sábado, 13 de agosto de 2016

Saturno avançou e eu me lembrei da velhice, Capricórnio que sou, reaprendida sempre por outros tempos: não me interesso por nada que não atualize alguma tradição. atualizar é tornar ato. o que corta foice, o afiado, quem é? o vento.

*

é chegar a Lisboa que começo dar em versos.

*

havia duas coisas ou mais para serem ditas, mas antes era necessário senti-las.

*

preciso falar contigo e dizer mal dos que o venceram 
chego a tremer de tanta eternidade

*

estou disposta a, mais uma vez, reinventar-me, saudando o Chão, esse limite.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

o projeto é entrar de férias 
desaparecer compromissos da frente 
esquecer tudo que não for 
necessidade mais básica 
como o amor 

a névoa que vi aqui dissipou 
no entanto meus ouvidos aqui 
espaço encontraram silêncio 
vento cru uma beleza e outra
também atmosfera 

cidade de atmosfera 
reflexo céu de terra 

e com sono de pálpebras 
tantas adormecer 
todos os dias 
por muito mais que o suficiente 

terça-feira, 26 de julho de 2016

karma, talvez

um nível de intensidade vibrátil por muitas conexões recombinadas em um termo quase total de necessidade de veiculação vibrátil eu já disse vibrátil é mesmo a palavra chave depois de intensidade e uma sensação constante de superfície talvez leve muito tempo para que a gente possa se abrir, talvez tenha sido em outra eternidade que os milênios já nos atravessaram e o que vivemos agora é nostalgia essa liga recorrente de assuntos de orgulhos e de silêncios misturados em pó saliva e sola de sapato.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

espantada com a uniformidade dos ritmos
cansada com a desfaçatez da vontade de simplesmente
d e s c e r
dar em rio
correnteza
nunca estanque

domingo, 17 de julho de 2016

a nova adolescência

um novo ciclo, um transe em espécie
desmagnetizando daquilo em que estava colado
e a precisão de saber que não se quebra um verso com que
no final, a não ser que você esteja querendo ser ingênua
ficcionalmente
o que também pode, talvez, gerar uma espécie de propaganda
como os chicletes mastigáveis já não precisam mais
de publicidade para o desejo das crianças
e outras formas de inquietude.

espantada com a insistência da palavra
escrevo. martelando cada insistência
ou montanha-russa
como uma fita k7 com rewind automático
me transporto para um ano atrás
e dou um um salto em mim mesma
num num num num
minuto
nuvem
num num num num
segundo
carne.

hoje desenhei a morte com giz de cera

enquanto eu via nos meus olhos
no meu cérebro carimbada
ancestral tardíssima
pôr do sol
Orum
árvore

continuo
de batom vermelho
o estômago doendo
os pulmões cheios de catarro
desde criança
tossindo uma tristeza
nem sei da onde

os médicos que tentam me mapear eu tapeio mentindo inventando
que eu gosto de batata, quando eu não gosto
é sem querer que eu me camuflo
porque, no fundo, eu gostaria
de ter um coração
no lugar dessa batata

e como tudo que eu gostaria eu tenho
fritei a batata que há de entupir
as veias até a minha interpretação

no palco eu não finjo nunca
nem encaro de frente
ninguém
miro um ponto no meio
às vezes uma olhadela recôndita
específica
pra seduzir um ou outro desatento
agressivo, maltratado
para feri-lo também
sei colocar alguém
amassado como uma barata
no canto
embaixo de um capacho

sempre sempre sempre
por revidar
terei o que revidar

nem reparei já estive estou estarei escrevendo
este poema eternamente
é melhor você desistir
de ler.
já ler é insuportável.
vocês não estão me entendendo.

a médica disse "talvez você esteja vivendo uma nova adolescência"
estranhou tudo não ouve nada a que eu não fosse estranha
algo que não encontra como se expressar
ela disse
a respeito das espinhas
mas a respeito de expressar você quer dizer EXPRESSAR MAIS?
doutora, se eu me expressar mais ninguém
ninguém fala
assim comigo, doutora

7,5kg e meio perdi
nessa brincadeira de deixar meu antigo eu para trás
quando a médica me perguntou
por que eu tinha emagrecido 7,5kg em 1 ano e meio
"por conta do... trabalho"

pensei em dizer eu te amo, mas não seria verdade
já estou divagando
reparo muito nisso nos outros
tento não acompanhar os sentidos
dos parênteses deixo só
que eles falem por si próprios
já é muito cansativo estar
com os sentidos todos dispostos

entupiu o canal entupiu o canal entupiu o canal entupiu o canal

de vez em quando minhas vias respiratórias gritam assim
feito uma ambulância
eu nem estou falando do passado
estou que ele vem como uma porta
e bate na minha aorta
eu já disse árvore
árvore árvore
árvore

árvore eu já disse árvore

e toda a doçura dos teus ramos
atravessarei como atravessaria
vamos de pescoço coração caminho
alto ereto e aberto

sexta-feira, 1 de julho de 2016

dezembro 2011

"tenho pensado muito na possibilidade de vulnerabilidades que não sejam frágeis. na sensibilidade vulnerável, permeável, mas que é uma força"
"o risco de fazer a escuta dos dias não é falhar no projeto, nem na execução. mas nos dias. viciar-se a ver/ouvir, notar/perceber e achar que enxerga quando só há resgate no inédito. inédito no sentido de desconhecido,
só há resgate no desconhecido
só há necessidade de resgate no desconhecido
ou nos tempos diferentes entre as pessoas. no intervalo
de que erram.
há também no enfraquecimento uma força ou na vulnerabilidade.
serão as pedras permeáveis?"

escrito no início de dezembro de 2011, no meu caderno que não é público como este blogue,

quinta-feira, 30 de junho de 2016

água em ênfase

ele passou por mim como uma hélice 
liquidificador desmantelando o pântano 
o caos da madrugada 
a experiência retomada 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Saturno

grande parte das pessoas que procuram meu trabalho como astróloga estão muito fascinadas, amassadas e/ou erigidas por Saturno. tem gente que não pode nem ouvir falar dele que se recolhe, ou melhor, endurece.

entendo Saturno como o eixo, a linha invisível. Saturno é também a nossa moldura e ela despenca quando os remendos que a gente coloca na gente mesmo estão excedendo os limites da nossa integridade.

sendo um dos senhores do tempo e por excelência o velho, aquele que ensina, que cria a disciplina, Saturno é antes e depois de tudo um mestre. mas não se enganem, Saturno é onde precisamos descobrir a nossa capacidade de disciplina sem que esta seja regida pela normalidade social. Saturno não tolera os desleixados com o próprio caminho e amedronta os cumpridores de papéis.

cumprir um papel social é uma das máscaras de Saturno, que pode, ou não, vestir bem na nossa cara a ponto de nos identificarmos com ela, mas também pode se tornar uma armadura que criamos para nos defender do medo de não correspondermos. mas correspondermos ao quê? à fantasmas, projeções das nossas imperfeições que nos avaliam? ou a crueza radical da integridade? dizem que as coisas quão mais rentes dos ossos mais doem.

Saturno não perdoa ilusões. é uma espécie de ajuste de contas de nós com nós mesmos. assim, Saturno traz, muitas vezes, frustração, uma sensação constante de que precisamos cumprir com alguma coisa e que não vamos dar conta. e a gente só consegue cumprir o necessário quando nos livramos do excesso de peso de ter que cumprir. e aí, simplesmente, com o pouco limitado que cada um de nós é e pode, fazemos.

Saturno é dos ossos, das articulações, da pele. sendo a estrutura, facilmente é rígido e por isso costumo lembrar às pessoas saturninas que conheço o que tantas vezes diz o I Ching: que o rígido quebra enquanto o flexível entorta. seja como o bambu que balança com o vento sem se fraturar.

