensação constante de superfície talvez leve muito tempo para que a gente possa se abrir, talvez tenha sido em outra eternidade que os milênios já nos atravessaram e o que vivemos agora é nostalgia essa liga recorrente de assuntos de orgulhos e de silêncios misturados em pó saliva e sola de sapato.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

espantada com a uniformidade dos ritmos
cansada com a desfaçatez da vontade de simplesmente
d e s c e r
dar em rio
correnteza
nunca estanque
 

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