é a fronteira, Saturno. aquele lugar que se atravessarmos não sabemos o que será encontrado. onde não queremos que ninguém entre. e quando atravessaremos a fronteira, embora com medo, descobriremos quem somos. Saturno é a impossibilidade de se fugir de quem se é. costumamos carregar coisas demais, muito mais coisas do que precisamos e, assim, Saturno vem com a sua foice ceifando, porque menos é mais. a gente se sente perdendo alguma coisa, mas no fundo vamos ficar mais leves, mais precisos, só com o necessário.

costumo dizer que Saturno é um trilho e é por isso que em trânsitos intensos dele a gente se sente meio que arrastado pela vida. a intensidade em quilômetros ou metros desse arrastamento vai depender de quão longe/perto se está de si mesmo. mas não é, veja bem, uma questão de mérito ou culpa, é uma questão de responsabilidade.

sendo uma nuvem de chumbo, os por ele atravessados costumam chegar com uma epígrafe ao lado "os ombros suportam o mundo". a melancolia muitas vezes pode levar ao sofrimento naquele lugar onde Saturno está. a nuvem de chumbo também é uma imagem que eu uso pro luto. Saturno encerra, delimita, poda, finaliza. a nuvem de chumbo chove, desce pelos nossos ombros, atravessa os joelhos e pela sola dos pés nos enraíza ao chão do que somos. e eu diria: é mais prudente entrar descalça em si mesmo.
 
 
a ciência da abelha e a minha muita gente desconhece, e eu gosto que permaneça nesse invólucro do desconhecido grande parte da minha pessoa. nascer é se tornar vulnerável & eu quero parar já este texto porque estou me sentindo exposta, em carne crua, à nitidez das coisas serem como são. eu e meu aquecedor nos pés, nascemos pra viver juntos. meu estômago é quem tem dúvidas da nossa mutualidade. problemas de digestão emocional, dizem os manuais, mas eu também não vou falar dessas coisas assim sem pedir licença ir com passinhos lentos mas não atravessar a fronteira. mil verdades me traz a fronteira. digamos que


fui



fazer 



outra


coisa!!!!

terça-feira, 21 de junho de 2016

abri este computador universo gélido no mais frio da noite quando meu pulmão ressoa e minha bexiga revela-se um comumente chamado corpo
são os mesmos lugares dele que ecoaram em adoecimento profundo no ano passado
as vésperas e nos depois
da morte da minha avó em 19 de julho de 2015
falta um mês para fazer um ano

*

eu vim aqui dizer umas coisas com liberdade mas aí abri o facebook 

*
hoje abri ao acaso um trecho do zaratustra em que ele fala sobre os poetas. eu li muito rapidamente como atualmente leio a maior parte das coisas que leio. eu sei que esse não é o melhor modo de ler mas no fundo não estou nem aí pra isso. muito rapidamente eu sou pisoteada por todas as ligações da linguagem que um texto quer produzir comigo. sou como um plugue de tomada na parede, conectando com o que ali me atravessa. elétrica.
zaratustra diz que os poetas de tanto falarem pela natureza pensam que a natureza é que está encantada por eles, poetas, que afinal são uns pavões que gostam de pavões.
foi o que eu entendi por hoje. foi o que eu quis entender. outro dia leio novamente e vou entender outra coisa. às vezes acho que o que eu entendo daquele momento é mais importante do que o que está sendo dito. estou me tornando só sensações. sensações críticas, mas sensações.
é claro que o zaratustra faz uma fábula crítica maravilhosa, uma capa cínica poderia pingar rancor ali, mas eu não. me reconheci em cada linha daquele trecho. não senti que ele estivesse inventando coisas, nem que não estivesse sendo violento comigo, escabroso com os outros, eu poderia citar um trecho como uma espécie de "recado". mas eu não jogaria pavões na cara de nenhum outro poeta, pelo contrário, eu cozinharia os pavões para comer e os adoraria passeando no meu jardim, adornaria minhas paredes e pernas com suas penas e os deixaria procriarem livres. nasci pra me lambuzar em pavões.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

direto do túnel do tempo

Quantos nomes em teu nome,
não te cansas, não te gastas, não?
Ou foi agora e é por isso
meu cansaço, esta falta
de forma e lugar?
Este amor tão incapaz?

Quantos nomes sem teus dons?
E eu, que tantas vezes
acertada fui na testa
pela seta que enverga
sem nunca se quebrar
estou às lascas.

Outros te chamaram deusa
profetisa do esquecimento
lucidez embriagada
raiz de musgo sobre a rocha
caixa encoberta de pó
sem nada dentro, poesia.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

hoje eu entendi uma meia dúzia de coisas, mas como elas se processam lá no fundo do meu mundo eu ainda não vou dizer nada pra ninguém porque a minha intimidade compartilhada é bem menor do que parece ser. inclusive não estive útil às três da tarde mas eu segui adiante que nem só de utilidades altas e propósitos das mais altas naturezas vive a vida. 

*

trazer dicionário de símbolos 
martelo 
estante 

(a respeito da conversa que tínhamos mais cedo)

como dizer que do desejo já entendi o reverso, e do reverso encontrei o avesso travado em laços despeitos formas de gelo mas eu só engasgo por cansaço. 

demolir uma pessoa 
o quanto a pessoa 
demolida a pessoa 
 

segunda-feira, 9 de maio de 2016

repente

madrugada total provável recurso do desgaste foi alavancar uma concentração radical na ansiedade do necessário a ser a ser a ser a ser feito. feito fazendo um ser. mais tarde, cortando tabaco com uma tesoura acordei pela repetição fazer a tudo que se repete como um gesto sagrado, não ser uma pessoa moderna monótona esperando das revoluções algum traço a mais do que um círculo quando muito nítido num telescópio bem limpado. veja não estou fazendo concessões a vida só poderia ser total. sei q cada um dos gestos q a minha ansiedade imaginou eu tirei o dia pra cumprir. espero a calmaria como quem liberta os ombros, mas não agora ainda. é tempo de começo. Oxaguiã. a ponta de um círculo só existe se o quebra ou quando é vista num golpe de sorte por quem estiver no meio.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

sou uma poeta sem inéditos e assim eu me sinto como uma poça sem água. conheço meia dúzia de mandingas, noite dessas sonhei que o chão virava água, mas não sei, novamente, como é escrever e é por isso que eu tenho escrito qualquer coisa por aqui. que é pra manter a máquina rodando. uma vez li uma entrevista com o Gonçalo M. Tavares em que ele dizia que antes de começar a escrever, ele escreve durante 3 horas seguidas. "pra ligar a máquina". escrever é antes/durante/depois de tudo um gesto.

em Lisboa tive a sorte de ter aulas de escrita de romance com o Gonçalo M. Tavares, que é tão inteligente que conseguia ensinar os alunos a pensar, a ver, a observarem a diferença entre ver e olhar e observar, mas não a escrever. as apresentações de trabalhos de curso de escrita de romance de GMT eram orais.

não cheguei a apresentar nenhum trabalho, as aulas sobre Hamlet me consumiam toda a energia e chegaria a dizer que aproveitei algumas deixas interiores pra desistir de tudo algumas vezes naquele ano. seis meses antes eu tinha terminado o mestrado e um livro inteiro, os dois ao mesmo tempo. nunca vou ter coragem de reler minha dissertação e meu livro ao mesmo tempo, mas eu sei que há uma ponte, um vale, um rio entre eles, que os une. talvez eles sejam a mesma coisa.

e eu fico tão obcecada num só objeto, daí o objeto fica pronto, eu morro. e é sempre uma morte lentíssima a ressurreição. então eu só escrevo não é nem pra passar o tempo. é porque quando escrevo não tenho a mínima ideia do que estou fazendo. e é isso, o que eu amo.

terça-feira, 3 de maio de 2016

sempre que muita coisa acontece na minha vida alguma realidade desloca a retina e eu começo a ver nas pessoas da rua gente que não existe mais na minha vida e eu acelero vou pra cima só conheço o êxtase o pleno agudo não sou uma pessoa de nuances embora esteja na sintonia. dez anos atrás eu procurava meu reflexo nas vitrines porque o eu precisava saber quem o eu era, eu conhecia muito pouco a minha imagem. é isso Narciso sabe-se muito pouco nele mesmo, então quando se vê se desconhece e se fascina o desconhecido se afoga. todas as profecias que sigo pregam o autoconhecimento, o eterno descascar da cebola. eu fiz psicanálise anos até que apareceu a ayahuasca que olhou pra cebola e disse assim "cebola? que cebola? agora vai ser manjericão! hortelã! rizoma! e esse pedaço aqui não adianta explicar que está meio podre por isso ou aquilo, esse pedaço está podre! e o podre? vai pro lixo".

é uma compreensão mais material a que alguns dos psicotrópicos trazem pras consciências. sei que eu ando vivendo tanta coisa que na hora de ver ando preferindo assistir netflix do que ter visões, sobretudo com pessoas que já não sei quem são no meio da rua. vi nos ombros envelhecidos de algum velho os ombros envelhecidos que ele teria hoje, a corcunda. agora imagine dizer pra alguém: lembrei de ti na corcunda de um velho. viver pode ser tão velho.

e sempre que minha vida muda uma burocracia vem junto porque sou da ordem dos materiais, dos que usam papel, daqueles que constróem/são as naus de si mesmos. toda uma papelada pra se ser quem se é e pernas pra que te quero.

só hoje eu andei uns 14 quilômetros sem nem perceber. sempre que mudo me torno a andarilha que eu sou do fogo alado nos pés como os exus, mercúrios, transpondo, trazendo e voltando. nasci pra intérprete e não sei falar nenhuma língua. quando a vida muda já não me procuro mais nos reflexos, mas ainda preciso sentir o chão embaixo dos meus pés. o chao do sal da terra o chão. então eu não sossego, eu quero é mais. é que morrer deve ser muito chato.
um mundo em que alguém diz pra outro alguém
"a paixão que eu tive por você, lembra? meu psicanalista entendia que ela era uma crise narcísica"
é um mundo que precisa de um longo carinho no umbigo

sexta-feira, 29 de abril de 2016

na antevéspera da morte da minha avó, no ano passado, eu sonhei o que está aí no link. passei os meses seguintes a sentir a morte pairando por redor alto em cima tudo nuvem chumbo & eu resistindo com música.

adoeci umas semanas antes da minha avó morrer (na minha vida grandes adoecimentos tendem a anteceder acontecimentos tenebrosos, não é a primeira vez que me acontece) e achei que o sonho falava disso. mas não. o sonho, como a doença, antecipava o futuro. o sonho do dia 18 de julho me dava a receita para atravessar o pós-19 de julho.


sei que hoje, quer dizer, nesta última noite, sonhei que estava no mesmo consultório que no sonho de 10 meses atrás. só que dessa vez estava com a Lisa, uma enfermeira de medicina chinesa que já me ajudou algumas vezes a ficar bem de modo muito humilde e pouco ostensivo. eu estava deitada numa maca, a Lisa vinha com um sorriso e a Lisa me enrolava a coluna numa posição como um caracol, envolvia minhas pernas no meio do meu pescoço, até que eu fiquei completamente confortável.

quando atingi o conforto total, que paciência, que ternura por existir num corpo, a Lisa me desenrolou calmamente, eu então percebi que tinha deixado a posição fetal em que estava e a Lisa disse "pronto, você acabou de nascer, agora você é você mesma". e eu acordei, muito agitada, porque nascer, vamos combinar, nascer é muita coisa ao mesmo tempo agora.
cheguei no poupatempo pra habilitar meu título de eleitor cerca de 3 horas da tarde, uma fila gigantesca chegava até a porta de entrada, fui pedir informações no balcão principal, voltei pra fila da porta de entrada, a atendente da fila. sim, uma atendente no final da fila (o Brasil não para de me surpreender, cada final de fila tem uma pessoa responsável por ficar no fim dela explicando pra quem chega que aquela é a fila exata, sim, ou não) me diz "a última pessoa que vamos atender nas próximas 2 horas é este senhor aqui"; eu respondi "esse senhor na minha frente?" e era, e eu tinha chegado 4 segundos depois que o senhor na minha frente que era o último da fila. desgraçados sejam os segundos que levam ao imprevisto.

resolvida que não voto desde 2008 e determinada a que isso não continuasse assim, perguntei que horas eu conseguiria ser atendida. não satisfeita com a resposta "volte amanhã", insisti e ouvi da atendente "talvez às 17h voltemos a abrir para atendimentos, vai depender da demanda do sistema".

e eu "demanda do sistema? mas como vocês dizem que ficam abertos até às 19h pra esse tipo de serviço e faltando 4 dias pra o prazo final eu só vou ser atendida se uma 'demanda do sistema' funcionar?". com o nada feito da demanda do sistema (what a fuck? não consigo lidar com esses conceitos ambulantes que viram triviais verborrágicos), resolvi ir até o mercado da Lapa, que é um micro lugar de preciosidades, por exemplo eles vendem as melhores velas de 7 dias que alguém já pode ter encontrado, cachimbos e sedas a preços módicos, e tem as melhores lojas de ervas que já vi: duas, uma em frente da outra, com tudo fresco. ervas pra culinária? também. mas ervas pra medicina. e as plantas têm uma capacidade muito curiosa de cuidar tanto do emocional como do espiritual das pessoas.

no mercado fiz uma hora, entre outras coisas descobri com o rapaz da loja que "canela de velha", a planta que uma senhora comprava, serve para osteoporose. não conseguia discernir com tanto verde sendo vivo ali ao dispor e com tanta especificidade de ervas frescas comprei um trivial ramo de arruda bem farto, enfiei no bolso do casaco e voltei pro poupatempo, sem não antes dar uma olhada em pijamas, que o frio chego. entro no poupatempo com o ramo de arruda no bolso esquerdo, grandão gigantesco, eu a samambaia ambulante do amuleto, voltei, agora vocês vão me atender. não eram 17h, eram 16h20 e como eu desconfiava, já atendendiam novas pessoas. a fila estava minúscula, colei no fim dela.

aí no fim dela vem outra atendente que me diz EXATAMENTE a mesma coisa que de 1h30 antes. eu falei "amiga, não tô acreditando que hoje é meu dia mesmo, também quem mandou trabalhar com astrologia e vir aqui justamente no dia em que mercúrio foi completar a turma da retrogradação de vez e 70% do sistema solar tá andando pra trás?!!!! e eu esperando justiça eleitoral...". quer dizer, eu sorri e expliquei, e argumentei e fui simpática e exigi os meus direitos e reclamei e sorri novamente e fui ficando no fim da fila até, simplesmente, entrar pra área dos que iam ser atendidos porque eu me parecia um deles. uma mulher atrás de mim fez a mesma coisa. o Brasil é mesmo dos gregários cheios de jeitinho.

quando eu já estava com senha a atendente voltou e me disse "isso que dá ser esperta e discreta, outra pessoa não tinha conseguido" & a mulher do guichê comentou que dava pra sentir o cheiro de arruda de muito longe, mas que ela achava que vinha de outra mulher e eu reparei que a outra mulher era negra e pensei "o que pensar disso?". então olhei bem pra arruda enquanto ela conferia meu endereço e preenchia no sistema cheio de demandas, quando percebi que o cheiro de arruda tinha aberto minhas vias respiratórias e eu tinha parado de espirrar porque deusnosacuda esfriou eu resfrio, tô pra renascer numa roupa de astronauta mas enquanto isso não acontece tô me valendo mesmo das arrudas & afins, cada vez mais são as formas mais imediatas que encontro de regeneração.

sei que umas duas horas depois eu estava conversando com um atendente que me dizia pra eu não reclamar da foto que ele tinha tirado porque no inverno é a época que as mulheres se vestem melhor e eu tive vontade de mostrar pra ele a quantidade de kleenex usado que eu tinha no bolso, mas sorri e falei "vai essa mesmo", enquanto pensava "jesus no título que cara de que fumei seis que eu tô". quando o rapaz me deu finalmente meu novo título nas mãos eu disse "é esse papelzinho? só isso? nossa, foi tão fácil, que emoção". ele riu. e eu pensei "vai ser a primeira vez que vou votar na cidade em que eu nasci".
minhas narinas estão queimadas pelo fogo que mora no vento frio
toda e qualquer coisa que eu fizer agora aqui ainda não é um livro
vejo imagens da escola em que eu estudei anos só que hoje
não sinto nostalgia, nem vontade de voltar pra casa.
estou em casa.
escrever ou não é só uma questão de com que música
fazer deixar a música agir no pensamento
mas hoje estou tão cansada que não consigo delirar em nada
sem recear bater num espeto um espinho uma força qualquer
esmagante também conhecida como eu mesma em dias úteis
nos inúteis esmago outros seres vivos como pequenos ácaros
deitados embaixo do meu travesseiro, eu quis dizer
inconsciente. como é bom não fazer sentido!
não sei se por anarquia ou nem aí não voto desde 2008.
não há exorcismo como o da música nem delírio esquecimento, nada

quarta-feira, 27 de abril de 2016

depois de um copo de água morna a primeira coisa que eu vi hoje de manhã foram umas mensagens do Ribão fazendo uma amorosa resenha do meu livro por WhatsApp do outro lado do oceano, eu ainda não tinha tomado café e não entendi nada, enquanto eu não entendia nada uma menina me escreveu perguntando se eu dava consultas de "orientação espiritual" e eu pensei no que não faço e é tanta coisa testes vocacionais nem falo que elx vai se divorciar ou não só porque é o que a ansiedade paga pra ouvir, mas à pergunta dela eu respondi que "sim".  tivemos também que arrumar o estoque de livros e descobrimos que uma cadeira apodreceu e que um gato mijou no obelix d'Aquele quartinho. aí eu ajudei um homem muito bonito e conversei com nosso amigo advogado amigo e fui me sentir atrasada com algumas coisas gravei um vídeo que vai passar até no Peru recebi umas coisas às quais não consegui reagir e finalmente o Daniel Faria chegou aqui em casa comi cogumelos e depois comi bife que proteína não me falte quando me sinto em colapso, passada essa parte deitei com as pernas pra cima, não entendi nada das notícias nacionais. minha mãe está gripada meu pai está bem quando falei com ele ele reclamou de alguma coisa mas eu não prestei atenção direito no que ele estava falando e no final do dia falei com minha sogra no telefone que me disse que eu faço muito bem para o filho dela e averiguei no site da justiça eleitoral o que é preciso fazer pra que eu saia da situação de indigente cidadã perante as urnas que vão dar nisso que já deram, mas, olhe, são tantos planetas retrógados no céu é por isso que tudo está muito lento agora revisando rewind é uma espécie de vento ao contrário e eu sei com um só gesto como fazer chover cometas e meteoros da ponta dos meus dedos se tenho as palmas das mãos muito abertas.

domingo, 10 de abril de 2016

a velha foice do futuro

são três os caminhos. parei por aqui na esperança de que depois soubesse pra onde ir. acontece que lá atrás ficou quem sabia as respostas. as mágicas e as substâncias vão comigo para onde quer que eu vá. só tendem a aumentar. eu disse isso na lista dos prós, nos contras há o medo, o receio do salto grande grande alto cabrum! o erro. gosto tanto do sim quanto do não, por isso penso muito nas coisas, muito no caso a caso. 

*

fiquei pensando tanto que não consigo sair do sofá. muito mais rápida do que eu: a realidade. muito mais rápido que a realidade: o pensamento.

*

mil anos atrás eu tive um namorado que dizia que a ansiedade é como um carro afogado. você pisa tanto no acelerador que o motor paralisa por excesso combustível.

*

convites para ir.
a imprecisão do futuro.
o amor pelo adiante.



*

sem saber do futuro
amo o adiante
arrisco pelo instante
meu nome: duração

há mil anos um amor
deu-me um espelho
dizendo: arisca te deixo
sozinho me encaixo

no / nú

eu amei aquele
adeus como amo
todos: o sim o não
têm tantas lábias

o passado, o futuro

*

alguém me disse que as pessoas dividem-se nas que ambicionam o futuro; nas que estão presas no passado; e as que aceitam o sempre presente.

ouvi dizer que as pessoas dividem-se nas que preferem o sim; nas que preferem o não.

todos que criam hierarquias assim acabam por conhecer os seus contrários. lei do mundo: os diversos onde tudo é mútuo.

perdido mesmo é quem achou, pois fez do perder-se o conhecimento do achar-se.
e vice-versa.

isto é incompreensível.
eu sei.

quarta-feira, 30 de março de 2016

essa noite sonhei que o saguão de entrada do prédio das férias litorâneas da minha infância tinha sido todo reformado de forma a tornar-se aquilo que era "originalmente". era lindo! no lugar das paredes de pedra o edifício tinha grandes traves de madeira em forma de céu de planetário e em cada pedaço do "céu" existia algum conhecimento demonstrado.
por exemplo, havia uma área para o que se sabia sobre as plantas e suas funções. e era tudo em imagem, não havia uma só palavra pra explicar as coisas.
ao mesmo tempo, no saguão, um bando de amigos brincavam um jogo que simulava ser xadrez, mas eles mudavam as regras do jogo o tempo todo, e eu sabia que o nome daquele jogo era "a invenção do fogo". 
só depois de acordar percebi que todos que estavam no sonho além de mim eram pessoas do signo de áries. 
e faço assim: um pouco como os eles do sonho fariam: beijos para o momento do eu, em que o não-eu não vai entender muito bem tudo que quero dizer com isso. e aí? o fogo!

quarta-feira, 23 de março de 2016

advice

não tem a menor ideia de onde se meteu, não mexe comigo, que eu não ando só.

superstar com você

o melhor lugar do mundo é aqui e agora: esse blogue.

serei sempre uma escritora de blogues meu deus como eu sou obsoleta 
outros pérola, viaduto 
eu serpente envenenada de luminosidade terrestre fluorescente 
  

Hello darling

pela primeira vez na vida eu não dei de cara com a parede.
eu freei. eu não recuei, embora recuar seja de uma nobreza de espírito daquelas, recuar eu não recuei não. 
eu parei antes da parede. não dei pinote, eu caí num abismo atrás mas me segurei numa arvorezinha que estava na encosta aí não dei trambolhão lá embaixo. eu fiquei em cima. eu estou em cima. talvez eu tenha que descer mais um pouco mas tenho medo de ficar lá embaixo. 
recusar eu recusei tanta coisa a que eu queria dizer sim
mas sim não significa necessariamente abertura 
fazer uma ponte
um conectivo 
sim não significa sim necessariamente 
tem não que é um sim danado 

putz 
o farol não abre eu nem sei pra onde
mas eu vou andando 
depois enquanto isso normalmente 
esse monte de palavras que não dizem nada aí em cima 
o nada iluminando lá de cima
dizendo

domingo, 6 de março de 2016

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

oi, alforria
não me esqueci não de você 
viu
já volto
querido

sábado, 13 de fevereiro de 2016

que meu avô, dizem, era meio bruxo, era coisa que eu já sabia desde antes de nascer, que procurou isso tanto quanto o acaso lhe deu.

mas foi só uns dias atrás que ouvi uma história sobre uma margem em curva do rio Piracicaba onde houve uma matança tão grande entre diferentes bandeirantes que disputavam índios e terras e tudo que traziam que mataram-se uns aos outros mais de uma centena de homens.

tanto sangue sem dó houve lá que se dizia daquele lugar que era amaldiçoado. que, passados tantos séculos, vozes gritavam de madrugada ainda pedindo por salvação e luta. que o vento ali zunia tanto que uma pessoa era capaz de perder os sentidos se lá ficasse muito tempo. a começar pela audição. dizia-se de lá também que os capins tinham faces de espinhos e sibilavam nas pernas de quem lá entrava. até as plantas deitavam sangue.

meu avô foi lá passar quatro vezes as noites. sozinho no escuro fazia das suas. não tinha medo? de nada, é o que me respondem os que o conheceram. ali trazia como escudo os gestos da paz. negociava, intermediava, fazia caminhos e traçava limites. tudo, tudo com as mãos, as palavras e os gestos. ou isso sou eu que imagino. aquele mato denso e escuro e ele se confundindo com as folhas pra poder pelo poder transformar poder. mas ele nunca explicou pra ninguém, nem fazia muito alarde.

então um dia meu avô chegou em casa e disse para o meu pai "pronto, sossegou, 'tão em paz. não tenho mais que voltar lá". e nunca mais voltou.

domingo, 10 de janeiro de 2016

capricórnio



ontem na minha festa de aniversário me perguntaram quando eu escreveria aqui sobre o signo onde o Sol astrologicamente se encontra em todas as transições de ano do calendário gregoriano: Capricórnio. para alguém de outro signo, talvez, esse pedido soasse como uma cobrança fora de ocasião; mas pra mim, que sou de Capricórnio, essa lembrança soa como uma confirmação: trabalho, por prazer & firmeza, este meu lugar no mundo e sou o que faço em qualquer momento da minha existência. que eu escreva, então, de ressaca ainda, enquanto a Lua nova se encontra em Capricórnio e eu ainda não fiz realmente aniversário.

dia desses eu conversava com meu sobrinho de 11 anos, que nasceu na véspera do Natal e que anda interessado em saber mais sobre o nosso signo. ele perguntou: "o que nos define?". eu respondi, na lata: "que nascemos velhos e vamos, aos poucos, descobrindo a alegria disso". ele ficou muito incomodado: "mas que graça tem isso?" e eu respondi "quando me disseram isso eu era mais nova do que você e também detestei. mas com o tempo você vai descobrir". e o lembrei do mesmo menino que ele foi, com 4 anos de idade, me dizendo que andava muito interessado em calendários.

o tempo é aliado dos capricornianos e é por isso que dizem que gostamos de agendas, calendários, compromissos porque, de muitas maneiras, Capricórnio tem a ambição de obrar todo o fazer (im)possível para possuir o seu poder. e o poder da Cabra-Peixe é dominar esse tambor de todos os ritmos, senhor das rodas que nos esmagam e nos constroem: o tempo.

mas o que é o tempo? a melhor definição por milênios é a de Santo Agostinho: que diz algo como: se não me indagam o que é o tempo, eu sei dizer; mas se me perguntam já não sei responder. como o tempo é muito maior do que um indivíduo, amadurecendo Capricórnio aprende que sendo o tempo um aliado, não se pode deixar que ele facilmente se torne um inimigo. não vai dar tempo de fazer tudo que a ambição deste signo quer colocar no mundo e, se não aprender a delegar e a conviver com os outros & os outrem (coisas nas quais Aquário e Peixes serão os mestres) Capricórnio arrebenta. e assim, Capricórnio aprende o que não desejaria: que, como todos, não nasceu pronto para nada. e aí, Capricórnio se torna.

isto porque Capricórnio facilmente vira um servo do tempo: como associa viver com sua imensa capacidade de fazer, Capricórnio pode se desgastar pelo tanto tempo que utiliza fazendo. Capricórnio também tem de aprender que embora o planejamento, a capacidade de antecipação e previsão sejam excelentes instrumentos, elas também não dão conta do imponderável que é viver. e aí Capricórnio nota que tem um rabo de peixe, quando percebe que o imponderável vai sempre mostrar que há uma grande ingenuidade em qualquer tentativa de controle. Capricórnio descobre assim carregar nas suas ambições a ingênua criança no seio da velhice, onde velhos e crianças são manifestações simultâneas da mesma natureza em seus ciclos.

os raríssimos capricornianos humildes que conheci não se vergam a nada nem a ninguém, mas com respeito se curvam ao imponderável dos acontecimentos, aprendem a se reposicionar conforme as coisas acontecem & reconhecem que dentro de todo velho vive uma criança que nada entende. a ingenuidade! fecunda mundos. e ensina o velho a rir de si mesmo. assim, os capricornianos são, antes de tudo, os alegres melancólicos do zodíaco. porque já viram, ouviram, reconheceram de tudo e, embora ainda queiram mais, sabem que sem podar, sem ceifar, sem limitar não há o que cresça, sem tijolos e pedras não há o que se faça para se construir uma fortaleza.

mas Capricórnio tem de aprender também que se preocupar, quer dizer, se ocupar com antecedência, não vai trazer um controle mais garantido pras coisas, pelo contrário, vai dificultar o rebolar do esqueleto da rígida estrutura em que Capricórnio se preveniu de tudo. diferentemente do seu primo mais novo, o cardinal Áries, Capricórnio tem que aprender a dizer sim ao que não imaginou como possível. dizer "não" é o caminho mais fácil para Capricórnio e, por isso mesmo, o mais rígido e sem experiências também.

Capricórnio também é a sociedade, o entendimento das regras sociais, das normas que regem a vida entre as pessoas. é claro que isto faz de alguns capricornianos regrados, medrosos, convencionais e também os maiores caga-regras que existem (sorry aos outros signos, mas esse troféu, esse topo também é nosso). mas também é evidente que o entendimento sistêmico das realidades sociais pode ser uma libertação: por reger a moral social, Capricórnio pode perceber que a variabilidade da vida é tamanha, tão ampla, que assim faça cada um o que quiser, a responsabilidade é de quem a tem, pois embora não seja tudo lei, todo ato e gesto lhe será cobrado/recompensado por Saturno, este nosso mestre-regente.

além disso, conhecer as normas e as regras com inteligência pode significar perceber, justamente, o que é preciso ser desmontado pra que a gente chegue na estrutura das coisas. pra citar, rapidamente, três capricornianos que fizeram disso as suas obras: David Bowie, Simone de Beauvoir, Gilles Deleuze. usando esses três casos de exemplo, outros podem dizer que Capricórnio está na frente do seu tempo, mas eu digo outra coisa: Capricórnio está tão fincado no seu próprio tempo, que suas raízes se aprofundam com firmeza na Terra.

por reger as estruturas, tendo a ver Capricórnio como uma alta árvore no alto do cume e, lá de cima, a velha árvore vai muito alto porque está muito ligada a profundidade das coisas. e aí, minha gente, as árvores sabem bem envergar com o vento, já a Cabra-Peixe tem que aprender a ter o que não tem: jogo de cintura.

Capricórnio é o ancião que se retira do mundo para entender o mundo. com sua metade cabra Capricórnio escala todas as montanhas, com seu rabo de peixe Capricórnio mergulha nos mais escuros dos oceanos. se é regida por Escorpião, a ancestralidade também é de Capricórnio, pois é este signo que conhece a tradição na sua estrutura, de tanto a trazer em si. e reconhecer o dom e o peso que isto é, é árdua e doce tarefa capricorniana.

gosto também de lembrar do capricorniano que foi Oswald de Andrade, que na sua autobiografia conta a chegada de um circo na cidade, no final do século XIX, com uma grande máquina de fazer gelo. o antropófago nos conta que todas as pessoas estavam em êxtase, impressionadas com aquela novidade, mas que ele, poeta de nem 10 anos, olhou o que nunca tinha visto (o gelo) e disse assim "mas eles estão impressionados com isto? mas é só isto?".

por ser o mestre da realidade, o problema da realidade para Capricórnio é que ela nunca será suficiente e, por isso, Capricórnio se coloca a obrar as coisas que não foram feitas, ou que não foram feitas suficientemente bem, quer dizer, as coisas que não são estáveis e nem duráveis. aí também o rabo de peixe do símbolo vem mostrar a natureza deste signo: ser híbrido, místico. místico? sim. é curioso que a astrologia moderna das revistas de comportamento tenha praticamente esquecido a ligação deste signo com a magia, dando muito privilégio a ambição capricorniana de possuir dinheiro. certamente o dinheiro interessa aos capricornianos, afinal o que é o dinheiro além do poder simbólico por excelência, de transformar um símbolo em matéria? e o que deseja a magia e a construção, o projeto e a bruxaria, além de transformar a realidade simbólica em obra?

construtor de pontes, sistemas de pensamento, castelos & masmorras, Capricórnio é o signo cardinal de Terra e vem utilizar aquilo que Touro gerou com sua fertilidade e Virgem selecionou com seu crivo. entendo que Touro é a matéria, Virgem a transforma em matéria-prima e Capricórnio a utiliza para fazer a obra-prima. de modo que seu espírito ganhe um brilho definido.

dizem de Capricórnio que, no limite, somos frios. certamente temos muito a aprender com a ternura do nosso oposto complementar que é Câncer. e eu acho que sim, somos frios porque somos práticos, e somos práticos por quê? oras, porque assim ganhamos o tempo. se haverá esforço? rigidez? bem, o que usaremos pra isto, fica guardado em sigilo.

sábado, 9 de janeiro de 2016

das situações mais exóticas que já vivi foi na Bahia. estávamos na praia com o Veneno, um cão que eu gostaria que fosse meu, ou espero um dia ter um cachorro tão fiel e inteligente como aquele.

nos aproximávamos dos corais e eu vi, lá longe, uma menina com alguma coisa amarrada num anzol, colocando essa coisa indiscernível no meio das pedras marítimas. percebi no veneno uma flexão de narinas peculiar e quando pensei "hora de colocar a coleira nele", ele já havia disparado e ia correndo em direção da menina.


chamei, gritei, nada, o Veneno foi no seu alvo: a menina não, embora ela tenha entrado em pânico pela fama de ser malvado que aquele cão tem naquela ilha. mas era nada, Veneno era antes de tudo um revirador de latas de lixo na madrugada, e foi direto na isca que ela pendurava com um fiozinho de nylon amarrado numa varetinha e engoliu.

eu corri na direção deles, então a menina saiu correndo em direção da mãe e dizia "ele comeu!!! não vamos ter o que comer!!!". eu não sabia com o que entrava mais em pânico e perguntei "tinha anzol na isca?" e ela com a mão "DEEEESSSSE TAMANHO", e o anzol tinha o tamanho de um polegar e estava na isca que o Veneno tinha engolido e que o fio de nylon não permitia que fosse parar muito longe.

então o cachorro começou a chorar. a menina também, começou a chorar. eu, como não choro nessas situações, abri a boca do Veneno e meu marido enfiou a mão na boca dele e começou a puxar o que estava lá dentro pra fora.

"é frango", disse a mãe da menina. e o Veneno gania de dor. eu já imaginava o anzol cortando a garganta do Veneno, ou a língua caso a gente conseguisse arrancar, me imaginava numa lancha a caminho do hospital veterinário mais próximo, e tendo que, ao mesmo tempo, arranjar alguma coisa pra que a menina comesse, quando entre puxão e tossida, o cão regurgitou aquilo que tinha engolido numa só vez. o anzol, graças as graças, estava completamente escondido dentro da carne do frango.

um cão é um animal forte: engole um anzol dentro de um pedação de frango com osso e tudo numa bocanhada só e depois o vomita e está tudo bem. a menina ficou felicíssima de que o frango tinha voltado a ser a isca pra ela.

nunca consegui imaginar o que é que aquela menina pescava num coral com um pedaço de frango daquele tamanho, sendo que ela poderia comer o frango, ou seja, devia ser algo mais substancioso. ou especial. não sei.

só sei que tenho feito tanta coisa na vida que eu não esperava nunca ter de fazer, que às vezes só posso entender que a realidade é um anzol num pedaço de carne dentro da garganta de um cão chamado Veneno.

domingo, 3 de janeiro de 2016

é uma sensação de esgotamento, é um exagero, é próximo da morte. já é a terceira vez que sinto isso assim. não é que seja de repente, pelo contrário, é uma morte construída dia a dia, mesmo quando esquecido o objetivo, tem uma coisa se tecendo. um tecido de fundo. esquecimento e trabalho. espera e recusa.

desde que fiz um livro quero sempre estar a fazer um livro, quero estar na duração do durante. a Clarice dizia que quando não escrevia, estava morta. eu hoje soube que tinha encontrado, depois de meses procurando, a forma final, a ordem entre os poema, eu soube porque senti primeiro uma trava, um amargor, onde buscar o ar? cansei. já sei, fui expulsa. acabou.


eu não soube porque sou uma pessoa inteligente que verifica cada encaixe. não escolhi os temas. não apontei os objetos com os dedos. no entanto eles estão todos lá. é alguma espécie de caos, há quem vá chamar de bagunça, outros de intuição. eu diria: ter uma luz que ilumina: porque há ligação, alguma coisa invisível que traz fluência, certa luminosidade e sombra, há umidade e secura, algum equilíbrio, respeito. ao mesmo tempo que os poemas ficam lá todos, ficam sozinhos disputando. são uns gladiadores. e às vezes uns travesseiros.

amanhã o livro vai para a editora. daqui uns dias para o revisor. em 15 dias vai estar nas mãos do paginador. tantos amigos.

o esgotamento é resultado de uma dedicação. todos usam palavras, embora eu use as mesmas, e tanto as usem comigo, sou por elas usada enquanto vivo. quando já não tenho mais nada a dedicar para aquilo, quer dizer, quando já não precisa de mim, me manda embora. eu acato, sem resignação. é um pouco triste esse adeus. penso e dou um sorriso. deve haver quem sente êxtase numa hora dessas. mas escrever um livro não é, exatamente, uma glória. isso é mistificação. e, como a literatura vive de mistificação "Seiva, veneno ou fruto", é o nome do místico que não é homem nem mulher, criança nem bicho, planta nem vento, água nem olhos. embora seja tudo isso.

não tarda, provavelmente em março, o místico sairá com quem o quiser.
e eu? vou dormir.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

na impotência há muito aprendizado
desde muito pequena me interesso pelas formas do espírito: a imaginação veio primeiro. o excesso de imaginação foi, inclusive, um sintoma de diagnóstico e linhas diversas. da homeopatia à psicanálise. hoje se assustam com a retenção muscular de que sou capaz. elas por elas, noves fora, quem sofre mesmo são os meus pulmões. dentes fracos, cariados. pulmões cheios de catarro. no entanto esse brilho, esse brilho de entusiasmo pelas formas da matéria que se jogam nas coisas.

a cada dia mais associo ego com fazer. chegam a me dizer "sabia que não é preciso sempre fazer alguma coisa diante de alguma situação?". não, eu não sei. e adoeço por exaustão. olho bem nos fundos do escuro e reconheço: é o exato oposto da potência que eu senti, da capacidade de ação que eu tive, do êxito que eu executei. então fico assim: aos rastros, retalhos, confins. entende-se com isso que não é que tenho a saúde fraca, é que eu a gasto.

tenho percebido que é por aí, na modulação da potência, é que vou aprender a não morrer cedo. mas não sei, não sei se tenho aprendizagem suficiente no meu destino. sou da turma dos que acham que já entenderam, a cada dia me interesso por menos coisas, mas a abrangência de mundos: me interesso sobretudo pelos reinos vegetais e animais faz com que eu me interesse a cada dia por mais coisas. a expansão é uma das minhas regras. a contração é o que tenho que aprender.

até hoje tem sido na marra. ou no transe, no êxtase.

_****

há muitos anos me interesso por oráculos. não há nada que eu procure mais do que o êxtase. estou pra sempre inafiançável na turma dos delirantes, os que têm por sintoma a imaginação. adoro o espetáculo íntimo do transe. nasci entre o vermelho e o alaranjado mas, como sou uma intérprete, tenho vocação para serpente e todas as cores do arco-íris pra consultar na palma da mão, na retina, na atmosfera. estou, sempre, pela transformação.

**

canja de galinha não faz mal a ninguém,

domingo, 27 de dezembro de 2015

É preciso recriar o acontecer.
Dispor de lãs para o inverno
ouvidos para as mensagens
e peles para marcar os sinais
com a ponta do dedo em brasa.
É preciso saber
as regras dos jogos
como extrair os venenos
e que palavras abrem portas
nas orações que ainda não foram compostas.

É preciso retomar a saída da cidade
alimentar os estrangeiros chegados na madrugada
e que depois de terem os pés lavados
acenderam suas fogueiras.
Fornecemos mais do que gravetos e faíscas em gel
mas também papel para que ardessem
ou escrevessem as técnicas de suas civilizações
nas quais o vento tem outros significados
pois as asas de seus deuses batem desde o oeste
e por aqui todos sabem que os deuses vem da América do Sul.

Os estrangeiros às vezes têm ideias estúpidas
mas não vamos protegê-los de si mesmos
preciso é retirá-los de perto da falésia
para que não caiam nem decidam partir.
É preciso dar a eles a agricultura
pois são o ventre deste país
embora não saibam trazer a chuva
pelo menos respeitam as pragas
e evitam as devastações.

É preciso aquecer os músculos e hidratar a garganta
dar escudos duros e afiar as lanças dos que combatem
protegendo as pedras que dão água.
É preciso não salvar os mortos
mas limpar as ruínas de suas guerras
sem arrancar as ervas daninhas.
É preciso fornecer plantas para a sombra
e luzes no lugar dos olhos
daqueles que perderam a cabeça.
É preciso acolher os feridos
e deitar sal e cinzas
nos seus ferimentos.
É preciso acalmá-los.
E acalmá-los é dar guarida ao breu em que estão.

- - -
de "Seiva, veneno ou fruto", a sair nos próximos meses pela Chão da Feira.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

é o maior domingo do mundo
nasceu para ser longínquo
pois tentamos acessar
tudo aquilo que não há mais
os que viraram clarão
o abajur quebrou o porta retrato
os retalhos de fulano que era primo de sicrano
que morreu atravessando a rua
que leva o nome do tio Bébé
o que alforriava na praça Chagas.
o que morreu de overdose foi pela outra parte
do rio.

no maior domingo do mundo abriu-se
um sorriso, na falta de sorveteria
(estavam todas fechadas)
e do sorriso saiu uma língua
encharcou-nos todos de baba

sem esquecimento nesse domingo maior
encharcamos a cara
até sentir os pulmões muito fundos
parafusos de aço prendem
nossos troncos respiram
lá nos fundos dos confins
essas tosses hereditárias
o catarro hereditário
as melhores rabanadas
pernis bacalhaus
singelas violetas num parapeito de janela.
mas ninguém
percebe.

os que chegaram
muito novos ainda
não entendem as noites
embora por ela esperam
os pacotes imensos.
não sabem do remorso
navegam pelo grande intento
e, bem tarde, choram

como nenhuma expectativa se cumpre.
é a lei da vida.
eles também não vão aprender.
entre as coisas que morrem no natal esquecem de contar os trapos os retalhos
sobras das ligações desgastes das precipitações uma urgência 
de dizer aprender a dizer não sim 
onde é que estou
donde vai dar em mim

*

a maior parte das crises de rinite que tenho são em dias de trocas familiares
quando eu era pequena me entupiam de leite
até hoje regurgito as vacas.

flor de sabugueiro, alfazema, capim limão
são hoje só, meus irmãos.


existiu uma bomba antes de mim
não fui eu nem a saída nem estopim 
estive pra ser assim 
uma rima ruim 

a família azuleja os futuros 
me preocupo com o que virá
entre nos ruína 
enquanto sinto saudades da vó.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

entre todas as receitas que tenho para recomendar
além de alecrim dourado e verde nos olhares,
saliva em cima das feridas
sal grosso nas canelas. canela!
& ayahuasca. como tenho sentido falta.
um halo de frio amarrando meus ombros.
a parte de cima do tronco, dois parafusos
de chumbo ligando as travas entre pulmão e costela.
essa tosse de mil anos. ajudei muita gente.
vertigens dias sem descanso.
o corpo é que paga.


domingo, 20 de dezembro de 2015

anos atrás, uma amiga pedagoga de muita experiência me disse algo assim: "com o tempo a gente aprende que a inteligência importa no crescimento do ensino de alguém, mas tão importante quanto é o exercício da sensibilidade. é a sensibilidade que cria as ligações com a vida, a inteligência às vezes entorta, quase sempre quebra. mas também molda a sensibilidade. mas sem sensibilidade a inteligência é só farpas."
do mundo literário, duas coisas que me impressionam existir e eu olho pra elas como uma criança. sempre olhei, primeiro impressionada com o poder esmagador da dança, pensando que, talvez, eu pudesse dançar também. mas acho que não posso. não é nem no meu pé que pisam. é nos meus pulmões. 

discursos críticos, quase sempre legitimados com uma instituição nas costas (jornais, posições sociais, títulos) que avaliam os escritos dos escritores dizendo que eles pensam/fazem de maneira x, textos eles mesmos escritos/pensados num estilo completamente convencional. a outra coisa que me impressiona são os escritores que ligam pra alguém que gostaria de modificar a sua forma de pensar/fazer. não por bem não, quase sempre por falta de atenção, falta de respiração, falta de vida mesmo.

aliás, viver mais, com mais ligação nas coisas, não faria mal pra maior parte dos textos.
a sintonia de dois tons acima, da devolução
a espécie de variação
uma sensação de que esse blogue acabou
de que vou começar outro
que será mais improfissional
que será mais profissional

fazia tempos que não sentia essa fúria da escrita
essa fúria pouco canônica
que não aceita canetas quebradas
essa escrita que procura Valentine
e arrebenta suas teclas como dentes

fazia tempo que eu não sentia essa fúria de escrita
mas antes essa fúria significava raiva, ódio
hoje meu ódio não é mais o melhor em mim

não que ele não esteja aqui
todos os dias
no estômago
nos tímpanos
nas saídas de escapamento

não sei mais no que acreditar
porque minha crença não pesa assim
sobre nada
ela paira, minha crença
me ensina a não desejar crença
nem descrença

entendimento sim.

sábado, 19 de dezembro de 2015





costumo escrever sobre os anos só no último dia deles, como precaução talvez. 2015 passou tão rápido que acelerei também e resolvi escrever já porque não se engane, estarei pra sempre acelerando as eras; quer dizer, as eras aceleram tanto neste pulmão que, não se engane, há coisas que só a literatura pode lidar. e mais uma vez é fim de ano e estou doente, precisando descansar.

foi pensando nisso que fui pra estante pensando em que título de algum livro clássico, um clássico que ainda não li? em que título 2015 se resumiria? tão evidente: "o som e a fúria", achei 2015 na estante. quando encontrei, abri, no fôlego de quem sabe que está entrando num mundo completamente desconhecido, no mundo do mergulho chamado: literatura. logo na primeira página encontrei o recado de mim mesma para mim mesma. e quando essas coisas acontecem são placas tectônicas que deslizam na minha reação de escrever.

o que eu me lembro de 2005? que foi dos anos mais difíceis da minha vida, nunca estive tão apaixonada e fodida com isso. mas 2004 tinha sido um ano tão ruim (o pior, ainda hoje — Saturno em câncer oposto ao meu Sol), mas tão ruim, que 2005 embora eu estivesse lambendo a sarjeta dos destruídos pelo amor, isso ainda era melhor do que ter tido pneumonia e a casa assaltada com uma arma na cabeça de cada um. mas, é evidente, que não tenho a menor ideia do que foi novembro de 2005, muito menos do que estava me acontecendo no momento de escrever na contracapa do livro. e eu já sabia que toda aquela presença seria ausência ao reencontrar "o som e a fúria". todo ano tem muita coisa que parece presente, mas que se a gente apertar os olhos (um pouquinho que seja) desaparece. faz um esforço aí, gente, digere.

2015 foi o ano em que fiz mais coisas em toda a minha vida. nunca trabalhei tanto como em 2015. é até difícil nomear. dei aulas, depois desisti delas, li mapas astrais, primeiro aos poucos, e a coisa reverberou por si própria tanto que eles invadiram o meu cotidiano. publiquei poemas em lugares diversos, terminei meu livro que sai em 2016. "seiva, veneno ou fruto", sai como um cristal. em 2015 entre fevereiro e abril participei do baldio, 1 anti-jornal processo coletivo que ainda está por ser digerido pela galáxia; já pela chão da feira fizemos alguns livros, entre eles o "sibilitz", do único poeta vivo na nossa língua a quem eu chamo de "mestre"; editamos também o volume 2 da revista gratuita, em dois tomos, sólido sobre o qual ouvi comentários diversos, entre eles... taí, em 2005 eu contaria, mas em 2015 me vale mais ter algumas coisas entre os dentes, docinhos.

em 2016 continuarei fazendo digressões mais do que o comum entre tantos pensamentos estáveis dessa geração e agradeço que as rotas diversas não entrem na minha esfera de colisão, porque sei que vou estar fervendo.

em 2005 eu tinha uma espécie de ritual de travessia do ano, que eu escolhia algum livro muito poderoso pra atravessar os anos lendo. li muito beckett nessa altura do ano. a época de natal e ano-novo é sempre tão pesada que até os abstêmios se entopem e os esquecidos da própria sensibilidade choram. vou atravessar o ano lendo "o som e a fúria", 2015 foi um ano que chorei, chorei, chorei. e quando já não era mais possível chorar, chorei mais e chorei também. pela primeira vez na vida tive um motivo absolutamente real pra chorar tanto. foi a morte, o absolutamente real do real, que pela primeira vez eu vi e toquei e soube e conheci o momento exato em que minha avó se foi, num raio, pra dentro da nuvem do desconhecido. saber de mãos e pulmão e olhos. e adeus. foi mesmo uma eletricidade o tornar-se carne e é também por isso que fiquei tão reconhecida quando soube, também em 2015, a evidência de que sou filha de Iansã. e que amo os meus ancestrais.

nisso de limpar os mundos estou por absoluto, poucas palavras são tão difíceis de preencher em 2015 como "medicina", estão tantos furiosos, tantos furiosos. a maior parte dos meus amigos continua se tornando artista ou xamã, escritor ou desenhista, massagista ou terapeuta, yogue ou cantor & eu estou feliz porque também sou da sua companhia. é perceptível que um dia todos vamos concordar com o índio que disse que não tarda nada pra sabermos que não havia mais nada além de medicina. enquanto isso desconfio pacas do uso indiscriminado dessa palavra & de todas as palavras que se usam sem afinco. como poeta, como editora, como a astróloga que 2015 afirmou que sou na centena de leituras de mapas que fiz, procuro mostrar o eixo invisível em que cada um enverga ou se parte. firme. enquanto a morte não nos leva a todos, que tal cuidarmos das coisas? a saúde da carnespírito, essa coisa tão emocional que respira.

em 2015 eu agradeço pela confiança que alguns tiveram no que eu disse.
de 2016 espero voltar a escrever. afinal é o que eu espero de todos os anos.
e sempre com a música, afinal confesso que escrevi esse texto ouvindo "emoções", do roberto carlos, que era das músicas preferidas da minha avó e abre a playlist que montei quando ela se foi & escuto sempre quando a quero lembrar.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

entre as coisas que não percebes está a minha tosse
meu gesto de passar a mão no cabelo significa
que estou com sede e não é de água

meu gesto de ser um cacto
meu sonho desgovernar a órbita
dos teus olhos
com um espeto
remexo entre as coisas que não percebes
está o luto
a viagem que a gente faz de volta pra casa
quando alguém morre

é sempre cedo
pra te deixar
entre as coisas que não percebes.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

sagitário



prometi, umas semanas atrás, que escreveria sobre Sagitário quando o sol estivesse nesse signo, o do entendimento. dia melhor do que o aniversário (hoje) de 70 anos da minha mãe, não há, afinal Sagitário nunca envelhece. ainda não tinha escrito porque passei os últimos dias tão entusiasmada que agora estou no reverso: esgotada pelo excesso de energia vivificada. o que fala, desde já, da natureza desse signo metade humano, metade cavalo. Sagitário atravessa.

o quê? os mundos, os altos & os amplos. na minha nada sutil opinião, Sagitário é o primeiro dos signos a lidar com a ideia de futuro, por isso lança suas flechas sempre no adiante, no porvir. é também aquele que sempre vai dar sua opinião, e as opiniões de Sagitário vem a galope, ou num trator. o que faz dos seus argumentos atraentes é que eles não são exatamente ponderados, são exagerados e embora isso, são completamente pensados de corpo-espírito. digo mais: são verdadeiros.

embora hoje em dia (quase) todo mundo saiba que as verdades são relativas, Sagitário às vezes se esquece, mas quando se lembra: amplifica, dinamiza. questionador: o lado mais aberto da maturidade sagitariana é dizer: se não sei a resposta, é porque ainda não sei qual é a pergunta. e pra saber perguntar é preciso o quê? viver: experimentar. e experimentar é aprender.

é por isso que ama o desconhecido. saber é viver.

entre os signos de fogo Áries é a faísca, Leão é a chama, Sagitário é a brasa. o fogo amansado e constante, firme brasa do conhecimento do fogo, que segue ardendo nas eternidades humanas: Sagitário cuida da filosofia, das religiões, das universidades. é um signo de mestres, de sábios, de juízes, dos implacáveis, de reis que festejam a estranha mania de ter fé na vida. se o Leão é o rei da floresta, Sagitário é o rei que veio do estrangeiro, rei dos guerreiros de espírito e fé. Sagitário, como Xangô, pega a coroa e coloca na própria cabeça. e tem, com isso, todo o mérito de conhecer que tem a dignidade de quem a tem.

se Escorpião mostrou que há algo do lado de lá, Sagitário vem entender o lado de lá de uma maneira menos profunda, menos pesada, mais ampla e entusiasmada. Sagitário também lida com o "outro", não no sentido da alteridade libriana, ou da coletividade aquariana, mas no reconhecimento de que há muitos outros possíveis: outros estrangeiros, religiões, pensamentos filosóficos. mesmo assim Sagitário não escolhe pelo arbitrário, mas pelo que faz seu fogo interior e vibrante, vibrar. provavelmente estou exagerando, mas acho que Sagitário é o signo que lida com as noções de cultura.

Sagitário é o signo que levanta o dedo pra chamar o outro daquilo que ele é: radical, inconformado, intransigente, pouco detalhista. Sagitário amplifica os entendimentos que Gêmeos, com sua curiosidade por tudo e Virgem, com seus critérios minuciosos, não alcançaram. se Sagitário esmaga com seus cascos as pequenas flores do caminho se posicionando com a brutalidade das patas, é pra melhor mirar o alvo das suas flechas bem atiradas pelo refinamento das suas mãos.

é curiosa a quantidade de vezes que as imagens que representam tal centauro mostram sua parte humana atirando uma flecha no sentido oposto ao que seu corpo de cavalo se direciona. penso que isto fala do aprendizado constante que a pessoa com ênfase em Sagitário tem de lidar: dar mútua alimentação ao seu instinto e ao intelecto. quanto mais alimenta seu instinto, mais Sagitário reconhece que a aprendizagem se dá pelo corpo; quanto mais entende filosoficamente a vida, mais animal a pessoa de Sagitário se torna. animal-humano, Sagitário alimenta-se de conhecimento e galope.

corpo & espírito são uma mesma coisa e a verdade é que Sagitário atira muitas flechas sem se preocupar se alcançou ou não o alvo. o alvo? é só um vulto que Sagitário deixa pra Capricórnio verificar. pra Sagitário é mais importante o caminho que a flecha faz até o alvo, o caminho de si mesmo a viajar pelas densidades da experiência, do que os objetivos fechados, o alvo rígido não interessa tanto como o que se aprende na sua conquista.

se Sagitário é signo do entusiasmo, lembre-se do velho sentido da palavra: estar entusiasmado é ter um deus em si.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

minha vida a décima maratona de bom Jesus do auxílio nosso 
e depois de corrida a décima logo a vigésima também 
e mais tarde todas as que convém 
vida.
entre uma maratona e outra dormir dormir dormir e quando tiver dormido o suficiente dormir mais e passado o horário dormir mais e de novo também again. é esta a técnica.

domingo, 15 de novembro de 2015

como se escreve amor, como se escreve rigor? alguém sussurrava enquanto eu tentava entender o modo como a alga dentro do aquário gigante tinha sido plantada? era do mesmo modo, seria assim pelo gesto tão arbitrário quanto incisivo: eu voltaria: a escrever. toda superfície será colonizada pela respiração da minha pele, eu incendiarei os calendários pois não deverei nada ao esquecimento,

quando não souber mais o que perguntar dobrarei duas vezes uma mesma esquina, subirei os montes dos montes pelos montes e através dos montes com você do meu lado, me mostrando como se escreve a mesma palavra que me perguntaram os ouvidos sensíveis: como se escreve amor?

— sentindo, eu respondi.

porém alguém em mim entendeu: "sentido" e se sentou na necessidade de ter razão. sentia-me puro fragmento, mas não estava perdida, estava em frangalhos com os pés longe do chão, com os pés muito fora do suficiente. como se fugisse. e nesse fugir, se desgastasse.

pois havia uma órbita, havia um eixo: tantas vezes o mostrava com as palavras que havia voltado atrás pra ver o outro lado, atravessei a fronteira pra ver se de fora do eixo as coisas continuavam confusas. e continuavam! mas como era necessário agraciar o caos, nem que fosse para, depois, recuá-lo — sem nunca o recusar.

de tão aceso o turbilhão se desmontou e fez rigor.
foi assim que nasceu a minha voz.
dizem que uma pessoa, um escritor, quando está em seu caminho, tem uma experiência ritual da coisa toda. uns precisam chutar uma pedra pra terem aquilo a que outros vão chamar de "insight", a caneta exata, o papel de um guardanapo, dias mais dias viajando, chás, cocaína, béques, música, silêncio, máquina de lavar funcionando, dieta de carboidratos, lerem textos acadêmicos, lerem os jornais, uma casa no campo, a brisa do vento, etc. antes de escrever eu? passo perfume.
como é bom não ter o rabo preso com ninguém.
quando eu era criança e meu pai me ajudava a estudar, sempre que n'algum texto aparecia qualquer coisa que se dizia "nossa" como "nossa história", "nossa literatura", meu pai exclamava em voz alta, muito bravo, "ora essa, nós quem, cara pálida?".

eu perguntava o que ele queria dizer com isso e ele me explicava só que eram os índios em filmes de western que falam assim e que os índios terminam todos assassinados, que não sobra nenhum índio pra contar a história.

demorei uns anos pra entender que qualquer pessoa que fala por "nós", no limite, é capaz de nos assassinar no primeiro momento em que o "nós" não for como o dela.
 
bom, mas eu mesma também sou assassina. está na interpretação do meu mapa astral, posso até escanear documentos, manuais que comprovam isso. não sou eu que estou dizendo, também nasci pra renascer índia, foi o que me disseram tantos desde que aqui cheguei.

às vezes eu acho o mundo um grande cara pálida.
deixar-se lamber pelo ouro da espécie, é uma virtude difícil nesses dias baços. entrei na nuvem do meu baço. ontem tive certeza de que minha avó estava do meu lado. tenho, faz anos, observado os velhos na rua. são presenças tão vincadas, sempre. a idade, em si, é como a infância, uma entidade.

e hoje no que eu pensei? que está na hora de começar a escrever ficção. mas estou nos gêneros da biosofia, sonhoplastias, paracurandeirices, parametafísicas, paratodos. haverá ainda algum ritmo nessa escavação, quer dizer: há. de tanto bater martelo, ou entrar num fundo de lago e ficar lá dentro, como quem se entristeceu demais.

há um mergulho no tão-lá, o escuro, que me ensina demais. vou cada vez menos vezes até este lugar-de-mim, mas é preciso conhecer o próprio abismo e polir sempre o candelabro que o esclarece.

*

ontem folheando livros numa livraria, notei que não exagero ao considerar que uma desatenção é uma prática editorial de poesia tão recorrente nesse país.
a corrente existência de edições de poesia que não contemplam nos seus desenhos gráficos as quebras de verso & inserem assim aqueles colchetes, chaves, ou só uma quebra que-aparece-sem-querer me dá vontade de fazer versos tão extensos que eles não caibam nem em um colchão deitado.
não sei se é só desatenção ou é falta de consideração

parece que x poeta estava engasgadx
quando aquela palavra vai parar lá embaixo
fica parecendo que estava com soluço o verso
(alguns têm mesmo, soluços, engasgos
raros fazem disso um estilo,
de fato)
a palavra que era de cima, lá embaixo
intrincada no meio, perdidona na parada
desintencional.

pra mim, quando abro um livro
e os versos foram partidos assim
sinto que aquela editora me engana
como se me vendessem um disco riscado.
dinheiro? bem, estamos falando de poesia.

que isso fosse feito quando os recursos de formatos editorias eram escassos, difíceis, eu compreendo e acho até bonito folhear uma obra completa de, sei lá, drummond pela josé olympio e a quebra aparecer lá, por necessidade mas, hoje em dia...

ou é método de facilitar o correr os livros pras máquinas de imprimir (não será esta uma das questões fundamentais da literatura contemporânea?), ou é preguiça editorial, ou é desrespeito com o texto, ou é falta de escrúpulos estéticos. ou é só falta de ouvido no olhar, mesmo.

*

6
vou escrever o número seis para que renasça em ano que vem,
 

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